Sexta-feira, 27 de Novembro de 2020

«A Língua é o Sangue de uma Cultura»

 

Quem o diz é o filólogo e escritor J.R.R. Tolkien, autor da saga «O Senhor dos Anéis», no filme “Tolkien”, baseado, como o nome indica, na sua vida.

E quem sou eu para desdizer Tolkien?

 

Daí que, com este texto, não só pretendo demonstrar que a Língua Portuguesa é o Sangue da Cultura Portuguesa, que está nas mãos de predadores e dos ignorantes que acham quo o AO90 é um instrumento de evolução da Língua, quando não passa de uma guilhotina ferrugenta, que está a levar à morte a nossa amada Língua Materna; como também justificar a minha luta em prol da Língua, porque se não tenho o talento de Tolkien, tenho a mesma paixão que ele tinha pelas palavras, e custa-me ver a ignorância moldada à grafia que políticos complexados e apedeutas impingiram aos Portugueses.

 

Tolkien era um apaixonado por idiomas. Para ele, primeiro vinha a Palavra, depois a história. Para mim, também.

 

Tolkien.jpg

 

A sua paixão pelas palavras levou-o a criar várias Línguas. E, para ele, «uma Língua bonita deve ter um alfabeto elegante», e, por isso, criou alfabetos elegantes para as suas Línguas.

 

Eu acrescentaria que para além de um alfabeto elegante, uma Língua bonita deve ter palavras elegantes, ou seja, palavras não-mutiladas. Tolkien diria exactamente isto, se as palavras, das suas amadas Línguas, fossem mutiladas por ignorantes, como a Língua Portuguesa foi.


Fascinado pela Linguística, desde criança, era dotado para Línguas antigas, que lhe serviram de base para o seu célebre Idioma Élfico.

 

Então, criou um mundo fantástico onde as suas Línguas fantásticas pudessem ser faladas.

 

A dada altura no filme, ele diz a um Professor, quando tentava persuadi-lo a frequentar a sua aula «a Língua é o sangue de uma Cultura», algo que tocou a alma do Professor e o levou a aceitar Tolkien como seu aluno.

 

Já sabíamos que «a língua de um povo é a sua alma», citando o filósofo alemão Johann Gottlieb Fichte.

 

E que povo será o português que “injeta” (injêtâ) no próprio sangue (a Língua) substância deteriorada, e açoita a própria alma com “ações” (âções) iníquas?

 

A legendagem deste filme, como é hábito dos canais TVCine, é absolutamente péssima. A alturas tantas, levamos um bofetão com o rapaizinho que era Tolkien, quando perdeu a Mãe.

 

Devo dizer que não estranhei ver aquela palavrinha ali, uma palavrinha que tantas vezes ouvi, no Brasil, porque é assim que, lá, o povo menos instruído fala, sabendo como sabemos (ou pelo menos deduzimos pelas construções frásicas e vocabulário) que as legendas estão entregues a mão-de-obra barata e desqualificada vinda do outro lado do Atlântico. Por vezes até nos apetece quebrar o televisor. BOLAS! Estamos em Portugal!

 

Conclusão: tudo isto para dizer que a Língua de um País não deve jamais ser “administrada” por políticos ignorantes, por “linguistas” com segundas intenções e por editores mercenários. E também para dizer que, no mundo, há pessoas como Tolkien, para quem a PALAVRA vem primeiro, e só depois a história.

 

A Língua é o sangue de uma Cultura. Grande verdade! E as Culturas morrem quando esse sangue é afectado por doenças malignas, no caso da Língua Portuguesa, pelo AO90.

 

Isabel A. Ferreira

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:54

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Terça-feira, 24 de Novembro de 2020

«Fonoaudióloga brasileira em Portugal luta para provar que fala português»

 

O título é de um artigo publicado num jornal online brasileiro (TAB), o qual esmiúço mais abaixo.

A imagem ilustra o artigo. Por sua vez, a ilustração contém um vídeo de baixo nível, que diz bem ao que a autora do artigo vem.

 

Palavreado rasca.PNG

 

Antes de ir ao assunto e para quem não saiba (eu não sabia) uma fonoaudióloga, em Portugal, corresponde a uma terapeuta da fala, que, de um modo simplificado, estuda a voz e a audição e os distúrbios a elas associados, embora seja mais abrangente. E, esclarecendo esta parte, tudo ficaria explicado, porque a questão aqui é a de uma fonoaudióloga brasileira (só na designação já se percebe a diferença) não ser aceite, em Portugal, para exercer esta profissão.

 

O motivo não será óbvio?

 

O título é de um artigo publicado num jornal online brasileiro (TAB) onde se distorce a questão, por não se entender que a fala brasileira é diferente da fala portuguesa, e tratando-se de terapia da fala, a dicção, a pronúncia das palavras e tudo o resto a elas ligado, é extremamente importante. E se estamos diante de uma pessoa que não domina completamente a expressão da Língua do País, como poderá exercer com eficiência tal profissão?

 

Não estamos a falar das falas das novelas. Estamos a falar de terapia da fala, que mexe com o modo como as pessoas que procuram o terapeuta se expressam e procuram corrigir esse modo.

 

Ora a fonoaudióloga em questão, segundo a notícia, depois de passar por uma entrevista e escrever uma redacção, recebeu um documento a dizer que ela não dominava a semântica (sentido das palavras), a morfossintaxe (construção das frases), a fonética e a fonologia (os sons) do Português falado em Portugal. Não dominando estes importantíssimos meandros da fala, como poderia exercer a profissão de terapeuta da fala, em Portugal? Dependendo da competência, todas as outras terapias (psicológicas, físicas) podem ser exercidas por qualquer estrangeiro. Mas a fala é a fala. Se não a dominamos, não podemos exercer nada que com ela se relacione.

 

Poderia um brasileiro ser professor de Português português em Portugal?

 

Poderia um português ser professor de Português brasileiro, no Brasil?

 

Porém, a fonoaudióloga brasileira entendeu que o preconceito linguístico ou reserva de mercado seriam as verdadeiras motivações para que o seu credenciamento profissional em Portugal tenha sido negado.

 

Não. Não foi preconceito linguístico ou reserva de mercado. Foi simplesmente algo muito óbvio: os Brasileiros não falam Português português. E isto até uma criança tem capacidade de observar. E não falando Português português, não pode exercer a profissão de terapeuta da fala, pelos motivos mais óbvios.

 

Se uma terapeuta da fala portuguesa pretendesse exercer a profissão no Brasil seria aceite?

 

Este artigo mistura alhos com bugalhos, faz uma análise arrevesada da questão, e pela ilustração que usaram, já se vê na aragem o que vai na carruagem.



Deixo aqui o link do artigo, para quem estiver interessado em consultá-lo, e recomendo vivamente que leiam também os comentários, porque neles encontraremos o verdadeiro busílis da questão:

 

https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/11/22/fonoaudiologa-brasileira-em-portugal-luta-para-provar-que-fala-portugues.htm

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:29

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Segunda-feira, 23 de Novembro de 2020

Apontamentos sobre a Língua Portuguesa e o AO90

 

Um apanhado do que por aí se diz, a este respeito.

Tudo já foi dito e esmiuçado.

 

O facto é que, em Portugal, não existe um governante sequer, com capacidade de ver o óbvio e acabar com a fantochada do AO90, não digo palhaçada para não ofender os mui digníssimos palhaços, que têm muito mais dignidade do que aqueles que, sem saberem o que fazem, o que dizem e o que escrevem, estão a contribuir, aceleradamente, para o analfabetismo funcional e para a iliteracia, no nosso desventurado País, que anda por aí,  sem rei nem roque.

Isabel A. Ferreira

 

ANTÓNIO EMILIANO.png

 

Jamais a Variante Brasileira da Língua Portuguesa terá lugar na ONU, porque na ONU só vigoram as Línguas originais. Não as variantes.

 

E é da Variante Brasileira da Língua Portuguesa que os acordistas falam, quando falam da implantação do Português na ONU. 

 

Além disso, a Língua Portuguesa acordizada não tem prestígio algum, em parte alguma. Não se sabe qual a intenção das mentiras que por aí circulam, a respeito do falso prestígio do AO90.

 

O maior acinte que se faz à Língua Portuguesa não é o uso de palavras inglesas. É sim, o uso de palavras brasileiras, que desvirtuam a Língua Portuguesa e fazem-na recuar a uma variante ( = dialecto) oriundo dela própria. E a isto chama-se retrocesso.

 

O PS está comprometido com isto até à ponta dos cabelos. O AO90, projecto nascido da cabeça do intelectual esquerdista brasileiro Antônio Houaiss,   foi desde o início um empreendimento com fins lucrativos, apoiado por uma poderosa máquina política e comercial com ramificações em Portugal (in O Diabo).

 

Há quem diga que o intuito dos esquerdistas brasileiros é colonizar o ex-colonizador através da Língua, e que o intuito dos esquerdistas portugueses, que estão agora no Poder (e não só), é rastejar aos pés do Gigante, para se tornarem visíveis no mundo.  E se assim é, estão a conseguir, mas pela negativa: estão a apequenar-se. Pobrezinhos!

 

***

 

Comentário no post «O português brasileiro precisa de ser reconhecido como uma nova língua»

 

Concordo plenamente consigo. Não percebo porque é que os brasileiros ficam ofendidos quando alguém lhes diz que eles falam brasileiro? Eu, no entanto, sinto amargura quando em qualquer site ou aplicação do telemóvel procuro o idioma português e em vez de ter a bandeira portuguesa a representar, tem a brasileira. Sou a favor dos brasileiros assumirem a própria língua e que o governo português desista de alterar o acordo ortográfico, como se estivessem desesperadamente a tentar manter o mínimo de ligação entre Portugal e Brasil. De que vale dizer que o Português é das línguas mais faladas no mundo quando na realidade referem-se ao português brasileiro??

Batista a 16 de Junho 2020, 00:01

 

Caro Batista,

 

O texto não é meu. É assinado por um brasileiro. Mas estou absolutamente de acordo com ele.


Também não percebo por que é que os brasileiros não aceitam o óbvio. Eu tenho uma teoria, que também não é inteiramente minha, porque a retirei de um contexto que me levou a isto: a mal informada, malformada e ignorante esquerda brasileira pretende colonizar Portugal através da Língua, como “vingança por terem sido colonizados pelos Portugueses, e não pelos Ingleses». E eu acredito piamente nisto.


Tudo leva para esse caminho, incluindo o das bandeirinhas. A bandeira portuguesa desapareceu da Internet, para assinalar o “Português”. E isto o que será?

