Sexta-feira, 24 de Julho de 2020

«Este acordo [AO90] é vergonhoso para Portugal»

 

«A imprensa internacional noticiou este acordo, como sendo a primeira vez na História em que a outrora colónia (Brasil) de Portugal é que determina como se vai escrever português no presente e no futuro. Este acordo é vergonhoso para Portugal.» (Carlos Mota)

 

Vem isto a propósito de um artigo publicado no Diário de Notícias, há cerca de duas semanas, intitulado «Angola e o Acordo Ortográfico», da autoria de João Melo, jornalista e escritor angolano, e que pode ser consultado neste link:

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/11-jul-2020/angola-e-o-acordo-ortografico-12411257.html?target=conteudo_fechado

 

Um texto escrito em acordês, a apelar para a consagração do AO90, que, como todos sabem, só favorece a ex-colónia do Brasil, atirando para o charco a nossa Língua Portuguesa.

 

Tal texto gerou indignação entre os que se recusam a ser enganados, e a levar gato por lebre. É o resultado dessa indignação, em forma de comentários, que aqui transcrevo.

 

Mark Twain.jpg

 

Carlos Mota

 

Santa ignorância do autor deste artigo! Citando o dito cujo: "os números mostram, desde logo, que o Brasil fez mais concessões do que Portugal no que concerne ao novo Acordo Ortográfico". Mostre-nos lá esses números!


É preciso não conhecer nada do AO para produzir semelhante aberração. A única concessão que o Brasil fez foi no trema e nem sequer se pode falar de uma concessão, pois acho que a maioria dos portugueses não se importavam que os brasileiros continuassem a usar o trema. As concessões foram todas de Portugal!


A imprensa internacional noticiou este acordo, como sendo a primeira vez na História em que a outrora colónia (Brasil) de Portugal é que determina como se vai escrever português no presente e no futuro. Este acordo é vergonhoso para Portugal.


E os PALOP nem sequer foram ouvidos na redacção do AO, sendo completamente ignorados. Este "acordo" apenas serve ao Brasil, pois não muda nada na norma brasileira do português.


Este "Aborto Ortográfico" não serviu para mais nada excepto para vender mais papel, que constituiu a principal razão para a sua criação: satisfazer o lobby da indústria gráfica e livreira, pois de um momento para o outro as pessoas foram a correr comprar novos dicionários. A outra razão foi satisfazer os caprichos dos idiotas que o redigiram.


Como Português e Angolano deixo aqui o meu elogio a Angola por se recusar a ratificar o "Aborto Ortográfico".

 

*

 

Manuel Rodrigues

 

O texto, tal como o AO, parte de um pressuposto errado e acientífico: o de que é possível unificar a grafia do português a partir da fonética. Com efeito, as variações fonéticas do português falado nos vários países (e mesmo dentro de um país tão pequeno como Portugal) são de tal ordem que a aplicação desse princípio só pode produzir o efeito contrário do pretendido. Tal aconteceu com a norma portuguesa, onde ocorrem grafias que se afastam da brasileira e das dos outros países falantes do português - e, o que é bem pior, do bom senso. Veja-se o caso de palavras como "receção", "conceção", "perceção" e outras que tais.


Para além disso, faz uma afirmação que está longe de corresponder à verdade: a de que o Brasil fez mais concessões. Os estudos mostram exactamente o contrário. Finalmente, apoia-se num mito, o de que a unificação facilitaria a circulação internacional do português. O inglês mostra que tal não passa de um mito.


Finalmente: ao ratificar o AO, que norma irá seguir Angola? A portuguesa ou a brasileira? Como irá escrever as palavras transcritas acima entre aspas? À portuguesa ou à brasileira?

 

*

 

Isabel A. Ferreira

 

 

O autor deste artigo que me desculpe a sinceridade, mas demonstra uma gigantesca IGNORÂNCIA sobre o que é uma Língua e a sua funcionalidade.

 

Demonstra, aliás, uma grande ignorância sobre tudo o que diz respeito ao acordo ortográfico de 1990.

 

Estará a soldo dos que querem destruir a Língua Portuguesa, e substituí-la pela variante brasileira ( = dialecto oriundo do Português)?

 

 

Que vergonha! E diz-se jornalista e escritor angolano, "dir'tôr" de uma revista.

