Domingo, 26 de Setembro de 2021

«O Acordo Ortográfico de 1990 (AO-90) e a incurável azia» - Artigo de opinião enviado ao jornal Público e, naturalmente, não publicado

 

Chegou-me este artigo via e-mail.
Fiquei estupefacta com o facto de depois do tremendo INSUCESSO e do caos ortográfico causado pelo AO90, ainda haja alguém que, sem argumentar coisa nenhuma a favor dele, venha a público dizer o que disse, sem o menor pejo.    

Desta vez não fiquei com azia. Fiquei irritada. Como é isto possível?
Então decidi esmiuçar o que disse Carlos Esperança, autor do texto .

O que está em itálico é dele. O que está a negrito é meu.

Isabel A. Ferreira

Grafia portuguesa vs grafia brasileira.png

A grafia portuguesa que vigora em Portugal vs. a que o governo português nos quer impingir

(Para quem estiver interessado em consultar)

 

Por Carlos Esperança in:

https://ponteeuropa.blogspot.com/2021/09/artigo-de-opiniao-enviado-ao-jornal.html

 

Começando pelo título: sim, o AO90 é tão, mas tão, mas tão intragável que provoca não uma azia, mas uma espécie de azia nefasta a todos os que amam a Língua Portuguesa, e a conhecem muito bem, ou mais ou menos, ou assim-assim. Contudo incurável azia, não! Ela será curada quando o intragável AO90, deixar de ser introduzido, à força, pelas goelas de quem abomina ignorâncias linguísticas, e nem sequer é preciso ser-se linguista. 

 

Quem conhece a grande alteração e uniformização da língua portuguesa, efetuada [em Português efeCtuada] pela Reforma Ortográfica de 1911, não devia solidarizar-se com manifestações de raiva que a perda de algumas consoantes mudas e tímidas alterações provocaram numa sociedade avessa à mudança, independentemente da validade dos argumentos. 

 

Primeiro: a Reforma Ortográfica de 1911 foi elaborada segundo as regras das Ciências da Linguagem, e NÃO porque um punhado de políticos ignorantes e editores mercenários assim o quiseram.


Segundo: as manifestações que existem com a perda de várias CENTENAS (não de algumas) consoantes não-pronunciadas, mas com função diacrítica, e aberrantes (não tímidas) alterações nos hífenes e acentuação, não são de raiva, mas de inquietação pela enormidade da ignorância dos acordistas que não apresentaram UM SÓ argumento racional, portanto VÁLIDO, para defender um tal “Acordo”, que na verdade nem sequer existe, e não porque a sociedade seja avessa à mudança, porque MUDANÇA implica EVOLUÇÃO, e o que aconteceu foi um gigantesco RETROCESSO linguístico, e a sociedade portuguesa é AVESSA sim, a retrocessos. E por que é o AO90 é um retrocesso? Porque pretende que a Língua Portuguesa, bela, elegante e europeia, retroceda a uma variante sul-americana derivada do Português, no que à grafia de inúmeras palavras diz respeito.

 

O misoneísmo, palavra cunhada pelo psicologista [em Portugal psicólogo] italiano César Lombroso, esse horror à novidade, está bem entranhado nos portugueses.

 

Aqui temos algo que apenas por muita má-fé se diz sobre a personalidade dos Portugueses, que, de boa-fé, até aceitam bem as novidades. Acontece que a destruição da Língua Portuguesa não pertence ao rol das novidades. A Língua Portuguesa é o maior Património Cultural Imaterial de Portugal, que não se ajeita a "novidades" assentes na ignorância. Os Portugueses não rejeitaram a caixinha mágica (televisão), os telefones, os telemóveis, os computadores, os hipermercados, os tractores, os frigoríficos, enfim, nunca rejeitaram as novidades que lhes vieram facilitar a vida, mesmo no mundo rural. Rejeitam sim, e nisso fazem muito bem, as “novidades” prejudiciais ao corpo e à mente e à sua intelectualidade, quando lhes querem vender gato por lebre. Que é o caso do AO90.

 

A Reforma Ortográfica de 1911, a primeira iniciativa de normalização e simplificação da escrita da língua portuguesa, foi profunda, numa altura em que o Brasil facilmente a aceitou e as colónias não participavam.

 

Repetindo: o que fez a Reforma Ortográfica de 1911 foi simplificar a escrita, mas NÃO a afastou das suas raízes, das suas origens, da sua História. Os vocábulos não foram mutilados. Passou-se do PH (fonema grego, com o mesmo som da consoante latina F), porque o nosso alfabeto era e continua a ser o LATINO, onde a letra F está incluída, tão incluída que Fernando Pessoa grafava PHarmacia, mas escrevia o seu nome com F. Passou-se de “elle” para ele sem lhe mexer na pronúncia. Passou-se de “lyrio” (com o i grego) para lírio (com o i do alfabeto latino) sem lhe mexer na pronúncia. Todas as consoantes com função diacrítica mantiveram-se, porque se os cês ou os pês fossem suprimidos, a pronúncia deveria modificar-se.

 

O Brasil aceitou (mal) esta reforma, tanto quanto sabemos,  tanto que muitos continuaram a escrever com a grafia anterior a 1911, e logo que puderam, em 1943, os Brasileiros elaboraram um Formulário Ortográfico, que distanciou o Português da sua Matriz, transformando-o na Variante Brasileira da Língua Portuguesa, ainda hoje em vigor, no qual, na sua Base IV, os parideiros do AO90 foram buscar a mutilação das palavras cujas consoantes não se pronunciavam.

 

Tenho enorme consideração por muitos dos que não toleram as pequenas alterações que o AO-90 introduziu, sobretudo quando se trata de cultores da língua, de prosa imaculada na sintaxe e na ortografia que mantêm, mas vejo neles a exaltação de Fernando Pessoa e Teixeira de Pascoais cuja ortografia que estes defenderam repudiariam agora.

 

Como está enganado o senhor Carlos Esperança. O AO90 não introduziu pequenas alterações em Portugal, o AO90 introduziu gigantescas alterações na NOSSA Língua, na forma de grafar, mutilando as palavras que o Brasil já mutilava, desde 1943 (excePtuando as que eles, por algum motivo, continuaram a pronunciar os pês e os cês, como excePção ou aspeCto), e na forma de falar, porque quem escreve afeto (lê-se âfêtu”) e pronuncia afétu, pronuncia mal. Porque aféto só é aféto se levar o C =  afeCto, porque o C tem função diacrítica.

 

A ortografia é uma convenção imposta por lei sem sanções penais, salvo para os alunos, que se arriscam a reprovar se não escreverem como está oficialmente determinado.

 

As ortografias de 1911 e de 1945 até podem ser convenções impostas por LEI, porque essas LEIS EXISTEM. Contudo, a de 1990 não é nem acordo, nem convenção nem coisa nenhuma, porque NÃO EXISTE LEI que obrigue os professores, ou os alunos a escreverem incurrêtâmente a Língua Portuguesa, e se algum professor ou aluno OUSAR ensinar ou escrever correCtamente a sua Língua Materna, as reprovações ou as sanções são ILEGAIS. Só uma LEI poderia sancionar algo que uma simples RCM quis impor, mas como não tem valor de Lei, não pode obrigar. Aliás todos os juristas são unânimes em dizer que o AO90 é ILEGAL e INCONSTITUCIONAL, algo que está mais do que comprovado nos livros que se escreveram a este propósito e que os governantes, Marcelo Rebelo de Sousa incluído, IGNORARAM e continuam vergonhosamente a IGNORAR. Por algum MAU motivo há-de ser.

 

Aos autores da Reforma Ortográfica de 1911, que hoje já ninguém contesta, coube-lhes pôr fim à anarquia ortográfica do país, com 80% de analfabetismo, quando os países do norte da Europa tinham entre 2% e 10%, e normalizar a ortografia. Eminentes filólogos discutiram se deviam seguir o modelo francês, fortemente dependente da etimologia, ou o espanhol e italiano, que seguiam de perto a oralidade.

Optaram por revogar falsas etimologias e, condescendendo com a origem das palavras, deram preferência à oralidade, caminho que embora tímido esteve presente no AO-90.

 

Os autores das Reformas Ortográficas de 1911 e de 1945, que tiveram MOTIVAÇÕES LINGUÍSTICAS NÃO revogaram falsas etimologias, nem condescenderam com a origem das palavras, nem deram preferência à oralidade,  deram isso, sim, preferência à ETIMOLOGIA das palavras. Estas reformas foram feitas com o intuito de diminuir a taxa de analfabetismo então existente no Brasil e em Portugal. Pelo que vemos, não adiantaram de nada, porque tanto no Brasil como em Portugal a taxa de analfabetismo é ainda elevadíssima, e em Portugal é a mais alta da Europa.


O AO90, como não teve nenhuma motivação linguística, mas apenas política e económica, não timidamente, mas DESCARADAMENTE, deu preferência à oralidade, que já vinha do Formulário Ortográfico de 1943, desenraizando e desfeando a Língua Portuguesa. isto é um facto.

 

Há muito que as palavras homógrafas não são necessariamente homófonas, mas duvido que os críticos mais cultos tenham dificuldade em distinguir a fonia das que perderam os acentos e cujos exemplos caricaturais não passam disso mesmo.

 

A acentuação e a hifenização EXISTEM para melhor facilitar a compreensão das palavras e das frases. A ortografia de 1945 tem algumas falhas nesse sentido. Dever-se-iam retomar alguns acentos, para que as frases fossem imediatamente perceptíveis, para quem está a aprender a Língua -  as nossas crianças, por exemplo. Se lhes perguntarmos, como eu já perguntei, o que quero dizer quando digo “ninguém PARA o Benfica”, na aCtual conjuntura, as respostas são as mais óbvias: não há ninguém para o Benfica. E o que eu quis disser foi ninguém PÁRA o Benfica, (porque não perde há sete jogos consecutivos). Se o acento estivesse lá, ninguém teria dúvidas.

 

Lamentável é ver as redes sociais, até jornais, com inúmeros detratores [em Português detraCtores] do AO-90, que explodem de raiva na mais boçal prevaricação ortográfica e ignorância de elementares conhecimentos básicos do idioma cuja ‘nova’ ortografia condenam sem respeitarem a anterior, não sendo este o caso do Público.

