Na linha dos seus antecessores, o texto do mês de Janeiro (o 88.º da série “Em Defesa da Ortografia” e o primeiro do corrente ano), continua a apresentar, exactamente, as mesmas características.
A aposta continua a ser a de mostrar diálogos, por vezes absurdos, de índole humorística, que ilustram a fantochada do AO90, expondo as suas fragilidades, as suas incoerências e a completa ausência de lógica.
As palavras a vermelho indicam as formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, remetem para grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos, se mantêm como duplas grafias. A azul, temos os casos de hipercorrecção, decorrentes da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.
LXXXV
— Hoje, o jogo correu-me mal.
— Como pensas ultrapassar essa má fase?
— Vou ver o vídeo de todo o jogo e refletir.
— Não é suficiente.
— Não?
— Vais ter de reflectir, que é outra coisa.
LXXXVI
— Ó pai, diz aqui no jornal que há um braço de ferro entre o governo e os sindicatos. Não percebo o significado.
— Não há nada para perceber. Braço de ferro é um braço feito de ferro.
— Então, pode enferrujar?
— Exactamente! E a ferrugem alastrar ao governo a e aos sindicatos.
LXXXVII
— Ó pai, lembras-te de ontem te ter falado da expressão braço de ferro?
— Claro que me lembro. Porquê?
— É que hoje encontrei no jornal Público uma notícia que dizia haver um braço-de-ferro entre um empresário e um clube. Será a mesma coisa?
— Claro que não. Braço-de-ferro é uma prova de força. Pensar que braço-de-ferro e braço de ferro são a mesma coisa é como confundir o Garcia de Orta com a horta do Garcia.
LXXXVIII
— Willy Sagnol, o treinador da Geórgia afirmou que o desempenho da sua seleção foi excecional.
— Discordo completamente.
— Porquê? Era a estreia num Campeonato da Europa…
— Não tem nada que ver com isso!
— Então?
— Willy Sagnol foi muito modesto. O desempenho da selecção da Geórgia foi excepcional.
LXXXIX
— Temos uma forte condicionante para o treino da tarde.
— Que condicionante?
— Não temos pontas de lança disponíveis.
— Usamos arcos e flechas. Qual é o problema?
— O problema é que estás cada vez mais indocível. Eu estava a falar de goleadores.
— Ah, pontas-de-lança! Outra vez a confusão entre o Garcia de Orte e a horta do Garcia, não é? Quem é indocível, quem é?
XC
— Hoje, vamos aprender a intercetar cruzamentos dos adversários, minimizando o risco de a bola seguir o caminho da nossa baliza.
— O que é intercetar, míster? É o mesmo que interceptar?
— Não, rapaz. Interceptar requer uma dose suplementar de cuidado e de inteligência.
XCI
— Ó pai, podes oferecer-me uma teleobjetiva no Natal?
— Para que hás-de querer tu uma teleobjetiva?
— Para fotografar coisas a grande distância, para que havia de ser?
— Para isso, objectos a grande distância, precisas de uma teleobjectiva. Uma teleobjetiva não serve.
XCII
— Este político é um mestre no uso da subjeção. Ninguém o bate.
— Achas?
— Não acho. Tenho a certeza.
— Eu discordo completamente dessa tua opinião. Acho que a construção frásica é manca. Falta-lhe qualquer coisa. Talvez o cê de subjecção.
XCIII
— Mais uma despesa…. Vou ter de comprar um convetor.
— Para que queres essa porcaria?
— Para aquecer, é óbvio.
— Não preferes um convector? Será menos económico, mas mais eficaz é certamente porque transmite o calor por convecção.
— Já te percebi. Só me custa perder uma consoante. Ando a colecioná-las desde 1990.
— Coleccioná-las, queres dizer?
XCIV
— Para evitar a entrada de água, é necessário defletir a chuva.
— Onde aplico este objecto?
— Aí sobre a porta.
— Acabei de inclinar. Já está a defletir?
— Ainda não.
— E agora, que incluí o cê?
— Já está a deflectir!
— Perfeito!
XCV
— Antes de entregares o manuscrito, é crucial proceder à retificação.
— Já fiz. Mas ainda não está perfeito, como é natural.
— Contrataste algum profissional habilitado?
— Sim.
— Não deve ser um profissional competente. Experimenta contratar um especialista em rectificação. Ficará perfeito à primeira tentativa.
XCVI
— É uma vedação espetável.
— Porque dizes isso?
