Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2017

A PROPÓSITO DO AO90: MARIA SARAIVA DE MENEZES METE O “ARQUITÊTO” JOSÉ SARAIVA (DO JORNAL SOL) NUM CHINELO

 

Excelente argumentação que derruba os que se vergaram subservientemente aos obscuros interesses dos políticos e dos seus lacaios no que respeita à venda da Língua Portuguesa

 

LÍNGUA.jpg

 Fotografia de uma das manifestações contra o AO90, 10 Junho 2015, em Lisboa.

 

Texto de Maria Saraiva de Menezes

 

Ex.mo Sr. Arquitecto José Saraiva,

(Enviado hoje ao Sol)

 

Como utilizadora da Língua Portuguesa, vejo-me na necessidade de esclarecer alguns aspectos enunciados pelo Arquitecto José Saraiva no editorial da revista BI, Sol, de 1 Fevereiro 2017, intitulado 'A favor do Acordo', sob pena de caírem nas bocas do mundo como 'argumentos fast-food' para a defesa do AO90, isto é, argumentos sem cabimento e provindos de pouca reflexão científica sobre o assunto. Como o 'arquiteto' afirma: 'Francamente, não percebo tanta resistência' ao acordo', num Manifesto assinado por 100 intelectuais que pede a sua revogação, sinto o dever moral de salvar a honra destes intelectuais que, claramente, 'não sabem o que dizem', e esclarecer este equívoco encapotado por uma palavra magnífica chamada 'Lusofonia' e pelo nosso amor inquestionável aos irmãos brasileiros.

 

Parece-me superficial e tendencioso afirmar que "muitos intelectuais portugueses, em vez de ficarem satisfeitos pela obtenção de um acordo - que facilita obviamente a edição de livros portugueses no Brasil,e, sobretudo, salva o 'português de Portugal' de ser secularizado. (...) E porquê? Por uma atitude puramente reaccionária. Repito: a escrita é uma convenção. As pessoas que criticam o Acordo não o fazem por razões científicas - fazem-no porque estão habituadas a escrever de certa maneira e não querem mudar." ('arquiteto' dixit)

 

Permita-me dizer que este é um argumento de telenovela ou revista cor-de-rosa. Parece insinuar que os intelectuais portugueses, especialistas da Língua, estejam a 'fazer birra' e a dizer que 'não brincam mais a esse jogo porque os outros meninos são maus'. Remete para o argumento espirituoso de que quem rejeita esta simplificação da Língua é um 'velho do Restelo'. Mas o que é facto é que os linguistas falam com conhecimento de causa, fruto do estudo profundo da Língua, pretendendo preservá-la enquanto SISTEMA NORMATIVO (com regras não-arbitrárias), qual matriz de todas as variantes, mas naturalmente, respeitando-a como um SISTEMA ABERTO, EM EVOLUÇÃO, porquanto a Língua é um ORGANISMO VIVO, sujeito a evolução constante, quer por VIA ERUDITA, quer POPULAR. Todos os dias nascem neologismos, em Portugal e no Brasil, em Angola e em Cabo Verde, e por aí fora; expressões, fusões provindas de galicismos ou anglicismos, do crioulo ou fruto da globalização. Estes intelectuais têm a perfeita noção destes aspectos intrínsecos a qualquer sistema linguístico. Mas forçar uma Língua à EVOLUÇÃO POR DECRETO, parece-nos estultícia. Introduzir uma reforma linguística, como este AO90, por 'Resolução de Conselho de Ministros, não só me parece autoritário e néscio (e esqueçamos aqui a esquerda e a direita que o Arquitecto contempla com altivez), mas ainda, pelo que se prova, inconstitucional. Mais ainda, ouvindo do Professor Doutor Artur Anselmo, Presidente da Academia das Ciência, que o AO90 foi imposto de surpresa, sem se consultar ou ouvir os pareceres de linguistas reputados e da própria Academia. Necessita, no mínimo, de uma revisão. Com isto se prova não se tratar de simples teimosia. É conhecimento.

 

Com efeito, as coisas feitas à pressa nascem cabras sem olhos, e este acordo é bem a prova disso. Foi imposto às escolas, aos professores e aos funcionários públicos, numa urgência de negócio para um mercado brasileiro de 200 milhões de 'leitores' onde os livros portugueses não passaram a vender-se mais só porque não têm consoantes mudas. Já agora, por que razão os brasileiros puderam manter o 'p' de 'recepção' (entre outras palavras) e nós não? Não era para uniformizar? Então e a Lusofonia? Não lhes poderemos, por isso, chamar também 'reaccionários' ou 'velhos do... Corcovado'?

