Na linha dos seus antecessores, o texto do mês de Dezembro (o 87.º da série “Em Defesa da Ortografia” e o último do corrente ano), continua a apresentar, exactamente, as mesmas características.
A aposta continua a ser a de mostrar diálogos, por vezes absurdos, de índole humorística, que ilustram a fantochada do AO90, expondo as suas fragilidades, as suas incoerências e a completa ausência de lógica.
As palavras a vermelho indicam as formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, remetem para grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos, se mantêm como duplas grafias. A azul, temos os casos de hipercorrecção, decorrentes da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.
LXXIII.
— Como vamos sair deste túnel sem luz?
— Temos de tatear. É a única solução.
— Não é suficiente.
— Porquê?
— Porque, para sairmos daqui, temos de usar o tacto, isto é, temos de tactear.
LXXIV.
— Ó pai, como se chama um circuito usado numa subtracção entre números binários?
— Acho que é um subtractor, Rafael Alexandre.
— Pensei nisso, mas não consta no dicionário
— Experimenta procurar subtrator.
— Devem ter tido vergonha de pôr mais uma consoante em reclusão. Além disso, parece que estão a falar de um tractor que anda debaixo do chão.
LXXV.
— Vou fazer uma intervenção cirúrgica na próxima semana.
— Que intervenção?
— Vou retirar as adenoides.
— E não precisas de uma segunda intervenção depois?
— Para quê?
— Para retirar o acento.
LXXVI.
— O meu filho tem problemas respiratórios e vai ser operado às adenoides.
— O que é isso?
— É o mesmo que as amídalas faríngeas.
— Olha lá, além de acentos, também andas a comer consoantes?
LXXVII.
— Este ano, em Agosto, vou passar férias no Gerês.
— E já preparaste tudo?
— Tenho tudo controlado. Até já decidi o trajeto.
— Mais uma vez, fizeste mal. Embora pareça mais longo, é muito mais seguro escolher o trajecto.
LXXVIII.
— Olha, olha! Já estou a ver! Repara, ali, à esquerda, na trajetória do asteroide.
— Que alarido! Estou a ver mais e melhor que tu.
— Porquê?
— Porque estou a ver a trajectória do asteróide, não te parece?
LXXIX.
— Estive a ler um livro sobre o Apocalise.
— Apocalise? Que raio de palavra é essa?
— Nunca ouviste? És um ignorante! Significa o fim do mundo, pá!
— Parece-me, antes, o fim da ortografia.
LXXX.
— Estou a sentir as primeiras contrações. É melhor acionar o INEM.
— Calma, calma…
— Dizes isso porque não é contigo!
— Por enquanto, só estás a sentir contrações, não é?
— Sim, sim.
— Exactamente por isso, deves ter calma. Quando começares a ter contracções, accionamos o INEM e damos ao canelo, pode ser?
LXXXI.
— O meu advogado contatou-me, dizendo que sou arguido e acusado de corrução.
— E estás preocupado com isso?
— Claro que estou preocupado. Nunca me vi nestas alhadas.
— Pois eu acho que não há razão para te preocupares.
— Qual é a tua ideia?
— O crime de corrução é uma coisa de somenos. Tenho sérias dúvidas de que seja crime. Grave seria se fosses acusado de corrupção. Aí, piava mais fino. Ah, e contrata um advogado que te contacte.
LXXXII.
— Ó pai, preciso da tua opinião.
— Sobre que assunto?
— Estou a pensar oferecer à mãe um cato no Dia da Mãe. O que achas?
— Um cato? Parece-me que estás a juntar um artigo indefinido com uma forma verbal do verbo catar.
— Não percebo, pai.
— Um é um determinante, artigo indefinido e cato é a 1.ª pessoa do presente do indicativo do verbo catar.
— Não é nada disso, pai. Um cato é uma planta.
— Da família das Cactáceas. Faz lá falta o cê.
LXXIII.
— Ó pai, o que é um dador?
— É alguém que dá ou doa aos outros, a maior parte das vezes, sem querer algo em troca.
— Tem sinónimos conhecidos, desses de que tu gostas?
— Podes usar benemérito ou filantropo.
— Então um conadador doa o quê?
LXXXIV.
— Ó pai, o que quer dizer mandante?
— Mandante significa o que manda ou instiga outros a cometer determinados actos.
— Há algum sinónimo?
— Sim. Instigador.
— Um cocomandante instiga os cocos? Não percebo.
— Não estás sozinho. Ninguém compreende as questões da nova ortografia. Já o saudoso António-Pedro Vasconcelos o dizia.
Ah! Uma das imagens que acompanha este escrito demonstra como, vários anos após o início da aplicação do nefando Acordo Ortográfico de 1990, alguns órgãos de Comunicação Social continuam a ter saudáveis recaídas, distinguindo, neste caso, um verbo de uma proposição.
Ah! A outra imagem, sobre o desempenho de um futebolista português em França, mostra o estado a que isto chegou, como diria Salgueiro Maia, em que o verbo retratar-se, vítima da sanha de amputar indiscriminadamente consoantes, significa, agora, além de fotografar, desdizer-se, dar o dito por não dito…
Ah! É completamente obrigatório ler o artigo de Manuel Monteiro “A língua de pau de todos os dias”, publicado recentemente pelo jornal Público.
Ah! Como é habitual, vale a pena ler dois textos recentes de José Pacheco Pereira, também dados à estampa pelo Público: “O desprezo da pátria por via do desprezo da língua” e “O papel destrutivo do deslumbramento tecnológico na educação”.
Ah! O blogue O Lugar da Língua Portuguesa, administrado por Isabel A. Ferreira, continua a ser um local bem frequentado, onde os bons espíritos se vão regularmente reencontrando. Salubérrimo, portanto.
João Esperança Barroca


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