Domingo, 16 de Maio de 2021

Quando a Língua e a História de Portugal se cruzam com a Língua e com a História do Brasil o resultado não pode ser pior

 

Sempre foi assim, desde as minhas andanças por terras do Brasil.

 

A questão é: porquê ainda tem de ser assim, passados tantos anos?

 

Não há qualquer motivo, para que seja assim, mas sendo, e como quem não se sente, não é filho de boa gente, nem honra o País da sua origem, nunca deixei, nem deixo barato as falsidades e as afrontas à Cultura, à Língua e à História portuguesas.

 

E desta vez não foi diferente. Recebi dois comentários afrontosos, e o que fiz foi simplesmente defender a minha Bandeira – a Portuguesa.

Fiz mal?

Isabel A. Ferreira

 

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Carlos comentou o post Portugal e Brasil: dois países, duas línguas... às 11:00, 14/05/2021 :

 

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***

 

Carlos, vou ater-me, também de forma respeitosa, mas muito realista, apenas ao seu último parágrafo = trivial discurso de um brasileiro que se preza de o ser: «Só gostaria (ou gostava) de deixar uma dica, de forma respeitosa e sátira, em breve o Brasil vai colonizar Portugal que Portugal passará a se chamar "Brasil do Norte" e ainda falará o idioma "brasileiro de Portugal". Brincadeiras a parte, grande abraço e bom trabalho

 

Satírico ou não, brincadeiras à parte, ou não, o Carlos diz que gostaria (tempo futuro) ou gostava (tempo passado) de deixar uma dica, a dica que tantas vezes EU, nas minhas andanças pelo Brasil, num PASSADO, já bem passado, ouvi demasiadas vezes, para acreditar que num futuro, que já é PRESENTE, poderia acontecer: o de, um dia, Portugal poder ser colonizado pelo Brasil, a modos de vingança, por não se designar Inglaterra. O que ainda não se sabia era como o fazer.

 

Mas lá chegou um tempo em que os marxistas brasileiros, eivados de um ódio lunático por tudo o que fosse colonial, colonialismo e colonizadores, lembraram-se de estroncar a História comum aos dois países, pulverizando-a com asquerosas mentiras, que introduziram nas Escolas (que eu frequentei), começando aqui a vingança; e colonizar Portugal através da destruição da Língua Portuguesa, a qual Antônio Houais se apressou a deslusitanizar (o termo é dele).

 

Entretanto, o sonho da “Língua Brasileira”, preconizado por alguns intelectuais brasileiros, num passado distante, acordou do sono profundo em que estava mergulhado, quando uns tantos idiotas, entre pseudo-linguistas, políticos ignorantes e editores mercenários, engendraram e puseram em marcha o Acordo Ortográfico de 1990, pensando com isso que iriam “conquistar” Portugal, esquecendo-se que nem Napoleão Bonaparte, que fez três tentativas, o conseguiu. E o que os bravos Portugueses de antanho fizeram com os generais de Napoleão, os bravos Portugueses hodiernos continuarão (porque a acção já começou) a fazer com os novos candidatos a colonizadores.

 

E eis-nos chegados ao tal futuro, que já é presente, onde  se estrebucha para manter essa colonização de Portugal, através da Língua, que, por CONVENIÊNCIA, ainda se chama portuguesa, mas que os Brasileiros, logo que possam, mudarão para BRASILEIRA.



Todos sabemos que esse dia chegará, entretanto, Portugal libertar-se-á dos colonos brasileiros e deixá-los-á livres e felizes com a VARIANTE BRASILEIRA do idioma português, e a Língua Portuguesa regressará às sua origens, ao seu território ibérico, dure o tempo que durar esse regresso, porque nos corre nas veias o sangue dos nossos bravos antepassados, que nunca permitiram que nem Castelhanos, nem Franceses, nem Ingleses, usurpassem o pequeno (em território) País que nos deixou Dom Afonso Henriques.

 

Um grande abraço, também para si.

Isabel A. Ferreira

 

***

 

- - - - - respondeu ao seu comentário no post «Opinião sobre “Contestação do Livro “1808” de Laurentino Gomes” de autoria de Isabel A. Ferreira» às 10:02, 14/05/2021 :

 

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***

 

Gostaria de trocar ideias com quem tivesse um nome.

 

Não é o caso, ainda assim, vou responder, porque este comentário está eivado do ódio dos marxistas brasileiros, por tudo o que é colonial, colonialismo e colonizadores, então lembraram-se de estroncar a História comum aos dois países, pulverizando-a com asquerosas mentiras, como as que aqui relata, as quais introduziram nas Escolas brasileiras (que eu frequentei, por isso SEI), começando aqui a vingança, por Portugal não se designar Inglaterra.


Quando o Brasil se tornou independente, ficou INDEPENDENTE, e isto significa que os brasileiros poderiam ter acabado com a mentalidade colonizadora, mas não tiveram CAPACIDADE para o fazer. E a culpa NÃO É dos Portugueses hodiernos.

 

Seja quem for que está por traz deste comentário diz que é «extremamente contra julgar o passado através dos valores éticos e morais da actualidade, e não fez mais do que julgar esse passado à luz dos valores do tempo hodierno, ao dizer que é mais contra «quem não assume os erros cometidos no passado». Quais erros é que os Portugueses da actualidade cometeram, num passado que nem sequer viveram? Num passado em que todos os colonizadores colonizavam quase do mesmo modo, e digo quase, porque os Portugueses foram os menos agressivos.


De que INVASÃO do Brasil fala? Isso é linguagem de marxista IGNORANTE, porque os há com sabedoria.

 

O Brasil foi invadido por Holandeses, Franceses, Ingleses, mas NUNCA por Portugueses. Não sabia? Então fique a saber.

 

A história que vos contam nas mal-amanhadas escolas brasileiras é uma história de carochinha, muito eivada de uma ignorância da mais pura. Devia ter vergonha de envergonhar o Brasil com a sua desmedida ignorância.

 

O Brasil pós-independência foi afectado, sim, mas pela INCOMPETÊNCIA dos que não souberam aproveitar essa LIBERTAÇÃO, para se verem livres do jugo do colonizador. Em vez de aproveitarem a libertação, encolheram-se num complexo de colonizados, o complexo de inferioridade, o complexo de vira-lata (de que fala Nelson Rodrigues) que vos incapacitou de CRESCEREM como país e como povo. Agora querem pôr a culpa para os colonizadores? Olhem por vós abaixo. Vejam o que estão a fazer aos indígenas: invadem a terra deles, como se fossem os novos colonizadores, os verdadeiros INVASORES. Ao menos os portugueses nunca os expulsaram das suas terras. Os verdadeiros DONOS do Brasil são os indígenas. Os outros, vocês, vieram por acréscimo.

 

A sua insistência na INVASÃO do Brasil é demonstrativa de uma ignorância atroz. Quando os Portugueses chegaram às terras que depois baptizaram de Terras de Santa Cruz, o BRASIL NÃO EXISTIA. Nem o Brasil nem os brasileiros, que hoje atacam os indígenas e lhes querem tomar as terras, que são deles, por DIREITO. Isso não vos ensinam nas escolas? Mas deviam ensinar.

 

Nenhum português hodierno se enaltece por aquilo que eram os VALORES daquela época, e válidos para TODOS os outros povos colonizadores.

Nós ORGULHAMO-NOS pelo nosso feito de dar novos mundos ao mundo, não nos orgulhamos das barbaridades cometidas por TODOS os que colonizaram territórios nessa época: Ingleses, Holandeses, Franceses, Espanhóis (só estes EXTERMINARAM três civilizações avançadas, da época: a Inca, a Asteca e a Maia).


Olhe, vá estudar HISTÓRIA do Brasil nos livros escritos por HISTORIADORES, e não nos livros escritos por imbecis ignorantes, que não têm a mínima noção da infinitude da ignorância deles.

 

Só quando os brasileiros ignorantes (porque os há com saber) se dignarem estudar a HISTÓRIA tal como ela é, e não através da lupa fosca de marxistas ignorantes, talvez a relação Brasil/Portugal possa levar outro rumo.



Ah! E não se esqueçam: DEIXEM de INVADIR (aqui sim, o termo é este) os territórios dos INDÍGENAS BRASILEIROS, os verdadeiros donos desses territórios, dos quais os Portugueses nunca os expulsaram. Deixem os Indígenas em paz. Estamos no ano 2021 d. C., e não no ano de 2021 a. C.