 

Estou completamente de acordo consigo:  de que vale dizer que o Português é das línguas mais faladas no mundo, quando na realidade se referem ao “brasileiro” (retiro-lhe o “português” porque é uma designação errada) que será a nova língua do Brasil. Tão certo, como eu estar aqui a escrever isto. (Isabel A. Ferreira)

 

***

«Avestruzes e a enxurrada de disparates: laticínios virá de lata, adoção de doces, adotar de dote, coação (de pessoas) de coar? Ótica será da família de otite? Conceção difere de concessão, receção de recessão, interseção de interceção?! Mas qual é a razão para não reconhecerem que o AO90 correu mal? Por que razão os políticos não desenterram a cabeça da areia?!»  (José Sousa Dias)

 

 ***

 

No Líbano fala-se, além do Francês, e alguns dialectos, o Árabe Libanês, que é uma variante do Árabe falado no Líbano, (tal como a variante brasileira do Português) embora muitos considerem o Libanês uma língua separada (tal como no Brasil e fora dele há quem considere, inclusive linguistas brasileiros, a Variante do Português falado no Brasil uma língua separada – o Brasileiro.

 

O senhor Antônio Houaiss era brasileiro nato, filho de libaneses, com todo um passado e antepassados libaneses. Nada o ligou nunca a Portugal e à Língua Portuguesa. O senhor Houaiss conhecia a Variante Brasileira do Português, que quis deslusitanizada (isto dito por ele) e os seus dicionários são a maior prova disso.  E deslusitanizar significa afastar o Português, da sua Matriz.

 

Os Portugueses não têm nada que gostar ou não gostar do que os Brasileiros falam ou escrevem. Os Portugueses sabem, como todo o mundo sabe, que no Brasil escreve-se e fala-se uma variante do Português, que o maior dialectologista português, Leite de Vasconcelos, considerava dialecto, e que significa o mesmo que variante.

 

Brasil e Portugal não falam a mesma Língua: em Portugal fala-se Português. No Brasil fala-se a Variante Brasileira do Português. 

 

Português falam e escrevem os africanos de expressão portuguesa (Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, etc.), porque estes não deslusitanizaram o Português, e escrevem-no e falam-no à moda Portuguesa. Os Cabo-verdianos falam e escrevem o Crioulo cabo-verdiano, e que já é Língua Oficial, oriundo do Português. Um dia será a vez do Brasil.

 

Quando um português e um brasileiro vão à televisão debater qualquer assunto, até as crianças dizem que um fala Português e o outro fala Brasileiro. Isto é elementar.

 

O Brasil mantém o “português” na Língua por conveniências políticas, contudo, a bandeira que a caracteriza é a brasileira. E só uma questão de tempo, para retirarem o “português” da designação da Língua.

 

Numa coisa os Brasileiros têm razão: a reclamação a fazer será junto às universidades e academia de letras portuguesas, bem como junto aos políticos portugueses que, atacados por um gigantesco complexo de inferioridade, acharam que se se colassem ao Brasil, no que respeita à Língua, agigantavam-se. Mas esqueceram-se de um pormenor: a língua que o Brasil fala e escreve já não é portuguesa. E isto é tão desprestigiante para Portugal que a imprensa internacional noticiou o Acordo Ortográfico de 1990 (que substituiu a grafia portuguesa pela brasileira, na sua generalidade) como sendo a primeira vez na História que uma ex-colónia (Brasil) determina como o ex-colonizador (Portugal) vai escrever a própria Língua (a Língua Portuguesa, a oficial, a Materna) no presente e no futuro. Este isto é vergonhoso para Portugal e para os Portugueses.

 

Por isso, quem ama a Língua e a Cultura e a História Portuguesas e Portugal lutará para que o Brasil fique com a sua Variante, e Portugal fique com a Língua Portuguesa, a original, até porque seria um retrocesso se Portugal trocasse a sua Língua por uma Variante de si própria.

 

Mas o problema não é dos Brasileiros, que puxam a brasa para a sardinha deles (como se diz por cá). O problema é dos políticos portugueses, complexados, ignorantes e cheios de interesses obscuros. Ou melhor, são bons paus-mandados.

***

 

 

Os Brasileiros são contra a aberração que o AO90 representa apenas devido aos acentos e hífenes. A restante “grafia”, ou seja, a supressão dos pês e dos cês, onde eles são absolutamente essenciais (para nós, mas não para eles) e que eles suprimiram e que o AO90 impõe, faz parte da grafia brasileira: setor, diretor, adotar, adoção, afeto, aspeto, e todas as outras palavrinhas sem sentido para os Portugueses, mas não para os Brasileiros, onde se suprimiram os pês e os cês. À excePção de excePção e suas variantes; infeCção e suas variantes; recePção e suas variantes, e demais vocábulos (uns poucos) que os Brasileiros escrevem correCtamente, e os Portugueses escrevem mal, de um modo básico, primário, a roçar o analfabetismo.

 

Isto é um facto, mais do que comprovado, por quem tem o cérebro a funcionar em pleno, conhece a Variante Brasileira da Língua Portuguesa, tanto quanto conhece a Língua Portuguesa.  

 

E Brasileiros e Portugueses não estão do mesmo lado da barricada, nesta matéria. Isto é uma falácia. Aparentemente parecem estar. Mas não estão.

 

Os Brasileiros são os únicos, dentre os restantes povos lusófonos, que só têm a ganhar se Portugal ceder às pretensões de se fixar na grafia brasileira. Para eles é uma questão apenas de acentuação e hifenização. Para os Portugueses é tudo: acentuação, hifenização, grafia, identidade, dignidade e tudo o resto.

 

O AO90 só se mantém devido à falta de informação que por aí circula. Os meios de comunicação social servilistas estão proibidos de informar a este respeito. E se não fosse essa desinformação, e o complexo de inferioridade dos políticos portugueses, e os suportes obscuros que os motivam, o AO90 há muito que já se tinha extinguido.

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:41

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Quarta-feira, 18 de Novembro de 2020

No XI Festival Literário de Araxá (Outubro 2020 - Brasil) lamentou-se “a morte do tupi e de outras línguas indígenas, por abafamento da língua oficial” (a Portuguesa)…

 

Um interessante texto, do jornalista e escritor brasileiro, Chico Mendonça, através do qual podemos “medir a temperatura” da Língua que se fala e escreve no Brasil, e o pulsar da situação…

 

Nada do que se diz no artigo que aqui transcrevo, está longe daquilo que venho dizendo, há tanto tempo: o Brasil não está interessado na Língua Portuguesa. Como poderia, se a influência indígena e africana, e dos outros povos que ali se fixaram, diz mais aos Brasileiros do que a influência portuguesa, que lhes soa a colonialismo... conforme podem comprovar no texto?

 

(Os excertos a negrito são da minha responsabilidade).

E mais não digo.

 

Isabel A. Ferreira

 

CHICO MENDONÇA.jpg

 

Por Chico Mendonça 

 

O Lugar das Transgressões

 

«Para ver e medir toda a vida que há dentro e em torno de uma língua, usar a régua do tempo é imprescindível. Principalmente, no caso da língua portuguesa, e seu corpo formado de tantas línguas em português. Se a navegação fez naufragar o apego à ilusão de uma língua nacional e pura séculos atrás, nos dias de hoje sua unidade e riqueza se dão pela mestiçagem manifestada na infinidade de ruas que cruzam os nove países de fala portuguesa. Nem lusofonia se adequa mais, insiste Afonso Borges, porque o termo traz memórias dolorosas dos tempos coloniais. E descolonizar é preciso, mais do que nunca, tal a delicadeza da fase atual desse processo: a descolonização das mentes, dos que colonizaram e dos que foram colonizados.

 

No terceiro dia do Fliaraxá, o equívoco do Acordo Ortográfico de 1990 foi se desenhando, a caminho do consenso. “Não há nada uniformizável, as diferenças é que enriquecem a língua. A ortografia tem que ser diferente. Não devem ser os governos que decidem isso, porque a língua é livre e pertence ao povo”, defendeu a escritora portuguesa Teolinda Gersão, na Mesa “Escrever em língua portuguesa”. Seu parceiro de conversa, o manauara Milton Hatoum, lembrou que o rompimento com a forma cristalizada da língua é antiga: “Machado de Assis já não escrevia como Eça de Queiroz (*) ”. A Semana de Arte Moderna deu um longo passo nesse sentido, com o surgimento de obras como Macunaíma, de Mário de Andrade, que utiliza muitas expressões indígenas e africanas. Meu Tio Iauaretê, de Guimarães Rosa, é outro exemplo do uso de uma linguagem nova, repleta de contribuições linguísticas alheias ao português. “É o limite possível do que se pode fazer usando linguagem de vários troncos linguísticos, incluindo o mais arcaico português. Uma linguagem mestiça e transgressora”, avaliou Hatoum.

 

Transgressões não devem faltar para a evolução de uma língua e das diversas culturas que ela compartilha. Do contrário, ficaria impermeável a essas contribuições que o modernismo libertou no Brasil. Ou a outras influências de tradições não reconhecidas e mesmo condenadas, como o “pretoguês”. Segundo a filósofa e feminista negra Djamila Ribeiro, na Mesa “Cultura, crença e preconceito”, dividida com o jornalista Xico Sá, a troca do “L” pelo “R” em algumas palavras, como ‘Framengo”, não é manifestação da ignorância, mas herança, mesmo inconsciente, de língua africana que não possui em seu alfabeto a letra “L”. Ela lamentou a morte do tupi e de outras línguas indígenas, por abafamento da língua oficial. Com elas, a diversidade e seus saberes estariam garantidos, bem como potencializada a influência que já exerceu na construção do português falado no Brasil.

 

Na verdade, mostrou Djamila, junto da assimilação da língua oficial pela pluralidade dos brasileiros, aconteceu também a submissão ao pensar dominante. Na universidade, conta ela, aprendeu o pensamento do homem branco europeu. Da mesma forma, na literatura ainda é hegemônico esse lugar de cor e procedência. Surgem, ressalta, as antologias com espírito de caixas separadas, como de escritoras negras, em lugar do acolhimento de cada um como parte de um todo. Em lugar de uma antologia de escritores e escritoras brasileiros, o racismo estrutural produz coletâneas em forma de caixas que dão sobrevida às hierarquias culturais.

 

Organizador e professor de um curso on-line sobre crônica, Xico Sá confirmou igual espanto. Segundo ele, as antologias que pesquisou do gênero refletem o amplo domínio de autores brancos sobre autoras brancas, autores e autoras negras. Não se trata, diz ele, de justificar-se pelo espelhamento de uma pré-seleção feita pelos jornais ao longo do tempo, mas da falta de uma pesquisa em outras fontes para encontrar trabalhos que não saíram nos jornas. Ele próprio tratou de incluir no currículo de seu curso capítulos do diário de Carolina de Jesus, em Quarto de despejo. “Não dá para falar em democracia com esse racismo estrutural”, conclui.

 

Respondendo a uma questão proposta pelo cientista político Sérgio Abranches, sobre qual escritor brasileiro estaria hoje traduzindo o espírito de nosso tempo, a escritora Noemi Jaffe deu nova pista a respeito do momento da evolução da língua. “Não é preciso buscar alguém que expresse o espírito do nosso tempo, porque não temos mais os gênios. Existem muitas pessoas escrevendo e produzindo conteúdos fantásticos em celulares, que respondem às necessidades de seus lugares de viver, mesmo que não tenham a qualidade de um Proust.” Tal afirmação tem a força de uma revelação, e, mesmo que polêmica, sugere novos desafios às línguas vividas em português ou em qualquer outra língua. O movimento descrito por Noemi é universal e, essencialmente, transgressor.

