O tempo está turvo, cá em Portugal, mas também pelo mundo fora.
De Junho de 2024 a Junho de 2025 passou um ano, tão acelerado quanto celerado, cheio de turbulências, não menos que noutros anos já passados, mas ainda mais turbulento.
Em Portugal, passa-se o tempo a fazer-de-conta-que-se-faz, mas nada acontece de novo, que possa afugentar o marasmo que perturba as mentes que pensam, e se indignam com o que devia ser feito, e não se faz.
Um ano desperdiçado no que diz respeito à luta em Defesa da Língua Portuguesa, que cada vez se afunda mais, na ignorância de quem a usa. Algo que devia ser uma vergonha para Portugal, mas não é, porque quem pode, quer e manda, não sabe da importância de uma Língua para um País.
Facto do ano
Escolhi como facto do ano, o envio à Provedoria de Justiça, um órgão que tem a função de defender o Povo (na altura a cargo de Maria Lúcia Amaral, que, entretanto, renunciou, para se tornar Ministra da Administração Interna, do XXV Governo de Portugal) de uma Queixa/Exposição, no dia 29 de Novembro de 2024, pelas 16 horas, assinada pelo Grupo Cívico de Cidadãos Portugueses Pensantes, com 297 membros. Parecem poucos? Parecem, mas não são, porque nele estão os Portugueses que importam.
Eis o link para a Queixa, que tornámos pública:
Disseram-nos que a Provedoria de Justiça tinha um prazo para responder aos cidadãos, e mais, era obrigada a responder. Se era, não é mais, porque a única coisa que recebemos´, até ao momento, foi esta vergonhosa mensagem sem assinatura.

Um resumo perfeito da imperfeição dos organismos estatais, que põe Portugal na cauda da Europa. Ao menos não tivemos de levar com “acusamos a receção da comunicação”, como é habitual, neste tipo de correspondência.
Quando enviei ao Grupo Cívico esta mensagem, acompanhada do meu desconsolo, houve uma subscritora que fez uma fabulosa análise, da situação, e que transcrevo mais abaixo, não sinalizando o seu nome, por ter sido enviada em privado.
Porém, porque o que essa cidadã portuguesa, livre pensadora, escreveu, é do interesse público, até porque é preciso pôr as pessoas a reflectir, com o seu consentimento tornarei pública a sua análise.
O cargo de Provedor de Justiça, neste momento, está vago. Não se ouve falar numa possível substituição.
No que concerne à nossa questão, só nos resta esperar. O quê? É uma incógnita. Andamos ao sabor da indiferença de quem pode, quer e manda, e nunca sabemos qual será o próximo passo em direcção ao abismo, que nos espera.
Espero, no entanto, que quando regressar do meu retiro, no lugar de Maria Lúcia Amaral, esteja alguém que saiba cumprir o DEVER que este cargo obriga, e possamos receber a tão ansiada resposta à nossa exposição.
Até breve!
Isabel A. Ferreira
***
Análise de I. G.
«Ao ler a resposta (provavelmente) do Chefe de Gabinete da Provedora da (in)Justiça, também eu fiquei desconsolada e revoltada. É uma espécie de pão sem sal. Está redigida de tal forma que não convence ninguém. Que pobreza (!). Se eu fosse caricaturista, faria uma caricatura da Provedora sentada num trono a desfazer-se e, ela, de indicador esticado a apontar para o seu lacaio e implorando: cuidado com a resposta a essa senhora que nos veio desassossegar...
Pois é! Está tudo tão sossegadinho. Ninguém faz a ponta dum corno! E agora vem a máxima do Montenegro (negro e bem negro) que teve o descaramento de afirmar publicamente que Portugal é uma referência na Europa (!). Será que o homem está bom da cabeça? Tudo a esboroar-se. Tudo em crise. E sua Exª acha que Portugal é uma referência.
É sim senhor, uma referência como país subdesenvolvido, a abarrotar de corruptos sentadinhos por tudo quanto é sítio. É uma referência com mais de um milhão e meio de pobres. É uma referência com um sistema judicial perverso. É uma referência com um sistema educativo apodrecido e à deriva! É uma referência com um SNS a cair aos bocados e a deixar milhares de portugueses sem assistência médica e muitos a morrerem (velhos e novos). É uma referência com a maior crise habitacional de que temos memória! Etc., etc., etc..
