Quarta-feira, 11 de Abril de 2018

«O MINISTRO DA CULTURA E AO AO/90»

 

Um artigo do embaixador Carlos Fernandes, autor do livro "O Acordo ortográfico de 1990 não está em vigor", o qual, e uma vez mais, vem pôr a nu a ilegalidade do AO90, que o governo da geringonça silencia (à excepção do PCP) com a cumplicidade do presidente da República.

 

E as perguntas que se impõem, depois de se ler o livro e os vários artigos do Embaixador Carlos Fernandes e os de todos os que já se pronunciaram sobre esta matéria, são as seguintes: o que é que Vossas Excelências ainda não entenderam? O que escondem dos Portugueses? O que pretendem? Por que acham que os Portugueses são todos parvos? O que deveremos pensar dos que lhes é explicada a lição centenas de vezes e eles não conseguem entender? Será necessário fazer um desenho?

 

É que já estamos todos fartos, muito fartos, desta farsa chamada AO90, imposta por autocratas disfarçados de democratas. Numa Democracia a sério isto jamais aconteceria.

 

CARLOS FERNANDES.jpg

Carlos Fernandes

 

Texto do Embaixador Carlos Fernandes:

 

«E eu pergunto: o ministro da Cultura é ministro de quê, se o não for da língua?

 

Sempre houve, e continuará a haver, ministros louvados por competentes e, bem ou mal, ministros criticados por incompetentes. Não obstante estas frases vulgares, eu não pretendo nem me atrevo a classificar, ou adjectivar, o actual ministro da Cultura, até porque o conheço mal e não é meu costume fazer juízos à ligeira.

 

Dito isto, apenas vou comentar as declarações do ministro ao DN, em 10 de Março, e ainda bem que, por estas declarações, me deu a oportunidade de interpelar um membro do Governo quanto à aplicação do AO/90, ou melhor, do que se diz ser o AO/90.

 

Ora bem, por tais declarações ficámos a saber que o ministro da Cultura do actual Governo lavou, e prometeu continuar a lavar, pilaticamente, as mãos quanto à questão de saber se deve escrever-se em português ou nessa mixórdia linguística a que já se está dando a designação de acordês ou socratês, imposta, violenta e inconstitucionalmente, por José Sócrates, a todos os Portugueses, como ortografia obrigatória, por mera resolução do seu Conselho de Ministros (a RCM 8/2011, de 25 de Janeiro); ele que, acusado de ter arruinado, económica e financeiramente, o país, também o é, agora, culturalmente, por mutilar, gravemente, a própria língua portuguesa. Quanto a mim, só vim a conhecer as declarações do ministro da Cultura ao DN (jornal que deixei de ler por escrever, exclusivamente, em socratês, não em português), por um oportuno artigo do Dr. Nuno Pacheco no PÚBLICO, a 22 de Março. E confesso que fiquei surpreendido com os conhecimentos linguísticos do ministro da Cultura que, nisto, se iguala à generalidade dos cidadãos portugueses.

 

Mas, atentando no que disse, e ao contrário do que disse, afinal, o senhor ministro sempre tem religião linguística, e até já mudou de crença: antes escrevia em português, agora escreve em socratês. E eu pergunto, o ministro da Cultura é ministro de quê, se o não for da língua?!. Da dúvida ou da indiferença, quanto ao uso do português, como a nossa língua é designada, constitucionalmente, pelo artigo 3.º da lei fundamental vigente? Ou não será o português a base normal da actividade cultural de um ministro da Cultura?!; que, ademais, é obrigado a defendê-lo e a promovê-lo, interna e internacionalmente, como se dispõe e impõe no artigo 9.º, alínea f) da Constituição.

 

Francamente, senhor ministro, então o AO/90, que “não é o melhor possível, mas está vigente, e segui-o, para horror e espanto de muitos amigos”, e “enquanto estiver em vigor, vou segui-lo”! Antes de mais, creio que estas peremptórias declarações são precipitadas. Pois, como é que sabe que o AO/90 está legalmente em vigor? É pena que não no-lo tenha dito, porque, perante a dúvida, pública e notória, do país a este respeito, impõe-se esse esclarecimento.

 

Não vale a pena transcrever o resto da citação das suas palavras, porque, a meu ver, isso não lhe traria nem glória nem proveito. Na verdade, será que o senhor ministro tem mesmo a certeza de que o AO/90 está em vigor?!. De facto, a não ser o seu fabricante? o doutor Malaca Casteleiro?, ninguém ainda se atreveu a declarar, peremptoriamente, tal vigência legal, antes o contrário, e Malaca Casteleiro não sabe Direito, nem o entende, ou faz que não entende, posso garanti-lo, por experiência própria.

 

O senhor ministro já estudou o problema? Parece-me óbvio que não, de contrário não teria afirmado o que afirmou sem o esclarecer.

 

Mas, claro, como entende que escrever em português ou em socratês dá no mesmo, porque se trataria de opções, perante uma e outra escrita, ambas imperfeitas, não se importa que se use uma ou outra, mesmo que tal atitude desagrade a alguns amigos, e até a classifiquem de traição.

 

E eu pergunto-lhe: e os Portugueses, sobretudo os estudantes, e a Internet, senhor ministro, é só uma questão de opção? Graves frases as suas, até porque, repito, afinal, ao contrário do que afirmou, sempre tem religião linguística, optando, agora, pelo socratês, em vez do português.

 

Ora, como sabe, o AO/90 foi imposto, na prática, a todos os órgãos de soberania, pela RCM 8/2011, de 25 de Janeiro (em rigor, e se fosse constitucional, ela só obrigaria nos domínios exclusivos do Governo, no entanto, quiçá por desleixo, ou, aparentemente, por escasso respeito pelo Estado de Direito, tanto os serviços públicos como até os tribunais, assim como a Assembleia da República, através do Diário das Sessões e do Diário da República, controlados pelo Governo, passaram a submeter-se-lhe, sem mais)!