 

E quando quiser comentar, sugiro que vá à certidão do seu nascimento, (se é que a tem) e veja o nome que lá consta, para o USAR com legitimidade, nos comentários.

 

E saiba que a sua falta de discernimento e saber, neste comentário, é um INSULTO ao Brasil e ao Povo Brasileiro INSTRUÍDO.


Isabel A. Ferreira

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:57

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Quarta-feira, 12 de Maio de 2021

«A “biodiversidade” cultural da Língua e o atentado ambiental perpetrado pelos vis progenitores do Acordo Ortográfico de 1990 – Uma história trágica»

 

Um extraordinário texto de António Sérgio Marques, que nos diz, nua e cruamente, das grandes e verdadeiras verdades sobre «o grande problema, que não existia, mas que a imbecilidade, reinante num largo espectro da classe política do arco do poder, inventou», ou seja, sobre o vil AO90.

Um texto de leitura obrigatória.

(As passagens a negrito são da minha responsabilidade).

Isabel A. Ferreira

 

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(Não está aqui incluída a bandeira da Guiné Equatorial, que só é "lusófona" no papel, devido a  interesses económicos. Na verdade, nesta Guiné, não se fala Português, mas tão-só Castelhano e Francês. Incluí-la nos países ditos lusófonos, é uma falácia. I.A.F.)

 

Por António Sérgio Marques

5 de maio às 20:31 

 

«A biodiversidade é um conceito cuja amplitude e valor intrínseco Cavaco, Sócrates, Casteleiro ou Houaiss - ou o mais feroz e boçal guardião do AO90 na actualidade, o belicoso e infinitamente arrogante Augusto Santos Silva - nunca compreenderam, nunca tiveram capacidade intelectual e vontade política para compreender e, consequentemente, nunca valorizaram.

 

A notícia relativa à publicação de um Dicionário de Português de Moçambique, constante da edição de hoje do jornal Público - derradeiro e único baluarte da resistência à consumação do famigerado Acordo Ortográfico de 1990 no 'mainstream' dos media em Portugal - remete, precisamente, para essa dimensão de 'biodiversidade' cultural que constitui uma das muitas razões que fazem desse AO90 uma aberração linguística-cultural, ao pretender impor politicamente, por decreto, uma uniformização ortográfica entre as diversas variantes geográficas da língua portuguesa que não era desejável, necessária e muito menos defensável do ponto de vista científico, por um lado, e histórico-cultural, por outro.

 

O grande problema, que não existia, mas que a imbecilidade, reinante num largo espectro da classe política do arco do poder, inventou - aquilo que levou a língua portuguesa ao actual atoleiro ortográfico (e, a curto prazo, fonético) - foi a indigência intelectual de Cavaco e Sócrates, o provincianismo bacoco e o pioneirismo patético dos governos desses dois tristes personagens da história da vida democrática nacional, que ditaram a surreal 'visão estratégica' , de promoção e defesa, no plano internacional, da língua de Pessoa, Saramago e Eça.

 

O terrível fado que assombraria o futuro da mais ocidental das línguas do Lácio foi a opção desses governos pela colaboração com meia dúzia de académicos escolhidos a dedo de ambos os lados do Atlântico (com Casteleiro e Houaiss à cabeça), espíritos corrompidos pelo vil desejo de agradar ao poder político, ambiciosos, venais e arrogantes, cuja necessidade de protagonismo mediático e afirmação científica a todo o custo, aliada à conveniente ausência de escrúpulos deontológicos, os fez sobrepor as suas posições peregrinas (nunca britânicos, espanhóis ou franceses tiveram essas pretensões megalómanas e contra-natura em termos de filogenia linguística), totalitárias e pedantes, acerca das línguas de expressão plurinacional como o Português, às posições de oposição frontal e inequívoca contra a ideia de uniformização ortográfica preconizadas pelos Malacas Casteleiros da nossa nacional desdita, defendidas pela maioria da comunidade académica, docente, literária e jornalística do país.

 

A tragédia da Língua Portuguesa foi a de ter sido sequestrada por um poder político nacional inculto, economicista, mesquinho e inconsciente da sua infinita estupidez numa matéria que não domina, nem tampouco entende, nem sobre a qual tinha 'jurisdição' política - a língua de um povo não é uma mercadoria - que se vergou aos interesses das grandes editoras do regime (do lado de cá) e se submeteu, alegre e alarvemente, numa lógica de colonialismo ao contrário, às pretensões brasileiras de liderar e configurar o mundo lusófono em função dos seus interesses político-diplomáticos e às suas ambições de dominação e uniformização do universo cultural e linguístico dos Estados de língua oficial portuguesa, enquanto instrumento geoestratégico de afirmação internacional do Brasil.

 

Somos uma nação de patetas e brutos, governados, como merecemos, por políticos ainda mais patetas, brutos e, ainda por cima, prepotentes, desonestos e totalmente permeáveis ao sequestro da função política e da 'res pública' por interesses privados sectoriais que em nada coincidem com o interesse público e nacional, sacrificando, simultaneamente, a defesa desse interesse nacional, a que estava ética e politicamente obrigado, aos interesses de outras nações, neste caso, o Brasil.

 

Ainda assim, o património maior da nossa 'portugalidade', o único e sublime motivo de orgulho em ser português que resta a quem tenha um olhar crítico sobre a sociedade e a cultura lusa do presente e sobre a sua História, plena de luz e de trevas, a "Pátria" de Pessoa - a nossa belíssima e riquíssima língua portuguesa - não merecia este infame e linguicida golpe desferido pelos ditos patetas (e seus acólitos e cúmplices) que fingem que nos governam, a mando, desavergonhada e criminosamente, dos seus verdadeiros senhores e patrões, domésticos e estrangeiros.

 

Apropriaram-se de um património imaterial que é pertença de todos os portugueses e mutilaram-no com a crueldade e a ignorância que caracterizam a barbárie e o obscurantismo de quem despreza a ciência, a ética e o povo que deveria servir e os valores que juraram defender. À traição, com a costumeira e pusilânime política dos factos consumados.

 

Cabe-nos a nós reclamar o que é nosso. A língua-pátria como Pessoa a definiu, o falar e o escrever do povo desta finisterra da Europa. Como o têm feito os moçambicanos ou os angolanos, mais sábios que nós, que não ratificaram (nem ratificarão) o AO90. Ou, em sentido apenas aparentemente oposto, os brasileiros, que se podem orgulhar da proeza de terem feito do português das Américas, o português oficial da República Portuguesa...das bananas. Afinal até já tínhamos essa nota tropical. "Porquê incomodar-nos?" terão deduzido os carrascos da língua de Camões que conceberam esta abjecta aberração ortográfica. Pois...»

 

Fonte:  https://www.facebook.com/groups/emaccao/permalink/4201522939893047/?sfnsn=mo

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:37

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Segunda-feira, 26 de Abril de 2021

«Não será o acordo ortográfico, nos termos em que foi feito, sintoma do esquecimento da realidade histórica da nossa colonização?»

 

Um texto notável, imperdível, de Joana Lamas, onde se fala da Língua, do colonialismo e da inviabilidade e inutilidade do AO90, a partir da análise do filme Vitalina Varela, «inteiramente falado em crioulo cabo-verdiano – língua com origem na apropriação da língua do colonizador, mesclando empréstimos de línguas bantu e outras, aquartelada nos bairros pobres de Lisboa, recalcada na escrita (oficial e administrativa), como aliás os outros crioulos portugueses, cada um numa melodia diferente»

 

Isabel A. Ferreira

 

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Vitalina Varela, um filme de Pedro Costa (2019)

 

Texto de  Joana Lamas (*)

 

«O recalcamento do colonialismo, a partir de Vitalina Varela»

 

«Que marcas deixou o colonialismo na língua portuguesa? Que marcas são essas, das quais não se pode ou não se sabe falar, em Portugal? Em Vitalina Varela, estas questões atingiram-me com a clareza de um murro no estômago. 

 

O filme de Pedro Costa é feito a partir da linguagem, em substância, que corre nas ruas, onde o inconsciente se faz ouvir, nos enlaçamentos da fala que vêm de além, cuja análise convoca o sujeito do ponto de vista psicanalítico, mas também o sujeito político na sua construção social. 

 

Pedro Costa exibe uma notável capacidade de escuta, recorte e registo desse material que ele próprio suscita e provoca, e para tanto, como diz o próprio, tem de estar realmente próximo de uma fonte. Mas Vitalina Varela não é uma obra expositiva, de reprodução documental, à superfície. Com uma fotografia meticulosamente concebida – na cor, no contraste entre luz e escuridão, nas várias tonalidades da sombra… – neste filme, tudo tem uma qualidade irrepreensível, trata-se de uma experiência estética de tal modo intensa, forte que, pesada em toda a sua riqueza, torna-se difícil de gerir.

