Quinta-feira, 3 de Maio de 2018

«LUGARES-COMUNS DA LINGUAGEM HODIERNA»

 

Um interessante exercício de retórica, que nos conduz a uma introspecção, a uma viagem pelo interior de uma linguagem quase mecanizada, que é a de quem tem na escrita o seu “pão de cada dia”…

 

E serão esses lugares-comuns assim tão comuns? Ou como diz o Rodrigo, não serão uma figura de retórica (me·to·ní·mi·a – do latim metonymia, -ae) que consiste no emprego de uma palavra por outra, com a qual se liga por uma relação lógica ou de proximidade?

 

Um excelente texto de Manuel Matos Monteiro, para alargar horizontes e reflectir a Língua Portuguesa, no seu melhor... (Isabel A. Ferreira)

 

MANEL.png

 

Manuel Matos Monteiro

(Autor, jornalista, formador e revisor)

 

A nossa criatividade é coarctada por vocábulos enleados a que acedemos sem um átomo de esforço ou imaginação. Somos todos prisioneiros involuntários da caterva de chavões que ouvimos e lemos diariamente. Prisioneiros inconscientes — o mais perigoso tipo de prisão.

 

Pense o leitor na fronteira (ou na linha divisória). Diga em voz alta a seguinte frase: “A fronteira entre isto e aquilo é muito…” Que ouve sempre? Pense um pouco antes de continuar. Que adjectivo lhe sai naturalmente? Não salte para o parágrafo abaixo sem ter a palavra.

 

Deixe-me agora adivinhar: ténue.

 

E o adepto?

 

É um adepto fervoroso.

 

Mas se for o defensor…

 

… já é acérrimo.

 

Uma figura importante do século XX não poderá deixar de ser… uma figura… incontornável do século XX. 

 

Se o período foi bom, tratou-se garantidamente de uma época áurea.

 

Quando há muito trânsito, o trânsito está caótico. E quando a velocidade excede largamente os limites, é vertiginosa, estonteante ou louca.

 

O elogio de determinada observação puxa sempre o mesmo adjectivo. Gostei da sua observação, foi uma observação muito…

 

… pertinente. Mas se teve uma boa “saída”, teve uma saída airosa.

 

A discussão é acalorada ou acesa. Os ânimos, por seu turno, quando se agitam, estão sempre exaltados.

 

Em se tratando de um crime que todos devemos repudiar, não haja dúvidas: foi um crime hediondo (e, provavelmente, com requintes de malvadez.) E o ódio? Ah, o ódio só poderá ser visceral.

 

Já o erro… foi clamoroso ou crasso. E, tal como o momento inesquecível, deixou uma marca indelével.

 

Os convites podem ser sugestivos ou irrecusáveis, mas as propostas, quando boas, são quase sempre irrecusáveis.

 

Um grande silêncio é um silêncio sepulcral ou ensurdecedor.

 

Na descrição da sensualidade ou beleza, tem de haver lábios carnudos, pernas bem torneadas, olhares penetrantes, pele aveludada ou macia, voz doce ou quente, cabelos sedosos, odores inebriantes e, inevitavelmente, um corpo escultural. O corpo escultural, de tão gasto, já é —  imagine-se… — motivo de enjoo. E tudo isso provoca desejos ardentes e paixões arrebatadoras ou assolapadas.

 

Na Natureza, há sempre árvores frondosas, prados verdejantes ou jardins luxuriantes. O mar, quando não está sereno, está quase sempre revolto. Num “dia luminoso”, o Sol só poderá estar resplandecente ou radioso. E não deve haver hoje um lugar com belas paisagens naturais que não seja publicitado como “destino paradisíaco”.

 

Tal como os adjectivos que aparecem quase sempre associados aos mesmos substantivos, também os advérbios que fazem companhia aos verbos são, bastas vezes, os mesmos.

 

Vejamos…

 

Se chove muito, chove torrencialmente. Se aconselhamos ou recomendamos com ênfase, aconselhamos e recomendamos vivamente. Se rejeitamos ou recusamos, rejeitamos e recusamos liminarmente. Mas se afirmamos, afirmamos categoricamente ou peremptoriamente. Quando acreditamos, acreditamos piamente; mas quando confiamos, já confiamos cegamente. Se nos enganamos, enganamo-nos redondamente; mas se falhamos, já falhamos rotundamente. E quando alguém mente, não raro, há uma rima: mente descaradamente. Sendo preciso reduzir algo, é preciso reduzi-lo drasticamente e trabalhar arduamente ou afincadamente para o conseguir. Aquilo que lamentamos… lamentamos profundamente… a ponto de, em algumas circunstâncias, chorarmos convulsivamente. Com fome e sede, comemos avidamente e bebemos sofregamente. E quando alguém pede… pede encarecidamente.

 

Todos os lugares-comuns têm o mesmo resultado: de tão gastos e puídos, não representam nada na imaginação de quem os lê. O ventriloquismo inconsciente de quem escreve gera a anestesia cerebral de quem lê. Quem escreve (e quem lê…) tais encadeamentos vocabulares não representa mentalmente cada palavra. Num bloco inconsútil, as palavras perdem autonomia e vitalidade. Quem escreve “silêncio sepulcral” não parou para pensar em imagens e escolheu o sepulcro. De igual modo, quem escreve “velocidade vertiginosa” não reflectiu na ideia de vertigem para associar à velocidade. Lemos “época áurea” e não vemos a cor do ouro — um automatismo diz-nos que foi uma boa fase e isso é tudo o que acontece na nossa cabeça. Acaso alguém escuta um clamor quando lê “erro clamoroso”? Não lemos as palavras isoladamente, sabemos apenas o significado das palavras juntinhas.

