Terça-feira, 20 de Outubro de 2015

CARTA ABERTA AOS PROFESSORES DE LÍNGUA PORTUGUESA E AOS SEUS SINDICATOS

 

Exórdio:

Não sendo fácil exercer a profissão de Professor em Portugal, não é impossível exercê-la em sã consciência, e com uma responsabilidade incólume que legitime a confiança e respeito que lhe são devidos.

 

PROFESSOR.jpg

 

Em Portugal, não há imperadores, mas há professores que se vergam a governantes que não sabem nem o que fazem, nem o que dizem e muito menos a ignorância que impõem por decreto…

 

Caros ex-colegas:

 

Já farta de ver triunfar as nulidades;

 

Já farta de ver a Língua Portuguesa estropiada nos meios de comunicação social;

 

Já farta de ver a passividade dos que podem, mas não estão para se incomodarem;

 

Já farta do mesquinho servilismo a uma “ordem oficial” inconstitucional;

 

Já farta de ver violar o direito das crianças a um ensino de qualidade;

 

Atrevo-me a dirigir-vos umas quantas palavras de repúdio, de protesto, de indignação pelo modo como os que deviam ser os guardiães da Educação e Cultura têm conduzido a imposição ilegal do Acordo Ortográfico de 1990, nas Escolas Portuguesas, contribuindo para a desalfabetização, desinstrução, deseducação e incultura das crianças portuguesas, que mereciam melhor sorte, superior ensino e maior respeito.

 

O que mais me custa suportar neste criminoso processo de desintegração da Língua Portuguesa, é a cobardia de todos os que se vergaram a uma ordem parva, e estão a incitar as crianças, ainda inocentes no seu desconhecimento das coisas, e que começam agora o seu aprendizado escolar, a escrever com erros crassos a sua própria Língua Materna.

 

Digam-me o que é um "arquitÊto" (pois é desta maneira que se lê). Se forem capaz de chegar à raiz deste amontoado de letras gerado pelo AO/90, de me dizerem o que isto é, que significado tem, dou a minha mão à palmatória.

 

Isto é uma nítida violação da alínea c) do Princípio VII da Declaração Universal dos Direitos das Crianças, que refere: a criança tem o direito a receber uma educação escolar (…) que favoreça a sua cultura geral e lhe permita – em condições de igualdade de oportunidades (algo que também é violado em Portugal) – desenvolver as suas aptidões e a sua individualidade, o seu senso de responsabilidade social e moral, para ser um membro útil à sociedade.

 

O que pretendem fazer com as crianças?

 

Os ignorantes do futuro?

 

Desculpem, mas não têm esse direito.

 

Ensinar a Língua segundo o AO/90 é um crime de lesa-língua e de lesa-infância, e não sou eu que o digo.

 

Se os governantes portugueses não têm capacidade moral e intelectual para o impedir, por uma manifesta e obscena subserviência ao lobby de alguns editores mercenários (porque os há conscientes dos resultados funestos que a aplicação do AO/90 terá para o futuro da Língua Portuguesa, que deixará de pertencer ao rol das Línguas Cultas Europeias, para ser uma qualquer outra coisa, indefinida e amarfanhada na ignorância, e os quais recusaram este ultraje linguístico), é dever de todos os Portugueses com responsabilidades na área do Ensino, da Cultura e da Comunicação Social exigir que o governo português reponha imediatamente o estudo da Língua Portuguesa Europeia nas escolas portuguesas, e que deixe de ser “oficial” algo que nunca deveria ter sido, por violar o direito à aprendizagem da legítima Língua Materna.

 

Deixem de enganar as crianças, impingindo-lhes gato por lebre.

 

Além disso, todos sabemos que a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 viola o disposto na alínea a) do artigo 9º da Constituição da República Portuguesa, que diz: são tarefas fundamentais do Estado garantir a independência nacional e criar as condições políticas, económicas, sociais e culturais que a promovam.

 

Ora esta inominável tentativa de “abrasileirar” a Língua Materna dos Portugueses, a qual sendo um dos elementos da nossa nacionalidade, também é um baluarte da nossa autonomia, como nação, da nossa portugalidade, e se a vendermos ao desbarato, para que editores e governantes traidores da Pátria possam encher os bolsos, e apenas isso, viola a tarefa fundamental que o Estado Português tem de garantir a nossa independência.

 

Portugal é e sempre será, quer aceitem ou não, a origem dos actuais países livres que já foram colónias portuguesas. E não há nada, nem ninguém que possa alterar o passado.

 

Se os países que integram a CPLP adoptassem o que construíram a partir do que receberam do ex-colonizador, e se cortassem o cordão umbilical que ainda os mantém ligados a Portugal,  quem os condenaria?

 

Depois que obtiveram a independência, cada país colonizado foi livre de optar pelo próprio destino. O que fizeram com a herança portuguesa, não é mais problema de Portugal.