 

Inteiramente falado em crioulo cabo-verdianolíngua com origem na apropriação da língua do colonizador, mesclando empréstimos de línguas bantu e outras, aquartelada nos bairros pobres de Lisboa, recalcada na escrita (oficial e administrativa), como aliás os outros crioulos portugueses, cada um numa melodia diferente. Precisei de legendas para compreender o que era dito. 

 

Vitalina chega a Portugal. Toda a vida esperou pelo marido Ventura, em Cabo Verde, toda a vida não, quarenta anos; a sua vinda a Portugal sempre adiada: esperou quarenta anos para vir para Portugal, tal como os israelitas no deserto, nas fronteiras da terra prometida. Mas Vitalina já não vem a tempo de rever o marido, morto há três dias, enterrado, já nem o corpo pode velar. Morto há três dias, como no mito cristão da ressurreição. 

 

Se logo na primeira cena do filme vemos Ventura levado em braços, numa rua junto ao cemitério, só o ouvimos depois, já morto, e ele diz “a vela cai no colchão”, mas soa “a vela cai no caixão”. Nessa cena, Joaquim Ventura afirma a dificuldade da vida que levou, da fome, da exploração, questiona o seu lugar de corpo, o lugar de homem, na casa, no trabalho, no beco… Sem lugar, está-se vivo ou morto? No colchão, ou no caixão? Pois o filme é delimitado temporalmente por duas mortes: a de Ventura e a de Marina, ambas num colchão, ambas apontando para o adormecimento como morte, um sono sem sonhos, morte simbólica: “Ele não está morto. Ele está apenas dormindo” diz-se de Ventura. Um morto não deseja, onde está o lugar do desejo? Onde estão os sonhos que lhe habitam o corpo? Não é por acaso que os dois mortos do filme se chamam Ventura e Marina, não é inócuo, não cai no vazio: essa aventura marítima, que na expressão infanto-juvenil do Estado Novo distraía do colonialismo português.

 

Da dificuldade de um lugar de exclusão

 

A língua que alguém fala, onde é falada, opera sobre o ser falante, situa-o, fá-lo habitar um certo lugar, esse lugar Outro. Também a cor da pele e as designações que lhe são atribuídas, o local de onde provimos, a família, a história, tudo isso marca. Para os homens e mulheres que vêm de países outrora colonizados por Portugal, sobretudo dos africanos, esse é um lugar muito difícil no que respeita à subjectivização, como Joaquim Ventura, o morto, bem revela.  

 

Se falo destes crioulos como se de identidade se tratassem, como se os sujeitos racializados que habitam os bairros pobres de Lisboa ocupassem todo o território de exclusão, ou como se a Cova da Moura fosse a representação espacial de todos os sujeitos racializados e excluídos, é porque assim me parece, não de um ponto de vista quantitativo, como é evidente, mas, a partir da perspectiva deleuziana, de quem sabe que é a minoria que opera, em potência, o devir revolucionário, possibilidade estrita nos limites da maioria. Ou seja, só a partir de um lugar de margem é que a minoria pode operar a transformação. 

 

Claridosos nas trevas

 

Vitalina chega descalça ao aeroporto, outras mulheres, vestidas no uniforme da empresa de subcontratação para prestação de serviços de limpeza, esperam-na; dizem-lhe “vai-te embora, aqui não há nada para ti”. Uma vez em Portugal, embora haja uma dificuldade imensa num lugar a ocupar, o regresso parece impossível e isto tanto vale para Vitalina como para muitos outros: “Estava esperando minha passagem de avião para Portugal há 40 anos. Eu ficarei pelo resto da minha vida”. Essa dificuldade em ter um lugar, ela é dita de várias formas: aqui só haverá lugar para mortos, adivinha-se, não há lugar para vivos desejantes. Assim o padre (que também é Ventura) lhe diz “nada resta para você aqui”, por outro lado, diz-lhe que também está de luto: “você perdeu seu marido, eu perdi minha fé nessa escuridão.”

 

Vitalina tem, de resto, um luto para fazer e vai dialogando com o seu morto e com o padre, sempre em contracena com Ventura: então, vela as fotos, as memórias, e tem o apoio da comunidade cabo-verdiana. 

 

À conversa com o fantasma

 

Em termos psicanalíticos, o conceito de fantasma1 respeita simultaneamente ao efeito do desejo arcaico inconsciente e à matriz dos desejos actuais, mais ou menos inconscientes. Lacan define o fantasma como superfície encobridora do real, incluindo diversas representações do eu, do outro imaginário, da mãe originária, do ideal do eu e do objecto; destaca a sua natureza de linguagem. O fantasma teria, assim, um carácter trans-individual, participando nos campos do simbólico e do imaginário. Maria Belo resume da seguinte forma: “o fantasma é o cenário que põe o desejo em cena; este cenário, tendo várias formações possíveis é, no entanto, estruturalmente semelhante para todos numa mesma estrutura cultural, mas específico na forma como, falando na sua história, ele se constrói para cada um”.

 

Uma frase evoca o fantasma do colonialismo e a frase ecoa e persiste nas sombras: há que aprender a falar português para falar com os espíritos. Também as cartas de amor de Vitalina a Ventura foram escritas em português. 

 

Noutra cena, vemos Vitalina no telhado da casa em Portugal, como que navegando no mar tempestuoso, e, logo de seguida, Vitalina e Joaquim em Cabo Verde; diz Vitalina: “nós viemos da escuridão” e, no entanto, para ela, o amor em que um dia se encontraram é clareza, é luz. Pois, em todo o filme, está presente o confronto entre as sombras da pobreza do bairro e a claridade cabo-verdiana, excepção feita às cenas no cemitério, diurnas em céu nublado, ou não circulassem os claridosos2 nas várias tonalidades da treva.

 

Já no final, Vitalina pergunta ao seu fantasma: “se eu falar português, você fala comigo?”. Então, o fantasma e Vitalina, juntos, relatam parte fundamental do mito cristão, o beijo de Judas, o modo como entregou Jesus dizendo: “que Deus te salve, mestre”. Pois, dizem, “era duro o caminho, dos dois lados”, sim, o caminho foi duro, em ambos os sentidos. O som de fundo é o de uma enxada a cavar a terra, e eles recordam a crucifixão de Jesus, falando da treva que cobria todo o mundo quando, de repente, uma luz alumiou a face de Jesus, aquela que Judas não beijou, e o mundo fendeu-se em dois, luz e escuridão… “é dessas sombras que nós somos feitos”, conclui Ventura, nós que vivemos nessa escuridão. 

 

A terra prometida

 

Espelhando o início, o filme termina com um enterro, o de Marina, a mulher mar, uma morte provocada pela queda de uma vela: “Marina morreu ontem, uma vela caiu no seu colchão”. Impossível não notar a semelhança dos significantes na morte e na navegação, na vela que tomba, na vela do barco, no velar dos mortos, o colonialismo que se (re)vela, no lugar de homem, no bairro, no beco, na casa, no seu lugar de trabalhador, na exploração, na língua, pois o fantasma persiste, insiste, por mais que se tente recalcá-lo.

 

Morreu Marina, mar no feminino, e recordo que: “O mar tem caprichos de mulher. É preciso acarinhá-lo, cantar-lhe canções muito tristes. Para seu dorso de gigante se entorpecer, tolhido na tristeza vaga que vem nas asas das cantigas. (…) O mar é fêmea (…) O mar era a abertura que os enxadeiros tinham para o mundo”3.

 

Qual o lugar dos mortos e qual o lugar dos vivos, parece interpelar-nos a última cena: no cemitério, com Vitalina de um lado e, do outro, o padre, vêem-se placas numeradas, lajes e montes de terra: será essa a única terra prometida?

 

Estranhamento familiar

 

Sobre a língua portuguesa, essa língua que é preciso saber falar para falar com os mortos, é precisamente a língua em que se recalca o colonialismo, em que o seu fantasma se mantém vivo, activo e actuando, e isso em Portugal, como na Guiné, Angola, Moçambique e Cabo Verde com suas idiossincrasias. O crioulo, como língua apropriada, vai circulando nos seus desvios do português, na sua musicalidade, na sua sintaxe própria. Se é verdade que a subjectividade sempre se constrói e dissimula através do mito e da fantasia, na e pela fala, não é precisamente o papel do poeta, do realizador, do artista, o de revelar (ou velar) as ideologias por detrás? Abrindo caminhos, libertando desvios? Ou de outro modo: expondo as estruturas de protecção (na língua) das quais se rodeia o sujeito na sua relação com o real? 

