Quinta-feira, 6 de Agosto de 2020

«Com ele [AO90] a língua original do trovador D. Dinis, de Gil Vicente, do Pe. António Vieira… passou a ser um sub-dialecto do brasileiro, que nem os brasileiros reconhecem (…)»

 

Um texto magistral de António de Macedo escritor, cineasta e professor universitário (1931-2017), o qual subscreveu a Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação da entrada em vigor do “acordo ortográfico”.

 

Mais uma voz lúcida, que os ouvidos dos políticos, dos governantes e dos deputados da Nação não estiveram disponíveis para ouvir.

 

Sobre o AO90, transcrevemos de seguida, com a devida vénia e porque nos parece ser [ainda] de interesse público, um trecho da mensagem do Professor António de Macedo. (ILC)

 

António de Macedo.jpg

Origem da imagem: Internet

 

Por António de Macedo

 

«É inevitável trazer à lembrança a famosa passagem de Bernardo Soares / Fernando Pessoa no Livro Desassossego, em que diz:


“…Minha pátria é a língua portuguesa. […] Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.”

 

A violenta desfiguração que o novo Acordo quer impor à língua é um crime grave. Com ele, a língua original do trovador D. Dinis, de Gil Vicente, do Pe. António Vieira… passou a ser um sub-dialecto do brasileiro, que nem os brasileiros reconhecem, porque eles continuam a escrever aspecto, perspectiva, espectador, excepcional, concepção, recepção… e nós com o novo Acordo passamos a escrever aberrações como aspeto, perspetiva, espetador, excecional, conceção, receção…

 

O iluminado legislador que produziu a novo AO parece ignorar a tendência fonogrâmica das línguas, a inevitável “colagem” da letra à fonética. Quando vejo escrito, como agora, conceção e receção, por exemplo, a minha tendência é pronunciar como concessão e recessão… A tendência fonogrâmica do português brasileiro é abrir os sons, ao passo que a do português de Portugal é fechá-los. Por isso a grafia constitui uma marca distintiva fundamental. Por exemplo, o novo AO quer que se escreva afetar e adotar, tal como no Brasil, em vez de afectar e adoptar. Com ou sem as letras aparentemente mudas como o “c” ou o “p”, o brasileiro pronunciará sempre àfètár e àdòtár, ao passo que português sem o “c” e sem o “p”, terá a tendência fonogrâmica de pronunciar âf´tár e âdutár. Se passo a escrever correto em vez de correcto, terei tendência, enquanto português, para pronunciar kurrêto, como em carreto ou coreto…

 

Enfim, como o dispositivo legal que promulga o novo AO é uma Resolução da Assembleia da República, e não uma Lei ou um Decreto-Lei, terá sempre o mero valor de recomendação, ao contrário de um Decreto-Lei que é vinculativo.

 

Chamo a atenção que o Decreto-Lei que promulga o Código do Direito de Autor e Direitos Conexos, na hierarquia legislativa, sobrepõe-se a uma resolução da AR, por isso sugiro aos Autores que se não conformam com a nova ortografia e desejem continuar a escrever como os nossos pais nos ensinaram, que leiam atentamente o n.º 1 do Art. 56.º do Código do Direito de Autor, em articulação com o Art. 93.º do mesmo Código. Nós, Autores, temos sempre a “opção ortográfica de carácter estético” a nosso favor.

 

Fonte:

https://ilcao.cedilha.net/arquivo/3854

***

Comentários ao texto:

 

 Escrito por Bic Laranja 

O que se lê aqui é inteligente. E tão simples, meu Deus! Como não entendê-lo!
Cumpts.

***

 Escrito por antonio andrade  

Nós somos de facto de brandos costumes; esta dicotomia, este ‘buraco’ legal é bem da traça dos politiqueiros de turno que nos (des)governam; lembro-me, em igual contexto, do decreto-lei produzido pelo governo Guterres em resposta às vociferantes vozes dos autarcas das juntas de freguesia com maior dimensão – ‘as juntas de freguesia passam a ter a capacidade para se endividarem sem depender do beneplácito da respectiva Câmara Municipal, conforme Normas a publicar’; com um laivo maquiavélico tais Normas nunca se publicaram : nunca as Juntas de Freguesia puderam contrair empréstimos fora da alçada das Câmaras … mas esta atitude liquidou a estridência da reivindicação. Até hoje. 2 em 1, como o Vidal Sassoon …