 

Porém, senhor ministro, a RCM 8/2011 é manifestamente inconstitucional, por mais de um vício, designadamente, porque legisla, não o podendo fazer (cá, só se legisla por lei ou decreto-lei), e porque os acordos internacionais não se põem em vigor por meras resoluções do Governo (mesmo os acordos compreendidos nas competências exclusivas dos governos, para vigorarem, têm de submeter-se à aprovação por decreto elaborado em Conselho de Ministros).

 

Por isso, por favor, ajude-nos a resolver definitivamente o problema, estudando-o, já que não é assunto menor, tendo muito por onde começar e acabar: há, de facto, um sem número de estudos válidos, em artigos de jornais e revistas, conversas televisadas, e até livros de Direito, incluindo um meu, intitulado O Acordo Ortográfico de 1990 não Está em Vigor, editado pela Guerra e Paz, em 2016, todos provando a inconstitucionalidade da RCM 8/2011 e, como consequência, a sua ineficácia jurídica.

 

Mas aplica-se. E porquê? O povo não sabe, e quem sabe cala-se. De facto, aplica-se apenas porque sim. Porque se mandou aplicar, e isso é aceite sem discussão, no Governo e nos partidos políticos, onde só o PCP começa agora a despertar de um longo sono. Uma vergonha, que, a meu ver, revela pouco respeito pelo Estado de Direito, e não só nesta questão. Veja-se, por exemplo, a impunidade e ineficiência da Justiça, quanto à resolução dos nossos principais bancos privados, sem falência ou equivalente, roubando-os, à pressa e descaradamente, aos accionistas portugueses, para os entregarem, praticamente de graça, ou até com encargo público, aos estrangeiros que lhes terá apetecido escolher (chineses e espanhóis), por mera decisão administrativa do Banco de Portugal e do BCE, de uma UE, agora protectorado nosso, sem que ninguém tenha discutido se isso é ou não constitucional, quando, nos termos do disposto na nossa Constituição, nada, de fora ou de dentro, pode, legitimamente, ser vigente em Portugal se não for constitucional, e a resolução dos bancos, como foi feita, não o é certamente no nosso Estado de Direito, que, por enquanto, na União Europeia ainda não existe, já que tem vivido, e cada vez mais, à sombra de um voluntarismo político governamental dos Estados-membros, a meu ver, inaceitável, democrática e juridicamente. E os próprios tribunais, que sendo o órgão de soberania encarregado de aplicar a lei, em nome do povo e, portanto, não vinculados por meras resoluções governamentais, aborregaram na aplicação do que, para mim e muitos como eu, é um crime de lesa língua portuguesa, e, mais grave, um claro atentado ao Estado de Direito. Até acontece que o conselheiro vice-presidente do STJ, Dr. Sebastião Póvoas, defendeu a ilegalidade da aplicação do AO/90, mas ninguém, nem no Conselho Superior da Magistratura nem no STJ, se importou minimamente com isso!

 

Como o actual Governo é dominado por ex-ministros de J. Sócrates, que terão votado a RCM 8/2011, ninguém no Governo tem dado um passo para acabar com esta violência inconstitucional de forçar a aplicação do socratês nas escolas, nos serviços públicos e na Internet, isto é, interna e internacionalmente, antes o contrário (veja-se a acção do ministro dos Negócios Estrangeiros no seio da CPLP, aliás, com pouco sucesso).

 

E, na oposição, salvo o PCP, continua tudo em hibernação.

 

Senhor ministro, quando acabar o seu estudo independente, ficando informado, verá que não perdeu o seu tempo, acabando certamente por concluir que a ortografia do português não é uma opção de cada um, ad libidum, mas sim uma exigência legal, resultante da vigência da ortografia adoptada pela Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945, pela simples mas boa razão de que ainda não foi revogada, só o podendo ser por lei ou decreto-lei, que não existem.

 

Que o Diário de Notícias tenha tomado como missão travestir o português em socratês, impingindo-o, diariamente, aos seus leitores, sem explicar porquê, e que os ex-ministros de Sócrates, que terão votado a RCM 8/2011 e, agora, estão no actual Governo, não removam uma palha para repor a legalidade, embora tal não seja correcto, ainda se entende, mas que, num país cheio de Faculdades de Direito, e vivendo sob um Estado de Direito, o ministro da Cultura e os próprios tribunais actuem como estão actuando, isso já não é aceitável nem compreensível.

 

Obviamente, todo este arrazoado não tem absolutamente nada que ver com a ilustre pessoa do Dr. Castro Mendes, mas, exclusivamente, com as declarações públicas do ministro Castro Mendes.

 

Por isso, bom estudo, e até breve, senhor ministro.»

 

Fonte:

https://www.publico.pt/2018/04/08/culturaipsilon/opiniao/o-ministro-da-cultura-e-o-ao90-1809107

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:58

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Terça-feira, 3 de Abril de 2018

A GRAFIA PORTUGUESA QUE VIGORA EM PORTUGAL VERSUS A QUE O GOVERNO PORTUGUÊS NOS QUER IMPINGIR (PARTE VI)

 

 

Continuando o périplo pela grafia que o governo português nos quer impingir, hoje destacamos as palavras começadas pela letra F, começando pelo vocábulo facção e o inacreditável enredo que o envolve.

 

GRAFIA6.png

 

Vejam o que anda a circular na Internet:

Facção – Wikipédia, a enciclopédia livre

https://pt.wikipedia.org/wiki/Facção

  1. Em cache

Facção (português brasileiro) ou Fação (português europeu) pode(m) referir-se a: Facção Central — um grupo de rap brasileiro, formado na cidade de São Paulo no ano de 1989; Facção Central - Ao Vivo — a primeira compilação do grupo de rap Facção Central; Família Facção — um álbum da banda de rap Facção ...

 

 

Eu quando li isto não quis acreditar!

 

Facção, assim bem escrito em boa grafia portuguesa, é português brasileiro???

 

E fação, (lê-se fâção), assim mal escrito, numa grafia analfabeta, é português europeu???