 

No seu editorial, o 'arquiteto' diz, e muito bem, que a Língua é uma convenção e que se convenciona escrever assim ou de outra maneira. Da mesma forma se convencionou escrever 'pharmacia' e mais tarde, na reforma de 1911 se convencionou o grafema 'farmácia'. Apesar de Fernando Pessoa ter feito birra nessa altura e ter-se recusado a acatar as novidades linguísticas, penso que actualmente os grupos de cidadãos no facebook 'Em Acção contra o acordo ortográfico (cerca de 75 mil membros) e 'Cidadãos contra o AO90 (cerca de 33 mil membros) não fazem uma birra pelas mesmas razões. Quando o 'arquiteto' afirma não compreender por que razão a supressão das consoantes mudas é tão problemática para o Portugal pequenino, está a escamotear uma questão de enorme importância na fonética e na linguística. Essa questão é a da FUNÇÃO DIACRÍTICA DAS CONSOANTES. Esta função de uma consoante que não se lê é fundamental, pois a sua presença ensina a abrir a vogal anterior. É algo que os brasileiros naturalmente não precisam pois abrem todas as vogais. Coisas de países quentes. Quanto a nós, tal como os ingleses que não uniformizaram as suas 18 variantes, fechamos as vogais a menos que lá esteja lá uma consoante muda a dizer para não o fazer. Por essa razão, 'espetador', 'diretor', 'fatura', 'letivo' e 'receção' são coisas totalmente diferentes de 'espectador', 'director', 'factura', 'lectivo' e 'recepção'.

 

Esta é a prova de que a GRAFIA DETERMINA A FONÉTICA e não o contrário, como este acordo quer fazer vender. Mas o grave é que este corte a eito DIVORCIA O PORTUGUÊS DAS GRANDES LÍNGUAS EUROPEIAS e consequentemente, afasta-o das RAÍZES ETIMOLÓGICAS latinas e gregas. E isso é caótico para a compreensão e explicação da família das palavras e do seu significado. Se em Inglês temos 'actor' e em Francês 'acteur', que diabo quer dizer 'ator'? Este acordo proclama um facilitismo pueril e uma simplificação traiçoeira de alguém que prefere cortar as pernas para andar mais rápido numa cadeira de rodas.

 

O 'arquiteto' também se questiona se "os adversários do acordo rejeitam apenas a actualização de 1990 ou todas as actualizações da Língua que foram feitas ao longo dos séculos? E, no caso de aceitarem as outras, por que rejeitam esta? Por ser pior do que as outras? Por embirração?" Ora, lá está novamente o 'arquiteto' a passar a imagem de que aqueles que verdadeiramente percebem da Língua são uns birrentos, teimosos e 'chatos como a potassa'. Repare que houve várias reformas que não causaram tanta celeuma na sociedade, embora antigamente houvesse um número esmagador de analfabetos e actualmente os Media (ou terei de escrever 'a mídia'?) se dediquem a silenciar as vozes de protesto dos especialistas, vendendo apenas o programa de governo. Em termos de ranking das reformas ortográficas, os 'birrentos' detestam mais esta e consideram-na inútil e nefasta pelas razões já longamente expostas atrás. Quanto à reforma de 1911, mudar o 'ph' para 'f' não mata nenhuma função diacrítica nem lança tamanha confusão quanto à fonética, apesar de se afastar do étimo. A reforma de 1971 de que nos lembramos por retirar a acentuação gráfica dos advérbios de modo (pràticamente) e de 'sózinho', também não demole nenhum monumento de sapiência linguística, embora haja sempre uns birrentos por aí. Mas o AO90 é um monumento do disparate, quer no desastre das consoantes mudas roubadas, quer no assalto ao acento de 'pára' para 'para', e tornando homófonas palavras como 'receção' e 'recessão', lançando a Língua num exercício de mutilação gratuita que gera aberrações.

 

Este acordo assume proporções de negociata, arrumando com os argumentos dos intelectuais e colando-lhes o epíteto de 'teimosos', 'reaccionários' e 'conservadores', que não querem mudar a forma como sempre escreveram, como afirma o 'arquiteto' neste editorial. Parece-me ligeiro e de ma-fé, dizê-lo, porque não é o cidadão comum que tem conhecimentos de Grego clássico e de Latim para poder compreender os argumentos científicos. Naturalmente que até simpatizará com os ventos de mudança que parecem soprar na direcção da evolução e de um promissor modernismo linguístico, embora seja uma falácia.

