Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2024

«Uma Língua em terra de ninguém...»: reflexão de alguns subscritores do Grupo Cívico de Cidadãos Portugueses Pensantes, sobre a tragédia linguística que está a levar-nos à perda da NOSSA Identidade

 

O respeito pela democracia que nos trouxe o "25 de Abril", cujo cinquentenário celebramos este ano, é incompatível com a criminosa imposição política do AO90 a Portugal. E nestas eleições não é democraticamente defensável continuar a silenciar - como se fez em todas as outras - a discussão deste tema fundamental para a defesa da nossa identidade.

"Acordai"!

Maria José Abranches

 

RUI VELOSO.png

 

(...) No "Público", mais um artigo de Nuno Pacheco, em defesa da nossa língua. Leiam, por favor, e enviem comentários - apoiem, não se calem - se sentem e entendem que a nossa língua é a coluna vertebral da nossa identidade, coisa que os outros povos conhecem, designadamente os antigos colonizadores, ingleses, franceses, que não recorreram a AOs para pseudo-defender as suas línguas!

Recordo as palavras de Jacques Attali: «L'identité française, c'est la langue, bien plus que le territoire. La langue d'un peuple est la colonne vertébrale de son identité

(...)

Por favor, não se calem, não podemos deixar morrer a nossa língua! E este apelo é particularmente endereçado aos professores, de todos os níveis e disciplinas, porque é a língua que suporta o nosso conhecimento! 

 

Lembrem-se do que foi a ditadura e a censura, que estamos a aceitar de novo!

Celebremos os 50 anos do 25 de Abril, defendendo a democracia, que a imposição política do AO90, irresponsável e criminosamente, desprezou! 

Maria José Abranches

Attali.png

***
(Momento 1)

Como eu sempre afirmei, o PS de António Costa, no qual nunca votei, nem voto e não confio nada de nada, governou com maioria absoluta que, na verdade, como sempre afirmei e foi confirmado, essa maioria absoluta transformou-se numa autêntica ditadura da maioria sobre a minoria do povo português. Não valem nada.

Fernando Alberto 


***

(Momento 2)

Como já referi e mantenho, foram eles mesmos que reforçaram  a minha opinião amplamente negativa. Parece que se sentem bem assim, tanto mais que, o povo queixa-se sempre muito mas, na hora de votar só pensa sempre, sempre, de forma mórbida, muito mórbida e sem pragmatismo algum, na velha "geometria política", de "esquerda", "extrema-esquerda, "direita" e "extrema-direita". Isto parece-me a mim, um pensamento mórbido, de uma autêntica "pandemia política". Não me admiro nada que, ás tantas, acabem todos os indecisos, por voltar a oferecer maioria absoluta ao PS, que o mesmo é dizer, oferecem a forma de continuarem a governar de forma "ditatorial", como se verificou até agora. Estou muito triste com tudo isto.
 
Fernando  Alberto

 

[Um Povo maioritariamente apolítico, como poderá votar em consciência? Vota em bandeiras, mas não sabe a quem pertence as bandeiras. (Isabel A. Ferreira)].

***

A propósito do texto O que precisas de saber para acompanhar os debates das legislativas, da autoria de Liliana Borges, publicado no Jornal Público

 

«E, mais uma vez, políticos e jornalistas estão a fazer tudo para não falar do Acordo Ortográfico de 1990, imposto a Portugal ditatorialmente, sem discussão pública, ignorando os inúmeros pareceres dos especialistas que o condenam, assim como os muitos apelos dos cidadãos - manifestos, petições, e uma Iniciativa Legislativa de Cidadãos, que subscrevi e para a qual recolhi centenas de assinaturas, e que a Assembleia da República preferiu 'esquecer'! Democracia isto? E é com o desprezo pela nossa língua que estamos a celebrar o 25 de Abril, que nos trouxe a democracia?! Se isto tudo não fosse criminoso, seria sobretudo ridículo!!!»

Maria José Abranches

 

***

Os sinais de abuso de poder tendendo para censura e métodos de ditadura do poder socialista já vêm de longe. Quis condicionar notícias de jornal e ameaçou jornalistas, abusou durante a pandemia e até quis manipular o nosso telemóvel, lança filhos contra pais obrigando-os a perfilhar na escola opiniões que rejeitam, faz contratos sem concurso, etc. - e ter corrompido a língua portuguesa por decreto é 'só' mais um dos crimes do declínio tirânico do PS.

Mário Gonçalves

 
***

Tem toda a razão! Não estamos mal, estamos pessimamente.

Já reparou que, em todos os debates para as próximas eleições que houve, até agora, apenas um dos candidatos, o do PC, aludiu, de passagem ao tema da Cultura?

Com perfis destes, como nos havemos de admirar que a nossa língua que, como diz Pessoa, é "a nossa Pátria", seja apunhalada constantemente, com étimos estropiados pelo Desacordo Ortográfico e pelo uso abusivo, a torto e direito, de anglicismos despropositados?

No meu trabalho de escritor, de muitas décadas, (cerca de 60 livros publicados) e de Presidente da, infelizmente já extinta, Sociedade de Língua Portuguesa, sempre considerei tais atropelos, como um crime hediondo de lesa-cultura.

Há que não baixar os braços e seguir em frente com o combate a esta forma de analfabetismo...

Adalberto Alves

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Há vários crimes na atitude servil dos acordistas no Poder e fora dele: crime de lesa-pátria, crime de lesa-cultura, crime de lesa-língua e crime de lesa-infância (por obrigarem as nossas crianças a escreverem incorrectamente a Língua materna delas. Os adultos podem optar ou não optar pela ignorância, as crianças, não.  As crianças são obrigadas a seguir as más orientações dos muito servilistas e acríticos professores.

Isabel A. Ferreira

 

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Numa outra oportunidade, tive ocasião de mencionar que vivo na Dinamarca há quase 50 anos. Apesar de andar arredado, in loco, das actividades e situações relacionadas com a política, há já muito que me tenho vindo a observar o estado da Nação, através do que vou tendo conhecimento do que se me oferece ver e ouvir nos meios de comunicação - mesmo longe da Mãe Pátria, o cordão umbilical continua sempre conotado.

A democracia não se impõe -- como aconteceu há 50 anos em Portugal -- mas aprende-se. A maioria do povo português pouco sabe o que a Democracia é e como se gere. Mas afirmo-lhe com tristeza que, mesmo aqui no norte da Europa onde a democracia tem orientado e governado as nações, ela tem-se vindo a definhar e a ser abusivamente mal interpretada. Isto deve-se aos governos de maioria absoluta, que não dão ouvidos à voz pública.

 Fernando Kvistgaard

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Concordo plenamente com a sua análise, Fernando. As maiorias absolutas não fazem parte da dinâmica de uma Democracia, que tem, forçosamente, por inerência à sua própria designação, de ouvir a  voz do Povo.

Isabel A. Ferreira


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(A propósito do artigo de Eduardo Marçal Grilo, intitulado «Reivindicações, opiniões, debates, comentários e tudo mais», publicado no "Público", 12 Fev. 2024

 

«O debate é paupérrimo. Não se ouve uma só posição sobre a situação internacional; ninguém consegue perceber como se quer pôr o país a crescer, para além das descidas dos impostos...» (E. M. G.)

 

"Sim, a própria concepção destes debates, com este formato, deixa muito a desejar. Mas, mais uma vez, no que toca aos debates, tendo em conta os políticos e os jornalistas, assim como relativamente ao autor deste artigo, ex-ministro da Educação, constato como o analfabetismo tradicional marcou este país: a imposição política criminosa dessa ortografia aberrante, que desfigura e ridiculariza a nossa língua materna, continua a ser tabu! Mais uma vez, temos eleições em que essa questão é cobarde e estupidamente silenciada! Os ingleses imitam a ortografia americana, os franceses a do Québec, os espanhóis uma qualquer da América Latina? E se investíssemos no estudo e ensino sério da nossa Língua, como fazem os outros, em vez de andarmos há décadas a fazer 'acordos ortográficos' com o Brasil?"

Maria José Abranches

 

***

Abrir o escuro (expressão utilizada pelo meu filho, portador da Síndrome de Down, para “acender a luz” e que eu adoptei por a considerar brilhante) é do que mais precisamos, mas não vejo jeito de chegar à luz, porque não temos políticos interessados em resolver os problemas do País. Nenhum deles vai para a Política pelos lindos olhos de Portugal. Se fossem, Portugal, neste momento, e passados 50 anos desde o “25 de Abril”, já estaria no topo dos Países Europeus mais desenvolvidos, e, como sabemos, continuamos na cauda da Europa, em quase, quase, quase, quase tudo...