 

Repare que muitos SÓ empregam os adjectivos e advérbios acima inventariados quando colados aos mesmos substantivos ou verbos. Verificará também que muitos nem sabem o que significam “assolapar”/”solapar” (assolapada [1]), “liminar” (liminarmente), “áureo”, “pio” (piamente), ou os significados de “encarecido” (encarecidamente) ou “crasso”, ou ainda que “acérrimo” é superlativo absoluto sintético de “acre”. Experimente desagregar “liminarmente” dos verbos recusar e rejeitar e pergunte a si próprio quantas vezes emprega “liminar” ou “liminarmente” sem tais muletas. O mesmo pode ser dito de “pio” ou “piamente” — desirmanado do verbo acreditar, tal advérbio parece não existir. Como o adjectivo “aparatoso”, que só vem à tona na expressão “queda aparatosa” — ou, vá lá, “acidente aparatoso”. (E no futebolês: lance aparatoso, defesa aparatosa, falta aparatosa.)

 

Quanto mais vezes determinada sequência de vocábulos aparece nos textos e na oralidade, mais débil é a sua capacidade de evocação.

 

William Strunk e E. B. White, em The Elements of Style (Os Elementos do Estilo), alvitram que “todas as palavras digam algo”, ou seja, que todas as palavras tenham vida própria — precisamente aquilo que não acontece nas locuções estereotipadas. George Orwell, num texto fundamental sobre a arte da escrita, A Política e a Língua Inglesa, de 1946, fala de “expressões pregadas umas às outras como secções de uma capoeira prefabricada”. Cristina Borges, formadora e professora na área da escrita, contou-me que diz aos seus formandos e alunos que escrevam “Sol resplandecente” no Google, de modo que vejam como as mesmas duas palavras juntas apresentam tantas imagens diferentes — como se trata, no fundo, de um grande chapéu que impede a descrição de aterrar na realidade específica.

 

A nossa criatividade é coarctada por estes vocábulos enleados a que acedemos sem um átomo de esforço ou imaginação. Somos todos prisioneiros involuntários da caterva de chavões que ouvimos e lemos diariamente. Prisioneiros inconscientes — o mais perigoso tipo de prisão.

 

Não se esqueça, portanto, de alargar horizontes.

Reparou em algo na frase acima?

 

[1] A Infopédia regista apenas os significados de “oculto” e “disfarçado” no verbete “assolapado”.

 

Fonte

https://www.publico.pt/2018/04/30/culturaipsilon/opiniao/lugarescomuns-da-linguagem-hodierna-1815866#comments

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:41

link do post | comentar | adicionar aos favoritos
partilhar

.mais sobre mim

.pesquisar neste blog

 

.Julho 2018

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.posts recentes

. CIMEIRA DA CPLP EM CABO V...

. MORREU ANTINO DO TOJAL, U...

. ADMIRÁVEL LÍNGUA NOVA (PA...

. REGRESSO PARA FAZER CAMPA...

. NO SILÊNCIO DESTE BOSQUE ...

. PARABÉNS LUSÓFONOS: A LÍN...

. A GRAFIA PORTUGUESA QUE V...

. A GRAFIA PORTUGUESA QUE ...

. «E ISTO NÃO SER TUDO…»

. ENTREVISTA A FRANCISCO MI...

.arquivos

. Julho 2018

. Junho 2018

. Maio 2018

. Abril 2018

. Março 2018

. Fevereiro 2018

. Janeiro 2018

. Dezembro 2017

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

.ACORDO ORTOGRÁFICO

EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA, A AUTORA DESTE BLOGUE NÃO ADOPTA O “ACORDO ORTOGRÁFICO” DE 1990, DEVIDO A ESTE SER INCONSTITUCIONAL, LINGUISTICAMENTE INCONSISTENTE, ESTRUTURALMENTE INCONGRUENTE, PARA ALÉM DE, COMPROVADAMENTE, SER CAUSA DE UMA CRESCENTE E PERNICIOSA ILITERACIA EM PUBLICAÇÕES OFICIAIS E PRIVADAS, NAS ESCOLAS, NOS ÓRGÃOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL, NA POPULAÇÃO EM GERAL E ESTAR A CRIAR UMA GERAÇÃO DE ANALFABETOS.

.

.CONTACTO

isabelferreira@net.sapo.pt

. AO/90 É INCONSTITUCIONAL

O Acordo Ortográfico 1990 não tem validade internacional. A assinatura (em 1990) do texto original tem repercussões jurídicas: fixa o texto (e os modos como os signatários se vinculam), isto segundo o artº 10º da Convenção de Viena do Direito dos Tratados. Por isso, não podia ser modificado de modo a entrar em vigor com a ratificação de apenas 3... sem que essa alteração não fosse ratificada por unanimidade! Ainda há meses Angola e Moçambique invocaram OFICIALMENTE a não vigência do acordo numa reunião OFICIAL e os representantes OFICIAIS do Brasil e do capataz dos brasileiros, Portugal, meteram a viola no saco. Ora, para um acordo internacional entrar em vigor em Portugal, à luz do artº 8º da Constituição Portuguesa, é preciso que esteja em vigor na ordem jurídica internacional. E este não está!
blogs SAPO