Terça-feira, 10 de Março de 2020

«O Acordo Ortográfico e as respectivas facções»

 

Francisco Miguel Viegas diz, e muito bem, no artigo que dá título a esta publicação:

«O impacto real do AO90 verifica-se em textos concretos e não em ilusões. Convém que o poder político deixe de insultar quem o elege e de atirar areia para os olhos ou, segundo a doutrina vigente, arena para os óculos».

Na minha perspeCtiva, o que FMV escreveu neste texto, seguindo uma óPtica correCtíssima, assim muito, muito espremidinho, significa isto: se os acordistas não assentaram o AO90 na mais profunda ignorância do Português (e já nem falo no de lá ou no de cá) parece, pois demonstram-no constantemente, diariamente, insistentemente, mentendo dó...

Além disso, se pretenderam unificar as ortografias brasileira e portuguesa, esqueceram-se de um pormenor importantíssimo: ou o Brasil começava a escrever totalmente à portuguesa, pois é à portuguesa que todas as outras ex-colónias escrevem, ou Portugal e todas as outras ex-colônias começavam a escrever à brasileira. De outro modo, cada um puxa a brasa à sua sardinha, e lá vai a tontice de querer unificar algo que é absolutamente impossível de unificar, pelos motivos mais óbvios a qualquer ser pensante.

E é bem verdade o que diz, FMV: convém que o poder político deixe de insultar quem o elege e de atirar areia para os olhos de todos os que os têm bem abertos e são capazes de raciocinar...

Isabel A. Ferreira

 

FMV.jpg

 

Por Francisco Miguel Valada

 

«O Acordo Ortográfico e as respectivas facções»

 

«Está nisto desde que veio. (…) De curtas e compridas tem-nos chamado de tudo.»
António Lobo Antunes, Memória de Elefante

 

«A primeira frase de um recente despacho da Lusa, divulgado pelo Expresso, ilustra bem a farsa do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90). Passo a transcrever: “As fações rivais líbias convidadas pela ONU a participar em negociações políticas na quarta-feira em Genebra (Suíça) anunciaram esta segunda-feira separadamente a decisão de suspenderem a respetiva participação no diálogo, alegando motivos diferentes.” Efectivamente, esta frase está e não está de acordo com o esperado de uma frase cumpridora do estabelecido na base IV do AO90. Por um lado, temos *fações e *respetiva, porque em português europeu a oclusiva velar correspondente à letra ‘c’ nas palavras facções e respectiva não é pronunciada. Por outro lado, como em português do Brasil a oclusiva velar correspondente à letra ‘c’ naquelas palavras é pronunciada, o resultado seria diferente se este texto, em vez de aparecer no Expresso, tivesse aparecido na Folha de S. Paulo, ou seja, haveria facções e respectiva.

 

Isto é, actualmente, em português do Brasil escrito, versão 1990, aquelas grafias correspondem às fabulosas formas já existentes no português europeu escrito com a ortografia de 1945, a ortografia óptima, segundo a melhor informação científica disponível. Assim sendo, em português do Brasil com AO90 e em português europeu sem AO90, temos esta deliciosa frase: “As facções rivais líbias convidadas pela ONU a participar em negociações políticas na quarta-feira em Genebra (Suíça) anunciaram esta segunda-feira separadamente a decisão de suspenderem a respectiva participação no diálogo, alegando motivos diferentes.”

 

Com efeito, apesar do reconhecido valor grafémico da letra ‘c’ em facções e respectiva, os autores do AO90 decidiram aniquilá-la em português europeu. É evidente que tal decisão de supressão da letra ‘c’ foi tomada ao arrepio de pareceres e artigos científicos, aos quais os deputados e o Governo não ligaram nenhuma, escolhendo o pouco corajoso acto da fuga para a frente. Alguns, aliás, têm preferido mesmo o recurso à provocação e à deselegância. Recentemente, um deputado do Partido Socialista (PS) aproveitou a morte de João Malaca Casteleiro para ofender quem estuda e trabalha. De facto, Ascenso Luís Simões lamentou que “quem nega a atual [sic] ortografia não entenda que a língua portuguesa não pode ficar agarrada a uma visão é [sic] um tempo marcados pelo colonialismo”. Aguarda-se uma retractação, uma vez que pedir para ler pareceres e artigos, pelos vistos, é pedir imenso. Convém, apesar de tudo, separar o trigo do joio. Por exemplo, Pedro Cegonho, também ele deputado do PS, tem disponibilidade para ouvir educadamente argumentos contra o AO90. É essa, aliás, a impressão que fica do excelente e minucioso relato feito por Rui Valente, sobre o encontro de uma delegação da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico com representantes do Grupo Parlamentar do PS.