 

E Portugal, como país independente, e com a sua milenar cultura europeia, um dos primeiros estados-nação do mundo, que deu novos mundos ao mundo, não tem de se vergar perante uma imposição político-económica, de quem quer que seja, muito menos quando essa imposição está assente numa descomunal ignorância.

 

Uma língua não evolui por decreto. Não evolui por vontades assentes em interesses políticos e económicos.

 

Por que há-de Portugal ser o rebotalho da Europa, quando os outros países europeus, também colonizadores, como os Ingleses, os Franceses, os Espanhóis, os Holandeses não mexeram uma letra nas suas Línguas Maternas, para “unificarem” a língua herdada pelos países colonizados por eles?

 

É que é do bom senso e da racionalidade que se preserve a identidade linguística de cada país.

 

Contudo, ao que tenho verificado, até não é da vontade da maioria dos restantes países da CPLP que este acordo parvo vá adiante.

 

Então por que há-de Portugal rebaixar-se à vontade de um grémio desqualificado, constituído por ignorantes traidores da pátria?

 

Finalmente, farei minhas as palavras de uma Professora lúcida, da qual, neste momento, não me recordo o nome, mas se ela, por acaso, vier a ler este texto, por favor, acuse a sua autoria:

 

«Tenho a maior consideração por todos os colegas que ensinam Português, e que se vêem confrontados com este flagelo. Não lhes invejo a sorte (ou o azar).

 

Sei que tenho uma posição privilegiada que me permite assumir a minha oposição ao AO 90, porque beneficio da falta de uma posição oficial da minha Faculdade, e da posição contra o AO tomada pela Associação de Estudantes.

 

Sei também que posso sempre evocar, se isso vier a ser necessário, a minha autonomia científica nas minhas aulas e nos meus trabalhos.

 

O que já não me parece aceitável é que, os professores, que estão representados por sindicatos de diversas orientações políticas, nunca tenham exigido destes que dessem voz ao seu protesto.

 

Porque ver os sindicatos dos professores apelarem a manifestações e greves por razões políticas/sociais/laborais mas nunca por razões de carácter científico/educativo, como é o caso do AO90, descredibiliza a classe perante a opinião pública.

 

Se os professores se mobilizarem em torno de uma causa que não tem a ver com as suas condições remuneratórias, mas com o futuro dos alunos, estou certa de que teriam o apoio dos pais e dos encarregados de educação, talvez como nunca tiveram antes».

 

Este é o caminho.

 

Lembrem-se: sem desobediência nunca houve mudanças, nem evolução…

 

O que aqui está em causa não é o presente da Língua, porque esse está assegurado por todos os que estão a recusar-se a cumprir a “ordem oficial” que não tem a mínima legitimidade.

 

O que aqui está em causa é o futuro, é o modo como estão a transformar as nossas crianças nos analfabetos escolarizados e ignorantes do futuro…

 

O que fazer?

 

Primeiro: recusar ENSINAR esta língua estropiada às crianças.

Segundo: boicotar todas as publicações em AO/90: livros, jornais, revistas… e tudo o que mais for…

Terceiro: não escrever em acordês, porque temos esse direito.

Quarto: EXIGIR que o governo reponha imediatamente o ensino da Língua Portuguesa Materna, nas escolas portuguesas.

 

As minhas saudações desacordistas.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:45

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.ACORDO ORTOGRÁFICO

EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA, A AUTORA DESTE BLOGUE NÃO ADOPTA O “ACORDO ORTOGRÁFICO” DE 1990, DEVIDO A ESTE SER INCONSTITUCIONAL, LINGUISTICAMENTE INCONSISTENTE, ESTRUTURALMENTE INCONGRUENTE, PARA ALÉM DE, COMPROVADAMENTE, SER CAUSA DE UMA CRESCENTE E PERNICIOSA ILITERACIA EM PUBLICAÇÕES OFICIAIS E PRIVADAS, NAS ESCOLAS, NOS ÓRGÃOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL, NA POPULAÇÃO EM GERAL E ESTAR A CRIAR UMA GERAÇÃO DE ANALFABETOS.

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. AO/90 É INCONSTITUCIONAL

O Acordo Ortográfico 1990 não tem validade internacional. A assinatura (em 1990) do texto original tem repercussões jurídicas: fixa o texto (e os modos como os signatários se vinculam), isto segundo o artº 10º da Convenção de Viena do Direito dos Tratados. Por isso, não podia ser modificado de modo a entrar em vigor com a ratificação de apenas 3... sem que essa alteração não fosse ratificada por unanimidade! Ainda há meses Angola e Moçambique invocaram OFICIALMENTE a não vigência do acordo numa reunião OFICIAL e os representantes OFICIAIS do Brasil e do capataz dos brasileiros, Portugal, meteram a viola no saco. Ora, para um acordo internacional entrar em vigor em Portugal, à luz do artº 8º da Constituição Portuguesa, é preciso que esteja em vigor na ordem jurídica internacional. E este não está!
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