 

Por isso, a Lusofonia incorreu no erro do branqueamento, da formatação, metendo-nos a todos no mesmo saco e dizendo-nos que temos todos de ser iguais. Não é preciso ser conservador de esquerda nem reaccionário para não aceitar ser reduzido a uma fórmula vendável a um mercado que não sabemos se lê assim tanto e se quer mudar alguma coisa. Com tudo isto, o que teve efectivamente peso na sociedade foi o facto de, em pleno período prolongado de crise económica, este acordo absurdo ter obrigado as famílias portuguesas a deitar fora manuais escolares, dicionários, livros e gramáticas, e a comprar tudo de novo. Sr. 'arquiteto', não vejo aqui nenhuma maravilha. Os especialistas da Língua sabem porquê. As editoras também. E nada tem a ver com o argumento do 'ph'. Foi claramente o argumento do 'pilim'.

 

Maria Saraiva de Menezes

Professora de Filosofia e escritora

OBS: A autora deste artigo escreve de acordo com a antiga ortografia.

 

Fonte:

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10211752169389448&set=gm.1388362337875802&type=3&theater

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:39

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Sexta-feira, 19 de Agosto de 2016

UMA LIÇÃO EM BOM PORTUGUÊS

 

É urgente desenvolver uma Cultura Crítica. Se ela já existisse em Portugal, o AO90 não teria sido implantado assim tão servilmente...

 

Mas os que não a têm… ainda vão a tempo…

 

Por favor, reflictam nisto...

 

CULTURA CRÍTICA.jpg

 

«É URGENTE DESENVOLVER UMA CULTURA CRÍTICA DESDE A INFÂNCIA»

 

Texto de Maria João Gaspar Oliveira

 

«Não ensinar uma criança a questionar o que lê, é levá-la a um nivelamento por baixo, relativamente ao conhecimento, bloqueando, assim, a sua percepção crítica da realidade. E fica à mercê de influências castradoras, que a impedem de pensar por si própria, e de descobrir a força transformadora do questionamento e da investigação (uma força que não pode, que não deve ser travada).

 

Por isso, Matthew Lipman, um educador norte-americano com formação filosófica, criou um Programa de Filosofia com crianças, que alcançou um enorme sucesso em mais de trinta países, e que as leva, precisamente, a questionar o que lêem, com entusiasmo, e a pensar também a partir das suas próprias experiências quotidianas.

 

Conheci este método em Lisboa, onde assisti a aulas de filosofia com crianças, a partir dos cinco anos. E fiquei maravilhada perante as questões que elas levantavam, manifestando já uma surpreendente capacidade (que falta a muitos adultos...) de questionação e de problematização de tudo o que as rodeava!

 

Além disso, é preciso que a criança aprenda a questionar "o que está ouvindo e o que está vendo na TV", como disse o amigo Gonçalo Sousa, no seu mural, até porque a televisão, rendida ao poder das audiências e à lógica do lucro, tem esquecido a sua função cultural e educativa.

 

É este o caminho. Se a maioria dos portugueses tivesse tido acesso ao desenvolvimento do gosto pela leitura, e à autonomia do pensar, dos cinco ou seis anos, até ao termo da escolaridade obrigatória, jamais cairia na teia das ideias imutáveis e das mentiras manipuladoras, saberia avaliar o "desempenho" e o carácter dos políticos, saberia encontrar soluções para o estado a que chegámos... E, o dia 4 de Outubro, seria uma espécie de vela na escuridão em que nos encontramos. Não iríamos querer "mais do mesmo". A mudança seria possível, finalmente

 

Maria João Gaspar Oliveira

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:03

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Sexta-feira, 30 de Outubro de 2015

DESLIGUEM A MÁQUINA!

 

ANTÓNIO MACEDO.jpg

 

Um excelente e elucidativo texto escrito em 9/6/2013, porém, actualíssimo.

 

Em Portugal é assim… Os anos vão passando… os portugueses cultos vão reclamando… os governantes fazendo orelhas moucas… e tudo continua teimosa e nesciamente na mesma: um atraso de vida!

Um texto para ler com atenção e partilhar e enviar aos irresponsáveis «acordistas»

 

Por ANTÓNIO DE MACEDO

 

Os apoiantes do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) acusam frequentemente os opositores de serem «Velhos do Restelo», avessos à «evolução» da língua, saudosistas de se escrever «pharmácia» com ph, e outros doestos do mesmo teor. Equívocos grossos por parte de quem fala de coisas que não conhece ou conhece mal.

