Na linha dos seus antecessores, o texto do mês de Janeiro (o 88.º da série “Em Defesa da Ortografia” e o primeiro do corrente ano), continua a apresentar, exactamente, as mesmas características.
A aposta continua a ser a de mostrar diálogos, por vezes absurdos, de índole humorística, que ilustram a fantochada do AO90, expondo as suas fragilidades, as suas incoerências e a completa ausência de lógica.
As palavras a vermelho indicam as formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, remetem para grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos, se mantêm como duplas grafias. A azul, temos os casos de hipercorrecção, decorrentes da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.
LXXXV
— Hoje, o jogo correu-me mal.
— Como pensas ultrapassar essa má fase?
— Vou ver o vídeo de todo o jogo e refletir.
— Não é suficiente.
— Não?
— Vais ter de reflectir, que é outra coisa.
LXXXVI
— Ó pai, diz aqui no jornal que há um braço de ferro entre o governo e os sindicatos. Não percebo o significado.
— Não há nada para perceber. Braço de ferro é um braço feito de ferro.
— Então, pode enferrujar?
— Exactamente! E a ferrugem alastrar ao governo a e aos sindicatos.
LXXXVII
— Ó pai, lembras-te de ontem te ter falado da expressão braço de ferro?
— Claro que me lembro. Porquê?
— É que hoje encontrei no jornal Público uma notícia que dizia haver um braço-de-ferro entre um empresário e um clube. Será a mesma coisa?
— Claro que não. Braço-de-ferro é uma prova de força. Pensar que braço-de-ferro e braço de ferro são a mesma coisa é como confundir o Garcia de Orta com a horta do Garcia.
LXXXVIII
— Willy Sagnol, o treinador da Geórgia afirmou que o desempenho da sua seleção foi excecional.
— Discordo completamente.
— Porquê? Era a estreia num Campeonato da Europa…
— Não tem nada que ver com isso!
— Então?
— Willy Sagnol foi muito modesto. O desempenho da selecção da Geórgia foi excepcional.
LXXXIX
— Temos uma forte condicionante para o treino da tarde.
— Que condicionante?
— Não temos pontas de lança disponíveis.
— Usamos arcos e flechas. Qual é o problema?
— O problema é que estás cada vez mais indocível. Eu estava a falar de goleadores.
— Ah, pontas-de-lança! Outra vez a confusão entre o Garcia de Orte e a horta do Garcia, não é? Quem é indocível, quem é?
XC
— Hoje, vamos aprender a intercetar cruzamentos dos adversários, minimizando o risco de a bola seguir o caminho da nossa baliza.
— O que é intercetar, míster? É o mesmo que interceptar?
— Não, rapaz. Interceptar requer uma dose suplementar de cuidado e de inteligência.
XCI
— Ó pai, podes oferecer-me uma teleobjetiva no Natal?
— Para que hás-de querer tu uma teleobjetiva?
— Para fotografar coisas a grande distância, para que havia de ser?
— Para isso, objectos a grande distância, precisas de uma teleobjectiva. Uma teleobjetiva não serve.
XCII
— Este político é um mestre no uso da subjeção. Ninguém o bate.
— Achas?
— Não acho. Tenho a certeza.
— Eu discordo completamente dessa tua opinião. Acho que a construção frásica é manca. Falta-lhe qualquer coisa. Talvez o cê de subjecção.
XCIII
— Mais uma despesa…. Vou ter de comprar um convetor.
— Para que queres essa porcaria?
— Para aquecer, é óbvio.
— Não preferes um convector? Será menos económico, mas mais eficaz é certamente porque transmite o calor por convecção.
— Já te percebi. Só me custa perder uma consoante. Ando a colecioná-las desde 1990.
— Coleccioná-las, queres dizer?
XCIV
— Para evitar a entrada de água, é necessário defletir a chuva.
— Onde aplico este objecto?
— Aí sobre a porta.
— Acabei de inclinar. Já está a defletir?
— Ainda não.
— E agora, que incluí o cê?
— Já está a deflectir!
— Perfeito!
XCV
— Antes de entregares o manuscrito, é crucial proceder à retificação.
— Já fiz. Mas ainda não está perfeito, como é natural.
— Contrataste algum profissional habilitado?
— Sim.
— Não deve ser um profissional competente. Experimenta contratar um especialista em rectificação. Ficará perfeito à primeira tentativa.
XCVI
— É uma vedação espetável.
— Porque dizes isso?
— Faz-me lembrar um autêntico trabalho em filigrana.
— Mas requer muito cuidado, não é?
— Não te entendo.
— Na minha ideia, espetável significa que se pode espetar. Se estiver ferrugenta, é duplamente perigosa, não?
Ah! Uma das imagens que acompanha este escrito, divulgada pelos grupos Cidadãos contra o Acordo Ortográfico de 1990 e Tradutores contra o Acordo Ortográfico, demonstra como, vários anos após o início da aplicação do nefando Acordo Ortográfico de 1990, alguns órgãos de Comunicação Social continuam a ter a capacidade de, a cada dia, inventarem novos erros.
Ah! A segunda imagem, sobre as polémicas declarações do Ministro da Educação, mostra o estado a que chegou a ortografia que por aí vai circulando, em que o verbo retractar-se é constantemente atacado e espoliado de uma consoante. Este verbo, que significava desdizer-se e dar o dito por não dito, confunde-se, agora, com um sinónimo de tirar um retrato.
Ah! É completamente obrigatório ler o artigo de Nuno Pacheco “Ora aqui vão los acuerdos que hacen nuestros hermanos”, publicado no dia 11 de Dezembro pelo jornal Público.
Ah! Do mesmo autor, vale a pena ler o texto “O meu acordo é melhor que o teu: dilemas da ortografia”, também dado à estampa pelo Público no dia 4 de Dezembro.
Ah! Obviamente, não deixe de ler “O Orçamento de Estado e a Conta Geral do Estado: um retrato do país”, de Francisco Miguel Valada no Público, no dia 16 de Dezembro.
Ah! O blogue O Lugar da Língua Portuguesa, administrado por Isabel A. Ferreira, divulga uma Carta Aberta dirigida aos candidatos à Presidência da República. Continua a ser um local de genuína salubridade, portanto.