— Faz-me lembrar um autêntico trabalho em filigrana.
— Mas requer muito cuidado, não é?
— Não te entendo.
— Na minha ideia, espetável significa que se pode espetar. Se estiver ferrugenta, é duplamente perigosa, não?
Ah! Uma das imagens que acompanha este escrito, divulgada pelos grupos Cidadãos contra o Acordo Ortográfico de 1990 e Tradutores contra o Acordo Ortográfico, demonstra como, vários anos após o início da aplicação do nefando Acordo Ortográfico de 1990, alguns órgãos de Comunicação Social continuam a ter a capacidade de, a cada dia, inventarem novos erros.
Ah! A segunda imagem, sobre as polémicas declarações do Ministro da Educação, mostra o estado a que chegou a ortografia que por aí vai circulando, em que o verbo retractar-se é constantemente atacado e espoliado de uma consoante. Este verbo, que significava desdizer-se e dar o dito por não dito, confunde-se, agora, com um sinónimo de tirar um retrato.
Ah! É completamente obrigatório ler o artigo de Nuno Pacheco “Ora aqui vão los acuerdos que hacen nuestros hermanos”, publicado no dia 11 de Dezembro pelo jornal Público.
Ah! Do mesmo autor, vale a pena ler o texto “O meu acordo é melhor que o teu: dilemas da ortografia”, também dado à estampa pelo Público no dia 4 de Dezembro.
Ah! Obviamente, não deixe de ler “O Orçamento de Estado e a Conta Geral do Estado: um retrato do país”, de Francisco Miguel Valada no Público, no dia 16 de Dezembro.
Ah! O blogue O Lugar da Língua Portuguesa, administrado por Isabel A. Ferreira, divulga uma Carta Aberta dirigida aos candidatos à Presidência da República. Continua a ser um local de genuína salubridade, portanto.
Ah! O autor deste escrito deseja a todos os seus leitores umas Óptimas Festas e um Excepcional Ano Novo. Deseja ainda que 2026 traga uma ortografia lógica, coerente e respeitadora da sua história.
João Esperança Barroca


Assunto: a aplicação ilegal e inconstitucional do AO90, matéria que nenhum dos candidatos se atreveu, até ao momento, a expor publicamente, nos debates televisivos e não só.
Minhas Senhoras e meus Senhores.
É com tristeza que assinalamos a mediocridade dos nossos órgãos de Comunicação Social (OCS), salvo raríssimas excepções, coniventes com a destruição da Língua Portuguesa, na Educação degradante, na subordinação a interesses obscuros e ao alheamento dos temas a cargo dos órgãos democraticamente eleitos (Assembleia da República e Governo).
Em causa está a deslealdade de todos os que se renderam ao AO90, perante a Constituição da República Portuguesa (CRP), nomeadamente, perante o Art.º 11.º, que trata dos símbolos nacionais e Língua oficial:
A Bandeira Nacional (que anda por aí usurpada indevidamente)
O Hino Nacional (por enquanto intocável, apesar de já ter havido uma tentativa de o desvirtuar)
A Língua Oficial de Portugal – a Língua Portuguesa (que está a ser espezinhada nas Escolas Portuguesas, lugar onde deveria ser posta no pedestal da nossa Identidade como um Povo livre e soberano, e anda por aí a rastejar, como a mais indigente das Línguas).
É sobre este símbolo nacional – a Língua Portuguesa – que a finalidade desta carta se centra, e que muito resumidamente aqui se expõe.
A Língua Portuguesa, nos termos que a definem, actualmente está legislada pelo Decreto-Lei n.º 35 228, de 8 de Dezembro, que aprovou o Acordo Ortográfico de 1945, aplicado e usado com exemplos literários notáveis, em Portugal Continental, Insular e Ultramarino, o qual continua de jure em vigor, uma vez que não foi revogado. Alguns dos novos Estados, de Língua Oficial Portuguesa, não promulgaram, nem ratificaram o AO90, continuando a cumprir o supracitado Decreto-Lei.
Para ilustrar esta afirmação, aqui deixamos uma imagem da capa do livro que o Embaixador Carlos Fernandes escreveu, provando a ilegalidade do AO90, e um seu parecer.

