Quinta-feira, 14 de Junho de 2018

CONTRA O ACORDO ORTOGRÁFICO, MAS POUCO!

 

Paulo Franchetti é um ilustre crítico literário, escritor e professor brasileiro, titular no Departamento de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas, e publicou hoje, no Facebook, um texto em que aborda a questão do AO90, com algumas imprecisões.

Desculpe, Paulo Franchetti, se me atrevo a corrigi-lo. E se eu estiver errada, peço que me corrijam também.

 

(Os negritos no texto de Paulo Franchetti são da minha responsabilidade).

 

PAULO FRANCHETTI.jpg

 

Escreveu Paulo Franchetti:

 

«Quando os editores da Lisbon Poets & Co. informaram que a nova edição da poesia de Camilo Pessanha seria feita na ortografia pré-AO, celebrei. Não porque tenha alguma afeição especial pela ortografia vigente antes do Acordo Ortográfico, mas sim porque julgo esse Acordo uma coisa francamente idiota: nada se ganha em termos de uniformização da escrita (pelo contrario) e muito se gasta em renovação de material didático e obras de referência.

 

Mas mesmo que o AO tivesse conseguido, em vez de aumentar a divergência ortográfica, eliminá-la, ainda seria uma coisa pouco razoável, pois o custo da uniformização seria enorme, e a ortografia é, no final das contas, o que menos importa, (1) se se trata de unificar a língua (tarefa desde logo impossível e mesmo indesejada) ou melhorar a comunicação entre países lusófonos. (2)

 

Na verdade, como brasileiro, não deveria incomodar-me com o AO. A nós ele afeta pouco (3): extinguiu-se o pobre trema, que era o sinal mais fácil de usar e de fato podia orientar a pronúncia, criou-se enorme confusão no uso do hífen (até hoje não compreendi a lógica que deveria embasar as regras), suprimiram-se alguns acentos aqui e ali, onde de fato faziam pouca diferença. (4)

 

De resto, no Brasil, o tal AO passa despercebido, pois continuamos a escrever como sempre escrevemos: peremptório, excepcional, acepção, decepcionante, perceptível, interceptação, recepção, aspecto, facção, respectivo, perspectiva, prospecção.

 

Já em Portugal, as mudanças promovidas pelo AO foram amplas, muito além da mera confusão do hífen, da sumária extinção do trema e da supressão dos mesmos acentos abandonados no Brasil: a grafia de muitas palavras foi alterada. Por exemplo: todas as palavras acima perderam a consoante que não era pronunciada lá. De modo que eles agora são obrigados (5) a escrever perentório, excecional, aceção, aspeto, dececionante, fação, intercetação, percetível, receção, respetivo, perspetiva, prospeção!

 

Ora, a grafia anterior portuguesa era igual à brasileira (que não mudou) (6). Teoricamente, o “p” e o “c” nessas palavras não eram lá necessários, já que não eram pronunciados. Mas é evidente que, de regra, tinham funcionalidade, indicando o timbre da vogal que os precedia. (7)

 

Agora, do jeito que eles são forçados a escrever, criou-se uma situação curiosa: para nós, brasileiros, essas palavras assim grafadas parecem muito esquisitas e algumas passam a exigir algum esforço de decifração... (8)

 

Há um conto de Machado de Assis, intitulado “As Academias de Sião”, no qual o problema a resolver é como poderia ser que os acadêmicos reunidos fossem a luz do mundo e, individualmente, um bando de camelos. No caso do Acordo Ortográfico, o problema é inverso: como pôde ser que intelectuais dotados de inteligência e competência linguística, ao se reunirem para produzir esse aleijão, terminassem por compor uma galopante, autoritária e obtusa cáfila?

 

Machado provavelmente não responderia. Terminaria, como terminou um conto no qual aparecia outra questão insolúvel, dizendo apenas: Enfim, cousas...»

 

Fonte:

https://www.facebook.com/paulo.franchetti/posts/1974932875874346

 

***

 

Peço desculpa, Paulo Franchetti, mas o seu texto induz em erro.

Senão, vejamos:

 

(1) – Quando diz a ortografia é, no final das contas, o que menos importa, penso que não é bem assim. A ortografia importa em todas as circunstâncias, e no caso da aplicação do AO90, para Portugal é o que mais importa, pois estão a impor aos portugueses a grafia brasileira, mutilada na reforma ortográfica do Brasil, em 1943, para facilitar a aprendizagem e diminuir a elevada percentagem de analfabetismo.

 

(2) – Quando diz para melhorar a comunicação entre países lusófonos, devia dizer melhorar a comunicação entre brasileiros e restantes países lusófonos, uma vez que a Língua Portuguesa nunca foi entrave à comunicação entre Portugal e os restantes países africanos de expressão portuguesa, nem entre portugueses e brasileiros. Os brasileiros, e apenas os brasileiros é que criaram um dialecto próprio, e sempre mostraram grande dificuldade na comunicação com portugueses. Não o contrário.

 

(3) – Quando diz a nós ele (o AO90) afeta pouco, diz bem, porque aos brasileiros, ao contrário dos portugueses e africanos de expressão portuguesa e timorenses, o AO90 afeCta (logo aqui nesta palavra) e muito. Os brasileiros nada tiveram de modificar no modo de escrever as palavras, apenas no que respeita às idiotas hifenização e acentuação. Quanto aos restantes lusógrafos, além dessa nova e parva hifenização e acentuação, têm de desenraizar para mais de três centenas de vocábulos, afastando a grafia portuguesa das restantes grafias europeias, com a mesma raiz.

 

(4) – Quando diz suprimiram-se alguns acentos aqui e ali, onde de fato faziam pouca diferença, de faCto, Evanildo Bechara (pelo Brasil) e Malaca Casteleiro (por Portugal) decidiram mexer nos hífenes e nalguns acentos aqui e ali… para que no Brasil houvesse alguma coisa para modificar, porque se assim não fosse o AO90 seria unicamente imposto para os restantes países lusógrafos, porque a grafia preconizada é a brasileira, com algumas poucas excePções.

 

(5) – Quando diz de modo que eles (portugueses e africanos de expressão portuguesa e timorenses) agora são obrigados a escrever perentório, excepcional… etc., na verdade, só em Portugal, os subservientes, os ignorantes, os acomodados, os comodistas, os desinformados, os escravos do Poder, é que optam por escrever incorreCtamente essas palavras. Nos restantes países escrevem-nas correCtamente. Os que não são subservientes, nem ignorantes, nem acomodados, nem comodistas, nem desinformados, nem escravos do Poder não são obrigados a nada. Simplesmente recusam, peremPtoriamente, o AO90.

 

(6) – Quando diz que a grafia anterior portuguesa era igual à brasileira (que não mudou) não diz a verdade. A verdade é que a grafia portuguesa anterior ao AO90 não era igual à brasileira. Apenas era igual à brasileira nas palavras que o autor cita: peremPtório, excePcional, acePção, decepPcionante, percePtível, intercePtação, recePção, aspeCto, faCção, respeCtivo, perspeCtiva, prospeCção. Estas eram (são) iguais. Mas estas palavras são a EXCEPÇÃO.

 

De resto, todas as outras palavras, que em Portugal começaram a ser grafadas segundo o AO90, são grafadas à brasileira: direto, diretor, arquiteto, teto, fatura, elétrico, setor, letivo, noturno, seleção, objeto, jato, diretivo, fator, direção, notívago, ator, tato, adoção, protetor, ótimo, batismo, didático, afeta, deteção, Egito, ejeção, ereto, infetar, inseto, enfim... mais de três centenas de palavras mutiladas que pertencem à grafia brasileira, e é esta grafia que estão a impor aos portugueses.

 

Dizer o contrário é de quem nada sabe de ortografia brasileira e de ortografia portuguesa, antes e depois do AO90.

 

(7) – Quando diz que é evidente que, de regra, (os cês e os pês) tinham funcionalidade, indicando o timbre da vogal que os precedia, de faCto, é evidente que todas as consoantes em todas as palavras têm a sua funcionalidade, pronunciando-se ou não se pronunciando: indicam a raiz da palavra e têm uma função diacrítica.