 

Em Portugal não há detractores do AO90, nem explodem de raiva. Explodem de tristeza por ver uma Língua tão bela escorrer para o esgoto. O que há é DEFENSORES da Língua Portuguesa.  Os detractores são os que muito servilmente, muito ignorantemente, muito acriticamente aceitaram este “acordo”, que não é “ acordo”  e desataram por aí a escrever uma mixórdia ortográfica (mistura da grafia brasileira com a grafia portuguesa, numa mesma frase) Ex: «o objetivo da acção foi repor os salários em atraso», sim porque em 1943 os Brasileiros passaram a escrever objetivo (que sem o lê-se “ub’j’tivu” de acordo com as regras gramaticais, algo que os acordistas também atiraram ao lixo, até as crianças já sabem disto) , e aCção, como deve ser escrita esta palavra em Língua Portuguesa. “Âção” sem pertence à Variante Brasileira do Português, que em Portugal se lê deste modo.

 

Definida uma grafia, que alguns julgam facultativa, depois de vários anos a ser ensinada de acordo com a lei, qualquer tentativa de regresso é um apelo à anarquia ortográfica e à instabilidade do idioma e das normas jurídicas que o definem.

 

Senhor Carlos Esperança, não é da boa praxe vir para aqui tentar enganar os mais incautos, porque os menos incautos SABEM que a grafia que nos querem impor é ILEGAL, e a qual ninguém em Portugal é obrigado a usar, e foi vilmente ensinada às nossas crianças, que escrevem CAOTICAMENTE, incluindo os governantes, os jornalistas (com excePções do Jornal PÚBLICO e muitos jornais regionais) e todos os que se atiram para aí a escrever acordês/mixordês. Mais caótico do que isto é IMPOSSÍVEL.



As crianças aprenderão mais facilmente a escrever correCtamente a Língua Materna do que estão aprender “incurrêtamente”, tendo em conta que aprendem Inglês e já escrevem um Inglês ACORDIZADO, de tanto escreverem mal o Português. Há quem escreva em Inglês “diretor”, porque foi assim, mutilada, que aprenderam a escrever essa palavra. Isto é inadmissível, e argumentar com a aprendizagem das criancinhas é da estupidez,  pois as crianças têm uma capacidade extraordinária para a aprendizagem de Línguas. O AO90 ficará como MAIS uma língua, a BRASILEIRA, que eles aprenderam, como eu aprendi. Na lista de Línguas que aprendi, está incluída a Brasileira, porque aprendi-a no Brasil, aos seis anos, e quando vim para Portugal, aprendi o Português.  Foi isto que me explicaram aos oito anos. Nunca mais esqueci a lição.

 

E outra coisa, senhor Carlos Esperança, não há normas jurídicas que definem o AO90. Simplesmente NÃO HÁ. Isso é a cassete do ministério dos Negócios Estrangeiros, que os papagaios papagueiam por aí como se fosse verdade. Mas não é verdade.

 

Já é tempo de os jornais que cultivam o imobilismo subversor da legalidade ortográfica se submeterem. O Público não pode continuar a ser o arauto da insurreição ortográfica contra a norma legal que há 12 anos vigora em Portugal e Brasil e observada por autores como José E. Agualusa e Mia Couto, respetivamente [em Português respectivamente] de Angola e Moçambique.

 

O tempo é de os predadores da Língua Portuguesa se recolherem à sua insignificância, e saírem de cena, até porque cada vez há mais gente a abandonar o AO90, por chegar à conclusão de que além de ILEGAL é uma mixórdia intragável que, de facto, provoca azia, e se alguém está a subverter a legalidade são TODOS os que estão a usar uma ortografia ILEGAL. Em Portugal, o que vigora há 12 anos, é uma MIXÓRDIA linguística sem precedentes, e o Agualusa e o Mia Couto, que eu muito prezava, são apenas dois, e mais não fazem do que garantir a publicação dos seus livros nas editoras ACORDISTAS deles. Perderam leitores com essa atitude subserviente. Fale-me de Ondjaki, de Paulina Chiziane e de muitos outros angolanos e moçambicanos que não cederam à falsa miragem acordista.

 

Não é seguramente o facto de o tratado internacional ter sido firmado em 1990 pelo PM Cavaco Silva e promulgado em 2008 por Cavaco Silva (PR) que motiva a obstinação do Público na insurreição ortográfica contra o AO-90, e não se percebe a deliberada teimosia na prevaricação ortográfica. 

  

Quem está a prevaricar são TODOS os que aplicam o ILEGAL AO90. Os políticos e servilistas e seguidistas portugueses são os únicos, do universo da CPLP, que muito servilmente, se arrastam atrás dos milhões, porque sofrem de um absurdo complexo de inferioridade.

 

Não me obriguem a esconder o Público aos netos. Não quero agravar as suas hesitações ortográficas.

Coimbra, 18 de setembro [em português Setembro] de 2021

 

O que deverá esconder aos netos é a MIXÓRDIA que o AO90 veio gerar, e que os obrigaram a aprender. Isso é que é de esconder. Os meus netos SABEM distinguir MIXÓRDIA ortográfica e Língua Portuguesa, e se na escola escrevem “incurrêtamente”, para não serem penalizados (e eles têm essa consciência) cá fora sabem exaCtamente conde estão os cês e os pês, os hífenes e os acentos, nas palavras que escrevem. O PÚBLICO, como todos os outros que não cederam à ignorância e muito inteligentemente não adoPtaram o AO90 sabem que mais dia, menos dia, o AO90 acabará por acabar, e todos os que para tal contribuíram acabarão também a um canto, como os maiores predadores da Língua Portuguesa, desde que Dom Dinis a elevou a Língua de Portugal.  E a esses, ninguém erguerá estátuas ou serão perpetuados em nomes de ruas. Se forem, os filhos dos meus netos e os filhos dos seus netos encarregar-se-ão de as destruir. E os livros acordizados mofarão numa qualquer cave húmida, e desaparecerão, para sempre, da face da Terra.


E a história do AO90 será, então, contada aos vindouros, como uma história de terror, cujos protagonistas serão descritos como gente que, no lugar da cabeça, tinha uma cabaça

 

Isabel A. Ferreira

***

Nota:

Para uma douta opinião, uma pérola, sugiro aos leitores a leitura do artigo que está neste link, sob o título:


Uma lição do Estado Novo Ortográfico

Obedeçam! Submetam-se!

https://oposto.pinho.org/argumentos-legalistas-em-favor-do-4862?fbclid=IwAR0GZuWuDaZZkM_TLjociLjaXAlmOgCqgClP_x2cFGBl4qn0V21HVct9C-Y

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:57

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Segunda-feira, 20 de Setembro de 2021

Quando ouço dizer que o AO90 foi “criado” por Portugueses, e que a Língua Portuguesa é uma “variante”, das duas uma: ou foram beber a fontes de águas muito turvas ou estão de má-fé

 

Comecemos pela criação do AO90, contando a verdadeira história, documentada, do negócio do AO90, uma ideia assente na Base IV do Formulário Ortográfico de 1943, ainda em vigor no Brasil.

 

Formulário Ortográfico de 1943.png

 

Sabendo, como sabemos, que a maior tragédia para Portugal, com a aplicação do AO90, foi OBRIGAR os Portugueses a grafar objetivo, teto, arquiteto, setor, fatura, adoção, direto, objecto, correto, etc., etc., etc., (pronunciando-se tudo isto com as consoantes antecedentes às não-pronunciadas, fechadas, se queremos pronunciar correCtamente) e uma infinidade mais de vocábulos, aos quais mutilaram as consoantes não-pronunciadas, mas com uma função diacrítica, vemos que em 1943, os Brasileiros começaram a escrever precisamente desse modo, como refere a Base IV, e apesar de terem assinado o Acordo Ortográfico de 1945, onde se pretendia unificar a Língua, mantendo-se as consoantes não-pronunciadas, deram o dito pelo não-dito e optaram por grafar os vocábulos mutilando-lhes os cês e os pês, à excepção de uns poucos, como aspeCto, excePção, recePção, infeCção, e as suas derivantes, que os Brasileiros pronunciavam e continuam a pronunciar. Porquê estes e não outros? É um mistério.


Para não se dizer que os Brasileiros não mexiam em nada, no que à grafia dizia respeito, pois se o AO90 mandava mutilar as palavras não-pronunciadas (como haveriam as crianças [e os
crianços, para contentar os que bradam pela linguagem inclusiva] de saber que direCtor tinha um , se não o pronunciavam, não é verdade?) e os Brasileiros já as mutilavam desde 1943, então decidiu-se mexer obtusamente nos hífenes e na acentuação, que têm a função de facilitar a leitura e compreensão das palavras, complicando essa mesma função e criando horrendos abortos ortográficos.  E os hífenes e a acentuação seriam a única mexedela na grafia para os Brasileiros, se aplicassem AO90, sendo a grande tragédia, para eles, a supressão do trema. E com toda a razão.

 

Uma investigação minuciosa e criteriosa, publicada pelo Jornal O DIABO em 05/12/2015, mostra, preto no branco, a negociata, que envolve o AO90, a qual está a conduzir à decadência da Língua Portuguesa, apenas porque uns “intelectais” (o termo é este mesmo) mercenários decidiram querer que sete países (Portugal, ) que mantinham e ainda mantêm, à excepção de Cabo Verde, uma ortografia normalizada, clara e escorreita, começassem a grafar à brasileira uma infinidade de palavras.

 

E para os que ficam com urticária quando se diz grafar à brasileira, é mesmo grafar à brasileira, porque, como se vê na imagem, a partir de 1943, os Brasileiros começaram a grafar objetivo, teto, arquiteto, setor, fatura, adoção, direto, objeto, correto (etc., etc., etc.), e, como aprendi a ler e a escrever no Brasil, era deste modo que eu escrevia estas e todas as outras palavras com consoantes não-pronunciadas. À portuguesa grafa-se objeCtivo, teCto, arquiteCto, seCtor, faCtura, adoPção, direCto, objeCto, correCto (etc., etc., etc.) abrindo-se as vogais, porque estas consoantes têm uma função diacrítica.