O AO90: «O projecto nascido da cabeça do intelectual esquerdista brasileiro Antônio Houaiss, foi desde o início um empreendimento com fins lucrativos, apoiado por uma poderosa máquina política e comercial com ramificações em Portugal» in Jornal «O Diabo», num artigo de investigação, sob o título O Negócio do Acordo Ortográfico , artigo que recomendamos a Vossas Excelências, como candidatos à Presidência da República Portuguesa, bem como a leitura do livro do Embaixador Carlos Fernandes, porque pensamos que o que falta a quem escreve segundo o AO90 é informação.
A Resolução do Conselho de Ministros (RCM) n.º 8/2011, de 25 de Janeiro, recomendou [não obrigou, porque só uma Lei obriga] a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) em Portugal. Uma resolução do Conselho de Ministros não faz Lei, portanto, não havendo Lei, ninguém em Portugal é obrigado a usar a grafia brasileira, proposta no AO90.
O Decreto-Lei n.º 35 228, de 8 de Dezembro, que aprovou o Acordo Ortográfico de 1945, não foi revogado, pelo que existe uma RCM que se sobrepõe a um Decreto-Lei, e isto é inconstitucional.
Para esta ilegalidade, que já destruiu a educação das gerações pós 2011, e tende a fazer desaparecer a Língua Portuguesa, contribuíram:
Presidentes da República
Presidentes da Assembleia da República
Deputados na Assembleia da República
Governos
Um Acordo Internacional é entre Estados soberanos. Este AO90 não foi ratificado por Angola, nem Moçambique, nem Guiné-Bissau, nem Timor-Leste, pelo que não pode ser cumprido por Portugal, um Estado de direito democrático (Art.º 2.º da CRP).
Vossas Excelências decidiram não cumprir a Lei vigente, e seguir uma simples RCM que não faz lei, e a tal não eram obrigados. Como candidatos continuam a escrever incorretamente [saibam que este vocábulo, segundo as regras da Gramática Portuguesa, lê-se incurrêtâmente] a Língua Oficial de Portugal, e além de a escrever incurrêtâmente, pronunciam-na também incurrêtâmente. Esperava-se – e continua a esperar-se – que como candidatos à Presidência da República assumam, desde já, o compromisso de anular o ilegal e inconstitucional e abominável (para milhares de Portugueses Pensantes) AO90. Portugal merece! Os Portugueses merecem.
A Educação, o Ensino e a Cultura, pilares de um País que se quer civilizado, evoluído e culto, estão fora dos debates, como se estas matérias não tivessem importância alguma para as gerações mais novas, às quais estão simplesmente a passar diplomas de analfabetos funcionais.
Porém, não podemos falar de Educação, nem de Cultura, nem de Identidade Portuguesa, sem primeiro garantir a integridade do seu maior pilar: a Língua Portuguesa. E a Língua Portuguesa anda por aí de rastos, estando a ser ilegalmente aplicada nas Escolas, instituições públicas, órgãos de comunicação social, empresas, e por demais pessoas que talvez não saibam o que andam a fazer, e por que o fazem.
Precisávamos desta linha de pensamento. Necessário se torna, pois, concretizá-la.
Por fim, e contra o AO90, destacamos dois valiosos depoimentos: o do conceituado escritor e crítico literário brasileiro, Paulo Franchetti, e o de Vasco Graça Moura, então Director do Centro Cultural de Belém, escritor e tradutor português, onde se comprovam o valor da Cultura e a relevância da verticalidade dos Homens:


Esperando que Vossas Excelências acolham com simpatia estas nossas palavras, apresentamo-vos os nossos melhores cumprimentos,
P’lo Grupo Cívico de Cidadãos Portugueses Pensantes
(Clicar no link para ter acesso aos nomes dos subscritores)
Isabel A. Ferreira
Na linha dos seus antecessores, o texto do mês de Novembro (o 86.º da série “Em Defesa da Ortografia”), continua a apresentar, exactamente, as mesmas características.
A aposta continua a ser a de mostrar diálogos, por vezes absurdos, de índole humorística, que ilustram a fantochada do AO90, expondo as suas fragilidades, as suas incoerências e a completa ausência de lógica.
As palavras a vermelho indicam as formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, remetem para grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos, se mantêm como duplas grafias. A azul, temos os casos de hipercorrecção, decorrentes da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.
LXI
— Com o AO90, os hífenes tornaram-se uns invejosos de primeira.
— Não percebo. Porquê?
— Nunca estão no sítio. Queriam ser como os tomates.
— E não achas admissível? Sempre habitaram aquelas palavras e, de um momento para o outro, vêem-se despejados.
LXII
— Tenho de ir ao dentista.
— Para quê?