 

Não será isso mais rico e complexo do que impor, por tratado, uma grafia idêntica, uma centralidade lusófona que, a pretexto de interesses e vantagens mercantis, acaba por cilindrar as diferenças? Refiro-me agora ao acordo ortográfico de 1990 e às pretensões unificadoras e quantitativas de alguns dos seus defensores. Não seria muito mais precioso e culturalmente fértil lutar por um espaço criativo que implicasse a escuta das outras singularidades, construídas nesse português assimilado e apropriado, transformado? Não se permitiria, assim, ventilar melhor os fantasmas bafientos do colonialismo, dar-lhes outras tonalidades, expô-los a outras luzes? Talvez assim não fossem tão necessárias as legendas.

 

Pedro Costa traz-nos essa escuta de outra voz, de outro português, tão familiar enquanto se estranha. Vitalina Varela é uma lufada de ar fresco no beco hermético do colonialismo, um descobrimento do colonialismo, por assim dizer.

 

Subjectividade vs uniformização mercantil

 

Tomar a palavra consiste em fracturar a massa imponente de uma língua, para aí abrir uma brecha4, trata-se da emancipação própria ao acto da fala, e isso em todas as línguas. A propaganda de uma suposta unificação que seria promovida pelo acordo ortográfico, não vai exactamente no sentido contrário? Ao não se expressar a diferença da fala na escrita, não se estará a contribuir para o esquecimento da realidade histórica da nossa colonização? Não será o acordo ortográfico, nos termos em que foi feito, sintoma desse esquecimento? E simultaneamente cortam-se as raízes latinas da língua: como se a presente geração não nascesse de outras gerações, mas simplesmente tivesse aparecido, inteira sem história, numa espécie de geração espontânea, chocada na ideologia capitalista e pelas virtudes da tecnologia, escondendo as problemáticas próprias da filiação na poda etimológica e na eficácia da literalidade. 

 

Este processo de uniformização linguística imposta verticalmente e através de tratado, que não tem em conta as diferentes utilizações da fala, as suas realidades e influências africanas, lembra a evangelização colonialista e todas as “boas intenções” da dominação feudal, ou como os arautos de um português único não se cansam de promover: trata-se de algo muito benéfico para o mercado.

 

Se trazer o assunto do acordo ortográfico para esta análise, pode parecer um tanto forçado, importa que se levantem estas questões quando se trata de analisar a língua e um longo passado comum. Tens de aprender a falar português para falar com os mortos. Nos dias seguintes a ter visto este filme, fui perseguida por essa frase. Pensar o esquecimento estrutural e sistemático de mais de 500 anos de colonialismo, a nossa língua comum, inegável herança colonial, os diferentes crioulos portugueses, o acordo ortográfico e a lógica que lhe subjaz e, sobretudo, a forma como não se fala sobre nada disto na sociedade portuguesa: tudo isto são questões fundamentais que devem permanecer abertas, que devem ser faladas, pensadas, discutidas, sem receio dos fantasmas que tais falas venham a convocar, pois os fantasmas serão sempre mais rígidos e inescapáveis, quando mais ecoarem no silêncio. A lógica unificadora e mercantil que subjaz ao acordo ortográfico, tende mais para um fechamento, censura e corte de caminhos metafóricos e metonímicos possíveis, em suma, para o esquecimento de uma memória comum, do que para o encontro, abertura ou construção histórica partilhada. Não seria mais prolífero o desenvolvimento de projectos que promovessem a produção e divulgação de objectos culturais de países de língua oficial portuguesa, num português dado a conhecer na sua riqueza e diferença?  

 

Mas mesmo quando não se fala, isso fala… 

 

Em tempos de pandemia, de perda de direitos individuais, colectivos e laborais, e de uma crescente pobreza e exploração daqueles que têm como única forma de sobrevivência o trabalho, importa, por fim, trazer outro assunto, indissociável das questões do colonialismo: o 25 de Abril de 1974 e o fim da guerra colonial. Revolução dos Cravos do ponto de vista fonético é extraordinariamente próximo de Revolução dos (E)scravos – e não é preciso ter sotaque da Beira, embora facilite, para que soe assim: o inconsciente faz-se ouvir, ele insiste, mesmo onde o esforço para o encerrar é grande! A verdade é que os festejos do 25 de Abril, ano após ano, têm sempre mantido relativamente bem escondida, discreta, a importância que a justa luta pela independência dos povos africanos teve no derrube da ditadura portuguesa, ainda assim, sem consciência, devido a um acaso, chamamos-lhe Revolução dos (E)scravos. Não fosse forte a tendência em poder para esconder séculos de colonialismo e a emancipação dos povos africanos e estaríamos mais próximos do devir revolucionário experimentado em Abril de 1974.

 

Nota 

Este texto foi provocado pela participação no cartel Nós, a Voz e Avós (o cartel é um dispositivo de transmissão de saber das escolas psicanalíticas lacanianas, no caso o Centro Português de Psicanálise e o Fórum Lacaniano Brasil, consistindo na formação de um grupo de 4+1 elementos que se debruça sobre um determinado assunto, durante um dado período de tempo, seguindo uma certa forma de construção de saber que é psicanalítica) agradeço pelo frutífero questionamento e partilha carinhosa à Glaucia Nagen, à Lucília Sousa, à Raquel Laranjeira Pais e à Susana Travassos.

 

  • 1.Para aprofundar este assunto: Lacan, J. (2008). A Lógica do Fantasma - Seminário 1961-1962. Centro de Estudos Freudianos do Recife. Recife. Aceder em http://clinicand.com/wp-content/uploads/2020/06/14-Jacques-Lacan-O-Semin... e Belo, M. (2007). Filhos da Mãe. Edeline. Lisboa: pp.91-159.
  • 2.Referência ao movimento literário e cultural iniciado com a publicação da revista Claridade em 1936, que inicia a mistura literária entre as estruturas do português clássico e da língua crioula, Belo, M. (2007). Filhos da Mãe. Edeline. Lisboa: pp. 189-236.
  • 3.Lopes, B. (1997 1947) Chiquinho. Mindelo. Calebedotche: 174-175, citado por Belo, M. (2007). Filhos da Mãe. Edeline. Lisboa: pp 215.
  • 4.Roubei esta expressão de Toumson, R. (2000). Metáfora e Alteridade. Um Inconsciente Pós-colonial – se é que ele existe. Artes e Ofícios, Porto Alegre. Publicação dos ciclos de conferências organizados pela Association Freudienne Internationale e pela Maison d’Amerique Latine, a conferência referida foi proferida a 16 de Novembro de 1993 no 2.º ciclo de conferências “O inconsciente e as línguas”.

 

 Joana Lamas

(*) (Psicanalista, membro do Centro Português de Psicanálise – Associação Lacaniana Internacional)


Afroscreen | 21 Abril 2021  

 

Fonte:   https://www.buala.org/pt/afroscreen/o-recalcamento-do-colonialismo-a-partir-de-vitalina-varela

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:50

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Quarta-feira, 18 de Novembro de 2020

No XI Festival Literário de Araxá (Outubro 2020 - Brasil) lamentou-se “a morte do tupi e de outras línguas indígenas, por abafamento da língua oficial” (a Portuguesa)…

 

Um interessante texto, do jornalista e escritor brasileiro, Chico Mendonça, através do qual podemos “medir a temperatura” da Língua que se fala e escreve no Brasil, e o pulsar da situação…

 

Nada do que se diz no artigo que aqui transcrevo, está longe daquilo que venho dizendo, há tanto tempo: o Brasil não está interessado na Língua Portuguesa. Como poderia, se a influência indígena e africana, e dos outros povos que ali se fixaram, diz mais aos Brasileiros do que a influência portuguesa, que lhes soa a colonialismo... conforme podem comprovar no texto?

 

(Os excertos a negrito são da minha responsabilidade).

E mais não digo.