Isabel A. Ferreira

 

***

Já nada me surpreende nas atitudes da "Vida Política", os verdadeiros, aqueles que colocavam Portugal, os Portugueses e a Verdadeira Língua Portuguesa, como algo Imperdível, já não existem na Política mesquinha, interesseira, no tempo doente que atravessamos. Mas, não faz mal, mesmo assim, continuaremos o nosso caminho, rumo aos nossos objectivos, lutando contra o AO90. (...)  

Acácio Martins

***

(A propósito da Carta aberta aos actuais responsáveis pelos destinos de Portugal da autoria de Maria José Abranches)

 

Belíssimo trabalho! Se depois disto não formos ouvidos... Que gente é esta que apareceu para nos governar, que mentalidade, que amor a Portugal e à nossa Língua?! Onde está quem nos acuda?! Lamento tanto, mas tanto... Precisamos de um outro 25 de Abril, mas, se calhar, sem cravos. As verdadeiras revoluções não podem (e vê-se) ser feitas com flores! Que posso dizer mais? Que a louvo a si e a outros, que têm tentado, com esforço, sabedoria e amor ao nosso País e à nossa Língua, combater por todos os meios ao seu alcançe, esta Grande Ofensa Nacional, que nos é feita com a maior impunidade, arrogância e despotismo. 

Soledade Martinho Costa


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Isto parece incrível no Séc. XXI. Se bem que penso que em nenhum período da História, um governo, regime ou civilização procedeu à sua autodestruição. Os políticos portugueses estão a contribuir para a destruição da Língua Portuguesa e da Cultura do país! Não conseguirão, pois enquanto cá andarmos, tudo faremos para que eles não consigam destruir algo que possui séculos de história! NÃO AO ABORTO ORTOGRÁFICO!

Updated Words  

 

***

Esta carta devia ser lida em voz alta no Parlamento. É inacreditável que os destruidores de Portugal (todos os Governos desde o 25 de Abril) também queiram destruir a nossa alma colectiva como Povo, tendo vomitado um criminoso aborto ortográfico imposto brutalmente, totalitariamente a toda a administração pública. Pobres crianças portuguesas consideradas atrasadas mentais por esse Casteleiro de má memória (...)! Parabéns à autora da carta Maria José Abranches. Vou partilhá-la imediatamente. Desde ontem que estou em estado de choque depois de ouvir o de-bate-bate dos dois senhores que querem governar o País. Tanta mediocridade, tanta falta de educação, tanta ignorância, tanta falsidade, tanta hipocrisia. Nunca se viu uma coisa destas. E os comentadores, para se mostrarem muito importantes a analisar o inalisável! Que tristeza. Portugal não caminha para o abismo. Já está mergulhado no abismo. O PR vai ser obrigado a eleger um Governo de Salvação Nacional, que devia já ter elegido depois da retirada do (des)governo de Costa que continuou a (des)governar...

Idalete Giga

 

***

 Idalete Giga, eu ontem vi o debate dos partidos sem representação parlamentar. Alguns são novos, outros lavaram a cara, mas quando abrem a boca percebemos onde estamos. Nem os fascistas, nem os "patriotas", nem os europeístas, nem os soviéticos, nem os lunáticos genéricos disseram nada sobre a língua.

Este modelo de debates também está inquinado, porque os temas são lançados pelos apresentadores, "os assuntos que preocupam os portugueses".

Ou eu não sou português, ou a Língua não é assunto.

E depois vê-se ad nauseam os comentários: "votaram neles...", ou "não votaste, não te queixes". Se me apresentarem 20 pratos de excrementos de um animal diferente, devo comer um ou perder o direito de dizer que tenho fome?

 Pedro Henrique

***

(A propósito do bloqueio do PS aos textos que Isabel A. Ferreira envia aos políticos, via e-mail)

 

Como foi possível que o PS bloqueasse o seu texto?  Prova bem a falsa democracia que tal Partido diz defender. Que atitude totalitária, arrogante, nojenta!  Hoje, a censura é uma espécie de verme subterrâneo, que trabalha no escuro e na mais repugnante hipocrisia. Portugal caminha para o abismo e parece que ninguém quer ver. Não há um único seCtor da vida do nosso País que esteja bem. Cada governo que engana os portugueses e assalta o Poder é sempre pior que o anterior.  Se assim não fosse, Portugal seria um dos Países mais desenvolvidos do mundo, pois temos recursos para isso. Não temos líderes. Não temos políticos humanos.  Temos marionetes a mando da UE. E agora na questão da Língua, temos os maiores cobardes da nossa História, incapazes de assumir o erro GRAVÍSSIMO que foi o Aborto AO/90. Quem terá coragem para o dinamitar?

 

A cobardia total já foi revelada pelos falsos democratas do PS.

Tive a minha página do FB bloqueada e alguém criou três perfis falsos de mim.

Já não podemos confiar em nada. Cada vez me revejo menos nesta sociedade alienada.

 Idalete Giga

 

***

Este bloqueio só veio confirmar o que há muito venho, vimos dizendo, porque a Idalete e tantos outros também o dizem: vivemos numa ditadura de esquerda, disfarçada de democracia. As ditaduras tanto são de esquerda como de direita. Por isso, não faço distinção: são todos farinha do mesmo saco.

Como sempre, as suas análises são lúcidas e dizem da triste realidade do nosso desventurado País.

Pergunta: quem terá coragem para dinamitar o AO90?

Quem, se só temos COBARDES no Poder?

Estamos a ser cercados por uma mediocridade e pobreza intelectual urdida nos calabouços de São Bento e de Belém, para tramar Portugal.


E quem se opõe a esta mediocridade e incompetência é vigiado, é bloqueado, é interceptado, porque incomoda as mentes obscuras que nos desgovernam.   

Vimos que nenhum partido político incluiu a perda da nossa identidade devido à imposição ilegal do AO90, como um assunto também prioritário.

Este é um dos maiores tabus de sempre. Porquê? Porque desde Dom Afonso Henriques que nenhum Rei, nenhum presidente da República, nem mesmo António Oliveira Salazar vendeu Portugal a um país estrangeiro. E o nosso Dom João VI, tão vilipendiado pelos ignorantes, foi um Rei que teve a coragem de enganar Napoleão, e salvar o Reino de Portugal e do Brasil, transferindo a Corte para o Brasil. Todos os outros monarcas europeus caíram às mãos de Napoleão, excepto o nosso Dom João VI.

Precisávamos de um novo governante corajoso, para nos salvar dos que estão a usurpar a nossa identidade, com a cumplicidade dos muito subservientes actuais decisores políticos portugueses.

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 19:04

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Quarta-feira, 14 de Fevereiro de 2024

«No Brasil fala-se Brasileiro», diz a cidadã brasileira Clarice Ribeiro, mas não sendo oficial, o Brasil NÃO tem uma língua autónoma. Está na hora de a ter.

 

Concordo plenamente, com o que se diz na publicação da Clarice Ribeiro, transcrita mais abaixo.


Basta dizer que quando o Brasil deslusitanizou a Língua Portuguesa , que era a Língua oficial desta colónia de Portugal, e a americanizaram, castelhanizaram, italianizaram, afrancesaram e a ela acrescentaram os falares indígenas brasileiros e africanos, e de outros povos que se fixaram no Brasil, ela distanciou-se substancialmente do Português, na fonologia, na ortografia, no léxico, na morfologia, na sintaxe e na semântica, deixando de ser Portuguesa e passando a ser uma Variante Brasileira do Português, que cada vez mais é apenas e unicamente Brasileira.

Aprendi a ler e a escrever no Brasil uma Língua, que quando regressei a Portugal tive de abandonar, para aprender a ler e a escrever Português. De volta ao Brasil, fui obrigada novamente a escrever Brasileiro, para continuar os estudos. E quando regressei definitivamente a Portugal , lá tive eu de abandonar o Brasileiro, para ficar com o meu Português.


Alguns editores brasileiros, para editar as obras de Saramago ou mesmo um livro que escrevi a contestar umas mentiras sobre Dom João VI, no livro 1808 de Laurentino Gomes, propuseram que fossem traduzidas para BRASILEIRO.



E dizem que a Língua Brasileira não existe?
Existe e deve ser assumida de uma vez por todas, pelo Brasil.


Um País sul-americano, com a projecção que tem no mundo, não precisa da muleta portuguesa para impor a sua própria Língua. Cabo Verde já assumiu a Língua Cabo-Verdiana, oriunda da Língua Portuguesa, tal como a Língua Brasileira é oriunda da Língua Portuguesa, que, por sua vez é oriunda do Latim.


É assim o ciclo das Línguas. Começam por ser dialectos e depois seguem o seu caminho como Línguas autónomas.


O Brasil NÃO tem uma Língua autónoma.
Está na hora de a ter.