 

E, se bem que nada tenhamos contra a grafia brasileira (e que isto fique aqui bem claro) que pertence unicamente ao Brasil e aos Brasileiros, e faz parte da norma linguística da Variante Brasileira da Língua Portuguesa, a qual os políticos (não, os linguistas) brasileiros escolheram para o Brasil, não podemos aceitá-la como nossa, porque além de não ser nossa, retira Portugal do seu contexto Europeu, uma vez que a Língua de um Povo é a sua identidade, e nós não somos Brasileiros, e quem não quer perceber isto, só pode estar imbuído de muita má-fé.

 

Nesse artigo de fundo, O DIABO começa por dizer o seguinte:

 

«O projecto, nascido da cabeça do intelectual esquerdista brasileiro Antônio Houaiss, foi desde o início um empreendimento com fins lucrativos, apoiado por uma poderosa máquina política e comercial com ramificações em Portugal.

 

A ideia, é certo, nasceu na cabeça de um académico esquerdista, o brasileiro Antônio Houaiss, que contou em Portugal com o providencial auxílio do linguista Malaca Casteleiro. Viajemos, então, no tempo e procuremos a génese de todo o processo, que nas últimas três décadas tem enchido os bolsos a um grupo restrito de autores e editores.

 

O português mais distraído talvez pense que um colégio de sábios bons e eminentes terá decidido um dia, após longos anos de estudo e investigação, proceder à reforma do sistema ortográfico da Língua Portuguesae que os governos dos países lusófonos, tendo-se debruçado sobre o assunto com o auxílio ponderado de gramáticos e lexicógrafos, terão conscienciosamente aprovado essa tão bem preparada reforma. Mas o português distraído estaria redondamente enganado.

(…)

Segundo o testemunho do escritor português Ernesto Rodrigues, professor da Faculdade de Letras de Lisboa, publicado no seu ‘blog’ na Internet, “Antônio Houaiss e Malaca Casteleiro dinamizavam, desde 1986, um projecto de acordo ortográfico”. Este fora sugerido, em primeiro lugar, no ano anterior, por Houaiss, que até aí fizera carreira como autor de versões brasileiras de dicionários enciclopédicos e dirigira, havia pouco, um “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa” (1981).

(…)

Em 1985, Antônio Houaiss era apenas um intelectual de esquerda com uma ambição: compor um dicionário da Língua Portuguesa que ombreasse com o famoso “Dicionário Aurélio”, da autoria de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, que desde a sua primeira edição, em 1975, já vendera até então mais de um milhão de exemplares. Mas Houaiss confrontava-se com uma “pequena” dificuldade técnica: para ultrapassar as marcas de Aurélio, o seu dicionário teria de galgar as fronteiras do Brasil e impor-se em todo o mundo lusófono como obra de referência. E para tanto era preciso “unificar a Língua”…

 

Esta é a verdadeira história da criação do AO90.

 

O artigo completo, onde se conta toda a negociata e fraude do AO90, investigadas pel’ O DIABO pode ser consultado neste link:

http://jornaldiabo.com/cultura/acordo-ortografico-negocio/

 

***

Vamos agora à dita “variante europeia” do Português:

 

Ouço muito por aí falar no Português de Portugal (que é, de facto e de direito, de Portugal, pois foi Portugal que lhe deu o nome e a forma) como variante europeia do Português. Só que, uma linguagem, que ascendeu a Língua, jamais poderá ser variante, se é a genetriz das variantes que por aí vão surgindo! Isto é como dizer que a Mãe da Isabel descende da Isabel, quando é a Isabel que descende da Mãe dela.

 

A Língua Portuguesa é O Idioma. O que se fala e escreve nos outros países, ditos lusófonos, é que são as VARIANTES da Língua Portuguesa. A Língua Portuguesa, se tem de ser chamada de “variante” que seja Variante Portuguesa do Latim, que é a genetriz das Línguas Românicas, na qual o Português se inclui. Mas essa variante já ascendeu a Língua, como a Variante Brasileira ascenderá, muito brevemente. 

 

Porque a palavra VARIANTE (o mesmo que dialecto  - há quem não goste que se diga isto, mas procurem nos dicionários e vejam o significado de variante e de dialecto) linguisticamente falando, significa uma DERIVAÇÃO que uma determinada comunidade ou povo criou a partir de um determinado Idioma, na pronúncia, na grafia, no léxico, na sintaxe, na morfologia, na semântica, afastando-se da raiz desse Idioma. Que foi o caso do Brasil, ou de Cabo Verde, com o seu Crioulo Cabo-verdiano, hoje língua oficial de Cabo Verde, ou de alguns ex-territórios portugueses da Ásia. E não cito os restantes países de expressão portuguesa, porque esses não desvirtuaram a Língua, apenas a enriqueceram com um léxico local e nacional.


Como é que a Língua Portuguesa é uma VARIANTE, se ela é a GENETRIZ de todas as variantes que se criaram a partir dela?

   

Não há meio de entenderem isto? Isto ofenderá o Brasil? Isto terá alguma coisa a ver com xenofobia e racismo, de que às vezes me acusam? Os que assim agem, desconhecem, por completo, o significado de variante, de racismo, de xenofobia.

 

Desconhecem igualmente o que passa no Brasil, onde um aluno português, ou inglês ou de qualquer outra nacionalidade, tem de aprender a escrever e a falar à brasileira, para poder estudar e ter boas notas nas escolas. E eu penso que essa exigência deve ser feita, de outro modo, numa turma onde estivessem várias nacionalidades, falar e escrever seria uma balbúrdia. Em Roma sê romano. É o que todos fazem, quando assentam arraiais em terras estrangeiras.

 

Surpreende-me ouvir falar da variante europeia da Língua Portuguesa, quando a Língua Portuguesa é simplesmente A Língua Portuguesa, a Língua que foi gerada em PORTUGAL, a Língua que identifica Portugal, que é um país europeu, que deu novos mundos ao mundo, e andou por aí a espalhar a sua Língua, a sua Cultura. Porque é que isto incomoda certos senhores?



Surpreende-me também que se recusem a LER, a investigar, a raciocinar, apenas porque têm medo de que lhes chamem xenófobos,  outra palavra mal aplicada neste contexto.

 

O que aqui está em causa não é o Brasil, nem os Brasileiros, nem a Variante Brasileira da Língua Portuguesa, nem o pseudo anti-brasileirismo, porque o anti-brasileirismo não existe. O que existe é um sentimento de preservação da NOSSA Cultura, que é riquíssima, tão rica como a dos Brasileiros.  

 

O que não há necessidade é de se FUNDIR as duas Culturas, porque são duas entidades diferentes, e que assim continuem, para que a riqueza de ambas perdure ad aeternum.

 

O que aqui está em causa é uma negociata idealizada pelo brasileiro Antônio Houaiss, que chamou à liça o linguista português,  Malaca Casteleiro,  que,   muito finoriamente (que Deus o tenha em descanso) lá conseguiu convencer os desinformados e complexados e subservientes políticos portugueses, tanto do PS (não esquecer que tudo começou com Mário Soares, depois José Sócrates, António Costa, Augusto Santos Silva) como do PSD (Aníbal Cavaco Silva, Santana Lopes, Marcelo Rebelo de Sousa) tão desinformados e complexados como os políticos marxistas brasileiros, entre eles Lula da Silva.

 

Talvez por vingança, ferido no seu brio, pelo insucesso do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, editado pela Academia das Ciências de Lisboa, que lhe mereceu muitas críticas, ou por outro motivo qualquer, João Malaca Casteleiro passou de linguista a negociante da Língua, conseguindo passar a mensagem de que este era um bom “negócio”.

 

Mas não foi. No Brasil ninguém lê autores portugueses, a não ser, obviamente, uma elite intelectual muito restrita; a Língua Portuguesa já não é ensinada nas escolas, substituíram-na por “Comunicação e Expressão”, que é para o que serve agora; o Grupo LEYA, com o fito de ganhar milhões, implantou-se no Brasil, mas já de lá saiu. Em Portugal, ninguém lê autores brasileiros, e nem sequer estão à venda nas Feiras dos Livros.

 

Há um muito insalubre virar-de-costas entre Brasil e Portugal, que o AO90 só veio agravar.

 

O que está aqui em causa é a ditadura do Acordo Ortográfico de 1990, imposta aos Portugueses pelos políticos, sem os consultarem, não tendo sequer em conta a opinião dos linguistas portugueses (por onde andarão eles? Emigrariam?) Não queremos o AO90, não serve os interesses dos Portugueses. Aliás, não serve os interesses de nenhum país da CPLP. Apenas serve os interesses dos poucos que encheram os bolsos à custa desta obscura negociata.

 

O caos ortográfico continua, cada vez mais agravado. O pacto de silêncio, por parte dos actuais predadores-mor da Língua (SS, PM, PR) continua. E na campanha eleitoral, em curso, ninguém aborda este gravíssimo problema nacional. Temos aí um novo ano escolar, com manuais cheios de erros ortográficos. As crianças continuarão a escrever e a ler incorrectamente, os pais não dizem nada, e resta um punhado de desacordistas a tentar salvar a Língua Portuguesa, em cima de um pedaço de madeira, em alto mar revoltoso. E isto é uma tarefa hercúlea. Mas havemos de conseguir matar o monstro.

 

E é assim que Portugal está orgulhosa e parvamente só, na aplicação de um “acordo” essencialmente político, tão político que está nas mãos do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto S. S. pôr ou não pôr fim a esta vergonhosa subserviência. Um dia, ele disse (está publicado algures): «Se eu quisesse acabava com o AO90. Mas não quero». Pois não quer. É muito cioso das obrigações que tem para com os estrangeiros, em detrimento das obrigações que tem para com os Portugueses e para com Portugal.  Querem atitude mais ditatorial do que esta? Isto não dirá tudo deste (des)acordo?


Penso que seria da racionalidade que, os que andam por aí sempre a criticar quem LUTA contra o AO90, apresentando actos e factos, deixassem o que não interessa, e se fixassem no fundamental:  exigir e obrigar o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, o primeiro-ministro António Costa e o ministro dos Negócios DOS Estanheiros, Augusto Santos Silva, que têm como aliados e cúmplices os professores, a libertarem a Língua Portuguesa, que está perversamente agrilhoada ao mostrengo AO90.