 

Aconselho-o a ir estudar Língua Portuguesa e a sua já longa história, para não vir a público esparramar tantas ignorâncias e tantas inverdades!

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:49

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comentários:
De Susana Bastos a 25 de Julho de 2020 às 18:38
«A única concessão que o Brasil fez foi no trema»

Isto é uma mentira factual. Ou então é ignorância pura, mas não faltam informações na Internet. Só não as lê quem não quer. Não foi só o trema, foi o acento circunflexo em palavras como "vôo" e "enjôo" e o acento agudo em palavras como "idéia" e "assembléia". Depois, houve mudanças que afectaram os dois países, como a queda dos acentos diferenciais (como em "pára"), dos circunflexos em "crêem", "vêem", etc. e a supressão de hífenes em inúmeras palavras.
Todas estas mudanças são altamente contestadas no Brasil, menos as consoantes mudas, pois eles já não as usavam, mas há um manancial de palavras em que eles as conservam e nós tirámos. Portanto, não se diga que o AO90 é a ortografia do Brasil imposta a Portugal, pois factualmente não é, é antes uma mixórdia que não agrada nem a Brasileiros nem a Portugueses. Só unidos podemos derrotar este monstro.
De Isabel A. Ferreira a 27 de Julho de 2020 às 10:49
Susana Bastos, dizer que «a única concessão que o Brasil fez foi no trema» NÃO é uma mentira factual. É simplesmente um modo de dizer que para o Brasil as modificações que o AO90 impôs foi o trema (que eles tinham como uma preciosidade, daí a ênfase) e alguns acentos, como vôo, enjôo, idéia, assembléia… Isto e mais uns poucos hífenes. De resto, a grafia ficou IGUAL para os Brasileiros. O que mudou, no Brasil, foram alguns acentos e hífenes. SÓ. E isto é que é o FACTO, que o autor do comentário ao dizer o que disse quis enfatizar. Porque a supressão do trema fez TREMER o Brasil. E apenas por isso, os Brasileiros mais letrados se incomodaram com o AO90.

Nós, Portugueses, além dos acentos e hífenes (exceptuando o trema que já não usávamos) temos uma infinidade de vocábulos mutilados, desenraizados, sem qualquer significado no mundo das Línguas românicas, e se a isto juntarmos o que o Brasil escreve bem (excePto, recePção, infeCção etc.) e os acordistas portugueses, e apenas os portugueses, escrevem mal (exceto, receção, infeção, etc.) temos que o AO90 só veio criar mais “variedade” do que união.

Susana Bastos, o AO90 é a grafia brasileira (mais acentos, menos acentos, mais hífenes, menos hífenes) IMPOSTA a Portugal ilegalmente. Isto é um FACTO e não há como desmenti-lo.

E em nome de uma unificação LUNÁTICA se destrói uma Língua, das mais ricas e belas do mundo (segundo os linguistas estrangeiros). Nisto, Portugal ficou mal na fotografia. É tido, pela imprensa internacional, como o único país do mundo que se deixou colonizar pela ex-colónia, através da Língua, uma vez que não podiam colonizá-lo de outro modo. E os que sofrem do complexo de pequenez (políticos e quejandos) desprestigiaram-se no mundo, graças a este servilismo pacóvio. Até os Brasileiros o dizem. Segundo sei, eles continuam a usar o trema e todos os acentos que lhes retiraram, e os hífenes também.
Apenas os portuguesinhos complexados e servilistas é que aplicam estas “regras” desregradas fabricadas por ignorantes. Daí a urgência de mandar às malvas esta parolice. E isto está mais nas mãos do Brasil, do que de Portugal. Isto também é um facto.
De Susana Bastos a 27 de Julho de 2020 às 20:57
Se os Brasileiros também estão contra esta aberração, como é que o AO90 é a grafia brasileira, já pensou nisso? Creio que existe aí um grande erro de análise. Repito: só juntos, Portugueses e Brasileiros, podemos derrotar este monstro, até porque estamos do mesmo lado da barricada.
De Isabel A. Ferreira a 28 de Julho de 2020 às 14:30
Susana Bastos, por favor, PENSE. PENSE.

Eu sei do que falo, porque aprendi a escrever, no Brasil, à moda do AO90 (exceptuando os acentos e os hífenes que o AO90 veio modificar). Aprendi a grafia que o Brasil, unilateralmente, adoPtou (no Brasil escreve-se adotou) – o Formulário Ortográfico de 1943, rejeitando a Convenção Ortográfica de 1945, que o Brasil assinou, mas rejeitou mais tarde.