 

Mas nem aqui nem na China!

 

Isto é de uma ignorância descomunal.

 

E os linguistas portugueses permitem que uma barbaridade destas circule na Internet, e não fazem nada?

 

Não faço ideia quem foi o ignorante que colocou esta parvoíce na wikipédia, mas seja quem for, mostrou uma ignorância crassa, não faz a menor ideia do que seja o Português (dito europeu), e prestou um péssimo serviço à História das Línguas Europeias.

 

Ponto único: o Português É europeu, e não há Português de mais parte alguma.

O que há é dialectos.

 

E fação (fâção) seja lá o que isto for, nem é dialecto, nem Português. É uma aberração ortográfica qualquer, inventada por uma cambada de ignorantes, que querem, à força dessa ignorância, destruir a Língua Portuguesa, e pô-la ao ridículo perante o mundo.

 

Senhor presidente da República, não acha que está na hora de virar os seus afectos para a Língua Portuguesa, e salvá-la desta vergonhosa destruição?

 

É um DEVER de Vossa Excelência.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:24

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Segunda-feira, 2 de Abril de 2018

DESAFIO PARA ACORDISTAS

 

Com este título desafio os acordistas a dizerem-me se pararam para decifrarem esta mensagem, ou se acham que criei este desafio para os baralhar?

 

HUMOR.jpg

 

Dou um doce ao acordista que conseguir decifrar este título:

«Humor inteligente para o mundo»

 

É verdade que o humor inteligente pode parar o mundo. Pode. Mas, neste caso, o humor inteligente contido nesta imagem teria força suficiente para parar o mundo? E no caso de ter, o mundo pararia?

 

Poderá não ter, mas se a intenção do autor for essa, poderá parar o mundo, com o humor inteligente para todos.

 

É óbvio que um acordista brasileiro poderá baralhar-se com mais facilidade, porque abre o A de para em qualquer circunstância.

 

E um acordista português? Para para pensar na hipótese de o humor inteligente poder parar o mundo, ou poder ser criado apenas para o mundo?

 

De qualquer modo, aqui fica o desafio para acordistas inteligentes…

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 19:27

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Segunda-feira, 26 de Março de 2018

A GRAFIA PORTUGUESA QUE VIGORA EM PORTUGAL VERSUS A QUE O GOVERNO PORTUGUÊS NOS QUER IMPINGIR (PARTE V)

 

Continuemos a comprovar que a grafia que o governo português impôs a Portugal ilegalmente é a grafia brasileira, mutilada em 1943, para facilitar a aprendizagem do Português, que anos mais tarde saiu dos currículos escolares, para lugar à Comunicação e Expressão.

 

A pergunta é esta: que Português se pretende para o mundo?

 

GRAFIA5.png

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 11:56

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Quinta-feira, 22 de Março de 2018

SUGESTÃO POLITICAMENTE CORRECTA PARA SE ACABAR DE VEZ COM A MIXÓRDIA ORTOGRÁFICA EM PORTUGAL

 

O que anda, pode desandar. O que se faz, pode desfazer-se. E os erros são para corrigir, não para perpetuar. Diz o senso comum.

 

E a política deve ser praticada com a inteligência proveniente de um cérebro alojado na cabeça dos homens, e não com a “inteligência” alojada na cabeça do dedo mindinho dos pés dos homens.

 

Atentemos nesta balbúrdia, compilada pelo Grupo Tradutores Contra o Acordo Ortográfico:

 

 

Só esta visão dantesca do caos ortográfico, generalizado em Portugal, deveria ser o bastante para que o aCtual governo português e o próprio presidente da República, que tem vergonha de tanta coisa, mas não da mixórdia ortográfica, dessem o dito pelo não dito, e desandassem com o que andou mal, e desfizessem o que se fez mal, e corrigissem o monumental erro que foi obrigar a função pública e os organismos afeCtos ao Estado a aplicarem, sem qualquer base legal, uma ortografia mutilada, oriunda do Brasil.

 

Mas o mais insólito é o faCto de a resolução do conselho de ministros (assim em minúsculas, porque me apetece) onde foi parida a “ordem de marcha do AO90”, e que seria, alegadamente, apenas “obrigatória” para funcionários públicos e organismos do Estado, andar por aí a ser aplicada em certos meios de comunicação social, que nos garantem que adoPtam o AO90 porque foi obrigatório para os funcionários públicos e órgãos do Estado, como se eles fossem funcionários públicos ou órgãos do Estado; e também agora em anúncios, como se as empresas publicitárias fossem funcionalismo público ou órgãos estatais.

 

E é que, no meio disto tudo, ninguém, dos que aplicam a ortografia brasileira, se pergunta se são obrigados, por lei, a fazê-lo, uma vez que uma resolução do conselho de ministros não tem valor de Lei. Farão isto por modismo, por servilismo, por ignorância, ou pelo prazer da imitação?  

 

Se gostam de imitar, imitem, ao menos, os idiomas europeus, os “parentes” mais próximos da Língua Portuguesa.

 

Posto isto vamos à sugestão:

 

Atentem nesta nota explicativa, que justifica do modo mais idiota possível, a mutilação das palavras:

 

NOTA EXPLICATIVA.jpg

 

Pois se o problema (para os adultos cabeças-duras, não para as crianças, que conseguem aprender tudo) é como saber que em concePção, direCção, etc., se vai escrever o e o , se não os pronunciam, sugiro algo muito mais simples e que evita mutilar as palavras que, sem as consoantes, ficam com a aparência de palavras carecas. Sugiro, então, que se comece a pronunciar as consoantes, que não se pronunciam, porque, afinal, já se lê algumas, porque não todas?

 

Não, não me venham dizer que isto é retroceder na linguagem, porque não é. Isto é simplesmente «unicuĭque suum», expressão latina que significa «a cada um o (que é) seu», que no contexto da ortografia, significa «a cada palavra o que é dela, ou seja, todas as letras de que ela é composta».