 

(8) – Finalmente, quando diz que do jeito que eles (os portugueses) são forçados a escrever, criou-se uma situação curiosa: para nós, brasileiros, essas palavras (as exceções) assim grafadas parecem muito esquisitas e algumas passam a exigir algum esforço de decifração...

 

Aqui, Franchetti tocou no busílis da questão: se para os brasileiros as palavras incorreCtamente grafadas deste modo: perentório, excecional, aceção, aspeto, dececionante, fação, intercetação, percetível, receção, respetivo, perspetiva, prospeção parecem muito esquisitas e exigem esforço de decifração, para os portugueses estas palavras assim grafadas são tão esquisitas e exigem algum esforço de decifração tal como os vocábulos direto, diretor, arquiteto, teto, fatura, elétrico, setor, letivo, noturno, seleção, objeto, jato, diretivo, fator, direção, notívago, ator, tato, adoção, protetor, ótimo, batismo, didático, afeta, deteção, Egito, ejeção, ereto, infetar, inseto, enfim... mais de três centenas de palavras mutiladas, que pertencem à grafia brasileira, reformulada e afastada da língua europeia, em 1943.

 

Estas palavras assim grafadas não pertencem à Língua Portuguesa. Não têm qualquer significado, e nem sequer devem ser pronunciadas do modo que os brasileiros a pronunciam, e agora também os acordistas portugueses. Sem as consoantes mudas a pronúncia é completamente outra. Exemplo: direto não se lê diréto, mas dirêto, porque o que lhe falta tem uma função diacrítica, tal como em recePção que se lê recépção, mas se suprimirem o , a regra manda que se leia rec’ção. Tão simples quanto isto. E a regra aplica-se a todas as outras palavras.

E a questão que se põe é a seguinte: saberão os brasileiros que os cês e os pês nos vocábulos peremPtório, excePcional, acePção, decePcionante, percePtível, intercePtação, recePção, aspeCto, faCção, respeCtivo, perspeCtiva, prospeCção, têm exaCtamente a mesma função do que os cês e os pês em direCto, direCtor, arquiteCto, teCto, faCtura, eléCtrico, seCtor, leCtivo, noCturno, seleCção, objetCo, jaCto, direCtivo, faCtor, direCção, noCtívago, aCtor, taCto, adoPção, proCtetor, óPtimo, baPtismo, didáCtico, afeCta, deteCção, EgiPto, ejeCção, ereCto, infeCtar, inseCto, enfim... e em todas as outras palavras em que as consoantes que não se pronunciam foram suprimidas?

 

E que estas palavras, sem as consoantes que os brasileiros suprimiram, e que fazem parte do rol de palavras que querem impingir aos portugueses, além de serem muiiiiiito, muiiiiiito esquisitas, não pertencem ao léxico da Língua Portuguesa?

 

E se os brasileiros, como já se ouviu por aí, têm tanto orgulho em dizer que a Língua Portuguesa é a pátria deles, então terão de grafar estas palavras, deste modo: direCto, direCtor, arquiteCto, teCto, faCtura, eléCtrico, seCtor, leCtivo, noCturno, seleCção, objetCo, jaCto, direCtivo, faCtor, direCção, noCtívago, aCtor, taCto, adoPção, proCtetor, óPtimo, baPtismo, didáCtico, afeCta, deteCção, EgiPto, ejeCção, ereCto, infeCtar, insecto, tal como grafam estas: peremPtório, excePcional, acePção, decePcionante, percePtível, intercePtação, recePção, aspeCto, faCção, respeCtivo, perspeCtiva, prospeCção.

 

O critério de só se escrevem as consoantes que se pronunciam, não é critério, é ignorância, porque em todas estas palavras, pronunciando-se, ou não se pronunciando as consoantes, todas elas (as consoantes) têm uma funcionalidade bem definida.

 

Agora se me dizem que as palavras, que no Brasil foram mutiladas, fazem parte do Dialecto Brasileiro, tudo bem. Contudo, os Portugueses não têm de trocar uma língua europeia, por um dialecto sul-americano.

Ou têm?

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:11

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Quarta-feira, 6 de Junho de 2018

REJEIÇÃO DA PROPOSTA DO PCP PARA ABANDONAR O AO90 - «UMA DECISÃO PARA LAMENTAR»

 

Excelente reflexão, de Luiz Menezes Leitão, publicada a 27 de Fevereiro de 2018, no Jornal i, ainda actualíssima.

 

É, de facto, para lamentar a cegueira mental que prolifera ali para os lados de São Bento, a qual não permite que os nossos deputados vejam o óbvio. A subserviência ao estrangeiro é demasiado evidente.

 

E Portugal irá pagar bem caro esta insólita aventura pelo Hemisfério Sul. (Isabel A. Ferreira)

 

LUÍS MENEZES LEITÃO.jpg

Luís Menezes Leitão

 (Os excertos a negrito são da responsabilidade da autora do Blogue)

 

«UMA DECISÃO PARA LAMENTAR

 

 

O acordo ortográfico contribui para abolir as variantes cultas das palavras e as suas ligações etimológicas. A língua portuguesa torna-se mais pobre e distante das suas raízes, transformando-se num idioma de laboratório.

 

A semana passada foi marcada pela rejeição, pelo parlamento, da proposta do PCP de abandono do acordo ortográfico. Trata-se de decisão que demonstra bem a insensibilidade dos nossos deputados, uma vez que, perante o desastre que está a ser a aplicação deste acordo, o parlamento prefere ignorar o que se está a passar, assistindo pacificamente à destruição total da língua portuguesa. Porque de facto, com este acordo ortográfico, o português europeu está a transformar-se num estranho dialecto, com regras escritas incompreensíveis, que se afastam da sua etimologia e das restantes línguas latinas. Com a agravante de nem sequer haver qualquer uniformização com os outros países de língua portuguesa que ou não aplicam o acordo ou do mesmo resulta que sigam regras diferentes, graças à pronúncia que utilizam.

 

Um bom exemplo disto resulta da recente tradução do livro da escritora argentina María Gainza, que em espanhol se chama “El nervio óptico”, mas que no português acordista se transforma em “O Nervo Ótico”. O problema é que sempre se utilizou na língua portuguesa a expressão “ótico” como relativa ao ouvido, reservando-se o termo “óptico” para a visão. Tal é o significado dos respectivos antecedentes gregos “otikos” e “optikos”. O acordo ortográfico aboliu esta distinção essencial, mas apenas no português de Portugal, continuando a distinção a existir no português do Brasil. Será que isto faz algum sentido?

 

E o mesmo sucede com outras palavras como “recepção”, “concepção”, que se conservam sem alterações na ortografia brasileira, mas que na portuguesa passam a “receção” e “conceção”, facilmente confundíveis com “recessão” e “concessão”. Qual a necessidade de abolir a grafia anterior se o que se consegue é criar uma ortografia que ainda mais se diferencia da dos outros países lusófonos?

 

Isto já para não falar da multiplicação dos erros de escrita que o acordo ortográfico causou, com a absurda directriz de querer abolir as consoantes mudas, estando muita gente a abolir consoantes que continuam a pronunciar-se. É assim que já se viu aparecer erros como “fato”, “ineto”, “corruto”, que demonstram bem a falta de critério na abolição das consoantes pretensamente mudas.

 

E por último deveria salientar-se o facto de o acordo ortográfico contribuir para levar à abolição das variantes cultas das palavras e às ligações etimológicas das mesmas. Assim, a expressão culta “ruptura”, mais próxima do latim, foi transformada em “rutura”, esquecendo-se que já existia a variante popular “rotura”. Fala-se em “ótico” para a visão, mas esquece-se que a medição da mesma continua a ser a “optometria”. E os egípcios, pelos vistos, passaram agora a viver no “Egito”, esquecendo-se que a palavra Egipto tem origem no deus Ptah que, que se saiba, ainda não passou a Tah. Com o acordo ortográfico, a língua portuguesa torna-se assim mais pobre e distante das suas raízes, transformando-se num idioma de laboratório.

 

Na banda desenhada “Spirou e Fantásio”, da autoria de Franquin, aparece um vilão chamado Zorglub que pretende criar uma ditadura alterando o cérebro das pessoas, o que as faz falar e escrever numa nova língua, a zorglíngua, em que todas as palavras surgem ao contrário. Esperava-se que um parlamento democrático, como o português, nos livrasse deste triste destino. Mas afinal, graças aos restantes partidos, com excepção do PCP, vai tudo continuar como dantes. Isto não foi uma decisão parlamentar, foi uma decisão para lamentar.