— Para fazer a extração de um dente do siso.
— Não vás em modernices, pá! É mais assisado fazeres extracção.
LXIII
— Ó pai, não percebo aqui esta expressão.
— Que expressão, Rafael Alexandre?
— Pato de silêncio.
— Cheira-me a mais uma estupidez modernaça.
— O que queres dizer com isso, pai?
— Aposto que é um nome moderno para pato-mudo.
LXIV
— Ó pai, hoje a professora chamou-me debiloide.
— Não te preocupes com isso, Rafael Alexandre! Ela não sabe o que diz.
— Não é um insulto, pai?
— Insulto seria te chamasse debilóide.
LXV
— Porque tens uma ligadura no braço?
— Caí e fraturei o escafoide.
— Tiveste muita sorte!
— Estás a gozar comigo? Tu é que devias ter estas dores!
— Só estou a dizer que muito pior seria se tivesses fracturado o escafóide. Aí é que verias o que são dores!
LXVI
— Estou num dilema.
— Que dilema?
— Encerro a filial em Oeiras ou invisto em mão-de-obra qualificada.
— No teu lugar, contrataria mão de obra. Poupas um dinheirão em hífenes.
LXVII
— Este nosso treinador é fraquinho.
— Devíamos contratar aquele a quem chamam o mestre da tática.
— Não concordo contigo, e ele agora está na Arábia, onde ganha balúrdios.
— Qual a tua ideia, então?
— Um treinador mais completo. Podem, até, chamar-lhe o mestre da táctica.
LXVIII
— Vamos lá escolher os temas que vamos tocar no próximo concerto.
— Quando é essa atuação?
— Dia 24 de Abril. E não acho boa ideia preparar a atuação.
— Não? Porquê?
— É muito mais eficaz se prepararmos a actuação.
LXIX
— Onde vais nas férias de Verão?
— À Antártida.
— Sem mais, digo-te que é uma má escolha.
— Porquê? Só vou pagar 800 euros por sete dias…
— Eu prefiro pagar 900 euros e visitar a Antárctida a pagar esse dinheiro e ficar na Antártida. É preciso andar com os olhos abertos, como nos casos de contrafacção ou de contrafação, como se diz por aí, e não enfiar a primeira carapuça.
LXX
— Fonseca, quem tratou da torra deste lote?
— Patrão, foi o Martins que procedeu à torrefação dos últimos lotes.
— Quantas vezes é preciso dizer que devem fazer a torrefacção como deve ser? Eu não quero, como os do AO90, vender gato por lebre, percebeste?
LXXI
— Ó Fonseca, será que o Martins e os colegas vêem bem o que fazem quando estão na zona da torrefacção?
— Patrão, eles dizem que veem.
— Pois, veem, mas não vêem. Veem é uma aberração, nem parece ser forma do verbo ver.
LXXII
— A UEFA parece estar preocupada com a segurança dos espetadores.
— E se apreendessem os espetos e proibissem a sua venda? Assim é que os espectadores estariam seguros.
Ah, as imagens que acompanham este escrito mostram o calibre da linguagem que por aí vai circulando. Uma exemplifica uma situação de corte desenfreado de consoantes, criando o termo impato, uma verdadeira aberração. A outra imagem, bastante recente, demonstra a insanidade que presidiu à redacção de grande parte das Bases do AO90.
Ah, como se lê, agora: “Nada para Isaac Nader na corrida ao ouro”? O que significa? Nada impedirá Isaac Nader de conquistar a medalha de ouro ou o atleta, que passou parte da infância em Tomar, ficará arredado do pódio? O contexto esclarece as dúvidas?
Ah, como se pronuncia, agora: “Projeto para Lisboa”? O que significa? Lisboa ficará parada por causa de um qualquer projecto? Ou existe um projecto destinado à cidade de Lisboa?
Ah! Toda a gente fala, por estes dias, no Orçamento de Estado para 2026. Como é habitual, Francisco Miguel Valada, no blogue Aventar, faz uma análise exaustiva desse documento. Nessa análise, fica claro que o documento terá sido escrito, pelo menos, a quatro mãos, pois coexistem, entre outros: Acção e Ação; Protecção e proteção; carácter e caráter; Sector e setor; activos e ativos; excepto e excetuando; conectividade e conetividade; detectados e detetados; Projectos e projetos; Electricidade e eletricidade. Obviamente, merece reprovação.