 

Isabel A. Ferreira

 

CHICO MENDONÇA.jpg

 

Por Chico Mendonça 

 

O Lugar das Transgressões

 

«Para ver e medir toda a vida que há dentro e em torno de uma língua, usar a régua do tempo é imprescindível. Principalmente, no caso da língua portuguesa, e seu corpo formado de tantas línguas em português. Se a navegação fez naufragar o apego à ilusão de uma língua nacional e pura séculos atrás, nos dias de hoje sua unidade e riqueza se dão pela mestiçagem manifestada na infinidade de ruas que cruzam os nove países de fala portuguesa. Nem lusofonia se adequa mais, insiste Afonso Borges, porque o termo traz memórias dolorosas dos tempos coloniais. E descolonizar é preciso, mais do que nunca, tal a delicadeza da fase atual desse processo: a descolonização das mentes, dos que colonizaram e dos que foram colonizados.

 

No terceiro dia do Fliaraxá, o equívoco do Acordo Ortográfico de 1990 foi se desenhando, a caminho do consenso. “Não há nada uniformizável, as diferenças é que enriquecem a língua. A ortografia tem que ser diferente. Não devem ser os governos que decidem isso, porque a língua é livre e pertence ao povo”, defendeu a escritora portuguesa Teolinda Gersão, na Mesa “Escrever em língua portuguesa”. Seu parceiro de conversa, o manauara Milton Hatoum, lembrou que o rompimento com a forma cristalizada da língua é antiga: “Machado de Assis já não escrevia como Eça de Queiroz (*) ”. A Semana de Arte Moderna deu um longo passo nesse sentido, com o surgimento de obras como Macunaíma, de Mário de Andrade, que utiliza muitas expressões indígenas e africanas. Meu Tio Iauaretê, de Guimarães Rosa, é outro exemplo do uso de uma linguagem nova, repleta de contribuições linguísticas alheias ao português. “É o limite possível do que se pode fazer usando linguagem de vários troncos linguísticos, incluindo o mais arcaico português. Uma linguagem mestiça e transgressora”, avaliou Hatoum.

 

Transgressões não devem faltar para a evolução de uma língua e das diversas culturas que ela compartilha. Do contrário, ficaria impermeável a essas contribuições que o modernismo libertou no Brasil. Ou a outras influências de tradições não reconhecidas e mesmo condenadas, como o “pretoguês”. Segundo a filósofa e feminista negra Djamila Ribeiro, na Mesa “Cultura, crença e preconceito”, dividida com o jornalista Xico Sá, a troca do “L” pelo “R” em algumas palavras, como ‘Framengo”, não é manifestação da ignorância, mas herança, mesmo inconsciente, de língua africana que não possui em seu alfabeto a letra “L”. Ela lamentou a morte do tupi e de outras línguas indígenas, por abafamento da língua oficial. Com elas, a diversidade e seus saberes estariam garantidos, bem como potencializada a influência que já exerceu na construção do português falado no Brasil.

 

Na verdade, mostrou Djamila, junto da assimilação da língua oficial pela pluralidade dos brasileiros, aconteceu também a submissão ao pensar dominante. Na universidade, conta ela, aprendeu o pensamento do homem branco europeu. Da mesma forma, na literatura ainda é hegemônico esse lugar de cor e procedência. Surgem, ressalta, as antologias com espírito de caixas separadas, como de escritoras negras, em lugar do acolhimento de cada um como parte de um todo. Em lugar de uma antologia de escritores e escritoras brasileiros, o racismo estrutural produz coletâneas em forma de caixas que dão sobrevida às hierarquias culturais.

 

Organizador e professor de um curso on-line sobre crônica, Xico Sá confirmou igual espanto. Segundo ele, as antologias que pesquisou do gênero refletem o amplo domínio de autores brancos sobre autoras brancas, autores e autoras negras. Não se trata, diz ele, de justificar-se pelo espelhamento de uma pré-seleção feita pelos jornais ao longo do tempo, mas da falta de uma pesquisa em outras fontes para encontrar trabalhos que não saíram nos jornas. Ele próprio tratou de incluir no currículo de seu curso capítulos do diário de Carolina de Jesus, em Quarto de despejo. “Não dá para falar em democracia com esse racismo estrutural”, conclui.

 

Respondendo a uma questão proposta pelo cientista político Sérgio Abranches, sobre qual escritor brasileiro estaria hoje traduzindo o espírito de nosso tempo, a escritora Noemi Jaffe deu nova pista a respeito do momento da evolução da língua. “Não é preciso buscar alguém que expresse o espírito do nosso tempo, porque não temos mais os gênios. Existem muitas pessoas escrevendo e produzindo conteúdos fantásticos em celulares, que respondem às necessidades de seus lugares de viver, mesmo que não tenham a qualidade de um Proust.” Tal afirmação tem a força de uma revelação, e, mesmo que polêmica, sugere novos desafios às línguas vividas em português ou em qualquer outra língua. O movimento descrito por Noemi é universal e, essencialmente, transgressor.

 

Ao ler o texto acima, Afonso Borges sentou diante do computador e escreveu. Neste campo, Afonso Borges, ao ser inquirido sobre a determinada “concorrência” que a imagem e o cinema estabelecem com o exercício da leitura, disse: “A leitura induz o cinema interno”.

 

E nada mais tendo sido dito, acabei por decidir que por aqui fico.»

 

(*) É curioso e consolador ver um Brasileiro a  escrever correctamente o nome de Eça de Queiroz, porque em Portugal, raros são os que o escrevem correctamente. Eça nasceu Queiroz, não, Queirós.

 

 Fonte:   https://fliaraxa.com.br/o-lugar-das-transgressoes/

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:23

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Terça-feira, 11 de Fevereiro de 2020

«O desacordo ortográfico vai perder esta guerra, a grafia original há-de prevalecer», ou seja, a do AO45, ainda em vigor em Portugal

 

O título desta publicação é um excerto de um dos comentários com que pessoas lúcidas brindaram Ascenso Luís Simões, deputado socialista, na Assembleia da República, e só podia ser socialista (pois não se arrogam os "donos" da Língua?) para escrever tamanha calinada no Twitter, conforme podem confirmar neste link:

https://twitter.com/ascenso_simoes/status/1226554294930989056?fbclid=IwAR2UeuRiqURwbSrRnNcqlMhxEjhDO2wZGGH9knFpfwxk6KH1AondBojOL5A

 

Como se em Portugal não houvesse pessoas PENSANTES, e todos fossemos muito parvos, para engolir as patranhas dos que querem levar adiante a negociata fraudulenta que envolve o AO90, e que os socialistas querem, porque querem, manter, por motivos obscuros, como todos nós sabemos.

 

Mas enganam-se.

Há gente atenta ao “AO90 Leaks”, que é tão “leaks”, como todas as outras vigarices que andam por aí a ser divulgadas.

 

O cerco aperta-se.

Os comentários ao Twitter do deputado socialista representam o pensar dos milhões de escreventes de Língua Portuguesa, que não se revêem nesta coisa ranhosa (*) chamada AO90.

 

Senhor Ascenso Luís Simões, vai desculpar-me, mas isto não pode ser dito de outra maneira: dizer que a Língua Portuguesa não pode ficar agarrada a uma visão e a um tempo marcados pelo colonialismo, é passar um atestado de ignorância a si próprio, pois demonstra um descomunal desconhecimento da Língua e da História Portuguesas, do tempo e da visão, nomeadamente da época colonialista(**). Que pobreza! Que tristeza!



Não fica nada bem a deputados da Nação, andarem por aí a debitar ignorâncias, que passam de boca em boca, sem a mínima filtragem, sem a mínima preocupação de se certificarem de que o que dizem corresponde à exactidão dos factos, repetem os disparates  que uns vão passando aos outros, tal como papagaios, numa tentativa obtusa de tornarem essas ignorâncias em verdades.

 

E isto não fica nada, nada, nada bem a deputados da Nação e a governantes. Ao menos tentem esclarecer-se, junto de quem sabe, para não passarem vergonhas.

 

(*) Coisa ranhosa, em linguagem informal, significa que é de má qualidade ou está em mau estado, algo que assenta como uma luva ao (des)acordo ortográfico de 1990. A Língua Portuguesa é riquíssima. Destruí-la é destruir um dos nossos maiores tesouros. E o Dr. Malaca Casteleiro deixou de ser um grande linguista no momento em que se vendeu ao Brasil. E o que fica dele é o seu contributo, de má memória, por tentar destruir a grafia portuguesa que como filólogo também deveria saber que não era mutilável. E pensar que foi pelas mãos de um "linguista" e "filólogo" que a Língua Portuguesa foi ameaçada de destruição! Foi ameaçada, não destruída, porque não vamos permitir tal destruição.

(**) Não querem uma ortografia do tempo colonial, mas querem a actividade selvática das touradas, do tempo da monarquia.