Ah! O autor deste escrito deseja a todos os seus leitores umas Óptimas Festas e um Excepcional Ano Novo. Deseja ainda que 2026 traga uma ortografia lógica, coerente e respeitadora da sua história.
João Esperança Barroca


Na linha dos seus antecessores, o texto do mês de Dezembro (o 87.º da série “Em Defesa da Ortografia” e o último do corrente ano), continua a apresentar, exactamente, as mesmas características.
A aposta continua a ser a de mostrar diálogos, por vezes absurdos, de índole humorística, que ilustram a fantochada do AO90, expondo as suas fragilidades, as suas incoerências e a completa ausência de lógica.
As palavras a vermelho indicam as formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, remetem para grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos, se mantêm como duplas grafias. A azul, temos os casos de hipercorrecção, decorrentes da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.
LXXIII.
— Como vamos sair deste túnel sem luz?
— Temos de tatear. É a única solução.
— Não é suficiente.
— Porquê?
— Porque, para sairmos daqui, temos de usar o tacto, isto é, temos de tactear.
LXXIV.
— Ó pai, como se chama um circuito usado numa subtracção entre números binários?
— Acho que é um subtractor, Rafael Alexandre.
— Pensei nisso, mas não consta no dicionário
— Experimenta procurar subtrator.
— Devem ter tido vergonha de pôr mais uma consoante em reclusão. Além disso, parece que estão a falar de um tractor que anda debaixo do chão.
LXXV.
— Vou fazer uma intervenção cirúrgica na próxima semana.
— Que intervenção?
— Vou retirar as adenoides.
— E não precisas de uma segunda intervenção depois?
— Para quê?
— Para retirar o acento.
LXXVI.
— O meu filho tem problemas respiratórios e vai ser operado às adenoides.
— O que é isso?
— É o mesmo que as amídalas faríngeas.
— Olha lá, além de acentos, também andas a comer consoantes?
LXXVII.
— Este ano, em Agosto, vou passar férias no Gerês.
— E já preparaste tudo?
— Tenho tudo controlado. Até já decidi o trajeto.
— Mais uma vez, fizeste mal. Embora pareça mais longo, é muito mais seguro escolher o trajecto.
LXXVIII.
— Olha, olha! Já estou a ver! Repara, ali, à esquerda, na trajetória do asteroide.
— Que alarido! Estou a ver mais e melhor que tu.
— Porquê?
— Porque estou a ver a trajectória do asteróide, não te parece?
LXXIX.
— Estive a ler um livro sobre o Apocalise.
— Apocalise? Que raio de palavra é essa?
— Nunca ouviste? És um ignorante! Significa o fim do mundo, pá!
— Parece-me, antes, o fim da ortografia.
LXXX.
— Estou a sentir as primeiras contrações. É melhor acionar o INEM.
— Calma, calma…
— Dizes isso porque não é contigo!
— Por enquanto, só estás a sentir contrações, não é?
— Sim, sim.
— Exactamente por isso, deves ter calma. Quando começares a ter contracções, accionamos o INEM e damos ao canelo, pode ser?
LXXXI.
— O meu advogado contatou-me, dizendo que sou arguido e acusado de corrução.
— E estás preocupado com isso?
— Claro que estou preocupado. Nunca me vi nestas alhadas.
— Pois eu acho que não há razão para te preocupares.
— Qual é a tua ideia?
— O crime de corrução é uma coisa de somenos. Tenho sérias dúvidas de que seja crime. Grave seria se fosses acusado de corrupção. Aí, piava mais fino. Ah, e contrata um advogado que te contacte.
LXXXII.
— Ó pai, preciso da tua opinião.
— Sobre que assunto?
— Estou a pensar oferecer à mãe um cato no Dia da Mãe. O que achas?
— Um cato? Parece-me que estás a juntar um artigo indefinido com uma forma verbal do verbo catar.
— Não percebo, pai.
— Um é um determinante, artigo indefinido e cato é a 1.ª pessoa do presente do indicativo do verbo catar.
— Não é nada disso, pai. Um cato é uma planta.
— Da família das Cactáceas. Faz lá falta o cê.
LXXIII.
— Ó pai, o que é um dador?
— É alguém que dá ou doa aos outros, a maior parte das vezes, sem querer algo em troca.
— Tem sinónimos conhecidos, desses de que tu gostas?
— Podes usar benemérito ou filantropo.
— Então um conadador doa o quê?
LXXXIV.
— Ó pai, o que quer dizer mandante?
— Mandante significa o que manda ou instiga outros a cometer determinados actos.
— Há algum sinónimo?
— Sim. Instigador.
— Um cocomandante instiga os cocos? Não percebo.
— Não estás sozinho. Ninguém compreende as questões da nova ortografia. Já o saudoso António-Pedro Vasconcelos o dizia.
Ah! Uma das imagens que acompanha este escrito demonstra como, vários anos após o início da aplicação do nefando Acordo Ortográfico de 1990, alguns órgãos de Comunicação Social continuam a ter saudáveis recaídas, distinguindo, neste caso, um verbo de uma proposição.
Ah! A outra imagem, sobre o desempenho de um futebolista português em França, mostra o estado a que isto chegou, como diria Salgueiro Maia, em que o verbo retratar-se, vítima da sanha de amputar indiscriminadamente consoantes, significa, agora, além de fotografar, desdizer-se, dar o dito por não dito…
Ah! É completamente obrigatório ler o artigo de Manuel Monteiro “A língua de pau de todos os dias”, publicado recentemente pelo jornal Público.
Ah! Como é habitual, vale a pena ler dois textos recentes de José Pacheco Pereira, também dados à estampa pelo Público: “O desprezo da pátria por via do desprezo da língua” e “O papel destrutivo do deslumbramento tecnológico na educação”.
Ah! O blogue O Lugar da Língua Portuguesa, administrado por Isabel A. Ferreira, continua a ser um local bem frequentado, onde os bons espíritos se vão regularmente reencontrando. Salubérrimo, portanto.
João Esperança Barroca


Na linha dos seus antecessores, o texto do mês de Novembro (o 86.º da série “Em Defesa da Ortografia”), continua a apresentar, exactamente, as mesmas características.