Isto é de enlouquecer! E os Portugueses, talvez na sua maioria, continuam amarrados ao futebol. Todos os canais da RTP (excepto o canal dois), a darem a mesma notícia futebolística ao mesmo tempo (!!!!) Isto é a maior prova de subdesenvolvimento de qualquer país. E Portugal, também é uma referência neste universo futebolístico cheio de corruptos....
Vamos aguardar por uma resposta decente da Sra. Provedora... através do mesmo ou de outro seu criado. (*)
***
(*) Não sabemos quem virá ocupar o cargo deixado vago por Maria Lúcia Amaral, ou se será extinto, por não funcionar adequadamente. Mas venha quem vier, se vier, que venha por bem, pela verdade, pela justiça e pelo interesse de Portugal e dos Portugueses (Isabel A. Ferreira)
É pena que o espírito crítico de homens e mulheres de Ciência do nosso país, no caso do AO90, continue a primar por um estranho silêncio.

Maria do Carmo Vieira
30 de Junho de 2025
«O acordo ortográfico e a “sonolência passiva” que silenciou o espírito crítico»
No que ao Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) diz respeito, surpreende-me sobremaneira a aceitação acrítica de pessoas ligadas à Ciência e à sua divulgação. Esse silêncio é particularmente incomodativo no caso da “Nota Explicativa do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa”, 1990, único texto, aliás, em que os seus mentores (portugueses e brasileiros) explicitam atabalhoadamente o seu inusitado porquê.
Quero crer que nem sequer o terão lido, pois não seria aceitável que pessoas críticas relativamente a tudo o que contrarie o Conhecimento ou se feche em obstinada ignorância pudessem aceitar ditos “critérios científicos” e “justificações” que raiam o disparate no que a qualquer Conhecimento diz respeito, nomeadamente, o Linguístico.
Este facto aponta, na verdade, para uma lamentável posição, tanto mais que em qualquer Ciência a etimologia intervém activamente, explicando a origem das palavras. Ora a etimologia, vertente cultural da ortografia, é a componente selvaticamente agredida por este AO que devora, por exemplo, toda a consoante surda «c» e «p», justificando o acto fagócito, como uma forma de punir a «teimosia lusitana» e de aliviar «a memória dos alunos».
Realce-se que a Associação Portuguesa de Linguística (APL), em 2005, através da sua presidente, Inês Duarte, entregou, no Instituto Camões, um parecer estrondosamente negativo à implementação do AO 90: “(…) por todas as razões acima aduzidas, a Associação Portuguesa de Linguística recomenda: 1. Que seja de imediato suspenso o processo em curso, até uma reavaliação, em termos de política geral, linguística, cultural e educativa, das vantagens e custos da entrada em vigor do Acordo Ortográfico de 1990. 2. Que, a manter-se o texto actual do Acordo, Portugal não ratifique o Segundo protocolo Modificativo.” Em 2008, aquando da Audição Parlamentar de 7 de Abril (“aplicação e impacto do acordo”), este parecer seria de novo entregue na Assembleia da República, pela então direcção da APL.
Antes de se decretar o que os Portugueses nunca haviam pedido e tinham sistematicamente ignorado, escrevia-se, naturalmente, “acto”, “recepção”, “concepção” ou “retractar”, entre muitos exemplos, vocábulos agora truncados na sua marca etimológica que determinava a abertura da sílaba. Não admira, pois, que esta alteração ao “traje” da palavra tenha prejudicado a sua leitura, dando azo a distorções, escritas e ouvidas. Realce-se os vocábulos “recepção” ou “concepção” que, pelo “critério da pronúncia”, se mantêm assim, no Brasil, alterando-se, em Portugal, para “receção” ou “conceção”, num evidente desmentido da “unidade ortográfica” pretendida. No caso de “retractar”, o equívoco, que toda ortografia pretende eliminar, é notório porque agora tudo é “retratar”. A propósito desta voragem, assiste-se ao absurdo de em exposições bilingues, português-inglês, nos depararmos com a ausência das já referidas consoantes, numa língua românica cuja base é o latim, mas a sua manutenção numa língua germânica que respeita a influência cultural do latim: coleção/collection; projeto/project; refletindo/reflecting; abstrato/abstract; eclético/eclectic, etc.