 

Voltando ao assunto que aqui trago, a supressão da letra ‘c’ tem, portanto, duas consequências: uma consequência interna e outra externa. Quanto à interna (do ponto de vista português europeu), temos a provável homonímia de *fação com uma localidade do concelho de Sintra chamada Fação e a potencial rima de *respetiva com discretiva. No que diz respeito à externa, cria-se um novo fosso entre as normas europeia e brasileira, afastamento provocado justamente pela principal base do AO90. Em suma, exactamente o oposto das promessas e juras de negociadores, promotores e amigos do dito cujo.

 

O impacto real do AO90 verifica-se em textos concretos e não em ilusões. Como vimos no início, a primeira frase de um despacho da Lusa não tem qualquer palavra afectada pelo AO90 em português do Brasil, mas tem duas palavras afectadas pelo AO90 em português europeu. Convém que o poder político deixe de insultar quem o elege e de atirar areia para os olhos ou, segundo a doutrina vigente, arena para os óculos.

 

Autor de “Demanda, Deriva, Desastre: Os Três Dês do Acordo Ortográfico” (Textiverso, 2009)

 

Fonte:

https://www.publico.pt/2020/03/10/culturaipsilon/opiniao/acordo-ortografico-respectivas-faccoes-1906712?fbclid=IwAR2pSbfyKLv1OdVY4d5L3TLVE-0K8DeUYhWNeKChCfPwZrvEqJhOCSIBoY8

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:08

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Terça-feira, 22 de Outubro de 2019

O AO90 é um sarilho que está a ensarilhar a vida de muita gente. Este Blogue é apenas o lugar onde se monta o sarilho…

 

 

Trocando e-mails com leitores acerca do AO90, eu não sei tudo, sei quase tudo, porque o tempo do tudo ainda está por chegar. Mas uma coisa eu sei: o AO90 é um enredo de mentiras que se enrolam para fazer meadas, e a este Blogue cabe apenas desenlear essas meadas…

 

Por entender ser do interesse público, as considerações que recebi, via e-mail, do Professor A. Viera, transcreverei a nossa última troca de ideias, com a permissão do próprio, começando pelo último e-mail, que nos fala de um exemplo onde a racionalidade saiu vencedora, o que nos dá uma ideia de que o Acordo Ortográfico (é) um Beco Com Saída, como nos conta Nuno Pacheco neste seu livro, de leitura obrigatória.

 

Fraqueza.png

 

2º e-mail:

 

«Dr.ª Isabel, naturalmente que agradeço a inclusão do meu texto no seu blogue. No preciso momento em que li o seu mail, tive uma surpresa agradável - que felizmente também as há: ao receber a Revista "Combatente" (Edição da Liga dos Combatentes) reparei que a mesma vem agora redigida em Português correcto (a começar pela referência ao seu DireCtor) coisa que não acontecia; em tempos desinteressei-me da sua leitura e enviei um mail ao Gen. Chito Rodrigues, revoltado e a dar conta do erro em que uma edição das nossas F. A.´s incorria ao não respeitar a nossa Língua (e logo uma Instituição que deve pugnar pelos nossos valores - Pátrios). Assim comprovo que a mensagem surtiu efeito. Felizmente!!

Despeço-me, mantendo-nos em contacto e subscrevendo-me,

A.Vieira»

***

 

1º e-mail:

 

«Dr.ª Isabel, satisfaça-me a minha curiosidade p.f.: o dito "COLP" é uma iniciativa (ou organismo) meramente consultivo, ou tem algum alcance deliberativo?

 

Se bem reparou, naquele "conclave" de criaturas já visivelmente fossilizadas, que já deviam era estar de pantufas em casa a cuidar dos netos (ou mesmo até dos bisnetos) e que se auto-atribuem prebendas, num circuito fechado de resultado nulo, ninguém fez menção ao (dito) "A" O 90. Qual a razão?

 

 Há algum tempo, o nosso Primeiro Costa "chutou para canto" relativamente a esta questão, quando depois de se afirmar "contra" (há poucos anos atrás) passou a ser "a favor" dizendo de seguida que "acordos ortográficos, houve-os, está agora este, mas outros irão seguir-se... assim mais ou menos nestes termos! ou seja, e para bom entendedor, para não "dar o flanco" já está a preparar-se para não perder a face, deixando antever, no íntimo, que este "A"O não tem mais pernas para andar. Há já algum tempo o "Kaiser" numa atitude de arrogância miserável afirmava que " eu até podia suprimir o AO!!"…! ou seja, os ditames da nossa Língua sujeitos aos estados de humor e aos caprichos da criatura!

