Quarta-feira, 8 de Dezembro de 2021

«De recepção em “receção” até à “direção” final», por António Bagão Félix

 

 

«O AO90 é um instrumento ao serviço da preguiça, do empobrecimento de uma rica língua, da “brasileirização” do nosso idioma, da influência de interesses económicos nem sempre claros. E é um sinal de facilitismo que se dá às crianças e jovens, para juntar à língua cifrada dos dispositivos e do uso de redes sociais. Uma lástima, a que as autoridades políticas (sem excepção!) fecham os olhos, preferindo gastar as energias em qualquer minudência ou truísmo diários(António Bagão Félix)

 

RECEÇÃO.jpg

 

Por António Bagão Félix

 

EM PORTUGUÊS

  1. 54

“𝑀𝑖𝑛ℎ𝑎 𝑝𝑎́𝑡𝑟𝑖𝑎 𝑒́ 𝑎 𝑙𝑖́𝑛𝑔𝑢𝑎 𝑝𝑜𝑟𝑡𝑢𝑔𝑢𝑒𝑠𝑎”

Fernando Pessoa

 

DE RECEPÇÃO EM "RECEÇÃO" ATÉ À "DIREÇÃO" FINAL

 

Há dias, tive de me deslocar a um estabelecimento hospitalar, por sinal, o mais recentemente inaugurado.

 

Logo à chegada, dirigi-me à recepção. Valeu-me o inglês. Como se pode ver na fotografia que lá tirei, havia a indicação neste idioma: “RECEPTION”. Por cima desta palavra, também estava escrito “RECEÇÃO”. Tive de fazer algum esforço para entender se era a recepção que estaria em fase de recessão, ou se era alguma recessão que me teria levado à recepção do hospital.

 

É assim o “aborto ortográfico”. O tal que mandou às malvas o critério da raiz etimológica, para eleger a prevalência do critério fonético, designadamente no que se refere à eliminação das consoantes mudas, não levando sequer em consideração o seu valor diacrítico que abre a vogal átona que a precede, assim contrariando a tendência para o seu fechamento. De tal forma que há, agora, no AO90, palavras que, no Brasil, se escrevem com as tais consoantes, e que nós, por cá, saneámos… (exemplos, conforme quadro em baixo: recepção, concepção, espectador, decepção).

 

COMPARAÇÕES ORTOGRÁFICAS.png

 

Chegámos, aliás, ao ponto de as outras línguas latinas respeitarem o critério etimológico (e até o inglês, como no exemplo aqui considerado), e nós o termos abandonado.

 

Para baralhar ainda mais, há as chamadas facultatividades, que é, como quem diz, o deixar, à vontade do freguês, o uso desta ou daquela maneira de escrever, ou até favorecer uma terceira “via criativa” para a confusão e a indigência serem ainda maiores. É o caso de pacto que por simpatia de “contato”, pode virar subitamente para “pato compato”.

 

O AO90 é um instrumento ao serviço da preguiça, do empobrecimento de uma rica língua, da “brasileirização” do nosso idioma, da influência de interesses económicos nem sempre claros. E é um sinal de facilitismo que se dá às crianças e jovens, para juntar à língua cifrada dos dispositivos e do uso de redes sociais. Uma lástima, a que as autoridades políticas (sem excepção!) fecham os olhos, preferindo gastar as energias em qualquer minudência ou truísmo diários!

E.T. Um aditamento de natureza pessoal. A ida à “receção” deveu-se a uma consulta marcada por causa de um síndroma vertiginoso, a que, de vez em quando, os indisciplinados cristais dos meus ouvidos me obrigam. Por pouco, a vertigem auricular-ortográfica não chegou ao ponto da imagem que anexo...

 

VERTIGEM ORTOGRÁFICA.jpg

Fonte:  https://www.facebook.com/photo?fbid=10219926429380120&set=pcb.10219926431660177

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:59

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comentários:
De Daniel a 10 de Janeiro de 2022 às 01:38
Eu sou contra o AO90 mas tem uma coisa que não faz sentido, que é dizer que o "c" e o "p" serve apenas para abrir as vogais como por exemplo "actual" não abre a vogal, fica simplesmente "âtual" não seria mais certo pronunciar todos os "c" e "p"? Tipo: âktual, óptimo, nókturno, frakção, tékto..." Etc
De Isabel A. Ferreira a 10 de Janeiro de 2022 às 15:18
Caro Daniel, agradeço o seu comentário, que é bastante pertinente.

Obviamente que concordo consigo: fica muito mais certo e mais fácil e mais racional, principalmente para aqueles que não conseguem PENSAR a Língua, pronunciar TODOS os cês e pês, como se faz em todas as outras línguas.

Em vez de se mutilar as palavras, atirando ao lixo as suas raízes greco-latinas, eu também sou da opinião que se comece a PRONUNCIAR as consoantes que em Portugal não se pronunciam. Facilitaria a escrita e não seria preciso mostrar ignorância ao escrever-se “atual” em vez de aCtual.

Quanto ao que diz sobre abrir as vogais: a REGRA é essa, mas existem, excePções, como em “âctual”, (aqui vale a etimologia da palavra) mas não em aCtor, que se lhe retirarmos o Cê lê-se “âtôr”.

Eu, depois desta desgraça que foi introduzida em Portugal, com o nome de AO90, pronuncio todos os cês e pês, para que se saiba que eles existem e são necessários.

Comecemos todos a fazer o mesmo. Faça o mesmo, Daniel, e passe a palavra.

Escreverei um texto nesse sentido. Aliás, penso que já escrevi sobre isto há algum tempo. Hei-de procurar.

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