Quarta-feira, 16 de Novembro de 2022

Quiseram celebrar o centenário do nascimento de Saramago, o mago da Literatura, e fizeram uma nova edição da sua obra em “mixordês” - a novilíngua dos “brutogueses”

 

Caramba, podiam não gostar de Saramago, afinal ele era comunista, e em Portugal, ainda há quem alvitre que os comunistas comem criancinhas ao pequeno almoço, o que, no entanto, não era o caso de José Saramago.

 

Podiam não gostar da sua obra, do seu estilo literário. Mas caramba, José Saramago SABIA da Língua Portuguesa. Escrevia em Português, com mestria. A pontuação não era o seu forte. Não era. Mas o que importava era a sua ESCRITA e as suas histórias, tanto que, mereceu o Prémio Nobel da Literatura, em 1998, o único até hoje, em Portugal, e temo que possa ser o último, se os governantes portugueses continuarem a insistir no gravíssimo erro que foi a introdução, no nosso País, de uma grafia capada, absurda, idiota, algo que só ignorantes, amantes da estupidez, poderiam permitir e aplicar, e que dá pelo nome de “acordo ortográfico de 1990”.

 

Saramago.jpeg

Origem da imagem: Internet

 

A cegueira mental em que estão mergulhados os nossos actuais governantes, que mantêm activo um acordo ortográfico que só os descerebrados, por serem descerebrados, aceitaram cegamente, é muito redutora.

Como poderá reverter-se esta situação? Sim, porque esta afronta à nossa independência linguística, mais dia, menos dia, terá de ser revertida. Não podemos permitir que a próxima geração dos nossos filhos, dos nossos netos, enfim, dos nossos jovens, seja tratada abaixo de cão por gente que não tem a mínima ética, o mínimo brio profissional, nem espinha dorsal.

 

Tenho e li toda a obra que Saramago escreveu até à sua morte. Depois do seu desaparecimento físico, todos os que se diziam seus colaboradores e admiradores perderam todo o respeito por ele, o RESPEITO que ele mereceu em vida, como ESCRITOR, e desataram a conspurcar os seus escritos, substituindo-os pela mixórdia acordizada que os brutogueses - os que, não tendo respeito por si próprios, nem pelas suas origens, nem pela sua Cultura, pela sua História e, muito menos, pela sua Língua – começaram a expandir em Portugal, e só em Portugal, porque lá fora, os Portugueses na diáspora e os próprios estrangeiros, por não reconhecerem nessa mixórdia a alma das Línguas Europeias, pura e simplesmente, rejeitaram-na.

 

Um destes dias, entrei numa Livraria Bertrand (há muito que não entrava numa livraria) e ao entrar, senti um arrepio desconfortável. Eu, que tinha as livrarias como lugares sagrados, onde os livros eram uma espécie de divindades, e eu sentia-me no Céu.

 

Estranhei aquele arrepio, e ao dar dois ou três passos adiante, diante de mim estava alinhada a nova edição da obra de Saramago. Peguei num dos seus “novos” livros para senti-lo, e o que vi arrepiou-me ainda mais: desrespeitaram Saramago acordizando a sua obra.

 

Pousei o livro como se ele estivesse a queimar-me as mãos, e saí da livraria. As livrarias já não são lugares sagrados, onde os livros são uma espécie de divindades. E eu já não me sinto bem dentro delas, pois sou afrontada com algo ANORMAL, que me causa uma repulsa instintiva.

 

Numa entrevista, em 2008, no Brasil, Saramago disse o seguinte:

 

Saramago critica AO90.PNG

 

Pois transformaram o Português de Saramago em Húngaro, se bem que um Húngaro muito, muito deformado.

 

Porque era leitora de José Saramago (e para aqui nunca foi chamada a sua cor política, porque sei separar as águas) não quis deixar de prestar uma homenagem ao autor do genial “Ensaio Sobre a Cegueira”, na passagem do centenário do seu nascimento, deixando aqui o meu REPÚDIO pelo DESRESPEITO que ele mereceu, depois da sua morte, ao amixordizarem a sua Língua Portuguesa, que era o seu mais precioso instrumento de trabalho.

 

Ao amixordizarem a obra de Saramago, nenhum leitor conseguirá conhecer exactamente a escrita do mago da Literatura, chamado José Saramago

 

Isabel A. Ferreira

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:44

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comentários:
De Professor B a 16 de Novembro de 2022 às 18:48
Essa gente não respeita nada. Não têm escrúpulos. Venderam-se por um prato de lentilhas. Só pensaram em encher os bolsos.
De Isabel A. Ferreira a 17 de Novembro de 2022 às 15:15
Infelizmente, o que o Professor B diz é a mais pura verdade. E como poderá reverter-se esta situação? Sim, porque esta afronta à nossa independência linguística, mais dia, menos dia, terá de ser revertida. Não podemos permitir que a próxima geração dos nossos filhos, dos nossos netos, enfim, dos nossos jovens seja tratada abaixo de cão por gente que não tem a mínima ética, o mínimo brio profissional, nem espinha dorsal.
De Anónimo a 20 de Novembro de 2022 às 14:44
O Fernando Pessoa também criticou a ortographia phonetica e anti-etymologica adoptada em 1911 e cá estamos nós actualmente a usá-la (com ou sem o Accordo Ortographico, ignorámos os nossos avós latinos a favor de uma escripta preguiçosa)
De Isabel A. Ferreira a 20 de Novembro de 2022 às 19:14
Vou responder a este “Anónimo” - porque será que há gente que quer mandar recados, mas não dão a cara, como manda a valentia? Têm vergonha de assumir os seus disparates em público? Não têm a certeza do que dizem? Ou são pagos para virem dizer disparates que outros querem que se diga, mas também não têm coragem de dar a cara a dizê-los? – porque o que eu tenho a dizer sobre este comentário (lá vem o PH e o Fernando Pessoa como símbolos da idiotice acordistas!!!!) pode interessar aos menos instruídos.