João Esperança Barroca


O presente escrito (o 84.º da série “Em Defesa da Ortografia”), na linha dos recentes antecessores, apresenta, exactamente, as mesmas características.
A aposta continua a ser a de apresentar diálogos, por vezes absurdos, de teor humorístico que exemplificam o rotundo falhanço do AO90, pondo a nu todas as suas fragilidades, as suas incoerências e a completa ausência de lógica.
Os termos a vermelho indicam formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, referem grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos se mantêm como duplas grafias. A azul, temos as situações de hipercorrecção, potenciadas pela aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.
XXXVII
— O meu amigo Manuel enviou-me duas imagens que ilustram o caos ortográfico que se instalou após a aplicação do AO90.
— Que imagens são essas?
— São imagens em que o órgão oficial do PS, numa delas, se denomina Ação Socialista e noutra Acção Socialista.
— O que pensas disso?
— Acho que o Ação Socialista não passa no controlo de qualidade.
XXXVIII
— Neste texto, aparece o termo convição. Será uma gralha?
— Não! Nada disso! É só uma crença menos firme.
— Como se fosse alguém a sofrer de disfunção erétil?
— Exactamente.
XXXIX
— Aqui na nossa rua vivem dois eletricistas.
— Calma aí. Vive um electricista e um eletricista.
— Mas isso não é a mesma coisa?
— Claro que não! O electricista é muito mais confiável.
XL
— Já escreveste no teu currículo que és actor?
— Não. Escrevi que sou ator. É a mesma coisa, não?
— És mesmo parvo. Se fores actor, podes ser protagonista, pá!
XLI
— Quando tinha 12 anos, estive à beira da morte.
— Como foi isso?
— Tive febre tifoide.
— Tiveste muita sorte. Se tivesses contraído febre tifóide, os sintomas seriam mais exacerbados e, provavelmente, não terias escapado.
XLII
— Hoje, portei-me mal na aula, o professor marcou-me falta disciplinar e comunicou esse facto à Diretora de Turma.
— E retractaste-te?
— Para quê?
— Para convenceres o professor de que estavas arrependido, é óbvio, não?
— Como é que uma simples fotografia tem esse poder?
— Quem falou em fotografias? És mesmo estúpido!
XLIII
— Ando em baixo.
— Porquê?
— Tive uma deceção amorosa.
— E isso deitou-te abaixo?
— Claro!
— E quando tiveres uma decepção? Suicidas-te?
XLIV
— Estou preocupado com o meu filho.
— Tem algum problema grave?
— O professor diz que ele tem pouca capacidade de abstração.
— E estás preocupado com isso? Isso não tem importância nenhuma. Grave seria se tivesse pouca capacidade de abstracção. Uma consoante a mais ou a menos faz muita diferença.
XLV
— Estou em apuros.
— Porquê?
— O médico de família disse que o meu filho sofre de anorexia.
— Queres dizer que é anoréctico?
— Pior, muito pior. É anorético.
XLVI
— O meu neto é um crânio!
— Porque dizes isso?
— Tem vinte e três anos e é um especialista conceituado em biotaxia.
— Biotaxia é uma palavra curiosa. Qual será o adjectivo da mesma família desse nome?
— O adjectivo deve ser biotáctico. Se fores menos competente e perfeccionista, contentas-te com biotático.
XLVII
— Ó pai, há aqui, neste exercício, uma coisa que não percebo.
— Vamos lá ver se te sei explicar. Qual é a tua dúvida?
— Por que razão a palavra bóia deixou de ser acentuada?
— Boa pergunta. Talvez tenham pensado que com o acento ficava mais pesada e deixava de flutuar.
— Ó pai, essa explicação é só estúpida.
— Pois é, filho, mas não há outra. Tamanha estupidez é inadjectivável.
— Boa, pai! Contribuíste para a sobrevivência de mais uma consoante!
XLVI
— Rafael Alexandre, o teu professor faz auto-avaliação?
— Não.
— Tens a certeza?
— Tenho! O que ele faz é autoavaliação.
— E isso não é a mesma coisa?
— Não. É uma coisa mais rápida, menos perfeita, sem a interrupção do tracinho.
— Como se fosse contrafacção?
— Exactamente!
Ah, como se vê na imagem que acompanha este escrito, com muita frequência, os jornais que dizem aplicar o AO90 têm recaídas e voltam à ortografia de 1945.

João Esperança Barroca

João Esperança Barroca
O 82.º escrito da série “Em Defesa da Ortografia”, na linha do artigo de Junho, apresenta as mesmas características do seu antecessor.
