Exactamente.
O artigo O papel destrutivo do deslumbramento tecnológico na educação, da autoria de José Pacheco Pereira, publicado no Jornal PÚBLICO foi-me enviado pela minha lúcida amiga Idalete Giga, que acrescentou a seguinte mensagem:
Este excelente artigo devia ser lido, sobretudo, pelo ministro da reforma administrativa. Que atrevimento formatar, com tecnologias duvidosas, as crianças como se fossem peças de xadrez e sua Exª. fosse o dono da personalidade e alma das crianças. Está tudo obcecado com a IA como se fosse a deusa da sabedoria. Esta medida é um absurdo, uma falta de respeito não só para com as crianças, mas para com os pais e toda a comunidade escolar.
Mais uma medida neonazi do ministro da reforma administrativa. É de bradar aos céus!
Isto tem de ser travado o mais depressa possível. É um atentado contra toda a comunidade educativa. (!)
Por favor, escreva no seu Blogue um artigo sobre esta pouca vergonha. Irá percorrer todo o mundo onde houver portugueses.
A este artigo, Idalete Giga deixou no Jornal PÚBLICO, o seguinte comentário:
Experiente
Obrigada, Caro José Pacheco Pereira pelo seu artigo que não navega na superfície, mas vai ao fundo da questão da IA, agora impingida pelo Sr. ministro da reforma administrativa às crianças na forma de tutora "inteligente". Para V. Exª. é mesmo um "deslumbramento tecnológico”, e eu completo: uma fixação perversa para ajudar a destruir definitivamente a Escola. As crianças não são peças de xadrez, mas para V. Exª. são e, por isso, quer manipulá-las à sua vontade e mandar para as silvas não só as crianças, mas os pais e os professores. Vou citar o sábio Noam Chomosky expressamente para V. Exª.: "A IA é o maior ataque ao pensamento crítico, à inteligência crítica e, sobretudo, à Ciência, que eu já alguma vez vi (...) pensar que podemos aprender alguma coisa com a IA, é um erro".
Com a clarividência de Idalete Giga e com o saber científico de Noam Chomsky, por ela citado, penso que fica tudo dito, e o que terei eu mais para acrescentar?
Apenas isto: gosto de testar a “inteligência” da IA, que em muitas, mas muitas circunstâncias, quando lhe ponho questões de SABER, poderíamos ler Ignorância Artificial, se não soubesse que a construção da IA depende da recolha de dados, e se os dados estão incorrectos, a IA não tem capacidade de discernir o que é certo e o que é errado, de modo que por vezes, muitas vezes, dá a informação errada.
Não é de fiar.
Como poderão os governantes querer dar a cada aluno um tutor de inteligência artificial, que não é infalível? Erra quando os humanos erram, quando os dados, que os humanos espalham por aí, estiverem errados. E quando se trata da História, da Cultura e da Língua Portuguesas, as invenções, as incorrecções, as mentiras que andam espalhadas pela Internet são de bradar aos céus!
É isto que o governo português pretende oferecer aos já a caminho de serem os analfabetos funcionais do futuro? Isto, podemos dizer alto, configura um crime de lesa-alunos.
Nem tudo o que é moderno é da IN -- Inteligência Natural.
Isabel A. Ferreira
***
O papel destrutivo do deslumbramento tecnológico na educação
A primeira coisa que este “tutor” artificial vai fazer é minimizar o papel do professor.

15 de Novembro de 2025, 7:01
A notícia diz isto: “O Governo quer dar a cada aluno um tutor de inteligência artificial.” A notícia refere que o ministro da Reforma Administrativa fez esta promessa na abertura do Web Summit, o que presumo deve ter dado grande satisfação ao crescente e altamente lucrativo negócio à volta da inteligência artificial. Esta é mais uma medida “modernizadora” na sequência do computador Magalhães, dos quadros interactivos, da supremacia dos ecrãs relativamente aos livros. O único travão a este caminho foi a proibição dos telemóveis nas salas de aula, que abrange um número escasso de estudantes e está longe de ser aplicada como norma. Duvido que o actual ministro da Educação esteja tão disponível para os tutores de inteligência artificial e duvido que ambos se tenham entendido.
Ter e saber usar um computador é bom? Certamente que é. Saber “navegar” na Internet é bom? Em absoluto é, é aliás fundamental. Saber usar os ecrãs de telemóveis e tablets é bom? De novo, certamente que é, em particular no uso do hipertexto. Começar a usar as enormes vantagens da inteligência artificial é bom? É excelente, se houver inteligência dos dois lados.
