Quarta-feira, 22 de Junho de 2022

Em defesa da Ortografia (XLVIII), por João Esperança Barroca

 

«O português que falamos hoje tem muito pouco a ver com o que [era] falado por Luís de Camões, a ortografia d’ Os Lusíadas tem aspectos que não são os que nós hoje consideramos a norma

Pedro Adão e Silva, Ministro da Cultura, em 5 de Maio de 2022, em Luanda

 

«Não se pode mandar esta gente toda para um país só deles, com o grunhês como língua oficial, dado que é o que falam e escrevem?»

José Antunes, em comentário no Facebook no grupo Cidadãos contra o Acordo Ortográfico de 1990

 

«É este o grande objectivo: produzir a confusão que consolide a ignorância em definitivo!»

Rodrigo Pereira Martins, em comentário no Facebook no grupo Cidadãos contra o Acordo Ortográfico de 1990

 

«A língua portuguesa veio do latim, mas já foi há imenso tempo. Aos nativos, no entanto, parece não interessar absolutamente nada, de onde é que ela veio, e sobretudo, para onde é que ela vai. O português do ano dois mil — como hoje se prefigura — não terá formas complexas de qualidade alguma. A tendência simplificadora e redutiva que se afirma no vocabulário e um pouco por todo o lado, fará desaparecer formas […]. Dominarão formas de rufianismo linguístico, no pressuposto de que “desde que se entenda, está certo”, tendendo a comunicação para o mais elementar dos grunhidos, apoiado pelo mais eloquente dos gestos.»

Luísa Costa Gomes, Escritora

 

Em defesa - 1.jpg

 

Inicia-se o escrito do mês de Junho com quatro citações em epígrafe. Incluem-se duas citações de cidadãos comuns, respigadas de páginas do Facebook, nas quais se realiza, há imenso tempo, um laudabilíssimo serviço público de denúncia da fraude que é o AO90. Inclui-se também o excerto de uma declaração do ministro Pedro Adão e Silva, que, talvez, afectado pelas altas temperaturas tropicais, debitou um truísmo digno de um aluno do 9.º ano.

 

São, também, parte integrante deste escrito três imagens transmitidas por canais televisivos, que demonstram o cuidado (ou a falta dele!) com que estas estações lidam com a nossa língua. Uma dessas imagens ilustra a febre com que se eliminam consoantes, como no seguinte diálogo, mais real do que imaginário:

 

— Tem consoante?

— Tem!

— Então, corta!

— Mas…

— Nem mas, nem meio mas… Corta!

 

Em defesa - 2.png

 

As outras duas imagens mostram como uma parte dos jornalistas ainda (mais de dez anos depois, o que dá uma infinidade de meias horas, das quais falava Paulo Feytor Pinto) não interiorizou algumas das bases do AO90.

 

Em defesa - 3.png

 

Apetece perguntar pela enésima vez: Se é assim na Comunicação Social, como será com os cidadãos comuns?

 

No escrito do mês de Maio, mês em que ficámos a saber, através de Francisco Miguel Valada (no sítio aventar.eu/2022/05/30mrs-ao90) que Marcelo Rebelo de Sousa não adopta o AO90, citámos algumas frases da rubrica “Circo Cacográfico”, da página de Facebook da iniciativa Acordo Zero. A primeira dessas frases, “Cato pelos e pelo catos na boca do urso!” tem espoletado muitas e longas gargalhadas dos alunos, que se esforçam por ler e descodificar essas frases. Quando se lhes diz, que a dita frase, antes do Monstro Ortográfico, como se lhe refere Manuel Monteiro, era: Cato pêlos e pélo cactos na boca do urso!, faz-se luz. Ah, caro leitor, lembre-se sempre que os cactos (catos, como se diz e escreve agora) fazem parte da família das Cactáceas. Relembre também a origem desta palavra. Cacto deriva do grego káktos, pelo latim cactu. Ficou, caro leitor, esclarecido e convencido com a lógica acordesa? Já viu o orgulho que esta gente tem na história da sua língua?

 

A segunda dessas frases, “Pouco dinheiro para todos nós neste circo!”, levanta a questão de sabermos de a palavra “para”, neste contexto, é uma forma verbal ou uma preposição. Como se lê, caro leitor? Repare como, na ortografia de 1945, este problema não existia. Por esta razão, há quem diga que o AO90 veio trazer uma solução para um problema inexistente.

 

João Esperança Barroca

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:33

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