A aposta continua a ser a de mostrar diálogos, por vezes absurdos, de índole humorística, que ilustram a fantochada do AO90, expondo as suas fragilidades, as suas incoerências e a completa ausência de lógica.
As palavras a vermelho indicam as formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, remetem para grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos, se mantêm como duplas grafias. A azul, temos os casos de hipercorrecção, decorrentes da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.
LXI
— Com o AO90, os hífenes tornaram-se uns invejosos de primeira.
— Não percebo. Porquê?
— Nunca estão no sítio. Queriam ser como os tomates.
— E não achas admissível? Sempre habitaram aquelas palavras e, de um momento para o outro, vêem-se despejados.
LXII
— Tenho de ir ao dentista.
— Para quê?
— Para fazer a extração de um dente do siso.
— Não vás em modernices, pá! É mais assisado fazeres extracção.
LXIII
— Ó pai, não percebo aqui esta expressão.
— Que expressão, Rafael Alexandre?
— Pato de silêncio.
— Cheira-me a mais uma estupidez modernaça.
— O que queres dizer com isso, pai?
— Aposto que é um nome moderno para pato-mudo.
LXIV
— Ó pai, hoje a professora chamou-me debiloide.
— Não te preocupes com isso, Rafael Alexandre! Ela não sabe o que diz.
— Não é um insulto, pai?
— Insulto seria te chamasse debilóide.
LXV
— Porque tens uma ligadura no braço?
— Caí e fraturei o escafoide.
— Tiveste muita sorte!
— Estás a gozar comigo? Tu é que devias ter estas dores!
— Só estou a dizer que muito pior seria se tivesses fracturado o escafóide. Aí é que verias o que são dores!
LXVI
— Estou num dilema.
— Que dilema?
— Encerro a filial em Oeiras ou invisto em mão-de-obra qualificada.
— No teu lugar, contrataria mão de obra. Poupas um dinheirão em hífenes.
LXVII
— Este nosso treinador é fraquinho.
— Devíamos contratar aquele a quem chamam o mestre da tática.
— Não concordo contigo, e ele agora está na Arábia, onde ganha balúrdios.
— Qual a tua ideia, então?
— Um treinador mais completo. Podem, até, chamar-lhe o mestre da táctica.
LXVIII
— Vamos lá escolher os temas que vamos tocar no próximo concerto.
— Quando é essa atuação?
— Dia 24 de Abril. E não acho boa ideia preparar a atuação.
— Não? Porquê?
— É muito mais eficaz se prepararmos a actuação.
LXIX
— Onde vais nas férias de Verão?
— À Antártida.
— Sem mais, digo-te que é uma má escolha.
— Porquê? Só vou pagar 800 euros por sete dias…
— Eu prefiro pagar 900 euros e visitar a Antárctida a pagar esse dinheiro e ficar na Antártida. É preciso andar com os olhos abertos, como nos casos de contrafacção ou de contrafação, como se diz por aí, e não enfiar a primeira carapuça.
LXX
— Fonseca, quem tratou da torra deste lote?
— Patrão, foi o Martins que procedeu à torrefação dos últimos lotes.
— Quantas vezes é preciso dizer que devem fazer a torrefacção como deve ser? Eu não quero, como os do AO90, vender gato por lebre, percebeste?
LXXI
— Ó Fonseca, será que o Martins e os colegas vêem bem o que fazem quando estão na zona da torrefacção?
— Patrão, eles dizem que veem.
— Pois, veem, mas não vêem. Veem é uma aberração, nem parece ser forma do verbo ver.
LXXII
— A UEFA parece estar preocupada com a segurança dos espetadores.
— E se apreendessem os espetos e proibissem a sua venda? Assim é que os espectadores estariam seguros.
Ah, as imagens que acompanham este escrito mostram o calibre da linguagem que por aí vai circulando. Uma exemplifica uma situação de corte desenfreado de consoantes, criando o termo impato, uma verdadeira aberração. A outra imagem, bastante recente, demonstra a insanidade que presidiu à redacção de grande parte das Bases do AO90.
Ah, como se lê, agora: “Nada para Isaac Nader na corrida ao ouro”? O que significa? Nada impedirá Isaac Nader de conquistar a medalha de ouro ou o atleta, que passou parte da infância em Tomar, ficará arredado do pódio? O contexto esclarece as dúvidas?
Ah, como se pronuncia, agora: “Projeto para Lisboa”? O que significa? Lisboa ficará parada por causa de um qualquer projecto? Ou existe um projecto destinado à cidade de Lisboa?
Ah! Toda a gente fala, por estes dias, no Orçamento de Estado para 2026. Como é habitual, Francisco Miguel Valada, no blogue Aventar, faz uma análise exaustiva desse documento. Nessa análise, fica claro que o documento terá sido escrito, pelo menos, a quatro mãos, pois coexistem, entre outros: Acção e Ação; Protecção e proteção; carácter e caráter; Sector e setor; activos e ativos; excepto e excetuando; conectividade e conetividade; detectados e detetados; Projectos e projetos; Electricidade e eletricidade. Obviamente, merece reprovação.
João Esperança Barroca


Como foi possível eu só ter descoberto a rubrica «Língua na Cama», da autoria de Manuel Matos Monteiro, neste 35º Episódio?
Se não fosse o amigo João Esperança Barroca a enviar-me o link, olhem o que eu andava a perder!
Muito bem, Manuel Matos Monteiro. Adorei, o que significa ter gostado muito, muito, mesmo muito desta sua rubrica. Fiquei sua ouvinte.
Na nova rubrica do PÁGINA UM ‘Língua na Cama’, Manuel (Matos) Monteiro – escritor e um dos melhores cultores da Língua Portuguesa, além de formador da Escola da Língua – escalpeliza, de forma caseira e descontraída, erros frequentes do nosso idioma, curiosidades linguísticas, maravilhas idiomáticas. Aprenda e divirta-se. ↓
Este 35º Episódio, tem endereço: o Dr. Luís Montenegro.
E a pergunta é: Dr. Luís Montenegro, a sua Pátria é a Língua Portuguesa?