Do mesmo modo, creio ser admissível que em relação ao acordo ortográfico se tenha passado exactamente o mesmo -atitude salomónica :
– agradar à maioria parlante do outro lado do Atlântico que impõe a maior parte dos atalhos nos quais assenta a revisão em apreço,
– e mantendo uma janela para que façamos o que nos apetecer;
ou isso, ou simples erro ou incompetência, qualificativo ao qual o nosso eu colectivo está cada vez mais habituado; prefiro pensar ter sido a primeira opção, por mais inteligente.

Pena é que haja um afã de ‘mostrar serviço’ por parte dos nossos media, demonstrando uma observação das leis, que para muitos, como nós, achamos não passar de observação servil e de obediência canina a um abastardamento da língua matriz;

Grato por se incorporar no número dos que achamos dever manter o recorte da língua tal como a aprendemos, porque, afinal, é isso que permite proferir palavras habitadas; com o que é genuinamente nosso, com aquilo que nos faz perceber instintiva e automaticamente que um texto não foi redigido no sertão brasileiro.
Bem haja

***

Escrito por vitor cambra  

Portugal está à venda, a retalho !
Vendem-se licenciaturas a políticos incompetentes, aos amigos lugares em conselhos de administração de empresas participadas pelo Estado, a U.G.T. vende-se, alienando direitos dos trabalhadores portugueses, vende-se a língua portuguesa.
Ninguém quer, porém e infelizmente, comprar (mesmo a custo zero) estes vendilhões…

***

Escrito por Gonçalo J.S. os Reis Torgal  

Uma verdadeira vergonha. Perdemos totalmente a soberania e a Pátria. Não passamos de um país ocupado que perdeu o sentido de Pátria. Andamos ao mando da TROYKA (que porra de nome lhe puseram) e da indignidade de quem (des)governa desde há vinte/trinta anos. Por um prato de lentilhas vendemos a Língua, a Pátria, como lembrava Pessoa. Nada resta,

***

Escrito por José Manuel Moura

Na minha idade, 73, já ninguém me obriga a escrever ou ler com uma ortografia estúpida. Tenho muita pena e apreensão em relação aos meus filhos (4), netos (10) e bisneto (1) que não vão saber ler e entender todo o nosso rico espólio literário.

***

Escrito por Helena de Brito 

E no final de tudo pergunta-se…: e para quê?

***

Escrito por anabela Balbi  

Tenho 49 anos sou portuguesa não aceito escrever da forma disparatada que nos impuseram. Quando acrescentaram a palavra bué ao nosso dicionário questionei-me porque não deslarga-me? É isso mesmo os nossos iluminados deviam mesmo era deslargarem este pobre povo que tudo aceita com o deslumbre dos idiotas

***

Escrito por Mario Siqueira  

AO90 é anti-matemático!

A nova ortografia criou mais diferenças entre o português do Brasil e o de Portugal do que as que existiam antes!

Mas, o propósito não era aproximarem-se?

Simples perguntas para as quais nenhum acordista tem respostas: “Quando os escritores/leitores brasileiros se queixaram de não entender os livros escritos na ortografia europeia? Quando os escritores/leitores portugueses se queixaram de não entender o que se escreve no Brasil? Desde quando os brasileiros deixaram de ler Saramago? Quem foi que inventou que um português precisa escrever ‘rutura’ ou ‘receção’ para ser entendido por um brasileiro que escreve ‘recePção’ e ‘ruPtura’?

Será que estou louco em achar que nada no AO90 faz sentido? Será culpa de minha idade avançada?

***

Escrito por Linda B.  

Arrepiante conclusão: – Quem decide e nos governa dá erros de ortografia; tornando a ortografia informe e anárquica, acabam-se os erros ortográficos; para os detectives da língua, a investigação etimológica fica mais confusa porque perdeu a sua lógica. Assim, o “espectador” aquele que observa, dá agora lugar ao “espetador”, aquele que espeta; também aqui nestas reformulações ortográficas, o nosso governo pratica a anunciada morte dos valores, reflexo do neo-neo-liberalismo e do mercado livre, o paraíso dos especuladores (ainda a doer na carne a consequente crise mundial, mas que longe que isto nos leva!…). Esta será mais uma pequena gota na taça da desestabilização político-social, que só interessa ao mais forte; pergunto eu:- Rapazes, não estamos já no tempo de assumir que enveredámos por um caminho errado? Isto recorda-me aquele quadro de Bruegel o Velho, em que confiadamente, um cego vai a conduzir um grupo de cegos como ele, em direcção ao abismo.