 

Isabel A. Ferreira

Língua brasileira.jpg

 

«NO BRASIL, FALA-SE BRASILEIRO»

 

Por  Clarice Ribeiro

 

«Em Pindorama, o nome indígena do Brasil, falava-se 1200 línguas, essas línguas não morreram, elas resistem e existem, elas estão vivas na língua brasileira.

 

O brasileiro é falado no Brasil e tem status na Guiana Francesa, Paraguai, Suriname, Uruguai, Colômbia e Venezuela.

 

O brasileiro é uma língua que tem em sua base a herança portuguesa colonial, no entanto, tem influência de línguas indígenas, especialmente do tupi antigo. Também tem influência de línguas africanas, italianas, alemães e espanholas, sendo o galego o idioma espanhol que mais influenciou a língua brasileira.

 

Há várias diferenças entre o português e o brasileiro, especialmente no vocabulário, pronúncia, sintaxe e variedades vernáculas. Vários campos da pesquisa linguística já reconhecem que não há como considerar o português de Portugal e do Brasil a mesma língua, são línguas diferentes, compartilharem o mesmo nome não faz sentido.

 

Segundo Faraco, após a independência, no século XIX, "passou-se a viver um longo período de incertezas, titubeios e ambiguidades, sendo a língua ora designada de língua brasileira, ora de língua nacional", em 1935 houve projeto de lei para mudar o nome da língua oficial do país para "brasileiro", mas não foi aprovado. Em 1946, houve outro projeto, mas também não foi aprovada. É uma questão de justiça e independência, falamos brasileiro.

 

Fontes:

FARACO, C. A. História sociopolítica da língua portuguesa. São Paulo: Parábola Editorial, 2016.

BAGNO, Marcos. Português ou brasileiro? um convite à pesquisa. Parábola Editorial. São Paulo: 2001.

BAGNO, Marcos. Preconceito Lingüístico. São Paulo: Edições Loyola, 1999.

CIPRO NETO, Pasquale. O dia-a-dia da nossa língua. Publifolha. São Paulo: 2002.»

 

Fonte: https://www.facebook.com/photo/?fbid=951483376982949&set=a.122148426583119

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Leituras obrigatórias:

VivaLinguaBrasileira_SergioR.jpg

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«Língua Brasileira e Outras Histórias - Discurso sobre a língua e ensino no Brasil», livro da linguista brasileira Eni P. Orlandi que põe os pontos em todos os "is"

(Clicar neste título)

Eni Orlandi.jpeg

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:54

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Sexta-feira, 10 de Novembro de 2023

Sobre Portugal, Brasil, Língua Portuguesa e AO90: trago à colação um texto do jornalista Octávio dos Santos, para responder a um comentário de um daqueles brasileiros a quem fizeram lavagem cerebral, e só andam por aí a espalhar ignorâncias

 

É preciso que o Brasil PARE de desenterrar mortos, de desenterrar o que ficou no passado, e mudar o discurso da «herança maldita de um passado traumático que assombra a sociedade brasileira até hoje», para «vamos aproveitar a herança bendita que nos deixou o ex-colonizador, e CHUTAR a bola para a frente», como sói dizer-se no Brasil.

 

Brasil - Portugal.png

 

Porém, antes de entrar no assunto que aqui me traz, devo fazer um preâmbulo: ontem, dia 9 de Novembro, à tarde, recebi um e-mail (.br) de um tal Igor Ribeiro [há montes deles na Internet] cujo assunto era «Loucura dʼalém-mar», e a mensagem é a seguinte: «O Lugar da Nossa Língua é um crime contra a humanidade. E a senhora é louca. Já não sonha com cor nem com paisagem, mas com palavras gigantes que venham a zavá-la. Parece que não é saciada há séculos», e mensagens como estas, tanto privadas como em comentários no Blogue, são às centenas, oriundas de brasileiros machistas, mas também de acordistas portugueses machistas, que acham que sou a mãe deles, ou a mulher deles, ou a filha deles para se dirigirem a mim deste modo, julgando que eu sou daquelas que me submeto a eles, como um animalzinho assustado.

 

Pois não me conhecem. Raramente respondo a palermices, mas quando decido responder é para praticar as seguintes obras de misericórdia espirituais: 1) Dar bons conselhos; 2) Ensinar os ignorantes; 3) Corrigir os que erram; 4) Consolar os tristes; 5) Perdoar as injúrias; 6) Sofrer com paciência as fraquezas do nosso próximo.


E só vou reproduzir aqui o que me ocorreu dizer, para ver se esses machistas de meia-tigela param de andar por aqui a tentar calar-me, como se eu fosse da laia das mulheres deles.  


A este Igor Ribeiro respondi o seguinte:

«Você é uma criatura que nasceu com o cérebro fora do lugar, daí que não consiga discernir, pensar, ou avaliar as coisas. É digno da minha compaixão. É preciso que um HOMEM tenha o cérebro no seu devido lugar e com todos os neurónios a funcionar, para chegar ao meu nível intelectual, e avaliar o meu TRABALHO [modéstia à parte].

O que uma criatura, que nasceu com o cérebro deslocado, julga de mim, não me diz respeito.

Ainda está por nascer a criatura que terá a ousadia de me fazer calar. Está habituado a dirigir-se desse modo à sua mãe, ou à sua avó, ou à sua mulher ou filha (se é que tem essa capacidade)? Comigo não pega. Você nem HOMEM é. É uma criatura cega mental que acha que com grosserias faz alguma mossa a quem sabe o que faz, o que é, onde está, o que quer, e para onde vai.

Não é um machistazinho de meia-tigela, que não tem capacidade para criticar com argumentos racionais um Blogue que defende a Língua Portuguesa, que é pertença de Portugal, e que tem leitores, com o cérebro no seu devido lugar, em 193 países, que me vai fazer mossa. Por isso, tire o seu cavalinho da chuva, que comigo não leva mais que o desprezo que eu voto a criaturas grosseiras, que não se comportam como cavalheiros. A Natureza inspira-me Poesia. Os grosseirões como você, dão-me asco, e com grosseirões não tenho de ser generosa, nem delicada.

Poderia simplesmente ignorá-lo, mas já ando farta dos grosseirões brasileiros, que acham que são os donos da Língua Portuguesa e usam de todas as irracionalidades para tentar calar-me.

Pois fique sabendo que eu sou mais eu, e já vos conheço de ginjeira, pois vivi longos anos no Brasil, lá estudei e sei do que a casa gasta: você pertence àquela ala de brasileiros ignorantes que andam por aí a envergonhar o Brasil. E o Brasil não merece a vossa ignorância. Infelizmente, o Brasileiros Cultos são uma minoria.

E considere-se um privilegiado por eu estar a responder ao seu e-mail.

Eis o seu retrato, sem cabeça e com

o cérebro deslocado:Untitled.png Escultura de Yoan Capote

 

E porque o tal Igor emudeceu no e-mail, passou-me pela cabeça que iria receber um comentário num dos textos do Blogue., por isso, hoje não me surpreendi com o comentário que a seguir reproduzo. Antes, enviei ao Igor a seguinte mensagem: «Algo muito previsível. Já aguardava por isto, LUANNA BERTHOLDO MINARDI.» A resposta que obtive foi: «Feliz Ano Novo». Pois é!

 

LUANNA BERTHOLDO MINARDI comentou o post Independência do Brasil: «Não irmão mas sim filho», uma lição de História, por Octávio dos Santos, onde se faz uma feroz crítica ao AO90 e «às duas “repúblicas das bananas” típicas do Terceiro Mundo» às 22:07, 09/11/2023 :

Vocês deveriam cuidar do país de vocês e não do NOSSO... Aceitem, vocês nunca foram donos do Brasil, superem a perda e cuidem do que diz respeito à terra de VOCÊS! Meu país e a Língua Brasileira não pediram opinião de portuga nenhum, se pra vc a língua portuguesa tradicional é importante, então cuidem dela no PAÍS DE VOCÊS! No nosso país vocês não têm direito de opinar. Att.

 

***

Então vou responder ao “Luanna”, para pôr em prática as obras de misericórdia espirituais, que me são tão caras:

1 – Nós não queremos saber do vosso país para nada. Só queremos que os brasileiros incultos nos deixem em paz, e não venham para cá desestabilizar o País dos Portugueses. Mas para ser simpática, desejo, de todo o meu coração, todas as venturas e felicidades ao Brasil, para que possa ser, como sempre sonhou, os Estados Unidos da América do Sul, mas, para tal, têm de cortar o cordão umbilical com Portugal, e seguir em frente sem a muleta europeia.

 

2 - Vocês é que têm de aceitar o facto de o Brasil, conforme está bem explicado no texto do Jornalista Octávio Santos, já ter sido território português, quer gostem ou não gostem, quer queiram ou não queiram. Nós não perdemos o Brasil. Nós é que demos a liberdade ao Brasil [não esquecer que Dom Pedro, primeiro Imperador do Brasil, o qual protagonizou o Grito do Ipiranga, nasceu em Portugal, no Palácio Nacional de Queluz, portanto, era português] para que se tornasse um grande país. É o que faz NÃO ter estudado a História tal como ela aconteceu, e não tal como os esquerdistas da ala mais ignorante querem reescrevê-la.