 

Ao ler o texto acima, Afonso Borges sentou diante do computador e escreveu. Neste campo, Afonso Borges, ao ser inquirido sobre a determinada “concorrência” que a imagem e o cinema estabelecem com o exercício da leitura, disse: “A leitura induz o cinema interno”.

 

E nada mais tendo sido dito, acabei por decidir que por aqui fico.»

 

(*) É curioso e consolador ver um Brasileiro a  escrever correctamente o nome de Eça de Queiroz, porque em Portugal, raros são os que o escrevem correctamente. Eça nasceu Queiroz, não, Queirós.

 

 Fonte:   https://fliaraxa.com.br/o-lugar-das-transgressoes/

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:23

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Segunda-feira, 16 de Novembro de 2020

Uma escola privada do Rio de Janeiro decidiu dar voz à “ideologia de género” e agora “todes” são “querides alunes”

 

 "Desventurades alunes"  que, sem darem conta, ainda alunam na Lua, que é o lugar ideal para as alu(ci)nações

Se a estupidez matasse, estariam todos mortos os que acham que este tipo de linguagem vai resolver o problema dos ILES. Apenas as ATITUDES resolvem os problemas das pessoas. ATITUDES! As palavras leva-as o vento, além de desqualificar um Idioma.

Este tipo de linguagem é absolutamente I-DI-O-TA.  

Isto faz parte de gente muito mal resolvida.

Temos de travar esta tendência, antes que as novas gerações sejam anuladas como pessoas.

Isabel A. Ferreira

 

Ideologia de género.png

 

Fonte:

https://www.facebook.com/OsPingosnosIsOficial/posts/2828873854024187?comment_id=300018504466031&notif_id=1605538926485304&notif_t=feedback_reaction_generic

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:31

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Sexta-feira, 13 de Novembro de 2020

Comentários de um professor universitário brasileiro sobre os brasileirismos introduzidos na linguagem oral e escrita em Portugal

 

Para que não digam que apenas eu implico com esses brasileirismos, publico aqui os comentários que o professor   Arthur Virmond de Lacerda publicou no Facebook, a propósito do meu texto

Nos canais de televisão, para além do AO90, reina o espírito de imitação bacoca

 
Devo dizer que o jurista Arthur Virmond de Lacerda pertence a uma elite culta brasileira que defende a Língua Portuguesa, no Brasil, tal como eu a defendo em Portugal. Divergimos em alguns pontos, mas no essencial concordamos. Está atento ao que se passa em Portugal, até porque já estudou cá, como eu estudei lá, e até já escreveu ao Governo Sombra, sobre os brasileirismos que os seus integrantes usam, e sobre o fenómeno do abrasileiramento da prosódia portuguesa.

 

Brasileirismos.png

Ernesto Carneiro Ribeiro foi um médico, professor, linguista e educador brasileiro, conhecido pela polémica mantida com Ruy Barbosa, seu ex-aluno, acerca da revisão ortográfica do Código Civil Brasileiro. Curiosidade: repare-se na designação idioma luso-brasileiro.

 

Arthur Virmond de Lacerda Também observo a legendagem à brasileira, em canais portugueses, e textos abrasileirados das telenovelas portuguesas, há mais de dez anos. Também me parece que os diálogos destas e as legendas são escritos por brasileiros, com introdução dos mais variados vocábulos e expressões que descaracterizam o falar tipicamente português. Seus autores não apreenderam o léxico corrente em Portugal e, aos poucos, vão descaracterizando a elocução típica dos portugueses. Tal abrasileiramento não favorece a audiência dos programas no Brasil nem creio que seja necessário para captar a audiência dos brasileiros daí. Os programas feitos em Portugal devem exprimir-se consoante aos usos daí e não consoante aos daqui ou de alhures.
Também noto que apresentadores e comentadores televisivos (Jornal da Noite, da SIC, Marques Mendes) [sim Marques Mendes parabeniza demasiado] empregam brasileirismos coloquiais, ou seja, o que é rasca, trivial, raso, no Brasil, alguns (somente alguns ?) usam em lugares formais, a exemplo de "dica", "correr atrás do prejuízo", "só que não". São dizeres da arraia miúda, que não no Brasil evita-se em contextos como os em que aí se usam, ou seja, alguns portugueses usam o pior do Brasil em lugar do que seja tipicamente português. — Nutro as mais acentuadas reservas quanto a tudo quanto provém de Marcos Bagno, grande inimigo da herança portuguesa em relação ao idioma. Ele é propugnador da recusa da gramática e dos usos vernaculares e do mudancismo idiomático: quanto menos portuguesmente se falar no Brasil, tanto mais ele se rejubila. Reputo-o influência decisiva no declínio acentuado do idioma entre nós e que ela precisa de ser erradicada urgentemente. Suas doutrinas são em muito responsáveis pelo abandalhamento do idioma no Brasil.

 

Arthur Virmond de Lacerda Outros brasileirismos rascas: "Eu vô ti falá para você entendê, mas se quisé a gente repete prá você". "Se você tá com problema, digita aqui": confusão entre pessoas do discurso.

 

 ***

 

Vergo-me aos seus comentários, amigo Arthur Virmond de Lacerda.


Também tenho essa perspectiva do abuso dos brasileirismos na linguagem oral e escrita, em Portugal. entre muitos outros, até os oi e , já estão na linguagem oral e escrita dos mais jovens. Muita influência também das novelas, onde se fala muito mal, obviamente com algumas honrosas excepções.

 

Não existe, nem no Brasil, nem em Portugal, a prática da Cultura da Linguagem, que deve ser o nosso maior cartão de visita, na comunicação com o mundo.


Nós, por aqui, desde o presidente da República, passando por ministros, deputados, professores, jornalistas, até ao mais comum dos mortais, actualmente estamos abaixo de zero, no que respeita ao falar e ao escrever. Uma miséria franciscana.


Quanto ao Marcos Bagno, na verdade, ele é um seguidor do Antônio Houaiss, que deslusitanizou o Português, com determinada intenção. No entanto, concordo com Bagno no que respeita à "bobagem da lusofonia", porque cada país dito lusófono, tem os seus próprios dialectos, e só alguma elite é que ainda fala e escreve Português escorreito, e isto serve para todos os países africanos de expressão portuguesa, Timor-Leste e também o Brasil, onde existe uma elite, infelizmente pouco numerosa, na qual o meu amigo se inclui, que resiste à deslusitanização da Língua oficial, que ainda é Portuguesa.

 

Agradeço os seus comentários, até porque, por cá, há muito quem pense que SÓ eu é que implico com os brasileirismos introduzidos na oralidade e na escrita portuguesas. E eu apenas pretendo defender a Língua Portuguesa.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:59

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Quarta-feira, 11 de Novembro de 2020

Nos canais de televisão, para além do AO90, reina o espírito de imitação bacoca

 

O que pretendo demonstrar com o que aqui apresento hoje, é que nos canais de televisão servilistas portugueses, não se limitam a aplicar ilegalmente a grafia brasileira, ou seja, o AO90. Começaram já a introduzir outros brasileirismos, para além dos vocábulos mutilados, e de uma acentuação e hifenização completamente obtusas.

 

E das duas uma: ou a legendagem está estrategicamente entregue a cidadãos brasileiros, para que garantam que a língua seja a Brasileira, ou os portugueses decidiram êscrêvê à brasileira, numa imitação muito bacoca, para além do exigido pelo AO90.

 

Então vejamos a amostragem seleccionada:

 

BAGUNÇA.jpg

 

A palavra BAGUNÇA é brasileira (de origem duvidosa) e significa desordem, confusão, em Língua Portuguesa. No Brasil, “bagunça” também significa máquina de remover aterro. O que é que isto tem a ver com Portugal? Nada.

 

Parabenizar.png

A palavra PARABENIZAR é brasileira, e significa dar os parabéns a, felicitar, congratular, saudar, em Língua Portuguesa. O que é que isto tem a ver com Portugal? Nada.

Ver mais neste link:

Ao redor da palabra "parabenizar"…

 

A palavra fita (= filme) é expressão brasileira.

RIFLE.png

 

A palavra RIFLE significa espingarda em Língua Portuguesa, e vem do Inglês rifle, e que os Brasileiros preferiram usar, em detrimento da palavra portuguesa espingarda, que é como em Portugal se diz. Um exemplo da americanização do Português, no Brasil.

 

VIRA.png

 

Em Língua Portuguesa, o verbo VIRAR tem vários significados, mas apenas no Brasil tem o significado que a legenda lhe dá: transformar-se em.

 

DIZER A VOCÊ.png

 

Em Portugal, esta legenda pode escrever-se de dois modos, dependendo do grau de relação entre as personagens: se se tratam por tu, escrever-se-á: tenho uma coisa para dizer-te; se se tratam com cerimónia: tenho uma coisa para dizer-lhe.

Em brasileiro falado: “Eu tênhu úmá côisá párá djizê à vôcê”.

 

VAGÕES.png

 

Neste caso, não era um vagão (do Inglês wagon) que, em Língua Portuguesa, significa veículo que circula sobre carris, especialmente destinado ao transporte de mercadorias. Era sim, uma carruagem de passageiros, a que se referia a notícia, no entanto, usaram a palavra vagão que, no Brasil, tem um significado mais alargado: é cada um dos carros de um comboio ferroviário, utilizados no transporte de mercadorias, animais ou passageiros.

 

Em Portugal os passageiros viajam em carruagens. Em vagões transportam-se mercadorias e, infelizmente, também animais vivos em péssimas condições.

 

PINGUINS.png

 

O trema é um sinal ortográfico (¨) usado para indicar que certas vogais não formam ditongo com a vogal anterior. Em Língua Portuguesa, o trema era utilizado nas vogais átonas -i- e -u- e foi (a meu ver, infelizmente) suprimido depois do Acordo Ortográfico Luso-Brasileiro de 1945, antes do qual se escrevia, por exemplo saüdade .

 

Porém, no Brasil, o trema continuou a usar-se, e muito bem, e só foi hipoteticamente suprimido com o AO90 (porque no Brasil apenas os acordistas o suprimiram), o que traz, e muito naturalmente, os restantes Brasileiros tão importunados, como os Portugueses desacordistas com a parvoíce da supressão do acento em pára do verbo parar. Porque para os Brasileiros, ter acento ou não ter acento, tanto faz, porque eles abrem o A, em pára (verbo) e em para (preposição).

 

E isto tudo para dizer que em Portugal, em Língua Portuguesa, escreve-se Pinguins sem trema, e no Brasil, com trema. Contudo, fica-nos a dúvida: ou este grupo carnavalesco, da minha terra (Ovar) é escrito com trema, para imitar a grafia brasileira, ou por ser um grupo que integra um carnaval quase 100% à moda do Brasil.

 

CONFECCIONADOS.png

Pois a Lagoa da são e os “peixes mais confeccionado” até pode ser gralha, ou então aquele pavoroso desleixo com que agora se trata a Língua, mas bem podia ser um fraseado à brasileira, como eu te preciso, beija eu, eu lhe amo, nós vai, ou aquele super-irritante para eu, com que o Gmail nos atira à cara, nos e-mails.