***

Escrito por José B. lança 

Argumentação simplesmente magnífica!
J. Lança

***

Escrito por Luís Gomes da Costa 

Como desde o princípio, ou talvez ainda com maior convicção, continuo adversário declarado famigerado AO. Assinei a petição que andou pela net há um ou dois anos mas não me recordo se terei aderido à iniciativa legislativa que também por aí circulou. Como é óbvio não tenciono mudar de opinião e continuarei a escrever o melhor que souber o português tal como aprendi ao longo da vida.

É reconfortante verificar que tenho do meu lado da barricada numerosa e honrosa companhia. Entre tantos contam-se conceituados cultores da língua, membros destacados da inteligentzia nacional e figuras respeitadas nos mais variados sectores da cultura nacional. Por isso fiquei muito satisfeito ao tomar conhecimento da recente atitude do Dr. Graça Moura no CCB e ao ler os recentes artigos dos profs. Vilaverde Cabral e António Macedo. Tenho esperança de que a iniciativa legislativa dê os frutos esperados pelos seus promotores para bem da língua, da cultura e da identidade portuguesas. É preciso não desarmar nesta luta. Estou certo de que as futuras gerações agradecerão.

***

Escrito por António Pinheiro Lourenço  

Como é que se pode aderir a um movimento que impeça que a Língua Portuguesa seja assim “vandalizada”?

***

 Escrito por JPG 

http://ilcao.cedilha.net/?page_id=18

***

Escrito por Elysio Malheiro Dias Correia Ribeiro  

Há anos que venho lutando contra este aborto ortográfico! Infelizmente, na minha profissão, sou OBRIGADO a utilizá-lo, se quiser trabalhar… Mas há concessões que não faço: recuso escrever “pára”, do verbo parar, sem acento, recuso escrever “pêlo” sem acento, e não abdico das consoantes mudas, quando a sua falta possa levar a confusões. Mas que país de medíocres, este…

***

Escrito por Joaquim José das Neves Gonçalves  

Os últimos comentários que aqui foram feitos têm dois anos, dando razão a quem apelida os portugueses de gente de brandos costumes… de carneirada.
Nada foi feito, pelo menos que se saiba, contra esta aberração que os políticos portugueses nos impõem. A resolução da AR passou a ser aplicada em todo o lado, nos organismos do Estado, na escola e até nas empresas e sector privado, como se de uma lei se tratasse. Portugal impôs a si próprio um acordo que os outros países não assinaram: nenhum PALOP assinou! E, no Brasil, já se fala em “brasileirês”!!!
E os nossos intelectuais o que têm feito? Continuam a falar cada um para o seu umbigo!
Quando vamos ter o prazer de umas jornadas ou de um congresso para darmos o murro na mesa?
Porque esperam intelectuais do meu país?!
Podemos pensar que tudo está sob a ditadura das editoras e da Google?
…” Se isto é Portugal, prefiro ser espanhol!”
A história repete-se!

 

Fonte:

https://ilcao.cedilha.net/arquivo/3854

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:12

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Quarta-feira, 25 de Setembro de 2019

«Império da Língua Portuguesa: ascensão e queda?»

 

Mais um excelente texto de António de Macedo, para reflectirmos a Língua Portuguesa, se bem que, nos tempos que correm, e depois das denúncias que o Conselho Internacional de Oposição ao Acordo Ortográfico de 1990, anda a fazer, através deste Blogue, a reflexão tem de ser orientada para a trafulhice que envolve o AO90.

 

De qualquer modo, este texto mostra a iniquidade dos que impuseram, à força da trafulhice, este (des)acordo que, conforme li algures, foi uma má solução para um problema que não existia.

