Se em 2016 a língua portuguesa ainda preocupava os candidatos à Presidência, em 2026 nem a palavra “língua” apareceu nos programas.

Ortografia e eleições: dúvidas em 2016, silêncio em 2026
«No dia 18 de Janeiro de 2016, dez exactos anos antes da primeira volta das presidenciais ainda em curso, o PÚBLICO dava à página um um artigo de opinião assinado pelo jurista Artur Magalhães Mateus, onde este foi procurar saber qual o posicionamento dos vários candidatos à Presidência acerca do chamado Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO90). Em síntese, as suas conclusões foram estas: Marcelo Rebelo de Sousa, que viria a ser eleito e reeleito, e que em 1991 foi um dos 400 subscritores de um manifesto contra tal acordo publicado em dupla página pelo semanário "Independente" (“Nós não concordamos, nós escrevemos português”), mudara de opinião, considerando “artificial” o debate sobre tal questão e vendo “virtuosidades” no acordo, admitindo no entanto não o utilizar no dia-a-dia (“Escrevi assim toda a vida. Não vou mudar”), tudo isto em declarações anteriores à candidatura, pois não respondeu ao inquérito do jurista.
Sampaio da Nóvoa, dizendo-se “contra o AO”, na qualidade de reitor e de professor, mandou aplicá-lo na Universidade de Lisboa a partir do ano lectivo de 2012-2013 e, caso tivesse sido eleito, escreveria “naturalmente” “com a “ortografia oficial”, ou seja, “mediante o novo acordo”, mas considerou ser “importante fazer uma revisão”; Cândido Ferreira, que escrevia segundo a norma de 1945 como cidadão e com a de 1990 como candidato, também considerava que o AO90 devia ser revisto, ainda que isso não fosse “uma questão vital”; Henrique Neto, cujos textos de campanha foram escritos sem obedecer ao AO90, propunha “a nomeação de uma comissão de peritos para uma revisão profunda do ‘Acordo’, com carácter vinculativo”; Maria de Belém Roseira defendia “uma reavaliação do acordo ortográfico”, importando “verificar se foram atingidos” os objectivos que visava; Edgar Silva, sem usar a dita “nova grafia”, mostrou “reservas ao Acordo Ortográfico de 1990”, e defendeu “alterações profundas […] ou mesmo uma eventual desvinculação de Portugal”; Marisa Matias, divergindo da posição oficial do Bloco de Esquerda, não só escrevia sem AO90 como afirmava: “Não sou a favor do acordo. Entendo que a língua evoluiu não por decreto e sim pela prática”; Paulo de Morais considerava o AO90 “um absoluto falhanço”, classificando as alterações por ele propostas como “desconexas, imperceptíveis e más”; e Jorge Sequeira e Vitorino Silva (Tino de Rans), não tendo posição pública conhecida sobre o tema à data, não responderam ao inquérito do jurista.
Isto quando o AO90 ainda era considerado tema de debate na opinião pública e, como reflexo desse debate, também entre políticos, governantes ou não, e nas hostes partidárias. Entretanto, passaram-se dez anos sem que alguém tenha mexido numa só vírgula do acordo (apesar das promessas em contrário), agravando-se os seus nefastos efeitos à custa das muitas duplas grafias e facultatividades que o seu texto defende, ao arrepio da mais elementar lógica ortográfica.
Dez anos passados, percorrendo os manifestos e programas dos 11 candidatos à Presidência, dos quais nove ficaram pelo caminho, a primeira constatação é a ausência da palavra “língua” na quase totalidade desses textos, à excepção de uma frase no programa de Manuel João Vieira que, no contexto de uma proposta irónica, se refere uma única vez à “língua portuguesa”. De resto, os candidatos à Presidência seguiram, quase todos, o AO90, mas com as misturadas do costume. Até no de Cotrim Figueiredo, quase todo sem AO90, se lia “setores”, tal como no de António Filipe, com “setores” a par de “sectores” (já António José Seguro optou apenas por “sectores”, não havendo nenhum “setor” no discurso com que se candidatou); no de Humberto Correia, a par de “actores” havia “atualmente”, “objetivos”, “aspetos”, “insetos” ou “proteção”; e no de Catarina Martins, que segue o AO90, podíamos ler “Verão” (com maiúscula) a par de “ação”.
Foi, portanto, esta miscelânea pseudo-ortográfica que ficou como simulacro de “norma”. Já dizia, com o mais absoluto descaramento, um opúsculo editado pela Impresa (detentora, entre outros títulos, do "Expresso") como guia “para toda a família adotar a nova grafia” (pág. 15 do I volume da edição “revista e ampliada”): havendo duplas grafias, “cada escrevente deverá, pois, optar pela grafia que lhe parecer mais correta”. Sendo o “menu” vasto em oferta, temos, como se vê pelo que por aí se escreve, uma verdadeira salsada mascarada de moderna. No tempo das percepções, agora travestidas de “perceções”, a companhia dos “pareceres” ajusta-se plenamente. Fica, assim, a “perceção” de escrever bem – pelo menos é o que “parece” a cada escrevente, que há-de ter opinião diferente da do vizinho do lado. Ninguém se dispõe a acabar com isto?»
Comentário e Maria José Abranches
"Obrigada, Nuno Pacheco! Não consigo entender por que razão, em Portugal, a classe dominante, política e intelectual, ignora, desrespeita e despreza a própria língua! Sim, também tive esperança de que alguém, nesta campanha para a Presidência da República, se lembrasse ou soubesse, qual o valor da sua língua materna para qualquer povo...Mas não: a língua nacional é um tema 'tabu'! O poder político apoderou-se dela, empenhado em 'negócios' com o Brasil, e não quis ouvir ninguém. Não é a primeira vez, na nossa História, em que a classe dominante se empenha em entregar o país aos mais fortes e poderosos... Porque se calam todos os que são contra o AO90? Há muitos que o criticam, mas porque não vêm bradar publicamente contra a destruição da nossa língua? «Ninguém se dispõe a acabar com isto?»
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