Quarta-feira, 17 de Maio de 2017

PORTUGAL E O DESENGONÇADO AO90

 

Quando aprendi as minhas primeiras letras, num colégio brasileiro, com a minha professora Marilena, estava longe de imaginar que um dia teria de reaprender a Língua que, afinal, não era a minha Língua Materna - a Portuguesa.

 

Também jamais imaginei ter de lutar por ela.

 

LÍNGUA.png

 

Nesta minha vida, já travei publicamente várias lutas: por direitos humanos, por direitos das crianças, por direitos das mulheres, por direitos de animais não humanos, contra a pobreza, a favor dos mais desfavorecidos, dos excluídos, enfim, batalhas que pontualmente fui travando, conseguindo ajudar os envolvidos.

 

Jamais me passou pela cabeça ter de lutar pela minha Língua Portuguesa, porque jamais pensei que pudesse haver portugueses suficientemente cobardes para a venderem ao estrangeiro, tão despudoradamente, tão vilmente, tão vergonhosamente.

 

Consta por aí que os ministérios da Cultura (?) e dos Negócios (dos) Estrangeiros de Portugal vão articular uma política estratégica de promoção internacional da Cultura Portuguesa (?).

 

Para 2017, estão previstas 1300 acções, que incidirão em 75 países.

 

Algumas delas já foram iniciadas no passado dia 5 de Maio, dia em que a CPLP, o instituto Camões e o governo socialista de Portugal decidiram celebrar uma língua a que chamam português, mas já não é a Língua Portuguesa, pois uma coisa é um linguajar para comunicação fácil entre povos, outra coisa é uma Língua bem estruturada e assente nas Ciências da Linguagem.

 

Uma estratégia de divulgação cultural no estrangeiro?

 

Qual o objectivo desta estratégia conjunta dos Ministérios dos Negócios e os da Cultura (?) (do Brasil e de Portugal)?

 

Que Cultura?

 

Que “língua” será divulgada nesta estratégia?

 

Que ortografia utilizarão? A culta ou a inculta, proposta pelo AO90?

 

Anda por aí o “corneteiro de Sócrates” (deparei-me com esta expressão que assenta como uma luva ao ministro socialista) a atroar mentiras acerca das “vantagens” de um acordo que não serve os interesses de Portugal, mas tão só os interesses obscuros de uns poucos, e sem a mínima noção do que diz.

 

É uma vergonha para Portugal a atitude indigna do actual governo português que, sem pejo algum, anda a espalhar pelo mundo uma ignorância militante e activa inédita.

 

E o pior de tudo é que nem sequer estão a dar-se conta disso, apesar de todos os avisos, de todas as críticas, de todas as advertências dos mais abalizados guardiães da Língua Portuguesa e das elites cultas portuguesa, brasileira e africana de expressão portuguesa.

 

E esta infantil casmurrice insulta a dignidade dos Portugueses, arrasta pelo chão a nossa bela e indo-europeia Língua e enxovalha a Identidade Portuguesa.

 

Dizei-me: Portugal merece isto?

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 14:20

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Terça-feira, 3 de Janeiro de 2017

A LÍNGUA BRASILEIRA A CAMINHO...

 

Encontrei um comentário muito interessante à notícia SAPO24 intitulada: «Cinco anos depois, o Acordo Ortográfico continua a dividir em vez de unir» …

 

LÍNGUA.jpg

 

Um (a) comentador (a) escreveu o seguinte:

 

lingua brasileira

 

Este abaixo assinado visa à mudança do nome da língua portuguesa, para “língua Brasileira”, visto que possuímos características que diferem do Português Europeu, construídas por falas das três etnias o Índio, Branco e o Negro, que formaram nosso Brasil, deixando praticamente nulo a existência de uma imagem de colônia que ainda fala Língua de seus colonizadores.