 

Fonte:

https://ionline.sapo.pt/602187

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:35

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Terça-feira, 5 de Junho de 2018

ANEDOTA DO DIA: SANTOS SILVA DIZ QUE A UNIFORMIZAÇÃO DA ORTOGRAFIA PRESERVA A COERÊNCIA DA LÍNGUA

 

SANTOS SILVA.jpg

Augusto Santos Silva

Foto: Leonel de Castro/Global Imagens

 

Com certeza o senhor ministro falava da língua estufada com ervilhas, que é preciso estar uniformemente cozinhada, para manter a coerência do cozinhado.

 

Porque se está a referir-se à Língua de comunicação dos povos, peço desculpa, mas mostrou uma ignorância descomunal.

 

O senhor ministro pode até saber muito de "negócios estrangeiros" e dos “negócios da Língua”, mas de Língua Portuguesa não sabe rigorosamente nada.

 

É muito triste ler estas afirmações, eivadas de uma ignorância descomunal, proferidas por um ministro de Portugal.

 

Envergonho-me de tudo isto, e repudio este falso português.

 

Senhor ministro, regresse aos bancos da escola básica, por favor, para aprender o significado de uniformização e coerência, porque estas duas palavrinhas têm um significado completamente diferente daquele que o senhor lhes deu.

 

O que é que se passa? O senhor acha (ia escrever pensa, mas pensar não é para qualquer um) que todos os portugueses são parvos? Que pode vir a público debitar ignorâncias deste calibre, e pronto...!

 

Há que tomar providências e exigir que este ministro dos negócios DOS estrangeiros seja demitido.

 

Não serve os interesses de Portugal, dos Portugueses e da Língua Portuguesa, que pretende "uniformizada" do modo mais desuniforme e disforme que se possa imaginar.

 

O senhor faça o favor de ir impor esta ditadura linguística para um planeta deserto. Talvez lá, possa ter sucesso.

 

Mas do que falou Santos Silva, quando falou da uniformização que dá coerência à língua?

 

Esmiucemos a notícia:

 

«O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, enalteceu, esta sexta-feira, o trabalho do Instituto Internacional de Língua Portuguesa para a preservação da "coerência sistémica" da língua portuguesa, considerando, por exemplo, que essa missão é cumprida quando o instituto uniformiza a ortografia ou conceitos científicos.»

 

Primeiro: o IILP é um daqueles organismos que, tal como a CPLP ou o Instituto que já não é do Camões, mas do Malaca Casteleiro, deviam ser desactivados, porque não têm qualquer razão de existir, por não servirem a Língua Portuguesa, mas o arremedo de língua que nos querem impingir.

 

Que ortografia o IILP uniformiza? Sim, porque uniformizar significa tornar uniforme (igual), submeter a um modelo único a língua, e o que temos é uma ortografia mixordizada, com 16 normas que instituem facultatividades, e com o Brasil a escrever uma série de palavras de um modo, e Portugal, de outro, o que não uniformizam nem dão coerência a coisa nenhuma.

 

E a notícia prossegue:

 

«Depois do presidente da República de Cabo Verde ter defendido o português como a maior herança do colonizador e do ministro da Comunicação Social angolano ter afirmado que Angola livre fez mais pela promoção da língua do que as autoridades coloniais em 500 anos de presença no território, Augusto Santos Silva deixou a convicção de que "a língua portuguesa não é a língua dos colonos", mas dos "libertadores", dando o exemplo da "resistência timorense".

 

Segundo: isto é tão verdade, que Cabo Verde adoptou o Crioulo Cabo-verdiano como primeira língua, e o Português como língua estrangeira. Os nossos irmãos africanos de expressão portuguesa, até podem considerar que a Língua Portuguesa foi a maior herança, (porque o resto foi tão pobrezinho...) mas o certo é que os autóctones falam os dialectos e os crioulos deles, muito legitimamente.

 

E que Angola livre fez mais pela promoção da língua do que as autoridades coloniais em 500 anos de presença no território é absolutamente verdade, tanto que continuam a preservar a Língua na sua forma culta e europeia, não tendo aderido à grafia brasileira. Porque haveriam de aderir?

 

E que a Língua Portuguesa não é a língua dos colonos, mas dos libertadores também pode ser verdade, se bem que os libertadores só libertaram as ex-colónias à custa de muitas mortes.

 

Prosseguindo:

 

«No encerramento da grande conferência do 130º aniversário do Jornal de Notícias, o governante sublinhou que não está entre os lusos que olham para o português como a língua de Camões. "O português é uma realidade dinâmica e está em crescimento. Eu não pertenço ao grupo daqueles que dizem que a língua portuguesa é a língua de Camões. Eu prefiro dizer que a língua portuguesa é a língua de Mia Couto, de Pepetela, de Germano Almeida, de Clarice Lispector

 

Quarto: esta afirmação é muito interessante. O senhor ministro não está naquele grupo dos lusos que olham para o Português como a língua de Camões, até aí já tínhamos compreendido. Como poderia, se nada sabe de Camões e da Língua? Que o Português é uma realidade dinâmica e que está em crescimento, é verdade. Cada ex-colónia juntou ao Português, herdado dos libertadores, palavras oriundas da Cultura nativa, dos seus dialectos, dos seus crioulos, enriquecendo a Língua, criando uma diversidade riquíssima que o AO90 quer destruir a todo o custo.

 

ORTOGRAFIA.png

 

E o senhor ministro diz esta coisa espantosa: «Eu prefiro dizer que a língua portuguesa é a língua de Mia Couto, de Pepetela, de Germano Almeida, de Clarice Lispector.». Repare-se que aqui já não estão incluídos Eça de Queiroz, Camões, Fernando Pessoa ou Saramago. Apenas os muito ilustres escritores Mia Couto (Moçambique, sem AO90); Pepetela (Angola, sem AO90); Germano Almeida (Cabo Verde, com AO90) e Clarice Linspector (Brasil, com a grafia brasileira, agora imposta a Portugal). Pois é! Todos estes escritores representam os seus países e têm uma linguagem portuguesa africanizada e abrasileirada. Excluídos estão os autores portugueses, cujos livros estão a ser retirados das Bibliotecas e livrarias, e a ser substituídos pela mixórdia criada pelo AO90. E a isto chama-se colonização linguística.

 

E a notícia prossegue:

 

«Assinalando que já há mais de 200 mil estudantes a aprender o português no estrangeiro e que as previsões apontam para um aumento de 260 para 500 milhões de pessoas a falar a nossa língua no final deste século, Santos Silva entende que a melhor forma de cultivar essa expansão é fazendo circular informação e conhecimento na nossa língua. A parceria entre a Global Media Group com órgãos de comunicação social de nações que falam o português merece o aplauso do ministro, na certeza de que a "língua é mesmo o principal recurso para a influência económica" de Portugal

 

Quinto: o que o governo português e o ministro do negócio da Língua andam por aí a fazer é a propagandear o AO90, que não é Língua Portuguesa, mas sim o Dialecto Brasileiro, que querem impor ao mundo. Andam por aí a vender gato por lebre, quais vendedores de banha da cobra, numa subserviência rastejante aos interesses brasileiros. E acham que isto trará vantagens à economia… Mas esquecem-se de dizer a que “economia”.

 

E a finalizar diz ao que vem:

 

"A força portuguesa é a língua e as comunidades que a falam. A nossa força é a força das palavras. Não tem a ver com canhões, mas com armas da cultura, do pensamento e da comunicação. Com a nossa língua, podemos comunicar entre diferentes regiões e interesses", argumenta, lembrando a descontinuidade regional dos territórios que falam português, o que valoriza a influência da língua em diferentes geografias, sobretudo no hemisfério Sul.»


Pois... o Hemisfério Sul... o busílis de toda esta questão...