 

Isabel A. Ferreira

 

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publicado por Isabel A. Ferreira às 11:29

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Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2019

Cassete da política subjacente ao AO90 que os governantes portugueses estão a “engolir” sofregamente

 

Publiquei há dias, neste Blogue, mas também na minha página do Facebook, um texto intitulado «Nos Canais de Televisão, Para Além do AO90, Reina o Espírito da Imitação Bacoca», que pode ser consultado neste link:

https://olugardalinguaportuguesa.blogs.sapo.pt/nos-canais-de-televisao-para-alem-do-167463

Então, um cidadão brasileiro fez uns comentários iguaizinhos a tantos outros comentários que os Brasileiros espalham pelas redes sociais e Internet, qual cassete, bem orientada e gravada, reproduzindo a política subjacente ao AO90, papagueada pelos acordistas portugueses, e engolida pelos actuais governantes de Portugal que, subservientemente, entram no jogo político, onde as equipas são Brasil e Portugal.

 

Gerou-se então entre mim e esse cidadão brasileiro, uma troca de palavras, bastante elucidativa, que diz do que verdadeiramente está em jogo, quando falamos de Acordo Ortográfico de 1990.

 

CASSETE2.png

Origem da imagem: Internet

 

A propósito do “Espírito da Imitação Bacoca”:

 

José Augusto Fondeca: Isso se chama "influência". É inevitável. Os EUA influenciam o Brasil e, o Brasil influência seus pares menores como Portugal e Moçambique. A música, a política e a cultura brasileira é largamente difundida em Portugal, mas o oposto não ocorre!

 

Isabel A. Ferreira: Como disse? O Brasil «influencia seus pares menores como Portugal e Moçambique?» Menores em que sentido? Territorialmente ou culturalmente?

 

José Augusto Fondeca: Isabel A. Ferreira em ambos! O Brasil está entre as 10 maiores economias do mundo; possui 209 milhões de habitantes; etc... Não há como negar que se trata de um gigante. Não há como não ser um influenciador...

 

Isabel A. Ferreira : José Augusto Fondeca discordo de si. O Brasil, actualmente, não está em condições de "influenciar" quem quer que seja, nem a nível político, nem social ou cultural. Ter 209 milhões de habitantes e estar entre as 10 maires economias do mundo, só diz do seu tamanho. O Brasil é o país mais violento do mundo; a cultura, o ensino, a educação deixam muito a desejar, entre outras questões, e não é de todo um bom exemplo para o mundo. Não se iluda com o TAMANHO. Nos menores frascos é que se encontram as melhores essências. E ao Brasil, neste momento, falta a essência.

Não quero dizer com isto que o Brasil não venha a ser uma grande potência a longo prazo. Neste momento não é. Ainda têm muito, mas muito que fazer para lá chegar.

Mas estou a torcer para que seja.

 

Isabel A. Ferreira: José Augusto Fondeca o "gigante" Brasil, neste momento está reduzido a anão. E não está a influenciar beneficamente, na questão da Língua. E não me parece que cada vez será mais influente... Estamos a trabalhar para que não seja, porque Portugal é um país europeu. Não é um país sul-americano. Esqueceu-se?

 

José Augusto Fondeca: Isabel A. Ferreira não estou a julgar o tipo de influência. Estou a atestar que a influência existe e será cada vez mais forte. 209 milhões de falantes é um número muito expressivo. Uma economia forte e cultura larga são características que levam um país a influênciar outros. O Brasil tem muitos problemas. Mas não diminui seu poder nem sua grandeza. Sua belíssima crítica analítica sobre o uso do português brasileiro na imprensa portuguesa é prova incontestável de que o gigante Brasil está a adentrar Portugal... E vossa crítica é valida! Afinal, se Portugal não reforçar sua língua e cultura, seus 10 milhões de habitantes estarão a falar o português dos 209 milhões de brasileiros em muitos pouco tempo!

 

Isabel A. Ferreira: José Augusto Fondeca acontece que os Portugueses NÃO QUEREM que o Brasil se ADENTRE em Portugal. Temos culturas diferentes, falamos uma língua diferentemente, temos a nossa CULTURA EUROPEIA, não a queremos sul-americanizada, como a brasileira está norte-americanizada.

Não queremos falar a língua que 209 milhões de brasileiros falam, porque não somos brasileiros.

Isso jamais acontecerá, porque somos EUROPEUS. Os Ingleses jamais se interessaram pela linguagem que os milhões de norte-americanos e australianos falam. Somos poucos, mas somos EUROPEUS.

 

José Augusto Fondeca : Outro fator importante a ser considerado é que o Brasil é o maior produtor de conteúdo lusófono do mundo. O Brasil também possui a segunda maior rede de comunicação do mundo, com 100% de conteúdo em português brasileiro. A TV brasileira já adentrou Portugal e já figura nela há muito tempo através das novelas. Na internet, a maioria do conteúdo em português existente é brasileiro. A Disney americana já produz versões de seus conteúdos em português brasileiro. Em Nova York existem lojas com funcionários falantes da língua portuguesa do Brasil. Observe que é uma influência difícil de negar. Portugal terá que fazer uso de grande esforço para manter sua língua original... O que pensas disto?

 

Isabel A. Ferreira : José Augusto Fondeca a cultura novelística brasileira não nos interessa. O "brasileiro" que circula na Internet é de má qualidade. Também não nos interessa que o BRASILEIRO esteja implantado por aí, porque é BRASILEIRO, não é o PORTUGUÊS, reconhecido pelos países europeus.

 

Isabel A. Ferreira: Não percebe que a vossa implantação por aí é implantação BRASILEIRA? E a Europa sabe distinguir o que é português e o que é brasileiro: duas coisas diferentes, que jamais se fundirão.

 

Isabel A. Ferreira : A vossa tentativa de nos colonizar pela língua será o vosso maior falhanço. Neste momento parece, e apenas parece, que estão a dar cartas. Mas é uma ilusão. Pode crer. O Brasil jamais será uma potência sul-americana com este tipo de atitude colonialista. O colonialismo é coisa do passado. O seu discurso é o de um ex-colonizado com ganas de colonizar. E a isto chama-se complexo de inferioridade. Não se dá conta disto?

 

José Augusto Fondeca : Portugal está a se render à cultura brasileira. Isto é um fato inquestionável.

Embora não seja do gosto de alguns poucos portugueses, é visível que os jovens portugueses adoram a música brasileira e andam a cantar por toda parte.

A mídia televisiva de Portugal já está a adotar palavras do vocabulário do Brasil, tal qual atesta seu artigo.

As emissoras de TV brasileiras registram o sucesso expressivo das telenovelas junto ao público português que consome o conteúdo brasileiro.

Se Portugal já consome a música, a TV e a imprensa brasileira, não há como evitar que em breve se fale como no Brasil.

Com exceção a alguns portugueses tradicionais, a grande maioria consome conteúdo em português do Brasil. Afinal, é inevitável já que a maior parte está escrito em português do Brasil!

Seu artigo atesta isso com fatos!

 

Isabel A. Ferreira : José Augusto Fondeca vamos lá a ver, Portugal não está a render-se à cultura brasileira. Quem está a render-se à “cultura brasileira” (a designação é sua, eu chamo-lhe outra coisa), são apenas os escravos do poder, e uma fatia do povo português, ainda muito inculta. A fatia culta do povo português não se rendeu e jamais se renderá a uma intromissão estrangeira, ainda por cima de fraca qualidade.

 

Você está a confundir tudo. Estamos aqui a falar de LÍNGUA PORTUGUESA. Não estamos a falar de música, nem de novelas. É óbvio, que nós, portugueses, eu incluída, gostamos da MÚSICA BRASILEIRA, bem como gostamos das músicas portuguesa, francesa, italiana, inglesa, norte-americana. Os jovens portugueses cantam as músicas brasileiras, tanto quanto cantam e dançam ao som das outras todas que mencionei. Não se julguem exclusivos, nos nossos gostos, porque não são. Nem pouco mais ou menos.

 

E nós, Portugueses, a gostar ou a NÃO GOSTAR, não somos poucos. Somos muitos mais do que possa imaginar. Não se julguem os “reis do pedaço”, porque não são.

 

Apenas os MEDIA televisivos, escravos do Poder estão a adoptar vocabulário brasileiro, porque a legendagem, ou está na mão de brasileiros, ou de paus-mandados dos políticos.

 

E é bem verdade que as novelas brasileiras são do agrado de muitos portugueses (não de todos), até porque existe uma força oculta que os quer alienados, então encharcam-nos de novelas, futebol e reality shows de muito má qualidade.

