Domingo, 7 de Fevereiro de 2021

Sabiam que o filme português “Snu”, da realizadora portuguesa Patrícia Sequeira, é baseado em “fatos” reais?

 

Sou cinéfila desde que me conheço. Gosto de ver (bons) filmes principalmente aos fins-de-semana. Para tal vou gravando os que mais me interessam, dos poucos que vão aparecendo. E este fim-de-semana vi três filmes, dos quais tenho muito que contar.

 

Começo pelo filme Snu (de 2019) - a história de amor de Francisco Sá-Carneiro e Snu Abecassis, uma boa história, muito bem contada.

 

Devo dizer que gostei bastante do filme. Boas interpretações de Inês Castel-Branco (Snu) e Pedro Almendra (Sá-Carneiro), mas também do restante elenco, com especial destaque para Ana Nave, fabulosa, na pele de Natália Correia, e para Joana Brandão, na fugaz cena como Manuela (Ramalho) Eanes. Adorei. Gostei da música, gostei do guarda-roupa, da fotografia, da história, enfim, um bom filme, que recomendo.

 

Como gosto de saber tudo sobre os filmes que vejo, leio sempre a ficha técnica (desde que a mostrem, o que nem sempre acontece). E estava eu muito contente, porque entre a pobreza fílmica com que a TVCine costuma brindar-nos, encontrei o “Snu”,  e quando estava quase a chegar ao fim do genérico, leio que o filme é baseado em fatos reais.

 

Fiquei verde.

 

Para mim, e para qualquer português que tenha estudado Português, um fato real é o que vemos na imagem: fatos de princesas, de príncipes, de reis de rainhas…

 

Fatos reais.jpg

 

Sendo Snu um filme português, realizado por uma portuguesa, e produzido pela SkyDreams, cuja equipa é portuguesa, e patrocinado pela RTP, aqueles “fatos reais” representaram um murro no estômago, e soaram-me a ignorância.

 

Se fosse possível, a SkyDreams deveria corrigir imediatamente este grave e feio erro, porque de um grave e feio erro se trata.

 

Grave e feio erro porquê?

 

Porque, em Portugal, FATO (vocábulo originário talvez do gótico fat) é um nome masculino que significa vestuário, conjunto de peças de roupa, traje completo masculino composto de casaco, colete e calças ou apenas de caso e calças, ou traje feminino formado por saia e casaco, tudo geralmente do mesmo tecido.

 

Mas também noutro registo, FATO pode ser um rebanho, nomeadamente de cabras, intestinos, vísceras de gado, bando, quadrilha, móveis e haveres.

 

Nada que tenha a ver com o filme Snu. Ainda se o guarda-roupa do filme estivesse ligado a trajes usados pela realeza!!! Mesmo assim, seria descabido.

 

***

 

Agora vamos aos verdadeiros faCtos, em que o Snu deveria ter-se baseado, e não se baseou.

 

FaCto é um nome masculino oriundo do Latim factum, que significa aquilo que se fez, façanha, acontecimento, proeza, aCto, feito, coisa realizada…

 

Posto isto, em Portugal, é verdade que há quem troque os bês pelos vês, e há também quem troque os faCtos por fatos, apenas porque os Brasileiros, em 1943, decidiram, muito erradamente, suprimir as consoantes que ELES não pronunciavam, num infinito número de vocábulos (com o objectivo de simplificarem a escrita, para diminuírem o índice elevado de analfabetismo) entre eles, faCto, juntando a isto o faCto de ELES, os Brasileiros, usarem ternos (do Latim ternus = “três” = conjunto de três pessoas ou de três objectos semelhantes = trio; carta de jogar ou dado com três pintas) e que no Brasil, e apenas no Brasil é um traje masculino composto por casaco, calças e colete do mesmo tecido, que tem correspondência no FATO português, angolano, moçambicano, guineense, são-tomense, cabo-verdiano e timorense.

 

Daí que, eles, os Brasileiros,  não pronunciando o de faCto, e usando ternos em vez de fatos, FATO, embora erradamente, para os Brasileiros, e apenas para os Brasileiros,  significa aquilo que se fez, façanha, acontecimento, proeza, aCto, feito, coisa realizada…

Para os Portugueses, terno, do Latim tener, significa tenro, mole, delicado, suave, brando, que mostra afecto ou carinho, sensível… Mas também conjunto de três pessoas ou de três objectos semelhantes = trio; carta de jogar ou dado com três pintas, se nos ativermos a “ternus” (três). Nunca referente a vestuário.

 

Ora chegados aqui, porque haveremos nós, Portugueses, de trocar os faCtos (até porque pronunciamos o ) pelos fatos brasileiros, unicamente brasileiros, a não ser por uma profunda ignorância da Língua Portuguesa?

 

E atenção! Os Brasileiros são livres de fazer o que bem entendem com a VARIANTE brasileira do Português, porque a VARIANTE é deles. Só não podem pretender que os restantes países lusófonos comecem a aplicá-la, porque eles são milhões, e os restantes são milhares, número, no entanto suficiente, para garantir o futuro da Língua Portuguesa, no mundo, sem a obsessão mórbida de querermos que o nosso Português seja, à força, uma das Línguas mais faladas neste mundo.

O facto é: os Portugueses NÃO TÊM de imitar os Brasileiros, até porque eles, apesar de dizerem que a Língua oficial deles é a Portuguesa, distanciaram-se tão substancialmente de tudo o que puderam distanciar-se no que ao léxico português diz respeito, que construíram uma outra Língua: a deles. E sobre isto, nada contra.