 

***

 

Bem, os exemplos são às centenas. Esta foi uma pequena amostra, da invasão da Língua Brasileira, em Portugal. Os canais de televisão servilistas, filmes e séries e documentários na TVCINE e outros canais da NOS estão cheios de legendas escritas tipicamente à brasileira, na acentuação (econômico, atômico), na grafia, na sintaxe, no vocabulário, enfim, fica-nos a quase certeza de que as legendas são escritas por Brasileiros. Se são Portugueses que as escrevem, então, são uns paus-muito-mal-mandados.

 

E, tal como milhares de Portugueses, também me questiono: por que será que todos os (des)governantes olham para o lado quando se trata de reverter esta caótica situação? Esta anormalidade? Poderá ser possível que no contrato desta parceria público-privada (entre o Estado e as editoras) constem cláusulas de indemnização às editoras, caso o AO90 seja anulado? Que outro motivo poderá haver? O da irreversibilidade, por as crianças não conseguirem reaprender a escrever correCtamente a sua Língua Materna, depois de lhes ser ensinado a escrevê-la incorreCtamente?

 

Consulte-se os Pedopsicólogos. As crianças têm uma capacidade superior à dos adultos, no que respeita à aprendizagem. Mais difícil será pôr os professores a reaprenderem o que andaram anos a ensinar correCtamnente.

 

Foi um (des)governo do PS que pôs o AO90 em prática. Seguiu-se outro (des)governo, do PSD/CDS, no qual os líderes, enquanto na oposição eram contra, passaram a defender o AO90 ao chegarem ao "poder". Formou-se depois mais outro (des)governo, liderado por um antigo elemento do (des)governo que impôs o AO90 à população. Claro que o actual primeiro-ministro não iria contra as decisões que ele próprio havia apoiado enquanto ministro. O actual (des)governo tem na sua composição partidos que eram opositores do primeiro (des)governo "socialista", mas apesar disso, um deles (o BE) até adoptou o AO90, e o outro (o PCP) faz de conta que não percebe o que aconteceu, mas, ao menos, parece que é contra o AO90!

 

Por vezes digo que nisto há muita ignorância por parte dos políticos. Mas não, aqui além da ignorância da Língua e muita "distracção", há, também, muita, muita corrupção e traição.

 

Tudo isto acontece com a conivência de quem nos (des)governa. Infelizmente, para eles, a Língua Portuguesa não é prioridade, nem sequer importante. Falar e escrever à balda é um fenómeno exclusivamente português.

 

O grande problema é sermos desgovernados por traidores. Que os Brasileiros queiram impor-se no mundo, através de uma língua europeia deformada, é um problema deles,  mas que quem nos deveria defender ceda aos interesses de estrangeiros é que já é um problema nosso.

 

Tal como muitos intelectuais e linguistas brasileiros, e porque conheço bem a Língua que aprendi no Brasil, sou defensora de que o Brasil mude o nome da sua língua para Língua Brasileira. É que se o vão fazer (como é certo e seguro, todos o sabemos) que o façam já, pois este é o momento certo. Brasil acima de tudo!

 

Se o Brasil mudasse oficialmente (porque oficiosamente já circula por aí, na Internet) o nome da Língua para Brasileira, a Língua Portuguesa não ficaria mais pobre, pelo contrário, haveria, até, de se manter mais rica. Porque empobrecida ficou ela agora, com a imposição ilegal deste patético AO90.

 

Com essa mudança não haveria necessidade de "uniformizar" o que não tem uniformização possível, e jamais, em tempo algum, será uniformizado.

 

O tempo vai passando, e dado o vergonhoso desleixo a que está votada a Língua Portuguesa, as novas gerações "lusitanas” a quem os (des)governantes não dão oportunidades em Portugal, irão interessar-se muito mais pelo Inglês, Língua de Comunicação Internacional, do que por um Português que nem é carne nem é peixe, mal-amanhado, desenraizado, empobrecido, menosprezado, desrespeitado  e apalermado... 

 

E é como disse Marcos Bagno, um dos mais importantes linguistas do Brasil, numa entrevista: «Essa ideia de que existe uma coisa chamada “lusofonia”, com vários países de Língua Portuguesa é uma bobagem»…

 

E que BOBAGEM! Acrescento eu, concordando, em absoluto, com Bagno.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 11:42

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Segunda-feira, 9 de Novembro de 2020

Excelente argumentação (mais uma) contra o AO90

 

Repescando um actualíssimo texto de 2016, da autoria de João Pedro Forjaz Secca

Porque é preciso não deixar morrer a fogueira onde há-de ser queimado o AO90.

Bem sei que o tempo é de combate à Covid-19, e a todas as outras doenças que estão em banho-maria, morrendo-se mais por estas do que por aquelas.

Mas dizem-nos que a vida tem de continuar

E da nossa vida também faz parte a nossa Língua, cada vez mais esmagada pelo AO90, pela ignorância dos que  a escrevem mal, e pela indiferença dos governantes portugueses, que assobiam para o lado, como se nada tivessem a ver com isto. O que vale é que nenhum deles será candidato a nome de ruas ou a ser perpetuado em estátuas. Podem crer.

Isabel A. Ferreira

 

ANO LECTIVO.jpg

Origem da imagem (adaptada): http://pt.slideshare.net/galegaencarnada/recepo-alunos-prescolar

 

Por João Pedro Forjaz Secca

 

«Resolvi escrever um texto com as razões da minha discordância quanto ao famigerado AO90. Aqui fica:

 

Alguns argumentos contra o AO90

 

Infelizmente, deparamo-nos hoje com uma ortografia mutilada que não respeita a etimologia nem a fonética, já que as ditas consoantes mudas também lá estavam para abrirem a vogal precedente...

 

Este "aborto" ortográfico é baseado numa mentira - a da unificação da ortografia. De facto, que unificação é essa, se antes do AO a palavra "recepção", por exemplo, se escrevia do mesmo modo em Portugal e no Brasil e, após o acordo se escreve de modo diferente??? (e há muitos exemplos como este...). O critério fonético não pode servir de norma ortográfica, devido às variações regionais de pronúncia - senão a palavra "vaca" teria que ser escrita de modo diferente em Lisboa e no Porto, a palavra "assim" teria a grafia "achim" em Viseu, e a palavra "consciência" seria grafada "conciência" na Covilhã.

 

Ou então passamos a retirar também o H de homem, hoje, hospital, etc. ... O argumento da simplificação da escrita para facilitar a aprendizagem é absurdo. Como é que as criancinhas inglesas, coitadas, aprendem a escrever inglês, com aqueles F's e PH's e mais não sei quantas consoantes mudas...? Tudo isto me faz lembrar a "novilíngua" do romance de George Orwell, "1984", em que a língua vai sendo simplificada para se ir progressivamente dominando a população pela redução à estupidez. É preciso não esquecer que pensamos por associação de palavras e que a possibilidade de nos remetermos ao étimo é fundamental para uma correcta compreensão e elaboração de conceitos.

 

E o que este AO faz é ignorar completamente as questões etimológicas. É um absurdo, elaborado por um grupo de linguistas que teria na sua agenda interesses económicos (Malaca Casteleiro e Antônio Houaiss) para a venda de livros e dicionários em ambos os lados do Atlântico, e cujas consequências da aplicação resultaram num total caos ortográfico, como se pode ver pelas notas de rodapé que aparecem na tv, cheias de gralhas, e até no Diário da República, em que começam a desaparecer consoantes que nem com o infame AO teriam desaparecido - com "fato" por facto, ou "contato" por contacto... (também há o episódio de uma edição recente de um livro do Saramago, já com o AO, em que uma personagem aparece como tendo feito um "pato" com o diabo...)

 

As modificações ortográficas da reforma ortográfica de 1945 foram feitas por gente muito mais inteligente do que este grupo do Malaca Casteleiro. É preciso também não esquecer quais as tristes figuras políticas que foram responsáveis pela aplicação apressada do "aborto" - Santana Lopes, Cavaco Silva e, mais tarde, José Sócrates - tudo gente que não prima, propriamente, pela cultura que possui... Mais de 80% dos nossos linguistas e escritores são, obviamente, contra este atabalhoado AO90 (que até os próprios proponentes começam a reconhecer que apresenta muitas falhas).

 

Mais alguns argumentos:

 

- o absurdo de haver palavras que, por pertencerem à mesma família semântica e, consequentemente, deverem apresentar grafias concordantes, agora aparecerem escritas de modo diferente, como "Egito"/egípcio e "ótico"/optometrista (...e com os medicamentos que agora aparecem designados como soluções "óticas" ficamos sem saber se é para pôr as gotas nos olhos ou nos ouvidos... na dúvida coloque no nariz!).

 

Se atentarmos ao rigor científico, temos de concluir que este AO é uma desgraça. E quanto ao critério fonético, há tanta gente que pronuncia o P de Egipto...! Quem é que decide como é que a palavra se pronuncia? Essa história de as letras desaparecerem porque não se pronunciam... há muita gente que não pronuncia e muita gente que pronuncia as tais letras!

- o manual de Ciências Naturais do 9º ano da Porto Editora, Cientic, fala em doenças "infeciosas"... só muito raramente se ouve alguém pronunciar a palavra como "inféSSiosas", sendo a pronúncia habitual "inféQsiosas". Escrevi para lá (linhaderigor@portoeditora.pt) e responderam-me dizendo que é um caso de dupla grafia e que "na pronúncia comum da palavra na variante europeia do português a consoante é muda" (o que é totalmente falso...). Esta história das duplas grafias, ou das facultatividades, só veio aumentar, e muito, a confusão generalizada e tornar mais difícil a aprendizagem do português pelas crianças. Já havia, claro, algumas duplas grafias, anteriormente, como ouro/oiro e touro/toiro. Mas não era necessário introduzir mais outras tantas!

 

- a duplicidade de sentido que aparece em palavras que antes eram objectivas e inequívocas e agora passam a ser dúbias, como "espetador" (ficamos sem saber se estamos em presença de um espectador ou de alguém que espeta coisas, como um toureiro) e "detetar" (referem-se ao verbo detectar ou ao acto de tirar a teta ?). Ou, em vez de recepção, "receção", em que a tendência natural é para lê-la como "recessão"...

 

Finalmente, há ainda a considerar que o AO90 é ilegal e inconstitucional, já que não foi ratificado por todos os países proponentese "o governo não cumpriu os passos processuais que a sua aplicação implicava". Quanto a este ponto, têm toda uma argumentação muito bem fundamentada no livro: "O Acordo Ortográfico de 1990 não está em vigor", com o subtítulo "Prepotências do Governo de José Sócrates e do Presidente Cavaco Silva", do Embaixador Carlos Fernandes (Ed. Guerra e Paz, 2016).

 

Um dos argumentos disparatados dos defensores do acordo é que a língua tem que evoluir. Então, em vez de deixá-la evoluir naturalmente, toca a forçar a sua "evolução a todo o custo"! É o mesmo que um evolucionista querer provocar a evolução de seres vivos colocando-os em contacto com as radiações de Tchernobyl ou de Fukushima, para alterar o seu DNA... E depois dizer: "Mas os seres vivos têm que evoluir"...