A aposta continua a ser, agora, a de apresentar diálogos de teor humorístico que exemplificam o rotundo falhanço do AO90, pondo a nu as suas incoerências e a completa ausência de lógica.
Os termos a vermelho indicam formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, referem grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos se mantêm como duplas grafias.
XIII
— Vou abrir uma alfaiataria.
— Tens a certeza de que é um investimento rendível?
— Claro! Até o Diário da República, nos últimos anos, como o mostra o Francisco Miguel Valada, está cheio de fatos. Queres melhor sinal?
— E tens a certeza de que são todos fatos de vestir?
XIV
— A minha mulher, que está sempre com modernices, vai fazer uma redução mamária com um cirurgião estrangeiro. Diz que vai ficar com melhor aspeto.
— Já tu especializaste-te em fazer reduções estúpidas. Primeiro no cérebro e depois na ortografia. Ou terá sido ao contrário?
XV
— Estive agora a ler, no jornal Público, que os agricultores estão na rua com os seus tractores, de norte a sul do país, para reclamar valorização do sector e condições justas, num protesto que deverá bloquear várias estradas.
— Faz sentido. Se tivessem levado os tratores, teriam muito menos impacto, ou impato, como já se ouve por aí…
XVI
— O meu filho é muito impetuoso, mas também extremamente afetuoso. É muito sensível e qualquer tragédia o deixa muito afetado.
— Já pensaste levá-lo ao médico?
— Que médico?
— Estomatologista, é claro! Não disseste que ele anda cheio de aftas?
XVII
— Estou furibundo.
— Porquê?
— Fui multado.
— Como é que te aconteceu isso?
— É muito fácil explicar como foi. Ia a caminho da máquina para tirar o talão e li numa placa “Máquina para pagamento”. Como aplico o coiso ortográfico, entendi que a máquina parava o pagamento. Por isso, fui à procura de outra máquina, mas não encontrei nenhuma.
— Eu bem te avisei que adoptar o AO90 era sinal de estupidez. Como vês, saiu-te cara a modernice.
XVIII
— O meu primo, que é brasileiro, vem trabalhar para cá como rececionista. Conheces alguma oferta de emprego aqui perto?
Não, não conheço nada. E o teu primo tem alguma experiência nessa área?
— Só sei que no Brasil era recepcionista num hotel. Que eu saiba, não é a mesma coisa. Parece-me até muito mais completo.
XIX
— Nunca negociarei sob coação!
— Eu também não. Debaixo do coador, corro sérios riscos de ficar com o fato molhado. O preço das limpezas a seco está pela hora da morte.
XX
— Deparei-me há dias com a palavra fatura. Não percebi o que significa. Não consegui entender se é uma fractura nos dedos, pois dizia lá “fatura digital”.
— Não te posso ajudar porque também não sei. Talvez, seja uma espécie de miacoutismo.
— Que raio de coisa é essa?
— É a criação de novas palavras a partir de outras já existentes.
— Então, a fatura poderá ser uma fartura pouco estaladiça?
XXI
— Por causa da recessão, adiei as obras na receção.
— O quê? Que estás a dizer? Não percebo nada.
— É a novilíngua, estúpido.
— Seja lá o que for, não percebo.
— É a maravilhosa língua unificada.
— Continuo sem perceber!
— Se queres que seja franco, também não sei explicar-te. Aprendi este palavreado e que a língua evolui…
XXII
— Andas acabrunhado, pá. Passa-se alguma coisa?
— Tenho uma disfunção erétil.
— Isso não é grave. É uma disfunção ligeira.
— O que percebes de urologia para dizeres isso?
— Se é erétil, é ligeira e localizada. Grave e mais disseminada seria se fosse eréctil. Assim é que terias um problema preocupante.
XXIII
— Há dias, li num cartaz a palavra táctil. Como não a entendi, consultei o dicionário.
— O que é que dizia?
— Que é um adjectivo uniforme, derivado do latim tactile e que se refere a tato.
— É curioso! Já eu procurei o sentido de tátil.
— O que é que dizia?
— Que é um adjectivo uniforme, derivado do latim tactile e que se refere a tato.
— Não percebo. Será a mesma coisa?
— Talvez, mas com menos tacto, seguramente.
XXIV
— O meu pai foi ao Egito e trouxe-me vários artefatos indígenas.
— São mesmo egícios esses artefatos?
— São, são.
— E são esculturas?