 

Uma vez que pronunciamos contaCto, paCto, faCto, impaCto, por que não pronunciar aCto (aCção), e deixarmos o vocábulo intaCto, sem aquela aparência de palavra careca? É que ato, é do verbo atar, e atados e mudos estão todos os que não sabem escrever…

 

CARLO DOSSI.png

 

Se pronunciamos egíPcio, egiPtólogo, egiPtologia, não nos custa nada dizer EgiPto ou custa? (Aliás, eu sempre pronunciei o de EgiPto, por uma questão de coerência), e a palavra que, com o AO90 inacreditavelmente perdeu o , não se transformaria em nome próprio masculino Egito, como em Egito Gonçalves, nosso grande poeta, até porque em nenhuma outra língua culta, EgiPto perdeu o .

 

Veja-se o que nos diz Fernando Kvistgaard: «Já agora, em Dinamarquês escreve-se: aktør, faktor, reaktor, sektor, protektor, eksakt, baptisme, optimum, e também Egypten, optik, faktum, receptionist, projekt, direkt, etc., etc.

 

É que as línguas cultas não albergam palavras mutiladas. Em Dinamarquês, bem como em todas as outras línguas europeias, nestas e noutras palavras, pronunciam-se os cês e os pês, porque todas pertencem à grande família indo-europeia, tal como a Língua Portuguesa.

 

Ora, se a intenção é simplificar, que se simplifique a sério: é muito mais fácil pronunciar e escrever os pês e os cês, em todas as palavras, do que andar ó tio, ó tio, o que é que se corta, o que é que não se corta, em cada palavra. E depois dá no que dá: uma mixórdia ortográfica, sem precedentes em Portugal, e caso único no mundo.

 

Além disso a pronúncia ficará semelhante à das outras línguas europeias, e as nossas crianças, que estão a aprender Inglês ou outra língua, não terão a mínima dificuldade em dizer (diréCtôr) e escrever direCtor, em Português, bem como dizer (dairéCtâr) e escrever direCtor em Inglês.

 

Eu, que escrevo correCtamente as palavras, comecei já a pronunciar as consoantes que não se pronunciam, para que os meus netos as ouçam, e saibam que ali existe um ou um , embora desgraçadamente, na escola, tenham de escrever as palavras incorreCtamente. Juntando a isto, ofereço-lhes livros infantis escritos em Bom Português, espólio da minha Biblioteca, e com isto vou amenizando o prejuízo de viverem num país em que lhes impingem gato por lebre. E se algum me pergunta o porquê de nos meus livros estar escrito coleCção, e nos da escola “coleção, digo-lhes a verdade: coleCção é Português, “coleção” é brasileiro.

 

Bem, esta parte da mutilação, ficaria, deste modo, facilmente resolvida, porque ao pronunciarmos as consoantes, não há como errar.

 

No que respeita à acentuação e hifenização, é seguir as regras mais básicas, já existentes, da Gramática, e não inventar modismos acordistas, para constar que o Brasil também teve alterações na sua grafia, porque a língua não é apenas som, mas também imagem, e as crianças deteCtarão automaticamente as faltas dos acentos em palavras como pára, ou vêem, dêem (não ficam mais compostinhas estas palavras com o chapeuzinho?) etc..

 

Quanto aos hífenes, as palavras que se formaram com a supressão dos hífenes são tão horrorosas, tão inestéticas, tão absurdas, que qualquer criança se assusta com estas aberrações ortográficas: autorretrato; antirreligioso; contrarreforma; contrarregra; radiorrelógio; autorradiografia; arquirrival; antirracional; contrarrazão; antirracial; antirrevolucionário; suprarrenal… entre outras, que ao ler parecem um trava-línguas, e ficamos com a garganta arranhada...

 

Não será visualmente mais elegante e muito mais percePtível, logo à primeira leitura: auto-retrato, anti-religioso, contra-reforma, contra-regra, radio-relógio, auto-radiografia, arqui-rival, anti-racional, contra-razão, anti-racial, anti-revolucionário, supra-renal, do que aqueles palavrões cheios de erres, assarrabulhados e de difícil compreensão para as crianças?

 

Se a intenção foi facilitar só complicaram. E de que maneira! 

 

A nossa Língua é tida como uma das mais belas do mundo, também pelo seu visual elegante, e querem transformá-la numa aberração gráfica, com palavras mutiladas, umas, e carregadas de letras outras? O que pretende o governo português? Matar a Língua Portuguesa, para agradar aos brasileiros incultos? É que os Brasileiros Cultos têm tanta aversão a isto como nós.

 

Pois aqui fica a minha sugestão. Penso que será mais viável, do que o mixordês que anda por aí a apunhalar a Língua Portuguesa, sem dó, nem piedade.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 14:43

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Segunda-feira, 19 de Março de 2018

SOPHIA E OS “GÓLOS” DE RONALDO

 

O anúncio da MEO é um pouco enfadonho, mas não deixa de ser interessante.

Estejam atentos.

 

RONALDO.png

 

Ronaldo e a andróide Sophia, aliás bonitinha e muito simpática, e se lhe cobrissem a cabeça com uma bela peruca, ficaria quase, quase humana, travam uma conversa sobre os conhecimentos dela sobre a vida de Cristiano Ronaldo.

 

A alturas tantas Sophia alude aos “gólos” (transcrição da pronúncia) do futebolista.

 

Bem, Sophia, sendo andróide, não tem obrigação de saber falar Português fluentemente. Não tem.

 

Desconheço como esta coisa de pôr uma andróide a falar se processa.

 

Também não sei quem foi o responsável pela produção do anúncio.

 

Mas uma coisa eu sei: sei que sem intervenção humana, o “boneco” jamais falaria o que quer que seja.

 

Em Bom Português aquilo que o Ronaldo faz muitíssimo bem é um golo (gôlo) (do Inglês goal - gôl), plural, golos (gôlos).

 

Não se lê do mesmo modo que colo (cólo), do grego kólon.