 

Sendo impreterivelmente necessária nomeá-la como “língua Brasileira”, no que se refere a uma Sociedade ou Nação e no falar de seus cidadãos. Sua autonomia!

 

Assim como ilustres Visconde de Pedra Branca, Varnhagen, Paranhos da Silva, Machado de Assis, Mário de Andrade e os românticos como Gonçalves Dias, José de Alencar que defendiam nossa autonomia propugnando por uma língua nossa, a “língua brasileira”.

 

E á revogação do projeto de ortografia unificada da Língua Portuguesa, que elimina os acentos o novo acordo entrou em vigor em 1º de janeiro de 2009, sendo assim acabando com a identidade brasileira naquilo que se diz mais autentico sua fala e gramática, caracterizando ainda mais como Colônia subdesenvolvida e semianalfabeta.

 

Exemplos de pronuncias e escritas sem acentos.

 

Avó - Avô / Avo

Língua / Lingua

  • Coração / Coraçao

 

Céu / Ceu

Etc.

http://www.peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR71343

 

***

Depois de ler este comentário, que nada mais é que do que o texto que serve de apoio à tal petição, não resisti a dar a minha mais sincera opinião sobre esta matéria, aliás que já é do conhecimento público:

 

Este é o caminho.

 

Para escrever mal deste jeito, mais vale chamarem-lhe LÍNGUA BRASILEIRA, porque Portuguesa não é.

 

Concordo perfeitamente, com esta petição.

 

Desliguem-se do ex-colonizador.

 

Façam o vosso próprio caminho. Cortem o cordão umbilical.

 

Talvez assim consigam CRESCER.

 

A escrever bem ou a escrever mal, não importa.

 

O que interessa é desvincular a Língua.

 

Cada país que fique com a sua.

 

Talvez assim possamos livrar-nos, de uma vez por todas, deste maldito e malescrito AO90.

 

***

É que já não há pachorra para ver tão maltratada uma Língua que dizem ser Portuguesa… mas na realidade NÃO É.

 

Quem se atreve a dizer que É?????

 

Isabel A. Ferreira

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:43

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Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2016

INVALIDAR O AO90 É COLOCAR PORTUGAL NOVAMENTE NOS TRILHOS…

 

LÍNGUA.jpg

 

Só a ANULAÇÃO do ABORTO ORTOGRÁFICO de 1990 interessa a PORTUGAL.

 

As crianças que já o aprenderam, desaprendê-lo-ão num ápice.

 

Apenas os políticos (e os editores) devem pagar a factura desta que foi a maior fraude de todos os tempos.

 

Novos livros darão muito lucro. Poderão continuar a encher os bolsos.

 

Um amigo brasileiro, disse-me que se não fossem os portugueses, os brasileiros ainda escreveriam pharmacia, não tendo a mínima noção do que levou a substituir-se o PH pelo F.

 

Se ainda escreveriam pharmacia, então por que não continuaram a escrever ACTO, FACTO, DIRECTOR, ACTOR, CONTACTO, DIRECTO, etc.??????

 

Sem os CÊS essas palavras deveriam ser escritas deste modo: áto, fáto, dirétor, átor, contáto, diréto... Não existindo os CÊS nem os acentos, essas palavras são meros disparates e leva-nos para outras significações…

 

Se o Brasil não deixou cair o , por exemplo, em recePção, deixou cair muitas consoantes em palavras onde elas também são absolutamente necessárias, como as que já referi, entre muitas outras.

 

O AO90 não passa do abrasileiramento da Língua Portuguesa, com um único objectivo: acabar com ela, e passar a chamá-la Língua Brasileira.

 

E impedir esse absurdo é o que me move.

 

Se querem mudar ao nome da língua, mudem. Mas em Portugal, ela deverá ser sempre a PORTUGUESA.

 

É este detalhe que não devemos descurar.