Os Brasileiros são contra a aberração que o AO90 representa APENAS por causa dos acentos e dos hífenes. A restante “grafia”, ou seja, a supressão dos pês e dos cês, onde eles são absolutamente essenciais (para nós, mas não para eles) e que eles suprimiram e que o AO90 EXIGE, é grafia BRASILEIRA: setor, diretor, adotar, adoção, afeto, aspeto, e todas as outras palavrinhas sem sentido para os PORTUGUESES, mas NÃO para os Brasileiros, onde se suprimiram os pês e os cês. À excePção de excePção e seus derivados; infeCção e seus derivados, recePção e seus derivados, e demais vocábulos (uns poucos) que os Brasileiros escrevem bem, e os Portugueses escrevem de um modo básico, primário, a roçar o analfabetismo.

Aqui não existe nenhum erro de análise. Existe um FACTO, mais do que comprovado, por quem tem um cérebro a funcionar em pleno, e conhece a VARIANTE BRASILEIRA da Língua Portuguesa, tanto quanto conhece a Língua Portuguesa. E não pense a Susana que sou só eu.

E eu repito: nós não estamos do mesmo lado da barricada. Isto é uma falácia. Aparentemente parecemos estar. Mas não estamos.

Os Brasileiros são os únicos, dentre os restantes povos lusófonos, que só têm a ganhar se Portugal ceder à pretensão de se fixar na GRAFIA BRASILEIRA.

Lembre-se de que para eles é uma questão apenas de acentuação e hifenização.

Para nós é TUDO: acentuação, hifenização, grafia, identidade, dignidade e tudo o resto.

Aconselho a Susana Bastos a estar mais atenta ao que por aí se escreve a este respeito: a grafia preconizada pelo AO90 é a GRAFIA BRASILEIRA, mais pês, menos pês, mais cês, menos cês, e mais hífenes e acentos, menos hífenes e acentos. Os Brasileiros apenas tiveram de ceder em poucos acentos e poucos hífenes. De resto ficou tudo na mesma. Aliás ficou tudo igual, porque eles NÃO aplicam o AO90. Só os servilistas portugueses, e apenas os portugueses, o aplicam.


O AO90 só se mantém devido à FALTA DE INFORMAÇÃO que por aí grassa. Os meios de comunicação social SERVILISTAS estão proibidos de INFORMAR a este respeito. E se não fosse essa desinformação, o AO90 há muito que já tinha dado o berro.

Informe-se, Susana Bastos. Informe-se. No meu Blogue, mas não só, há muita informação. Não se fie na desinformação oficial.
De Susana Bastos a 29 de Julho de 2020 às 02:20
Agradeço, mas estou muito bem informada sobre este assunto. Conhecer o inimigo é dominá-lo. Recomendo-lhe a conhecida análise da professora Maria Regina Rocha que demonstra que, na questão das consoantes mudas, passaram a escrever-se mais palavras de forma diferente entre Portugal e o Brasil do que antes. Isto demonstra que o AO90 não é a grafia brasileira. "Aspecto", por exemplo, que refere, continua a escrever-se assim no Brasil, só nós mudámos. Bem, que se destrua este monumento à ignorância, será bom para os dois povos.
De Isabel A. Ferreira a 29 de Julho de 2020 às 15:39
Vai desculpar-me, Susana Bastos, mas devo dizer-lhe que NÃO ESTÁ muito bem informada sobre este assunto. Não está. Se estivesse, não diria que a ortografia preconizada pelo AO90 não é a brasileira. Pois se ela é ESSENCIALMENTE a brasileira! Não é outra.

Pois se o O objectivo foi precisamente esse: uma pretensão lunática de unificar as DUAS ortografias que existiam: a brasileira e a portuguesa, com supremacia para a brasileira, até porque (dizem) eles são MILHÕES, e foi por causa desses MILHÕES que os nossos políticos, que sofrem de um gigantesco complexo de inferioridade, cederam a essa pressão.

No Brasil, as consoantes suprimidas continuam a ser as mesmas. Em Portugal, as consoantes suprimidas são TODAS as que o Brasil suprimiu em 1943, excePto, umas excePções pontuais. O grosso do vocabulário mutilado é BRASILEIRO. E só não vê isto quem não quer ver, e pretende continuar DESINFORMADO, que é o seu caso, Susana Bastos.