 

Você deve viver numa bolha de ilusão, se pensa que Portugal está rendido ao Brasil, e brevemente andará por aí a falar à brasileira. Engana-se. Como já disse, apenas os escravos do Poder, se renderam à brasilidade. Portugal sempre soube livrar-se de invasores muito mais poderosos, e não será agora que se deixará ocupar por um Brasil que oferece novelas, música e uma língua mal falada e mal escrita. O ensino da Língua no Brasil é péssimo, e isto são os próprios brasileiros cultos que o dizem.

 

E engana-se quando faz menção a portugueses “tradicionais”. Os portugueses que combatem esta invasão da linguagem brasileira, são tudo menos tradicionais. São FUTURISTAS. VISIONÁRIOS. Têm ESPÍRITO CRÍTICO e não se vergam à mediocridade que que se quer impor a Portugal.

 

A sua visão de tudo isto, parece ser a de alguém que anda por aí a vender gato por lebre. Mas nem todos os Portugueses andam a dormir.

 

E engana-se. O meu artigo não atesta isto com “fatos”. O meu artigo apresenta FACTOS, cujo significado vai muito para além do entendimento de mentes que se escudam dentro de uma bolha ilusória e acham que são os “reis do pedaço”, quando são apenas meros peões.

 

(Aguardo resposta)

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 14:37

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Sexta-feira, 6 de Abril de 2018

«Acordo ortográfico: colonização da Língua?»

 

Entrevista a Maria João Cantinho (***)

 

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Por: João Morgado

 

(As frases a negrito, são notas marginais, da autora deste Blogue)

 

Maria João Cantinho, poetisa, ensaísta, veio ao 29º Colóquio da Lusofonia, em Belmonte, para falar de Lusofonia. Espaço para uma conversa em que reconhece, ser ainda um tema algo controverso. “Há quem não goste do termo, achando que ele traz em si inscrito o traço do colonialismo”.

 

(Sou uma das que não gosta do termo, que tresanda a colonialismo.)

 

Tantos e tantos anos depois ainda perdura esse nojo da língua do antigo poder? Maria João acha que sim. “Nos congressos, quando se fala das questões da lusofonia, é muito habitual surgir a expressão… a língua portuguesa é a língua dos estrupadores da minha avó, o que é muito violento.”

 

(Eventualmente, muito eventualmente, só poderão falar nestes termos os indígenas brasileiros e os descendentes dos antigos escravos africanos; os outros, os que tiveram avós brancas não sabem do que falam, e o que falam é fruto de uma lavagem ao cérebro marxista).

 

Se assim falam os brasileiros, assim devem falar muitos luso-falantes de África, avisa a poetisa. E, se assim é em meios académicos, temos de nos perguntar se é uma linha de uns tantos activistas sociais ou um pensamento que permanece impregnado nas populações desses países. Em todos os casos, importa perceber porque permanecem abertas essas feridas históricas, de uma língua que atravessou séculos, povos, gentes.

 

Maria João entende que na vastidão da história “os tempos da colonização ainda representam uma ferida recente”. Talvez tenha razão, talvez seja ainda uma memória demasiado próxima, vivida por uma geração mais velha e uma herança dolorosa que passou para uma geração que é hoje activa e interventiva. Mas ainda estamos presos na história?, pergunto. A língua portuguesa não evoluiu, não abriu novos horizontes, não deu palavra a novas realidades? Talvez esse caminho esteja a ser feito. Maria João Cantinha sublinha que, se perguntarmos aos brasileiros pela língua que falam, “eles respondem que falam a língua portuguesa – não brasileiro –, por isso reconhecem a sua identidade cultural dentro da língua portuguesa”.

 

(Não me parece que assim seja. Se os Brasileiros respondem que falam Português, então por que “exigem” que traduzamos os nossos livros para “brasileiro”? Por que legendam  ou dobram os filmes e novelas brasileiras e as entrevistas com Portugueses?)

 

É esse o desafio que ainda temos pela frente, fazer de uma língua colonizadora a nossa língua colectiva do presente e do futuro. “Não são várias línguas a falar português, mas sim uma só língua com ramificações, variantes, matizes, diferentes acentos e novas palavras, mas que vivem em torno de uma unidade. A uniformidade do Acordo ortográfico? Maria João discorda.

 

(Também eu discordo. Jamais haverá uma uniformização linguística entre Portugal e as suas ex-colónias. Hoje elas são países livres, autónomos, com uma linguagem própria e muitos dialectos, e não têm de andar “coladas” à língua colonizadora. Não têm. E muito menos, Portugal tem de adoptar a grafia de uma ex-colónia, a primeira vez que tal acontece na História da Humanidade).

 

O acordo é uma imposição artificial e imposta. Não é tido como necessário. Surge como uma imposição exterior. E a quem é imposto, não a reconhece como seu.”

 

Entende que na expressão brasileira o acordo não mexeu muito com a forma de falar e escrever, mas no caso do português de Portugal, sim, veio mesmo a “desfigurar a língua e a nossa relação com as palavras. Estamos a perder a nossa raiz latina…” Consequências? “Qualquer dia não saberemos descortinar a origem etimológica das palavras”.

 

(É verdade que na expressão brasileira o acordo não mexeu com a forma de escrever e muito menos com a forma de falar. Em Portugal mudou tudo. A forma de escrever e a de falar, porque quando se escreve “arquiteto” por exemplo, o correcto é pronunciar “arquitêtu”. Quem pronuncia “arquitéto” está a atropelar as regras gramaticais. Então, para isso, atire-se a Gramática ao lixo, e deixe-se que se fale e escreva à balda.  É como a pronúncia de “ganhar”, que em bom Português se diz “gânhar”, e o que se ouve por aí, a torto e a direito, é “gánhar”. Está errado. Em Portugal, fala-se e escreve-se muito mal), e não só por culpa do AO90).

 

Mas a verdade é que estamos no olho do furacão, metade do país segue o acordo e a outra metade está em desacordo. Como saímos desta encruzilhada? “Por enquanto ainda escrevemos como nos apetece, mas tudo vai mudando. Por exemplo, escrevo para o Jornal de Letras e eles corrigem!” Ou seja, mesmo que não esteja oficializado em todos os países de fala oficial portuguesa, aos poucos o acordo ganha terreno, vai-se impondo.

 

(Só se vai impondo porque os Portugueses não se impõem, não batem o pé, não exigem que seja devolvida a Portugal a grafia portuguesa. Só se vai impondo, porque os que escrevem em Língua Portuguesa não deveriam escrever para jornais acordistas, ou se escrevem e os jornais acordistas transformam os textos correCtamente escritos, em textos incorretamente (lê-se incurrêtâmente) escritos, o mais correCto é não escrever para tais jornais. Só se vai impondo, porque na hora de votar deveriam penalizar os partidos que defendem a colonização de Portugal através da Variante Brasileira do Português).

 

Ao fim desta conversa resta a pergunta: é o novo Acordo Ortográfico o novo poder colonizador sobre a língua?

 

(A resposta é sim. Este acordo ortográfico,  mais desacordo do que acordo, é, de facto, o novo poder colonizador da Língua Portuguesa. Os motivos, esses, são os mais absurdos, porque obscuros).

 

***

 

(***) Maria João de Oliveira Sequeira Cantinho (Lisboa, 1963), é uma autora portuguesa, licenciada em filosofia, premiada no campo do ensaio e da poesia. Colabora regularmente em várias revistas académicas e literárias, publicou várias obras de ficção, ensaio e de poesia. É investigadora do CFUL (faculdade de Letras) e do Collège d’Études Juives da Universidade da Sorbonne. É editora da revista digital Caliban. É membro da direcção do PEN Clube Português, da APE (Associação Portuguesa de Escritores desde 2014) e da APCL (Associação Portuguesa de Críticos Literários).

 

Fonte:

https://www.imperativoonline.pt/2018/04/05/acordo-ortografico-colonizacao-da-lingua-entrevista-com-maria-joao-cantinho/

 

***

Tudo conduz à colonização da Língua.

 

O AO90 não era necessário. Ninguém o pediu. Ele está a ser imposto. As palavras mutiladas vêm do "brasileiro", à excePção de algumas, que escaparam à mutilação. No Brasil, já não se estuda "Português", disciplina que foi substituída por "Comunicação e Expressão". Já não se ensinam os Clássicos da Literatura Portuguesa, nem sequer da Literatura Brasileira. O ensino da Língua é uma pobreza, tal como em Portugal.