 

O ministro Santos Silva limita-se a ser porta-voz do Itamaraty. Ficou claríssimo que Santos Silva está ao serviço do Brasil e não de Portugal, e que a Língua Portuguesa corre grave perigo de se desintegrar, de se extinguir. Ficou claríssimo que Santos Silva está-se nas tintas para o nosso país, para a nossa Língua, para a nossa Cultura, para a nossa Identidade, renegando até o Hino Nacional, ao dizer que a força de Portugal está nas palavras (mal escritas e mal pronunciadas obviamente) e não nos canhões (desconhecendo, por completo, o simbolismo destes canhões), e falando nas armas da cultura, do pensamento e da comunicação, sem ter a mínima noção do que isto é.

 

O que pretende Santos Silva é acabar com a Cultura Portuguesa, através da colonização da Língua.

 

Pois antes que Santos Silva acabe com a Cultura Portuguesa, vamos nós acabar com o vendilhão da Pátria, exigindo a sua saída da governação, por não servir os interesses de Portugal.

 

Isabel A. Ferreira

 

 Fonte da notícia:

https://www.jn.pt/nacional/interior/santos-silva-diz-que-a-uniformizacao-da-ortografia-preserva-a-coerencia-da-lingua-9401383.html

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:15

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Sexta-feira, 1 de Junho de 2018

«AS BIBLIOTECAS JÁ ESTÃO A ARDER?» PERGUNTA NUNO PACHECO

 

A resposta é sim.

Tinha preparado um texto precisamente sobre esta questão levantada pelo Nuno Pacheco, no Jornal Público, sobre o que Rafael Borges Rodrigues, escritor brasileiro, escreveu acerca da “tragédia desencadeada pelo AO90, no Brasil”.

Uma tragédia que também está a ser a nossa tragédia, até porque o governo português está a fazer chantagem, usando as nossas crianças como cobaias, e pior do que isso, como cobaias mais idiotas do que as de todas as gerações anteriores, para impor ditatorialmente um acordo desacordado, rejeitado por milhares de escreventes e falantes da Língua Portuguesa, no mundo dito lusófono, enquanto que outros tantos milhares não querem saber disto para nada, ou sequer sabem que isto existe.

Porém, entretanto, outro Rafael apareceu-me no caminho, e adiei a tragédia, para dar lugar à esperança, precisamente nessa juventude, que querem fazer passar por parva.

 

MENINA.jpg

Cena do filme «A Menina que Roubava Livros» - Os nazis queimaram os livros, mas Liesel atreveu-se a retirar da fogueira um livro que não tinha ardido… As nossas crianças terão também de roubar livros das “fogueiras” políticas para que a Literatura não morra?

 

Tratou-se da moção apresentada por Rafael Dias, presidente da Juventude Popular e aprovada por larga maioria, a qual rejeita categoricamente o AO90, com uma argumentação bastante elaborada, e que pode ser consultada neste link:

https://olugardalinguaportuguesa.blogs.sapo.pt/lingua-portuguesa-diversidade-sim-127304

 

***

Como não consegui acabar o meu texto, darei lugar à prosa, sempre escorreita e límpida, de Nuno Pacheco, e que diz, melhor do que eu, o que eu pretendia dizer, o qual encabeça o seu texto afirmando o seguinte:

 

«Pretender que as novas gerações só leiam obras submetidas à chamada “nova ortografia” é uma enormidade inqualificável

 

Eu acrescento, Nuno, que realmente além de uma enormidade inqualificável, essa pretensão é altamente lesiva à inteligência das novas gerações, e um monumental insulto a todo o povo Português, que os governantes querem fazer passar por parvo.

 

NUNO PACHECO.jpg

Nuno Pacheco

 

Eis o que Nuno Pacheco escreveu:

 

«Agora que Fahrenheit 451 está de volta às telas (cinema e televisão), numa nova adaptação da obra distópica de Ray Bradbury pelo norte-americano Ramin Bahrani (mais de meio século depois da de Truffaut), uma nota de Facebook escrita recentemente a partir do Brasil soa-nos como sinistro alerta. Assinada por Rafael Borges Rodrigues, escritor e, acrescenta ele, residente “em uma das primeiras cidades do Estado do Rio Grande do Sul no Brasil, colonização portuguesa, história riquíssima”, fala de um acontecimento insólito. Ouçamo-lo: “Este acordo ortográfico desencadeou uma tragédia aqui no Brasil. As bibliotecas estão a descartar todo o material que não se encontra nas novas normas, o que representa, na minha opinião, uma incrível prova de ignorância; pois a maior parte do material didático, enciclopédias e tratados de história, clássicos da literatura mundial se encontra na grafia padrão anterior ao ‘desacordo’. O que eu consigo juntar do lixo levo para minha casa, pois como escritor preciso de material para trabalhar!” E, mais adiante, opina: “Na década de noventa, houve uma corrente bastante forte de ‘intelectuais’ brasileiros que pregavam o relaxamento nas aulas de português do país em relação ao conteúdo gramatical da língua, diziam que a língua escrita deveria ser ‘adaptada’ à língua falada. A partir de então, a língua portuguesa passou a perder o padrão diante o regionalismo da linguagem oral o que representa outra demonstração de grande ignorância, pois devemos nos basear no latim e no grego para estruturar a língua e não em dialetos semianalfabetos. Então, a língua portuguesa original começou a se perder e se transformou no que eu chamo de ‘samba do crioulo doido’. Todos sabem que a linguagem escrita, padrão, sempre foi diferente da linguagem oral! Tenho personagens populares nos meus livros dentro do regionalismo como peões, índios e outros, mas entre os seus diálogos não possuem erros de português! Procuro sempre me expressar no português universal. Devemos sempre buscar a língua padrão e insisto em permanecer no português escrito antes da década de noventa... Também existe o interesse econômico das editoras por trás deste ‘golpe linguístico’, querem que gastemos mais dinheiro em dicionários e obras reeditadas!”

 

A nota tem a data de 21 de Maio deste ano e, se não foge à verdade, o que nela se relata constitui uma prova de incomensurável estupidez. Pior: é um crime de lesa-cultura. Já não é preciso, como na obra distópica de Bradbury, queimar livros; basta deitá-los fora. Mas esse gesto inspira-se em motivação idêntica: a rejeição de uma coisa pretensamente “antiga” a substituir por uma “nova”. Só que um livro não é um telemóvel avariado ou um carro prestes a ir para a sucata, é algo que traz consigo a marca de um tempo e uma cultura. Pretender que as novas gerações só leiam obras submetidas à chamada “nova ortografia” é uma enormidade inqualificável. Teríamos de interditar aos estudantes grande parte das bibliotecas, deixando nelas acessíveis apenas umas magras estantes; teríamos de fechar à chave as bibliotecas privadas de pais, tios, amigos, para evitar às pobres crianças algum perigo de “contágio” com outras grafias; teríamos aqui, caso extremo, de afastar dos planos de leitura várias obras porque nelas se contêm termos em desuso, poupando assim as pobres crianças à escrita elaborada de Camões, Gil Vicente, Bernardim Ribeiro ou Camilo Pessanha, entre tantos outros. E no Brasil? O que fazer, por exemplo, às edições de escritores e poetas (basta ir aos anos 1920 ou 1930) que ainda grafavam “êlle”, “emmagrecer”, “hontem”, “desllocar”, “anonymo”, “janella”, “adherente”? Lixo, tudo? Querem convencer-nos de que uma criança já iniciada na leitura do idioma não é capaz de, numa biblioteca, descodificar livros com diferentes grafias? E que não o fará, até, com o prazer da descoberta e do mistério de mundos para si desconhecidos? Não, a culpa não é das crianças. É de alguns adultos que as não merecem, nem merecem a cultura da qual enchem a boca, mas esvaziam o sentido. A esta pulsão não é alheio Portugal, já que reedições de escritores notáveis (como Maria Judite de Carvalho) estão a ser filtradas pelo “novo acordo” a pretexto de que as crianças já só aprendem assim. O que ignoram, porque insistem em ignorar, é que as crianças estão a ser sujeitas, à força, a um labirinto desregrado que só as conduz a cada vez maiores erros na escrita e no entendimento das palavras. Um sistema CONTRA a ortografia, e não por ela.»

 

Link para o Artigo de Nuno Pacheco:

http://www.publico.pt/2018/05/31/culturaipsilon/opiniao/as-bibliotecas-ja-estao-a-arder-1832280

 

***

Em abono da verdade, Nuno Pacheco, as novas gerações estão condenadas à incultura, sem Língua, sem Saber, sem as Escritas do passado.