 

IMPÉRIO.png

(Origem da imagem: Internet)

 

Por António de Macedo

 

«Quando Cristo foi crucificado por volta do ano 30/32 da nossa era, o Império Romano ocupava uma vasta área que abrangia desde a Ásia Menor até à Península Ibérica, incluindo a maior parte da Europa e todo o Norte de África. Com o correr dos tempos, e devido à inevitável vitalidade que as línguas têm como coisas vivas que são, o latim popular falado na Dácia acabou por se transformar no actual romeno, tal como o falado na Itália no actual italiano, na Gália no actual francês, na Hispânia no catalão, castelhano, galaico-português, etc., etc..

 

Durante algum tempo o latim da Roma originária manteve uma aparência de identidade sustentada, sobretudo desde que a Igreja o adoptou como língua eclesiástica e litúrgica antes do início da Alta Idade Média; mas mesmo esse foi sofrendo alterações ao ponto de um estudioso de latim clássico ter dificuldade em entender um texto em latim eclesiástico do século XII ou XIII, por exemplo.

 

Imaginemos que um folgazão dessas eras, insuflado de ideias "ortografistas", se lembrava de tentar impor ao latim de Roma uma "grafia unificada" misturando, com as inerentes "facultatividades", as formas do latim popular gaulês, dácio, lusitano, itálico... Só esta ideia tonta dá vontade de rir, e obviamente nenhum estudioso no seu juízo perfeito a consideraria, a menos que se tratasse de um escritor de ficção científica que inventasse uma novela de "história alternativa" passada num universo paralelo, onde esse caricato fenómeno tivesse ocorrido com todas as suas delirantes (e quiçá interessantíssimas) consequências.

 

Bom, tudo é possível no fantástico universo das ficções, e tal fantasia até poderia dar origem a um trepidante filme em 3-D com imaginosos efeitos especiais e outros truques que encantassem as plateias.

 

Ora, por muito estranho que pareça, é isso mesmo que estamos a viver actualmente: um delírio de "ficção científica alternativa", por obra de uns quantos políticos que decidiram reescrever a nossa história linguística sem atender às naturais e progressivas diferenças por que vai passando uma língua-mãe ao expandir-se no mundo, e à medida que os anos e os séculos transcorrem.

 

Não é possível espartilhar uma língua viva num colete-de-forças artificial e grosseiramente político fingindo que a língua-mãe e as línguas-filhas se vão manter sempre iguais e agrilhoadas a um mesmo "acordo", parido por um pequeno grupo de minicérebros demenciais que não entendem o que é o futuro e, dentro da sua pequenês, só vêem uma estreita nesga do presente.

 

Tal como o latim irradiou de Roma para o mundo, o português irradiou de um ponto preciso da Europa, Portugal, e, à semelhança do latim do Império Romano, foi-se instalando em diversas geografias e mesclando-se com as respectivas etnias, línguas aborígenes e culturas, e por conseguinte modificando-se diversamente, consoante as áreas em contacto. É uma lei natural e não há que fugir-lhe.

 

O português falado no Brasil, por exemplo, sobretudo popular, tende cada vez mais a tornar-se uma língua diferenciada, tal como o testemunha o extensíssimo reportório de textos do folclore brasileiro reproduzindo os falares de habitantes do interior do Brasil, em que o português, mesclado com os falares autóctones, se tornou língua própria de vastas e inúmeras comunidades.

 

Como será o português falado e escrito em Angola, no Brasil, em Cabo Verde, em Portugal, em Moçambique, etc. dentro de cem ou duzentos anos? Não sabemos nem é nossa competência sabê-lo e menos ainda adivinhá-lo. Que nos baste o bom senso de observar a realidade que nos rodeia e compreendê-la e saber respeitá-la nos seus múltiplos matizes e naturais mudanças, lidando cautelosamente com as especificidades das suas variantes e diferenças.

 

Ora, isto é tudo quanto há de mais contrário à arrogante e pretensiosa atitude do malparido Acordo Ortográfico que à força bruta quer impor um modelo de grafia sem nenhuma base lógica, linguística, sociológica ou meramente humana que o sustente, uma coisa sem pés nem cabeça que no fundo se pulveriza em vários modelos - e cito apenas dois, porque existem, continuam a existir e até aumentam as diferenças ortográficas entre Portugal e o Brasil (para somente citar estes dois casos), como se pode ver na bem fundamentada exposição da Carta Aberta que em 6 de Janeiro de 2013 foi enviada ao ministro da Educação. Lendo-a, arrepiamo-nos e continuamos a interrogar-nos como foi possível levar a cabo semelhante crime.

