Terça-feira, 6 de Janeiro de 2026

Em Defesa da Ortografia (LXXXVIII), por João Esperança Barroca

 

Na linha dos seus antecessores, o texto do mês de Janeiro (o 88.º da série “Em Defesa da Ortografia” e o primeiro do corrente ano), continua a apresentar, exactamente, as mesmas características.

 

     A aposta continua a ser a de mostrar diálogos, por vezes absurdos, de índole humorística, que ilustram a fantochada do AO90, expondo as suas fragilidades, as suas incoerências e a completa ausência de lógica.

 

     As palavras a vermelho indicam as formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, remetem para grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos, se mantêm como duplas grafias.  A azul, temos os casos de hipercorrecção, decorrentes da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.

 

LXXXV

              — Hoje, o jogo correu-me mal.

             — Como pensas ultrapassar essa má fase?

             — Vou ver o vídeo de todo o jogo e refletir.

             — Não é suficiente.

             — Não?

             — Vais ter de reflectir, que é outra coisa.

 

LXXXVI

             — Ó pai, diz aqui no jornal que há um braço de ferro entre o governo e os sindicatos. Não percebo o significado.

             — Não há nada para perceber. Braço de ferro é um braço feito de ferro.

               — Então, pode enferrujar?

               — Exactamente! E a ferrugem alastrar ao governo a e aos sindicatos.

 

LXXXVII

             — Ó pai, lembras-te de ontem te ter falado da expressão braço de ferro?

             — Claro que me lembro. Porquê?

             — É que hoje encontrei no jornal Público uma notícia que dizia haver um braço-de-ferro entre um empresário e um clube. Será a mesma coisa?

             — Claro que não. Braço-de-ferro é uma prova de força. Pensar que braço-de-ferro e braço de ferro são a mesma coisa é como confundir o Garcia de Orta com a horta do Garcia.

 

LXXXVIII

           — Willy Sagnol, o treinador da Geórgia afirmou que o desempenho da sua seleção foi excecional.

           — Discordo completamente.

           — Porquê? Era a estreia num Campeonato da Europa…

           — Não tem nada que ver com isso!

           — Então?

           — Willy Sagnol foi muito modesto. O desempenho da selecção da Geórgia foi excepcional.

 

LXXXIX

             — Temos uma forte condicionante para o treino da tarde.

             — Que condicionante?

             — Não temos pontas de lança disponíveis.

             — Usamos arcos e flechas. Qual é o problema?

             — O problema é que estás cada vez mais indocível. Eu estava a falar de goleadores.

             — Ah, pontas-de-lança! Outra vez a confusão entre o Garcia de Orte e a horta do Garcia, não é? Quem é indocível, quem é?

 

XC

             — Hoje, vamos aprender a intercetar cruzamentos dos adversários, minimizando o risco de a bola seguir o caminho da nossa baliza.

             — O que é intercetar, míster? É o mesmo que interceptar?

             — Não, rapaz. Interceptar requer uma dose suplementar de cuidado e de inteligência.

 

XCI

             — Ó pai, podes oferecer-me uma teleobjetiva no Natal?

             — Para que hás-de querer tu uma teleobjetiva?

             — Para fotografar coisas a grande distância, para que havia de ser?

             — Para isso, objectos a grande distância, precisas de uma teleobjectiva. Uma teleobjetiva não serve.

 

XCII

             — Este político é um mestre no uso da subjeção. Ninguém o bate.

             — Achas?

             —  Não acho. Tenho a certeza.

             — Eu discordo completamente dessa tua opinião. Acho que a construção frásica é manca. Falta-lhe qualquer coisa. Talvez o cê de subjecção.

 

XCIII

             — Mais uma despesa…. Vou ter de comprar um convetor.

             — Para que queres essa porcaria?

             — Para aquecer, é óbvio.

             — Não preferes um convector? Será menos económico, mas mais eficaz é certamente porque transmite o calor por convecção.

             — Já te percebi. Só me custa perder uma consoante. Ando a colecioná-las desde 1990.

             — Coleccioná-las, queres dizer?

 

XCIV

             — Para evitar a entrada de água, é necessário defletir a chuva.

             — Onde aplico este objecto?

             — Aí sobre a porta.

             — Acabei de inclinar. Já está a defletir?

             —  Ainda não.

             —  E agora, que incluí o cê?

             — Já está a deflectir!

             — Perfeito!

 

XCV

             — Antes de entregares o manuscrito, é crucial proceder à retificação.

             — Já fiz. Mas ainda não está perfeito, como é natural.

             — Contrataste algum profissional habilitado?

             — Sim.

             — Não deve ser um profissional competente. Experimenta contratar um especialista em rectificação. Ficará perfeito à primeira tentativa.

 

XCVI

             — É uma vedação espetável.

             — Porque dizes isso?

             — Faz-me lembrar um autêntico trabalho em filigrana.

              — Mas requer muito cuidado, não é?

              — Não te entendo.

             — Na minha ideia, espetável significa que se pode espetar. Se estiver ferrugenta, é duplamente perigosa, não?

 

     Ah! Uma das imagens que acompanha este escrito, divulgada pelos grupos Cidadãos contra o Acordo Ortográfico de 1990 e Tradutores contra o Acordo Ortográfico, demonstra como, vários anos após o início da aplicação do nefando Acordo Ortográfico de 1990, alguns órgãos de Comunicação Social continuam a ter a capacidade de, a cada dia, inventarem novos erros.

 

     Ah! A segunda imagem, sobre as polémicas declarações do Ministro da Educação, mostra o estado a que chegou a ortografia que por aí vai circulando, em que o verbo retractar-se é constantemente atacado e espoliado de uma consoante. Este verbo, que significava desdizer-se e dar o dito por não dito, confunde-se, agora, com um sinónimo de tirar um retrato.

 

     Ah! É completamente obrigatório ler o artigo de Nuno Pacheco “Ora aqui vão los acuerdos que hacen nuestros hermanos”, publicado no dia 11 de Dezembro pelo jornal Público.

 

     Ah! Do mesmo autor, vale a pena ler o texto “O meu acordo é melhor que o teu: dilemas da ortografia”, também dado à estampa pelo Público no dia 4 de Dezembro.

 

     Ah! Obviamente, não deixe de ler “O Orçamento de Estado e a Conta Geral do Estado: um retrato do país”, de Francisco Miguel Valada no Público, no dia 16 de Dezembro.

 

     Ah! O blogue O Lugar da Língua Portuguesa, administrado por Isabel A. Ferreira, divulga uma Carta Aberta dirigida aos candidatos à Presidência da República.  Continua a ser um local de genuína salubridade, portanto.

 

     Ah! O autor deste escrito deseja a todos os seus leitores umas Óptimas Festas e um Excepcional Ano Novo. Deseja ainda que 2026 traga uma ortografia lógica, coerente e respeitadora da sua história.

 

João Esperança Barroca

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publicado por Isabel A. Ferreira às 17:04

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