Segunda-feira, 9 de Novembro de 2015

COISAS DA LÍNGUA

 

PARA REFLECTIREM…

 

Coisas....jpg

(Origem da imagem: Internet) 

 

Oficialmente ninguém pode obrigar alguém a escrever MAL ao abrigo do acordo ortográfico de 1990.

 

Têm de protestar. Têm de bater o pé. Têm de dar murros na mesa. Mas não há "oficialidade" nenhuma que nos obrigue a escrever MAL, até porque o AO/1990 não é válido, pois nenhum país a não ser Portugal o aplica. É um acordo sem acordo.

 

Se todos os que se opõem a este aborto ortográfico se recusarem a utilizá-lo, incluindo nas ESCOLAS, o AO/1990 acaba em dois tempos.

 

Pensem nisto.

 

***

Comentários a propósito de textos a “malhar” no AO/1990:

 

O Joaquim enviou-me este comentário:

 

«Só tenho uma coisa a dizer. Pela sua lógica, ainda estaríamos a escrever como no início do século XX, com pharmácia, etc. A escrita não tem de ter as marcas de etimologias passadas e que só aos linguistas interessam. Não faz sentido. Para isso há manuais da História da língua. A escrita deve ser fonética, isso sim. O mais simples possível. Já agora, não digo que concordo com tudo o que o acordo estabelece, mas, seguindo a lógica de fora (verbo) e fora (exterior), então porque não para (verbo) e para (preposição)?!»

 

Respondi deste modo, ao Joaquim:

 

Joaquim, e eu só tenho uma coisa a dizer também:

 

Uma coisa é a EVOLUÇÃO NATURAL de uma Língua, da qual deu pHarmácia/farmácia como exemplo.

 

Outra coisa é a MUTILAÇÃO IRRACIONAL de uma Língua, decretada por INTERESSES ECONÓMICOS, só porque uns editores quiseram encher os bolsos, à culta da ignorância.

 

Evolução, sim. Mutilação, não.

 

E já agora, pelo que disse, depreendo que o Francisco é unilingue: só conhece a língua estropiada que lhe impingiram.

 

Se conhecesse a Língua Inglesa, a Língua Francesa, a Língua Alemã, a Língua Italiana ou a Língua Castelhana, saberia que a Língua Portuguesa faz parte desse rol de línguas cultas e europeias, que têm uma história.

 

A escrita debe ser funética? Atão bamos lá escrebê-la comu se fála. Qer à móda do Puârto ou à alentejana, cumpadri?

 

***

O brasileiro Paulo disse:

 

«Este aborto ortográfico DESTRUIU um Património Português sem nada acrescentar aos lusófonos de outras nacionalidades

 

Correctíssimo.

 

***

Paulo Simões partilhou uma legenda da TVi onde podia ler-se esta calinada: “espétaculos” e um amigo brasileiro comentou isto: "Rapaz, que baderna terrível fizeram com a língua portuguesa por aí...Se fosse uma ex-colônia a fazer isto, mas trata-se da "dona" do vernáculo..."

 

Este comentário vale ouro. Diz tudo o que há a dizer sobre este acordo do desacordo.

 

Ainda haverá alguém que tenha dúvidas?

 

***

Um “linguista” desconhecido, sem nome, nem cara, atirou-me esta:

 

«Peço desculpa, mas o que escreve não faz sentido. Qual é a sua formação? Está ligada à área das letras? Se está não parece.»

 

Respondi-lhe deste modo:

 

Pois seja quem for, senhor linguista, e sem lhe pedir desculpa (por que deveria?) a minha formação não lhe interessa, mas é pública (se quiser saber é só procurar).

 

E sabe por que não interessa, senhor linguista? Porque qualquer pessoa, neste nosso País, que tenha a quarta-classe concluída em 1977 ou antes desta data, entende perfeitamente o sentido daquilo que escrevo contra o acordo ortográfico de 1990.

 

O aborto ortográfico de 1990 vem tão-só na sequência da mutilação irracional de uma Língua, decretada por interesses meramente económicos.

 

As Línguas evoluem. Não se mutilam.

 

Na linguagem nova, que por aí desponta, já não se escreve “que”, mas Q ou K. Não é mais fácil? Poupa-se tempo e letras.

 

Dizer: “tou indo”…é mais a direito do que dizer “estou indo”… e infelizmente caminhamos para esta simplificação analfabética

 

Senhor linguista, vê-se logo que não tem qualquer conhecimento da Língua Portuguesa, se tivesse, saberia por que a palavra ARQUITETO, escrita desta maneira estropiada, se lê arquitÊto.

 

E arquiteCto, que é como se deve escrever este vocábulo, em boa Língua Portuguesa, se lê arquitÉTo.

 

É por estas e por outras que este aborto ortográfico tem de ser atirado ao caixote do lixo, que é o lugar onde deve estar. No caixote do lixo.

 

E os que o defendem devem aprender a Língua, começando pelo alfabeto, e pela origem da palavra ALFABETO.