Isabel A. Ferreira

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:48

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Terça-feira, 24 de Agosto de 2021

Reduzir a língua escrita ao modo de dizer, não tendo em conta a etimologia das palavras, é um acto de incultura

 

ASPETO.PNG

 

A legenda desta imagem (retirada do documentário “Primeiras Civilizações”, na RTP 1) lê-se do seguinte modo, de acordo com as regras gramaticais da Língua Portuguesa: «u fâtôr âtrâtivo érâ u âspêto sucial».

 

Se alguém for capaz de me demonstrar, através de argumentos relacionados com as Ciências da Linguagem ou com a Evolução da Língua que as palavras a negrito têm alguma relação com a cultura linguística portuguesa, eu atiro a toalha ao chão, [não esquecer que passámos de ella para ela, porque a supressão de um dos L não mudava a pronúncia, nem o sentido do vocábulo, e isto é que se encaixa na linha evolutiva da Língua].

 

Aqui há tempos, perguntei a um determinado líder político, qual a posição do seu Partido acerca do AO90.

 

A resposta veio assim, via e-mail: “Eu, pessoalmente, escrevo e continuarei a escrever como sempre escrevi, mas o Partido, constituído maioritariamente por gente mais jovem, entende que a língua é um organismo vivo em evolução, portanto, estando o AO90 nessa linha evolutiva, optaram por aplicá-lo».

 

Esta seria a resposta perfeita, se o AO90 tivesse alguma coisa (ainda que muito remotamente) a ver com a linha evolutiva da Língua. Que é um organismo vivo, é verdade. Mas que retroceda de Língua para Variante dela própria, já nada tem a ver com vida ou com evolução, mas somente com um retrocesso assente numa espantosa ignorância.

 

Acontece que o AO90 nada tem a ver, nem de perto nem de longe, nem pouco mais ou menos, com evolução alguma. Muito menos da Língua.

 

E porquê?

 

Simplesmente porque o AO90 não foi engendrado a partir de motivações evolucionistas da Língua, ou assente nas Ciências da Linguagem, mas tão-só em interesses económicos de uns tantos editores/livreiros brasileiros e portugueses (reparem que eu não incluo aqui os africanos de expressão portuguesa, porque esses não foram para ali chamados) e, por arrasto (porque nestas coisas de interesses económicos sempre se vai por arrasto), de uns tantos políticos portugueses que, sem o menor pejo, patriotismo ou sentido de Estado, decidiram vender a Língua Portuguesa, culta e europeia (é bom referir este pormenor) ao Brasil e impor ilegalmente, vergonhosamente, impatrioticamente, a ortografia de 1943, adoptada unilateralmente pelo Brasil, e adaptada em 1990, à qual retiram uns acentos e uns hífenes , e chamaram-lhe Acordo Ortográfico de 1990,  algo tirado, à força, da ignorância mais profunda sobre a Língua Portuguesa, um dos maiores símbolos da Identidade de Portugal, aquele que exprime o ser e o sentir de todo um povo, porque sem a Língua, expressão oral e escrita, como saberíamos dos feitos tão excelentemente cantados por Luís Vaz de Camões?

 

A Língua de um povo diz da dignidade desse povo. Não pode ser o simples linguajar que os iletrados utilizam para se comunicarem entre si.

 

Quis o destino que Portugal, por ser um pequeno país, entalado entre o Oceano Atlântico e a gigantesca Espanha, ousasse rasgar as águas desse mar, em busca de outros mundos, para poder sobreviver.

 

Quis igualmente o destino que os Portugueses fossem um povo destemido e dotado para as marinhagens, e que «navegando mares nunca dantes navegados», de légua em légua, foram descobrindo terras, nelas se fixando e deixando a “marca” de Portugal.

 

Não caberá aqui discutir o mérito ou o demérito da colonização portuguesa, que não foi nem pior nem melhor do que a dos outros povos colonizadores.

 

Chegados aqui, falemos da Língua que deixámos aos povos que foram sendo colonizados, e que, no caso do Brasil (o grande responsável pela disseminação do mau Português, perdoem-me os meus quase compatriotas brasileiros, mas isto é um facto) foram primeiramente os indígenas (os mais genuínos daqueles que vieram a denominar-se brasileiros), e depois os colonos portugueses e de muitas outras origens, que foram assentando arraiais no gigantesco território que os Portugueses conseguiram tornar seu.

 

Até 1822, o Brasil (achado em 1500) existiu sob o “domínio português”. Mas depois desta data, já com brasileiros de terceira geração, libertaram-se desse domínio, e o que os recém-libertos fizeram com essa liberdade, também não é agora para aqui chamado.

 

O que é para aqui chamado é que esses brasileiros, por vontade própria, adoptaram a Língua Portuguesa como língua oficial (e poderiam ter escolhido qualquer uma das muitas línguas indígenas que então existiam) a qual foi sendo enriquecida pelo léxico autóctone e dos vários povos que no Brasil se foram fixando, incluindo o riquíssimo léxico africano, levado pelos escravos.

 

E isso foi muito bom para a Língua Portuguesa.

 

O que não foi bom foi o facto de, a dada altura, os políticos marxistas brasileiros, avessos ao colonialismo (como se pudessem mudar a História) para baixarem o elevado índice de analfabetismo,  decidirem simplificar e deslusitanizar arbitrariamente, a língua escrita, retirando-lhe as consoantes mudas, sem terem a mínima noção de que, ao fazerem-no, estavam pura e simplesmente a mutilar a língua, introduzindo palavras que antes tinham nexo e, bruscamente, por mera vontade política, deixaram de não ter sentido, nem origem, nem história, e transformaram-se em erros ortográficos (e passo por cima dos outros erros, incluindo os da concordância, espelhados também na linguagem oral). 

 

Além desta mutilação, castelhanizaram, italianizaram, americanizaram, afrancesaram a Língua Portuguesa, de tal forma que ela deixou de ser portuguesa e passou a ser uma mescla de várias línguas, algumas delas traduzidas à letra (e disto há inúmeros exemplos que ando a catalogar).

 

E são precisamente essas palavras mutiladas e mescladas, sem qualquer motivação científica ou evolucionista, que os políticos portugueses impatriotas e completamente desinformados (se é que me entendem) impingiram aos portugueses mais servilistas e acríticos, porque sim, por teimosia, por ignorância, por meros interesses económicos, por conveniências políticas obscuras.

 

Concluindo: não existe, nem pode coexistir um Português de Portugal e um Português do Brasil.

 

O Português é Português em qualquer país lusófono. Ponto final.

 

Dentre os oito países que fazem parte da Lusofonia (Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau, Cabo Verde e Timor) apenas o Brasil desvirtuou a Língua Portuguesa, e não foi por motivos evolucionistas, como já referi.

 

O Português, dito do Brasil, não é mais do que uma Variante do Português, na sua versão mais pobre, ortograficamente falando, porque desenraizada da sua matriz culta greco-latina. Mas não só.  Também na Fonética/Fonologia, no Léxico, na Morfologia, na Sintaxe, na Semântica, a Língua que se fala e escreve no Brasil já é outra Língua - uma Variante da Língua Portuguesa.

 

Não existe um Português de Angola, ou de Moçambique ou de Cabo Verde, ou da Guiné, ou de São Tomé e Príncipe, ou de Timor.

 

O que há é muitos modos de dizer. A expressão oral pode variar até de cidade para cidade, dentro de um mesmo país. Mas não a escrita. A escrita é a portuguesa.

 

Os Brasileiros até podem dizer “mulé”, “muié”, “mulherrr”, mas se escreverem mulher, escrevem correCtamente.

 

Não critico o modo de falar de nenhum povo, se bem que falar bem não fica mal a ninguém.

 

Reduzir a língua escrita ao modo de dizer, não tendo em conta a etimologia das palavras, é um acto de incultura.

 

É triste, muito triste, vermos a nossa bela Língua Portuguesa escrita por aí, em documentos oficiais, nas televisões (as maiores divulgadoras da Língua deturpada), em jornais e revistas (salvo raras excepções), em  livros de (alguns) escritores menores, com a puerilidade de uma criança que acaba de se sentar nos bancos da escola primária, para aprender as primeiras letras, e junta-as conforme as ouve:

 

«Çaberão vóçax eisçelênciax u tamanhu da inurmidade da vóça falta de cunheçimentu da língua purtugeza [aqui o U não se lê, daí ser purtugeza, à moda acordista]?»

 

Tenham vergonha na cara, tenham dignidade, tenham a hombridade e a coragem de restituir a Portugal a ortografia portuguesa. Poderemos não ser milhões, mas somos milhares, e não nos embaraça nada ser uma das línguas minoritárias da Europa. Atrás do Português estão o Finlandês, o Dinamarquês, o Sueco. E estes três povos sofrem de algum complexo de inferioridade por causa disso? Obviamente que NÃO. Os Portugueses também NÃO!



Apenas os políticos portugueses e os seus servis seguidores, sofrendo desse complexo, arrastam-se atrás dos milhões, ainda que façam figura de parvos, e sejam gozados, por isso, em toda a parte.

 

Isabel A. Ferreira

***

 

Nota marginal:

 

Crítica de Pedro Luís Azevedo a este texto no Grupo «Em ACção contra o Acordo Ortográfico»

 

Discordo absolutamente da opinião da autora sobre um suposto abastardamento linguístico da nossa língua comum pela variante brasileira face à geratriz portuguesa.

Ambas têm rigorosamente a mesma valia. Há muitas palavras que, não fosse o Brasil, teriam desaparecido da língua viva portuguesa.

E muito mais.

E acho um erro crasso criar divisionismos artificiais na luta contra o "A"O90, até porque muitos expoentes da cultura brasileira rejeitam igualmente o aborto ortográfico.

 

Defesa do texto pela autora Isabel A. Ferreira

 

Pedro Luís Azevedo o senhor tem toda a liberdade de discordar da autora do texto.

