Quinta-feira, 13 de Novembro de 2025

Em Defesa da Ortografia (LXXXVI), por João Esperança Barroca

 

Na linha dos seus antecessores, o texto do mês de Novembro (o 86.º da série “Em Defesa da Ortografia”), continua a apresentar, exactamente, as mesmas características.

 

 A aposta continua a ser a de mostrar diálogos, por vezes absurdos, de índole humorística, que ilustram a fantochada do AO90, expondo as suas fragilidades, as suas incoerências e a completa ausência de lógica.

 

As palavras a vermelho indicam as formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, remetem para grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos, se mantêm como duplas grafias.  A azul, temos os casos de hipercorrecção, decorrentes da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.

 

LXI

 

— Com o AO90, os hífenes tornaram-se uns invejosos de primeira.

— Não percebo. Porquê?

— Nunca estão no sítio. Queriam ser como os tomates.

— E não achas admissível? Sempre habitaram aquelas palavras e, de um momento para o outro, vêem-se despejados.

 

LXII

 

— Tenho de ir ao dentista.

— Para quê?

— Para fazer a extração de um dente do siso.

— Não vás em modernices, pá!  É mais assisado fazeres extracção.

 

LXIII

 

— Ó pai, não percebo aqui esta expressão.

— Que expressão, Rafael Alexandre?

Pato de silêncio.

— Cheira-me a mais uma estupidez modernaça.

— O que queres dizer com isso, pai?

— Aposto que é um nome moderno para pato-mudo.

 

LXIV

 

— Ó pai, hoje a professora chamou-me debiloide.

— Não te preocupes com isso, Rafael Alexandre! Ela não sabe o que diz.

— Não é um insulto, pai?

— Insulto seria te chamasse debilóide.

 

LXV

 

— Porque tens uma ligadura no braço?

— Caí e fraturei o escafoide.

— Tiveste muita sorte!

— Estás a gozar comigo? Tu é que devias ter estas dores!

— Só estou a dizer que muito pior seria se tivesses fracturado o escafóide. Aí é que verias o que são dores!

 

LXVI

 

— Estou num dilema.

— Que dilema?

— Encerro a filial em Oeiras ou invisto em mão-de-obra qualificada.

— No teu lugar, contrataria mão de obra. Poupas um dinheirão em hífenes.

 

LXVII

            

— Este nosso treinador é fraquinho.

— Devíamos contratar aquele a quem chamam o mestre da tática.

— Não concordo contigo, e ele agora está na Arábia, onde ganha balúrdios.

— Qual a tua ideia, então?

— Um treinador mais completo. Podem, até, chamar-lhe o mestre da táctica.

 

 LXVIII

 

— Vamos lá escolher os temas que vamos tocar no próximo concerto.

— Quando é essa atuação?

— Dia 24 de Abril. E não acho boa ideia preparar a atuação.

— Não? Porquê?

— É muito mais eficaz se prepararmos a actuação.

 

LXIX      

           

 — Onde vais nas férias de Verão?

 — À Antártida.

 — Sem mais, digo-te que é uma má escolha.

 — Porquê? Só vou pagar 800 euros por sete dias…

  — Eu prefiro pagar 900 euros e visitar a Antárctida a pagar esse dinheiro e ficar na Antártida. É preciso andar com os olhos abertos, como nos casos de contrafacção ou de contrafação, como se diz por aí, e não enfiar a primeira carapuça.

 

LXX

 

— Fonseca, quem tratou da torra deste lote?

— Patrão, foi o Martins que procedeu à torrefação dos últimos lotes.

  — Quantas vezes é preciso dizer que devem fazer a torrefacção como deve ser? Eu não quero, como os do AO90, vender gato por lebre, percebeste?

 

LXXI

 

— Ó Fonseca, será que o Martins e os colegas vêem bem o que fazem quando estão na zona da torrefacção?

— Patrão, eles dizem que veem.

— Pois, veem, mas não vêem. Veem é uma aberração, nem parece ser forma do verbo ver.

 

 LXXII

 

— A UEFA parece estar preocupada com a segurança dos espetadores.

— E se apreendessem os espetos e proibissem a sua venda? Assim é que os espectadores estariam seguros.

 

Ah, as imagens que acompanham este escrito mostram o calibre da linguagem que por aí vai circulando. Uma exemplifica uma situação de corte desenfreado de consoantes, criando o termo impato, uma verdadeira aberração. A outra imagem, bastante recente, demonstra a insanidade que presidiu à redacção de grande parte das Bases do AO90.

 

Ah, como se lê, agora: “Nada para Isaac Nader na corrida ao ouro”? O que significa? Nada impedirá Isaac Nader de conquistar a medalha de ouro ou o atleta, que passou parte da infância em Tomar, ficará arredado do pódio? O contexto esclarece as dúvidas?

 

Ah, como se pronuncia, agora: “Projeto para Lisboa”? O que significa? Lisboa ficará parada por causa de um qualquer projecto? Ou existe um projecto destinado à cidade de Lisboa?