 

***

E o Manuel disse:

 

«A reforma ortográfica de 1911, ao substituir o "ph" pelo "f", o "th" pelo "t" e o "ch" (com valor de "k") por "c" ou "q", também descaracterizou a língua e afastou-a, neste caso, da sua herança grega. Passar a escrever "assinatura" em vez de "assignatura", "erva" em vez de "herva" ou "prática" em vez de "practica" também afastou a nossa grafia da sua herança latina. Acha "natural" escrever "filosofia", "prática" ou "caos" apenas porque já aprendeu a escrever assim. Nada mais. Precisamente da mesma que as crianças de hoje, quando crescerem, vão encarar "atual", "diretor" ou "ótimo". A ortografia é apenas uma convenção. Como dizia Fernando Pessoa, "primeiro estranha-se, depois entranha-se"

 

E eu respondi:

Manuel, o que aqui está em causa é a IMPOSIÇÃO de uma linguagem mutilada que não partiu da EVOLUÇÃO NATURAL DA LÍNGUA, como aconteceu nas reformas ortográficas anteriores a 1990. E se passámos de “practica” para “prática”, deveríamos passar de “director” para “dirétor”, e não passámos.

 

Desta linguagem, do tempo de D. Diniz:

 

«Vós me preguntades polo vosso amigo? E eu ben vos digo que é sano e vivo. Ai, Deus, e u é?» passou-se NATURALMENTE, para a que hoje utilizamos, com o aval de quem sabe das coisas da Língua, e não por decreto secreto, votado por gente vergada ao lobby dos editores.

 

***

E o Manuel voltou a encostar-me à parede:

 

«Cara Isabel, acho que confunde as coisas. Confunde a evolução da fonética, da sintaxe e da gramática da língua com a ortografia. A ortografia é o conjunto das regras que definem a escrita das palavras de uma dada língua. Estas regras são estáticas. Não evoluem "naturalmente"... São convenções, tal como o código da estrada. O vermelho é para parar e o verde para avançar apenas porque se convencionou que assim seria. Indo buscar o exemplo de D. Dinis: seria perfeitamente aceitável que escrevêssemos "ben" em vez de "bem". Mas, na ortografia portuguesa, convencionou-se que as palavras nunca deveriam terminar em "n" mas sim em "m". É uma característica tipicamente portuguesa que, nesse pormenor, nos afasta das ortografias espanhola, francesa, inglesa, etc. O que a leva a concluir que não foi mutilação o que se fez em 1911? Substituir o "ph" pelo "f" ou acabar com o "y"? Na época, a oposição também foi enorme. Teixeira de Pascoaes escreveu: «Na palavra lagryma, a forma da y é lacrymal; estabelece a harmonia entre a sua expressão graphica ou plastica e a sua expressão psychologica; substituindo-lhe o y pelo i é offender as regras da Esthetica. Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mysterio... Escrevel-a com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformal-o numa superficie banal». Fernando Pessoa dizia que a ortografia sem y era um escarro que o enojava, etc. etc. Como disse, a Isabel vê as alterações anteriores como evoluções perfeitamente naturais e aceitáveis e as novas como mutilações irracionais, abortos, etc. porque contraíam o que se habituou a ter como certo. Mas, muitas das pessoas que passaram por alterações anteriores também as acharam igualmente irracionais, aberrantes, etc. Ou seja, é tudo uma questão de hábito

 

E eu respondi:

 

Manuel não, não é uma questão de confundir as coisas, até porque cada coisa é uma coisa, em qualquer Língua: fonética, fonologia, sintaxe, gramática, ortografia, etimologia, léxico, morfologia, semântica, enfim… a Língua é algo complexo, que nós, os menos novos, aprendíamos em profundidade, com a “ajuda” do Latim e do Grego.

 

Eu pessoalmente, apesar de ser portuguesa, aprendi a ler e a escrever no Brasil, porque fui para lá com dois anos. E tinha as “coisas” da Língua como definitivas.

 

Enganei-me.

 

Aos oito anos, de regresso a Portugal tive de reaprender aquela Língua que ouvia de um modo em casa, e aprendia de outro modo, na escola, e foi então que me apercebi de que havia duas línguas faladas e escritas de modo diferente.

 

Aos quinze anos, fui novamente para o Brasil, com uma bagagem da Língua onde já havia a aprendizagem do Latim e do Grego, o que me deu uma outra perspectiva da “minha” Língua.

 

E nada mais foi igual.

 

Mas no Brasil, novamente, se quis continuar os estudos, tive de desaprender o que havia aprendido em Portugal e regressar àquela outra língua que, para mim, já era desconhecida e mutilada.

 

Aos vinte anos, depois de já ter frequentado o primeiro ano da Universidade, regressei a Portugal definitivamente, e deparei-me outra vez com a “minha” Língua materna. E voltei ao Latim e ao Grego, por necessidade imperiosa do estudo da Epigrafia, Paleografia e Civilização Grega.

 

O que aprendi e desaprendi, nestes entretantos, foi que a Língua Portuguesa tinha uma origem, que foi perdida no Brasil, por diversos motivos, e lá, o Latim era “língua” de missa. E o Grego era a Língua dos emigrantes que vieram da Grécia.

 

Não se ia à origem das palavras.

 

Em 1911 não houve mutilação.