Eu, pela minha parte, concordo com o senhor: a Língua Portuguesa e a Variante Brasileira da Língua Portuguesa têm, de facto, a MESMA VALIA: a Variante Brasileira da Língua Portuguesa tem valia no Brasil; a Língua Portuguesa tem valia em Portugal e nos países lusófonos que não aderiram ao AO90, assente na ortografia brasileira de 1943.

Aqui não se trata de criar divisionismos. Aqui há que defender a Língua Portuguesa, de Portugal, e a Variante Brasileira, do Brasil, que é o que fazem os expoentes da Cultura Brasileira, que MUITO prezo, porque no Brasil o aborto ortográfico limita-se aos acentos, nomeadamente ao trema, e hífenes, cuja supressão criou palavras HORROROSAS. Em Portugal são os acentos, os hífenes e a GRAFIA (que no Brasil ficou impoluta, e em Portugal foi mutilada, nada tendo a ver com a nossa Cultura linguística greco-latina.)

Quanto às muitas palavras que, não fosse o Brasil, teriam desaparecido da Língua viva portuguesa, há muitas, muitas outras que foram americanizadas, afrancesadas, italianizadas, castelhanizadas e deixaram de ser portuguesas. Certo?

Nada contra a Variante Brasileira. Tudo contra a imposição da Variante Brasileira aos Portugueses. E é isto que aqui está em causa.

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:55

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Sábado, 7 de Agosto de 2021

Portugal vs. Brasil: a ignorante Isabel A. Ferreira responde à sábia Cristiellen

 

Comentário no post O que talvez não se saiba sobre o AO90 e é crucial saber, para não se fazer papel de parvo

 

Que vergonha de texto. Quanta xenofobia! A “variante brasileira” é cultural. E deve ser respeitada tanto quanto a lingua raiz. Percebe-se bem que você entende pouco da língua e suas nuances, descriminar o português falado no Brasil é discriminar o povo e sua cultura, o que é crime. Também nao concordo com o acordo, como também nao concordo que o português “brasileiro” nao seja aceito em Portugal. Seus argumentos só sustenta uma ignorância predominante aqui em Portugal, a falta de respeito e a soberba com outros povos. Retrato.

 

Cristiellen a 1 de Agosto 2021, 02:25

 

mucolinho_sabios_sao_aqueles_que_partilham_seus_co

 

(Para bom entendedor...)

 

Cristiellen, vamos aos factos, porque FACTOS não são FATOS:

 

Mas antes de ler esta minha resposta ao seu comentário, aconselho-a a consultar, num bom dicionário de Língua Portuguesa, o significado da palavra XENOFOBIA. E a propósito poderia pesquisar também o significado de LUSOFOBIA, que se adapta perfeitamente ao que o Brasil fez com a Língua Portuguesa, algo que mais nenhum país, dito “lusófono”, que adoptou o Português como língua oficial, fez.

 

Facto 1: A VARIANTE BRASILEIRA da Língua Portuguesa (NUNCA esquecer que PORTUGAL é o BERÇO da Língua Portuguesa) é muito cultural, sob o ponto de vista da Cultura Brasileira, aliás, riquíssima, mas muito mal apoiada e divulgada, por falta de uma política cultural elevada, obviamente por culpa dos políticos, e esse “cultural” ninguém contesta. E obviamente que essa VARIANTE deve ser respeitada como Língua do Brasil, e isto também ninguém contesta.

 

Facto 2: se você tivesse lido o texto com olhos de VER e não apenas de olhar (e olhe que estou a ser delicada, porque poderia adjectivar esta sua “leitura” de outro modo), não diria este absurdo: «percebe-se bem que você entende pouco da língua e suas nuances, descriminar o português falado no Brasil é discriminar o povo e sua cultura, o que é crime». Minha cara, o que é CRIME é pegar na Língua Portuguesa (a língua de outro povo) e DESLUSITANIZÁ-LA, americanizando-a, afrancesando-a, castelhanizando-a, italianizando-a, mutilando-a, afastando-a das suas raízes indo-europeias, por motivos POLÍTICOS bastante OBSCUROS, e continuar a chamar-lhe LÍNGUA PORTUGUESA. Chamem-lhe Língua Brasileira, porque portuguesa ela já não é, incluindo na fonética/fonologia, na sintaxe, no léxico, na morfologia, na semântica. Mas pior do que isso é tentar impingir aos Portugueses essa VARIANTE, quando Portugal TEM uma Língua europeia íntegra: a sua própria Língua.

 

Facto 3: a VARIANTE BRASILEIRA do Português é ACEITE em Portugal, (não ACEITA) desde que falada pelos Brasileiros. Se os Brasileiros frequentam escolas portuguesas terão de aprender PORTUGUÊS, tal como EU tive de aprender BRASILEIRO quando estudei nas escolas brasileiras, que não aceitavam e não aceitam o NOSSO Português. Se os Brasileiros forem estudar para Inglaterra terão de aprender Inglês, não é verdade? É que a VARIANTE BRASILEIRA do Português está tão distanciada do NOSSO Português, que já é OUTRA Língua.

 

Facto 4: a ignorância predominante não está em Portugal, nem a falta de respeito e a soberba com outros povos, como você diz, também não está em Portugal, até porque nas escolas portuguesas estudam Ucranianos, Indianos, Chineses, Franceses, entre outras nacionalidades, que se integram perfeitamente, porque não têm a pretensão de serem MAIS do que nós e exigir MORDOMIAS. Quando vamos para um país estrangeiro, dançamos conforme a música desse país. Foi o que EU fiz no Brasil. E SEM REFILAR, porque refilar, nessa circunstância, é da IGNORÂNCIA. Não vamos MUDAR a NOSSA Cultura apenas para fazer o jeito aos estrangeiros, nem a tal somos obrigados. E quem não estiver bem, que se mude. Nenhum estrangeiro jamais mudou a sua CULTURA para fazer o jeito a quem emigra. Nunca ouviu dizer que «em Roma sê romano»? Pois em Portugal seja portuguesa, como eu fui brasileira, no Brasil, e adorei. Até porque 80% da minha família é BRASILEIRA.

 

Posto isto, e porque FACTOS não são FATOS, fique lá com a sua sabedoria, que eu ficarei com a minha IGNORÂNCIA.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:04

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Segunda-feira, 28 de Junho de 2021

A questão não é quem é o “dono” da Língua Portuguesa. A questão é que nenhum povo, que a adoptou como “língua oficial”, tem o direito de a destruir e continuar a chamá-la de “portuguesa”

 

Considerações ao redor da Língua Portuguesa, que está na berlinda, por ser a única Língua do mundo abandonada à sua má sorte.

 

Nenhuma outra Língua foi tão açoitada como a Língua Portuguesa, que anda por aí mal-tratada, mal-ensinada, mal-escrita, mal-falada, graças ao mal-parido AO90, assente maioritariamente na grafia brasileira, e na falácia dos milhões de falantes, contra os milhares que a escrevem e falam correCtamente.

 

ACORDAI!.png

(Alusão ao belíssimo poema do poeta José Gomes Ferreira, Acordai! musicado por Fernando Lopes Graça, um hino à inércia de um povo que, placidamente, aceita a sua má sorte).

 

Carlos Reis, ensaísta e professor português, “especialista” em estudos queirosianos [?)] e defensor acérrimo do AO90, em 2015 (*) disse esta verdade de la palisse: "não temos de falar como os brasileiros". Na verdade, não temos. Mas também não temos de ESCREVER como eles. Ou temos?

 

Num artigo publicado no PÚBLICO, no passado sábado, sob o título «Académicos no Reino Unido debatem descolonização da língua portuguesa» (**), Luís Gomes, co-organizador e professor de Português na Universidade de Glasgow, diz o seguinte: «Em certa medida, ainda há uma sensação de que Portugal é o dono da língua portuguesa, quando, na verdade, a maior parte dos países que falam português têm mais falantes do que Portugal, salvo algumas excepções. É uma questão que está muito presa na língua portuguesa, mais do que noutras línguas, como o inglês”».

Contudo, o que é ser “dono” da Língua? Todas as línguas têm um berço: são filhas dos Países onde foram geradas.  A Língua é como aquele filho que, apesar de solto no mundo, e de ter gerado os seus próprios filhos, noutros lugares, não deixa de pertencer aos Pais que o conceberam, os quais não sendo os “donos” dele, são a sua raiz, a sua origem, a sua fonte, a sua alma, em suma, a sua genetriz.

 

Portanto, esta coisa de dizer que Portugal não é o dono da Língua, nem sequer se põe. Portugal não será o dono da Língua, mas a Língua Portuguesa é pertença de Portugal, o seu berço.  O berço da Língua Portuguesa não é, pois, nenhuma das ex-colónias portuguesas que ao adoptarem a Língua Portuguesa, como língua oficial, geraram as suas próprias variantes (filhas), e não há nada que possa mudar a circunstância genética da Língua, porque foi em Portugal que ela nasceu, como Língua Portuguesa, pela mão de Dom Dinis.  E isto é um facto que não pode ser desprezado. Daí que cada país deva ficar com a Língua ou variante da Língua que gerou.  

 

Porém, por conveniências político-jurídico-económicas, surge a ideia peregrina e delirante de que lá por existirem o tais milhões de falantes, que se apoderaram da Língua e a destruíram (porque de destruição se trata não tendo sequer esse direito), por serem muitos, há que impor aos milhares que a escrevem e falam correCtamente, nos quatro cantos do mundo, um mal-engendrado  acordo ortográfico, que apenas Portugal, cega e servilmente, tenta cumprir.   

 

Os milhares de Ingleses, ou Espanhóis, ou Franceses, que também espalharam pelo mundo as suas respectivas Línguas, jamais permitiriam que elas fossem desenraizadas e destruídas, apenas porque também é falada por milhões.

 

José Saramago.png

 

Como diz José Saramago (cuja memória está a ser insultada, com a acordização da sua obra) «Uma língua que não é defendida, morre».

 

Sabemos que a Língua Portuguesa está a morrer, e que a intenção é matá-la e enterrá-la de vez.

 

Estas são as vozes contra a extinção da Língua Portuguesa

 

O que andam a fazer todas estas vozes, que não as ouço gritar bem alto, contra esta infame tentativa de assassinato do nosso mais precioso património identitário?