 

Algumas pessoas (menos esclarecidas, devo dizer) acusam-me de um sentimento anti-Brasil. A existir, tal sentimento seria muito estúpido e irracional, da minha parte. O que há em mim é simplesmente um puro, sincero e infinito AMOR pela Língua Portuguesa, o meu mais precioso instrumento de trabalho.

 

E isto não será motivo suficiente para que eu a defenda, num combate leal, usando armas lícitas?

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:47

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Quinta-feira, 22 de Setembro de 2016

«A LÍNGUA BRASILEIRA»

 

 

 

Num “passeio” pela Internet, encontrei este precioso texto, que só vem dar força ao que tenho muitas vezes pugnado, por conhecer bem a realidade da relação Brasil/Portugal: no Brasil a língua é Brasileira, não é Portuguesa, por isso, há que colocar os pontos nos devidos is.

 

Que cada país fique com a sua língua: o Brasil com o Brasileiro e Portugal com o Português, e deixemo-nos desta mania de querer unificar duas línguas que correm paralelamente e jamais se encontrarão, jamais se unificarão nessa coisa chamada AO90, que em vez de unir, desune, é uma trapalhada, não acrescenta mais-valia nenhuma (muito pelo contrário), a nenhuma das línguas, e é um ponto de desacordo, de desunião entre todos os países ditos lusófonos.

 

Teimar no AO90 é teimar na estupidez.

Língua Brasileira.jpg

 

A LÍNGUA BRASILEIRA 

 

Eni P. Orlandi

(Eni de Lourdes Puccinelli Orlandi é uma pesquisadora e professora universitária brasileira. Foi a introdutora, no final dos anos 70, da análise do discurso no Brasil).

 

INTRODUÇÃO

 

A questão da língua que se fala, a necessidade de nomeá-la, é uma questão necessária e que se coloca impreterivelmente aos sujeitos de uma dada sociedade de uma dada nação. Porque a questão da língua que se fala toca os sujeitos em sua autonomia, em sua identidade, em sua autodeterminação. E assim é com a língua que falamos: falamos a língua portuguesa ou a língua brasileira? (1)

 

Esta é uma questão que se coloca desde os princípios da colonização no Brasil, mas que adquire uma força e um sentido especiais ao longo do século XIX. Durante todo o tempo, naquele período, o imaginário da língua oscilou entre a autonomia e o legado de Portugal.

 

De um lado, o Visconde de Pedra Branca, Varnhagen, Paranhos da Silva e os românticos como Gonçalves Dias, José de Alencar alinhavam-se entre os que defendiam nossa autonomia propugnando por uma língua nossa, a língua brasileira. De outro, os gramáticos e eruditos consideravam que só podíamos falar uma língua, a língua portuguesa, sendo o resto apenas brasileirismos, tupinismos, escolhos ao lado da língua verdadeira. Temos assim, em termos de uma língua imaginária, uma língua padrão, apagando-se, silenciando-se o que era mais nosso e que não seguia os padrões: nossa língua brasileira. Assim nos contam B. S. Mariani e T. C. de Souza (Organon 21, Questões de Lusofonia) que, em 1823, por ocasião da Assembléia (em Portugal continuará a escrever-se Assembleia) Constituinte, tínhamos pelo menos três formações discursivas: a dos que propugnavam por uma língua brasileira, a dos que se alinhavam do lado de uma língua (padrão) portuguesa e a formação discursiva jurídica, que, professando a lei, decidia pela língua legitimada, a língua portuguesa. Embora no início do século XIX muito se tenha falado da língua brasileira, como a Constituição não foi votada, mas outorgada por D. Pedro, em 1823, decidiu-se que a língua que falamos é a língua portuguesa. E os efeitos desse jogo político, que nos acompanha desde a aurora do Brasil, nos faz oscilar sempre entre uma língua outorgada, legado de Portugal, intocável, e uma língua nossa, que falamos em nosso dia-a-dia, a língua brasileira. É assim que distingo entre língua fluida (o brasileiro) e a língua imaginária (o português), cuja tensão não pára (em Portugal, com o AO90 retirou-se o acento e escreve-se para) de produzir os seus efeitos.

