Segunda-feira, 7 de Maio de 2018

A GRANDE FALÁCIA DOS ACORDISTAS

Num comentário algures, online, e como argumento de defesa do AO90, alguém que dá pelo nome de «a favor do acordo ortográfico»  escreveu o seguinte:

 

«Antes de mais, o português fala-se em Portugal e em mais sete países. Em Portugal estão apenas 4% dos falantes nativos de língua portuguesa... daqui a 50 anos seremos apenas 2% ou 3%. Acha justo querer obrigar 250 milhões de pessoas (só no Brasil são 204 milhões) a querer adotar (lê-se âdutár) a velha grafia portuguesa (a de 1945)? O acordo ortográfico não serviu para abrasileirarmos a nossa ortografia, tratou-se apenas de um esforço aproximativo... deixem-se de dramas!»

 

CONSTANÇA.jpg

 

Se não ouvesse mais umas coisas que eu gostaria de acrescentar, Constança Cunha e Sá teria dito tudo, e por aqui me ficava.

 

Mas é preciso desmascarar a petulante falácia dos acordistas.

 

Antes de mais, o Português, fala-se e escreve-se em Portugal.

 

Nos restantes sete países ditos lusófonos, em cinco deles (Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste) apenas uma minoria instruída fala e escreve Português, porque a esmagadora maioria do povo desses países fala os muitos dialectos locais. Num deles, Cabo Verde, a língua oficial já é o Crioulo Cabo-verdiano, tendo o Português passado para língua estrangeira.

 

O Brasil é uma história à parte, que se distancia dos demais países, ditos lusófonos. No Brasil, fala-se e escreve-se dialecto brasileiro, uma vez que, tanto na fala como na escrita, o distanciamento do Português é evidente, de tal modo que já lhe deu o direito de ser dialecto, ou seja, a variedade de uma língua própria de uma região, que se distanciou da sua matriz (o Português - tal como o dialecto português se distanciou da sua matriz latina e transformou-se em Língua Portuguesa). Tanto que, na grafia, como na acentuação e hifenização e entoação das palavras, pouco já resta da língua matriz. Por outro lado, no Brasil, já não se estuda Português e Literatura Portuguesa. Estuda-se tão-somente “Expressão e Comunicação”. E estão no seu pleno direito.

 

Portugal nunca obrigou nenhuma das suas ex-colónias a adoPtar a Língua Portuguesa como língua oficial, depois que se libertaram do país colonizador.

 

Portanto é uma grande mentira dizer «acha justo querer obrigar 250 milhões de pessoas (só no Brasil são 204 milhões) a querer adoPtar a velha grafia portuguesa (a de 1945)


Esses 250 milhões de pessoas não são obrigados a nada. Quando muito poderá dizer-se que os tais 4% dos falantes e escreventes de Língua Portuguesa, referentes a Portugal, são obrigados à actual (e não velha) grafia portuguesa de 1945, porque é essa que está em vigor em Portugal. Os subservientes, esses, usam a grafia brasileira.

 

De resto, o resto é mentira. Os cinco países que adoPtam a Língua Portuguesa não mutilada, adoPtam-na de livre vontade, e não porque sejam obrigados. Ou não são esses países, países livres? E mais um detalhe: adoPtam a Língua Portuguesa desacordizada.

 

Por outro lado, dos 204 milhões de Brasileiros, a esmagadora maioria nem em Português, nem em dialecto: simplesmente não sabem escrever. E o que falam está a milhas do Português.

 

E isso até uma criança percebe: se esta ouve um brasileiro falar, ela diz logo que fala brasileiro. Em parte alguma do mundo se diz que os brasileiros falam Português. A diferença é de tal maneira percePtível que um estrangeiro chama-lhe brazilian language. Nada contra.

 

Portanto, injusto, injustíssimo, é um país livre, como Portugal (a não ser que não seja livre) subjugar-se à ortografia de uma ex-colónia.

 

Dizer que o acordo ortográfico não serviu para abrasileirarmos a nossa ortografia, tratou-se apenas de um esforço aproximativo... é outra monumental mentira.

O AO90 só serviu para abrasileirar a ortografia portuguesa. Só serviu para isso. Isto é um facto indesmentível. E disse bem o tal «a favor do acordo ortográfico» tratou-se (não se trata) tratou-se de um esforço aproximativo, sim, um esforço muito forçado pela ignorância, de aproximar algo inaproximável, é assim como querer aproximar o Sol da Lua.

 

Qual o motivo desta fixação por Portugal, e não pelos restantes países lusófonos, que não são trazidos à baila?

 

Qual o drama? É que se Portugal (porque, já vimos, os restantes países seis estão-se nas tintas para o AO90) continuar a teimar nesta fraude, daqui por 50 anos seremos apenas 2% ou 3% a escrever e a falar mal uma língua que já não será o Português, porque este desaparecerá do mapa, tão certo como eu estar aqui a escrever isto, enquanto os outros sete países falarão e escreverão os seus dialectos que, entretanto, se transformaram nas línguas Angolana, Moçambicana, Brasileira, São-tomense, Cabo-verdiana, Timorense, Guineense.

 

O Brasil já oPtou pelo seu dialecto. Nada contra. Assinaram as convenções de 1911 e 1945 e deitaram-nas ao lixo. Problema dos brasileiros. O falso acordo serviu tão-só para impor ao mundo dito lusófono a ortografia brasileira. Isto é um facto indesmentível. Incontornável

 

E há outro detalhe: a quantidade nunca foi bitola para amarfanhar a qualidade.

 

Mais vale poucos, mas bons falantes e escreventes da Língua Portuguesa, do que milhões a escrevê-la mutiladamente.

 

Além disso, o que aqui está em causa é algo muito mais obscuro do que um "esforço aproximativo", que todos sabemos ser inviável. Jamais haverá unificação ortográfica entre os países lusógrafos. Jamais. E isto é um dado adquirido, e nem sequer nisso há o mínimo interesse. Até porque no Brasil, os brasileiros continuarão a introduzir fatos na conversa, e nós introduziremos factos… a não ser que…

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:12

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EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA, A AUTORA DESTE BLOGUE NÃO ADOPTA O “ACORDO ORTOGRÁFICO” DE 1990, DEVIDO A ESTE SER INCONSTITUCIONAL, LINGUISTICAMENTE INCONSISTENTE, ESTRUTURALMENTE INCONGRUENTE, PARA ALÉM DE, COMPROVADAMENTE, SER CAUSA DE UMA CRESCENTE E PERNICIOSA ILITERACIA EM PUBLICAÇÕES OFICIAIS E PRIVADAS, NAS ESCOLAS, NOS ÓRGÃOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL, NA POPULAÇÃO EM GERAL E ESTAR A CRIAR UMA GERAÇÃO DE ANALFABETOS.

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O Acordo Ortográfico 1990 não tem validade internacional. A assinatura (em 1990) do texto original tem repercussões jurídicas: fixa o texto (e os modos como os signatários se vinculam), isto segundo o artº 10º da Convenção de Viena do Direito dos Tratados. Por isso, não podia ser modificado de modo a entrar em vigor com a ratificação de apenas 3... sem que essa alteração não fosse ratificada por unanimidade! Ainda há meses Angola e Moçambique invocaram OFICIALMENTE a não vigência do acordo numa reunião OFICIAL e os representantes OFICIAIS do Brasil e do capataz dos brasileiros, Portugal, meteram a viola no saco. Ora, para um acordo internacional entrar em vigor em Portugal, à luz do artº 8º da Constituição Portuguesa, é preciso que esteja em vigor na ordem jurídica internacional. E este não está!
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