 

***

Nota marginal:

 

Há quem ande no Facebook a dizer (porque serve os interesses acordistas)  que quem acredita, como eu, que um Acordo Ortográfico (mesmo que mal-amanhado, como foi este de 1990) consegue EXTERMINAR a Língua Portuguesa, não sabe nada de idiomas; e até me mande escrever poesia ou romances de terror, mas que não fale do que não sei.

 

Coitado, o que pretende, quem assim fala, é que eu não fale do que SEI, porque não lhe convém, nem a ele, nem aos que ele serve, sem a mínima cultura crítica.

 

A Língua Portuguesa  terá os dias contados, sim, nas mãos daqueles que acham que nada sei de idiomas. Na verdade, nada sei dos idiomas que desconheço. Mas sei da Língua Portuguesa e do que os seus predadores são capazes de fazer e de dizer para acabar com ela.

 

ACORDEM, Portugueses!

 

 

Isabel A. Ferreira

 

(*) ver notícia aqui
https://expresso.pt/sociedade/2015-05-12-Carlos-Reis-um-defensor-do-Acordo-Ortografico.-Nao-temos-de-falar-como-os-brasileiros

 

(**) ver notícia aqui

https://www.publico.pt/2021/06/26/culturaipsilon/noticia/academicos-reino-unido-debatem-descolonizacao-lingua-portuguesa-1968070

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:34

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Segunda-feira, 29 de Março de 2021

Engana-se quem diz que o Português é a Língua mais falada no Hemisfério Sul e arredores

 

Há quem queira esticar a corda, para parecerem muitos, e justificar uma unificação de grafias que jamais acontecerá. E há também quem tenha a alucinante pretensão de que a NOSSA Língua Portuguesa venha a ser uma Língua oficial da ONU. Poderia até ser se esses “milhões” de pretensos falantes, falassem, de facto, Português. Mas não falam.

 

A matemática dos “milhões”, que serve de base ao insano AO90, peca por estar muito aldrabada. Se não vejamos por que é uma falácia dizer que “milhões” falam Português. Se bem que os oito países lusófonos, que integram a eivada de colonialismo e inútil CPLP, tenham (ainda) a Língua Portuguesa como Língua Oficial.

 

lingua-portuguesa-no-mundo.png

Imagem: Reprodução

 

Porém, de facto, o único país onde se fala, quase a 100% Português, é Portugal, tendo o Mirandês também como Língua oficial. A estas duas Línguas acrescentem-se os dialectos Madeirense e Açoriano. E, no mundo, falar-se-á Português, onde quer que exista uma comunidade portuguesa, se bem que as novas gerações sejam, no mínimo, bilingues: falam a Língua dos Pais e a do País que os acolheu.

 

De resto, eis o que na realidade se passa:

 

- No Brasil, fala-se o Crioulo Brasileiro, oriundo do Português; a acrescentar a este, existem mais 274 línguas diferentes, faladas pelas 305 etnias indígenas; a estas, juntem-se mais as seguintes línguas regionais, bem enraizadas no quotidiano brasileiro:  Alemão, Castelhano (nas áreas fronteiriças), Hunsrik, Italiano, Japonês, Polaco, Ucraniano, Inglês, Pomerano, Talian, Chinês e Coreano.

 

- Em Cabo Verde fala-se o Crioulo Cabo-verdiano, oriundo da Língua Portuguesa, usado no quotidiano das pessoas, como Língua oficial, e o Português, como Língua estrangeira.

 

- Em Angola a Língua oficial é a Portuguesa, contudo a maioria da população angolana fala, como primeira língua, algumas das línguas angolanas, a saber: o Umbundo, o Kimbundu, o Quicongo, o Chócue, o Nganguela, o Kwanyama, além de dezenas de outros dialectos.  

 

 - Em Moçambique a Língua oficial é a Portuguesa, mais utilizada no meio urbano. Contudo, existem 43 línguas nacionais, das quais 41 são línguas Bantu, faladas no meio rural, as quais me abstenho de mencionar por serem demasiadas.

 

- Na Guiné-Bissau predomina o Francês, nas universidades (por motivos de vizinhança) e o Crioulo da Guiné-Bissau, oriundo do Português, é a língua franca da Guiné-Bissau, e é falado por cerca de 70% da população total do país.

 

 - Em São Tomé e Príncipe, o Português como língua oficial é falado apenas virtualmente pela população, porque o que predomina são os crioulos desenvolvidos a partir do Português como o Forro, o Angolar e o Principense. Mas também é ali bastante falado o Crioulo Cabo-verdiano, o Português dos Tongas e resquícios de Línguas do grupo Bantu. Contudo, actualmente, o Francês e o Inglês são também profusamente falados no país.

 

- Em Timor-Leste, de acordo com a Constituição do país, o Tétum, que sofreu influências da Língua Portuguesa (uma Língua de elite em Timor), é a Língua Nacional, mas também Língua Oficial, que partilha com o Português. A estas, juntam-se mais as seguintes quinze Línguas Nacionais faladas pelo povo timorense: Ataurense, Baiqueno, Becais, Búnaque, Cauaimina, Fataluco, Galóli, Habo, Idalaca, Lovaia, Macalero, Macassai, Mambai, Quémaque e Tocodede. 

 

- Na Guiné-Equatorial, metida à força, no grupo dos países da CPLP, por questões meramente economicistas, NÃO SE FALA Português, mas sim o Castelhano e o Francês. Aqui tem-se a pretensão de criar escolas para se aprender o Português. Mas qual Português? Obviamente o Crioulo Brasileiro, oriundo do Português, aliás já bastamente disseminado pela Internet, com a bandeira brasileira.

 

- Em Macau já pouco se fala Português, a Língua predominante aqui é o Mandarim.

 

***

Feitas bem as contas, a Língua Portuguesa nem pouco mais ou menos é falada pelos “milhões” que, falaciosamente, os predadores da Língua Portuguesa (brasileiros e portugueses) propagam, para justificar a imposição (ilegal) do AO90.

 

O facto é que tudo bem espremidinho, e tendo em conta que Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste não ratificaram o AO90, e que Cabo Verde tem o Crioulo Cabo-verdiano como primeira Língua, e São Tomé e Príncipe está-se nas tintas para o AO90, quem sobra para defender o indefensável? O Brasil, o mais interessado nesta questão, pois é a sua VARIANTE que circula por aí, e o muito servilista Portugal. E tendo ainda em conta que apenas uma fatia seguidista de Portugueses aplica o AO90, pretender que a Língua Portuguesa tenha a importância que lhe querem atribuir, no plano internacional, é da mais cristalina estupidez.


E sim, concordo com o que diz Olavo de Carvalho.

 

Olavo de Carvalho.jpg

 

Ao suficientemente idiota que apareceu no Brasil, somam-se os idiotas portugueses que, deslumbrados com os falsos “milhões” de falantes, e imbuídos do complexo de inferioridade que os faz rastejar aos pés do gigante, andam por aí a justificar o Acordo Ortográfico de 1990, com a colossal e imbecil falácia da defesa do papel da Língua Portuguesa à escala internacional.

 

Que papel? Que Língua Portuguesa?  A quem querem enganar e fazer de parvos?

 

E pensar que a Língua Portuguesa, GENETRIZ de toda esta diversidade e riqueza de Crioulos, que disseminou pelo mundo, está a ser empobrecida, esmagada, reduzida a uma insignificante imitação ridícula e imperfeita da Língua que já foi, dá-me ímpetos de maldizer todos (os que obrigam e os que se dizem obrigados a…, mas não são) os que estão a contribuir para este monstruoso retrocesso linguístico, sem precedentes na História de Portugal.

 

E citando Maria Alzira Seixo, ao comentar uma publicação no Facebook: «Obrigar as pessoas a escrever mal, nem o próprio Salazar o teria feito. Até porque Salazar sabia escrever, ao menos».

 

Isabel A. Ferreira

 

Nota: artigos que me levaram a escrever este texto:

Português, a língua mais falada do Hemisfério Sul

https://jornaleconomico.sapo.pt/noticias/portugues-a-lingua-mais-falada-do-hemisferio-sul-419517

A casa da lusofonia: riqueza linguística

https://eltrapezio.eu/pt-pt/opiniao/a-casa-da-lusofonia-riqueza-linguistica_18416.html

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:17

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Segunda-feira, 22 de Março de 2021

Vamos lá a ver se os acordistas entendem esta explicação que se daria a um aluno da escola básica

 

 

PENSAR.png

 

Na palavra pré-1945, chronographo, que pós-1945 se grafa cronógrafo (pessoa que escreve crónicas) o que mudou? Mudou apenas a grafia, com a supressão do H (que não fez falta alguma) a substituição do PH pelo F (som e letra existente no alafabeto latino/português) e a acentuação da sílaba tónica, sem, contudo, modificar a pronúncia e o significado da palavra.

 

Exemplo:

 

Na palavra coacção (acção ou resultado de coagir), que os brasileiros e agora os portugueses seguidistas, ou seja, aqueles que seguem ou são defensores incondicionais de uma ideia ou teoria, sem nunca se questionarem ou fazerem juízos de valor, escrevem “coação”, o que mudou?

 

Mudou tudo: a grafia, a pronúncia e o significado.

 

Grafia: eliminou-se o que, embora não se pronuncie, tem uma função diacrítica, ou seja, tem a função de um sinal gráfico (acentos, til, cedilha).

 

Pronúncia: neste caso o Cê, que não se pronuncia, tem a função de um acento agudo, e abre o A “cuáção”. Ora, se lhe retiramos o , a palavra “coação” (de coar + sufixo ação) passa a ler-se “cuâção”, se quisermos ser gramaticalmente honestos.

 

Significado: logo, a supressão do leva-nos para a palavra coação (cuâção) que significa acção ou resultado de coar, de filtrar um líquido ou um qualquer preparado, um qualquer produto obtido de uma manipulação química ou farmacêutica, ou mesmo uma filtragem linguística.