 

Em jeito de conclusão deixo-vos três perguntas:

 

1 - Este AO era necessário? Não. Os vários países do mundo em que se fala inglês, francês, espanhol ou árabe nunca fizeram acordo algum entre si e, apesar das variantes regionais que cada um destes idiomas apresenta, entendem-se todos muito bem a nível linguístico.

 

2 - Este AO serviu para alguma coisa? Não. Absolutamente nada! Continuamos, e continuaremos, a escrever de modo diferente em Portugal e no Brasil, havendo até várias palavras que antes se escreviam do mesmo modo, como "recepção" e que agora têm grafias diferentes cá e lá. E continuarão a existir sempre enormes diferenças de vocabulário e de construção frásica entre o português de Portugal e o português do Brasil que nenhum acordo poderá jamais resolver (a não ser que o secreto objectivo por trás disto tudo seja mesmo ir transformando, aos poucos, o nosso português em brasileiro...).

 

3 - Trouxe vantagens? Foi positivo? Nem um pouco! Nunca se escreveu tão mal e com tantos erros ortográficos como actualmente, após a aplicação do AO (que ainda por cima, como já referi anteriormente, é ilegal e inconstitucional).

 

É por estas e por outras que eu me recuso, terminantemente, a escrever em acordês (prefiro o português)...»

 

Fonte: https://www.facebook.com/joao.secca/posts/10206780174495385

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:02

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Sexta-feira, 6 de Novembro de 2020

«Com tanta “excessão”, ainda corremos o risco de não resistir ao “impato”»

 

«Erros como estes não existiam antes do “milagroso” Acordo Ortográfico, que abriu a porta a tais enormidades» (Nuno Pacheco in Jornal PÚBLICO)

 

Exceção.jpg

 

Por Nuno Pacheco

 

Pelos vistos, não há forma de fugir a isto. No dia em que o Governo anunciou restrições na circulação e na vida quotidiana dos portugueses, devido ao não amainar da pandemia da covid-19, logo soubemos que tais restrições tinham “excessões”. Grandes excessos, daí o aumentativo? Não, excepções, casos em que a regra não se aplica. Só que, como o Acordo Ortográfico resolveu tirar-lhe o P, a passagem de excepção a “exceção” deu-lhe carta-branca para ser… “excessão”. Excesso de zelo acordista, atarantamento ou simples estupidez, a verdade é que erros como este não existiam antes do “milagroso” Acordo Ortográfico, que abriu a porta a tais enormidades.

 

Pois na RTP, o único canal de televisão que teima em ter “telespetadores” em vez de telespectadores (como se diz e escreve no Brasil e no resto do mundo lusófono), lá tivemos direito a “restrições com muitas excessões”. Podia ser lapso, ou erro passageiro, mas repetiu-se – portanto, foi mesmo convicção (ou será “convição”?). Não só na RTP, também na CMTV. Assim: “Excessão: surto único”. A par do português escrito com nexo, anda para aí a medrar (talvez com ligeira troca de letras esta palavra fosse mais verdadeira) uma língua estranha, que se rege por sons sem ligar a significados.

 

Talvez nem seja só por sons, já que também voltaram os “impatos” e os “corrutos”, por “impactos” e “corruptos”. De novo na RTP, numa legenda do programa A Nossa Tarde (e estas “descobertas” devem-se a leitores e espectadores atentos, que as vão divulgando, indignados, nas redes sociais), lá estava esta linda frase: “O impato do isolamento nos seniores”. Sim, senhor, que belo impato. Mas não é de hoje. A Renascença, no dia 12/11/2018, ao anunciar a “actualidade” (sem acordo!) na Edição da Noite, falava do “movimento #MeToo e o seu impato em Portugal”. Ora este insano e repetido “impato” só empata um entendimento digno do português. Apesar disso, vai-se multiplicando sem freio nem emenda. E que dizer do jornal Sol, tão respeitador do Acordo Ortográfico, que nas suas efemérides fala do “muito corruto ditador Xá da Pérsia”?

 

Voltando às medidas de emergência: cinco constitucionalistas ouvidos pelo PÚBLICO vieram defender “que o Parlamento devia legislar com urgência com vista à criação da figura da emergência sanitária”. Isto porque, segundo um deles, o antigo deputado e dirigente do PS Vitalino Canas, “uma resolução do Conselho de Ministros não é um instrumento legislativo e muito menos tem a legitimidade e robustez para restringir direitos fundamentais”. Não deixa de ser cómico verificar que, neste caso, uma resolução “não tem robustez” nem legitimidade, sendo necessária uma lei, quando o acordo ortográfico nos foi imposto precisamente por resoluções, sem qualquer lei que o legitime. Até há uma lei, na verdade, mas é a que legitima a reforma ortográfica de 1945 – e que continua em vigor.

 

Mudando de assunto, mas permanecendo na língua. Quem votou, por estes dias, em eleições para escolher entre Biden e Trump? Os americanos? Os norte-americanos? Os estado-unidenses? Os estadunidenses? Na verdade, todos eles. Os dicionários admitem todas estas designações para os habitantes dos Estados Unidos da América, embora as duas últimas sejam usadas quase em exclusivo no Brasil. Porém, como os portugueses adoram copiar modas (e a língua não é excepção), há quem insista que o mais correcto seria optar por estado-unidenses ou estadunidenses, porque americanos seriam todos os habitantes do continente, desde a mais extrema ponta da América do Sul até ao extremo norte do Canadá.

 

Mas em que América estaria a pensar Allen Ginsberg quando gritou num poema “America I’ve given you all and now I’m nothing!” E quando se canta, em West Side Story, “I like to be in AmericaOkay by me in America”? E a que jovens se referia David Bowie em Young americans? E que cidadãos retrata a série televisiva The Americans? E o que seria Carmen Miranda a cantar “Disseram que voltei estadunidencizada”, em lugar de “Disseram que voltei americanizada” no célebre samba de Luís Peixoto e Vicente Paiva? Chamamos reino-unidenses aos cidadãos do Reino Unido? Republicanos-populares aos chineses? É verdade que Estados Unidos só existem hoje os da América. Mas já existiram os Estados Unidos da Venezuela (até 1953), os da Colômbia (até 1886) e os do Brasil (de 1889 até 1968), agora repúblicas. Por isso, será mais avisado chamar aos cidadãos dos Estados Unidos o que eles chamam a si próprios: americanos.

 

NOTA: Por lapso, corrigido devido à oportuna chamada de atenção de um leitor, os Estados Unidos do Brasil não tinham sido referidos no texto original. Fica feita a rectificação.

 

Fonte:

https://www.publico.pt/2020/11/05/culturaipsilon/opiniao/tanta-excessao-corremos-risco-nao-resistir-impato-1937920?fbclid=IwAR0Qe9BZs90jeo-LCcC2WJ-ulPmXVSUo5LwOLCccnxs93-w-vup-zhG3UJk

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:54

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Quinta-feira, 5 de Novembro de 2020

«Perda de Nave Espacial» - um conto que veio de Itália, em Bom Português, onde se fala da importância da linguagem e da preservação da diversidade cultural interplanetária

 

Matilde Maruri Alicante, autora deste conto futurista escrito por volta de 1995, é uma escritora italiana, bastante versátil, que ama muito Portugal e estudou a Língua Portuguesa com paixão, tendo viajado bastante pelo nosso País.

 

Matilde Maruri Alicante dá-me a honra de ser minha amiga, há longos anos. E do mesmo modo que ela ama Portugal, eu amo a Itália, e este facto contribui para que partilhemos as nossas duas Culturas e Idiomas, se bem que eu não seja capaz de escrever Italiano tão perfeitamente como ela escreve Português.

 

Matilde tem publicado vários livros sobre diferentes temas, alguns deles dedicados à agricultura biológica e à ecologia. Também escreve artigos para a Web e para revistas, especialmente sobre viagens e culinária, dois temas que facilitam os encontros pacíficos com culturas diferentes.

 

Também gosta muito de música e escreve letras para canções, que foram publicadas em alguns CDs.

 

***

A personagem deste conto chama-se João, é arquivista no Departamento Danos da P.U.A., uma Companhia de Seguros, com a tarefa de classificar as práticas definidas, dividindo-as de acordo com o idioma do sistema do planeta ou do sistema estrelar a que pertenciam, tendo sido adoptado um método diferente de divisão territorial: a da linguagem.

 

Outros elementos de avaliação, para que a um território pudesse ser dada a qualidade de nação unida, eram, juntamente com a linguagem, a arquitectura, os hábitos das pessoas e o tipo de cozinha.

 

O enredo situa-se num futuro possível, onde se pratica um intercâmbio de idiomas e de hábitos culturais, deixando intacta a variedade de costumes locais.

 

Recomendo vivamente a leitura deste conto, por dois motivos: por ter sido escrito num Português impecável, por uma escritora estrangeira, e por conter uma ideia de futuro, muito interessante.

Isabel A. Ferreira

(Clicar na imagem para ouvirem o coro no YouTube)

 

(…) na Terra tinha sido criado um coro em que participavam todos os habitantes.

 

Por Matilde Maruri Alicante

matildemarurialicante@gmail.com

 

«Perda de Nave Espacial»

 

João estava sentado no seu local de trabalho, numa grande mesa de escritório transparente, parcialmente ocupada por um teclado grande e alguns monitores quando o videofone enviou um sinal. Quando ele aceitou a comunicação apareceu a imagem sorridente do seu amigo Paulo.

— Como estás? — perguntou Paulo.

— Sinto-me como se tivesse sido bombardeado. — respondeu João — Tive a ideia de celebrar todos os primeiros dias da Terra, e fiquei acordado a beber champanhe a cada meia-noite. Fiz um brinde a cada minuto, a todas as horas. Encontras-me aqui, porque se tivesse ficado em casa para o trabalho, como de costume, teria arriscado adormecer no teclado.

— Parabéns! — disse Paulo, rindo.

— Obrigado. — respondeu João — também te desejo um Feliz Ano Novo. Então, vamos encontrar-nos amanhã de manhã para fazer jardinagem?

— Certamente. — Paulo confirmou — Às cinco e meia está bem?

— Para mim, sim. Vou dirigir-me directamente ao Parque das Magnólias. Quantos somos? Julgas que podemos terminar o trabalho em tempo para as Férias da Primavera? 

Paulo respondeu amavelmente às muitas perguntas do amigo. Ele tinha uma voz bonita e profunda, e estava sempre calmo, o que tornava muito agradável a companhia dele.

— Somos vinte e oito. Não te preocupes, João, naquela altura o Parque vai ficar esplendoroso.

— Bem, até mais tarde. — Concluiu João.

 

João terminou a comunicação e recomeçou a trabalhar. Era arquivista no Departamento Danos de uma grande Companhia de Seguros, com a tarefa de classificar as práticas definidas, dividindo-as de acordo com o idioma do sistema do planeta ou do sistema estrelar a que pertenciam. Seguia o turno 9/5, que é o que ia das nove da noite até às cinco da manhã, ideal para a sua natureza nocturna. Paulo era um dos seus melhores amigos, um daqueles com que, depois do trabalho, ia contemplar o nascer do sol, comer alguma coisa e passar o tempo até ao momento de ir dormir, para acordar ao entardecer, quando, com a energia lunar, a sua lucidez mental começava a aumentar.