 

3 - Pois está muito enganado. Quem não pediu opinião a zuca nenhum para destruírem a Língua Portuguesa com o acordo ortográfico de 1990, engendrado pelo brasileiro-libanês Antônio Houaiss, a qual não é nem deixa de ser tradicional [quanta ignorância!] porque a Língua Portuguesa é a Língua PORTUGUESA, não existe mais nenhuma, e nós estamos a tratar dela, este meu Blogue trata dela, o que precisamos é de que os brasileiros DEIXEM a Língua Portuguesa em paz e fiquem lá com a vossa Língua Brasileira, porque não queremos saber dela para nada. Ela pertence-vos, e se a querem destruir destruam-na à vontade.  A nós, pertence a Língua Portuguesa, e nenhum brasileiro há-de destruí-la ou substituir pela Língua Brasileira.

 

 4 – No vosso País, de facto, não temos nada que opinar, e se não sabe, fique a saber que nenhum Português OPINA seja o que for no vosso País. Já o mesmo não pode dizer-se dos zucas [isto é gentileza minha pela sua designação portuga] que andam a opinar no nosso País, andam a destruir a Língua do nosso País, e pretendem introduzi-la no nosso País. Mas cá estaremos para o impedir.



5 – Este seu comentário, desculpe a franqueza, foi de uma ignorância, desde a primeira palavra à última. Já não há pachorra para tanta ignorância!!!!

 

***

Já agora vou aproveitar para pôr mais umas achas nesta fogueira, publicando um outro comentário e a minha resposta a um brasileiro eivado daquela ignorância que anda por aí espalhada. É há algo que me intriga: não haverá no Brasil, nenhum brasileiro culto que possa vir comentar algo com cabeça, tronco e membros? Será que é porque os brasileiros cultos são uma minoria muito reduzida, e os brasileiros incultos são a maioria? Mas ao menos, os cultos, poderiam vir salvar a sua honra.


Omori João comentou o post Não é verdade que o Português foi a língua-líder nos exames de acesso a universidades dos EUA, em 2023. A verdade é que foi a Variante Brasileira do Português, que predomina naquele País, à qual erradamente chamam “português”, que liderou... às 18:31, 16/09/2023 :

A única diferença é que a tal “muleta” europeia é, na realidade, a herança maldita de um passado traumático que assombra a sociedade brasileira até hoje.

 

***

Omori João, quem chega ao ano 2023 d. C. a considerar que a muleta europeia do Brasil é, na realidade, “a herança maldita de um passado traumático que assombra a sociedade brasileira até hoje” [que argumento mais infatilóide!] deve ter para aí uns 500 anos, e pertencer a uma tribo indígena brasileira. Quem assim pensa, deve inscrever-se no Guinness World Records, porque é um caso raro.

 

O que os brasileiros, do século XXI d.C., menos instruídos, chamam  “herança maldita de um passado traumático que assombra a sociedade brasileira até hoje» foi a “herança maldita de um passado traumático” dos Norte-americanos, dos Indianos, dos povos de expressão castelhana, da América do Sul, e pelo que sabemos, eles conseguiram ultrapassar esse passado traumático, que SÓ foi traumático para os indígenas, os verdadeiros donos dos territórios colonizados, e para os escravos africanos, que neles viveram o tempo da colonização.

 

Que nós saibamos, os Portugueses, HOJE, não estão a azucrinar os Brasileiros. Os Brasileiros é que estão a azucrinar os Portugueses, pela mão de esquerdistas brasileiros ignorantes, com pretensões colonialistas.

 

E tudo foi como foi, porque era como era. Ponto final.
 

Será que a sociedade brasileira do ano 2023 d. C. NÃO consegue seguir em frente, sem andar a arrastar os grilhões de um passado que NÃO viveu?  Olhe-se para os Norte-americanos, que conseguiram LIBERTAR-SE do passado colonial inglês, muito mais agressivo do que o português, e construíram um País dos mais poderosos do mundo.

 

Porém, o Brasil marca passo. Os Brasileiros jamais conseguirão chegar aos pés dos Estados Unidos da América, cujos indígenas, tiveram uma colonização muito mais traumática do que os indígenas brasileiros da época colonial, que já estão TODOS mortos. E porquê jamais o Brasil conseguirá estar no “mapa mundi” como uma potência sul americana? Porque não está preparado para cortar o cordão umbilical, que ainda o liga ao ex-colonizador.  O que só demonstra que ADOROU ser colónia de Portugal. LIBERTEM-SE!!!!!


É preciso que esta ala mais ignorante do povo brasileiro CRESÇA, e deixe de andar por aí a choramingar como crianças, por coisas que NÃO viveram. Não conseguem conciliar-se com o passado? O problema é dos choramingões, que vêem o futuro, olhando para trás.



Terão estes brasileiros, que levaram com a lavagem cerebral esquerdista, e que vivem no ano 2023 d. C.,  a noção da figura triste que fazem ao  vitimizarem-se, se sempre lhes faltou capacidade para avançar sozinhos, depois de o Grito do Ipiranga, em 1822? É inacreditável como ainda precisam da muleta europeia, para se imporem ao mundo, estando ISOLADOS nesse mundo, por não terem conseguido “dar a volta por cima”, e construir o futuro, tal como o fizeram os restantes povos colonizados.

 

Enquanto andarem por aí a choramingar e a fazer-se de vítimas de algo que NUNCA viveram, os brasileiros choramingões estão a contribuir para um País DEPENDENTE, que não consegue cortar o cordão umbilical com o ex-colonizador e viver a sua própria vida. Enquanto carregarem às costas os fantasmas de todos os que SOFRERAM na pele o estigma da colonização, andarão por aí feitos zombies, e a disseminar disparates, que só a eles ficam mal. E os Portugueses já estão fartos dessa choraminguice.

Seria da inteligência, o Brasil seguir o seu próprio caminho, SEM a muleta europeia.   Já lá vão mais de 500 anos e o Brasil ainda não saiu da cepa torta. E a culpa é dos Portugueses? Ou será do complexo de vira-lata (a designação é do brasileiro Nelson Rodrigues), que apouca os choramingões?


Seria preciso que a população brasileira fosse MAIS instruída, porque só as pessoas instruídas poderão ser livres. A elite intelectual brasileira é um grão de areia, no meio do deserto dos “milhões” que tanto alardeiam. Dom João VI deixou ao Brasil TODAS as ferramentas para que se tornassem num país culto e  livre, e o Brasil NÃO soube aproveitar essa dádiva, e perdeu o comboio da evolução.  É preciso que o Brasil PARE de desenterrar mortos, de desenterrar o que ficou no passado, e mudar o discurso da «herança maldita de um passado traumático que assombra a sociedade brasileira até hoje», para «vamos aproveitar a herança bendita que nos deixou o ex-colonizador, e CHUTAR a bola para a frente», como sói dizer-se no Brasil.


BASTA de infantilidades, de choraminguices, de vitimizações e de ignorâncias!!!!

 

Isabel A. Ferreira

 

 

 

 

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:04

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Quinta-feira, 10 de Junho de 2021

Hoje celebrarei, a três tempos, o Dia de Portugal, de Camões, das Comunidades Portuguesas e da Língua Portuguesa…

 

Tempo Primeiro:

 

Camões 1.jpg

 

Celebro o Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas orgulhando-me de ser portuguesa, orgulhando-me da sua História, da sua Cultura Culta (porque anda por aí uma cultura inculta a tentar impor-se, sob as asas de políticos pouco escrupulosos, de quem não tenho orgulho algum), e de todos os Autores Portugueses que souberam honrar a Língua Portuguesa, desde Dom Dinis até aos nossos dias.

 

Portugal é um país territorialmente pequeno, mas com uma alma grande, que gente ignara, d’aquém e d’além-mar, amesquinha insidiosamente, sem o mínimo Saber.

 

Contudo, um Povo [que se preze] deve celebrar os valores do seu País mais do que gritar ao mundo as suas desvirtudes. Estas devem ser redimidas na intimidade da sua auto-estima.

 

E porque tudo vale a pena se a alma não é pequena (citando Fernando Pessoa), este é o meu contributo no sentido de resgatar o bom-nome de Portugal [que anda por aí tão vilipendiado, na boca de quem não conhece as palavras].

 

Todos os povos têm virtudes e defeitos. Portugal não foge à regra. Contudo, o maior defeito do Povo Português é o de não acreditar nas suas virtudes, [aceitar ser governado por políticos estultos] e encolher-se perante os juízos menores que dele fazem os que desconhecem a grandeza do seu percurso histórico, e de como sempre conseguiu manter-se na corda bamba, sem nunca perder plenamente o equilíbrio.