— Não, pá! São fatos de artista ou fatos feitos com arte.
Ah, a página de Facebook dos Tradutores Contra o Acordo Ortográfico de 1990 continua a publicar imagens elucidativas do caos ortográfico que se instalou.
Ah, Maria do Carmo Vieira publicou no jornal Público um excelente artigo de opinião intitulado “O acordo ortográfico e ‘a sonolência passiva’ que silenciou o espírito crítico”. Como é habitual, vale a pena ler. Por essa razão, aqui deixamos um excerto razoavelmente extenso: “Antes de se decretar o que os Portugueses nunca haviam pedido e tinham sistematicamente ignorado, escrevia-se, naturalmente, ‘acto’, ‘recepção’, ‘concepção’ ou ‘retractar’, entre muitos exemplos, vocábulos agora truncados na sua marca etimológica que determinava a abertura da sílaba. Não admira, pois, que esta alteração ao ‘traje’ da palavra tenha prejudicado a sua leitura, dando azo a distorções, escritas e ouvidas. Realce-se os vocábulos ‘recepção’ ou ‘concepção’ que, pelo ‘critério da pronúncia’, se mantêm assim, no Brasil, alterando-se, em Portugal, para ‘receção’ ou ’conceção’, num evidente desmentido da ‘unidade ortográfica’ pretendida. No caso de ‘retractar’, o equívoco, que toda ortografia pretende eliminar, é notório porque agora tudo é ‘retratar’.
Ah! Quando tiver dúvidas, faça como os jornalistas de revista Flash: numa ocorrência, grafe a consoante dita muda; noutra, omita-a. Nalgum caso, há-de acertar.
João Esperança Barroca



15 de Fevereiro de 1911 –
O Governo português cria a Comissão para o Estudo da Reforma Ortográfica de 1911
Até ao início do século XX, tanto em Portugal como no Brasil, seguia-se uma ortografia que, por regra, se baseava nos étimos latino ou grego para escrever cada palavra — phosphoro (fósforo), lyrio (lírio), orthographia (ortografia), phleugma (fleuma), exhausto (exausto), estylo (estilo), prompto (pronto), diphthongo (ditongo), psalmo (salmo), etc..
Ao longo dos tempos, diversos estudiosos da língua apresentaram sucessivas propostas de simplificação da escrita, sem grande êxito.
Imediatamente depois da Implantação da República em Portugal, o novo governo, empenhado no alargamento da escolaridade e no combate ao analfabetismo, nomeou uma comissão — constituída por Gonçalves Viana, Carolina Michaëlis, Cândido de Figueiredo, Adolfo Coelho, Leite de Vasconcelos, Gonçalves Guimarães, Ribeiro de Vasconcelos, Júlio Gonçalves Moreira, José Joaquim Nunes, Borges Grainha e Augusto Epifânio da Silva Dias — para estabelecer uma ortografia simplificada a usar nas publicações oficiais e no ensino.
As bases da Reforma Ortográfica, muito inspiradas nas propostas de 1885, foram oficializadas por portaria de 01 de Setembro de 1911, permitindo-se um período de transição de três anos.
Apesar de já existir há longo tempo no Brasil uma forte corrente foneticista, que se batia pela simplificação ortográfica, o não envolvimento brasileiro na reforma portuguesa teve o efeito contrário, ficando os dois países com ortografias completamente diferentes: Portugal com uma ortografia reformada, o Brasil com a velha ortografia de base etimológica.
Em 1924 a Academia das Ciências de Lisboa e a Academia Brasileira de Letras começaram a procurar uma ortografia comum, firmando-se um acordo preliminar em 1931 que praticamente adoptava a ortografia portuguesa de 1911, iniciando-se um longo processo de convergência das ortografias dos dois países que dura até hoje.
Acordo Ortográfico de 1945
O Acordo Ortográfico de 1945 é uma convenção ortográfica assinada em Lisboa em 06 de Outubro de 1945 entre a Academia de Ciências de Lisboa e a Academia Brasileira de Letras. Este acordo estabelece as bases da ortografia portuguesa para todos os territórios portugueses (que à data do acordo e até 1975 eram Portugal e as colónias portuguesas - na Ásia e África) e o Brasil, que seguia o Formulário Ortográfico de 1943.
