Domingo, 10 de Janeiro de 2016

Carta aberta a António Costa, primeiro-ministro de Portugal

 

Porque o que disse na “Quadratura do Círculo” sobre o AO90 é bastante grave, para ser dito por um primeiro-ministro: é um atentado à inteligência de milhares de Portugueses; é uma desonra para Portugal, é um insulto à Lusofonia; é uma violação ao direito das crianças aprenderem uma Língua Materna íntegra.

 

António Costa, instado por José Pacheco Pereira na "Quadratura do Círculo" especial (SIC Notícias, 08/01/2016), pronuncia-se pela primeira vez sobre o Acordo Ortográfico na qualidade de primeiro-ministro: «Não faz sentido mexer no Acordo Ortográfico. Eu, por mim, não teria tomado a iniciativa de fazer o acordo, mas não tomo a iniciativa de o desfazer.» (Tradutores Contra o AO/90)

Exmo. Senhor primeiro-ministro de Portugal
Doutor António Costa,

 

Não posso ficar calada perante o que na passada sexta-feira ouvi Vossa Excelência dizer na “Quadratura do Círculo”, quando confrontado com a monumental cacetada que José Pacheco Pereira, falando por milhares de portugueses, deu ao AO90.

 

Confesso que esperava outra resposta de alguém que não poupou meios para chegar ao poder, em nome da mudança que queria para Portugal, tendo como palavras de ordem: rever, revogar e reverter as medidas tomadas pelo anterior governo, que Vossa Excelência tanto criticou e quis, porque quis, substituir.

 

Pasmei com a resposta que deu à pergunta de José Pacheco Pereira.

Primeiro, porque me pareceu bastante superficial, e deu a entender que percebe tanto do AO90, como eu de Física Quântica, ou seja, nada, deixando o seu eleitorado muito, muito desiludido, pelo que consegui apurar.

 

Segundo, porque ficou muito mal a um primeiro-ministro o facto de estar-se completamente nas tintas para um assunto de suma importância para Portugal e para os Portugueses, e que atinge a identidade nacional, dado tratar-se da venda da Língua Portuguesa a um país com cerca de 15 milhões de analfabetos adultos (fora os outros) à revelia dos restantes países lusófonos, que se recusam a aplicar esta mixórdia ortográfica, que dá pelo nome de Acordo Ortográfico de 1990 (no que se mostram muito mais inteligentes do que Portugal), aligeirando os argumentos que levaram àquela resposta indigna de um primeiro-ministro: «Eu, por mim, não teria tomado a iniciativa de fazer o acordo, mas não tomo a iniciativa de o desfazer».

 

Isto demonstra a atitude de um senhor feudal, que tem milhares de pessoas à porta do seu castelo a pedir clemência para uma bela dama de alta linhagem que foi condenada ao degredo, porque um outro senhor feudal, que prometeu alargar os domínios do primeiro, por mero capricho, assim o quis. Contudo, o todo-poderoso senhor feudal faz ouvidos moucos ao clamor dessa multidão e manda os seus lacaios executar a pena: envie-se a bela dama para o degredo.

 

Foi exactamente assim que me soou aquela resposta, despida de qualquer sensibilidade pela Língua Portuguesa. Até me pareceu vislumbrar nela um certo desprezo e cinismo.

 

E ainda tem a ousadia de dizer que acha que temos convivido todos bem, e ninguém deixou de compreender bem… o dito AO90, quando milhares de pessoas, em todos os países lusófonos, incluindo Brasil e Portugal (o único que aplicou ilegalmente o AO90) têm feito um ruidoso protesto ao redor desta imposição absurda?

 

Isto é andar fora da realidade, ou num faz-de-conta que não sei, não ouço, não vejo, inadequado a um primeiro-ministro que pretende distanciar-se dos erros cometidos pelos seus antecessores.

 

Então Vossa Excelência vem dizer que no seu tempo se escrevia Luiz (com Z) e agora é Luís (com S)? Quando quem nasce Luiz, Baptista, Lourdes, Izabel, Queiroz, deve morrer Luiz, Baptista, Lourdes, Isabel, Queiroz? Porque neste AO90, os nomes próprios, são nomes próprios e não sofrem alterações?