 

Na sua esmagadora maioria, o povo brasileiro escreve mal, e necessita de que se traduzam os livros escritos em Língua Portuguesa para o "brasileiro". Isto é um facto. E em Portugal a escrita e a fala anmdam de rastos, completamente à balda.

 

Neste momento, em Portugal, apenas os subservientes ao Poder adoptaram uma grafia assente na grafia brasileira e, por mera ignorância, mutilam as palavras, a torto e a direito… E instalou-se uma outra ortografia: o vergonhoso mixordês.

 

Enfim, uma balbúrdia! Tanto cá, como lá…

 

E nesta balbúrdia não estão incluídas as restantes ex-colónias: Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e Timor. Cabo Verde passou a Língua Portuguesa para segunda língua. Língua estrangeira. Não conta. Contudo, aprender uma língua estrangeira  deturpada, não é da Cultura Culta.

 

E isto é muito significativo da inutilidade deste acordo, que está a destruir a Língua Portuguesa, apenas em Portugal, porque a Língua do Brasil já não nos pertence desde 1822, e, portanto, o que fazem com ela, não nos diz respeito, mas não lhe chamem Português..

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:45

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Domingo, 11 de Março de 2018

«LÍNGUA DE PAPEL»

 

Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 848 (Cabo Verde) de 28 de Fevereiro de 2018

 

https://expressodasilhas.cv/opiniao/2018/03/06/lingua-de-papel/56891

 

Os Crioulos de Cabo Verde mostram-se cada vez mais vigorosos, procurando o seu "espaço" - artigo de Eurídice Monteiro, no qual esta investigadora e docente universitária cabo-verdiana aborda os Crioulos de Cabo Verde, num texto escrito em Língua Portuguesa.

 

Recorde-se que o Crioulo Cabo-verdiano passou para "língua primeira" no sistema de ensino, relegando a Língua Portuguesa para "língua segunda", ou seja para "língua estrangeira".

 

Enche-nos a alma ler um texto num Português escorreito.

 

EURIDICE.jpg

 

Por EURÍDICE MONTEIRO

​ ​

6 Mar 2018

 

«Para a valorização do multilinguismo e da diversidade linguística e cultural dos povos, assistimos à comemoração, a 21 de Fevereiro, do Dia Internacional das Línguas Maternas, por expediente da UNESCO e com o apadrinhamento das Nações Unidas.

 

Não é segredo que, particularmente no mundo moderno ocidental, desde o longínquo século dezasseis e em especial com a intensificação dos processos de   globalização cultural, política, financeira e económica em curso, as línguas do poder e do saber científico têm estado relacionadas com a expansão imperial. É por esta razão que, nas emergentes sociedades crioulas, como a nossa, fruto do colonialismo europeu no além-mar e com pouco mais de quinhentos anos de história, a situação linguística caracteriza-se, ainda nos dias da actualidade, pela coexistência hierarquizada entre uma língua europeia oficial e uma língua local (ou várias línguas locais).   

 

É ainda mais profundo esse fosso quando se vislumbra que as línguas coloniais, consideradas – desde a revolução científica de Copérnico, Galileu e Newton – como línguas científicas e veículo do saber moderno, continuam a ser adoptadas como veículo, por excelência, de difusão da literacia. Daí o carácter subalterno que muitas línguas maternas ainda detêm, por as línguas coloniais e o sentido colonial do poder as terem relegado a um estatuto ideológico inferior. Constata-se que um dos fenómenos que tem permitido a perpetuação desta situação de subalternidade das línguas maternas é talvez a inexistência de escrita e a acentuada força da oralidade, fenómenos que são descartados do quadro de legitimação de conhecimento da modernidade ocidental.

 

Tomando, em parte, estas asserções podemos entender melhor o que tem acontecido com as duas línguas em Cabo Verde. Proliferam-se, hoje, estudos sociais, culturais e linguísticos em torno do crioulo cabo-verdiano ou da língua caboverdiana, destacando-se, pelo menos desde princípios do século vinte ao início do terceiro milénio, a contribuição de uma multiplicidade de renomados estudiosos nacionais e estrangeiros (Adolpho Coelho, António de Paula Brito, Baltasar Lopes da Silva, Dulce Almada Duarte, Armando Napoleão Rodrigues Fernandes, Donaldo Macedo, Deirdre Meintel, António Carreira, Dulce Fanha Pereira, Manuel Veiga, Nicolas Quint, Jürgen Lang, Marlyse Baptista, Itzel Salas Barrena, Adelaide Monteiro, Dominika Swolkien, entre outros mais ou menos conhecidos).

 

Admite-se que, não obstante as excepções, a língua cabo-verdiana tem sido confinada ao domínio do privado, tratada como uma língua materna, de comunicação na família, da oralidade, das situações informais de comunicação e, já agora, da comunicação instantânea nas redes sociais; ao passo que a língua portuguesa – que, contrariamente à primeira, é uma língua estandardizada de há séculos – tem sido remetida para o domínio público, sendo a língua oficial e do ensino formal, da escrita, dos meios de comunicação social, das relações internacionais e das demais situações formais de comunicação. Tornou-se uma verdade corriqueira reconhecer que a língua cabo-verdiana é, por excelência, uma língua da oralidade, enquanto a escrita se afigura quase restrita à língua portuguesa.

 

A distribuição do espaço destinado a cada uma revela a interiorização das dicotomias impostas pelo discurso colonial. Por outras palavras, apesar do uso informal (oral) da língua cabo-verdiana tenha sido sempre indexado, antes e depois da independência,  um forte sentido de solidariedade identitária e, em certos contextos, de resistência cultural em Cabo Verde e na diáspora, este uso é menos valorizado ou inclusive indesejado nos contextos públicos, mormente na administração, na educação, na comunicação social e nas relações externas.

 

Kwame Appiah não ignora a persistência do estatuto oficial das línguas coloniais nos territórios africanos outrora colonizados pelos países europeus, chamando a atenção para o facto dessas línguas europeias, portanto estrangeiras, cujo domínio antes havia marcado uma elite colonial, tenham-se transformado em marcas de status nas sociedades ex-colonizadas, preciosas demais para serem abandonadas pela classe que doravante herdou o Estado colonial. Isto é tanto mais sintomático na concepção de MyersScotton, que chega a identificar o que designa por elite closure, ou seja, retrata a estratégia de demarcação do acesso a uma elite, pela via da fluência da eurofonia (língua oficial). Na mesma linha, Étienne Balibar refere que “L’héritage du colonialisme est en réalité une combinaison fluctuante d’extériorisation continuée et d’exclusion intérieure.”(***) Em boa medida, isto ajuda a compreender as disparidades no investimento e na valorização das línguas.

 

Em Cabo Verde, ao contrário do que aconteceu com muitas línguas em outros contextos de enfrentamento, que foram completamente assimiladas por línguas socialmente dominantes ou deixarem de ter falantes, a língua materna resistiu. Constata-se que, cada vez que uma língua se extingue, desaparece com ela a memória cultural do grupo a que pertencia, de maneira que a afirmação das línguas locais, em certa medida, constitui um instrumento fundamental para a valorização dos conhecimentos do povo que a pratica. Posto isso, e se é verdade que a afirmação da língua cabo-verdiana potencializa a revitalização dos saberes catalogados como tradicionais, não é menos verdade que tais saberes deram também grandes impulsos para que a língua cabo-verdiana, para além de ter resistido, reclame um novo estatuto, o de língua oficial, em paridade com a língua portuguesa. Ou seja, o seu reconhecimento nas situações formais de comunicação e o seu desenvolvimento na comunicação escrita, até torná-la, quem sabe talvez um dia, também uma língua de papel, o que ela ainda não é.»

 

(***) «O legado do colonialismo é realmente uma combinação flutuante de exteriorização contínua e de exclusão interna.»

LINGUA MATERNA.png

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 14:05

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Terça-feira, 8 de Novembro de 2016

AO REDOR DO AO90

 

É muito triste e grave o que está a passar-se ao redor do AO90.

 

O AO90 assenta numa incompreensível mas existente LUSOFOBIA, que abordarei apresentando FACTOS.

 

Dêem-me tempo. Estou a fazer uma recolha de informações a este respeito.

 

A subserviência do governo português ao Brasil chega a ser semelhante à do antigo escravo ao seu antigo senhor, com medo de ir para o tronco e de levar mil chicotadas.

 

Qual o motivo deste novo servilismo?

 

Teremos de recuar no tempo e ir seguindo as pegadas de um colonialismo invertido…

 

ESCRAVATURA.jpg

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 11:59

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