 

A obra acordizada da escritora Maria Judite de Carvalho, é um insulto à Arte de Bem Escrever e à memória desta ilustre escritora portuguesa.

 

E dizer que «as crianças agora só aprendem assim», nesse mixordês em que se tornou a língua escrita, é passar um atestado de incapacidade intelectual a quem tem todas as capacidades bastante activas, para aprender o correCto mais depressa do que o incorreCto, porque existe uma coisa chamada fixação visual da linguagem, ou seja, um sentido apuradíssimo, mais nas crianças do que nos adultos, que lhes permitirão, num ápice, saber que, por exemplo, no vocábulo “diretor”, assim (mal) grafado, falta o cê, que lhe dará um sentido.

 

Caro Nuno Pacheco, não vamos permitir que os dias futuros das nossas crianças sejam tão opacos como os de hoje, e que elas sejam usadas como cobaias numa experiência ortográfica tão caótica quanto irracional.

 

Isabel A. Ferreira

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:01

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Quarta-feira, 23 de Maio de 2018

A GÉNESE DO ACORDO ORTOGRÁFICO DE 1990

 

Um olhar despido de preconceito, apresentado em três partes, baseado apenas em factos históricos reais, actos e fontes fidedignas, sobre o que está por trás da imposição a Portugal da grafia brasileira, à qual fraudulentamente chamam Acordo Ortográfico de 1990.

 

SÉRGIO VAZ.png

 Imagem: Tradutores Contra o Acordo Ortográfico

 

 

A GÉNESE DO ACORDO ORTOGRÁFICO DE 1990 (I)

https://olugardalinguaportuguesa.blogs.sapo.pt/a-genese-do-acordo-ortografico-de-1990-52848

 

A GÉNESE DO ACORDO ORTOGRÁFICO DE 1990 (II)

https://olugardalinguaportuguesa.blogs.sapo.pt/a-genese-do-acordo-ortografico-de-1990-53853

 

A GÉNESE DO ACORDO ORTOGRÁFICO DE 1990 (III)

https://olugardalinguaportuguesa.blogs.sapo.pt/genese-do-acordo-ortografico-de-1990-55885

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:09

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Quinta-feira, 17 de Maio de 2018

A NEGLIGÊNCIA NA LÍNGUA E NA ESCRITA É PRINCÍPIO DA DECADÊNCIA DE UM PAÍS

 

«Se tivermos presentes os inúmeros exemplos da aberração, mais do que documentada, do Acordo Ortográfico, estas rápidas considerações que fiz deviam bastar para se ter consciência da monstruosidade que foi fabricada, decidida e tão célere e surdamente imposta.»

 

Excelente texto para ler e reflectir.

 

DECADÊNCIA.jpg

(Origem da imagem: Internet)

 

Texto de Guilherme Valente

 

A escrita não é uma arbitrariedade. Tem uma lógica, uma história, uma função, valor e importância inestimáveis.

 

"Patriotismo é o amor pela nossa Terra. Nacionalismo é o ódio à Terra dos outros” Romain Gary

 

"É sempre um défice de pátria que atiça o nacionalismo, nunca um excesso" Pascal Bruckner

 

  1. A escrita não é “uma mera representação do idioma” (1). Nem é uma arbitrariedade. Tem uma lógica, uma história, uma função, valor e importância inestimáveis.

 

A gramática, a sua nomenclatura e terminologia também não podem ser o tricot com que os nossos linguistas alteraram recorrentemente os programas de Português. Talvez para fazerem passar por avanços de ciência o que na realidade não o é.

 

Mas a gramática e a sua nomenclatura têm também uma lógica e uma história.

 

Do mesmo modo que os Jerónimos ou a Batalha também não são a construção de lego com que uma criança possa brincar, ou mamarrachos que se possam alterar ou destruir à vontade. Nem a obra Os Maias pode ser trocada por uma versão facilitista, idiota dela. De facilitismo em facilitismo, de simplificação em simplificação, é inteligência que se atrofia e que matam.

 

A língua, organismo vivo, enriquecível pela interacção inevitável das culturas, não deixa de ser por isso a herança matricial que é, que tem de ser cuidada, ensinada e amada - escola é, sempre, a palavra-chave.

 

Por isso, a escrita, que reflecte essa natureza da língua, pode e deve ser actualizada. Mas no seu tempo e com critério, tocando-se nela com precisão cirúrgica, sem ferir a sua lógica, sem quebrar o fio agregador da sua origem e da sua história. Porque tal como todos os outros elementos que referi, tal como a História, é constitutiva e constituinte duma identidade humana, que é, na sua universalidade, singular. Porque tudo o que somos, pensamos ou fazemos é resultado duma cultura, isto é, "duma compreensão do mundo historicamente adquirida". Que devemos assumir e de nos devemos orgulhar.

 

  1. Se tivermos presentes os inúmeros exemplos da aberração, mais do que documentada, do Acordo Ortográfico, estas rápidas considerações que fiz deviam bastar para se ter consciência da monstruosidade que foi fabricada, decidida e tão célere e surdamente imposta.

 

Tão célere e surdamente que se impõe a pergunta metódica que deve ser colocada quando, entre nós, algo é decidido e imposto tão célere e surdamente: que interesses beneficiou este AO?

 

Devo declarar que muito boa gente lutou por este AO por muito boas razões, sobretudo de política cultural e mesmo económica, designadamente as relações, de vária natureza, com o Brasil, e a valorização da língua portuguesa na comunidade internacional. Na minha opinião, contudo, que os factos confirmam, não era correcta a avaliação que fizeram. E essas bem-intencionadas razões não deviam ter ignorado o desiderato que acima formulei.

 

  1. Na verdade, depois de tudo o que recorrentemente foi sendo imposto na Educação, este AO era, e continua a ser na escola, a bomba atómica que faltava. Que ainda faltava, depois da mediocrização dos programas de Português, da liquidação da História e dos seus protagonistas, da ignorância das datas, do desaparecimento da Geografia, da estigmatização da literatura, da desvalorização do conhecimento substantivo e da cultura (colocaram a palavra entre aspas e estigmatizaram-na chamando-lhe "erudita"), depois da dissolução ou relativização de tudo o que nos torna Portugueses e, sem contradição, cidadãos do mundo.

 

Cidadãos do mundo, porque amar a nossa Terra não é incompatível, bem pelo contrário, com o sonho empolgante de podermos contribuir, com a oferta do que conseguirmos ser, da nossa diferença, para o progresso de todas as nações.

 

Argumentou Henrique Monteiro, no Expresso, que muitos milhares de miúdos já aprenderam as novas regras. Diz isso porque não tem reparado como escrevem hoje os alunos e... muitos professores. E está a esquecer os milhões de portugueses que não as aprenderam e nunca aprenderão. E se muitos miúdos as aprenderam, estão na idade perfeita para aprenderem o que deve ser ensinado.

 

Um dos danos mais profundos e irreversíveis deste AO, tal como acontecera com as sucessivas alterações absolutamente gratuitas na nomenclatura e na terminologia da gramática, foi separar os pais dos filhos, foi impedir que os apoiassem no estudo do Português. Como me aconteceu a mim há trinta e tal anos.

 

  1. Não há Nação sem língua, sem escrita, sem escola. Sem memória, sem História, sem afectos. Que só o conhecimento pode gerar. Sem herança imaterial e material, que se ensine e se aprenda a reconhecer, a compreender, a valorizar criticamente, a continuar. A amar.

 

Não se “nasce” português, ou francês, ou chinês, qualquer um de nós, ser biológico, poderia ter nascido num lugar qualquer. E seria desse lugar. É-se verdadeiramente português, mais português, por se querer ser Português. Wenceslau de Moraes, por exemplo, escolheu ser japonês, e foi tão japonês, mais japonês, seguramente, do que muitos japoneses. Portugueses de Macau, como eu os conheci, mesmo sem nunca terem vindo a Portugal, são mais portugueses do que inúmeros cidadãos portugueses que aqui nasceram, cujos antepassados viveram desde sempre em Portugal.

