Segunda-feira, 4 de Abril de 2016

AO/90 OU A SUBVERSÃO DO CONCEITO DE ORTOGRAFIA

 

Excelente comentário de Sérgio Marques à publicação do deputado Pedro Delgado Alves, acerca da intervenção deste, na Assembleia da República, apresentando o projecto de lei que integra a Ordem de Camões nas ordens honoríficas nacionais, de forma a assegurar o reconhecimento de serviços prestados à Língua Portuguesa e às Comunidades Portuguesas.

 

Gerou-se uma discussão. E o comentário de Sérgio Marques destacou-se pela lucidez da análise.

 

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Fonte da imagem:

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10204899228594693&set=p.10204899228594693&type=3&theater

 

Texto de Sérgio Marques

 

«Caro Senhor Deputado da Assembleia da República Portuguesa,

 

 

1) O que é incompreensível é que nós, cidadãos deste país (e contra mim falo), tenhamos deixado que a democracia se tenha degradado ao ponto de o nosso Parlamento contar no seu seio com figuras bidimensionais como V. Exa, personagens estereotipadas que povoam o Anedotário Nacional sobre política, que debitam frases feitas e considerações filosóficas germinadas em longas e profícuas carreiras nas 'Jotas' dos partidos do 'arco-da-governação';

 

2) O que é incompreensível, caro Deputado da Nação, é que nós, cidadãos deste país de faz de conta (e, novamente, contra mim falo), a bem do exponencial enriquecimento do referido Anedotário da Política Nacional - que se intensificou nos últimos trinta anos com a ascensão ao poder dos primeiros economistas (profissão que, desgraçadamente, abracei - economista, não político), seguidos, inevitavelmente, pelos inefáveis “Jotinhas” licenciados em cursos comercializados a preço de saldo nas universidades privadas, entretanto criadas em quantidades industriais para satisfazer a notável visão de negócio revelada por alguns dos seus anteriores e actuais companheiros no hemiciclo - tenhamos pactuado com a imposição da mediocridade intelectual e da excisão da coluna vertebral como critérios incontornáveis para o exercício da actividade política e Portugal;

 

3) O que é incompreensível, Senhor Deputado, é que nós, cidadãos portugueses, acalentemos, ainda, a secreta e utópica esperança de encontrar nessa casa mais que meia dúzia de homens e mulheres capazes de entender que o diálogo com esses cidadãos e tão válido e relevante como o estabelecido entre os seus pares. Permita-me, como tal, que lhe procure, com toda a humildade, explicar que no combate político, quando assumido, dentro da velha tradição parlamentar britânica, com o mais nobre sentido de serviço à causa pública, não há lugar para virgenzinhas ofendidas nem para prima-donas. Neste caso concreto, a frontalidade (supremo pecado, certamente, no meio em que V. Exa. se movimenta diariamente), intensidade e crueza das minhas palavras é directamente proporcional à indigência dos pueris argumentos com que o Senhor Deputado da Nação defendeu na Assembleia da República o crime de lesa-pátria que dá pelo nome de 'Acordo Ortográfico'.

 

Aquilo a que V. Exa chama de insulto, mais não é que uma forma dura de o convocar para um combate leal sobre ideias e problemas concretos, desviando-o das habituais discussões acerca do sexo dos anjos a que frequentemente os membros dessa casa se dedicam. Pretendia, honestamente, no quadro de um debate surreal sobre Ordens Honoríficas, assunto estéril e ofensivo para os portugueses e portuguesas que enfrentam diariamente problemas dramáticos de sobrevivência material e moral, deslocá-lo para um debate sério sobre algo superior a todos nós, a Língua Portuguesa, e sobre as inomináveis malfeitorias que, por decreto e em nome de sectários e inaceitáveis interesses, boa parte da nossa medíocre classe política lhe tenta, autocrática e arrogantemente, infligir.

 

Obviamente, sem sucesso, como era expectável de alguém que não consegue prescindir dos jogos de palavras com que - diga-se, sem subtileza - manipula a verdade e, aí sim, insulta a inteligência dos seus pares e dos cidadãos que indignamente representa, com absurdas e inacreditáveis referências a uma suposta liberdade de escolha na ortografia utilizada por cada português! Viveríamos, portanto, num regime libertário de anarquia ortográfica!!! Como pode alguém intelectualmente honesto defender simultaneamente uma concepção de homogeneização fascizante da Língua escrita nos diversos países lusófonos e outra concepção nas antípodas da primeira, de anarquia total dentro de portas, decorrente do livre arbítrio individual na escolha da ortografia da sua preferência !!!

 

Não entende V. Exa. que essas contorcionistas posições subvertem o conceito de Ortografia, pura e simplesmente? Se necessário fosse um suplementar atestado de ausência de inteligência no debate parlamentar por si protagonizado, ei-lo em todo o seu esplendor.

 

NOTA: Ao menos coerência num dos traços da sua personalidade: a aversão ao Humor, que V. Exa. considera uma forma "intelectualmente desonesta" de abordar a realidade. Estamos conversados...

 

Faça um favor à Nação: Demita-se e faça-se substituir na AR pelo belíssimo cão da fotografia (na altura a fotografia de perfil do deputado era um cão). Representará, seguramente, melhor os cidadãos deste país!»

 

Fonte do texto:

https://www.facebook.com/pedrodelgadoalves/posts/10153273951491906

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 14:44

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EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA, A AUTORA DESTE BLOGUE NÃO ADOPTA O “ACORDO ORTOGRÁFICO” DE 1990, DEVIDO A ESTE SER INCONSTITUCIONAL, LINGUISTICAMENTE INCONSISTENTE, ESTRUTURALMENTE INCONGRUENTE, PARA ALÉM DE, COMPROVADAMENTE, SER CAUSA DE UMA CRESCENTE E PERNICIOSA ILITERACIA EM PUBLICAÇÕES OFICIAIS E PRIVADAS, NAS ESCOLAS, NOS ÓRGÃOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL, NA POPULAÇÃO EM GERAL E ESTAR A CRIAR UMA GERAÇÃO DE ANALFABETOS.

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O Acordo Ortográfico 1990 não tem validade internacional. A assinatura (em 1990) do texto original tem repercussões jurídicas: fixa o texto (e os modos como os signatários se vinculam), isto segundo o artº 10º da Convenção de Viena do Direito dos Tratados. Por isso, não podia ser modificado de modo a entrar em vigor com a ratificação de apenas 3... sem que essa alteração não fosse ratificada por unanimidade! Ainda há meses Angola e Moçambique invocaram OFICIALMENTE a não vigência do acordo numa reunião OFICIAL e os representantes OFICIAIS do Brasil e do capataz dos brasileiros, Portugal, meteram a viola no saco. Ora, para um acordo internacional entrar em vigor em Portugal, à luz do artº 8º da Constituição Portuguesa, é preciso que esteja em vigor na ordem jurídica internacional. E este não está!
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