Na linha dos seus antecessores, o texto do mês de Novembro (o 86.º da série “Em Defesa da Ortografia”), continua a apresentar, exactamente, as mesmas características.
A aposta continua a ser a de mostrar diálogos, por vezes absurdos, de índole humorística, que ilustram a fantochada do AO90, expondo as suas fragilidades, as suas incoerências e a completa ausência de lógica.
As palavras a vermelho indicam as formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, remetem para grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos, se mantêm como duplas grafias. A azul, temos os casos de hipercorrecção, decorrentes da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.
LXI
— Com o AO90, os hífenes tornaram-se uns invejosos de primeira.
— Não percebo. Porquê?
— Nunca estão no sítio. Queriam ser como os tomates.
— E não achas admissível? Sempre habitaram aquelas palavras e, de um momento para o outro, vêem-se despejados.
LXII
— Tenho de ir ao dentista.
— Para quê?
— Para fazer a extração de um dente do siso.
— Não vás em modernices, pá! É mais assisado fazeres extracção.
LXIII
— Ó pai, não percebo aqui esta expressão.
— Que expressão, Rafael Alexandre?
— Pato de silêncio.
— Cheira-me a mais uma estupidez modernaça.
— O que queres dizer com isso, pai?
— Aposto que é um nome moderno para pato-mudo.
LXIV
— Ó pai, hoje a professora chamou-me debiloide.
— Não te preocupes com isso, Rafael Alexandre! Ela não sabe o que diz.
— Não é um insulto, pai?
— Insulto seria te chamasse debilóide.
LXV
— Porque tens uma ligadura no braço?
— Caí e fraturei o escafoide.
— Tiveste muita sorte!
— Estás a gozar comigo? Tu é que devias ter estas dores!
— Só estou a dizer que muito pior seria se tivesses fracturado o escafóide. Aí é que verias o que são dores!
LXVI
— Estou num dilema.
— Que dilema?
— Encerro a filial em Oeiras ou invisto em mão-de-obra qualificada.
— No teu lugar, contrataria mão de obra. Poupas um dinheirão em hífenes.
LXVII
— Este nosso treinador é fraquinho.
— Devíamos contratar aquele a quem chamam o mestre da tática.
— Não concordo contigo, e ele agora está na Arábia, onde ganha balúrdios.
— Qual a tua ideia, então?
— Um treinador mais completo. Podem, até, chamar-lhe o mestre da táctica.
LXVIII
— Vamos lá escolher os temas que vamos tocar no próximo concerto.
— Quando é essa atuação?
— Dia 24 de Abril. E não acho boa ideia preparar a atuação.
— Não? Porquê?
— É muito mais eficaz se prepararmos a actuação.
LXIX
— Onde vais nas férias de Verão?
— À Antártida.
— Sem mais, digo-te que é uma má escolha.
— Porquê? Só vou pagar 800 euros por sete dias…
— Eu prefiro pagar 900 euros e visitar a Antárctida a pagar esse dinheiro e ficar na Antártida. É preciso andar com os olhos abertos, como nos casos de contrafacção ou de contrafação, como se diz por aí, e não enfiar a primeira carapuça.
LXX
— Fonseca, quem tratou da torra deste lote?
— Patrão, foi o Martins que procedeu à torrefação dos últimos lotes.
— Quantas vezes é preciso dizer que devem fazer a torrefacção como deve ser? Eu não quero, como os do AO90, vender gato por lebre, percebeste?
LXXI
— Ó Fonseca, será que o Martins e os colegas vêem bem o que fazem quando estão na zona da torrefacção?
— Patrão, eles dizem que veem.
— Pois, veem, mas não vêem. Veem é uma aberração, nem parece ser forma do verbo ver.
LXXII
— A UEFA parece estar preocupada com a segurança dos espetadores.
— E se apreendessem os espetos e proibissem a sua venda? Assim é que os espectadores estariam seguros.
Ah, as imagens que acompanham este escrito mostram o calibre da linguagem que por aí vai circulando. Uma exemplifica uma situação de corte desenfreado de consoantes, criando o termo impato, uma verdadeira aberração. A outra imagem, bastante recente, demonstra a insanidade que presidiu à redacção de grande parte das Bases do AO90.
Ah, como se lê, agora: “Nada para Isaac Nader na corrida ao ouro”? O que significa? Nada impedirá Isaac Nader de conquistar a medalha de ouro ou o atleta, que passou parte da infância em Tomar, ficará arredado do pódio? O contexto esclarece as dúvidas?
Ah, como se pronuncia, agora: “Projeto para Lisboa”? O que significa? Lisboa ficará parada por causa de um qualquer projecto? Ou existe um projecto destinado à cidade de Lisboa?
Ah! Toda a gente fala, por estes dias, no Orçamento de Estado para 2026. Como é habitual, Francisco Miguel Valada, no blogue Aventar, faz uma análise exaustiva desse documento. Nessa análise, fica claro que o documento terá sido escrito, pelo menos, a quatro mãos, pois coexistem, entre outros: Acção e Ação; Protecção e proteção; carácter e caráter; Sector e setor; activos e ativos; excepto e excetuando; conectividade e conetividade; detectados e detetados; Projectos e projetos; Electricidade e eletricidade. Obviamente, merece reprovação.
João Esperança Barroca


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