Caros leitores/ouvintes conheçam as máculas linguísticas do nosso primeiro-ministro, que deixou o idioma nos cuidados intensivos.
«Língua na Cama» é serviço público de qualidade.
Isabel A. Ferreira
(*) Manuel Matos Monteiro é director da Escola da Língua, autor, jornalista, formador e revisor. Autor dos livros: «Dicionário de Erros Frequentes da Língua»; «Por Amor à Língua — Contra a Linguagem que por aí Circula»; «O Mundo Pelos Olhos da Língua»; «Por Amor à Língua e à Literatura»; «Sobre o Politicamente Correcto».
Sugiro vivamente que vejam os Vídeos e leiam os Livros de Manuel Matos Monteiro.
O texto de Outubro (o 85.º da série “Em Defesa da Ortografia”), na linha dos recentes antecessores, apresenta, exactamente, as mesmas características.
A aposta continua a ser a de apresentar diálogos, por vezes absurdos, de teor humorístico, que exemplificam a fantochada do AO90, pondo a nu as suas fragilidades, as suas incoerências e a sua completa ausência de lógica.
Os termos a vermelho indicam formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, referem grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos se mantêm como duplas grafias. A azul, temos os casos de hipercorrecção, potenciados pela aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.
IL
— Estou tramado…
— Porquê?
— Sou arguido num processo que envolve contrafaç
— Contrafação? Então não te preocupes. Quase nem precisas de advogado. Não aplicas o Acordo Ortográfico
— Aplico!
— Então, basta dizeres isso. Crime é a contrafacção. É curioso que “Contrafacção” é o título de uma canção de Sérgio Godinho. Prova-se, assim, que o homem, além de bom compositor e cantor, tem bom gosto ortográfico.
L
— O casamento entre o Raul e a Catarina terminou de forma abruta.
— Qual deles vai ser acusado de violência doméstica?
— E quem falou em violência?
— Tu! Não disseste que foi à bruta. Abrupta é outra coisa, como devias saber. Cortar consoantes a eito dá nisto.
LI
— O que é o trabalho nocturno?
— É o que é feito no turno da noite (do latim nocte).
— Faz sentido manter o cê, por essa razão.
— Pois faz, mas agora com o AO90, é, de poda em poda, até à destruição final e lá nasce o estropício: noturno.
— E noctívago? Ainda leva cê?
— Quase nunca. A Infopédia assume-a como dupla grafia, notívago e noctívago, ao contrário de outras fontes.
— E noctâmbulo e noctilúcio?
— Continuam com cê.
— Não percebo estas incoerências, nem essas coisas das fontes.
— Acho que, pelo menos, esta parte do AO 90 foi redigida de noite e às escuras…
LII
— Já sabes o tema do teu trabalho?
— Já sei, já.
— O que te saiu?
— O Pato de Varsóvia.
— Calma aí… O trabalho não é da disciplina de História? Ou é de Zoologia?
— É de História. O professor é que corta consoantes a eito. É um poupador, percebes?
— Tem literacia financeira. Falta-lhe a outra…
LIII
— Por onde tens andado, pá? Não te tenho visto.
— Ando ocupadíssimo a pedir orçamentos para o batizado do meu filho. Só tenho recebido propostas muito altas, na ordem dos 80 euros por pessoa.
— Olha aqui. Esta empresa organiza toda a cerimónia do baptizado e cobra só 75 euros por pessoa.
— O que te parece? Se fosse contigo, o que farias?
— Eu optaria pela empresa que organiza o baptizado. Penso que dá outras garantias. Certamente, com mais uma consoante, é uma cerimónia mais completa.
LIV
— Esta noite tive um sonho estranhíssimo.
— Sonhaste com extraterrestres?
— Nada disso! Sonhei que era acionista da SAD.
— Isso é mesmo pensar em pequenino!
— Porquê?
— Digno de admiração era se sonhasses ser accionista. Isso é que não é para todos!
LV
— O que te disse o professor sobre a composição?
— Disse que não referi todos os aspetos necessários.
— Espetos? Então a composição era sobre gastronomia ou sobre Alterações Climáticas?
LVI
— O meu neto é extraordinário!
— Então porquê?
— Sabe tudo sobre futebol. Lê tudo o que é publicado nos jornais e nas revistas. Está sempre atualizado.
— Estás enganado! Para saber tudo, teria de estar actualizado. Não é bem a mesma coisa…
LVII
— Ó pai, olha, olha…
— Olho o quê, Rafael Alexandre?
— Tantas palavras…
— Onde? Tenho mesmo de trocar de lentes. Não vejo nada.
— Ali, à porta da Associação dos Espoliados pelo AO 90. Ação, acionar, acionável, acionista, ativar, reação… Todas sem cê. Estão a protestar.
— E o que querem?
— Querem a devolução do que lhes tiraram, ora essa!
LVIII
— Que porcaria, pai. Está tudo cheio de cocó de cão.
— Pois está.
— Mas naquele cartaz pede-se que as pessoas recolham os dejetos dos cães.
— Esse é que é o problema, Rafael Alexandre.
— Não percebo…
— As pessoas levam os dejetos, mas deixam os dejectos. Não é bem a mesma coisa.
LIX
— Trouxeste o que te pedi?
— Aqui está.
— Mas isso é líquido assético.
— Não foi o que pediste?
— Não. E quanto é que pagaste?
— Dois euros.
— Isso é o preço habitual do líquido asséptico, que é muito melhor.
LX
— A minha namorada tem agora um rabo-de-cavalo.
— Passou a frequentar um ginásio?
— Não. Mudou de cabeleireiro, meu estúpido!
Ah, as imagens que acompanham este escrito (primeiras páginas de jornais desportivos, exemplificam o que muitos sabem, mas poucos denunciam.
Como se lê:
Horta para o estágio?
O que significa?
O jogador Horta vai para o estágio ou vai interromper o estágio?
Como se lê:
Melhoria salarial para o avançado?
O avançado vai usufruir de uma melhoria salarial ou vai ser parado por ela?
Ah, Manuel Monteiro publicou no jornal Público um interessantíssimo artigo com o título “Os benefícios da leitura”. Como sempre, vale a pena ler.