Quanto à análise que a Professora Maria Regina Rocha fez, demonstra apenas que na questão das consoantes mudas passaram-se a escrever UMAS POUCAS palavras diferentemente do Brasil. Umas poucas. Em vez da unificação, criou-se umas poucas (serão uma dúzia) de palavras diferentes das do Brasil, onde se inclui a excePção. POUCAS.

Relembre aqui o que diz a Professora:

https://olugardalinguaportuguesa.blogs.sapo.pt/maria-regina-rocha-no-coloquio-191754

E aqui veja o negócio do acordo ortográfico, em que, na sua génese, está a GRAFIA BRASILEIRA:

https://olugardalinguaportuguesa.blogs.sapo.pt/o-negocio-do-acordo-ortografico-172469

Todos sabemos disto.

Por que teima a Susana Bastos em dizer que o AO90 NÃO ESTÁ assente na grafia brasileira? Tem algum motivo especial para teimar nesta falácia?
De Susana Bastos a 29 de Julho de 2020 às 20:06
O que relatei são factos, não é nenhuma falácia. Mas a colagem do AO90 à grafia brasileira, sim, é uma falácia e que não ajuda nada à luta contra esta aberração. Atente no que diz a professora Maria Regina Rocha: «Esta última situação é a mais aberrante: são 200 as palavras inventadas, que não existiam e passam a ser exclusivas da norma ortográfica em Portugal.» Não, não é uma dúzia, como refere.
De Isabel A. Ferreira a 30 de Julho de 2020 às 16:08
Susana bastos é uma FALÁCIA dizer que o AO90 NÃO ESTÁ assente na grafia brasileira. É óbvio que está. Repito.

Como também é óbvio que este (des)acordo introduziu no léxico português as palavras em que os brasileiros pronunciam os cês e os pês (a tal dúzia, mais coisa menos coisa, MAIS TODAS as suas derivações, que poderão chegar aos tais 200) e que os portugueses NÃO PRONUNCIAM. Daí o vergonhoso grupo de palavras/mostrengos que envergonha a racionalidade de qualquer ser humano que fale e escreva em Língua Portuguesa.

E ainda há a ter em conta as facultatividades.
Vou repetir: o AO90 está assente na grafia brasileira, com vergonhoso desvio de Portugal, para uma grafia que nem é brasileira, nem portuguesa, nem coisa nenhuma: exceto, receção, etc.

Isto é que é O FACTO, Susana Bastos.

Não aceitar isto é tentar justificar a aplicação, À CEGUINHA, do AO90, por quem o devia REJEITAR: professores, jornalistas e escritores acordistas, ou seja, TODOS os que têm a Língua Portuguesa como seu instrumento de trabalho. E se aceitassem isto, há muito que o AO90 estava atirado ao lixo.

Mas não, continuam a negar o óbvio, ou seja, que o AO90 não assenta na grafia brasileira. E enquanto isto não for encaixado por quem o aplica, não sairemos deste impasse. Continuarão a ser coniventes com o que convém ao Brasil: que o Português passe a ser brasileiro.

Veja neste link, o que diz o historiador Rui Ramos (que é a mais pura verdade):

«O Acordo Ortográfico é, entre nós, a última manifestação de um paroquialismo colonial que se voltou contra si próprio: não podendo aportuguesar o Brasil, vamos abrasileirar Portugal.»

https://olugardalinguaportuguesa.blogs.sapo.pt/o-imperio-ortografico-253891

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O Acordo Ortográfico 1990 não tem validade internacional. A assinatura (em 1990) do texto original tem repercussões jurídicas: fixa o texto (e os modos como os signatários se vinculam), isto segundo o artº 10º da Convenção de Viena do Direito dos Tratados. Por isso, não podia ser modificado de modo a entrar em vigor com a ratificação de apenas 3... sem que essa alteração não fosse ratificada por unanimidade! Ainda há meses Angola e Moçambique invocaram oficialmente a não vigência do acordo numa reunião oficial e os representantes oficiais do Brasil e do capataz dos brasileiros, Portugal, meteram a viola no saco. Ora, para um acordo internacional entrar em vigor em Portugal, à luz do artº 8º da Constituição Portuguesa, é preciso que esteja em vigor na ordem jurídica internacional. E este não está!
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