 

E isso não é coisa pouca!

[Mas esses foram outros tempos, tempos em que a HONRA fazia Lei].

 

(O texto em itálico foi retirado da nota introdutória do meu livro «Dom João VI – Como um Príncipe Valente Enganou Napoleão e Salvou o Reino de Portugal e o Brasil», que pode ser consultado neste link:

https://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/contestacao-ao-livro-1808-de-laurentino-729191

 

***

 

Tempo segundo:

 

Fernando Campos.jpg

Fernando Campos (Foto: Portal da Literatura)

 

É através do escritor Fernando Campos que celebrarei todos os Autores Portugueses, desde os clássicos, aos hodiernos, que souberam honrar Portugal, honrando a Língua Portuguesa, o nosso mais nobre   Património Cultural Imaterial, o único que nos identifica como Povo soberano.

 

Fernando Campos é um dos mais extraordinários autores portugueses, da minha predilecção. Ficcionista, cronista e investigador, Fernando da Silva Campos nasceu em 23 de Abril de 1924, em Águas Santas, no concelho da Maia (Porto), e faleceu em Lisboa, em 01 de Abril de 2017. A sua prosa é cristalina. É perfeita. É ímpar. Ler Fernando Campos é esquecer a realidade e entrar no mundo fabuloso das suas palavras e dos seus enredos.

 

De Fernando Campos, neste momento, estou a reler «A Rocha Branca», cujo âmbito cronológico da acção vai dos finais do século VII a. C. à primeira metade do século VI a. C., e no qual a poetisa Safo de Lesbos é a personagem principal. Um livro que recomendo não só pela sua beleza de escrita, como pela riqueza do conteúdo histórico.

 

Entretanto, seguindo a minha releitura, na página 47, deparei-me com o discurso de Pítaco, rei de Mitilene, que provocou o exílio de Safo, a conspiradora.

 

E não sei porquê (talvez os meus leitores possam dizer-me), encontrei neste discurso algo que me trouxe aos tempos de hoje. E pensei: o que mudou em todos estes séculos? Este discurso pode ser proferido por qualquer um dos nossos actuais governantes, ou pretendentes a sê-lo, ou poderia tê-lo dito António Oliveira Salazar.

 

Ontem, como hoje, tirania ou democracia? Eis o grande dilema, que me proponho reflectir com os meus leitores:

 

«(...)

Um dia Pítaco convoca os cidadãos para a ágora. (...) Ele avança três passos no patamar até à beira da escadaria, levanta a mão e fala:

 

– Cidadãos de Mitilene! A nossa liberdade está em perigo. Um grupo de conspiradores ousou urdir na sombra a morte do vosso rei e a perda da cidade. Vejo-me constrangido a expulsar de Lesbos todo esse bando de perigosos malfeitores. Alcei-me ditador para que não mais haja nesta terra ditadura. Não renegaremos os deuses, velaremos pela salvação da pátria e pela segurança de todos vós. É na tirania que se funda a verdadeira democracia. De que serve a soma de opiniões dos homens cultos, se, numa assembleia, as suas ideias divergem, tal como na taberna se entrechocam as dos ignorantes no calor do vinho e das paixões? Sim, dir-me-eis, é preciso educar o povo. É verdade. Mas, quando toda a gente possuir o dom da sabedoria, todos continuarão a opinar diversamente e a democracia corre o risco de ser sinónimo de anarquia...

 

Só sereis felizes se fordes governados por um rei absoluto. A causa de todos os males está na democracia, no governo da maioria. Quando o poder está na mão de um tirano, ele sabe que tem de satisfazer a muitos. Se muitos governam, não pensam senão em satisfazer-se a si próprios e surge então a mais hipócrita das tiranias, a tirania rebuçada de liberdade. Para obviar a esse perigo, cumpre pôr ordem nos tribunais, nas assembleias do povo, no exército, nas ruas, disciplina nas escolas, estabelecer normas de convivência. Criarei uma guarda pessoal que vigilará pela minha e vossa integridade, que o mesmo é dizer pela integridade do estado. Serão homens especialmente treinados. Ninguém conhecerá os seus rostos nem os seus nomes. Estarão em todo o lado, secretos, invisíveis, atentos e zelosos. Serão os meus olhos e ouvidos. Ide em paz. Sois livres de nada conceber e atentar contra o vosso rei e a vossa pátria...

 

- …se não… - rosna Antiménides no meio da multidão.»

 

in «A Rocha Branca», Fernando Campos (Editora Objectiva) – 1ª edição Outubro 2011

 

Obra literária de Fernando Campos, que recomendo vivamente:

 

A Casa do Pó (Prémio Literário Município de Lisboa) – (1986); Psiché – (1987); O Homem da Máquina de Escrever – (1987); O Pesadelo de dEus - (1990); A Esmeralda Partida (Prémio Eça de Queiroz da Câmara Municipal de Lisboa) - (1995); A Sala das Perguntas - (1998); Viagem ao Ponto de Fuga - (1999); A Ponte dos Suspiros - (2000); ...que o meu pé prende... - (2001); O Prisioneiro da Torre Velha - (2003); O Cavaleiro da Águia - (2005); O Lago Azul - (2007); A Loja das Duas Esquinas - (2009); A Rocha Branca - (2011); Ravengar - (2012)

 

***

 

Tempo Terceiro:

 

Luto pela Língua.png

 

Neste dia de celebração de Portugal, de Camões (o maior de todos os nossos Poetas, o qual cantou os feitos gloriosos dos Portugueses, imortalizando-os na sua genial obra «Os Lusíadas»), das Comunidades Portuguesas, mas também da nossa Língua Portuguesa, não podia deixar passar em branco o facto de o Povo Português estar de luto por ela, e ao mesmo tempo, existir tanta gente a lutar pela sua sobrevivência, entre o caos em que, entretanto, a lançaram.

 

Eu estou de luto pela nossa Língua, tão bela e quase morta! O que fizeram dela? O que fizeram com ela? Em nome de quê? Porquê? Nasceu nobre e europeia, num jardim antigo, à beira-mar plantado, e foi lapidada, como um diamante, por um saber profundo.

 

Foi levada por ventos e marés a todos os cantos do mundo. E em cada canto nasceu um novo falar, uma nova escrita. E de uma se fez muitas.

 

Espalhou-se pelo mundo, sem nunca deixar, contudo, de ser a Matriarca [de mater (Latim) + árkho (Grego) – as suas raízes], aquela que lidera, por ser a mais antiga, entre todas as outras que nasceram dela.

 

Porém, entretanto, vieram uns invasores estéreis, e feriram-na de morte, sem dó, nem piedade, nem sabedoria, e agora, agonizante, o nosso belo diamante aguarda um antídoto que possa devolvê-lo à vida e à beleza de antanho.

 

Daí que eu esteja de luto, mas, ao mesmo tempo, luto com todas as garras de fora para que esses invasores sejam escorraçados e vencidos, como tantos outros, ao longo da nossa História, já foram, e a Língua Portuguesa possa, então, renascer das cinzas, tal a bela Phoenix que sempre foi.

 

Ainda nos resta a esperança que, tal como a ave mítica, ainda que possa morrer queimada, renascerá sempre das próprias cinzas, se assim o desejarmos.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 09:58

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Sexta-feira, 12 de Abril de 2019

E assim vai o inadmissível e arruinado ensino, em Portugal...

 

Ao cuidado de todos os que estão envolvidos no sistema do (des)ensino português, incluindo governantes, pais e encarregados de educação.

 

A imagem que aqui reproduzo (tive o cuidado de esconder o nome do Agrupamento, por motivos óbvios) chegou-me via-email, destinada a uma querida aluna, a meu cargo, nestas férias de Páscoa.

 

4º ano de escolaridade.

 

Fotocopiei a mensagem, e dei-a a ler à aluna. Só lhe pedi para ler alto o que a professora escreveu. E aguardei o resultado, esperando que a criança (de 10 anos) tivesse a mesma reacção que eu (porque as crianças não são as estúpidas que os governantes querem que sejam), quando me vi diante deste documento timbrado, do Governo de Portugal, Ministério da Educação e Ciência.

 

Scan.jpg

 

Marquei a vermelho os trechos com os quais a aluna esbarrou e me questionou, com os olhos esbugalhados (e não estou a inventar), e reproduzo fielmente as falas da menina (em sublinhado) que se seguiram.

 

Primeira linha: o trabalho de féria é importe. Hã? Não é assim, pois não?

Não, não é. Então como será?

Imediatamente a menina disse: o trabalho de férias é importante.

Muito bem.

Mas a professora não sabe escrever?