 

Apagamento da História que foi fazendo com que as gerações que começam hoje a chegar aos 50 anos vivam, na generalidade, sem dimensão do passado, por isso sem sentimento do futuro. Num eterno presente em que só o egoísmo pode dominar.

 

  1. Atente-se na língua e na escrita que cada vez mais frequentemente se ouve e se lê, em que tantas vezes se diz e se escreve exactamente o contrário do que se queria transmitir, na comunicação social ou nas universidades.

 

"A minha pátria é a língua portuguesa", escreveu Pessoa. Neste sentido parece estarmos a tornar-nos rapidamente apátridas.

 

A negligência e a arbitrariedade com que se trata a língua e a escrita são o primeiro sinal da decadência de uma cultura e de uma nação.

 

Mas tudo depende da inteligência e da vontade dos homens. Por isso estou certo que Portugal será esse País por tantos de tantas gerações sonhado. Por isso combati persistentemente contra as ideias e os actos que livre e convictamente considerei adiarem esse desígnio, bem ao alcance dos Portugueses, não tenho dúvidas. Para que também nós, Portugueses, participemos de novo no destino de conhecimento e solidariedade que tem de ser o destino do Homem.

 

(1) Henrique Monteiro, Expresso, 7/5/16.

P.S.: Gosto muito de me ver representado pelo actual PR. O que não impede, naturalmente, que não subscreva a sua decisão de só intervir na questão do AO se este não obtiver a aprovação dos países que o não aprovaram.

 

Editor da Gradiva

Fonte:

https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/a-negligencia-na-lingua-e-na-escrita-sao-principio-da-decadencia-dum-pais-1731784?page=-1

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:49

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Terça-feira, 15 de Maio de 2018

AO REDOR DA PALAVRA “PARABENIZAR"…

 

… que, no meu computador, dotado de um corrector de Língua Portuguesa desacordizada, dá erro, bem como também dá erro o termo “desacordizada”. Ambos não existem no léxico da Língua Portuguesa (e quando me refiro à Língua Portuguesa quero dizer Língua Portuguesa), contudo, um, é ilegítimo, porque não pertence a Portugal. O outro, é legítimo porque deriva do “acordo ortográfico” que querem impingir a Portugal.

 

PARABENIZA.png

 

No site sinónimos.com.br, lemos:

Sinônimo de parabenizar

10 sinônimos de parabenizar para 1 sentido da palavra parabenizar:

Dar os parabéns:

congratular, felicitar, cumprimentar, saudar, elogiar, gratular, festejar, celebrar, brindar, beber.

 

Os 10 sinónimos aqui referidos constam da Língua Portuguesa, e faltou parabentear, e entre parabentear e parabenizar, que venha o diabo e escolha.

 

Ora se temos tantos modos, na nossa Língua para dar os parabéns a alguém, que necessidade há de importar este estrangeirismo?

 

A propósito disto alguém me disse para não me irritar.

 

Eu não me irrito, eu sinto-me mal. Em geral, não gosto de estrangeirismos, provenham eles de onde provierem, quando temos palavras NOSSAS, e muito mais elegantes e felizes, para dizer o mesmo. Quando não temos, lá terá de ser. Neste caso, além de possuirmos 10 sinónimos, não gosto da palavra. Como não gosto, por exemplo, de "avalancha", do francês avalanche, muito mais elegante, e que prefiro e uso.

 

Portanto, comigo, isto nada tem a ver com ser ou não ser estrangeirismos do Brasil. Até porque aprendi a ler e a escrever e estudei no Brasil, e ainda uso, no meu dia a dia, muitas palavras brasileiras, apenas oralmente. Na escrita evito-as, porque a escrita é ESCRITA. Exemplos: toró (tóró)por tempestade; mamãe e papai, por mãe e pai; do tamanho de um bonde, por grande; cumbuca, por vasilha; cafuné, por afago; poxa (pôxa), por arre; meleca (mêlécâ), por porcaria; enfim, estaria aqui o resto do dia...

 

Nós, em Português, temos uma palavra bem mais elegante e feliz para desejar os parabéns a alguém, que é FELICITAR. Por que haveremos de importar o PARABENIZAR, que considero uma palavra espessa? E isto também não é uma questão de gosto. É uma questão de não haver necessidade de importar palavras estrangeiradas, quando as temos nossas. Apenas isso.

 

Antes de 2012, na legenda que vemos na imagem, leríamos «Rui Vitória não felicita FC Porto».

 

Em 2018, a que propósito se parabeniza, se temos: dar os parabéns, congratular, felicitar, cumprimentar, saudar…? Porquê este parabenizar, que é um vocábulo exclusivo do léxico brasileiro? Isto não faz parte do “acordo”, faz?

 

Dizem-me que implico demasiado com o Brasil, e nada está mais longe da verdade. É preciso lembrar que a minha Cultura assenta na Cultura Portuguesa, mas também na Cultura Brasileira, que considero riquíssima, mas está mal divulgada e aproveitada, especialmente nas escolas brasileiras, e na Cultura Inglesa, que aprofundei numa escola inglesa.

 

Dizem-me que duvidam que a Língua Portuguesa seja mais maltratada pelos Brasileiros do que pelos Portugueses, e que o inglês americano está distante do original, principalmente em termos de léxico e pronúncia, mas também de ortografia, e os Ingleses não se melindram com isso…

 

Contudo, a distância do inglês americano para a Língua Inglesa é de 1 para 10. A distância do brasileiro para o Português é de 1 para 100, ou talvez de 1 para 1.000. Além disso, a Língua Inglesa não está na berlinda, em parte alguma, como está a Língua Portuguesa em Portugal, no Brasil e em todos os outros países de expressão lusófona. Se estivesse, garanto que, conhecendo, como conheço, os Ingleses, eles reagiriam, como todos os Portugueses lúcidos reagem. É que não é fácil ver a nossa Língua Materna a despedaçar-se.

 

Quanto à dúvida no maltrato da Língua, os Portugueses actualmente maltratam a Língua muito mais do que há uns poucos anos. Mas os Brasileiros (os Brasileiros comuns, os Cultos estão fora desta apreciação) se chamam Português ao que falam e escrevem... cuidado!

 

Considero o Brasil um país irmão de Portugal. Mas não um irmão gémeo, até porque ambos ficariam a perder, se fossem gémeos. A Cultura de um completa a Cultura do outro. E é por esse completamento que me bato.

 

O Brasil já está tão distante do Português que, primeiro: já nem sequer o estudam com essa designação; e segundo: não tenho qualquer dúvida de que se tornará uma língua autónoma com qualquer outra designação, excePto Língua Portuguesa, porque essa, já não é portuguesa.

 

E não se passou isto com o Latim, com o Português, com todas as outras línguas? Todas as línguas começaram por ser dialectos de outras línguas, e foram-se distanciando até se tornarem autónomas. O mesmo acontecerá com o que eu, em concordância com Manuel dos Santos Alves, autor do Prontuário da Língua Portuguesa, da Universitária Editora, chamo dialecto brasileiro, candidato a Língua Brasileira, sem qualquer dúvida.

 

Por isso, esta coisa de "países lusófonos " é uma grande falácia. No Brasil usa-se o dialecto brasileiro, nos restantes países de expressão portuguesa, apenas uma minoria mais instruída usa o Português não mutilado. De resto, o povo usa os dialectos nativos, que são às dezenas. E não é assim que deve ser? Afinal são países independentes, onde já existia um povo com uma cultura própria.

 

O que se passa em Portugal, no que respeita à importação de estrangeirismos, brasileiros ou não, provém daquela mentalidade terceiro-mundista, que faz adoPtar o que é estrangeiro, porque isso é que é bonito.

 

A isto chama-se PAROLICE.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:29

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Sábado, 12 de Maio de 2018

O MIXORDÊS DO SENHOR PROFESSOR UNIVERSITÁRIO

 

«Quando um docente do ensino superior e ex-governante com responsabilidades escreve assim (embora sem obrigatoriedade de o fazer), é porque algo não está bem no instrumento aplicado nem na filosofia que lhe serviu de base. Continua, portanto, a confirmar-se que o Acordo Ortográfico é transversalmente um factor de perturbação da escrita e indutor de analfabetismo.»

(Tradutores Contra o Acordo Ortográfico).