 

Ah! Toda a gente fala, por estes dias, no Orçamento de Estado para 2026. Como é habitual, Francisco Miguel Valada, no blogue Aventar, faz uma análise exaustiva desse documento. Nessa análise, fica claro que o documento terá sido escrito, pelo menos, a quatro mãos, pois coexistem, entre outros: Acção e Ação; Protecção e proteção; carácter e caráter; Sector e setor; activos e ativos; excepto e excetuando; conectividade e conetividade; detectados e detetados; Projectos e projetos; Electricidade e eletricidade. Obviamente, merece reprovação.

 

João Esperança Barroca

 

EM DEFESA DA ORTOGRAFIA 1.png

EM DEFESA DA ORTOGRAFIA 2.png

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:57

link do post | comentar | adicionar aos favoritos
partilhar

.mais sobre mim

.pesquisar neste blog

 

.Dezembro 2025

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. Em Defesa da Ortografia (...

. O que espero de um Presid...

. Academia das Ciências d...

. A quem pertence as Língua...

. Hoje, a SIC, na rubrica «...

. Isto só pode ter sido esc...

. No Blogue Aventar, Franci...

. O AO90 é um tipo de escri...

. «O Governo quer dar a ca...

. Da Dinamarca, chegou-me e...

.arquivos

. Dezembro 2025

. Novembro 2025

. Outubro 2025

. Setembro 2025

. Agosto 2025

. Julho 2025

. Junho 2025

. Maio 2025

. Abril 2025

. Março 2025

. Fevereiro 2025

. Janeiro 2025

. Dezembro 2024

. Novembro 2024

. Outubro 2024

. Setembro 2024

. Agosto 2024

. Junho 2024

. Maio 2024

. Abril 2024

. Março 2024

. Fevereiro 2024

. Janeiro 2024

. Dezembro 2023

. Novembro 2023

. Outubro 2023

. Setembro 2023

. Agosto 2023

. Julho 2023

. Junho 2023

. Maio 2023

. Abril 2023

. Março 2023

. Fevereiro 2023

. Janeiro 2023

. Dezembro 2022

. Novembro 2022

. Outubro 2022

. Setembro 2022

. Agosto 2022

. Junho 2022

. Maio 2022

. Abril 2022

. Março 2022

. Fevereiro 2022

. Janeiro 2022

. Dezembro 2021

. Novembro 2021

. Outubro 2021

. Setembro 2021

. Agosto 2021

. Julho 2021

. Junho 2021

. Maio 2021

. Abril 2021

. Março 2021

. Fevereiro 2021

. Janeiro 2021

. Dezembro 2020

. Novembro 2020

. Outubro 2020

. Setembro 2020

. Agosto 2020

. Julho 2020

. Junho 2020

. Maio 2020

. Abril 2020

. Março 2020

. Fevereiro 2020

. Janeiro 2020

. Dezembro 2019

. Novembro 2019

. Outubro 2019

. Setembro 2019

. Agosto 2019

. Julho 2019

. Junho 2019

. Maio 2019

. Abril 2019

. Março 2019

. Fevereiro 2019

. Janeiro 2019

. Dezembro 2018

. Novembro 2018

. Outubro 2018

. Setembro 2018

. Agosto 2018

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

.Acordo Ortográfico

A autora deste Blogue não adopta o “Acordo Ortográfico de 1990”, por recusar ser cúmplice de uma fraude comprovada.

. «Português de Facto» - Facebook

Uma página onde podem encontrar sugestões de livros em Português correCto, permanentemente aCtualizada. https://www.facebook.com/portuguesdefacto

.Contacto

isabelferreira@net.sapo.pt

. Comentários

Este Blogue aceita comentários de todas as pessoas, e os comentários serão publicados desde que seja claro que a pessoa que comentou interpretou correctamente o conteúdo da publicação, e não se esconda atrás do anonimato. 1) Identifiquem-se com o verdadeiro nome. 2) Sejam respeitosos e cordiais, ainda que críticos. Argumentem e pensem com profundidade e seriedade, e não como quem "manda bocas". 3) São bem-vindas objecções, correcções factuais, contra-exemplos e discordâncias. 4) Serão eliminados os comentários que contenham linguagem ordinária e insultos, ou de conteúdo racista e xenófobo. 5) Em resumo: comentem com educação, atendendo ao conteúdo da publicação, para que o vosso comentário seja aceite.

.Os textos assinados por Isabel A. Ferreira, autora deste Blogue, têm ©.

Agradeço a todos os que difundem os meus artigos que indiquem a fonte e os links dos mesmos.

.ACORDO ZERO

ACORDO ZERO é uma iniciativa independente de incentivo à rejeição do Acordo Ortográfico de 1990, alojada no Facebook. Eu aderi ao ACORDO ZERO. Sugiro que também adiram.
blogs SAPO