Saberá, mas está baralhada. Continua.

 

Segunda linha: agradeço que percam um pouco do vosso de tempo. O quê? Do vosso DE tempo? É do vosso tempo, não é?

Exactamente.

Mas o que é isto? A professora não sabe escrever?

Estaria distraída.

Sim, sim, ela é muito distraída. Às vezes ela escreve mal no quadro e temos de a corrigir.

Isso acontece. Vá, continua a ler.

 

E fomos parar à sexta sugestão onde se fala de treinar os algoritmos e (…) a subtração (que a aluna leu subtrâção, e muito bem).

 

E mais adiante os números fraccionários (frácionárius), inclusive a (…) subtracção (que a aluna leu subtráção, e muito bem)…

O quê? É subtracção ou subtração?

Não havia como enganar a criança. Jamais o faria.

Expliquei: subtracção (subtráção) é grafia portuguesa, é Português. Subtração (subtrâção) é grafia brasileira, é Brasileiro, como tu dizes.

Mas nós somos portugueses!

Pois somos.

Então porque querem que se escreva à brasileira? Isto só me baralha!

 

Como responder a esta pergunta? Com a verdade, evidentemente. Às perguntas das crianças sempre devemos responder com a verdade, para que elas possam desenvolver o espírito crítico que falta aos governantes, a muitos pais e encarregados de educação, e aos próprios professores, que se entregam a esta missão desonrosa de enganar as crianças.

 

E a verdade é que os governantes portugueses, desde Cavaco Silva a Marcelo Rebelo de Sousa, todos eles, primeiros-ministros, ministros e deputados da (ex) Nação Portuguesa (agora é brasileira) e professores e jornalistas servilistas e todos os outros marias-vão-com-as-outras, dotados de coluna vertebral cartilaginosa, trocaram a grafia portuguesa pela grafia brasileira, pelos motivos mais vis:  mania de grandeza e dinheiro.

 

A aluna bem sabe o que é a Língua Brasileira, porque tem uma colega brasileira na turma, que fala diferente e diz coisas diferentes das nossas. Não fala Português - disse-me, como quem sabe o que diz.

 

Não, não fala.

 

Esta “carta aos alunos” escrita atabalhoadamente (sem revisão) em mixordês (mistura de português com brasileiro) é inadmissível.

 

Não será a única.

 

Os maiores exemplos da mixórdia ortográfica vêm de cima, da presidência da República, do gabinete do primeiro-ministro, dos restantes ministros, de todos os grupos parlamentares. Dos próprios professores que, nas páginas do Facebook, escrevem as maiores barbaridades, incluindo palavrões.

 

Os manuais escolares são uma autêntica mina de disparates, desde as águias com grandes dentes, às invasões francesas para prender Dom João VI, e cheios de desenhos e desenhinhos, como se as crianças fossem muito estúpidas, não lhes dando qualquer oportunidade à imaginação.

 

O que pretendem os governantes com este tipo de ensino idiota? Formarem os analfabetos funcionais do futuro, para que sejam tão submissos como os analfabetos funcionais da actualidade?

 

E há mais: é proibido dar más notas ou chumbar os alunos, para mostrar ao mundo que o sucesso escolar em Portugal existe. Quando isto não passa de uma grande aldrabice!

 

Alunos que escrevem gatafunhos, que ninguém entende, têm MUITO BOM a Português, ou melhor, a Brasileiro. Intolerável.

 

É inadmissível o que está a passar-se em Portugal no que respeita à Educação, ao Ensino, à Cultura.

 

DEMITA-SE senhor ministro da Educação e Ciência. Permitir uma tal balbúrdia no Ensino é um postura terceiro-mundista.

 

E os pais e encarregados de educação deviam tomar uma atitude drástica e EXIGIR um ensino de qualidade para os seus filhos, como está consignado na Constituição da República Portuguesa, ao qual têm direito.

 

Com esta “carta” fiquei tão escandalizada e indignada quanto a aluna que, apesar dos seus dez anos, tem algo que falta aos actuais governantes: inteligência para ver as coisas tal como elas estão, ou seja, MAL. Muito MAL.

 

Isabel A. Ferreira

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:52

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Terça-feira, 15 de Novembro de 2016

Génese do Acordo Ortográfico de 1990 (I)

 

Esclarecimento: para que não subsista qualquer dúvida na mente dos leitores, acerca do que escreverei sobre esta matéria, sinto-me na obrigação de, desde já, esclarecer que sou uma assumida e aguerrida anticolonialista, anti-imperialista, anti-racista, anti-xenófoba, antiesclavagista e anti-preconceituosa.

 

Tenho o Brasil no coração, como minha segunda pátria, e considero todos os povos do mundo meus irmãos. Porém, nunca me calei, nem nunca me calarei, diante do menosprezo a que o meu País é frequentemente votado, por mero preconceito, profunda ignorância e uma incompreensível lusofobia.

 

Sei que existem muito bons aliados brasileiros, como o Paulo Franchetti, que aqui cito, mas também sei que além de serem uma minoria, não são eles que mandam nestas coisas da Língua. É o Itamaraty.

 

Por isso, e por conhecer bastante bem a realidade, tanto a de lá, como a de cá, ouso atrever-me (assim mesmo) a dizer o que muitos já poderão saber, mas não têm a coragem de dizer alto.

 

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Realmente, a ordem que vem de cima, na esmagadora maioria das vezes, assenta num interesse que vem de baixo, e quase nunca é a ordem das coisas.

 

E isto é absolutamente inaceitável. Se numa Democracia, o povo é soberano, é ao povo que cabe acabar com a descomunal fraude do AO90.

 

Todos nós sabemos que o chamado Acordo Ortográfico de 1990 impõe a grafia brasileira  saída da reforma ortográfica unilateral, de 1943, que o Brasil, continuou a adoptar, quando renegou, apesar de a ter assinado, a Convenção Ortográfica Luso-Brasileira 1945 que, esta sim, unificava a Língua, e a qual, «desde então, tem vigorado em Portugal e antigo Ultramar português, como ortografia oficial portuguesa e (…) ainda vigora, por falta da sua revogação», à excepção «desse esquisito irmão de Portugal, que é o Brasil» (1).

 

Posto isto, quando falamos do abrasileiramento da grafia portuguesa, que o governo português obrigou a adoptar em Portugal, a partir de 01 de Janeiro de 2012, estamos a falar do acordês, do brasileirês, do malaquês, do socratês, do lulês, do cavaquês, e mais recentemente do costês e do marcelês, vulgarismos pelos quais o AO90 passou a ser conhecido. Ou seja, é tudo menos Português.

 

Como chegámos a este ponto?

 

Temos de recuar no tempo e analisar o que nos diz a História.

 

1 - A História diz-nos que o território, ao qual se deu o nome de Brasil, foi descoberto em 22 de Abril de 1500, pela frota de Pedro Álvares Cabral, um ilustre navegador português, ao serviço de Dom Manuel I, Rei de Portugal.

 

2 – Lá chegados, os Portugueses encontraram um território já povoado por tribos indígenas com uma cultura primitiva, porém bem organizada. E estes eram e sempre foram os verdadeiros donos daquele território.

 

3 – Tal como fizeram os restantes povos (descobridores de mares e terras), os Portugueses mesclaram-se com os indígenas e levaram para o Brasil homens e mulheres (gente boa e menos boa) e ali cresceram e multiplicaram-se à boa maneira bíblica.

 

4 – Como os indígenas eram senhores de si, não alinharam, de livre e espontânea vontade, com os Portugueses no que respeita à construção de um país. Então, já descobertos os territórios africanos, cujos indígenas raptavam os seus próprios irmãos e os vendiam como escravos a quem os quisesse comprar, os Portugueses (como todos os outros povos colonizadores) viram ali um grande negócio e levaram para o Brasil os africanos e, com uns e com outros, assim se foi criando um novo povo.

 

5 – Na fúria daqueles tempos, em que os senhores do mundo queriam dominar os povos descobertos, à América do Sul foram chegando Espanhóis, Ingleses, Franceses, Holandeses, e, pelo que sabemos, as senhoras daquela época eram formosas como as rosas, e então continuou-se aquela multiplicação bíblica, agora com mais possibilidade de escolha.

 

6 – E o tempo foi passando e, entre o povo, cada vez mais brasileiro, foi crescendo o sonho da independência, até porque Dom João VI, que transferiu a corte para o Brasil em 1808,  foi criando neste pedaço de Portugal, as estruturas essenciais a um povo, para que caminhasse com os próprios pés. Em 1820, rebenta em Portugal uma revolução liberal e a família real foi forçada a regressar a Lisboa. Dom João VI nomeia então o seu filho mais velho, Dom Pedro de Alcântara Orléans e Bragança, como Príncipe Regente do Brasil, em 1821. Instado pelas circunstâncias, em 07 de Setembro de 1822, encontrando-se Dom Pedro nas margens do riacho Ipiranga, (onde se situa a actual cidade de São Paulo) deu aquele grito de “independência ou morte” e em 12 de Outubro do mesmo ano é proclamado Imperador do Brasil, com o nome de Dom Pedro I. E assim nasce o Império do Brasil, completamente desligado do de Portugal. E o Brasil continuou Império até 15 de Novembro de 1889, quando se transformou no Brasil República.