 

Ora, Sophia, com a sua inteligência artificial, não tem de saber estes pormenores, e apenas repete aquilo para a qual foi programada.

 

Mas nos tempos que correm, nem os andróides escapam a esta ignorância da Língua Portuguesa, entranhada nos mais estranhos lugares.

 

Bem sei que isto nada tem a ver com a introdução em Portugal do malfadado AO90, que, no entanto, ajuda à missa cantada da ignorância desavergonhada, mas tem a ver com três factores que, por mais incrível que pareça, germinam na Assembleia da República Portuguesa e depois espalham-se por aí…

 

1 - Um total desleixo quanto à preservação da Língua Portuguesa;

2 – Um monumental desconhecimento das regras gramaticais;

3 – Uma descomunal falta de brio profissional.

 

Este tipo de gafe da andróide Sophia (não vou chamar-lhe ignorância, porque a senhora não tem culpa) está generalizado não só em anúncios, mas principalmente nas “falas” de senhores deputados da Nação, ministros, presidentes, directores, administradores, professores, doutores, engenheiros… enfim a elite portuguesa, que passou por universidades, e que devia dar o exemplo de bem-falar e bem-escrever, e são os piores.

 

Fica para uma próxima, a abordagem das gafes linguísticas dos nossos “letrados”.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:35

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Quinta-feira, 15 de Março de 2018

O GOVERNO NEM SEQUER PARA PARA QUESTIONAR AS INCOERÊNCIAS DO AO90

 

Isto dito (mais escrito do que dito) assim à acordês, é algo aparolado, sem nexo, porque uma coisa é o tempo de um verbo (pára), outra coisa é uma preposição (para), e outra coisa são duas preposições lado a lado…

 

Além disso, graficamente a frase fica mais feia do que um troll, e, linguisticamente, mistura-se alhos com bugalhos…

 

E nem sequer é a questão ah! (este ah não devia levar H, segundo a regra acordista) deduz-se na frase o que é para de parar e para preposição... deduz-se… E pronto, é assim!

 

PÁRA.jpg

 Origem da imagem:

https://www.vortexmag.net/as-incoerencias-do-desacordo-ortografico/

 

Desconheço, por completo, o motivo que levou a inteligência acordista a retirar o acento agudo à terceira pessoa do indicativo do verbo parar – pára – que também entra em palavras compostas, como elemento designativo de aquilo ou aquele que protege ou ampara, por exemplo: pára-quedas, pára-raios, pára-lama, pára-vento, pára-choques…

 

Agora, segundo a inteligência acordista, estas palavras escrevem-se sem o acento agudo no A, e ficamos com algo que nos leva a coisas que servem para as quedas, para os raios, para a lama, para o vento, para os choques… (Pâra)

 

Retirou-se o acento agudo de pára (verbo) porquê? Qual o critério?

 

Alguém me explica? Por favor? Algum acordista que espreita o meu Blogue, pode informar-me? Algum professor brasileiro de Comunicação e Expressão (nome que, no Brasil, substituiu a designação da disciplina de Língua Portuguesa – até a este ponto o Brasil se distanciou de Portugal, e isto não é uma crítica) pode explicar-me?

 

É que li no Guia dos Estudantes Brasileiros esta explicação: os acentos diferenciais, que são usados para distinguir duas palavras iguais com significados diferentes, como por exemplo pára (do verbo parar) e para (preposição) deixa de existir nos seguintes casos:

 

Para (verbo); pelo (substantivo) – que se diferencia da preposição pelo (este é outro que tal: pêlo (penugem) pelo (contracção da preposição antiga per e do artigo ou pronome lo) e pelo (tempo do verbo pelar).

 

Mas atenção! A nova regra não se aplica para:

 

Pôde (do verbo poder no passado), que mantém o acento para se distinguir de pode, o uso do verbo no presente; pôr (verbo), que mantém o acento para se diferenciar de por (preposição).

 

Ora se pôr (verbo) mantém o acento para se diferenciar de por (preposição), por que raio é que pára (verbo) não mantém o acento para se diferenciar de para (preposição?).

 

Isto é uma aluna a perguntar aos acordistas: porquê? Qual o critério utilizado?

 

E não me venham com a aquela da colher e colher… com significado e pronúncia diferentes.

 

Uma coisa é colher substantivo feminino (culhér) – utensílio de cozinha), do francês cuillére.

Outra coisa é colher verbo (culhêr) – fazer colheita, do latim colligere.

 

Como distinguimos o substantivo do verbo numa frase?

«Fui colher laranjas e achei uma colher».

 

É que o verbo colher jamais será precedido por uma, à, a, esta, desta, como o substantivo colher.

 

E o que serve para o verbo colher, serve para os restantes verbos, como acordar. Daí pronunciar-se “acórdo”, quando dizemos acordo sempre para o mesmo lado… e “acôrdo”, quando dizemos este acordo ortográfico é uma estupidez. Etc..

 

para (preposição) e pára (tempo do verbo parar) precisa do acento diferencial, de outro modo as frases tornam-se confusas.

 

«Eu ia a caminho da escola quando ouvi aquele para, e assustei-me. Para para o quê? Ora para porque… sim, para para nada… foi uma brincadeira para te assustar…, disse o meu amigo, saindo de trás da árvore.»

 

Qualquer criança da Escola Básica com o básico de Português, ou um qualquer adulto, doutorado em Línguas, lê todos estes “pâras” deste modo: “pâra”.

 

Façam a experiência. E a intenção não foi simplificar? Pois não simplificaram nada.

 

Além disso, todas as Línguas cultas têm um visual elegante e harmonioso, e não atulhado de palavras sem sentido, desviadas das suas origens, mutiladas, as quais, juntas num texto, dá-nos a sensação de um cenário caótico, por onde passou uma ventania demolidora.

