Terça-feira, 17 de Julho de 2018

ADMIRÁVEL LÍNGUA NOVA (PARTE VIII)

 

Mais uma achega que destrói, por completo, o AO90 – o putrefacto cadáver ortográfico que, inacreditavelmente, o governo português insiste em manter de pé.

 

MANEL.png

 

Um texto de:

Manuel Matos Monteiro (Autor, jornalista, formador e revisor)

 

Antes do Acordo, há UMA ortografia: “Passeámos na Avenida da Liberdade sem grandes expectativas.”

 

Com o Acordo, há oito ortografias para a frase. E num livro acordizado há facilmente milhões de ortografias possíveis para o mesmíssimo texto.

 

Passeámos na Avenida da Liberdade sem grandes expectativas.

Passeámos na Avenida da Liberdade sem grandes expetativas.

Passeámos na avenida da Liberdade sem grandes expectativas.

Passeámos na avenida da Liberdade sem grandes expetativas.

Passeamos na Avenida da Liberdade sem grandes expectativas.

Passeamos na Avenida da Liberdade sem grandes expetativas.

Passeamos na avenida da Liberdade sem grandes expectativas.

Passeamos na avenida da Liberdade sem grandes expetativas.

 

Antes do Acordo, há UMA ortografia: “Passeámos na Avenida da Liberdade sem grandes expectativas.” Com o Acordo, há oito ortografias para a frase.

 

Com o Acordo, “expectativa” aparece nos dicionários acordizados como sendo de dupla grafia em Portugal, porque se entende que há quem pronuncie e há quem não pronuncie. (São as trémulas “pronúncias cultas”.) Se um aluno escrever “expectativa” no singular e “expetativas” no plural, fazendo uso da facultatividade que o Acordo lhe dá, deverá o professor assinalar a anomalia?

 

A maiúscula inicial da “Avenida da Liberdade” passa a ser opcional, como resulta da Base XIX, 2.º, i).

 

E reza a Base IX, 4.º: “É facultativo assinalar com acento agudo as formas verbais de pretérito perfeito do indicativo, do tipo amámos, louvámos, para as distinguir das correspondentes formas do presente do indicativo (amamos, louvamos) […].”

 

Chamamos, chamámos, falamos, falámos, brincamos, brincámos, trocamos, trocámos — é facultativo distinguir o tempo pretérito do tempo presente. Se o contexto for ambíguo, o leitor que se amanhe. Em frases que aparecem desgarradas e desprovidas de contexto (na televisão, na imprensa, na Internet), a salgalhada é total. Numa época de hiperinformação tombando a cada instante, em que muitos só lêem os títulos, que mal tem a interpretação contrária quanto ao tempo em que se situa a acção ou quanto ao próprio sentido da frase? “Jogamos mal” ou “pagamos mal”, numa fonte acordizada, pode ser “jogámos mal” ou “pagámos mal”.

 

Uma palavra hoje muito na moda (que não me suscita simpatia alguma) é “expectável”. O Portal da Língua Portuguesa e a Infopédia, por exemplo, acolhem “expectável” e “expetável” (pronúncia que passam a legitimar e a fomentar…[i]). O verbo acordizado pode escrever-se “expectar” e “expetar”. Ou seja, no pretérito perfeito, temos “nós expetámos/expetamos/expectámos/expectamos”.

 

Não tenho conhecimento de outra língua em que na mesma pessoa, no mesmo tempo, no mesmo verbo, haja quatro ortografias.

 

No exemplo acima, se o verbo não fosse “passear”, mas um de dupla grafia, teríamos não oito, mas dezasseis formas ortográficas de escrever a frase. Se ainda acrescentarmos o inacreditavelmente facultativo acento de “dêmos”[ii] (para distinguir de “demos”), teremos trinta e duas ortografias para a frase, parágrafo ou texto. Se tivermos o nome de um curso (por exemplo, Medicina), também aqui passa a ser opcional a maiúscula… e vamos em sessenta e quatro ortografias. Um santo (ou santa) seguido do respectivo nome e eis outra nova facultatividade quanto à maiúscula inicial… cento e vinte e oito ortografias. O nome de um edifício (Palácio da Cultura/palácio da Cultura)… e outra facultatividade… duzentas e cinquenta e seis. O nome completo de uma igreja, opcional também a maiúscula inicial… quinhentas e doze ortografias. O nome de uma rua, mais uma nova facultatividade (Rua do Ouro/rua do Ouro)… mil e vinte e quatro ortografias. Basta mais uma palavra de dupla grafia e chegamos às duas mil e quarenta e oito ortografias. Com as facultatividades dos acentos, das maiúsculas iniciais e com as duplas grafias das palavras pronunciadas ora com ora sem consoante, bastarão vinte casos e teremos um milhão quarenta e oito mil quinhentas e setenta seis formas de escrever o mesmo texto. E assim sucessivamente multiplicando por dois. (Os números começam a ser terrivelmente assustadores, o Acordo torna-nos multimilionários das ortografias.)