 

7 – A partir daqui, já completamente livre do jugo português, e com, pelo menos, duas gerações legitimamente brasileiras, os Brasileiros ficaram senhores de si próprios e responsáveis por tudo o que daí em diante fizeram (ou não fizeram) pelo Brasil.

 

8 – A partir daqui nasceram quatro grupos de cidadãos brasileiros: os indiferentes, para quem tanto faz, como tanto fez; os saudosistas, que suspiravam pela majestade do antigo Império; os progressistas, aqueles para quem o passado é passado, vamos construir o futuro (infelizmente a minoria); e os ressabiados, aqueles que, sem sequer saberem  porquê, rejeitaram pura e simplesmente o passado de colonizados, e criaram à volta dessa rejeição, quase irracional, um complexo de inferioridade (que o escritor e jornalista brasileiro, Nelson Rodrigues, com muito humor, designou como “complexo de vira-lata”, e, ainda mais irracionalmente, vivem a sonhar o sonho impossível de quererem ter sido colonizados pelos Ingleses, uma vez que têm como “ídolo” o gigante norte-americano, desconhecendo por completo que a História do gigante norte-americano é tão igual ou até mesmo inferior   (facto: os Ingleses sempre foram muito mais racistas e xenófobos do que os portugueses) do que a do gigante (ainda a ser) sul-americano, desenvolvendo-se a partir daqui uma perniciosa e irracional lusofobia.

 

9 – E é dentre estes ressabiados, maioritariamente esquerdistas, que, vá lá saber-se como, saíram uns tantos que, chegados ao Poder, introduziram esta lusofobia no ensino da Língua Portuguesa (idioma que livremente adoptaram depois da independência, pois ninguém lhes impôs nada) e também no ensino da História do Brasil, inacreditavelmente deturpado, o que fez parte de uma lavagem cerebral bem orquestrada que perdura até aos dias de hoje. 

 

10 – Chegados aqui, há que dar provas disto.

 

O que ficará para a segunda parte.

 

(1) in «O Acordo Ortográfico de 1990 Não Está em Vigor» da autoria do Embaixador Carlos Fernandes (Edição Guerra & Paz)

 

Isabel A. Ferreira

 

***

Génese do Acordo Ortográfico de 1990 (I)

http://olugardalinguaportuguesa.blogs.sapo.pt/a-genese-do-acordo-ortografico-de-1990-52848

 

Génese do Acordo Ortográfico de 1990 (II)

http://olugardalinguaportuguesa.blogs.sapo.pt/a-genese-do-acordo-ortografico-de-1990-53853

 

 Génese do Acordo Ortográfico de 1990 (III)

http://olugardalinguaportuguesa.blogs.sapo.pt/genese-do-acordo-ortografico-de-1990-55885

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:42

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Quarta-feira, 9 de Novembro de 2016

«O Português Que Nos Pariu»

 

Em 2009, escrevi um texto a propósito destas humilhações, às quais os portugueses se vergam com muita deferência, o que me deixa perplexa.

 

Vou recuperar este texto para servir de Introdução ao que pretendo divulgar sobre a Génese do AO90, que tem tudo a ver com o que se escreveu no livro «O Português que nos Pariu», objecto deste meu texto.

 

PORTUGUÊS.jpg

 

Quando os Portugueses são humilhados e ninguém se insurge contra essas humilhações...  (Parte II)

 

Continuando com o tema dos maus-tratos a que o povo português tem sido sujeito por parte de gente preconceituosa e que ignora o que fomos e o que somos, hoje debruçar-me-ei sobre o livro da jornalista brasileira Angela (sem circunflexo) Dutra de Menezes, intitulado «O Português Que Nos Pariu», publicado no Brasil, no ano 2000, pela Relume-Dumará, e editado em Portugal pela Civilização Editora, em 2007.

 

Quando me foi sugerida esta leitura, disseram-me: «Se ficou indignada com o livro «1808», de Laurentino Gomes, ao ponto de escrever a sua «Contestação», então com este ainda terá mais motivos para se indignar».

 

Confesso que fiquei curiosa.

 

Tratei imediatamente de adquirir o livro. E de facto fiquei estupefacta. Alguns autores portugueses vêem-se rejeitados pelas nossas editoras, com obras válidas, com qualidade literária e que respeitam a Língua Portuguesa. São rejeitados como lixo. Contudo essas mesmas editoras aceitam publicar tudo o que vem de fora, sem qualquer pejo, ainda que maltratando a nossa Língua e o nosso Povo.

 

É injusto. Muito injusto!

 

O Português Que Nos Pariu é um livro híbrido. Nem peixe, nem carne.

Comecemos pelo título, nitidamente conotado com aquela outra expressão vulgaríssima, que se usa para insultar a mãe dos outros (neste caso o pai). Um título infeliz e que diz muito sobre o conteúdo do livro.

 

Na contracapa lê-se que a escritora, «propõe uma nova maneira de encarar a História (...) lançando mão de uma linguagem bem-humorada e sem a rigidez dos livros didácticos. (...) A perspectiva da História que nos apresenta é um “olhar índio”. É como se (...) um audaz grupo de índios pegasse numa piroga e desembarcasse nas margens do Tejo para ver de onde (...) tinham surgido aqueles homens brancos e de hábitos estranhos que foram desinquietar as suas vidas».

 

Fiquei ainda mais curiosa. Um olhar índio. Eu, que quando estudei nas escolas brasileiras a parte da História comum aos dois países, sempre considerei que os indígenas brasileiros, esses sim, tinham muitas razões de queixa contra aquele povo que, um certo dia, entrou no seu território e se apossou das suas terras, transformando-as no quintal deles, e as suas crenças e a sua cultura foram tidas como coisas do “diabo”, que deviam ser banidas e substituídas pelos valores ocidentais da Cristandade.

 

No entanto, que desilusão! O “olhar” não foi de índio, mas de uma ex-colonizada que ainda não “encaixou” o facto de aquele território ter sido dado a conhecer ao mundo por um povo pequeno, mas de alma grande (à parte os despautérios perpetrados contra os indígenas e mais tarde contra os escravos vindos de África, o que não tem perdão à luz da razão, mas pode ser admitido à luz dos archotes que então ardiam, por todo o mundo, ainda pouco iluminado, naquele tempo).

 

Devo dizer que em questão de contextualização, o livro da Angela (não sei o que me parece escrever este nome sem acento circunflexo) é mais correcto do que o «1808», do Laurentino Gomes, que disse as coisas fora do seu contexto, o que retirou credibilidade à narrativa. No entanto, O Português Que Nos Pariu contém algumas imprecisões históricas, e é todo escrito num tom nitidamente escarnecedor (não de humor, humor é outra coisa), ao jeito do vídeo da Maitê Proença, uma brincadeirinha... que acabou com uma cuspidela na fonte (e os imundos somos nós!).

 

Já agora posso igualmente fazer uma referência ao filme da brasileira Carla Camurati, intitulado Carlota Joaquina, Princesa do Brasil, uma pretensa comédia, que faz uma caricatura pavorosa da coitada da Dona Carlota e do Dom João VI, se bem que a interpretação dos actores seja admirável. Porquê esta aleivosia contra um povo que até nem foi dos piores, no que respeita ao desempenho colonizador?

 

Antes de entrar propriamente nos meus comentários, devo dizer que fiz uma breve pesquisa na Internet, sobre este livro, e deparei-me com dois textos que me deixaram perplexa.

 

Um deles, numa página que suponho ser da editora Relume-Dumará, que inclui um texto não assinado, diz o seguinte (os sublinhados são meus):

 

Além de um casal luso, alguém sabe fazer um português?

 

«A receita está no livro O português que nos pariu - Uma viagem ao mundo dos nossos antepassados, de Angela Dutra de Menezes. Junto com a receita, o leitor leva, de brinde, "estórias" da História portuguesa. Fatos que, de um jeito ou de outro, marcaram o caráter brasileiro.

 

Tudo narrado com bom humor, já que a história oficial é insossa e arrastada. Por que não jogar na mesa que o grande Afonso Henriques provavelmente amargava um insolucionado Complexo de Édipo? Que dom Henrique, o Navegador, não sabia navegar? Que dom Sebastião, o tal do messianismo, não passaria em psicotécnico de nenhum Detran da vida? Descontração não anula a verdade dos fatos. Se o livro dá um "jeitinho" de colorir a História é porque nosso "jeitinho" também é herança lusa.