 

Quando iniciei a minha carreira jornalística (quem diria?) escrevia-se “òbviamente”, “ràpidamente”, etc., e tive de aprender a reescrever aquilo que já tinha aprendido e desaprendido várias vezes.

 

Como vê, em mim, isto não é uma questão de não estar habituada a escrever “assim ou assado”.

 

Os que trabalharam no acordo ortográfico de 1911, eram estudiosos da Língua Portuguesa, e não estavam PRESSIONADOS por editores que querem, porque querem ganhar dinheiro, e há que colocar a Língua Portuguesa à venda, sem mais, nem porquê, e a transformá-la no “simplex” tão socrático que deu cabo disto tudo.

 

Teixeira de Pacoaes (que muita gente escreve Pascoais erradamente) e Fernando Pessoa, grandes estilistas da nossa Língua, foram críticos das mudanças da época deles, sim, porque estavam “habituados” àquele tipo de escrita que aprenderam na escola. E as mudanças nem sempre são fáceis de aceitar.

 

Eu não. O meu motivo não é esse, porque aprendi a escrever ATO em vez de ACTO, e depois tive de aprender a escrever ACTO, e quis saber PORQUÊ.

 

E nesse PORQUÊ é que está o âmago da minha CRÍTICA ao AO/90.

 

Aceitei sem qualquer peleja a escrever “obviamente” em vez de “òbviamente”.

 

Mas não aceito escrever ATO (novamente), em vez de ACTO apenas porque uns tantos senhores que não sabem o que fazem, querem, porque querem a unificação de uma Língua, que já não é a Língua Portuguesa.

 

Apenas isto, caro Manuel…

 

***

E ao João Pedro que me interpelou sobre a palavra arquitecto, respondi-lhe deste modo:

 

João Pedro, "arquiteto" e arquiteCto não se lêem da mesma forma. Aliás o que será um "arquitÊto"????

 

Quanto ao Português ser uma das línguas mais faladas no mundo… até pode ser...

 

Mas não reconheço que a Língua Portuguesa, a Língua de Camões, seja falada ou escrita no Brasil. Porque não é.

 

Eu conheço as duas versões e garanto-lhe que não é a mesma coisa... Se fosse, eu não teria de REAPRENDER a Língua de todas as vezes que ia de cá para lá, ou vinha de lá para cá...

 

E também lhe garanto que nunca mais na minha vida hei-de escrever ATO em vez de ACTO, ou FATO em vez de FACTO.

 

João Pedro, por favor, vá à etimologia da palavra HOMEM.

 

É provável que na época de Camões, os menos esclarecidos escrevessem "omem" em vez de homem..., bem como os menos esclarecidos, nossos contemporâneos, escrevem “helicótero”, em vez de helicóptero.

 

No Brasil escreve-se UMIDADE, em vez de HUMIDADE.

 

Mas esteja atento a quem escreve o quê...

 

Agora vá á etimologia da palavra HUMIDADE...

 

Que importância terá isto?

 

Tem TODA a importância.

 

Por algum motivo as palavras têm uma HISTÓRIA.

 

A Língua Brasileira desviou-se da Língua Portuguesa. Enriqueceu-se com um vocabulário oriundo dos Indígenas e Africanos, e maneiras de dizer muito próprias, que dão um certo encanto àquele falar.

 

Mas não lhe chamem Língua Portuguesa, por favor.

 

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Origem da foto:

https://www.facebook.com/TradutoresContraAO90?fref=ts

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 19:02

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.ACORDO ORTOGRÁFICO

EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA, A AUTORA DESTE BLOGUE NÃO ADOPTA O “ACORDO ORTOGRÁFICO” DE 1990, DEVIDO A ESTE SER INCONSTITUCIONAL, LINGUISTICAMENTE INCONSISTENTE, ESTRUTURALMENTE INCONGRUENTE, PARA ALÉM DE, COMPROVADAMENTE, SER CAUSA DE UMA CRESCENTE E PERNICIOSA ILITERACIA EM PUBLICAÇÕES OFICIAIS E PRIVADAS, NAS ESCOLAS, NOS ÓRGÃOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL, NA POPULAÇÃO EM GERAL E ESTAR A CRIAR UMA GERAÇÃO DE ANALFABETOS.

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. AO/90 É INCONSTITUCIONAL

O Acordo Ortográfico 1990 não tem validade internacional. A assinatura (em 1990) do texto original tem repercussões jurídicas: fixa o texto (e os modos como os signatários se vinculam), isto segundo o artº 10º da Convenção de Viena do Direito dos Tratados. Por isso, não podia ser modificado de modo a entrar em vigor com a ratificação de apenas 3... sem que essa alteração não fosse ratificada por unanimidade! Ainda há meses Angola e Moçambique invocaram OFICIALMENTE a não vigência do acordo numa reunião OFICIAL e os representantes OFICIAIS do Brasil e do capataz dos brasileiros, Portugal, meteram a viola no saco. Ora, para um acordo internacional entrar em vigor em Portugal, à luz do artº 8º da Constituição Portuguesa, é preciso que esteja em vigor na ordem jurídica internacional. E este não está!
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