É comum, em qualquer ciência, a criação de designações, métodos, teorias ou tratamentos com o nome de quem os estudou, criou ou investigou. No caso do AO90, não coube a nenhum linguista a ideia de fazer uma nova reforma ortográfica, mas a um político brasileiro, o presidente José Sarney, que aliciou participantes para uma reunião, no Rio de Janeiro, em 1986, apropriando-se de “matéria estranha ao Estado”. A aventura não correu bem e lembrar-se-ão que ficou temporariamente pelo caminho, com a anedota da eliminação dos acentos nas palavras esdrúxulas.
É surpreendente que as pessoas ligadas à Ciência não se questionem sobre o significado de petições contra o AO, com milhares de assinaturas, ou sobre os 24 em 25 pareceres contrários à implementação do acordo, ou ainda em relação à aleivosia acontecida na Assembleia da República aquando da entrega da ILC-AO
Caos é a palavra certa, no que à presença do AO diz respeito, e são os próprios alunos, nomeadamente os do 2.º ciclo, que acham “esquisito” igualar a preposição “para” à 3.ª pessoa do sing. do Pres. do Ind. do verbo “parar”, ou a contracção “pelo” ao substantivo “pêlo” (agora sem acento), ou ainda o facto de ser indiferente o uso do acento na 1.ª pessoa do plural do Pret. Perf. para se distinguir da mesma pessoa do Pres. Ind, nos verbos da 1.ª conjugação. Ou seja, na gramática portuguesa, ensina-se que a referida pessoa é acentuada no Pret. Perf., mas «os alunos podem escolher a forma que quiserem», facto que gera naturalmente confusão. Não admira que um aluno, ao exemplificar no texto um Pretérito Perfeito, tenha escolhido um Presente, na pessoa anteriormente referida. Foi também com o argumento da “facultatividade” que um professor (não de Português) interveio numa situação nada relacionada com a ortografia. Uma aluna escreveu: “A mãe avisou-lhe de que não deveria fazer aquilo” – e uma colega sua corrigiu, e bem, para: “A mãe avisou-o de que não deveria fazer aquilo”, ficando, no entanto, ambas a saber que as duas frases estavam correctas!...
Questionam ainda os alunos outras regras difíceis de “encaixar”, como por exemplo a transformação de substantivos próprios em comuns, no caso dos meses ou estações do ano. A leitura das odes de Ricardo Reis, por exemplo, é gravemente atingida por este mal, num desrespeito absoluto pelo significado metafórico das estações do ano, na caracterização clássica da vida humana. Desta forma se impede e anula uma interpretação séria dos poemas do heterónimo pessoano. Sinta o leitor a diferença entre a palavra escrita com maiúscula ou com minúscula, nos seguintes versos do poeta: «Não florescem no Inverno os arvoredos,/ Nem pela Primavera/ Têm branco frio os campos» ou «Não florescem no inverno os arvoredos,/ Nem pela primavera/ Têm branco frio os campos.»
É também surpreendente que as pessoas ligadas à Ciência não se questionem sobre o significado de petições contra o AO, com milhares de assinaturas, ou sobre os 24 em 25 pareceres contrários à implementação do acordo, ou ainda em relação à aleivosia acontecida na Assembleia da República aquando da entrega da ILC-AO (Iniciativa Legislativa de Cidadãos Contra o Acordo Ortográfico) – que, neste momento, tenta salvar em tribunal a possibilidade de um debate sobre esta matéria (ler, a propósito, Nuno Pacheco, “Regresso à Ortografia, agora com um tribunal pelo meio” e o sítio da ILC-AO, em “ILC-AO vs. AR: perguntas frequentes”).
Na verdade, as razões que sustentam a “Nota Explicativa” estão ao nível de outros delírios similares – dignos da melhor teoria da Terra Plana ou dos negacionistas de vacinas e alterações climáticas.
É pena que o espírito crítico de homens e mulheres de Ciência do nosso país, no caso do AO90, continue a primar por um estranho silêncio, “sonolência passiva em que aceitamos tudo o que nos põem à frente.” (Musil)
Fonte: https://www.publico.pt/2025/06/30/opiniao/opiniao/acordo-ortografico-sonolencia-passiva-silenciou-espirito-critico-2138317
. Desmistificando a ideia d...
. O caos ortográfico está i...
. «O Acordo Ortográfico e a...
. Em Defesa da Ortografia (...
. Uff! António José Seguro ...
. À conta do AO90 a RTP goz...
. «Da matemática e do vício...
. «Blogger acha que "Língua...
. «Ortografia e eleições: d...