 

Nossos antepassados portugueses foram grandes e audazes. Inventaram o Estado-Nação, descobriram novos mundos e, um dia, olhando o mar, concluíram filosoficamente que aquilo era um caminho – para além havia terras. Lá se foram eles; aqui estamos nós.

 

Cinco séculos se passaram. Sobrou tempo para os portugueses inventarem a palavra saudade, enquanto se esbaldavam no estupro e no saque. Entre a ternura e a porrada, descobriram o Brasil, colonizaram o Brasil e inventaram um país mestiço, miscigenado e sofrido: mas cheio de graça. (...)»

 

Devo dizer que, de repente, pareceu-me regressar aos meus maus velhos tempos de estudante, quando ouvia estes e outros descalabros sobre a nossa História, nas escolas brasileiras (eu que já havia estudado História, em Portugal).

 

E fiquei triste, porque verifiquei que nada mudou, e já lá vão tantos anos! As mentalidades continuam preconceituosas. Mesquinhas. Complexadas. Continua a ensinar-se disparates. Como hão-de os Brasileiros ter uma ideia correcta da sua própria História? Do seu passado? Do que são e do que foram?

 

Reparem nos adjectivos: a história oficial é insossa e arrastada... Dito mais desditoso! Depende de quem a conta e de como a conta, nenhuma História é insossa e arrastada. Isto depende da inteligência e da sensibilidade de quem ensina História. E o que se diz de Afonso Henriques, do nosso Infante D. Henrique e de D. Sebastião! Quanta ignorância!

 

O livro não dá um jeitinho de colorir a História. A História que nele se conta está completamente enfarruscada pela fuligem negra que se despega das palavras.

 

E perdoem-me, mas o “jeitinho” brasileiro de que se fala neste texto, não é, de modo algum, herança portuguesa; é simplesmente o “jeitinho” daqueles que, depois da independência, se tornaram genuinamente brasileiros, mas não souberam “libertar-se” do que eles consideram o “estigma” português. Sim, porque hoje, no Brasil, nada sobra do que foi verdadeiramente português, a não ser as obras de arte, os palácios, a arquitectura que, por exemplo, transformou a cidade de Ouro Preto em Património Mundial da UNESCO. Nem sequer a Língua, que apesar de parecer, já não é mais a Portuguesa.

 

Fixemo-nos no último parágrafo do texto reproduzido: aquilo é de quem renega o seu passado e vive frustrado com o peso de uma ignorância, que não tem graça nenhuma.

 

Como se isto não bastasse, vagueei mais um pouco pela Internet e deparei com o Blogue do jornalista português Antunes Ferreira, antigo Chefe de Redacção do Diário de Notícias (1975-1991) e escritor.

 

Este senhor diz: «Êta livro fascinante. A Civilização Editora que o publica em Portugal merece um muito obrigado, à vontade. Firme. Sentido. Permitiu aos Portugas a leitura de um texto primoroso, cheio de graça, ironia (...) Falo de uma obra, neste caso perfeitamente prima, vinda de quem vem, 189 páginas magníficas (...)»

 

Sempre respeitei a opinião dos outros, e esta opinião merece todo o meu respeito, mas não a minha concordância: em primeiro lugar porque um Português que se preze não devia encontrar tanto fascínio numa obra que, de certo modo, e camufladamente, nos amesquinha, com base numa colossal ignorância dos factos. Em segundo lugar, a linguagem utilizada no livro é de uma vulgaridade tão pobre e podre, tão nua e crua, que não pode ser (no meu entender) qualificada de primorosa e magnífica.

 

Um exemplo: «A arqueologia prova que os pré-históricos ibéricos já se assemelhavam aos gajos pós-modernos – ora, pois».

 

A autora dá-nos a receita de como se faz um português: misturam-se vários ingredientes (a que ela chama povos) e lá mais para diante diz: «Cuidadosamente misture os revoltosos (refere-se aos lusitanos), os romanos e as tribos que se lixaram para a invasão romana».

 

Diz também que «A cidade  DO Faro, no Algarve, última em poder dos muçulmanos, voltou a pertencer a Portugal». Seria a cidade do faro do cão de água português, que tanto cativou Barack Obama?

 

Apenas mais uma: «Até hoje, Portugal acredita que os gajos (refere-se aos portugueses emigrados) se esfalfaram de trabalhar em uma pobreza bíblica, desprezados pelos brasileiros, infelizes, desgraçados, maltratados. Só que voltar para lá quase ninguém voltou».

 

Sou testemunha de que sim, os emigrantes portugueses, no Brasil, menos privilegiados do que eu, esfalfaram-se a trabalhar e eram desprezados pelos brasileiros, obviamente, incultos.

Não regressaram a Portugal aqueles que apesar de trabalharem arduamente, não conseguiram juntar dinheiro suficiente para tal. Outros, mais afortunados, ficaram ricos e não regressaram, porque constituíram lá família e posição social privilegiada. Outros, ainda mais afortunados, embora não enriquecessem, puderam regressar à pátria (o meu caso), por se recusarem a viver cercados de preconceito, e de uma lusofobia doentia, e porque as várias estadias no Brasil foram sempre provisórias, por razões do foro privado.

 

Ao contrário, os emigrantes brasileiros em Portugal são tratados como iguais. São respeitados como seres humanos que são. Os Portugueses não costumam escrever livros a escarnecer dos ex-colonos: nem dos do Brasil, nem dos de África, nem dos do Oriente. Aliás, os Portugueses não costumam escrever livros que firam a honra de um povo. Qualquer povo. Apenas os brasileiros incultos e complexados o fazem.

 

Os Portugueses são um povo civilizado (há excepções, certamente, como em todos os povos). Passada a era dos archotes, evoluíram, e não lhes interessa humilhar ninguém, especialmente aqueles que, por infortúnio da vida, não são belos, cheirosos e ricos.

 

Voltando ao livro: se a obra é prima, então não sei de mais nada!

 

Além da linguagem vulgar (não a considero nem irónica, nem bem-humorada) é simplesmente vulgar, no sentido mais inferior da palavra, e gramaticalmente imperfeita, há várias imprecisões históricas e piadinhas que mostram (ainda) o desprezo que o brasileiro (é preciso frisar) inculto tem pelos portugueses.

 

A Angela ao dizer que Portugal deve ao infante alguns mil quilómetros quadrados, embora naquela época, ninguém falasse em quilómetros, principalmente quadrados não fez mais do que aludir (rodeando a questão) à tão incómoda (para eles) “ignorância” dos portugueses, uma vez que o termo quadrado tem essa conotação.

 

Para terminar, gostaria apenas de deixar aqui uma sugestão aos brasileiros que escrevem sobre os Portugueses, e também aos editores portugueses:

 

Aos jornalistas brasileiros que escrevem sobre História, antes de se aventurarem a abordar o que quer que se seja, a esse propósito, sugiro que leiam os bons livros de História, já não digo os da autoria dos historiadores Portugueses, mas, por exemplo, os de um prestigiado historiador brasileiro, Manoel de Oliveira Lima, para aprenderem a não se envergonharem do seu passado português. Procurem ler também algumas obras de escritores portugueses, e os vossos maravilhosos clássicos (como Machado de Assis, Jorge Amado, Olavo Bilac, Monteiro Lobato, José Mauro de Vasconcelos, entre muitos outros) para não perderem o jeito da Língua Portuguesa. Não se limitem a ficar com o que aprendem nas escolas. Nas escolas aprende-se o preconceito, eivado de uma lusofobia patológica. E isso é mau. É péssimo.

 

Aos que publicam em Portugal estas escritas preconceituosas, aconselho a terem mais brio profissional, e a defenderem a Língua Portuguesa e o Povo Português.

 

Ao contrário do que muitos proclamam, defender a Língua e o Povo não é um conceito rançoso, de antanho, dos tempos das mariquinhas e dos manézinhos e dos chás das caridadezinhas. Essa é uma visão empalada da questão. Quem assim pensa, ficou parado na vida e no tempo.

 

Defender a Língua e o Povo, hoje, é simplesmente defender a própria dignidade, a honra, aquilo que fomos e que somos. O EU colectivo.

 

Dizer sim aos que nos humilham é negar-nos como povo. Não podemos dar razão a quem nos vê como uma gentinha ainda porca, ainda feia, ainda má, ainda ignorante, e deixar que isso corra mundo como uma verdade, nos filmes que os outros filmam, ou nos livros que os outros escrevem...

 

Basta de estimular as mentes deformadas!

 

Já não vivemos no tempo dos archotes. As luzes hoje são outras...

 

Isabel A. Ferreira

 

in

http://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/24702.html

21 de Outubro de 2009

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:59

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