 

MIXORDÊS3.png

 

Imagens daqui: https://bit.ly/2G01svt

Fonte:

https://www.facebook.com/TradutoresContraAO90/photos/a.645077242260614.1073741827.199515723483437/1557477114353951/?type=3&theater

 

***

Isto já nem é coisa de um país terceiro-mundista! É sim, de um país quinto-mundista, onde o ensino da Língua não existe. 

 

Isto é absolutamente intolerável. Inimaginável, num país Culto.

 

Votam a favor do acordo ortográfico. Aplicam-no, convencidos de que estão a escrever o supra-sumo de uma Língua, e eis este vergonhoso resultado.

 

E é assim na escrita, e é assim também no falar.

 

Quando um professor universitário e ex-governante adopta a mixórdia ortográfica, o que farão os outros, os que têm menos habilitações literárias, como os legendadores e tradutores televisivos, as crianças, os jovens, que nas escolas aprendem este mixordês, quando têm direito ao ensino qualificado da Língua Materna – a Língua Portuguesa, na sua grafia culta e europeia!

 

Mas há ainda mais. Há o mixordês também nos canais televisivos.

 

E o pior é que o governo português e o presidente da República acham piada a isto, e calam-se. E não tomam a iniciativa de pôr ordem na casa.

 

 

MIXORDÊS.jpg

Fonte da imagem: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=195953047868881&set=gm.1857525544292810&type=3&theater&ifg=1

MIXORDÊS1.jpg

 Fonte da imagem: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=10156393674308556&set=gm.2048019628555840&type=3&theater&ifg=1#

 

 Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:03

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Sexta-feira, 11 de Maio de 2018

UMA DECLARAÇÃO DE VOTO QUE ARRASA O AO90

 

Porque (ainda) é pertinente, porque está actualíssimo, porque diz verdades indesmentíveis, porque só pelo que aqui é dito já deveríamos estar livres do monstro ortográfico que está a destruir a Língua Portuguesa, transcrevo o que Pedro Quartin Graça publicou acerca da declaração de voto que José Mendes Bota fez a 28 de Fevereiro de 2014, no Plenário da Assembleia da República.

 

Envergonhem-se senhores governantes, presidente da República incluído, que apesar de saberem que José Mendes Bota olhou para o AO90 com a lucidez dos sábios, passados quatro anos, ainda teimam em manter-se em silêncio, arrastando na lama o símbolo maior de uma nação – a Língua Materna.

 

DECLARAÇÃO DE VOTO.jpg

 

«DECLARAÇÃO DE VOTO

Quem dá a cara merece ser elogiado

por Pedro Quartin Graça, em 28.02.14

 

Podia estar acomodado, calado e insensível. Prestígio internacional não lhe falta. Tampouco experiência em grandes combates. Hoje deu corajosamente a cara por mais um. Aquele que marcou, de forma triste, a sua vida parlamentar de mais de 24 anos, sempre eleito e reeleito pela população portuguesa, e pelo Algarve em particular. Na hora em que muitos, de forma cobarde, se esconderam debaixo da tradicional disciplina do voto, José Mendes Bota soube interpretar o sentir de um Povo que rejeita uma escolha política que não sufragou e com que não concorda e tudo fez para que a mesma não tivesse lugar. Merece o nosso aplauso pela luta sem fim que protagonizou juntamente com todos quantos se erguem de forma firme contra o Acordo. Um abraço José. E obrigado.

 

Declaração de voto do Deputado Mendes Bota a propósito da votação dos Projectos de Resolução nºs 890/XII/3ª (Ribeiro e Castro e outros) que “recomenda ao Governo a criação urgente de um Grupo de Trabalho sobre a Aplicação do Acordo Ortográfico”),965/XII/3ª (PCP) que “recomenda a criação do Instituto Português da Língua, a renegociação das bases e termos do Acordo Ortográfico ou a desvinculação de Portugal desse Acordo) e 966/XII/3ª (BE) que “recomenda a revisão do Acordo Ortográfico”

 

Plenário da Assembleia da República, 28 de Fevereiro de 2014 « Tenho 24 anos de actividade parlamentar – e hoje, é provavelmente o dia mais triste desse percurso, em que senti à evidência a impotência do deputado individualmente considerado.

 

Esta foi uma oportunidade perdida para colocar um travão, uma suspensão para pensar, num processo que está a conduzir à destruição da Língua Portuguesa, e a semear o caos ortográfico junto do povo português. Este é um processo eivado de inconstitucionalidades orgânicas e formais.

 

Houve um pressuposto que não se verificou: ao contrário do que se julgava, este acordo não unifica ortograficamente a Língua Portuguesa, antes pelo contrário. A questão das consoantes mudas, a questão dos hífenes, o critério, o critério das facultatividades o critério da pronúncia, e a forma como funcionam os instrumentos do VOP e do LINCE, destroem pela base o pressuposto inicial. Desunifica-se em vez de unir. Politicamente, Portugal corre o risco absurdo de chegar ao início de 2016 e ser o único país a aplicar obrigatoriamente uma ortografia que nem sequer era sua.(*)

 

Este é um acordo feito à margem dos povos a que se destina, que não foi pedido, nem é desejado, seja em Dili, em Luanda, em Lisboa ou em S. Paulo

Nem é necessário. A Língua Inglesa tem 20 variantes, e nunca precisou de um tratado. Tampouco o Francês, que tem 15 variantes. Como disse Adriano Moreira: «A Língua não obedece aos tratados. Não se dão ordens à Língua.

Fiz tudo o que estava ao meu alcance para que o meu Grupo Parlamentar tivesse uma posição diferente, propus um projecto de resolução claramente no sentido da suspensão da aplicação do Acordo Ortográfico, mas a decisão foi outra – tenho que respeitar esta decisão, mas esse respeito não me obriga ao silêncio, estou num partido democrático.

Seguiu-se em Portugal a estratégia do facto consumado – perdão! Eu disse “facto”? Errado! É a estratégia do “fato” consumado, pois tenho um “LINCE” às costas, qual patrulheiro das palavras, que não me deixa falar em bom Português.

 

A solução hoje aqui aprovada é o mínimo dos mínimos dos mínimos, é uma solução fraca, não vinculativa, e que nada fará para inverter o rumo traçado por este estranho consenso político rendido às conveniências económicas, diplomáticas e operacionais.

 

Um deputado do Partido Socialista fez há dias circular um email acusando-me dc estar equivocado. Sou um ser humano, e admito que também erro, e também me equivoco.

 

Mas, quando olho à minha volta e vejo tantas personalidades da vida literária, cultural, política, com as quais partilho a mesma opinião, de rejeição da aplicação deste Acordo Ortográfico: Lobo Antunes e Agustina; António Barreto, Paulo Rangel e Francisco Assis; Manuel Alegre e Barbosa de Melo; Adriano Moreira e Freitas do Amaral; Maria Teresa Horta e José Manuel Mendes; Miguel Sousa Tavares e Vasco Graça Moura; Pacheco Pereira e Nuno Melo. E imensos linguistas como: António Emiliano ou Maria Regina Rocha; e os imensos milhares de subscritores da petição que hoje veio à tona do debate parlamentar, não creio estar equivocado na rejeição deste acordo ortográfico. Mas, se estiver, estou muito bem acompanhado.»

 

(*)  Actualmente, Portugal é o único país que aplica o AO90. Os restantes países, ditos da lusofonia, incluindo o Brasil (que nunca cumpriu as convenções ortográficas assinadas com Portugal), estão-se nas tintas para este acordo.

 

Fonte:

http://estadosentido.blogs.sapo.pt/3238687.html

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 11:06

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Quinta-feira, 10 de Maio de 2018

PALAVRAS E CONSIDERAÇÕES AO REDOR DO AO90 – O MEU COMBATE

 

Via e-mail, frequentemente recebo pedidos de informação, ou mesmo uma opinião sobre o que está a passar-se a propósito do despropósito de um acordo ortográfico que ninguém pediu, não é necessário, sendo, portanto, inútil, e muito menos é um acordo racional.

 

E é sobre o que escrevo em privado, que partilho, hoje, em público.

 

PALAVRAS.jpg

 

Não sou Filóloga, nem Linguista. Tive de dar aulas de Português, porque os de História tinham de dar também a disciplina de Português, para a qual, no entanto, nunca foram preparados na Universidade. Daí, ter tido a necessidade de estudar a Língua Portuguesa, mais aprofundadamente, para não defraudar os meus alunos.