Assim é que, em 1826, o projeto (em Português escreve-se projeCto) apresentado ao parlamento brasileiro pelo deputado José Clemente propõe que os diplomas dos médicos seja redigido (em Portugal escrevemos sejam) em "linguagem brasileira". Em 1827 temos a aprovação de lei que estabelece que os professores deveriam ensinar a gramática da língua nacional. Nem português, nem brasileiro, estrategicamente, nomeamos de língua nacional. Em 1870, procurando argumentar sobre a língua que falamos, temos a polêmica (em Portugal continuaremos a escrever polémica) entre o romancista brasileiro José de Alencar e o português Pinheiro Chagas, um falando de nossas diferenças e autonomia, o outro, sobre o legado que recebemos de Portugal, a língua portuguesa. Essas referências podem ser encontradas em um quadro apresentado no início do livro História da semântica (2004) de Eduardo Guimarães, entre outros. Já no século XX, na década de 1930 há uma discussão na Câmara do Distrito Federal sobre o nome da língua do Brasil: língua portuguesa ou brasileira? Novamente se decide pelo indefinido: falamos a língua nacional. Sobre essa discussão pode-se consultar o livro (tese) de Luis Francisco Dias (1996), que conclui que, na perspectiva daqueles que se posicionaram contrários aos projetos (em Português projeCtos) de mudança do nome da língua falada no Brasil, o nome língua brasileira é percebido como algo que viria desestabilizar um eixo social que tem nos percursos da escrita, sob os auspícios da língua portuguesa, o seu suporte, a sua referência, e, na perspectiva daqueles que defendem os projetos (em Português projeCtos) de mudança do nome de nosso idioma, língua brasileira tem a sua referência constituída a partir de uma imagem romântica do país, imagem fundada no positivismo e no ufanismo que, ao longo da segunda metade do século XIX e da primeira metade do século XX marcaram nossa história. Finalmente, assim como D. Pedro outorgou uma Constituição em 1823, também em 1946, a comissão encarregada pelo governo brasileiro, em atendimento ao estabelecido pela Constituição de 1946, decide que o nome da língua falada no Brasil é língua portuguesa (2).

 

Esta questão, no entanto, não deixa de nos importunar, e há sempre alguma razão, um pretexto, ou alguém que a levanta em momentos diferentes de nossa história. Isso quer dizer que até hoje não decidimos se falamos português ou brasileiro. Embora a cultura escolar se queira, muitas vezes, esclarecedora em sua racionalidade e moderna em sua abertura, acaba sempre se curvando à legitimidade da língua portuguesa que herdamos e, segundo dizem, adaptamos às nossas conveniências, mas que permanece em sua forma dominante inalterada, intocada: a língua portuguesa. E quem não a fala, ainda que esteja no Brasil, que seja brasileiro, erra, é um mal falante, um marginal da língua.

 

É, pois, impressionante como a ideologia da língua pura, a verdadeira, faz manter o imaginário da língua portuguesa.

 

A QUESTÃO DE FATO (em Portugal continuará a ser faCto, na pronúncia e na escrita porque não vestimos acontecimentos)

 

No entanto, podemos ver isto mais de perto e tomamos como medida a língua que falamos em seu aspecto histórico, social, cultural.

 

Desde o princípio da colonização, instala-se um acontecimento lingüístico (em Portugal escrever-se-á linguístico, sem trema, apesar do AO90) de grande importância no Brasil: o que constitui a língua brasileira.

 

Ao mesmo tempo em que aqui desembarca, a língua portuguesa, ao deslocar-se de Portugal para o país nascente – o Brasil – institui um movimento de memória, deslizamentos lingüísticos (linguísticos, em Portugal) por meio dos quais uma outra língua – a brasileira – faz-se presente.