 

Num livro acordizado, há facilmente mais do que vinte casos de facultatividades, ou seja, há milhões de ortografias possíveis para o mesmíssimo texto.

 

Se a isto somar as diferentes interpretações quanto às locuções que perderam os hífenes (e quanto às próprias consoantes mudas), porque os dicionários e os livros de estilo com o Acordo não se entendem [VER ADMIRÁVEL LÍNGUA NOVA PARTE III], a cabeça explode, não apenas pelo número de ortografias possíveis, mas por não haver dois dicionários ou prontuários acordizados que não tenham muitas divergências quanto àquilo que é a ortografia de certa locução ou palavra.

 

Ainda agora, nas notícias sobre o Mundial, li em órgãos de comunicação social que seguem o Acordo: “oitavos-de-final”, “quartos-de-final”, “ponta-de-lança” ora com ora sem hífenes, com flutuações dentro do mesmo órgão. Mero exemplo: num canal televisivo (o 5 na minha casa), no espaço de minutos, consegui ler “oitavos-de-final” com e sem hífenes. Antes do Acordo, inquestionavelmente com hífenes. Depois, a salgalhada que faz saltar os olhos. (Se quereis a minha opinião, caros acordistas, com o vosso Acordo, deve ser sem hífenes, ainda que o espírito da lei seja inexcedivelmente ambíguo, como já demonstrei antes. Ou seja, ficais com “guarda-redes”, “defesa-central”, mas “ponta de lança”; com “oitavos de final” e “quartos de final”, mas “meias-finais”[iii].) [VER ADMIRÁVEL LÍNGUA NOVA PARTE II.]

 

Lembremos as palavras mágicas do Acordo: simplificar, uniformizar, internacionalizar a língua. Hoje, demonstrada a fraude em toda a sua extensão (algum brasileiro passou a comprar um livro português por este seguir o Acordo e vice-versa?), sobra apenas o argumento, ou pretexto, de que já não podemos voltar atrás, de que as crianças já aprendem assim, de que teríamos de imprimir novos livros — blá-blá-blá que esconde o vácuo: apenas a inércia e a obstinação do orgulho de quem não admite que criou e deixou criar um monstro metuendo e indomável permitem que o Acordo não seja atirado para o sítio das coisas que não prestam para nada. O caixote do lixo que não é reciclável.

 

[i] O engenheiro informático João Miranda que trabalha em Praga escreveu-me numa mensagem de correio electrónico: “Uma das características interessantes do Acordo, que se presume ortográfico, é que interfere, esperada ou inesperadamente, com a pronúncia, em vez de interferir apenas com a ortografia. Houve quem mudasse a forma como sempre disse certas palavras (inconscientemente ou não), e, por outro lado, há palavras cuja pronúncia se impõe, porque os autores do Acordo [e aqueles que se viram obrigados a interpretá-lo, nem que fosse para fazer dicionários] acham que se deve dizer de determinada forma (e a grafia impõe essa leitura).”

 

[ii] veja-se o seguinte passo de Camilo Castelo Branco, em O Santo da Montanha: “Já que morreu a serpente, dêmos duas cabriolas; que, medrosos de seus olhos, nada até ora fizemos.” Perceba e sinta como o tempo verbal sem o acento é lido de outra forma. E já há Camilo acordizado por aí. Pegue na frase “Para que demos tudo?” e veja como a ausência do acento altera o sentido (além de aquele “para” poder tratar-se de um “pára”).

 

[iii] Lemos na Infopédia, num “artigo de apoio”, que “quartos-de-final” perde os hífenes com a “explicação”: “Com o Acordo Ortográfico, não se usa hífen na maioria das locuções.”

 

Mas porque acolhem outras com hífenes?! Não explicam. Tal como não explicam como se distingue a maioria da minoria. Porque o Acordo também não o faz na sua prosa enrolada da Base XV, 6.º.