Na tentativa de pôr cobro às profundas diferenças ortográficas entre Portugal e o Brasil, como resultado da adopção em Portugal da Reforma Ortográfica de 1911, tiveram lugar diversos encontros entre as Academias dos dois países, dos quais resultou um acordo preliminar assinado em 1931. No entanto, como os vocabulários que se publicaram, em 1940 (pela Academia das Ciências de Lisboa) e em 1943 (pela Academia Brasileira de Letras), continham ainda algumas divergências, houve necessidade de novas reuniões, em Lisboa, que deram origem ao Acordo Ortográfico de 1945.
Acordo ortográfico de 1990
O Acordo Ortográfico de 1990 — que propõe uma significativa redução das diferenças de grafia entre o português europeu e o português brasileiro —, tem como objectivo substituir inteiramente o Acordo Ortográfico de 1945. Do ponto de vista legal, em Portugal o Acordo Ortográfico de 1990, apesar da portaria de 13 de Maio de 2009, onde se estabelece um período de transição de seis anos, durante o qual ambas as ortografias seriam válidas, não entrou em vigor. De acordo com a Constituição da República Portuguesa - artigo 112.º n.º 1 - só são actos legislativos Leis, Decretos-Lei e Decretos Legislativos Regionais.
Ora ainda não foi produzida nenhuma Lei ou Decreto-Lei que vise implementar o AO90. Assim sendo, as Portarias e Resoluções dos Ministérios não têm força jurídica para revogar a ortografia vigente em Portugal que é a que consta do Acordo Ortográfico de 1945, uma vez que este produz efeitos com base num Decreto-Lei. Ainda que usado pelo Estado e outros órgãos privados, o AO90 não está - do ponto de vista jurídico - em vigor em Portugal.
Fonte: https://www.facebook.com/photo?fbid=4824267814274950&set=a.661589607209479
Apenas podem concorrer textos inéditos, em Língua Portuguesa, respeitando o Acordo Ortográfico de 1945, ou seja, o que está legalmente em vigor em Portugal.
Não esquecer que resistir à imposição ilegal do Acordo Ortográfico de 1990 é um dever cívico.

«De forma a promover a ficção especulativa em Portugal na forma de romance em Língua Portuguesa e homenagear um grande nome da nossa literatura e cinematografia, a Editorial Divergência abre as inscrições para a segunda edição do “Prémio António de Macedo”.
António de Macedo, nasceu em Lisboa em 1931. Escritor, cineasta e professor universitário, frequentou a Faculdade de Letras da Universidade Clássica e a Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, onde se formou em Arquitectura em 1958. Exerceu durante alguns anos a profissão de arquitecto que abandonou em 1964 para se dedicar à actividade de cineasta, escritor e professor.
Inclui na sua extensa filmografia dezenas de documentários, programas televisivos e filmes de intervenção sociopolítica, bem como onze longas-metragens de ficção. Paralelamente, especializou-se na investigação e estudo das religiões comparadas, de esoterologia, de história da filosofia e da estética audiovisual, e das formas literárias e fílmicas de speculative fiction, temas que tem abordado em inúmeros colóquios e conferências, e em diversas publicações, quer de ficção, quer de ensaio. Publicou mais de uma dezena e meia de livros, entre romances de ficção fantástica e ensaios temáticos.
Entre 2001 e 2005 dirigiu a colecção literária Bibliotheca Phantastica da antiga Editora Hugin; em Setembro de 2001 foi homenageado pelo 30o Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz, pelo contributo prestado à cultura cinematográfica portuguesa; em Maio de 2007 recebeu o Prémio Consagração de Carreira, da Sociedade Portuguesa de Autores; em 2012 foi homenageado pela Cinemateca Portuguesa com uma retrospectiva da sua obra cinematográfica completa, exibida durante os meses de Junho e Julho; e em Novembro do mesmo ano recebeu o Prémio de Carreira «Sophia 2012», da Academia Portuguesa de Cinema. Em 2013, foi a vez do Fantasporto lhe dedicar uma homenagem com atribuição do troféu Prémio de Carreira, com textos subordinados ao tema «António de Macedo – O Fantástico no Cinema Português», inseridos no catálogo do 33º Festival Internacional de Cinema do Porto — Fantasporto 2013; e em 2014 recebeu o Prémio ADAMASTOR «Personalidade Fantástica 2014», atribuído pelo Colectivo Trëma e pelo Fórum Fantástico. O seu último romance, Lovesenda ou o Enigma das Oito Portas de Cristal foi escolha do ano pelo Fórum Fantástico em 2017. Faleceu a 5 de Outubro de 2017.
Regulamento
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