 

Na verdade, falar sobre dia e noite já não tinha o significado de uma época em que a alternância da escuridão e luz marcava o ritmo de trabalho e descanso. Já há muitas centenas de anos que as actividades na Terra continuavam durante todas as vinte e quatro horas. Por outro lado, de nenhuma outra forma teria sido possível satisfazer a necessidade de manter a comunicação com dezenas de planetas que mediam o tempo com métodos diferentes. A única possibilidade era estar constantemente presentes e à escuta.

 

Esta decisão foi tomada por todos os governos dos planetas do sistema, no primeiro dia da terceira era astral. Desde então, todos os habitantes do planeta tiveram a oportunidade de escolher o turno mais congenial para eles. Na Terra foram estabelecidos três turnos: o primeiro, das nove da manhã até à uma da tarde, o segundo da uma da tarde até as às nove da noite, a terceira, das nove da noite até às cinco da manhã. Para abreviar e por piada, os trabalhadores do primeiro turno tinham sido apelidados de cotovias, os do segundo, cigarras e os do terceiro, corujas. Mesmo aqueles que tinham um trabalho independente tiveram livre escolha para trabalhar quando preferiam. A única condição importante era a continuidade de cada serviço, de maneira que todos, cotovias, cigarras ou corujas, que fossem, podiam fazer qualquer coisa em qualquer momento.

 

Durante o mesmo período, bem como uma divisão diferente dos turnos de trabalho, também havia sido adoptado um método diferente de divisão territorial, a da linguagem. Consideravam-se como pertencentes à mesma zona da Terra, os lugares onde as pessoas falavam a mesma língua, com o conceito de que para a homogeneidade da população e o bom funcionamento do comércio e dos assuntos internos fosse suficiente comunicar com a mesma linguagem.

 

Contudo, porque em todos os lugares era absolutamente proibido o isolamento, os habitantes dos planetas que estavam relacionados entre si deviam ser capazes de falar tanto a linguagem matemática universal quanto pelo menos três línguas além da sua própria, de maneira que fosse possível comunicar em qualquer lugar do próprio planeta e com um bom número de planetas em outros sistemas. Se, no decurso do tempo, por qualquer motivo, tivessem ocorrido mudanças na língua de um lugar, também se mudava a divisão do território. Uma comissão especial de estudiosos, que continuamente exploravam cada planeta, estava encarregada de tomar nota de todas as mutações, a fim de redesenhar as fronteiras territoriais quando as variantes do idioma indicavam que a mentalidade das pessoas já não era a mesma.

 

Outros elementos de avaliação, para que a um território pudesse ser dada a qualidade de nação unida, eram, juntamente com a linguagem, a arquitectura, os hábitos das pessoas e o tipo de cozinha.

 

Naquela altura, foi longamente debatido se não seria conveniente uniformizar a língua, as leis e costumes de toda a Terra. Concluiu-se que teria sido tão desconfortável e limitativo para os seres humanos que foi decidido aceitar a realidade tal como ela era, irredutivelmente multifacetada. Em vez disso, foi dado o impulso máximo para a melhoria dos sistemas de informação, que ao longo do tempo se tornaram tão rápidos e precisos para compensar quaisquer diferenças. Além disso, com a participação de todos os representantes das várias jurisdições territoriais, foi escrita uma Constituição Interplanetária que estabelecia de maneira simples os elementos básicos para o bom funcionamento da vida, que as pessoas respeitavam em todos os lugares. Desta forma foi alcançado o nível de uniformidade necessário para manter um sentido de coesão entre os habitantes de todos os planetas, deixando intacta a variedade de costumes locais.

 

O resultado dessas mudanças foi um alto grau de liberdade das pessoas, que podiam ir a qualquer lugar do planeta sempre se sentindo aceites, contanto que falassem a linguagem do lugar. Ocorreram casos de nações inteiras que, ao fim de se transferirem para outras jurisdições, tinham mudado completamente de alimentos, casas, e língua, e nunca a transferência foi negada, pelo princípio de que nenhum movimento interno poderia comprometer a integridade do planeta.

 

As estatísticas diziam que nos países onde tinha sido decidido adoptar uma diferente linguagem e cozinha, a fim de obter a transferência para outras jurisdições havia um alto grau de harmonia, que se havia criado especialmente quando todas as pessoas se tinham reunido no esforço e no trabalho colectivo para aprender o novo idioma e os novos hábitos alimentares. Também parecia que as mudanças tiveram uma influência positiva sobre o humor das pessoas, porque todos que se mudavam tinham a convicção de fazê-lo para melhor e ficavam satisfeitos.

 

Desta forma, a vida nos planetas estava sempre muito movimentada. Havia sempre alguém que estava a mover-se de um lado para o outro, e havia muitas escolas onde se aprendia línguas, modos de cozinhar e construção de habitações.

 

Também foram instituídos inúmeros centros interplanetários, muito frequentados, onde era possível estudar e praticar os modos de vida e de produção dos outros planetas conhecidos. Estes centros enviavam à Terra grupos virtuais de pessoas capazes de apresentar o modo de vida do planeta deles. Os terrestres, que queriam aprendê-lo, poderiam viver por um tempo com esses grupos, a fim de fazer experiência directa dos hábitos deles. Claro, também era possível o contrário, e os usos da Terra foram estudados em centros interplanetários de outros planetas.

 

Tal fervoroso uso de energia para a aprendizagem, ao longo do tempo, tinha produzido um efeito inesperado. Na Terra, as guerras acabaram. Parecia que as pessoas, atarefadas e ocupadas em criar algo, tinham perdido o desejo de gastar tempo em empresas destrutivas.

 

Muitos comprometeram-se a criar objectos, sistemas ou teorias que facilitassem a vida. Desta forma foram criados roupa e calçado resistentes a tudo, tornando possível viajar através do espaço sem qualquer dificuldade. Na verdade, até mesmo as viagens eram muito populares. As pessoas partiam para qualquer destino e por várias razões, desde as pesquisas geológicas à participação em torneios, aos tratamentos de SPA, meditação e estudo. Praticavam-se as actividades desportivas mais variadas, e cantar era uma grande diversão para a maioria.

 

Na Terra, tinha sido criado um coro em que participavam todos os habitantes. Todos aqueles que queriam cantar eram designados para uma secção, de acordo com o tipo de voz e o lugar onde viviam. Como não era possível que os participantes se reunissem num único lugar todos cantavam a partir da própria casa.

 

A distância entre os cantores fez surgir o problema de obter a unidade e a contemporaneidade da constelação de vozes provenientes de diversas fontes, que empregavam tempos diferentes para alcançar os pontos de escuta. Por isso, foi posto em órbita em torno da Terra uma grande estação de rádio, que captava o som das vozes de todos os cantores e fundia-as num som único. Aqui era onde realmente todas as vozes se harmonizavam entre si e o coro se formava. De lá, o som era retransmitido para a Terra para ser ouvido.

 

Encontrar a concordância certa entre todos foi um trabalho complicado, mas acabou por fazer parte da diversão. Às vezes, organizavam-se competições com outros planetas, e um júri interplanetário premiava os melhores coros.

 

Este processo foi começado por acontecimentos muito distantes no tempo. Por muitos anos, a humanidade havia sido consumida por guerras devastadoras, desencadeadas pelas causas mais diferentes. Tentou-se evitá-las ou limitá-las de várias maneiras, mas quase sempre em vão, até que se decidiu deixar tudo acontecer.

 

A partir desse momento realmente aconteceu tudo, muitas pessoas tinham morrido e muitos países tinham sido destruídos, enquanto a Terra mergulhava no caos. Contudo, curiosamente, juntamente com as guerras e destruição, até mesmo o exacto oposto acontecia, pois nas pessoas nascia o desejo e a necessidade de reconstruir, de qualquer forma, o que tinha sido destruído e experimentar o prazer de fazer, de inventar, de criar e construir. Todos aqueles que tinham construído algo estavam preocupados com o facto de uma nova guerra poder destruir a produção deles e estavam interessados em não fazer desencadear outras.

 

Foi assim que com o tempo a antiga tendência bélica cessou. Como cada vez menos pessoas estavam dispostas a combater, já não foi possível formar exércitos, e os governantes que queriam fazer a guerra contra alguém não tinham quem a fizesse. Para satisfazer o seu próprio desejo de poder, por vezes organizaram duelos entre eles, com a ideia de que o vencedor do duelo venceria a guerra e ganharia o poder. Não funcionou, era uma ideia demasiado estúpida, mas ver chefes de Estado em estádios e arenas a lutar com punhos, com armas de fogo, espadas, paus e de outras formas fantasiosas foi um espectáculo muito divertido para toda a população.

 

Não durou muito, porque eles próprios, os chefes de Estado, além de não ter a mínima preparação física e psicológica, compreenderam que isso tudo era ridículo e sem sentido, abandonaram a ideia por completo e começaram a tentar encontrar acordos e colaborar. Descobriram então que não era impossível.

 

Então, estranhamente e, paradoxalmente, as guerras terminaram apenas quando não se tinha feito nada para evitá-las.

 

Todavia, foi uma época terrível, um período obscuro que durou centenas de anos, e mesmo naquele tempo, mesmo quando no final tudo tinha terminado bem, os historiadores não tinham certeza se deixar tudo acontecer tinha sido uma boa ideia. Em qualquer caso, as coisas tinham corrido assim.

 

Entre os muitos amigos de João também havia Gri, que vivia num mundo onde o modo de vida era parecido com o praticado na Terra, muitos séculos antes. João tinha-a conhecido no dia em que todos os coros terrestres tinham cantado juntos para celebrar o aniversário da Grande Paz. Gri ficou fascinada com aquele canto de milhões de vozes, e na tentativa de entrar em contacto com algum terrestre, encontrou João. Ele tinha-lhe explicado que cantar era uma arte cultivada por quase todos na Terra, porque harmonizava e facilitava a comunicação, também explicando como eles tinham conseguido superar as dificuldades relacionadas com as distâncias e diferenças de tempo.

 

A partir de então eles sempre se mantiveram em contacto. Graças a ela, João conseguiu um conhecimento profundo de muitos factos do passado, cuja documentação tinha sido destruída durante o longo período de guerras. Com grande emoção João havia estudado todos os eventos que tinham levado ao que foi chamado de Unificação, a união de todos os países e povos da Terra, e o longo debate sobre a conveniência de unificar também as línguas e costumes, um debate que se tinha concluído com a decisão unânime de aceitar a existência da diversidade, considerando-a um valor e uma fonte de ensino.

 

No entanto, por vezes, os discursos de Gri irritavam um pouco João. Na opinião dela, por exemplo, os terrestres estavam demasiado envolvidos em trabalhos, reservando pouco tempo à diversão.