 

Alguém pode elucidar-me por que retiraram o acento de pára.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:29

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Quarta-feira, 14 de Março de 2018

AO90 - PORTUGAL PRECISA DE MILHARES DE NÃO-MEMÉS

 

Aos encarregados de educação de Crianças que frequentam escolas para aprenderem a ler e a escrever

 

Eis um exemplo a seguir, por todos os Encarregados de Educação, para que os seus filhos não sejam os ignorantes do futuro

 

A Mãe lúcida de uma criança também lúcida, não se deixa intimidar por imposições descabidas, e orienta a filha no sentido de rejeitar o repugnante Acordo Ortográfico 90, que trucida a Língua Portuguesa.

 

Assim se educa uma criança a ter espírito crítico.

 

ESCOLA.jpg

 

Eis a experiência contada na primeira pessoa, por:

 

Madalena Homem Cardoso - Médica, escritora e activista cívica e autora da famosa Carta Aberta ao ministro da Educação Nuno Crato, um marco na luta contra esta aberração que nos querem impor, e que pode ler-se aqui:

http://static.publico.pt/docs/educacao/carta.pdf

 

«Eu continuo no papel de Encarregada de Educação, na plena acepção do termo... A criança escreve em Português-padrão consuetudinário. Se, por causa disso, sofrer algum tipo de penalização, cá estaremos para dirimir essa questão em tribunal...

 

Entretanto, faz o mais importante (do que os resultados, as notas, etc.): APRENDE a sua Língua Materna como deve ser, não delapidada / estropiada...

 

(A criança "faz gala", e ainda é mais "torta" que a própria mãe... Diz a quem lhe assinala «Já não se escreve assim...»: «Quando este disparate do "acordo" acabar, vocês não saberão escrever, terão sempre dúvidas, até porque não faz sentido e andam a escrever com erros por todo o lado, na televisão, nos livros escolares, etc., não é "acordês", é "mixordês" e já ninguém sabe escrever, excepto quem escreve como aprendeu BEM...»)

 

Sim, é tão simples como apoiar a rejeição da minha filha, no meu caso... No entanto, se tivesse dado com um(a) professor(a) "acordista" ferrenho(a), enquanto ela andou no 1º ciclo, apenas a poria perante um "bilinguismo ortográfico", para não entrar em rota de colisão com o(a) professor(a), o que é SEMPRE terrível para a criança e só levaria à rejeição da escola e da aprendizagem escolar... Dar-lhes muita coisa para ler, em BOM PORTUGUÊS, e eles saberão escrever...

 

Ela tem 10 anos, concluiu agora o 5º ano... Como frequentou, pela primeira vez, a EB2,3 do seu agrupamento escolar, os professores ficaram muito espantados com o caso dela...

 

Quando lhe apontavam erros no caderno, nos primeiros dias, limitava-se a informar: «Eu não escrevo em "acordês"». A Directora de Turma disse-lhe: «Mas agora é obrigatório...», e ela disse-lhe que achava que ela não tinha sido bem informada, mas que lhe levaria uma documentação (que levou) ...

 

Demonstrou-lhe que o Ministério da Educação exerce autoridade (patronal) sobre os professores [embora haja o dever de desobediência, para preservação do património cultural e a não instrumentalização do ensino-aprendizagem pelo poder político, mas isso ela não disse, estou eu a dizer...], mas não sobre os Encarregados de Educação... que são o que o nome permite inferir.

 

Caso curioso, a professora de Matemática passou a envergonhar-se com tantas "retas" e "semirretas" nos exercícios, e passou a apresentar TESTES SEM "ACORDÊS"... E outras coisas houve...

 

A Inês teve até um acto de coragem, este ano... Foi chamada ao quadro, escreveu a palavra "directa", no meio de outras (correcção de um trabalho para casa).

 

Os outros meninos começaram a rir-se. A professora murmurou «Tira o "c"...». E ela, em vez de tirar, lamentou-se à professora «Já sabia que eu não escrevo assim quando me chamou ao quadro...». «Deixa, podes sentar-te...», apaziguou-a a professora, e foi ELA retirar o "c"...

 

É de força, ela... Não sou eu quem lhe diz para "pôr os pés à parede", mas fico feliz por educar uma futura cidadã consciente, uma não-memé.»

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:42

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Segunda-feira, 12 de Março de 2018

«SURDOS DOS OLHOS, CEGOS DOS OUVIDOS»

 

Faz bem à alma ler textos escritos com lucidez e num Português escorreito.

Obrigada, Nuno Pacheco.

Possam eles, os governantes e seus acólitos, entendê-los (aos textos)…

 

NUNO.jpg

Nuno Pacheco

 

Chamaram ao livro O Nervo Ótico. Ou seja: a senhora vê com os olhos mas regista o que vê com um “nervo” auditivo.

 

 A escritora argentina María Gaínza (nascida em Buenos Aires, em 1975) estreou-se na novela com uma obra a que deu o nome de El Nervio Óptico. O livro, lançado em 2014, não teve ainda edição no Brasil; mas, se a tivesse, chamar-se-ia O Nervo Óptico. Editado em Portugal, pela D. Quixote, puseram na capa a fotografia de uma sala de museu com uma senhora a olhar para uma parede com quadros e este título em letras garrafais: O Nervo Ótico. Ou seja: a senhora vê com os olhos mas, pelo título, regista o que vê com um “nervo” auditivo. Consulte-se o dicionário Priberam brasileiro, numa edição recente, e o que lá vem é isto: “ótico adj. 1. Relativo ou pertencente ao ouvido. 2. Diz-se do medicamento que se emprega contra doenças do ouvido.” Nenhuma dúvida. E com P? “óptico [ót] adj. 1. Relativo à óptica ou à visão. = OCULAR, VISUAL (…).” [Portugal] Grafia de ótico antes do Acordo Ortográfico de 1990.” Para os brasileiros parece não haver aqui dúvidas quanto à escrita ou quanto à fala. Repare-se que escrevem “óptico” e, à frente, indicam que se deve ler “ót”, “ótico”, não “ópt”, “óptico”. Ora, se bem se lembram, um dos mais fortes argumentos para banir as ditas “consoantes mudas” em Portugal era que não se liam; e “o que não se lê não se escreve.” Verdade? Mentira. O “óptico” brasileiro prova-o de forma categórica: não lêem o P mas escrevem-no. Porque entendem que não se pode ser surdo dos olhos e cego dos ouvidos.