 

Exemplo: «Malaca Casteleiro, andou a fazer uma coação à Língua Portuguesa, e impingiu aos Portugueses o resultado dessa coação, ou seja, palavras coadas, numa grafia despida de sentido real e de estética (porque as palavras não são apenas som, são também imagem), deixando no coador as consoantes, que até podem não ser pronunciadas, mas não são mudas, porque falam da Morfologia das Palavras, ou seja, da parte da Gramática que trata da forma e dos processos de formação das palavras.»

 

E esta coação, este acto de coar as palavras do léxico português,  é algo que me intriga no Malaca Casteleiro. E das duas uma: ou ele, apesar de se dizer linguista, não é linguista (teria tirado o curso à Relvas?), ou andou mel a pingar no charco…

 

Nota: a explicação dada para a palavra coacção serve para todas as outras palavras "coadas" pelo AO90, ou seja, as palavras às quais foram suprimidas as consoantes não pronunciadas, mas com função diacrítica, mudando a grafia, a pronúncia e o significado delas.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 11:38

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Domingo, 14 de Março de 2021

Ninguém, em Portugal, tem o direito de exigir que se escreva uma Tese de Mestrado aplicando a mixórdia ortográfica ILEGAL, que dá pelo nome de AO90

 

De uma mestranda, recebi o e-mail que aqui reproduzo, com a resposta que lhe dei.

 

É preciso desfazer mitos.

 

É preciso desmascarar os predadores da Língua Portuguesa.

 

É preciso pôr os pontos em todos os is do inútil, do inconstitucional, do ilegal, do imbecil, do incongruente, do indecifrável, do ignaro, do ignóbil, do irracional, do injusto, do impreciso, do impraticável, do improcedente, do improvisado, do impróprio, do impugnável, do inaceitável, do  inaplicável, do incoerente, do incómodo, do irritante, do inconcebível, do inconspícuo, do inconsistente, do incorrecto, do ineficiente, do inexacto, do inacreditável, do inaceitável, do ignominioso, do infame, do injustificável, do inoportuno, do insano, do insultuoso AO90.  

 

António Machado Pires.jpg

 

Cara Isabel

 

Muito obrigada pela sua exposição, no blogue da sapo, sobre a irrazoabilidade do novo acordo ortográfico. 

 

Concordo plenamente consigo, mas vou mais longe... Acho-o perigoso.

 

Perigoso porque segue a senda do facilitismo (preceito comum ao nosso ensino hodierno). Não interessa saber expressar uma opinião, correcta e coerentemente, interessa debitar palavras, sem risco de cometer uma gafe. Interessa mitigar fronteiras para que possamos acolher os nossos irmãos transatlânticos, sem que eles tenham a pesadíssima tarefa de se adaptar a uma língua estranha e mística (falhou este intento, visto que conheço brasileiros que não entendem o "nosso" português falado).

 

Na altura da transposição falavam do perigo eminente da morte da língua portuguesa?! Não somos nós 10 milhões de cidadãos para a continuar a falar e a cuidar? Ou terá sido lobbying das editoras que poupam nos custos de terem de fazer uma edição para Portugal e outra para o Brasil entenda o português que (não) fala?

 

Mas divago.... A razão de lhe escrever é a de indagar se sabe porque razão a iniciativa popular foi "abafada". Eu só com o seu artigo tomei conhecimento da dita.... Com muito pesar meu, pois acredito que cometemos um crime ao deixar que a moda se instalasse.

 

Estou a preparar a minha tese de mestrado (em ramo do direito- ramo por excelência tradicionalista), e exigem ser aquela escrita segundo o AO. Barbaridade.... Vou evocar objecção de consciência e apresentar a dita em português... De Portugal... Tal como me foi muito bem ensinado, desde a escola primária e que tanto prezo. Vou receber represálias, mas... Fico de consciência limpa.

 

Muito, muito obrigada por, passado tanto tempo desta incongruência ter sido cimentada, continuar a lutar pelo que é a real língua portuguesa.

 

Com votos de elevada consideração e estima

 T. F.

 

***

Cara T. F.,

 

Agradeço a sua mensagem.

 

Começo por dizer-lhe que concordo consigo: o AO90 é perigoso, em todos os sentidos.

 

E nada tem a ver com a falsa intenção de unir Portugal e Brasil através da Língua, porque até o mais analfabeto dos cidadãos sabe que jamais isso seria possível. Aqui a questão é meramente política. Não, uma política elevada, obviamente, mas uma política da mais rasteira. Muito, muito rasteira.



E nem sequer também nasceu para pouparem os custos de terem de fazer uma edição para Portugal e outra para o Brasil, porque o que se publica em Portugal não circula no Brasil, e o que se publica no Brasil não circula em Portugal.

 

É tudo uma monumental falácia para enganar os ceguinhos.

 

Pois o que tenho a dizer-lhe quanto à razão de a iniciativa popular estar a ser “abafada” é o seguinte: a política vigente é a do quero, posso e mando, ainda que viole a lei. O Parlamento está a violar a Lei que rege as ILCs, bem como está a violar a Constituição da República Portuguesa quanto à aplicação ilegal e inconstitucional do AO90, referida por TODOS os juristas, que já se debruçaram sobre o assunto.

Mas, nesta ditadura socialista, disfarçada de democracia, em que Portugal vive, os que governam têm o privilégio de violar tudo e mais alguma coisa, sem que se sentem no banco dos réus, porque se algum dia a JUSTIÇA portuguesa decidir cumprir a LEI, e culpar os governantes envolvidos nesta FRAUDE, chamada AO90, o Parlamento é capaz de mudar a Lei, a favor deles, como o querem fazer, por exemplo, na questão do aeroporto do Montijo. Os pareceres, em ambos os casos, são TODOS negativos, mas o que importa, se são eles que têm a faca e o queijo na mão, até para mudarem as leis, se as leis não lhes convierem?

 

Nesta questão do AO90, comentem-se vários crimes.  Entre eles:

 

1 - O primeiro, e o mais grave, é o Crime de Lesa-Infância, ao obrigarem as nossas crianças a “aprenderem” uma mixórdia ortográfica ilegal, que nada tem a ver com a Língua Materna delas.

 

2 – O segundo, é o Crime de Lesa-Língua, ao substituírem a grafia portuguesa, pela grafia brasileira, com objectivos obscuros e impraticáveis, e acrescentando-lhe vocábulos desenraizados da Língua-Mãe, transformando-a na maior mixórdia linguística do Mundo.

 

3 – O terceiro, é o Crime de Lesa-Pátria, ao destruírem a Língua Portuguesa, vector de Identidade Nacional e Património Cultural Imaterial do nosso País, empurrando Portugal para a perda da Soberania Nacional, uma vez que o português acordizado, abrasileirado e amixordizado, que por aí circula, já não nos identifica, nem nos representa.

 

Daí que, cara T. F., ninguém, em Portugal, tem o direito de exigir que escreva a sua Tese de Mestrado na mixórdia ortográfica ILEGAL, que dá pelo nome de Acordo Ortográfico de 1990.

 

A T. F., como cidadã portuguesa, tem o direito de escrever a sua Tese na sua Língua Materna original, e não conforme a ortografia amixordizada que lhe impingiram, inconstitucionalmente. 

 

Se a importunarem, quando apresentar a sua tese correCtamente escrita, peça que lhe mostrem a LEI que a obriga a escrever segundo a cartilha do AO90, tendo em conta que Lei NÃO É a Resolução do Conselho de Ministros 8/2011, 2011-01-25 que, ilegalmente, determinou (não OBRIGOU, porque apenas uma LEI OBRIGA) a aplicação do AO90.

 

Obviamente que poderá evocar a objecção de consciência e o direito à resistência, ambos direitos consignados na Constituição da República Portuguesa.

 

Há muitos mestrandos que se opuseram a escrever incorrectamente a sua Língua Materna, e nada lhes aconteceu, porque, na verdade, não existindo Lei que a tal obrigue, quem se recusar a aplicar a grafia ilegal, está a cumprir a Lei, ou seja, o Decreto 35.228, de 8 de Dezembro de 1945, vigente em Portugal, porque não foi revogado. E só uma lei revoga outra lei. Não uma RCM.

 

Por fim, quero dizer-lhe que esta incongruência não foi cimentada, como refere. Parece que foi, mas não foi. Há milhares de Portugueses, não só em Portugal, como por esse mundo fora, a manter intacta a Língua Portuguesa, porque a Língua Portuguesa NÃO É a mixórdia que circula na Internet, nos rodapés dos telejornais, nas legendas dos filmes que passam na televisão, nas traduções de livros acordizadas, nem nas obras de escritores acordistas, nem aquela linguagem que as nossas crianças estão a (des)aprender nas escolas, criminosamente.

 

Essa é a mixórdia linguística portuguesa, apenas usada pelos seguidistas, pelos servilistas, pelos comodistas, pelos acomodados e pelos ignorantes optativos de Portugal. 

 

 

A Língua Portuguesa está preservada com os muitos, muitos milhares de Portugueses LIVRES que a escrevem correCtamente, e que a ensinam aos mais novos. É o que também faço com os meus netos, que aprendem acordês e Inglês na escola, e Português, em casa. E sabem que o acordês é para esquecer, quando tiverem idade para dizer NÃO!

 

Mas até lá, cara T. F., o mundo dará muitas voltas, e os predadores da Língua Portuguesa, numa dessas voltas, cairão no chão, atacados pela putrescência dos seus actos ignaros, e o AO90 será finalmente atirado para o caixote do lixo.

 

Com as minhas saudações desacordistas,

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:46

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Domingo, 7 de Fevereiro de 2021

Sabiam que o filme português “Snu”, da realizadora portuguesa Patrícia Sequeira, é baseado em “fatos” reais?

 

Sou cinéfila desde que me conheço. Gosto de ver (bons) filmes principalmente aos fins-de-semana. Para tal vou gravando os que mais me interessam, dos poucos que vão aparecendo. E este fim-de-semana vi três filmes, dos quais tenho muito que contar.

 

Começo pelo filme Snu (de 2019) - a história de amor de Francisco Sá-Carneiro e Snu Abecassis, uma boa história, muito bem contada.