João Esperança Barroca


O presente escrito (o 84.º da série “Em Defesa da Ortografia”), na linha dos recentes antecessores, apresenta, exactamente, as mesmas características.
A aposta continua a ser a de apresentar diálogos, por vezes absurdos, de teor humorístico que exemplificam o rotundo falhanço do AO90, pondo a nu todas as suas fragilidades, as suas incoerências e a completa ausência de lógica.
Os termos a vermelho indicam formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, referem grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos se mantêm como duplas grafias. A azul, temos as situações de hipercorrecção, potenciadas pela aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.
XXXVII
— O meu amigo Manuel enviou-me duas imagens que ilustram o caos ortográfico que se instalou após a aplicação do AO90.
— Que imagens são essas?
— São imagens em que o órgão oficial do PS, numa delas, se denomina Ação Socialista e noutra Acção Socialista.
— O que pensas disso?
— Acho que o Ação Socialista não passa no controlo de qualidade.
XXXVIII
— Neste texto, aparece o termo convição. Será uma gralha?
— Não! Nada disso! É só uma crença menos firme.
— Como se fosse alguém a sofrer de disfunção erétil?
— Exactamente.
XXXIX
— Aqui na nossa rua vivem dois eletricistas.
— Calma aí. Vive um electricista e um eletricista.
— Mas isso não é a mesma coisa?
— Claro que não! O electricista é muito mais confiável.
XL
— Já escreveste no teu currículo que és actor?
— Não. Escrevi que sou ator. É a mesma coisa, não?
— És mesmo parvo. Se fores actor, podes ser protagonista, pá!
XLI
— Quando tinha 12 anos, estive à beira da morte.
— Como foi isso?
— Tive febre tifoide.
— Tiveste muita sorte. Se tivesses contraído febre tifóide, os sintomas seriam mais exacerbados e, provavelmente, não terias escapado.
XLII
— Hoje, portei-me mal na aula, o professor marcou-me falta disciplinar e comunicou esse facto à Diretora de Turma.
— E retractaste-te?
— Para quê?
— Para convenceres o professor de que estavas arrependido, é óbvio, não?
— Como é que uma simples fotografia tem esse poder?
— Quem falou em fotografias? És mesmo estúpido!
XLIII
— Ando em baixo.
— Porquê?
— Tive uma deceção amorosa.
— E isso deitou-te abaixo?
— Claro!
— E quando tiveres uma decepção? Suicidas-te?
XLIV
— Estou preocupado com o meu filho.
— Tem algum problema grave?
— O professor diz que ele tem pouca capacidade de abstração.
— E estás preocupado com isso? Isso não tem importância nenhuma. Grave seria se tivesse pouca capacidade de abstracção. Uma consoante a mais ou a menos faz muita diferença.
XLV
— Estou em apuros.
— Porquê?
— O médico de família disse que o meu filho sofre de anorexia.
— Queres dizer que é anoréctico?
— Pior, muito pior. É anorético.
XLVI
— O meu neto é um crânio!
— Porque dizes isso?
— Tem vinte e três anos e é um especialista conceituado em biotaxia.
— Biotaxia é uma palavra curiosa. Qual será o adjectivo da mesma família desse nome?
— O adjectivo deve ser biotáctico. Se fores menos competente e perfeccionista, contentas-te com biotático.
XLVII
— Ó pai, há aqui, neste exercício, uma coisa que não percebo.
— Vamos lá ver se te sei explicar. Qual é a tua dúvida?
— Por que razão a palavra bóia deixou de ser acentuada?
— Boa pergunta. Talvez tenham pensado que com o acento ficava mais pesada e deixava de flutuar.
— Ó pai, essa explicação é só estúpida.
— Pois é, filho, mas não há outra. Tamanha estupidez é inadjectivável.
— Boa, pai! Contribuíste para a sobrevivência de mais uma consoante!
XLVI
— Rafael Alexandre, o teu professor faz auto-avaliação?
— Não.
— Tens a certeza?
— Tenho! O que ele faz é autoavaliação.
— E isso não é a mesma coisa?
— Não. É uma coisa mais rápida, menos perfeita, sem a interrupção do tracinho.
— Como se fosse contrafacção?
— Exactamente!
Ah, como se vê na imagem que acompanha este escrito, com muita frequência, os jornais que dizem aplicar o AO90 têm recaídas e voltam à ortografia de 1945.

João Esperança Barroca
Nota prévia: O “Em Defesa da Ortografia” do mês de Agosto é integralmente dedicado à memória de Maria João Paixão, excelente leitora que, embora tenha partido, permanece. Sempre!
O presente escrito (o 83.º da série “Em Defesa da Ortografia”), na linha dos recentes antecessores, apresenta, exactamente, as mesmas características.
A aposta continua a ser a de apresentar diálogos, por vezes absurdos, de teor humorístico que exemplificam o rotundo falhanço do AO90, pondo a nu todas as suas fragilidades, as suas incoerências e a completa ausência de lógica.
Os termos a vermelho indicam formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, referem grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos se mantêm como duplas grafias. A azul, temos as situações de hipercorrecção, potenciadas pela aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.
XXV
— Repara na beleza deste verso de Sérgio Godinho: “O Tejo que reflecte o dia à solta”.
— Muito bonito, sim. É impressão minha ou está a cheirar-me a consoante muda?
— Claro que Sérgio Godinho usa a ortografia anterior ao AO90. Outra coisa não seria de esperar de um escritor, cantor e compositor inteligente.
— Velhos do Restelo! Reaccionários!
— Estou a cheirar uma consoante muda!
XXVI
— Os jornais estão a fazer a cobertura do julgamento.
— E já saiu o veredito?
— Não. Mas o que eu aguardo com curiosidade é o veredicto.
— O que é isso?
— É, como tu dizes, um veredito, mas em bom, percebes?
XXVII
— Estou dececionado.
— Então porquê?
— O meu filho foi reprovado, pela segunda vez, no exame de condução.
— Olha, tenho uma má notícia. Há outra decepção para te dar.
— Não me digas…
— Ai, digo, digo. Apesar de saberes usar o verbo reprovar, eu reprovo a tua opção alimentar.
— O quê?
— Andas a comer consoantes a eito, pá.