 

Neste ponto João não tinha a certeza de entender bem. Claramente ele entendia a fórmula que Gri usava para definir a diversão, mas porque na Terra a mesma fórmula era utilizada para indicar o trabalho, excepto por um factor que indica a existência de um pagamento, um factor que era adicionado ou removido conforme o caso, intuía que Gri talvez estivesse a referir-se a outra coisa. Formulou a hipótese de que fosse beber, embebedar-se, dançar desenfreadamente, fazer barulho e confusão, mas não quis aprofundar.

 

Igualmente, escapava-lhe o conceito de riqueza, que Gri explicava com a fórmula "possuir muitos objectos". Ou, melhor, porque a hipótese de não possuir muitos objectos, não ter riqueza, não serem ricos, devia causar, na opinião dela, um sentido de falta e sofrimento. Em conclusão: ele não compreendia porque é que as pessoas podiam sofrer por não serem ricas (ou "não possuir muitos objectos"). De facto, ele, em nenhuma das suas muitas viagens, tinha encontrado alguém que parecesse "possuir muitos objectos", embora ninguém deles se queixasse por um sentido de falta de qualquer coisa e parecesse sofrer por isso.

 

João neste caso considerava muito estranhas as fórmulas matemáticas de Gri. Ele compreendia os termos um por um, mas não conseguia alcançar o resultado final. Às vezes, ele tinha a sensação de que pertenciam a outro sistema matemático.

 

Outro ponto em que a sua amiga levantava objecções era no que respeita aos edifícios e às casas. Estas pareciam-lhe muito extravagantes no exterior, e sempre muito "vazias" no interior. Pelo contrário, João considerava as casas da Terra muito lindas. Todas. As subterrâneas, as grandes plataformas na água, aquelas em forma de ovo ou de cúpula, as grandes pirâmides. Cada uma tinha a sua própria razão de ser construída daquela determinada maneira e naquele determinado lugar, cada uma era um laboratório para absorver luz e calor e ou rejeitá-los, para reabastecer elementos úteis, como água e processar resíduos. Ele tinha uma predilecção especial pela casa de Kyria, uma espécie de cogumelo muito alto, no qual se tinha continuamente a sensação de partir em voo.

 

Gri julgava apenas aceitável o edifício de quarenta andares que era a sede da P.U.A., a Companhia de Seguros para a qual João trabalhava, talvez porque este fosse parecido com as construções do planeta dela. Na verdade, o prédio reflectia um certo grau de atraso, era preciso dizer, tal como a empresa e a sua propensão para as hierarquias. A cada andar correspondia uma posição mais ou menos influente no trabalho, e este sistema tinha o poder de criar uma mentalidade em que as palavras "alto" e "baixo" estavam ligadas subtilmente e obscuramente ao valor das pessoas que ocupavam o andar. Embora João, como a grande maioria dos terrestres, trabalhasse na sua casa, mantendo-se razoavelmente alheio a essa influência, ele compreendia que, de alguma forma, era igualmente tocado. E isto não lhe agradava muito.

 

João continuou a armazenar documentos. A um certo ponto virou a cabeça para espirrar e... viu dois indivíduos que pareciam enormes morcegos, um mais claro e um mais escuro. E o espirro ficou por dar.

 

— Quem são vocês? — perguntou alarmado, levantando-se precipitadamente.

Os dois estavam à frente dele, imóveis.

— Silêncio — ordenaram eles — Senta-te.

João sentou-se e ficou imóvel, mais pela surpresa do que pelo medo, a observá-los com atenção. Eles eram mais altos e grandes do que qualquer terrestre, e pareciam seres racionais. Conversaram por um momento entre eles, numa língua desconhecida, fazendo um barulho como um ventilador que chiasse pondo-se em movimento:

Ppprrrrcccssssfffnnntttttmmmnnnntttnnntttllllgggnntttvvvvmmmssstttnnntttrrrr

Depois, um deles perguntou:

— Quem és tu?

— O meu nome é João.

— O que estás a fazer aqui? — insistiram os dois.

— Este é o meu trabalho. Pergunto o que estão a fazer vocês! — João respondeu numa voz irritada.

— Silêncio. Temos de te eliminar. — Decretaram os dois.

 

Em João a surpresa superava o medo, tanto que a única coisa que consegui dizer foi:
— Porquê?

— Lembras-te de que há algum tempo se perdeu uma nave espacial em voo do planeta X428 para o planeta Yh3 após uma aterragem de emergência em Zy18?

João era um bom arquivista, com boa memória e conseguia lembrar-se do incidente. Parecia-lhe completamente sem sentido que dois estranhos tivessem chegado tão longe do nada e se apresentassem dessa forma apenas para pedir informações sobre uma prática arquivada. Podiam simplesmente enviar-lhe uma mensagem, poupando tempo, energia e ameaças aterrorizantes.

No entanto, ele respondeu de maneira neutra, tal como óptimo profissional que era:

— Sim. Sei que foi aberta uma prática para a regularização.

Os dois observaram-no por um tempo, ameaçadoramente, ou assim julgou João, depois começaram a pressioná-lo com perguntas e pedidos de esclarecimento. Para João, ficou claro que só queriam respostas prontas, precisas e concisas e que quanto mais ele hesitasse, tanto mais ele iria irritá-los.

— Sabes também que o prejuízo não foi pago? — perguntaram os dois.

— Sim. — confirmou João — Não era indemnizável. A perda ocorreu antes do início da garantia.

— Isto é o que afirma a P.U.A., mas deves ter em conta o facto de que o navio estava a viajar num sistema com o tempo diferente do da Terra, e para determinar que o dano não era indemnizável, porque a perda ocorreu antes do início da garantia, vocês teriam de fazer a conversão do horário.

— Não compreendo. — Objectou João — Esta operação é realizada normalmente, e foi realizada, como sempre.

— Claro, mas é preciso fazê-la correctamente. — Objectaram os dois ao mesmo tempo — Neste caso, o planeta em que ocorreu o acidente é parte de um sistema cujos horários ainda não estão definitivamente codificados. A P.U.A conseguiu ter vantagem nisso, para elaborar a tese de que o prejuízo não é indemnizável, ignorando evidências claras tais como as gravações de sinais de alarme lançados a partir da nave antes de se precipitar, e captado por pelo menos cinco planetas, com horários diferentes dos da Terra, mas codificados e reconhecidos. Através deles é possível determinar, com precisão absoluta, quando o episodio ocorreu. E naquele tempo o risco estava coberto.

— E se o que vocês dizem é verdade porquê a P.U.A. não tomou em conta as evidências apresentadas? — Perguntou João.

— Para evitar uma despesa, claro. Não é a primeira vez, já sabemos isso, que a P.U.A. intenta fazer operações semelhantes, mas eles não vão acabar com esta. O Conselho do nosso planeta decidiu não o permitir.

— Vocês poderiam recorrer para o Conselho Interstelar.

— Já fizemos isso, e estamos à espera de uma decisão deles, mas, ao mesmo tempo, decidimos punir a P.U.A. destruindo a sede deles. Agora temos de eliminar-te a ti, que tentarias avisar o Centro de Vigilância, da nossa presença.

João ficou pálido, mas conseguiu controlar-se e, com o máximo de dignidade possível, propôs:

— Não façam isso! Não me matem, eu posso ajudar.

— Como julgas que podes ajudar?

— Posso fazer com que vocês obtenham a compensação para o navio perdido.  Posso autorizar a regularização, sem que ninguém se aperceba de nada. Pensem nisso, seria conveniente para vocês.

— De acordo, aceitamos. — disseram os dois ao mesmo tempo — Agora descreve com precisão e em pormenor tudo o que vai acontecer para se obter o resultado do que estás a prometer. Declara todos os gestos e movimentos que vais fazer e cuida de fazer isto com muita precisão. Se algo não corresponder vamos eliminar-te.

 

Então João explicou o procedimento com meticulosidade, enquanto os dois ouviam atentamente. Teria sido necessário ir até ao trigésimo nono andar e trabalhar a partir do computador do chefe do ramo Aeronaves, Departamento Danos, chamando o ficheiro para confirmar a ordem de pagamento. João silenciosamente esperava que isto acabasse bem para ele.

— Não te preocupes. — disse um dos dois extraterrestres - Se fizeres tudo o que disseste, não estás a correr riscos. Lembra-te de que que nós estamos aqui porque foi cometida uma injustiça contra nós. Atacar sem razão não é nosso hábito.


João experimentou uma sensação estranha. Na verdade, não foi a primeira vez que aconteceu desde que aqueles dois tinham aparecido. Sempre que olhavam para ele, parecia-lhe ser atravessado por uma onda. Era uma sensação tão subtil, vaga e nova que ele não conseguia analisá-la, menos do que nunca na condição de humor em que se encontrava naquele momento. Ele tinha mesmo a impressão de que os dois eram cegos, embora se apercebessem de qualquer coisa com precisão. Quase parecia que eles não viam com os olhos, que também tinham, mas de alguma outra forma misteriosa. Talvez ele estivesse errado, mas… lembrou-se de um velho ditado do seu avô: "Nada vem do vazio". Talvez, pensou, nem este sentimento surgisse do vazio, do nada. Em qualquer caso, não havia tempo para pensamentos desses. O facto era que os dois entendiam perfeitamente tudo o que estava a acontecer ao redor deles, e qualquer especulação era inútil.

 

Os dois extraterrestres fizeram-lhe um sinal para ele agir. João extraiu o file do arquivo e inseriu-o na memória do computador do chefe do Ramo Aeronaves, Departamento Danos. Depois, seguido pelos dois, deixou o seu escritório e dirigiu-se para a Sala dos Elevadores, uma grande sala com paredes e chão brancos. Naquele momento ele teve uma ideia: se tivessem apanhado o elevador número quarenta em vez do número trinta e nove, teriam chegado directamente à Sala de Vigilância, onde os extraterrestres teriam sido capturados. Uma boa acção, que teria impedido os dois de conseguir o que queriam, enquanto ele, graças a este acto de heroísmo, poderia obter a promoção que desejava. Esperou conseguir, o número do elevador estava gravado na placa do comando de chamada, talvez os dois não tivessem reparado em nada. João parou em frente do elevador número quarenta.

— O que está a acontecer? — perguntou um dos extraterrestres.

— Como? — João perguntou, fingindo não compreender, enquanto as suas costas eram atravessadas por um calafrio.

— Há algo errado. — Continuou o outro extraterrestre.

— Estamos no lugar errado. — Conclui o primeiro, com uma voz ameaçadora.

— Não digam disparates! — protestou João — Estamos na Sala dos Elevadores, em frente do elevador número trinta e nove, que nos levará aos escritórios do Ramo Aeronaves...

Os dois interromperam-no com uma ordem:

— Verifica o número do elevador!

João fê-lo, com a sensação de que a sua vida estava perigosamente em risco.

— Vocês estão certos — confirmou debilmente, depois de fingir verificar — estamos no lugar errado. É o número quarenta...

 

Um dos dois extraterrestres interrompeu severamente a tentativa de justificação de João:

— Continua, terrestre. Não estás a correr risco de vida, se executares exactamente o que disseste, então acalma-te. Mas lembra-te de que não deixamos passar nada. Não faças outros erros de qualquer tipo.