 

MAIS DE MANUEL MATOS MONTEIRO:

 

Admirável Língua Nova (Parte VI)

https://www.publico.pt/2018/03/09/culturaipsilon/opiniao/admiravel-lingua-nova-parte-vi-1806033

Admirável Língua Nova (Parte VII)

https://www.publico.pt/2018/04/02/culturaipsilon/opiniao/admiravel-lingua-nova-parte-vii-1808831

Lugares-comuns da linguagem hodierna

https://www.publico.pt/2018/04/30/culturaipsilon/opiniao/lugarescomuns-da-linguagem-hodierna-1815866

 

Comentário:

mzeabranches

 11:07

Mais um excelente artigo! Obrigada por tentar abrir os olhos aos portugueses. A ignorância, a estupidez e a subserviência nacionais não têm limites, e abundam na classe dominante, política e intelectualmente. Por uma estranha maldição, Portugal despreza a sua língua materna, contrariamente a todas as outras nações, incluindo o Brasil. Passo a citar o Prof. Dr. António Emiliano, no seu Contributo para o Grupo de Trabalho da AR: «É uma péssima reforma ortográfica, que tem como mirífico objectivo a unificação ortográfica da "lusofonia" e que, na realidade, contribui de forma clamorosa, para a acentuação da fragmentação ortográfica da mesma.» Sugiro que vejam, na net, a opinião do Prof. universitário brasileiro Maurício Silva (USP), «Reforma Ortográfica e Nacionalismo Lingüístico no Brasil».

 

Fonte:

https://www.publico.pt/2018/07/16/culturaipsilon/opiniao/admiravel-lingua-nova-parte-viii-1838111#comments

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 14:43

link do post | comentar | adicionar aos favoritos
partilhar

REGRESSO PARA FAZER CAMPANHA CONTRA AQUELES QUE ESTÃO A DECAPITAR PORTUGAL

 

Faço minhas as palavras de António Barreto.

Está nas nossas mãos limpar a Assembleia da República do caruncho que fez ninho no hemiciclo. 

Nesta minha recente viagem, encontrei um Portugal dominado por uma mediocridade viscosa, por um analfabetismo degradante, e por uma inacreditável ignorância optativa, consequência da política retrógrada dos que governam Portugal a julgar que todos os Portugueses são parvos.

É nessa pretensa parvoíce que António Costa aposta.  Por isso, há que aniquilar essa expectativa.

(Isabel A. Ferreira)

 

ANTÓNIO BARRETO.jpg

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 12:07

link do post | comentar | adicionar aos favoritos
partilhar

.mais sobre mim

.pesquisar neste blog

 

.Agosto 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
13
14
15
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. VAMOS FALAR DO AO90 EM PO...

. «O IMPÉRIO ORTOGRÁFICO»

. JORNAL EXPRESSO OFERECE O...

. O MIXORDÊS DE SANTANA LOP...

. O DESAFECTO DOS QUE MUTIL...

. AS VAGAS DE CALOR “EXTENÇ...

. DO QUE FALAMOS QUANDO FAL...

. ESTAS SÃO AS VOZES AUDÍVE...

. «ABORTO ORTOGRÁFICO»

. MAIS UM PARECER JURÍDICO ...

.arquivos

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

.ACORDO ORTOGRÁFICO

EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA, A AUTORA DESTE BLOGUE NÃO ADOPTA O “ACORDO ORTOGRÁFICO” DE 1990, DEVIDO A ESTE SER INCONSTITUCIONAL, LINGUISTICAMENTE INCONSISTENTE, ESTRUTURALMENTE INCONGRUENTE, PARA ALÉM DE, COMPROVADAMENTE, SER CAUSA DE UMA CRESCENTE E PERNICIOSA ILITERACIA EM PUBLICAÇÕES OFICIAIS E PRIVADAS, NAS ESCOLAS, NOS ÓRGÃOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL, NA POPULAÇÃO EM GERAL E ESTAR A CRIAR UMA GERAÇÃO DE ANALFABETOS.

.

.CONTACTO

isabelferreira@net.sapo.pt

. AO/90 É INCONSTITUCIONAL

O Acordo Ortográfico 1990 não tem validade internacional. A assinatura (em 1990) do texto original tem repercussões jurídicas: fixa o texto (e os modos como os signatários se vinculam), isto segundo o artº 10º da Convenção de Viena do Direito dos Tratados. Por isso, não podia ser modificado de modo a entrar em vigor com a ratificação de apenas 3... sem que essa alteração não fosse ratificada por unanimidade! Ainda há meses Angola e Moçambique invocaram OFICIALMENTE a não vigência do acordo numa reunião OFICIAL e os representantes OFICIAIS do Brasil e do capataz dos brasileiros, Portugal, meteram a viola no saco. Ora, para um acordo internacional entrar em vigor em Portugal, à luz do artº 8º da Constituição Portuguesa, é preciso que esteja em vigor na ordem jurídica internacional. E este não está!
blogs SAPO