XXVIII
— Este candidato tem tido um comportamento abjeto. Tudo o que afirma é desmentido pelos fatos.
— Isso é mesmo abjecto. Só há uma parte que não percebo.
— Qual é?
— É essa parte da personificação dos fatos. Como é que eles desmentem o candidato abjecto? Tem de ser um notável trabalho de alfaiataria.
XXIX
— Estou desorientado.
— Com quê?
— A minha mulher quer pôr uns tetos novos e eu não estava a contar com uma despesa tão considerável nesta altura.
— Usa o dinheiro que tens na conta Poupança Habitação.
— Estás parvo? Tenho é de pedir o orçamento a um cirurgião plástico.
XXX
— Ando com um problema grave. Tenho de desabafar contigo.
— Fala à vontade. Sabes que podes contar comigo. Sou tua amiga.
— Então, não é que o meu marido quer que eu ponha uns tetos novos!
— Não vejo motivo para não lhe fazeres a vontade. Vais ver que ele passa a apreciar-te ainda mais.
— Estás parva? Vou é gastar um dinheirão em mão-de-obra, gesso e pladur.
XXXI
— Preciso de contratar uma arquiteta?
— Vais organizar alguma despedida de solteiro?
— Não sejas parvo! Vou reabilitar a casa que era dos meus avós.
XXXII
— Às vezes, o pensamento deriva de uma simples abstração.
— É verdade. De onde deriva essa palavra abstração? Será do latim?
— Claro! De abstractione.
— Mas há uma coisa que continua a intrigar-me.
— O que é?
— Gostava de saber o que aconteceu ao cê.
— Também tenho essa curiosidade. E se contratássemos um detetive?
— Não, de maneira nenhuma. Um fulano desses, que anda por aí sem cê, não é capaz de o encontrar.
— Então, não há solução.
— Há, há! Contratarmos um detective. Tem outra competência.
XXXIII
— Cada vez estou mais satisfeito com o meu emprego.
— Porquê, pá? O salário é qualquer coisa que se veja?
— Não é por aí. São outras razões. Por exemplo, no Natal, o mandachuva da empresa ofereceu um guarda-chuva a todos os funcionários.
— O teu patrão é mesmo um homem altruísta.
— Porque dizes isso? Não o conheces. Nunca o viste.
— Um indivíduo oferecer um hífen, quando não tem nenhum, só pode ser um caso de enorme altruísmo.
XXXIV
— Boa tarde. Pode dar-me uma informação?
— Boa tarde. Claro que posso.
— Já tem saias da nova colecção?
— Tenho, tenho. Ali, ao fundo à esquerda, naquele expositor. Está mesmo indicado na placa.
— Não, não. O que ali está não é da nova colecção. É da nova coleção. Lê-se [kuɫˈsɐ̃w̃]. Não é a mesma coisa. É uma espécie de sucedâneo, percebe?
— Percebo, percebo. Já disse várias vezes à minha gerente, seguidora da dupla Miranda & Moreira, que se deixe de modernices aberrantes, mas ela assobia para o lado.
XXXV
— Inscrevi-me num concurso de televisão chamado Factor X.
— É aberto a qualquer um ou há algum fator de exclusão?
— Não percebo a tua pergunta. Explica-te lá melhor.
— Quero dizer se há situações, como a idade ou outras, que excluam potenciais candidatos.
— Ah, queres dizer factores de exclusão! Não é?
— Sim, deve ser isso.
— Meu caro, factor deriva do latim factore e significava autor.
— Pois, mas no meu emprego sou obrigado a utilizar uma ortografia que não respeita a etimologia.
— Parece uma ortografia com vergonha, não é? E há razões para ter vergonha!
XXXVI
— Estive a ver que no setor…
— Alto! Pára aí! Andas a comer consoantes?
— Ando, ando. Continuando, no setor agroalimentar…
— Alto! Pára aí outra vez! Também andas a comer hífenes?
— Também. O que queres? Disseram que o acordo contribuía para a unidade essencial da língua.
— Comer consoantes e hífenes não é saudável. Ainda dás cabo do sistema imunitário, que fica no intestino, sabes?
— Estou a ver. Acordo, intestino…
Ah, como se pode ver nas imagens que acompanham este escrito, há inúmeras e saudáveis recaídas na comunicação social. É como se estivessem a reaprender as regras.


João Esperança Barroca

João Esperança Barroca
O 82.º escrito da série “Em Defesa da Ortografia”, na linha do artigo de Junho, apresenta as mesmas características do seu antecessor.
A aposta continua a ser, agora, a de apresentar diálogos de teor humorístico que exemplificam o rotundo falhanço do AO90, pondo a nu as suas incoerências e a completa ausência de lógica.
Os termos a vermelho indicam formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, referem grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos se mantêm como duplas grafias.
XIII
— Vou abrir uma alfaiataria.
— Tens a certeza de que é um investimento rendível?
— Claro! Até o Diário da República, nos últimos anos, como o mostra o Francisco Miguel Valada, está cheio de fatos. Queres melhor sinal?
— E tens a certeza de que são todos fatos de vestir?
XIV
— A minha mulher, que está sempre com modernices, vai fazer uma redução mamária com um cirurgião estrangeiro. Diz que vai ficar com melhor aspeto.
— Já tu especializaste-te em fazer reduções estúpidas. Primeiro no cérebro e depois na ortografia. Ou terá sido ao contrário?
XV
— Estive agora a ler, no jornal Público, que os agricultores estão na rua com os seus tractores, de norte a sul do país, para reclamar valorização do sector e condições justas, num protesto que deverá bloquear várias estradas.
— Faz sentido. Se tivessem levado os tratores, teriam muito menos impacto, ou impato, como já se ouve por aí…
XVI
— O meu filho é muito impetuoso, mas também extremamente afetuoso. É muito sensível e qualquer tragédia o deixa muito afetado.
— Já pensaste levá-lo ao médico?
— Que médico?
— Estomatologista, é claro! Não disseste que ele anda cheio de aftas?
XVII
— Estou furibundo.
— Porquê?
— Fui multado.
— Como é que te aconteceu isso?