 

João calou-se, perguntando a si mesmo como aqueles dois tinham sido capazes de se aperceberem de algo que não era visível, porque as portas dos elevadores eram todas iguais e o número não estava escrito em nenhum lugar visível. Em qualquer caso, ele abandonou a ideia de evitar esse pagamento à P.U.A.. A sociedade tinha dinheiro, podia pagar, e talvez aqueles dois estivessem a agir no seu direito. Não era a primeira vez que João tinha visto rejeitar injustamente a regularização de um dano.

 

Chegaram ao trigésimo nono andar e as portas do elevador abriram-se, em frente de um espelho enorme. Automaticamente João observou a imagem e viu um homem jovem e bonito, com cabelos loiros e corpo atlético, a única figura que espelho reflectia. Voltou-se para atrás com um sobressalto, à procura dos morcegos com o olhar. Os dois estavam lá, a meio passo dele. João perguntou porque não tinha visto a imagem deles no espelho.

— Vai para a frente — ordenou um dos dois. Depois, com uma gargalhada infantil que parecia uma chiadeira, ele continuou:

— Não percas tempo a olhar para ti, és feio e assim vais ficar.

Essa observação irritou João. Pensou que se entre os três havia alguém que poderia ser chamado feio, certamente não era ele. Todavia, naquele momento a coisa mais importante era descobrir por que não tinha visto a imagem dos dois, que estavam ao lado dele. Mas os dois extraterrestres não lhe deram tempo para pensar.

— Depressa! — ordenaram, interrompendo as suas reflexões.

 

Chegado à mesa, João começou a operação. De repente lembrou-se de que de cada escritório poderia lançar um alarme. O sinal chegava directamente à Sala de Vigilância, da qual os guardas partiam para fazer um controle imediato. E Sala de Vigilância era apenas um andar mais acima. João pensou que talvez conseguisse, teria sido suficiente carregar numa tecla, no mesmo teclado em que estava a trabalhar.

 

— Pára! O que está a acontecer? — A voz de um dos extraterrestres paralisou-lhe os dedos.

— Calma, não está a acontecer nada. — respondeu João.

— Porque estás a agitar-te, então? — perguntou o extraterrestre.

— Não estou a agitar-me, estou agitado. — Salientou João.

— Tens de ficar agitado de maneira constante, então. — Disse um dos extraterrestres — Se tiveres um pico, eu estou autorizado a pensar que algo de anormal está a acontecer.

Um pico? João tentou adivinhar o que o morcego estava a dizer exactamente. Um pico, sim, mas um pico de quê? Depois teve uma espécie de iluminação. Talvez os dois fossem capazes de medir o seu electroencefalograma, ou até mesmo ler os seus pensamentos? Teve a desagradável sensação de que não iria participar nas próximas Festas de Primavera.

— Tu és estúpido, terrestre. Feio e estúpido. Deixa de especular e fazer tentativas para salvar a tua empresa desonesta e continua o trabalho. Faz o que disseste e vais participar nas tuas Festas de Primavera.

Os dois resmungaram entre eles, enquanto João fechou os olhos. Era assim, concluiu, lêem o pensamento! Continuou a inserir dados, resignado. Faltava pouco para acabar.

— Acabei. — disse um momento depois — Agora a regularização está autorizada e a operação é irreversível. Digam-me onde e como vocês desejam que o valor seja pago.

Os dois deram-lhe instruções e num instante tudo foi feito. João estava aliviado. A P.U.A. teria de pagar uma soma enorme, mas a vida dele estava salva.

 

De repente, ouviu-se um barulho. Certamente era uma patrulha de vigilância. João levantou-se rapidamente e dirigiu-se correndo para a saída, tal como os dois extraterrestres. Correndo desordenadamente perdeu o equilíbrio, vacilou numa tentativa de mantê-lo e, finalmente, caiu sobre os dois. Ou melhor, no chão, porque os dois tinham a consistência do ar.

 

João ficou deitado no chão. Não estava a compreender absolutamente mais nada. Aqueles dois estavam lá à frente dele, mas era como se não existissem. Com um fio de voz perguntou:

— Mas... mas... mas quem são vocês?

— Terrestre, tu és realmente estúpido. — insultaram-no os extraterrestres.

João então irritou-se.

— Já chega! Vocês ameaçaram-me de morte, forçaram-me a trair a empresa em que trabalho, e...

— Pára um momento. — responderam os dois. Eles costumavam falar juntos, de facto, mas tão em uníssono que as duas vozes se fundiam em uma — porque "forçado a trair"? Tu és que propuseste ajudar-nos a recuperar o que nos pertence. Tínhamos de recusar?

João gritou:

— E eu o que deveria ter feito, na vossa opinião?

— Deixar-te eliminar. — responderam os dois ao mesmo tempo, imperturbáveis — Desta forma terias sido fiel à tua empresa. Evidentemente não era isso o mais importante para ti. Se não tivermos entendido mal, e nós dificilmente entendemos mal, tu estás muito mais interessado em tornar-te chefe do teu departamento e participar nas Férias de Primavera. De que te queixas? Agora estás vivo, podes fazer isso. Além disso, ouve bem, e a menos que não sejas completamente estúpido, tens de entender que não cometeste nenhuma traição.

— Expliquem-se melhor. — João ordenou.

— O que terias feito se tivessem ameaçado a vida do teu amigo, aquele que ligou para ti e com quem irás cuidar das plantas, no Parque das Magnólias?

— Teria tentado impedi-lo. — respondeu com decisão João.

— De que maneira? — indagaram os dois.

— Não sei, teria tentado desarmá-los. — João respondeu, irritado com a insistência de tantas perguntas dos dois indivíduos.

— Terrestre, não estamos armados. — Observaram os dois, com uma expressão indefinível.

João olhou para eles com os olhos arregalados, reparando que realmente não estavam armados. Contudo, ele não podia acreditar nos seus olhos. Teria jurado ter visto umas armas. Queria ter tido tempo para reflectir, mas os dois extraterrestres continuaram a argumentar de maneira insistente:

— Em qualquer caso, estarias disposto a arriscar a tua vida.

— Paulo é o meu amigo mais querido! — defendeu-se João.

— E a tua amada empresa? — insinuaram os dois — Porquê não tentaste "desarmar-nos" para salvar os interesses dela?

— Não é a mesma coisa! E em qualquer caso eu tentei, mas correu mal. — João levantou novamente a voz.

— Sim, não é a mesma coisa, mas em que pensaste, realmente, em frente do elevador? Na vantagem da tua empresa ou na possibilidade de conseguir uma promoção?

João ficou em silêncio. A maneira de agir dos dois e o tom de voz deles incomodava-o enormemente, mas não conseguia encontrar as palavras para contradizê-los.

— E sabes por que ficaste tão rapidamente convencido a "trair", como dizes, a tua empresa?

João não respondeu e os dois continuaram:

— Porque sabes bem que temos razão, que a P.U.A. estava errada nesta ocasião e em muitas outras. O que temos dito confirmou o que já pensavas. Se tivesses uma opinião diferente da tua empresa, se estivesses convencido de que é irrepreensível, se tu mesmo não tivesses culpas para imputar-lhes, não terias sido tão condicionável. Terias ousado mais, como para defender a vida do teu amigo Paulo.

João seguia atentamente as argumentações dos dois extraterrestres. As palavras deles, que apenas alguns minutos antes chamava mentalmente de "monstros", inspiravam-lhe um sentido de respeito. Mesmo a palavra "morcegos" parecia apagada da mente dele.

— Por que caíste no chão em vez de caíres em cima de nós, como acreditavas? — continuaram os dois.

— Porque vocês não têm um corpo concreto. — João respondeu num sussurro.

— E por que não viste a nossa imagem no espelho, e com os teus olhos, podes ver-nos muito bem?

João lembrou-se da cena do espelho. Perguntou-se novamente por que ele não os tinha visto. Depois, como se estivesse a falar para si próprio, disse em voz alta:

— Realidade Virtual.

Falou um dos dois, o da cor mais clara:

— Sim, João, somos imagens. O meu nome é Siochain. O do meu amigo é Ceartas. Fomos projectados aqui do planeta Moraltacht com a tarefa de obter uma indemnização pela perda da nossa aeronave. Julgamos que não é justo permitir que acções ignóbeis, tais como a que a P.U.A. queria cometer contra nós, tenham sucesso. No nosso planeta há um maior grau de conhecimento e   muitos de nós, incluindo Ceartas e eu, temos poderes telepáticos.

Ao ouvir estas palavras um pensamento cruzou a mente de João.

— Não te entusiasmes, João. — exortou-o Siochain, rindo — É preciso treinar para pensar bem, e ter muita consciência para obter o privilégio da telepatia. É um poder recíproco. Agora considera isto: tu conheces bem a realidade virtual, pois os terrestres fazem grande uso dela, mesmo que de forma rudimentar. Além disso, tu ignoravas a existência de seres com a nossa aparência. Pensaste que éramos horríveis, embora, lembro-te, para os nossos cânones tu é que és horrível, mas nem por um momento nos questionaste, suspeitaste de nós. Atribuíste-nos mesmo a posse de armas, que não temos. Sabes porquê?

João não respondeu, e Siochain continuou.

— Porque "nada nasce do vazio", como dizia o teu avô, um conceito em parte para rever, mas que faz sentido. E isso significa que o pensamento de que uma injustiça já havia sido cometida já estava na tua mente, a nossa aparição captou essa ideia, tornando-a realidade. É por isso que aceitaste facilmente a nossa presença e até mesmo tiveste medo de nós. Pelo contrário, não correste nenhum perigo, João. Poderias defender a tua causa com um sopro, com uma palavra, se tivesses tido mais coragem, mais determinação, se estivesses convencido de que era uma boa causa.

Naquele momento, a patrulha de vigilância entrou na sala. Um deles exclamou:

— Ei, aqui há um fulano deitado no chão que está a falar com os seus botões!

— Está bêbado. — Acrescentou outro.

— Sim, parece que está bêbado. Nem é o único, hoje. O que vamos fazer?

 

— Deixamo-lo aqui. Não está a fazer nada de mal e vai restabelecer-se em poucas horas. Isso só significa que a P.U.A. vai pagar para ele dormir um pouco. Pode pagar, tem dinheiro.

 

Todos riram.

As duas imagens em forma de morcego ainda estavam perto da porta. Parecia que estavam a ir-se embora. João disse-lhes adeus com os olhos. Achou que depois de tudo não estavam tão mal. Talvez o quadro desse plano superior melhorasse tudo, mas agora eles não lhe pareciam nem feios nem morcegos. Na verdade, não conseguia ver nenhuma diferença entre eles e ele mesmo. Por sua parte, ele sentiu-se um pouco ridículo assim deitado no chão, mas em paz e sossego, com a estranha sensação de ter feito bem.

 

Afinal, só se tinha antecipado. Não tinha dúvidas de que o Conselho Interstelar condenaria a P.U.A. a pagar esse dano. Ele sabia que a recusa de indemnização era injustificada.

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:09

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