 

Mais importante: este CIO-AO90, com sede em Genebra (que desconheço e que se calhar o mesmo sucede com a maioria das pessoas) de que alcance jurídico dispõe?

 

E afinal qual a posição do Brasil? se a iniciativa do Presidente Bolsonaro tivesse o desfecho desejado (a começar por ele mesmo) o assunto estaria já arrumado e de vez.

 

Continuo a pensar que se se criasse uma plataforma informática de professores decididos a não cumprirem o "A"O 90 numa atitude rebelião assumida sem hesitações, mas concertada, e em número elevado, e se se recusassem a corrigir testes e exames subordinados ao mesmo, a coisa mudaria de figura.

 

Despeço-me por hoje; mantendo-nos em contacto, subscrevo-me,

 

A. Vieira»

 

***

 

Caro Professor,

 

Agradeço o seu e-mail.

Respondendo à sua primeira questão:

 

O dito “COLP” (Conselho de Ortografia da Língua Portuguesa) é um órgão (mais um, para esbanjar dinheiros públicos) nem consultivo, nem coisa nenhuma. Foi criado em Julho, apenas para se andar a brincar com um assunto muito sério: a destruição da Língua Portuguesa, na sua forma grafada, uma vez que o que divulgam não é a Ortografia Portuguesa, mas sim a Ortografia Brasileira. É, portanto, um organismo, mais um, para enganar os mais distraídos...

 

Sim, reparei, que eles já nem falam no AO90, naturalmente para não levantarem ondas sobre a FRAUDE que o envolve, estando todas essas criaturas envolvidas nela.

 

O nosso primeiro Costa, anda nisto como um barco à deriva, pois nada percebe das Ciências da Linguagem, escreve mal e pronuncia mal o Português, está-se nas tintas para a Cultura Linguística e para a perda da nossa identidade, desde que continue a ser o primeiro de Portugal.

 

Que o AO90 não tem mais condições para continuar, é um facto. Que o SS da língua anda por aí arrogantemente a arvorar-se dono dela é igualmente outro facto, gravíssimo, que deve ser escrutinado na justiça. Pois esta coisa de os ditames da nossa Língua estarem sujeitos aos estados de humor e aos caprichos de um SS, tem muito que se lhe diga.

 

Quanto ao mais importante: o CIO-AO90, suponho que tenha sido criado por desacordistas portugueses, que os há, e muitos, a viverem no estrangeiro, e, naturalmente, devido à gravidade das denúncias, terão com toda a certeza, um substancial alcance jurídico. Mas o alcance jurídico qualquer cidadão português poderá tê-lo, se se dispuser a exercer o direito cívico da denúncia/queixa.



Não, ninguém conhece o CIO-AO90. Nem eu própria. Mas quanto a mim, não me interessa conhecer as pessoas que lá fora lutam pela extinção do AO90, desde que lutem, e dêem provas disso. Recebo bastantes e-mails do estrangeiro, de pessoas com nomes estranhos (naturalmente pseudónimos) e que estão a lutar contra o AO90. Suponho que os cargos que ocupam, não lhes permitam dar a cara. Porque no meio mafioso, todo o cuidado é pouco. Entendo perfeitamente esta atitude de precaução.

 

Quanto ao Brasil, o silêncio mantém-se.

 

Em relação à plataforma informática de professores decididos a não cumprirem o AO90, acho óptimo, concordo em absoluto consigo, daí que lhe sugira, uma vez que é do meio, que lance o repto aos seus colegas, alinhave as ideias, e eu publicarei no Blogue esse repto.


Penso que está nas mãos de professores conscienciosos do DEVER da nobre missão de ENSINAR, acabar de vez com esta farsa, que só está a prejudicar as crianças e os jovens que frequentam as escolas Portuguesas.

 

Por fim, peço-lhe permissão para publicar o seu e-mail assinado, com esta minha resposta, por ser do interesse público.


Aguardo que me diga alguma coisa.



Saudações desacordistas,

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:13

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O Acordo Ortográfico 1990 não tem validade internacional. A assinatura (em 1990) do texto original tem repercussões jurídicas: fixa o texto (e os modos como os signatários se vinculam), isto segundo o artº 10º da Convenção de Viena do Direito dos Tratados. Por isso, não podia ser modificado de modo a entrar em vigor com a ratificação de apenas 3... sem que essa alteração não fosse ratificada por unanimidade! Ainda há meses Angola e Moçambique invocaram oficialmente a não vigência do acordo numa reunião oficial e os representantes oficiais do Brasil e do capataz dos brasileiros, Portugal, meteram a viola no saco. Ora, para um acordo internacional entrar em vigor em Portugal, à luz do artº 8º da Constituição Portuguesa, é preciso que esteja em vigor na ordem jurídica internacional. E este não está!
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