— É muito fácil explicar como foi. Ia a caminho da máquina para tirar o talão e li numa placa “Máquina para pagamento”. Como aplico o coiso ortográfico, entendi que a máquina parava o pagamento. Por isso, fui à procura de outra máquina, mas não encontrei nenhuma.
— Eu bem te avisei que adoptar o AO90 era sinal de estupidez. Como vês, saiu-te cara a modernice.
XVIII
— O meu primo, que é brasileiro, vem trabalhar para cá como rececionista. Conheces alguma oferta de emprego aqui perto?
Não, não conheço nada. E o teu primo tem alguma experiência nessa área?
— Só sei que no Brasil era recepcionista num hotel. Que eu saiba, não é a mesma coisa. Parece-me até muito mais completo.
XIX
— Nunca negociarei sob coação!
— Eu também não. Debaixo do coador, corro sérios riscos de ficar com o fato molhado. O preço das limpezas a seco está pela hora da morte.
XX
— Deparei-me há dias com a palavra fatura. Não percebi o que significa. Não consegui entender se é uma fractura nos dedos, pois dizia lá “fatura digital”.
— Não te posso ajudar porque também não sei. Talvez, seja uma espécie de miacoutismo.
— Que raio de coisa é essa?
— É a criação de novas palavras a partir de outras já existentes.
— Então, a fatura poderá ser uma fartura pouco estaladiça?
XXI
— Por causa da recessão, adiei as obras na receção.
— O quê? Que estás a dizer? Não percebo nada.
— É a novilíngua, estúpido.
— Seja lá o que for, não percebo.
— É a maravilhosa língua unificada.
— Continuo sem perceber!
— Se queres que seja franco, também não sei explicar-te. Aprendi este palavreado e que a língua evolui…
XXII
— Andas acabrunhado, pá. Passa-se alguma coisa?
— Tenho uma disfunção erétil.
— Isso não é grave. É uma disfunção ligeira.
— O que percebes de urologia para dizeres isso?
— Se é erétil, é ligeira e localizada. Grave e mais disseminada seria se fosse eréctil. Assim é que terias um problema preocupante.
XXIII
— Há dias, li num cartaz a palavra táctil. Como não a entendi, consultei o dicionário.
— O que é que dizia?
— Que é um adjectivo uniforme, derivado do latim tactile e que se refere a tato.
— É curioso! Já eu procurei o sentido de tátil.
— O que é que dizia?
— Que é um adjectivo uniforme, derivado do latim tactile e que se refere a tato.
— Não percebo. Será a mesma coisa?
— Talvez, mas com menos tacto, seguramente.
XXIV
— O meu pai foi ao Egito e trouxe-me vários artefatos indígenas.
— São mesmo egícios esses artefatos?
— São, são.
— E são esculturas?
— Não, pá! São fatos de artista ou fatos feitos com arte.
Ah, a página de Facebook dos Tradutores Contra o Acordo Ortográfico de 1990 continua a publicar imagens elucidativas do caos ortográfico que se instalou.
Ah, Maria do Carmo Vieira publicou no jornal Público um excelente artigo de opinião intitulado “O acordo ortográfico e ‘a sonolência passiva’ que silenciou o espírito crítico”. Como é habitual, vale a pena ler. Por essa razão, aqui deixamos um excerto razoavelmente extenso: “Antes de se decretar o que os Portugueses nunca haviam pedido e tinham sistematicamente ignorado, escrevia-se, naturalmente, ‘acto’, ‘recepção’, ‘concepção’ ou ‘retractar’, entre muitos exemplos, vocábulos agora truncados na sua marca etimológica que determinava a abertura da sílaba. Não admira, pois, que esta alteração ao ‘traje’ da palavra tenha prejudicado a sua leitura, dando azo a distorções, escritas e ouvidas. Realce-se os vocábulos ‘recepção’ ou ‘concepção’ que, pelo ‘critério da pronúncia’, se mantêm assim, no Brasil, alterando-se, em Portugal, para ‘receção’ ou ’conceção’, num evidente desmentido da ‘unidade ortográfica’ pretendida. No caso de ‘retractar’, o equívoco, que toda ortografia pretende eliminar, é notório porque agora tudo é ‘retratar’.
Ah! Quando tiver dúvidas, faça como os jornalistas de revista Flash: numa ocorrência, grafe a consoante dita muda; noutra, omita-a. Nalgum caso, há-de acertar.
João Esperança Barroca


O 81.º escrito da série “Em Defesa da Ortografia” tem características que nenhum dos textos anteriores possuía.
A aposta é, agora, a de apresentar diálogos humorísticos que exemplificam as graves falhas do AO90, pondo a nu as suas incoerências.
Os termos a vermelho indicam formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, referem grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos se mantêm como duplas grafias.
I
— Tenho cera nos ouvidos.
— Estás com um problema ótico, não é?
— Sim. E também tenho uma conjuntivite na vista direita.
— Estás com um problema ótico, não é?
— Já não percebo nada. Estás a brincar comigo?
— Não. Estou a brincar com a língua.
II
— Estou na secção infantojuvenil. E tu?
— Cheguei agora ao sector dos produtos materno-infantis.
— Andas a gastar hífenes acima das tuas possibilidades. És um gastador. Assim, não irás longe. Devias seguir o meu exemplo. Eu sou um poupador de consoantes.
III
— Agora, em Portugal, a receção é uma exceção.
— Perdão. No Brasil a recepção é que é uma excepção.
— Pois. Deve ser a unidade essencial da língua, apesar das exceções.
IV
— Bom dia. Em que posso ajudar?
— Queria ver aquela camisola cor-de-rosa que está na montra.
— Lamento, mas nessa cor não tenho o seu tamanho. Para si, só tenho cor de laranja.
— E é o mesmo preço?
— É, sim.
— Mas, tendo em conta os custos de produção, não deveria ter um desconto?
— Porquê?
— Como tem menos dois hífenes, era lógico que fosse mais barata. Não acha?
— Acho, mas isto é como a unidade essencial da língua. Umas vezes, quando há folga orçamental, usa-se o hífen. Outras vezes, não.
V
— Estão cá todos? Vamos proceder à chamada. Ótico?
— Presente!
— Ótica?
— Presente!
— Oticidade?
— Presente!
