De APC a 11 de Janeiro de 2016 às 19:45
Gostei do que li. Só me desvio de si um bocadinho, nesta passagem:

"Os livros para crianças ora são colecções (e muito bem) ora coleções - devendo ler-se col’ções (e muito mal)".

Não haveria por que ler-se o "e" fechado. Nem em "coleções", nem em "receção", nem em "espetador", enfim... Quem sabe falar, sabe falar. Sabe que o "a" é aberto em "activo", mas fechado em "actividade". Que "espeto" pode ser substantivo e forma verbal conjugada, e por isso com o "e" do meio fechado ou aberto, respectivamente. Sabe pronunciar a palavra "este" quer se trate de um pronome demonstrativo, quer de um ponto cardeal. Assim como "molhos", consoante se trate de um punhado ou de um tempero. Pronuncia de forma distinta o "o" de bordo, de acordo com o sentido que pretende, e sem necessidade de nenhum sinal diacrítico. Sabe de cor o que cor quer dizer (de memória ou colorido) quando o diz e/ou escreve.

Sabe que há duas sedes, dois pregares, um e uma colheres, duas formas de ser pegada; e, por cada uma destas díades, duas formas de pronunciar. :-)

Não, não temos que fechar as vogais só porque nada de gráfico existe a abri-las. A prova é que os "e" de "decreto”, “repleto”, “completo”, “discreto" e outros nunca perderam a sua abertura. Ao contrário de “amuleto”, “coreto”, “graveto”, “carreto”, etc. É assim porque é assim, ou seja, porque a língua é um conjunto multi-pluri-factorial, constituída por uma panóplia de dimensões e estudada por uma miríade de disciplinas. A ortografia é só uma parte.

Abrimos as vogais em “ilação”, “dilação”, “colação” ou “inflação", “especar” e “especular, "aquecer e esquecer", e não teríamos por que o não fazer em “projeto”, “dialeto”, “coação”, “receção”, “espetador”, "coleção", etc.

Sabemos, portanto (porque aprendemos), a vocalizar as inúmeras palavras que não contêm qualquer sinal diacrítico: “credor”, “caveira”, “padeiro”, “geração”, “mestrado”, “relvado”, “esfomeado”, “retaguarda”, “agachar”, “absorver”, “invasor”, “relator”, “retrovisor”, “comboio”, etc.

Porque abrimos o "o" em fogos e povos? Quem no-lo manda fazer? E como sabemos que o "e" de "peras" é fechado? Onde andam os sinais que nos levam a dizer “tu morres e eu morro” ou “ele é um estorvo porque estorva”?

... Tudo isto para dizer que a pronúncia das palavras não encontra (nunca encontrou) total espelho na grafia (nem na nossa língua, nem nas demais), saindo fora dela e sendo alimentada por outras vias.

Deixo-lhe a minha opinião. E os parabéns pelo texto.

E um abraço.
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