Só para se ter uma ideia, aqui fica uma amostrinha do que eles dizem e nós não dizemos:

 

Virada do ano; coalizão/coalização; campesinos, apoiadores; festejos natalinos; cargos de vereança; ônibus; trem; bilhão; caminhão; latição; deletar; xampu; celular; bala (rebuçado); bonde; carro conversível (descapotado); prefeitura/prefeito; bunda; calcinha; história em quadradinhos (banda desenhada); ponto de ônibus; açougueiro; banheiro (quarto-de-banho); comissária de bordo; aluguel; registro; geladeira; grampeador; suco, e um sem-número de outros vocábulos mais.

 

Pretende-se que escrevamos setor, diretor, ator, objeto, arquiteto, teto porquê? Se nunca diríamos: os apoiadores do prefeito, não querem ver nos cargos de vereança gente que fizesse uma coalização com os campesinos, e por isso foram protestar, nos seus carros conversíveis, para a porta da prefeitura?

 

***


Vi também um outro filme, cujo título em Inglês é «Woman IN Gold» (de Simon Curtis – 2015, protagonizado por Helen Mirren), e que os “tradutores” (?) da TVCine traduziram (MAL), para «A Mulher DE Ouro» e os brasileiros, também MAL, para: «A dama dourada», o que desvirtua o «Retrato de Adele Bloch-Bauer», «The woman IN gold» ou “The lady IN gold», pintura a óleo e folhas de ouro, do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt. Adele nem é de ouro, nem é dourada. Adele é de carne e osso, mas está em ouro, está entre o ouro, está cercada de outro, conforme pode ser visualizada na imagem.

 

Gustav Klimt.png

 

O filme é óptimo. Com interpretações fabulosas. Uma história incrível. Porém, a tradução do título e a legendagem são péssimas.

 

Quando regressaremos às legendagens com qualidade? 

 

Por falar em legendagens com qualidade, vi também o filme «Marie Antoinette», um drama histórico escrito e dirigido por Sofia Coppola, com a actriz Kirsten Dunst, no papel de Marie Antoinette.

 

Como o filme é de 2006, um tempo em que a Língua Portuguesa ainda era a Língua Portuguesa, e as traduções e legendagens dos filmes estavam entregues a pessoas qualificadas para tal, não tive de me enervar, ao ver que as falas do filme correspondiam às palavras das legendas, escritas em Bom Português.

 

Não sei quem tutela as coisas da nossa Língua. Talvez os Ministros da Cultura ou da Educação ou do Ensino tivessem uma palavra a dizer. Contudo, actualmente, não temos quem nos valha nesta questão, pois todos os nossos Ministros e até o presidente da República e os deputados da Nação (salvo raras excepções) deixaram-se deslumbrar com os milhões, e adoptaram a variante brasileira, não tendo a noção de que a variante brasileira da nossa Língua não nos representa, nem a nós, nem aos países africanos de expressão portuguesa.

 

A Língua Portuguesa está a esfarrapar-se a uma velocidade alucinante!

 

E isto é bastamente desprestigiante para Portugal.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:12

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Quarta-feira, 13 de Março de 2019

«NASCI PORTUGUÊS E MORRO ANGOLANO» TUDO POR CAUSA DO AO90

 

Os governantes portugueses trazem os Portugueses desgostosos, tristes, desiludidos, por muitos, muitos, muitos e variados motivos, e mais um: o da vulgarização, por aí, de um “português” que já deixou de ser Português, para ser brasileiro, e na maioria das vezes, uma mixordice que envergonha Portugal, berço da Língua Portuguesa.

 

O que levou o meu amigo Pedro Soares, a fazer o comentário que abaixo reproduzo, e que diz do estado d’alma dos que estão a ver a sua Língua Materna a escoar-se pelo cano de esgoto…

 

Eu, que também nasci Portuguesa, morrei também Angolana, se esta miséria linguística continuar a aniquilar a harmonia ortográfica que caracterizava a Língua Portuguesa.

 

SÀBADO.png

«Assim se escreve em bom BRASILÊS.» A revista Sábado era editada em Português correcto. A partir de Janeiro deste ano, decidiu "adoptar" o COISO ORTOGRÁFICO. Eis o resultado no verso desta capa: BRASILÊS puro. Que falta de brio!» (Nuno Teixeira)

Origem da imagem:

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=2663366350402167&set=a.402416659830492&type=3&theater&ifg=1

 

Comentário de Pedro Soares: Há muito tempo que, em termos de Língua Portuguesa, me considero Angolano.

 

Não só por ter vivido largos anos nessa Terra abençoada por Deus (não é só o Brasil), não só por os restos mortais de meu Pai repousarem em Luanda, não só por ter um filho nascido em Cabinda, não só por ter iniciado a minha carreira bancária no Banco de Angola, mas também porque Angola honra a Língua Portuguesa, a sua matriz, é a sua Língua oficial, sem estrangeirismos, sem brasileirês.

 

Por tudo isto, e também pela vergonha que sinto pelo AO90, um papaguear ridículo, vergonhoso, às portas de um dialecto, em que mercenários portugueses e brasileiros transformaram uma Língua com matriz greco-latina.

 

Mal sabia eu, há mais de 40 anos, quando disse que o meu coração ficava para sempre em Angola, viria a ter razão acrescida.

 

Nasci Português e morro Angolano, com vergonha dos biltres que atraiçoaram a minha Pátria.

 

***

Este sentimento de vergonha, é também o meu sentimento.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:02

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