Em 1911 havia uma multidão de analfabetos no Brasil e em Portugal, os quais, quando iam para a escola, NÃO atinavam com a Língua Portuguesa, uma Língua culta, mas difícil. Então uns estudiosos da Língua reuniram-se para estudar um modo de simplificar a Língua, com o objectivo de baixar o elevado índice de analfabetismo nos dois países (algo que, até hoje, ainda não funcionou em pleno, apesar de já ter chegado ao mais baixo nível que existe, com o idiota AO90).

Então o que se passou? Vou simplificar isto, porque o que se passou foi tão óbvio que se as pessoas tivessem a capacidade de PENSAR, não vinham para cá com o PH e o Fernando Pessoa ou com consoantes duplas, que não tinham função diacrítica, ou com raras “escriptas”, que se distanciaram da sua etymologia.

Fernando Pessoa escrevia o seu nome com F (EFE) (nunca grafou PHernando e tinha um motivo, e censurou a orTHograPHia [do latim orthographia, que foi buscar ao grego ορθογραφία] PHonetica [do francês phonétique, que foi buscar ao grego φωνητική] (que se lia ortograFia Fonética, tal como ele lia Fernando, por uma questão visual e não linguística); mas NÃO poderia ter criticado a orTHograPHia anti-etymologica, porque essa ficou praticamente intaCta, por um motivo muito simples: o nosso alfabeto era e é o alfabeto LATINO, mas existiam os dígrafos de origem grega: o TH (que foi substituído pelo T latino); o PH (substituído pelo F latino); o CH (com som K, substituído pelo C e QU latinos) e RH (substituído pelo R latino e RR, dependendo do contexto: Raposa, mas faRRapo); o Y (substituído pelo I latino), uma vez que todos estes dígrafos e o Y grego tinham correspondência fonológica em CARACTERES do NOSSO alfabeto latino, não fazendo mossa aos vocábulos, a não ser na parte visual. Passa-se uma vida a escrever “orthographia” à grega, e de repente passa-se a escrever “ortografia” à latina (origem da NOSSA Língua) mas o SOM continua a ser o mesmo. NÃO se mudou a PRONÚNCIA.

A Reforma de 1911 suprimiu uma das consoantes duplas: “ella” (lia-se “élâ”() e passou-se a grafar “ela” (e continuou a ler-se “élâ”), com excepção do RR e do SS centrais: aRREmeSSar, por exemplo.

Eliminaram-se algumas consoantes ditas “mudas”, SEM função diacrítica, quando NÃO interferiam com a PRONÚNCIA: ditador, do Latim “diCtator”. Poderia dizer-se e escrever-se em Português “dictator” como em Inglês? Poderia. E dever-se-ia.

E como a ACENTUAÇÃO e a HIFENIZAÇÃO têm máxima importância para uma melhor compreensão da escrita, introduziram-se acentos e hífenes. Se nesta frase «para para pensar» o VERBO (pára) estiver acentuado, a frase fica imediatamente perceptível. Até porque verbo é verbo e preposição é preposição.

E a etimologia manteve-se. Está claro que pessoas como Fernando Pessoa barafustaram, mas unicamente por uma questão visual, uma questão de estética. Teixeira de Pascoaes “chorava” porque a palavra “lagryma” havia perdido a sua estética ao escrever-se “lágrima”. Concordo. Porém, se Pascoaes fosse ao IMO da Língua Portuguesa, que era o Latim, “lágrima” deriva do LATIM “lacrima”. Poderei concordar que se mantivesse o C em vez do G, mas nem a Reforma de 1911, nem a de 1945 são perfeitas. Esta última, que está EM VIGOR em Portugal, poderia ser aperfeiçoada. Poderia pugnar-se pela pronúncia das consoantes ditas mudas, poderia regressar-se ao trema, e a determinados outros acentos, e a hífenes absolutamente essenciais, para a compreensão das palavras e para as tornarem menos HORROROSAS, porque NÃO mutilaria a Língua nem a transformaria num CAMAFEU linguístico, como foi transformada com o IDIOTA AO90.

Nenhuma Língua é absolutamente perfeita. Mas chegar a um patamar quase perfeito e depois RECUAR para o patamar mais BÁSICO (como o AO90 propõe) é da maior ESTUPIDEZ.
De Diana Coelho a 22 de Novembro de 2022 às 23:01
BRAVO!
De Isabel A. Ferreira a 23 de Novembro de 2022 às 14:50
Obrigada, Diana Coelho.

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