Na linha dos seus antecessores, o texto do mês de Janeiro (o 88.º da série “Em Defesa da Ortografia” e o primeiro do corrente ano), continua a apresentar, exactamente, as mesmas características.
A aposta continua a ser a de mostrar diálogos, por vezes absurdos, de índole humorística, que ilustram a fantochada do AO90, expondo as suas fragilidades, as suas incoerências e a completa ausência de lógica.
As palavras a vermelho indicam as formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, remetem para grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos, se mantêm como duplas grafias. A azul, temos os casos de hipercorrecção, decorrentes da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.
LXXXV
— Hoje, o jogo correu-me mal.
— Como pensas ultrapassar essa má fase?
— Vou ver o vídeo de todo o jogo e refletir.
— Não é suficiente.
— Não?
— Vais ter de reflectir, que é outra coisa.
LXXXVI
— Ó pai, diz aqui no jornal que há um braço de ferro entre o governo e os sindicatos. Não percebo o significado.
— Não há nada para perceber. Braço de ferro é um braço feito de ferro.
— Então, pode enferrujar?
— Exactamente! E a ferrugem alastrar ao governo a e aos sindicatos.
LXXXVII
— Ó pai, lembras-te de ontem te ter falado da expressão braço de ferro?
— Claro que me lembro. Porquê?
— É que hoje encontrei no jornal Público uma notícia que dizia haver um braço-de-ferro entre um empresário e um clube. Será a mesma coisa?
— Claro que não. Braço-de-ferro é uma prova de força. Pensar que braço-de-ferro e braço de ferro são a mesma coisa é como confundir o Garcia de Orta com a horta do Garcia.
LXXXVIII
— Willy Sagnol, o treinador da Geórgia afirmou que o desempenho da sua seleção foi excecional.
— Discordo completamente.
— Porquê? Era a estreia num Campeonato da Europa…
— Não tem nada que ver com isso!
— Então?
— Willy Sagnol foi muito modesto. O desempenho da selecção da Geórgia foi excepcional.
LXXXIX
— Temos uma forte condicionante para o treino da tarde.
— Que condicionante?
— Não temos pontas de lança disponíveis.
— Usamos arcos e flechas. Qual é o problema?
— O problema é que estás cada vez mais indocível. Eu estava a falar de goleadores.
— Ah, pontas-de-lança! Outra vez a confusão entre o Garcia de Orte e a horta do Garcia, não é? Quem é indocível, quem é?
XC
— Hoje, vamos aprender a intercetar cruzamentos dos adversários, minimizando o risco de a bola seguir o caminho da nossa baliza.
— O que é intercetar, míster? É o mesmo que interceptar?
— Não, rapaz. Interceptar requer uma dose suplementar de cuidado e de inteligência.
XCI
— Ó pai, podes oferecer-me uma teleobjetiva no Natal?
— Para que hás-de querer tu uma teleobjetiva?
— Para fotografar coisas a grande distância, para que havia de ser?
— Para isso, objectos a grande distância, precisas de uma teleobjectiva. Uma teleobjetiva não serve.
XCII
— Este político é um mestre no uso da subjeção. Ninguém o bate.
— Achas?
— Não acho. Tenho a certeza.
— Eu discordo completamente dessa tua opinião. Acho que a construção frásica é manca. Falta-lhe qualquer coisa. Talvez o cê de subjecção.
XCIII
— Mais uma despesa…. Vou ter de comprar um convetor.
— Para que queres essa porcaria?
— Para aquecer, é óbvio.
— Não preferes um convector? Será menos económico, mas mais eficaz é certamente porque transmite o calor por convecção.
— Já te percebi. Só me custa perder uma consoante. Ando a colecioná-las desde 1990.
— Coleccioná-las, queres dizer?
XCIV
— Para evitar a entrada de água, é necessário defletir a chuva.
— Onde aplico este objecto?
— Aí sobre a porta.
— Acabei de inclinar. Já está a defletir?
— Ainda não.
— E agora, que incluí o cê?
— Já está a deflectir!
— Perfeito!
XCV
— Antes de entregares o manuscrito, é crucial proceder à retificação.
— Já fiz. Mas ainda não está perfeito, como é natural.
— Contrataste algum profissional habilitado?
— Sim.
— Não deve ser um profissional competente. Experimenta contratar um especialista em rectificação. Ficará perfeito à primeira tentativa.
XCVI
— É uma vedação espetável.
— Porque dizes isso?
— Faz-me lembrar um autêntico trabalho em filigrana.
— Mas requer muito cuidado, não é?
— Não te entendo.
— Na minha ideia, espetável significa que se pode espetar. Se estiver ferrugenta, é duplamente perigosa, não?
Ah! Uma das imagens que acompanha este escrito, divulgada pelos grupos Cidadãos contra o Acordo Ortográfico de 1990 e Tradutores contra o Acordo Ortográfico, demonstra como, vários anos após o início da aplicação do nefando Acordo Ortográfico de 1990, alguns órgãos de Comunicação Social continuam a ter a capacidade de, a cada dia, inventarem novos erros.
Ah! A segunda imagem, sobre as polémicas declarações do Ministro da Educação, mostra o estado a que chegou a ortografia que por aí vai circulando, em que o verbo retractar-se é constantemente atacado e espoliado de uma consoante. Este verbo, que significava desdizer-se e dar o dito por não dito, confunde-se, agora, com um sinónimo de tirar um retrato.
Ah! É completamente obrigatório ler o artigo de Nuno Pacheco “Ora aqui vão los acuerdos que hacen nuestros hermanos”, publicado no dia 11 de Dezembro pelo jornal Público.
Ah! Do mesmo autor, vale a pena ler o texto “O meu acordo é melhor que o teu: dilemas da ortografia”, também dado à estampa pelo Público no dia 4 de Dezembro.
Ah! Obviamente, não deixe de ler “O Orçamento de Estado e a Conta Geral do Estado: um retrato do país”, de Francisco Miguel Valada no Público, no dia 16 de Dezembro.
Ah! O blogue O Lugar da Língua Portuguesa, administrado por Isabel A. Ferreira, divulga uma Carta Aberta dirigida aos candidatos à Presidência da República. Continua a ser um local de genuína salubridade, portanto.
Ah! O autor deste escrito deseja a todos os seus leitores umas Óptimas Festas e um Excepcional Ano Novo. Deseja ainda que 2026 traga uma ortografia lógica, coerente e respeitadora da sua história.
João Esperança Barroca


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