 

E em que tempo é que se escrevia Luiz com Z? No tempo da avozinha… O senhor ministro será assim tão antigo?

 

Então Vossa Excelência diz que não faz sentido mexer no AO, e faz sentido deixar que a sociedade evolua naturalmente na sua aplicação?

 

Qual sociedade? Que evolução, Senhor Ministro?

 

Este acordo está a ser ilegalmente imposto nas repartições públicas e nas escolas portuguesas que, por medo ou ignorância, o aplicam, estando-se a enganar as crianças e o povo menos esclarecido.

 

Este acordo não faz parte de qualquer evolução linguística. Estão mais do que provadas as incongruências, o desatino, a desunião e a desordem ortográfica provocada pelo AO90, criado unicamente para satisfazer interesses político-juridico-diplomáticos, e também económicos de uns tantos editores brasileiros e portugueses, que deviam ir todos à falência.

 

Quiseram unificar a língua e o resultado foi este: a coexistência (nada pacífica) do acordês, do brasileirês, e da Língua Portuguesa. Uns escrevem em acordês e brasileirês. Outros escrevem em Língua Portuguesa. E ainda outros escrevem como calha, um mixordês vergonhoso, porque o ensino da língua está depauperado. Cá (em Portugal) e lá (no Brasil), onde já não se ensina a disciplina de Português.

 

Os documentos oficiais são uma vergonha. No mesmo texto, ora se se escreve aCtividade (e muito bem) ora atividade (muito mal). Os livros para crianças ora são coleCções (e muito bem) ora coleções   (muito mal) - devendo ler-se col’ções.

 

E sabemos mais. Sabemos que algumas editoras e forças ocultas, por mais absurdo que isto seja, controlam os governantes portugueses. Talvez por isso (talvez!) a resposta de Vossa Excelência foi como foi.

 

O que não faz sentido, senhor primeiro-ministro, é o actual governo andar a revogar tudo e mais alguma coisa, em nome da mudança pretendida, e que os portugueses exigem, e não revogar esta vergonhosa venda da Língua Portuguesa ao Brasil.

 

Que democracia será esta?

 

As novas gerações não merecem este insulto. Esta afronta. Esta violação ao direito de aprenderem uma Língua Materna íntegra, e não uma fraude linguística.

 

Se Vossa Excelência continuar a insistir nesta posição de senhor feudal, não terá valido a pena ter derrubado muralhas, para invadir domínios alheios. Porque outras muralhas se erguerão, e ficará isolado no seu feudo.

 

Sendo português e primeiro-ministro de Portugal ficava-lhe bem ter dito que o seu Governo iria pensar no assunto, e que a revogação do AO90 poderia ser uma possibilidade. Mas não disse. Portou-se muito mal.

 

Ao contrário de Inglaterra, que não se submeteu à gigante América do Norte, Portugal verga-se ao gigante Brasil, como um país indigente, sem dignidade, sem orgulho algum na sua própria História.

 

Sinto o maior orgulho em ser portuguesa, e gostaria de ter orgulho num Governo que não rastejasse, e defendesse os verdadeiros interesses de Portugal e dos Portugueses.

 

Será que ainda não é desta que poderemos vir a orgulhar-nos de um Governo Português que se mova com verticalidade?

 

Com os meus cumprimentos,

 

Isabel A. Ferreira

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:55

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comentários:
De APC a 11 de Janeiro de 2016 às 19:45
Gostei do que li. Só me desvio de si um bocadinho, nesta passagem:

"Os livros para crianças ora são colecções (e muito bem) ora coleções - devendo ler-se col’ções (e muito mal)".

Não haveria por que ler-se o "e" fechado. Nem em "coleções", nem em "receção", nem em "espetador", enfim... Quem sabe falar, sabe falar. Sabe que o "a" é aberto em "activo", mas fechado em "actividade". Que "espeto" pode ser substantivo e forma verbal conjugada, e por isso com o "e" do meio fechado ou aberto, respectivamente. Sabe pronunciar a palavra "este" quer se trate de um pronome demonstrativo, quer de um ponto cardeal. Assim como "molhos", consoante se trate de um punhado ou de um tempero. Pronuncia de forma distinta o "o" de bordo, de acordo com o sentido que pretende, e sem necessidade de nenhum sinal diacrítico. Sabe de cor o que cor quer dizer (de memória ou colorido) quando o diz e/ou escreve.