Convém é não esquecer uma realidade tão básica, e que devia entrar pelos olhos dentro, ensinada pelos tutores de inteligência artificial usados pelos governantes: os homens são analógicos e não digitais. Têm sentidos que os limitam, não vêem tudo que está à sua volta, não ouvem tudo que está à sua volta, não têm memória das máquinas, envelhecem e não lêem como os jovens, não têm a velocidade de processar dados dos computadores, e toda a sua experiência de uma vida, tudo o que vêem, tudo o que ouvem, tudo o que dizem cabe em escassos terabytes. Mas combinam tudo numa realidade cuja dimensão é a da sua humanidade, razão, emoções, virtudes, medos, coragem e, acima de tudo, vida, escassa, pobre, difícil por regra. Pode haver um dia em que tudo isto possa ser entendido pelas máquinas, mas mesmo assim faltará sempre alguma coisa.
O problema não está aqui, está no modo como cada um destes instrumentos entra na escola e de modo mais geral na vida quotidiana e no trabalho das pessoas, e no que é que eles substituem nas políticas de educação e como afectam o processo de aprendizagem e, mais importante ainda, de socialização. E é aqui que entra um dos mais perversos e poderosos mecanismos que é a moda, a moda impulsionada pelo deslumbramento tecnológico, a ideia de que é mais “moderno” usar os instrumentos das novas tecnologias para realizar tarefas que implicam outro tipo de conhecimentos e uma sociabilidade mais rica. Ora, o que acontece é que elas são usadas com escassa vantagem, com efeitos negativos que vêm do modo como se inserem na sociedade, acentuando o individualismo, a solidão, o antagonismo, o conflito, e a ignorância. Nenhuma destas coisas vem das máquinas, vem do modo como estamos a construir o nosso viver, só que as máquinas oferecem um amplificador gigantesco para estas perversões sociais, e isso muda muita coisa. Uma das áreas em que os seus efeitos são mais devastadores é na educação e no ensino, impulsionadas por governantes que só querem ser “modernos” nestas coisas, e pelo cada vez mais importante negócio tecnológico.

A primeira coisa que este “tutor” artificial vai fazer é minimizar o papel do professor. Ora, o mecanismo mais importante na eficácia do ensino é a relação de empatia entre o estudante e o professor. Falar com uma máquina é uma coisa muito diferente do que com um humano e se, pelas piores razões – infelizmente, hoje demasiado comuns –, isso cria habituação e dependência, isso vai cada vez mais acentuar formas de solidão modernas e de sociabilidade pobre. É como considerar que os likes são uma forma de amizade e aceitação afectiva.
Depois, vai acentuar o caminho de ignorar que o uso capaz de todas as tecnologias, a começar pelo modo como se “procura” na rede, quanto mais dialogar com o “tutor”, depende de literacias a montante, que vão desde o mais simples ler, escrever e contar, todas em risco nos nossos dias. E parte desse risco também é resultado do deslumbramento tecnológico, com a desvalorização da leitura, e da escrita resultante do modo gutural como se “escreve” nas redes sociais, do vocabulário cada vez mais reduzido e do modo como essas ignorâncias se reflectem em dificuldades de compreensão.
A ideia de que os estudantes podem ler livros como Os Maias, de Eça, com o vocabulário restrito que possuem e usam, como também com a ruptura de saberes que estão presentes na nossa tradição cultural, como é a da Bíblia ou do mundo clássico greco-romano, é mirífica. A minha experiência de falar em dezenas de escolas do ensino secundário é a de encontrar centenas de estudantes que não sabem quem são Adão e Eva (com excepção dos evangélicos), já para não falar de Aquiles ou do Cavalo de Tróia. Como é que podem ler Eça? E esses mesmos estudantes não sabem o significado de palavras correntes no português de hoje, quanto mais vocábulos menos comuns mas circulantes na literatura.
Acresce que é evidente a diferenciação social entre falar para estudantes de colégios ou escolas em zonas “da alta” e de zonas que um eufemismo designa como “desfavorecidas”, onde a socialização pela escola é praticamente nula na competição entre a rua, o bairro e o telemóvel. Embora eu tenha esta experiência directa, não me limito a ela, todos os estudos a confirmam perante a impotência de professores e autoridades governativas.
Quem saiba história sabe que momentos como este, na história do mundo, já se verificaram e todos acabaram mal. É a sociedade que manda nas máquinas, e não o contrário, e é sociedade que está mal. Não façam um upgrade tecnológico desse mal, porque fica pior.
O autor é colunista do PÚBLICO
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