 

Ou pode? Em Portugal pode. Com o acordo ortográfico (AO), a palavra é a mesma, ouvidos e olhos tudo misturado, numa lamentável miscelânea pós-cubista que nada deve à arte. “Óptico” ou “ótico”? Vai-se aos vocabulários oficiais do acordismo (os do IILP) e lá está: nos vocabulários nacionais de Portugal, Cabo Verde, Timor-Leste e Moçambique (até neste, que nem ratificou o AO), ao inserirmos a palavra “óptica” recebemos por resposta: “A forma óptica não se encontra atestada neste vocabulário”. Mas está no do Brasil; neste e no chamado “vocabulário comum”, que mistura tudo sem critério só para fingir que há unificação na escrita.

 

 

Há alguma vantagem neste inominável disparate, que ainda por cima foi inventado aqui, para consumo interno e para imposição colonial a terceiros pelas áfricas e orientes? Nenhuma vantagem. Um exemplo: os ingleses pronunciam “no” e “know” da mesma exacta maneira, tal como “night” e “knight”, ou “right” e “wright”. Imaginam alguém a sugerir que tais palavras passem a ser escritas da mesma forma porque têm o mesmíssimo som? Não, loucos desses só existem por cá. O que se passa com “óptico” e “ótico”, ou “acto” e “ato” é similar: lêem-se da mesma maneira mas são palavras diferentes, com raízes diferentes e sentidos diferentes. Custa muito entender coisa tão simples?

 

Hoje é Dia da Mulher e provavelmente esta crónica devia falar de outras coisas. Mas já que o livro aqui citado (devido ao assassinato do seu título) foi escrito por uma mulher, juntemos-lhe textos recentes de duas escritoras, ambos a propósito. No Expresso de 3 de Março, numa crónica intitulada “Ninguém para o AO (lê-se à vontade do freguês)”, escreveu Ana Cristina Leonardo: “Continuamos a não conseguir distinguir ‘óptica’ (vista) de ‘ótica’ (audição), palavras que se tornaram homónimas em nome da uniformização da língua, mas só em Portugal, já que no Brasil a distinção se mantém e também em nome da uniformização da língua. Confused?” Não, que ideia, é tudo claro como água! No dia anterior, 2 de Março, já Alexandra Lucas Coelho escrevera, no Sapo24, um texto revoltado e notável, intitulado “Este país partido ao meio pela própria língua. Um pequeno excerto: “Supostamente este acordo era para aproximar os países de língua portuguesa. Mas o que separa os países de língua portuguesa são muitas outras coisas, muitas delas de facto políticas, muitas delas de facto incómodas, muitas delas de facto sistematicamente ignoradas, ou menosprezadas, enquanto um acordo totalmente desnecessário, supostamente a bem da lusofonia, nos mói o juízo há 28 anos.”

 

Diz-se que água mole em pedra dura… O resto já sabem. Mas não há água, mole ou dura, que lave tais misérias e nos deixe definitivamente em paz. Só mesmo uma enorme vaga, temível como as da Nazaré, será capaz de arredar tanto disparate do nosso quotidiano, deixando a língua viver e respirar como lhe compete. Tardará muito? Talvez não.

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 10:35

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Domingo, 11 de Março de 2018

«LÍNGUA DE PAPEL»

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 848 (Cabo Verde) de 28 de Fevereiro de 2018

 

https://expressodasilhas.cv/opiniao/2018/03/06/lingua-de-papel/56891

 

Os Crioulos de Cabo Verde mostram-se cada vez mais vigorosos, procurando o seu "espaço" - artigo de Eurídice Monteiro, no qual esta investigadora e docente universitária cabo-verdiana aborda os Crioulos de Cabo Verde, num texto escrito em Língua Portuguesa.

 

Recorde-se que o Crioulo Cabo-verdiano passou para "língua primeira" no sistema de ensino, relegando a Língua Portuguesa para "língua segunda", ou seja para "língua estrangeira".

 

Enche-nos a alma ler um texto num Português escorreito.

 

EURIDICE.jpg

 

Por EURÍDICE MONTEIRO

​ ​

6 Mar 2018

 

«Para a valorização do multilinguismo e da diversidade linguística e cultural dos povos, assistimos à comemoração, a 21 de Fevereiro, do Dia Internacional das Línguas Maternas, por expediente da UNESCO e com o apadrinhamento das Nações Unidas.

 

Não é segredo que, particularmente no mundo moderno ocidental, desde o longínquo século dezasseis e em especial com a intensificação dos processos de   globalização cultural, política, financeira e económica em curso, as línguas do poder e do saber científico têm estado relacionadas com a expansão imperial. É por esta razão que, nas emergentes sociedades crioulas, como a nossa, fruto do colonialismo europeu no além-mar e com pouco mais de quinhentos anos de história, a situação linguística caracteriza-se, ainda nos dias da actualidade, pela coexistência hierarquizada entre uma língua europeia oficial e uma língua local (ou várias línguas locais).   

 

É ainda mais profundo esse fosso quando se vislumbra que as línguas coloniais, consideradas – desde a revolução científica de Copérnico, Galileu e Newton – como línguas científicas e veículo do saber moderno, continuam a ser adoptadas como veículo, por excelência, de difusão da literacia. Daí o carácter subalterno que muitas línguas maternas ainda detêm, por as línguas coloniais e o sentido colonial do poder as terem relegado a um estatuto ideológico inferior. Constata-se que um dos fenómenos que tem permitido a perpetuação desta situação de subalternidade das línguas maternas é talvez a inexistência de escrita e a acentuada força da oralidade, fenómenos que são descartados do quadro de legitimação de conhecimento da modernidade ocidental.