 

O novo espaço de comunicação resiste com sua materialidade à língua que chega com os portugueses em sua memória já falada, já dita. Desdobram-se, transmudam-se os modos de dizer.

 

A relação palavra/coisa faz ruído, relação não coincidente entre si e nem perfeitamente ajustada. Outras formas vão estabelecer-se fazendo intervir, e ao mesmo tempo constituindo, a memória local.

Retomo aqui os movimentos da enunciação que já tive a oportunidade de expor (1998): em um primeiro momento – situação enunciativa I – a partir de sua memória, o colonizador português reconhece as coisas, os seres, os acontecimentos e os nomeia. Mas ele o faz, transportando elementos de sua memória linguística (linguística em Portugal). Há um investimento na relação palavra/coisa, a questão incidindo sobre o referente: na presença de um nome, estamos diante da mesma coisa (a do Brasil e a de Portugal)? Como estamos no Brasil, há um deslocamento (transporte) que força contornos enunciativos diferenciados.

 

Essa diferença se torna cada vez mais uma diferença de línguas (relação palavra/palavra, e não da palavra com a coisa). Daí resulta todo um trabalho sobre a língua, de classificação, organização, definições em listas de palavras, dicionários. O português, assim transportado, acaba por estabelecer em seu próprio sítio de enunciação outra relação palavra/coisa, cuja ambivalência pode ser lida nas remissões: no Brasil, em Portugal. Tem início, então, a produção de um espaço de interpretação com deslizamentos, efeitos metafóricos que historicizam (em Portugal historizam) a língua. Produzem-se transferências, deslizamentos de memória, metáforas, pois estamos diante de materialidades discursivas que produzem efeitos de sentidos diferentes. Configura-se uma nova situação enunciativa – situação enunciativa II. As palavras, estas, já recobrem outra realidade.

 

A língua praticada nesse outro regime enunciativo realiza, deste lado do Atlântico, a relação unidade/variedade: a unidade já não refere o português do Brasil ao de Portugal, mas à unidade e às variedades existentes no Brasil. E a unidade do português do Brasil, referido a seu funcionamento historicamente determinado, é marca de sua singularidade. Há um giro no regime de universalidade da língua portuguesa que passa a ter sua própria referência no Brasil. A variação não tem como referência Portugal, mas a diversidade concreta produzida no Brasil, na convivência de povos de línguas diferentes (línguas indígenas, africanas, de imigração etc).

 

Nessa perspectiva, então, falamos decididamente a língua brasileira, pois é isto que atesta a materialidade lingüístico-histórica. Se, empiricamente, podemos dizer que as diferenças são algumas, de sotaque, de contornos sintáticos (em Português sintáCticos), de uma lista lexical, no entanto, do ponto de vista discursivo, no modo como a língua se historiciza (em Portugal historiza) as diferenças são incomensuráveis: falamos diferente, produzimos diferentes discursividades.

 

HETEROGENEIDADE LINGÜÍSTICA

 