Sabe que há duas sedes, dois pregares, um e uma colheres, duas formas de ser pegada; e, por cada uma destas díades, duas formas de pronunciar. :-)

Não, não temos que fechar as vogais só porque nada de gráfico existe a abri-las. A prova é que os "e" de "decreto”, “repleto”, “completo”, “discreto" e outros nunca perderam a sua abertura. Ao contrário de “amuleto”, “coreto”, “graveto”, “carreto”, etc. É assim porque é assim, ou seja, porque a língua é um conjunto multi-pluri-factorial, constituída por uma panóplia de dimensões e estudada por uma miríade de disciplinas. A ortografia é só uma parte.

Abrimos as vogais em “ilação”, “dilação”, “colação” ou “inflação", “especar” e “especular, "aquecer e esquecer", e não teríamos por que o não fazer em “projeto”, “dialeto”, “coação”, “receção”, “espetador”, "coleção", etc.

Sabemos, portanto (porque aprendemos), a vocalizar as inúmeras palavras que não contêm qualquer sinal diacrítico: “credor”, “caveira”, “padeiro”, “geração”, “mestrado”, “relvado”, “esfomeado”, “retaguarda”, “agachar”, “absorver”, “invasor”, “relator”, “retrovisor”, “comboio”, etc.

Porque abrimos o "o" em fogos e povos? Quem no-lo manda fazer? E como sabemos que o "e" de "peras" é fechado? Onde andam os sinais que nos levam a dizer “tu morres e eu morro” ou “ele é um estorvo porque estorva”?

... Tudo isto para dizer que a pronúncia das palavras não encontra (nunca encontrou) total espelho na grafia (nem na nossa língua, nem nas demais), saindo fora dela e sendo alimentada por outras vias.

Deixo-lhe a minha opinião. E os parabéns pelo texto.

E um abraço.
De Isabel A. Ferreira a 12 de Janeiro de 2016 às 16:12
APC,

Agradeço este seu comentário.

Existe uma história por trás do motivo pelo qual pronunciamos umas palavras de um modo, e outras palavras quase idênticas (quase) de outro modo. Diz-me quem percebe mais da Língua Portuguesa do que eu.

Por isso, todas as vezes que nos deparamos com um ASPETO, forçosamente devemos ler aspÊto. Dizem-me. E com COLEÇÃO, a mesma coisa: col’ção.

Cada palavra tem a sua própria história. Por que dizemos “môlhos” e “mólhos”? Não é porque sim. Existe uma história, e com todas as outras palavras que referiu, também.

Por isso, quando nos deparamos com “projeto”, “dialeto”, “coação”, “receção”, “espetador”, "coleção" devemos modificar a pronúncia, não porque sim, mas porque as letras suprimidas têm uma função específica que faz abrir as vogais. Diz quem sabe.

Se o que disse é apenas a SUA OPINIÃO, sugiro que procure um especialista na matéria, e se informe melhor. Se não é… não sei o que diga mais. É que ou existem regras gramaticais… ou não existem. Se não existem então cada um fala e escreve do modo que quiser… aliás estamos quase, quase mergulhados nessa balbúrdia ortográfica.

Com esta nova MANIA de grafar as palavras retirando-lhes as letras mudas, para facilitar a aprendizagem dos mais empacados, teremos de mudar a nossa pronúncia e dizer: projÊto, dialÊto, coÂção, rec’ção , esp’tador, col’ção, arquiÊto, tÊto, enfim…

E isto NÃO É a MINHA OPINIÃO… É a história das palavras (ponho as coisas nestes termos devido à grande iliteracia que corre por aí, e é para que todos percebam logo à primeira o que se escreve) …

Obrigada, pelos parabéns. E um abraço desacordista.

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