— Oticista?
— Presente!
— Mas, já acabei a chamada e ainda há gente na fila? Como pode isso ser? Tu, como te chamas?
— Optometria.
— E tu?
— Optometrista.
— E tu?
— Ortóptico.
— E tu?
— Opticometria.
— Mas sois da mesma família ou não?
— Éramos. Quando veio o AO90, começaram a cortar consoantes e expulsaram os que tinham pê. Disseram que queriam criar a maravilhosa língua unificada e universal, mas só aumentaram a desunidade essencial da língua.
VI
— Tenho epilepsia, isto é, sou epilético.
— Tens muita sorte. Muito pior estou eu que tenho dispepsia, isto é, sou dispéptico.
— Tens razão. Isso de ter uma consoante a mais, para alguns, é um problema gravíssimo. Sugiro-te que contrates um podador de palavras para te remover essa consoante.
VII
— O teu filho vai estudar Adictologia?
— Vai, vai.
— Que raio de ciência é essa?
— Diz aqui, no dicionário, que é a ciência que estuda os comportamentos aditivos.
— Então, vai ser sempre a somar, não?
VIII
— Menina Bissetriz, fez o trabalho de casa?
— Fiz, sim, Senhor Professor!
— E a menina Trissectriz?
— Também fiz, Senhor Professor!
— Ficaram com alguma dúvida?
— Sim. Ainda, hoje, mais de doze anos depois, não percebo a razão para ter uma consoante a menos que a minha prima Trissectriz. Não posso deixar de me sentir discriminada. Acho que a distribuição de consoantes não respeita a Constituição.
IX
— Vou marcar, com brevidade, uma consulta no adictologista.
— Esse é o especialista em comportamentos aditivos, não é?
— Sim, sim.
— Pode ser dinheiro mal gasto. Tu não achas que a divisão é muito mais difícil que a adição?
X
— Tenho uma infeção num pé.
— E qual foi o agente infeccioso?
— Não sei. Tenho de consultar um infecciologista.
— Não te preocupes. Perigoso seria teres uma infecção. Sem cê, isso não tem importância nenhuma.
XI
— Estive a ver as primeiras páginas dos jornais expostos no quiosque. Num deles diz que a sobreprocura para o serviço de pedopsiquiatria. Não sei se aquele para é verbo ou preposição.
— Estava acentuado?
— Não.
— A mim dá-me jeito que seja preposição. Com o serviço parado, o meu filho terá a consulta adiada até 2026.
— A mim também me dá jeito que seja preposição. Com uma sobreprocura, terei, potencialmente, muito mais clientes para transportar no meu táxi. Além disso, lembrei-me agora que esse jornal (do grupo Cofina) distingue estas duas formas, acentuando a forma verbal.
Ah! Na 95.ª Feira do Livro de Lisboa, foi lançada a obra O Poder da Literatura de Maria do Carmo Vieira. Como sempre, vale a pena ler.
Ah! Nuno Pacheco publicou na passada semana uma crónica de homenagem a Fernando Venâncio.
Ah! Há dias, li em rodapé: “Fim de semana de 40 graus”. Qual é o significado? Acabou uma semana em que a temperatura foi de 40 graus ou a temperatura será de 40 graus na sexta-feira, no sábado e no domingo?
Ah! A expressão “coração de abril” deve ser grafada com maiúscula na designação do mês: coração de Abril. O mesmo acontece com 10 de Junho. Sempre!


No “Em Defesa da Ortografia LXXVII”, publicado no mês de Março, escalpelizámos uma revista editada pelo município de Oeiras, argumentando que é através da análise dos objectos linguísticos do dia-a-dia que aferimos a qualidade da expressão escrita e da ortografia.
Hoje, a mira (o foco, na linguagem que por aí anda) está assestada na RTP e no seu sítio da Internet, onde unicamente andámos à cata do omnipresente contato. Como justificação para a selecção deste alvo, podemos referir que a RTP, assim que pôde, aderiu à nova ortografia e, no princípio da década passada, gastou uma considerável quantia em acções de formação sobre o Acordo Ortográfico de 1990. Como se conclui da leitura dos excertos abaixo reproduzidos, podemos afirmar que essa vultuosa quantia foi muito bem empregada nas ditas acções.
Em algumas grutas na proximidade foram também encontradas marcas de arte rupestre [sic] retratando cenas de caça e pastorícia, refletindo mudanças na fauna e na flora, e ainda os diferentes modos de vida das populações”. RTP. 05-04-2025
Passa por conseguir, através de contactos por meios digitais, criar uma relação de confiança com o jovem ou a criança. As primeiras abordagens não são de carater [sic] sexual, mas o intuito final é esse: contatos físicos presenciais ou envio de imagens com conteúdo íntimo. Este processo pode chegar a durar meses até que a vítima se sinta emocionalmente confiante para cair na armadilha. Com adultos, muitas vezes, o objetivo final é burla financeira.
Uma app [sic] um jogo, uma rede social, qualquer movimento na net [sic] pode desencadear pistas para os agressores. Escolhem as vítimas através da idade, caraterísticas físicas ou de personalidade e, mesmo quando as primeiras abordagens não funcionam, podem reaparecer com outras identidades e novas formas de aliciamento.” RTP, 06-04-2025
Se é assim na Comunicação Social, como será com o cidadão comum?
Ah, seria conveniente que alguém os alertasse para a necessidade de italicizar as palavras em língua estrangeira.
Ah, felizmente, a RTP também tem algumas saudáveis recaídas.
Ah, as imagens que acompanham este escrito foram copiadas do blogue O Lugar da Língua Portuguesa, onde Isabel A. Ferreira tem realizado um laudabilíssimo trabalho em defesa da Língua Portuguesa e da sua legítima ortografia.
Ah, há dias deu-nos para o masoquismo e lemos as doze primeiras páginas do Programa de Governo da AD. Respigámos ação (duas vezes), proteção (duas vezes), abril, setor / setores (três vezes), infraestruturas (duas vezes), projeto / projetos (seis vezes), atividades, proativa e atualmente. Nos sítios do costume, continua a morar a mixórdia ortográfica do costume. Obviamente, reprovada.
João Esperança Barroca


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