Authier (1987) estabelece o conceito de heterogeneidade enunciativa para descrever o fato (em Portugal faCto, apesar doAO90) de linguagem que consiste em que todo dizer tem necessariamente em si a presença do outro. Aproveito o impulso desse conceito, embora ele ganhe em nosso uso outras determinações, para falar em heterogeneidade lingüística toda vez que, no campo dos países colonizados, temos línguas como o português, ou o espanhol, na América Latina, que funcionam em uma identidade que chamaria dupla. Estamos diante de línguas que são consideradas as mesmas – as que se falam na América Latina e na Europa – porém que se marcam por se historicizarem (historiarem em Portugal) de maneiras totalmente distintas em suas relações com a história de formação dos países. É o caso do português do Brasil e o de Portugal. Falamos a "mesma" língua, mas falamos diferente. Consideramos, pois, a heterogeneidade  lingüística (linguística) no sentido de que joga em nossa língua um fundo falso em que o "mesmo" abriga, no entanto, um "outro", um diferente histórico que o constitui ainda que na aparência do "mesmo": o português brasileiro e o português português se recobrem como se fossem a mesma língua mas não são. Produzem discursos distintos, significam diferentemente. Discursivamente é possível se vislumbrar esse jogo, pelo qual no mesmo lugar há uma presença dupla, de pelo menos dois discursos distintos, efeitos de uma clivagem de duas histórias na relação com a língua portuguesa: a de Portugal e a do Brasil. Ao falarmos o português, nós, brasileiros, estamos sempre nesse ponto de disjunção obrigada: nossa língua significa em uma filiação de memória heterogênea (em Portugal continuar-se-á a dizer e a escrever heterogénea, apesar do AO90). Essas línguas, o português e o brasileiro, filiam-se a discursividades distintas. O efeito de homogeneidade é o efeito produzido pela história da colonização.

 

Quando, mais acima, falei da disjunção obrigada referia-me a uma certa indistinção, mas também à polissemia. Há uma composição de sentidos em nossa memória lingüística que funcionam, simultaneamente, em movimentos simbólicos distintos, quando falamos a língua brasileira. Isto significa que há uma marca de distinção na materialidade histórica desses sistemas simbólicos que carrega a língua brasileira dessa composição de sentidos. Eis a duplicidade, a heterogeneidade, a polissemia no próprio exercício da língua: o português e o brasileiro não têm o mesmo sentido. São línguas materialmente diferentes.

 

Dados esse fatos (esses faCtos, em Portugal), a história da identidade da língua nacional se alongará por meio de acontecimentos múltiplos, como acordos, fundação de academias, regulamentos escolares, constituintes e outros. É essa história que começamos a conhecer, e este artigo é apenas um pequeno passo em direção (em Português direCção) a esta forma de conhecimento que é também uma tomada de posição face ao conhecimento da língua e da constituição da língua nacional no Brasil. Considerações acerca da língua materna, do idioma pátrio, da língua nacional são outras tantas que nos levam a novas reflexões igualmente esclarecedoras a respeito da língua nacional que falamos no Brasil e do modo como a nomeamos.»

 

Eni P. Orlandi é professora titular de análise de discurso do Departamento de Lingüística do Instituto de Estudos da Linguagem(IEL); coordenadora do Laboratório de Estudos Urbanos (Labeurb) da Unicamp; e pesquisadora 1A do CNPq.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Estes aspectos estão mais desenvolvidos em Orlandi (2002).
  2. Uma análise do texto do parecer da comissão encarregada de decidir sobre o nome da língua está em Guimarães (2000)

BIBLIOGRAFIA CITADA

Auroux, S, Orlandi, E. e Mazière F. "L'hyperlangue brésilienne", in Langages, 130, Paris, Larousse. 1998.

Authier, J. "Hétérogénéités énonciatives" in Langages, Paris, Larousse. 1987.

Dias, L. F. Os sentidos do idioma nacional, Campinas, Pontes. 1996.

Guimarães, E. "Línguas de civilização e línguas de cultura. A língua nacional do Brasil". In Barros, D.L.P. Os discursos do descobrimento. São Paulo, Edusp/Fapesp. 2000.

Guimarães, E.R.J. História da semântica, Campinas, Pontes. 2003.

Mariani, B. e Souza, T. C.C. de "Questões de lusofonia", Organon, 21, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2000.

Orlandi, E. P. Língua e conhecimento lingüístico. São Paulo, Cortez. 2002.

 

Fonte:

http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252005000200016&script=sci_arttext

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:44

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Sábado, 17 de Setembro de 2016

E ASSIM SE ESCREVE EM PORTUGAL (À MODA DOS PATÁTIS…?)

 

Que língua será esta? Não sei. Só sei que a Portuguesa não é com toda a certeza…

 

Esta será a ortografia dos patátis?