 

Comecemos pela alusão ao «Velho do Restelo» (Canto IV de “Os Lusíadas”, estâncias 94 a 104). A sua identificação com mentalidade retrógrada, conservadorismo, pessimismo e afins resulta do desconhecimento do que realmente se lá encontra, ou então de uma leitura pela rama. Dou a palavra a quem sabia muito mais disto do que eu, o pensador António Telmo, que nos seus livros (p. ex. “Congeminações de um Neopitagórico”) nos explica que «o Velho do Restelo não significa aquilo que vulgarmente se diz significar, e tanto se tem repetido que quase se tornou proverbial», acrescentando mais adiante: «uma espécie de superego do homem, de censor ou de censurador de quanto nele aspira à inovação pelo heroísmo, à criação pelo imprevisível…»

 

Sendo um velho «venerando», quer dizer, que «deve ser venerado», e «com um saber de experiência feito», na verdade alerta-nos para os perigos a fim de podermos superá-los e vencê-los, não para fugirmos a eles, numa alusão à antiga máxima alquímica de que as provas que defrontamos não são obstáculos, mas desafios — curiosa máxima que até os políticos mais rasteiros já papagueiam quando tentam justificar os apertos orçamentais (e outros…) apregoando que as dificuldades são «oportunidades»…

 

Por outro lado, e passando ao tópico seguinte, se quisermos ser minuciosos concluiremos que os verdadeiros «saudosistas» do «português antigo» (?) não são os que suspiram pelo regresso à tal «pharmácia» com ph, situação que ocorreu apenas entre o séc. XVII e 1911, em que a grafia da língua portuguesa se caracterizou por um pedantismo renascentista e depois iluminista, de influência francesa, adoptando uma escrita que procurava reproduzir as transliterações latinas de palavras gregas, sobretudo em certos termos eruditos ou mitológicos, como «philosophia», «theologia», «chimera», «symmetria», etc..

 

O alfabeto do latim clássico não dispunha de letras que equivalessem aos sons de algumas letras gregas, que, com muito boa vontade, se poderiam representar por um “p” aspirado (ph), por um “t” aspirado (th), por um “c” (duro) aspirado (ch) e por um “y” com pronúncia aproximada do “u” francês.

 

Mas esta foi uma fase intercalar: nos primeiros séculos da língua portuguesa (séc. XII e até mais ou menos sécs. XVI-XVII) a grafia era uma tentativa de compromisso entre a fonética e a etimologia, cheia de erros e de irregularidades quando vista à luz da ciência linguística moderna, mas que ia acompanhando o evoluir da língua falada, em relativo paralelismo com o que sucedia com o castelhano.

 

Consultando as edições antigas das cantigas trovadorescas medievais, passando pelos autos de Gil Vicente e até à 1.ª edição de “Os Lusíadas”, ou seja, desde aproximadamente 1200 até 1572, praticamente não encontramos termos com ph, th, etc. Na 1.ª edição de “Os Lusíadas” é normal depararmos com grafias como «ninfas», «profeta», «cristalino», «fantasia», «Olimpo», etc., palavras que na posterior fase cultista passaram a escrever-se «nymphas», «propheta», «crystallino», «phantasia», «Olympo», etc. É certo que na epopeia de Camões também aparecem coisas como «triumphante» ou «hemispherio», mas não podemos esquecer que nos finais do século XVI já se esboçava a transição da norma tradicional portuguesa para a norma do cultismo de ascendência renascentista.

 

A fase cultista acentuou-se sobretudo a partir da revolução de 1640 e correlativo desvincular de Portugal da coroa espanhola. A moda da «orthographia etymológica» deveu-se, como disse, ao fascínio dos eruditos portugueses pelo Renascimento clássico e pelo Iluminismo, mas sobretudo por reacção xenofóbica anticastelhanista, para nos demarcarmos da grafia do antigo dominador, sendo essa uma outra maneira de afirmar a nossa independência e a nossa distância em relação a Espanha.

 

Com efeito, e apesar da tentativa da Real Academia Española, em 1741, para se utilizar o grupo “ph” em certas palavras de origem grega, essa ideia não foi por diante e os espanhóis mantiveram a simplificação tradicional: onde os portugueses, no séc. XVIII, escreviam «philosophia», os espanhóis continuaram a grafar «filosofía».