 

O que sabemos é que este "linguicídio", como já lhe chamou com trágico humor a Dra. Madalena H. Cardoso, foi perpetrado friamente desde os anos "80 por conhecidos e sonantes nomes da nossa política. Passos Coelho, sem nenhum senso crítico, limitou-se a vir pendurado na última carruagem deste sinistro comboio-fantasma, arrastando a alma linguístico-cultural portuguesa por um trilho de lamacento enxovalho logo trilhado sofregamente pela chusma de interesseiros e/ou bajuladores do costume que esperam sempre lucrar alguma coisa com o delito.

 

Vejam-se por exemplo os mais de 250 canais de TV que nos entram pela casa adentro todos os dias, e cujas legendagens de filmes e séries-TV chegam a desorientar de tão confusas que ficam. Sendo frases curtas, sem contexto literário, tornam-se por vezes num enigma: se vemos duas personagens a correr e uma diz para a outra: "Para aqui", ficamos sem saber se lhe está a dizer que se dirija para aqui (movimento), ou que fique parada aqui (ausência de movimento). Com o maior à-vontade a mesma curta frase pode ter dois significados opostos.

 

Pobre língua portuguesa, esfrangalhada de uma maneira tão boçal como interesseiramente obscura.

 

Língua que já foi grande na sua ascensão, na pena de Gil Vicente, de Camões, de António Vieira, de Pessoa...

 

Consentirão os portugueses na sua queda, agora, por obra desta nova "invasão dos bárbaros" que tudo quer nivelar pelo nível mais baixo, menos nobre e mais rasteiro?»

 

Ex-cineasta, escritor, professor universitário

 

Fonte:

http://www.publico.pt/opiniao/jornal/imperio-da-lingua-portuguesa-ascensao-e-queda-25967430

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:17

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Quinta-feira, 5 de Novembro de 2015

«Império da Língua Portuguesa: ascensão e queda?»

 

Mais um excelente texto de António de Macedo, para reflectirmos a Língua Portuguesa

 

IMPÉRIO.png

(Origem da imagem: Internet)

 

Por António de Macedo

 

«Quando Cristo foi crucificado por volta do ano 30/32 da nossa era, o Império Romano ocupava uma vasta área que abrangia desde a Ásia Menor até à Península Ibérica, incluindo a maior parte da Europa e todo o Norte de África. Com o correr dos tempos, e devido à inevitável vitalidade que as línguas têm como coisas vivas que são, o latim popular falado na Dácia acabou por se transformar no actual romeno, tal como o falado na Itália no actual italiano, na Gália no actual francês, na Hispânia no catalão, castelhano, galaico-português, etc., etc..

 

Durante algum tempo o latim da Roma originária manteve uma aparência de identidade sustentada, sobretudo desde que a Igreja o adoptou como língua eclesiástica e litúrgica antes do início da Alta Idade Média; mas mesmo esse foi sofrendo alterações ao ponto de um estudioso de latim clássico ter dificuldade em entender um texto em latim eclesiástico do século XII ou XIII, por exemplo.

 

Imaginemos que um folgazão dessas eras, insuflado de ideias "ortografistas", se lembrava de tentar impor ao latim de Roma uma "grafia unificada" misturando, com as inerentes "facultatividades", as formas do latim popular gaulês, dácio, lusitano, itálico... Só esta ideia tonta dá vontade de rir, e obviamente nenhum estudioso no seu juízo perfeito a consideraria, a menos que se tratasse de um escritor de ficção científica que inventasse uma novela de "história alternativa" passada num universo paralelo, onde esse caricato fenómeno tivesse ocorrido com todas as suas delirantes (e quiçá interessantíssimas) consequências.

 

Bom, tudo é possível no fantástico universo das ficções, e tal fantasia até poderia dar origem a um trepidante filme em 3-D com imaginosos efeitos especiais e outros truques que encantassem as plateias.

 

Ora, por muito estranho que pareça, é isso mesmo que estamos a viver actualmente: um delírio de "ficção científica alternativa", por obra de uns quantos políticos que decidiram reescrever a nossa história linguística sem atender às naturais e progressivas diferenças por que vai passando uma língua-mãe ao expandir-se no mundo, e à medida que os anos e os séculos transcorrem.