 

Aprendi a ler e a escrever no Brasil, e fui estudando cá e lá, ao longo da infância, adolescência e juventude. Conheço a fundo as duas versões do Português, para poder dizer, com conhecimento de causa, e sem titubear, que o que nos estão a impingir, hoje, é a ortografia brasileira, que eu aprendi na escola primária, no Brasil. Com que intenções fazem isso? Naturalmente com as intenções mais obscuras por parte de Portugal que, servilmente, se curva aos interesses exclusivos do Brasil.

 

Não sou propriamente avessa aos neologismos, quando estes têm fundamento. Não gosto de certas adaptações de palavras estrangeiras para Língua Portuguesa, se lhes retiram a elegância. Estou a lembrar-me de “avalanche”, do francês “avalanche”. Detesto a palavra aportuguesada “avalancha” que não tem graciosidade nenhuma. É uma palavra espessa. Eu utilizo o termo “avalanche”, que existe nos nossos dicionários (quando digo nossos, descarto os novos dicionários acordistas, que não são nossos). E isto é como chamar João Lenão ao John Lennon. Não gosto de palavras espessas, e agora com o AO90 é o que mais existe, por aí: palavras espessas e muito deselegantes.

***

Passando às questões:

Acessibilidade (do latim accessibilitas, -atis) significa qualidade do que é acessível, alcançável, atingível.

Jamais pode ser aplicada como acesso (entrada) a alguma coisa.

Os que usam o vocábulo acessibilidade para significar “acesso” cometem uma grande calinada.

 

Mas as calinadas são aos milhares: eles “cOmprimentam-se”, eles “fOncionam”, eles dizem das suas "circOnstâncias", à última DA hora, eles aplicam mal os tempos dos verbos, eles não sabem Português. Estou a referir-me aos governantes responsáveis pela decadência da Língua Portuguesa. Estejam atentos ao modo como falam.

 

***

Quanto ao “contratualizar” (contratual + izar), significa estabelecer as regras contratuais de…; pôr em contrato.

 

Deriva da palavra CONTRATUAL do francês “contractuel” relativo a um CONTRATO (= convenção, acordo).

Contratar = empregar (do latim contractare)

Contrato (do latim contractus)

Ambas as palavras perderam o C antes do AO90. São daquelas excepções, à regra.

 

A palavra “contratualizar” não existe nos dicionários de Língua Portuguesa, mas não me faz mossa.

Porque o vocábulo “contractar” não existe.

O que existe é “contracto” (do latim contractus) = contraído, encolhido, que sofreu contracção = CONTRAÍDO.

E como contratualizar significa “fazer um contrato”, é um neologismo que não faz mossa na Língua.

 

***

 

Agora, não me venham com “parabenizar”, uma palavra horrorosa que os portugueses andam a adoptar do brasileiro (e que me desculpem os brasileiros, também as temos horrorosas, por cá). É como “apenado” (condenado, o que sofreu uma sanção penal); ou “estrelar” (protagonizar - o Johnny Depp estrelou o filme «Piratas das Caraíbas», talvez com umas batatinhas fritas…), palavras americanizadas, escusadamente, até porque temos vocábulos tão mais graciosos, em Português.

 

Mas há muitos mais que agora não me ocorrem.

 

***

Pois se fôssemos a seguir essa regra parva de "perde a consoante porque não é pronunciada" teríamos de aumentar a lista em várias centenas de palavras.

 

É que a lógica dos acordistas quanto à supressão das consoantes mudas é tão ilógica que se lhes perguntamos porque (h)avemos de suprimir a consoante em faCtor, porque não pronunciamos o C, por que não a suprimir em (h)avemos, uma vez que também não pronunciamos o H? E eles não têm uma explicação racional para o fazer. Mas eu já vi por aí escrita este conjunto de letras - ospital. Talvez porque o H passe despercebido… como no vocábulo “umidade” (humidade em Portugal), que no Brasil se grafa sem H, porque o H passa "despercebido" na palavra... (li isto no Ciberdúvidas), e li mais, ainda se escreve, por exemplo, (h)oje e (h)ora, com H, porque, por força do uso, algumas palavras com H inicial já têm fixação visual e deixa alguma perplexidade grafias como "oje" ou "ora"... Foi o que li no Ciberdúvidas.

 

Considero esta “explicação” de uma inteligência raríssima.

 

Pois se aos acordistas a grafia “oje” (por hoje) e “ora” (por hora) causa perplexidade, porque aquele H mudo inicial já tem fixação visual, a mesma perplexidade, causam grafias como "fatura" (fâturâ), "fator" (fâtôr), "fração" (frâção), “direto” (dirêtu), “diretor” (dir’tôr, “objeto” (objêtu), “rutura”, “receção” (r’c’ão),”exceto” (eiscêtu), “Egito”, “aspeto” (âspêtu), “adoção” (âdução), “inseto” (insêtu), “ação” (âção), “deteta” (d’têtâ), “exato” (ixâtu), enfim, estes e centenas de abortinhos ortográficos, que assim escritos, é obrigatório pronunciá-los conforme está entre parêntesis e não significam nada.

 

E é deste modo híbrido que os acordistas justificam a supressão das consoantes mudas em palavras onde elas são indispensáveis, e não fazem cair as outras porque, visualmente, elas criam perplexidade!!!!! Isto é de quem não tem a mínima noção do que diz, o mínimo conhecimento da estrutura das Línguas, de todas as Línguas.

 

Depois existe um outro detalhe: quando me dizem que os estrangeiros percebem o “brasileiro” melhor do que o Português… é mentira! Na escrita, um inglês, um francês, um espanhol ou um alemão que não saibam muito bem o Português, se depararem, por exemplo, com as palavras directo, director, factor, saberão reconhecê-las-ão. Ao contrário, se depararem com “direto”, diretor, fator, não saberão o que isto é.

 

Eu, que não domino o Alemão, mas domino o Inglês, consigo entender uma frase em alemão tirando pela a pinta as palavras. E isto acontece porque a etimologia é a mesma. Somos da família indo-europeia. Não somos da família sul-americana, aliás, cuja língua, à excepção das línguas nativas, é oriunda da Europa.

 

Quando eu digo que se fala mal, ou escreve mal, no Brasil, refiro-me ao emprego do tempo dos verbos, dos plurais, dos artigos, dos pronomes, da acentuação, que o comum dos Brasileiros não sabe aplicar, muito por culpa do "não-ensino" da Gramática, nas escolas. Não me refiro ao "sotaque" que, até lhe acho piada.

 

E o que se fala e escreve no Brasil será a mesma Língua Portuguesa que, por exemplo, os Angolanos e Moçambicanos instruídos falam e escrevem?

 

É óbvio que os Timorenses, Angolanos, Moçambicanos e restantes povos ditos lusófonos não falam todos do mesmo modo. Até em Portugal, de Norte para Sul, o modo de falar difere.

 

Mas não é ao "modo" que me refiro. É à "forma" como a Língua é utilizada, é grafada, é pronunciada. Não se conhecendo a Gramática, dizem-se e escrevem-se os maiores disparates.

 

Quanto à escrita, dos sete povos ditos lusófonos ou lusógrafos, apenas os Brasileiros deformaram a ortografia, mutilando-a e criando palavrinhas sem significação real alguma.

 

No que respeita ao Inglês e ao Castelhano o que se passa não é bem a mesma coisa. Os povos colonizados pelos Ingleses e Espanhóis não mutilaram as línguas que adoptaram do colonizador. Têm novos vocábulos para designar as mesmas coisas, uma grafia diferente, muito pontualmente, o “sotaque” difere de país para país, mas não mutilaram ostensivamente as palavras. E jamais Inglaterra ou Espanha fariam um "acordo" para adoptar a grafia das ex-colónias. E os falantes e escreventes das Línguas Inglesa e Castelhana também são aos milhões nas ex-colónias deles.

 

Então porquê substituirmos a nossa Língua Portuguesa, pelo Dialecto Brasileiro? Por eles serem milhões e nós milhares? Isso nunca será argumento válido, em parte alguma do mundo.

 

E é essencialmente isto que combato.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:40

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