 

Em Portugal a grafia «cultista» manteve-se até à reforma ortográfica de 1911, que, com o pretexto da simplificação para obviar o gritante analfabetismo português, no fundo acabou por regressar, em termos modernos, à nossa real matriz de escrita. Os ajustes de 1931 e 1945 mais não fizeram do que «aperfeiçoar» (enfim, sem ironia e dentro do possível…) o espírito lusitanizante de 1911 — nunca devendo esquecer-nos que uma ortografia «idealmente perfeita» não existe, o máximo que se pode conseguir é um compromisso inteligente entre etimologia e fonética, coisa que, em minha humilde opinião, alcançou um relativo limite, «menos mau», com a convenção de 1945. Ir mais longe em termos de simplificação pró-foneticista é perigoso, veja-se o resultado catastrófico do abortivo AO90, que na salgalhada em que está a enredar-se acaba por ser tudo menos inteligente.

 

Finalmente a guerrilha da «evolução». Que a língua portuguesa evoluiu, no sentido biológico do termo, desde as suas origens até hoje, não surpreende, porque uma língua é um organismo vivo e vai passando por sucessivas mudanças naturais ao longo do tempo. É normal que a representação gráfica das progressivas alterações fonéticas não se processe com a mesma rapidez destas: a grafia, com o correr dos tempos, tende a ser uma espécie de “signe de reconnaissance”, e com o avançar da cultura, a sua permanência gráfica pode tornar-se um factor importante de identificação visual.

 

Por sua vez uma «mutação» é uma mudança brusca dos constituintes genéticos de um organismo, podendo dar origem a indivíduos bastante diferentes dos da espécie onde ocorre a mutação. Pedindo desculpa aos especialistas pela maneira simploriamente profana como falo deste complexo assunto, digamos que as mutações podem ser naturais ou induzidas, e ainda benéficas ou desfavoráveis. No caso das mutações desfavoráveis, os organismos resultantes, não sendo viáveis, geralmente acabam por se extinguir, por selecção natural.

 

O que se passa com o AO90 é que se trata de um «organismo» que não surgiu naturalmente, foi induzido artificialmente de uma maneira violenta e brutal, tendo gerado um «ser» abortivo — ou seja, trata-se de uma MUTAÇÃO desfavorável, não de uma EVOLUÇÃO natural, basta observar os erros, as incongruências, os descalabros e as desorientações provocados no Ensino e em diversas áreas culturais, e auscultar as queixas de professores e alunos sobre o calamitoso estrago causado pela imposição do AO90.

 

Ora, quando um organismo não é viável, como por exemplo um doente terminal em estado vegetativo, a ciência médica pode fazê-lo sobreviver por «tecnologia clínica», ligando-o a uma máquina que lhe prolonga a agonia artificialmente.

 

No caso da mutação desvantajosa do AO90, verificamos que o seu deplorável estado vegetativo somente se mantém porque foi ligado à máquina por «tecnologia política», e a sua falsa vida, prolongando-se, está a proporcionar uma agonia intolerável aos que lhe sofrem os efeitos.

 

Senhores políticos, acabem com o sofrimento do doente e dos próximos que já não aguentam suportar-lhe o fardo. É um destes casos extremos em que a eutanásia se justifica.

 

Por favor, desliguem a máquina!

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 19:08

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EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA, A AUTORA DESTE BLOGUE NÃO ADOPTA O “ACORDO ORTOGRÁFICO” DE 1990, DEVIDO A ESTE SER INCONSTITUCIONAL, LINGUISTICAMENTE INCONSISTENTE, ESTRUTURALMENTE INCONGRUENTE, PARA ALÉM DE, COMPROVADAMENTE, SER CAUSA DE UMA CRESCENTE E PERNICIOSA ILITERACIA EM PUBLICAÇÕES OFICIAIS E PRIVADAS, NAS ESCOLAS, NOS ÓRGÃOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL, NA POPULAÇÃO EM GERAL E ESTAR A CRIAR UMA GERAÇÃO DE ANALFABETOS.

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O Acordo Ortográfico 1990 não tem validade internacional. A assinatura (em 1990) do texto original tem repercussões jurídicas: fixa o texto (e os modos como os signatários se vinculam), isto segundo o artº 10º da Convenção de Viena do Direito dos Tratados. Por isso, não podia ser modificado de modo a entrar em vigor com a ratificação de apenas 3... sem que essa alteração não fosse ratificada por unanimidade! Ainda há meses Angola e Moçambique invocaram OFICIALMENTE a não vigência do acordo numa reunião OFICIAL e os representantes OFICIAIS do Brasil e do capataz dos brasileiros, Portugal, meteram a viola no saco. Ora, para um acordo internacional entrar em vigor em Portugal, à luz do artº 8º da Constituição Portuguesa, é preciso que esteja em vigor na ordem jurídica internacional. E este não está!
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