 

Não é possível espartilhar uma língua viva num colete-de-forças artificial e grosseiramente político fingindo que a língua-mãe e as línguas-filhas se vão manter sempre iguais e agrilhoadas a um mesmo "acordo", parido por um pequeno grupo de minicérebros demenciais que não entendem o que é o futuro e, dentro da sua pequenês, só vêem uma estreita nesga do presente.

 

Tal como o latim irradiou de Roma para o mundo, o português irradiou de um ponto preciso da Europa, Portugal, e, à semelhança do latim do Império Romano, foi-se instalando em diversas geografias e mesclando-se com as respectivas etnias, línguas aborígenes e culturas, e por conseguinte modificando-se diversamente, consoante as áreas em contacto. É uma lei natural e não há que fugir-lhe.

 

O português falado no Brasil, por exemplo, sobretudo popular, tende cada vez mais a tornar-se uma língua diferenciada, tal como o testemunha o extensíssimo reportório de textos do folclore brasileiro reproduzindo os falares de habitantes do interior do Brasil, em que o português, mesclado com os falares autóctones, se tornou língua própria de vastas e inúmeras comunidades.

 

Como será o português falado e escrito em Angola, no Brasil, em Cabo Verde, em Portugal, em Moçambique, etc. dentro de cem ou duzentos anos? Não sabemos nem é nossa competência sabê-lo e menos ainda adivinhá-lo. Que nos baste o bom senso de observar a realidade que nos rodeia e compreendê-la e saber respeitá-la nos seus múltiplos matizes e naturais mudanças, lidando cautelosamente com as especificidades das suas variantes e diferenças.

 

Ora, isto é tudo quanto há de mais contrário à arrogante e pretensiosa atitude do malparido Acordo Ortográfico que à força bruta quer impor um modelo de grafia sem nenhuma base lógica, linguística, sociológica ou meramente humana que o sustente, uma coisa sem pés nem cabeça que no fundo se pulveriza em vários modelos - e cito apenas dois, porque existem, continuam a existir e até aumentam as diferenças ortográficas entre Portugal e o Brasil (para somente citar estes dois casos), como se pode ver na bem fundamentada exposição da Carta Aberta que em 6 de Janeiro de 2013 foi enviada ao ministro da Educação. Lendo-a, arrepiamo-nos e continuamos a interrogar-nos como foi possível levar a cabo semelhante crime.

 

O que sabemos é que este "linguicídio", como já lhe chamou com trágico humor a Dra. Madalena H. Cardoso, foi perpetrado friamente desde os anos "80 por conhecidos e sonantes nomes da nossa política. Passos Coelho, sem nenhum senso crítico, limitou-se a vir pendurado na última carruagem deste sinistro comboio-fantasma, arrastando a alma linguístico-cultural portuguesa por um trilho de lamacento enxovalho logo trilhado sofregamente pela chusma de interesseiros e/ou bajuladores do costume que esperam sempre lucrar alguma coisa com o delito.

 

Vejam-se por exemplo os mais de 250 canais de TV que nos entram pela casa adentro todos os dias, e cujas legendagens de filmes e séries-TV chegam a desorientar de tão confusas que ficam. Sendo frases curtas, sem contexto literário, tornam-se por vezes num enigma: se vemos duas personagens a correr e uma diz para a outra: "Para aqui", ficamos sem saber se lhe está a dizer que se dirija para aqui (movimento), ou que fique parada aqui (ausência de movimento). Com o maior à-vontade a mesma curta frase pode ter dois significados opostos.

 

Pobre língua portuguesa, esfrangalhada de uma maneira tão boçal como interesseiramente obscura.

 

Língua que já foi grande na sua ascensão, na pena de Gil Vicente, de Camões, de António Vieira, de Pessoa...

 

Consentirão os portugueses na sua queda, agora, por obra desta nova "invasão dos bárbaros" que tudo quer nivelar pelo nível mais baixo, menos nobre e mais rasteiro?»

 

Ex-cineasta, escritor, professor universitário

 

Fonte: http://www.publico.pt/opiniao/jornal/imperio-da-lingua-portuguesa-ascensao-e-queda-25967430

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:17

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