 

Devo dizer que gostei bastante do filme. Boas interpretações de Inês Castel-Branco (Snu) e Pedro Almendra (Sá-Carneiro), mas também do restante elenco, com especial destaque para Ana Nave, fabulosa, na pele de Natália Correia, e para Joana Brandão, na fugaz cena como Manuela (Ramalho) Eanes. Adorei. Gostei da música, gostei do guarda-roupa, da fotografia, da história, enfim, um bom filme, que recomendo.

 

Como gosto de saber tudo sobre os filmes que vejo, leio sempre a ficha técnica (desde que a mostrem, o que nem sempre acontece). E estava eu muito contente, porque entre a pobreza fílmica com que a TVCine costuma brindar-nos, encontrei o “Snu”,  e quando estava quase a chegar ao fim do genérico, leio que o filme é baseado em fatos reais.

 

Fiquei verde.

 

Para mim, e para qualquer português que tenha estudado Português, um fato real é o que vemos na imagem: fatos de princesas, de príncipes, de reis de rainhas…

 

Fatos reais.jpg

 

Sendo Snu um filme português, realizado por uma portuguesa, e produzido pela SkyDreams, cuja equipa é portuguesa, e patrocinado pela RTP, aqueles “fatos reais” representaram um murro no estômago, e soaram-me a ignorância.

 

Se fosse possível, a SkyDreams deveria corrigir imediatamente este grave e feio erro, porque de um grave e feio erro se trata.

 

Grave e feio erro porquê?

 

Porque, em Portugal, FATO (vocábulo originário talvez do gótico fat) é um nome masculino que significa vestuário, conjunto de peças de roupa, traje completo masculino composto de casaco, colete e calças ou apenas de caso e calças, ou traje feminino formado por saia e casaco, tudo geralmente do mesmo tecido.

 

Mas também noutro registo, FATO pode ser um rebanho, nomeadamente de cabras, intestinos, vísceras de gado, bando, quadrilha, móveis e haveres.

 

Nada que tenha a ver com o filme Snu. Ainda se o guarda-roupa do filme estivesse ligado a trajes usados pela realeza!!! Mesmo assim, seria descabido.

 

***

 

Agora vamos aos verdadeiros faCtos, em que o Snu deveria ter-se baseado, e não se baseou.

 

FaCto é um nome masculino oriundo do Latim factum, que significa aquilo que se fez, façanha, acontecimento, proeza, aCto, feito, coisa realizada…

 

Posto isto, em Portugal, é verdade que há quem troque os bês pelos vês, e há também quem troque os faCtos por fatos, apenas porque os Brasileiros, em 1943, decidiram, muito erradamente, suprimir as consoantes que ELES não pronunciavam, num infinito número de vocábulos (com o objectivo de simplificarem a escrita, para diminuírem o índice elevado de analfabetismo) entre eles, faCto, juntando a isto o faCto de ELES, os Brasileiros, usarem ternos (do Latim ternus = “três” = conjunto de três pessoas ou de três objectos semelhantes = trio; carta de jogar ou dado com três pintas) e que no Brasil, e apenas no Brasil é um traje masculino composto por casaco, calças e colete do mesmo tecido, que tem correspondência no FATO português, angolano, moçambicano, guineense, são-tomense, cabo-verdiano e timorense.

 

Daí que, eles, os Brasileiros,  não pronunciando o de faCto, e usando ternos em vez de fatos, FATO, embora erradamente, para os Brasileiros, e apenas para os Brasileiros,  significa aquilo que se fez, façanha, acontecimento, proeza, aCto, feito, coisa realizada…

Para os Portugueses, terno, do Latim tener, significa tenro, mole, delicado, suave, brando, que mostra afecto ou carinho, sensível… Mas também conjunto de três pessoas ou de três objectos semelhantes = trio; carta de jogar ou dado com três pintas, se nos ativermos a “ternus” (três). Nunca referente a vestuário.

 

Ora chegados aqui, porque haveremos nós, Portugueses, de trocar os faCtos (até porque pronunciamos o ) pelos fatos brasileiros, unicamente brasileiros, a não ser por uma profunda ignorância da Língua Portuguesa?

 

E atenção! Os Brasileiros são livres de fazer o que bem entendem com a VARIANTE brasileira do Português, porque a VARIANTE é deles. Só não podem pretender que os restantes países lusófonos comecem a aplicá-la, porque eles são milhões, e os restantes são milhares, número, no entanto suficiente, para garantir o futuro da Língua Portuguesa, no mundo, sem a obsessão mórbida de querermos que o nosso Português seja, à força, uma das Línguas mais faladas neste mundo.

O facto é: os Portugueses NÃO TÊM de imitar os Brasileiros, até porque eles, apesar de dizerem que a Língua oficial deles é a Portuguesa, distanciaram-se tão substancialmente de tudo o que puderam distanciar-se no que ao léxico português diz respeito, que construíram uma outra Língua: a deles. E sobre isto, nada contra.



Só para se ter uma ideia, aqui fica uma amostrinha do que eles dizem e nós não dizemos:

 

Virada do ano; coalizão/coalização; campesinos, apoiadores; festejos natalinos; cargos de vereança; ônibus; trem; bilhão; caminhão; latição; deletar; xampu; celular; bala (rebuçado); bonde; carro conversível (descapotado); prefeitura/prefeito; bunda; calcinha; história em quadradinhos (banda desenhada); ponto de ônibus; açougueiro; banheiro (quarto-de-banho); comissária de bordo; aluguel; registro; geladeira; grampeador; suco, e um sem-número de outros vocábulos mais.

 

Pretende-se que escrevamos setor, diretor, ator, objeto, arquiteto, teto porquê? Se nunca diríamos: os apoiadores do prefeito, não querem ver nos cargos de vereança gente que fizesse uma coalização com os campesinos, e por isso foram protestar, nos seus carros conversíveis, para a porta da prefeitura?

 

***


Vi também um outro filme, cujo título em Inglês é «Woman IN Gold» (de Simon Curtis – 2015, protagonizado por Helen Mirren), e que os “tradutores” (?) da TVCine traduziram (MAL), para «A Mulher DE Ouro» e os brasileiros, também MAL, para: «A dama dourada», o que desvirtua o «Retrato de Adele Bloch-Bauer», «The woman IN gold» ou “The lady IN gold», pintura a óleo e folhas de ouro, do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt. Adele nem é de ouro, nem é dourada. Adele é de carne e osso, mas está em ouro, está entre o ouro, está cercada de outro, conforme pode ser visualizada na imagem.

 

Gustav Klimt.png

 

O filme é óptimo. Com interpretações fabulosas. Uma história incrível. Porém, a tradução do título e a legendagem são péssimas.

 

Quando regressaremos às legendagens com qualidade? 

 

Por falar em legendagens com qualidade, vi também o filme «Marie Antoinette», um drama histórico escrito e dirigido por Sofia Coppola, com a actriz Kirsten Dunst, no papel de Marie Antoinette.

 

Como o filme é de 2006, um tempo em que a Língua Portuguesa ainda era a Língua Portuguesa, e as traduções e legendagens dos filmes estavam entregues a pessoas qualificadas para tal, não tive de me enervar, ao ver que as falas do filme correspondiam às palavras das legendas, escritas em Bom Português.

 

Não sei quem tutela as coisas da nossa Língua. Talvez os Ministros da Cultura ou da Educação ou do Ensino tivessem uma palavra a dizer. Contudo, actualmente, não temos quem nos valha nesta questão, pois todos os nossos Ministros e até o presidente da República e os deputados da Nação (salvo raras excepções) deixaram-se deslumbrar com os milhões, e adoptaram a variante brasileira, não tendo a noção de que a variante brasileira da nossa Língua não nos representa, nem a nós, nem aos países africanos de expressão portuguesa.

 

A Língua Portuguesa está a esfarrapar-se a uma velocidade alucinante!

 

E isto é bastamente desprestigiante para Portugal.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:12

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Sábado, 9 de Janeiro de 2021

«Tanta entrevista aos candidatos a PR, e nem uma só vez foram confrontados com a sua posição em relação ao Acordo Ortográfico de 1990!»

 

Um pertinente texto de Elisabeth Henriques, obrigatório ler, para se poder reflectir na sua mensagem, com a qual estou totalmente de acordo.

 

O AO90 é um tema tabu para os órgão de comunicação cocial, ou melhor, estão proibidos de o abordar.

 

oscar_wilde_o_jornalismo_moderno_tem_uma_coisa_a_s

 

Por Elisabeth Henriques

 

«Poderia dizer muita coisa a respeito de tal "jornalismo", que ignora uma das questões mais fracturantes da nossa sociedade, sobre a qual se pronunciaram (e continuam a pronunciar-se) as maiores figuras da Cultura portuguesa. Sobre a qual foram assinados manifestos e petições contra. Sobre a qual, sempre que foram empreendidos inquéritos à opinião pública, o NÃO ganhou com uma votação estrondosa, da ordem dos noventa e tal por cento.

 

Poderia realmente dizer muita coisa. Mas, sinceramente, é difícil classificar tal atitude jornalística. Uma atitude que, ao fim e ao cabo, traduz apenas a INÉRCIA generalizada de um povo, que permanece impassível perante a paulatina destruição da sua Língua, uma língua centenária e de tantos pergaminhos; destruição essa claramente constatada no dia-a-dia, em que vemos o Português substituído por um "brasileirês/mixordês". Nas televisões, nos jornais, nas revistas, nos livros, nas legendas dos filmes, nos jogos online, para não falar nas dobragens dos desenhos animados. Quando se vê "dobrado em português", depara-se com o português falado pelos brasileiros! Supostamente, o "acordo" pretendia unificar e prestigiar o Português. Em vez disso, conseguiu praticamente acabar com ele, substituindo-o pelo linguajar do colonizado, misturado com um arremedo de si mesmo.

 

Parabéns (muito cínicos) aos seus fautores!

 

Poderia realmente dizer muita coisa, mas vou optar pelo termo inglês "disgusting". Numa altura em que também os anglicismos abundam, talvez não melindre tanto...»

 

Fonte:

https://www.facebook.com/elisabeth.lh/posts/10214938398573585?comment_id=10214941440729637&reply_comment_id=10214941528971843&notif_id=1610210240360283&notif_t=comment_mention&ref=notif

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:09

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