 

O que são os patátis? Também não sei bem...

 

Mas também não sei o que é um ténico, um adêto, invitointerrução, abruto, excessão

 

Um patáti será assim uma espécie de tatibitate da tortografia que foi introduzida em Portugal contra a vontade da esmagadora maioria dos Portugueses?

 

Quem souber que me responda…

 

PATÁTI.png

Fonte da imagem:

 https://www.facebook.com/TradutoresContraAO90/photos/a.212426635525679.35361.199515723483437/931043723663963/?type=3&theater

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:34

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Quarta-feira, 13 de Julho de 2016

NINGUÉM PARA O ACORDO ORTOGRÁFICO DE 1990…

 

Lendo este título à luz da Língua Portuguesa, isto seria o ideal…

 

Lendo à luz do Acordês (não se pense que é Português) a coisa fica mais complicada.

 

Então temos que a sel’ção portuguesa foi um esp’táculo, e a RTP teve milhões de espetadores a espetar os olhos no pequeno ecrã.

 

Tudo isto, claro, em dirêto.

 

E agora ninguém para Portugal.

 

Não sei se isto é um orgulho ou uma desgraça para Portugal.

 

1.jpg

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 12:17

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Quinta-feira, 30 de Junho de 2016

COMUNICADO DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA CHEIO DE ERROS ORTOGRÁFICOS

 

Exmo. Senhor Presidente da República,

 

Então foram os FATOS que estiveram na origem do inquérito ao director do Museu da presidência? Quais FATOS? Os dos senhores presidentes? Seriam de boa fazenda?

 

E que ATIVIDADES foram essas? E esses FATOS são anteriores ao ATUAL mandato presidencial? Que assim se escreva nos becos lisboetas... Agora num comunicado oriundo da Presidência da República Portuguesa é vergonhoso. E o museu é uma quê??? Uma DIREÇÃO???? O que será isto?

 

Isto é uma autêntica vergonha. 

Por isso, como Portuguesa, sinto-me INDIGNADA! Um texto tão pequenino, e com tantos erros ortográficos!!!

 

COMUNICADO1.jpg

 

Origem da imagem:

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10209909097514676&set=a.1828568084563.106288.1551152957&type=3&theater

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 19:24

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EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA, A AUTORA DESTE BLOGUE NÃO ADOPTA O “ACORDO ORTOGRÁFICO” DE 1990, DEVIDO A ESTE SER INCONSTITUCIONAL, LINGUISTICAMENTE INCONSISTENTE, ESTRUTURALMENTE INCONGRUENTE, PARA ALÉM DE, COMPROVADAMENTE, SER CAUSA DE UMA CRESCENTE E PERNICIOSA ILITERACIA EM PUBLICAÇÕES OFICIAIS E PRIVADAS, NAS ESCOLAS, NOS ÓRGÃOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL, NA POPULAÇÃO EM GERAL E ESTAR A CRIAR UMA GERAÇÃO DE ANALFABETOS.

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. AO/90 É INCONSTITUCIONAL

O Acordo Ortográfico 1990 não tem validade internacional. A assinatura (em 1990) do texto original tem repercussões jurídicas: fixa o texto (e os modos como os signatários se vinculam), isto segundo o artº 10º da Convenção de Viena do Direito dos Tratados. Por isso, não podia ser modificado de modo a entrar em vigor com a ratificação de apenas 3... sem que essa alteração não fosse ratificada por unanimidade! Ainda há meses Angola e Moçambique invocaram OFICIALMENTE a não vigência do acordo numa reunião OFICIAL e os representantes OFICIAIS do Brasil e do capataz dos brasileiros, Portugal, meteram a viola no saco. Ora, para um acordo internacional entrar em vigor em Portugal, à luz do artº 8º da Constituição Portuguesa, é preciso que esteja em vigor na ordem jurídica internacional. E este não está!
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