Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2023

«Finis patriae: A decadência educativa», por António Carlos Cortez

 

Um texto que reflecte a miséria do ensino em Portugal.

A proibição de ensinar, imposta aos professores, veio logo com o 25 de Abril. Dei aulas de Português e de História ao 2º Ciclo, nos anos lectivos de 1973/74, 74/75 e 75/76, e foi por obrigarem os professores de História, em vez de História a "ensinar" uma disciplina (sem livros) que se chamava "Habitação, Vestuário, e outra coisa do género, que agora não me recordo" que abandonei o ensino.

Desde então, o ensino tem vindo a degradar-se cada vez mais, e hoje o meu neto, que anda no 8º ano, a Matemática, na óptica dele, chama-se "Pinta de Amarelo", porque os exercícios de Matemática são para "pintar de amarelo" determinadas coisas.

O que se pretende com este tipo de ensino a abeirar o ensino de infantário?

 

E o Português, que os professores actuais não sabem como grafar, e grafam à vontade do freguês? Não admira que a Matemática e a Português os alunos portugueses estejam na cauda da Europa.

 

O que pretenderão os governantes com este tipo de ensino? Formar analfabetos funcionais, para mais fácil os manobrar, no futuro?

 

Isabel A. Ferreira

 

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António Carlos Cortez

 

Por António Carlos Cortez

 

«Finis patriae: A decadência educativa» 

 

Com os resultados da oitava ronda do PISA [Programa Internacional de Avaliação de Alunos], só se espanta quem seja ingénuo ou cobarde. Ou quem, irresponsavelmente, insiste em declarar que a educação em Portugal - e o país, de que a educação é o espelho -- está no bom caminho seja para o que for a que queiramos chamar "o futuro". Não. Portugal, que tem sido ultrapassado por países que ainda há pouco no ex-Bloco de Leste pouco mais seriam que territórios em transição para o dito "1º Mundo"; Portugal é hoje um país que se prepara para uma segunda metade da década de 2020 que será de diluição, destruição, esgotamento, subversão das instituições.

 

Desde Garrett e de Antero que não conhecemos senão uma classe política indigente, salvo excepções. Sucedem-se as comissões, os estudos, as radiografias à nossa sociedade. Publicam-se ensaios, livros; organizam-se conferências, multiplicam-se os encontros, os colóquios, os convénios. Todos, dos cafés de bairro às direcções das Universidades e Redacções de Jornais sabem que estamos doentes. Em jeito de cardápio barato a servir-se numa qualquer esplanada da pátria, preparamo-nos para ver os programas dos partidos que vão a eleições em Março de 2024. Com que esperança vamos votar? Em que classe política conhecedora do país real? Neste "fogo-fátuo" que é Portugal a entristecer a terrível verdade é esta: os portugueses, depois de Marcelo deixar cair definitivamente a sua máscara, sabem que são "Ninguém", como alegoricamente exclamou esse Romeiro que já éramos no século XIX.

 

Volto à questão do PISA e destes resultados reveladores. Portugal tem o 29º resultado (em trinta países!) em Matemática; tem o último lugar na literacia científica e ocupa o 24º lugar no que respeita à leitura. A culpa não será só da pandemia. Mas a pandemia agravou as dificuldades do quotidiano escolar e universitário. O tele-ensino foi apenas, como sempre neste país, "para inglês ver" e a equipa ministerial fazer o elogio da classe que jamais protege, mas sempre engana. Sejamos honestos: não só a profissão docente está absolutamente comprometida, como a própria escola pública (mas também colégios privados, pois o mal também chegará) e a Universidade no seu futuro. As condições de recrutamento não aliciam ninguém. Não teremos 30.000 professores em 2030 para fazer face à falta de profissionais neste sector. Os que entrarem depressa irão rumar a outras paragens. Os que persistirem serão carne-para-canhão dum sistema que paga mal, brutaliza, estupidifica e é cúmplice da ignorância larvar.


Com efeito, os resultados do PISA revelam o que a maioria sabe: que o que se vive no dia-a-dia das escolas impede qualquer hipótese de crianças e adolescentes aprenderem seja o que for de relevante. O quotidiano escolar é simples de descrever: os professores, esmagados por centenas de alunos, tendo a braços mil-e-um afazeres de natureza burocrática, deslocados da sua área de residência, congelados neste ou naquele escalão, tendo ordenados de miséria -- os professores não possuem qualquer estatuto real ou simbólico para enfrentar o que enfrentam. A tutela tira hoje para fingir que dá amanhã e depois-de-amanhã tira mais do que tirou da primeira vez. Que realidade é essa que os professores enfrentam? Esta: Uma geração inteira de adolescentes que, com 13, 14, 15, 16, 17 anos são mal-educados, ignorantes e sem curiosidade. Adolescentes cujos pais pressionam, com apoio das direcções, para que os seus filhos obtenham resultados de não menos que 16 a todas as disciplinas. O perfil dos jovens que frequentam hoje a escola portuguesa roça a delinquência. Mas são delinquentes com óptimas notas! É vê-los com as cabeças mergulhadas, durante as aulas, nos ecrãs dos tenebrosos telemóveis. É vê-los falar no português de caserna que espelha a ausência de utopia, a incuriosidade, a formatação de reformas educativas que visaram empobrecer a capacidade crítica. No digital -- aí é que está a autoridade: os influencers, os tik-tokers, os magos da estupidez a fingir de progresso. Esses são os verdadeiros educadores do país. Na maioria das escolas as direcções são coniventes. O rigor é atropelado pela facilidade; reprovar um aluno significa correr o perigo de ter os pais à espera. No melhor dos casos significa escrever um relatório inútil a justificar por que razão a reprovação faz sentido - facto que as direcções se apressam a desfazer. Professores competentes -- que os há, ainda -- são convidados a serem "flexíveis". A escola "inclusiva" de que os governantes gostam de falar é inclusiva apenas nisto: na pobreza salarial de quem ensina, na deliquência potencial de quem (não quer ser) ensinado. Criámos, portanto, os monstros: futuros juízes, políticos, advogados, médicos, professores, engenheiros, arquitectos, que nada leram, não sabem escrever e não sabem pensar.

 

Só os governantes é que ignoram o óbvio: as sucessivas reformas - com a diluição de disciplinas como História, Filosofia e Literatura (as que exigem a escrita reflexiva!) - são a raiz da nossa degradação social. Os resultados do PISA espelham bem cinco causas da nossa decadência acelerada: 1.º) As reformas curriculares facilitistas; 2.º) a má preparação científica da classe docente; 3.º) a pobreza salarial dos professores, não permitindo o acesso à cultura, sempre cara neste país pobre; 4.º) a incapacidade de pensar a educação supra-partidariamente e 5.º) a "vã cobiça", as modas, tudo quanto, sob a capa do discurso do sucesso, abre as portas à corrupção, à anarquia, à indigência. A violência existe nas escolas portuguesas. Saber ler e escrever e contar a sério -- isso não existe.


Professor, poeta e crítico literário

 

Fonte:

https://www.dn.pt/opiniao/finis-patriae-a-decadencia-educativa-17465664.html?fbclid=IwAR37PF6iQorEue7Ru-Fa4TO389Kj5Y0jCXZYJlk56MUvQbI7b6q-dmIINjM

***

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publicado por Isabel A. Ferreira às 17:23

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