 

Tomando, em parte, estas asserções podemos entender melhor o que tem acontecido com as duas línguas em Cabo Verde. Proliferam-se, hoje, estudos sociais, culturais e linguísticos em torno do crioulo cabo-verdiano ou da língua caboverdiana, destacando-se, pelo menos desde princípios do século vinte ao início do terceiro milénio, a contribuição de uma multiplicidade de renomados estudiosos nacionais e estrangeiros (Adolpho Coelho, António de Paula Brito, Baltasar Lopes da Silva, Dulce Almada Duarte, Armando Napoleão Rodrigues Fernandes, Donaldo Macedo, Deirdre Meintel, António Carreira, Dulce Fanha Pereira, Manuel Veiga, Nicolas Quint, Jürgen Lang, Marlyse Baptista, Itzel Salas Barrena, Adelaide Monteiro, Dominika Swolkien, entre outros mais ou menos conhecidos).

 

Admite-se que, não obstante as excepções, a língua cabo-verdiana tem sido confinada ao domínio do privado, tratada como uma língua materna, de comunicação na família, da oralidade, das situações informais de comunicação e, já agora, da comunicação instantânea nas redes sociais; ao passo que a língua portuguesa – que, contrariamente à primeira, é uma língua estandardizada de há séculos – tem sido remetida para o domínio público, sendo a língua oficial e do ensino formal, da escrita, dos meios de comunicação social, das relações internacionais e das demais situações formais de comunicação. Tornou-se uma verdade corriqueira reconhecer que a língua cabo-verdiana é, por excelência, uma língua da oralidade, enquanto a escrita se afigura quase restrita à língua portuguesa.

 

A distribuição do espaço destinado a cada uma revela a interiorização das dicotomias impostas pelo discurso colonial. Por outras palavras, apesar do uso informal (oral) da língua cabo-verdiana tenha sido sempre indexado, antes e depois da independência,  um forte sentido de solidariedade identitária e, em certos contextos, de resistência cultural em Cabo Verde e na diáspora, este uso é menos valorizado ou inclusive indesejado nos contextos públicos, mormente na administração, na educação, na comunicação social e nas relações externas.

 

Kwame Appiah não ignora a persistência do estatuto oficial das línguas coloniais nos territórios africanos outrora colonizados pelos países europeus, chamando a atenção para o facto dessas línguas europeias, portanto estrangeiras, cujo domínio antes havia marcado uma elite colonial, tenham-se transformado em marcas de status nas sociedades ex-colonizadas, preciosas demais para serem abandonadas pela classe que doravante herdou o Estado colonial. Isto é tanto mais sintomático na concepção de MyersScotton, que chega a identificar o que designa por elite closure, ou seja, retrata a estratégia de demarcação do acesso a uma elite, pela via da fluência da eurofonia (língua oficial). Na mesma linha, Étienne Balibar refere que “L’héritage du colonialisme est en réalité une combinaison fluctuante d’extériorisation continuée et d’exclusion intérieure.”(***) Em boa medida, isto ajuda a compreender as disparidades no investimento e na valorização das línguas.

 

Em Cabo Verde, ao contrário do que aconteceu com muitas línguas em outros contextos de enfrentamento, que foram completamente assimiladas por línguas socialmente dominantes ou deixarem de ter falantes, a língua materna resistiu. Constata-se que, cada vez que uma língua se extingue, desaparece com ela a memória cultural do grupo a que pertencia, de maneira que a afirmação das línguas locais, em certa medida, constitui um instrumento fundamental para a valorização dos conhecimentos do povo que a pratica. Posto isso, e se é verdade que a afirmação da língua cabo-verdiana potencializa a revitalização dos saberes catalogados como tradicionais, não é menos verdade que tais saberes deram também grandes impulsos para que a língua cabo-verdiana, para além de ter resistido, reclame um novo estatuto, o de língua oficial, em paridade com a língua portuguesa. Ou seja, o seu reconhecimento nas situações formais de comunicação e o seu desenvolvimento na comunicação escrita, até torná-la, quem sabe talvez um dia, também uma língua de papel, o que ela ainda não é.»

 

(***) «O legado do colonialismo é realmente uma combinação flutuante de exteriorização contínua e de exclusão interna.»

LINGUA MATERNA.png

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 14:05

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.ACORDO ORTOGRÁFICO

EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA, A AUTORA DESTE BLOGUE NÃO ADOPTA O “ACORDO ORTOGRÁFICO” DE 1990, DEVIDO A ESTE SER INCONSTITUCIONAL, LINGUISTICAMENTE INCONSISTENTE, ESTRUTURALMENTE INCONGRUENTE, PARA ALÉM DE, COMPROVADAMENTE, SER CAUSA DE UMA CRESCENTE E PERNICIOSA ILITERACIA EM PUBLICAÇÕES OFICIAIS E PRIVADAS, NAS ESCOLAS, NOS ÓRGÃOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL, NA POPULAÇÃO EM GERAL E ESTAR A CRIAR UMA GERAÇÃO DE ANALFABETOS.

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isabelferreira@net.sapo.pt

. AO/90 É INCONSTITUCIONAL

O Acordo Ortográfico 1990 não tem validade internacional. A assinatura (em 1990) do texto original tem repercussões jurídicas: fixa o texto (e os modos como os signatários se vinculam), isto segundo o artº 10º da Convenção de Viena do Direito dos Tratados. Por isso, não podia ser modificado de modo a entrar em vigor com a ratificação de apenas 3... sem que essa alteração não fosse ratificada por unanimidade! Ainda há meses Angola e Moçambique invocaram OFICIALMENTE a não vigência do acordo numa reunião OFICIAL e os representantes OFICIAIS do Brasil e do capataz dos brasileiros, Portugal, meteram a viola no saco. Ora, para um acordo internacional entrar em vigor em Portugal, à luz do artº 8º da Constituição Portuguesa, é preciso que esteja em vigor na ordem jurídica internacional. E este não está!
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