Na linha dos seus antecessores, o texto do mês de Dezembro (o 87.º da série “Em Defesa da Ortografia” e o último do corrente ano), continua a apresentar, exactamente, as mesmas características.
A aposta continua a ser a de mostrar diálogos, por vezes absurdos, de índole humorística, que ilustram a fantochada do AO90, expondo as suas fragilidades, as suas incoerências e a completa ausência de lógica.
As palavras a vermelho indicam as formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, remetem para grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos, se mantêm como duplas grafias. A azul, temos os casos de hipercorrecção, decorrentes da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.
LXXIII.
— Como vamos sair deste túnel sem luz?
— Temos de tatear. É a única solução.
— Não é suficiente.
— Porquê?
— Porque, para sairmos daqui, temos de usar o tacto, isto é, temos de tactear.
LXXIV.
— Ó pai, como se chama um circuito usado numa subtracção entre números binários?
— Acho que é um subtractor, Rafael Alexandre.
— Pensei nisso, mas não consta no dicionário
— Experimenta procurar subtrator.
— Devem ter tido vergonha de pôr mais uma consoante em reclusão. Além disso, parece que estão a falar de um tractor que anda debaixo do chão.
LXXV.
— Vou fazer uma intervenção cirúrgica na próxima semana.
— Que intervenção?
— Vou retirar as adenoides.
— E não precisas de uma segunda intervenção depois?
— Para quê?
— Para retirar o acento.
LXXVI.
— O meu filho tem problemas respiratórios e vai ser operado às adenoides.
— O que é isso?
— É o mesmo que as amídalas faríngeas.
— Olha lá, além de acentos, também andas a comer consoantes?
LXXVII.
— Este ano, em Agosto, vou passar férias no Gerês.
— E já preparaste tudo?
— Tenho tudo controlado. Até já decidi o trajeto.
— Mais uma vez, fizeste mal. Embora pareça mais longo, é muito mais seguro escolher o trajecto.
LXXVIII.
— Olha, olha! Já estou a ver! Repara, ali, à esquerda, na trajetória do asteroide.
— Que alarido! Estou a ver mais e melhor que tu.
— Porquê?
— Porque estou a ver a trajectória do asteróide, não te parece?
LXXIX.
— Estive a ler um livro sobre o Apocalise.
— Apocalise? Que raio de palavra é essa?
— Nunca ouviste? És um ignorante! Significa o fim do mundo, pá!
— Parece-me, antes, o fim da ortografia.
LXXX.
— Estou a sentir as primeiras contrações. É melhor acionar o INEM.
— Calma, calma…
— Dizes isso porque não é contigo!
— Por enquanto, só estás a sentir contrações, não é?
— Sim, sim.
— Exactamente por isso, deves ter calma. Quando começares a ter contracções, accionamos o INEM e damos ao canelo, pode ser?
LXXXI.
— O meu advogado contatou-me, dizendo que sou arguido e acusado de corrução.
— E estás preocupado com isso?
— Claro que estou preocupado. Nunca me vi nestas alhadas.
— Pois eu acho que não há razão para te preocupares.
— Qual é a tua ideia?
— O crime de corrução é uma coisa de somenos. Tenho sérias dúvidas de que seja crime. Grave seria se fosses acusado de corrupção. Aí, piava mais fino. Ah, e contrata um advogado que te contacte.
LXXXII.
— Ó pai, preciso da tua opinião.
— Sobre que assunto?
— Estou a pensar oferecer à mãe um cato no Dia da Mãe. O que achas?
— Um cato? Parece-me que estás a juntar um artigo indefinido com uma forma verbal do verbo catar.
— Não percebo, pai.
— Um é um determinante, artigo indefinido e cato é a 1.ª pessoa do presente do indicativo do verbo catar.
— Não é nada disso, pai. Um cato é uma planta.
— Da família das Cactáceas. Faz lá falta o cê.
LXXIII.
— Ó pai, o que é um dador?
— É alguém que dá ou doa aos outros, a maior parte das vezes, sem querer algo em troca.
— Tem sinónimos conhecidos, desses de que tu gostas?
— Podes usar benemérito ou filantropo.
— Então um conadador doa o quê?
LXXXIV.
— Ó pai, o que quer dizer mandante?
— Mandante significa o que manda ou instiga outros a cometer determinados actos.
— Há algum sinónimo?
— Sim. Instigador.
— Um cocomandante instiga os cocos? Não percebo.
— Não estás sozinho. Ninguém compreende as questões da nova ortografia. Já o saudoso António-Pedro Vasconcelos o dizia.
Ah! Uma das imagens que acompanha este escrito demonstra como, vários anos após o início da aplicação do nefando Acordo Ortográfico de 1990, alguns órgãos de Comunicação Social continuam a ter saudáveis recaídas, distinguindo, neste caso, um verbo de uma proposição.
Ah! A outra imagem, sobre o desempenho de um futebolista português em França, mostra o estado a que isto chegou, como diria Salgueiro Maia, em que o verbo retratar-se, vítima da sanha de amputar indiscriminadamente consoantes, significa, agora, além de fotografar, desdizer-se, dar o dito por não dito…
Ah! É completamente obrigatório ler o artigo de Manuel Monteiro “A língua de pau de todos os dias”, publicado recentemente pelo jornal Público.
Ah! Como é habitual, vale a pena ler dois textos recentes de José Pacheco Pereira, também dados à estampa pelo Público: “O desprezo da pátria por via do desprezo da língua” e “O papel destrutivo do deslumbramento tecnológico na educação”.
Ah! O blogue O Lugar da Língua Portuguesa, administrado por Isabel A. Ferreira, continua a ser um local bem frequentado, onde os bons espíritos se vão regularmente reencontrando. Salubérrimo, portanto.
João Esperança Barroca


Exactamente.
O artigo O papel destrutivo do deslumbramento tecnológico na educação, da autoria de José Pacheco Pereira, publicado no Jornal PÚBLICO foi-me enviado pela minha lúcida amiga Idalete Giga, que acrescentou a seguinte mensagem:
Este excelente artigo devia ser lido, sobretudo, pelo ministro da reforma administrativa. Que atrevimento formatar, com tecnologias duvidosas, as crianças como se fossem peças de xadrez e sua Exª. fosse o dono da personalidade e alma das crianças. Está tudo obcecado com a IA como se fosse a deusa da sabedoria. Esta medida é um absurdo, uma falta de respeito não só para com as crianças, mas para com os pais e toda a comunidade escolar.
Mais uma medida neonazi do ministro da reforma administrativa. É de bradar aos céus!
Isto tem de ser travado o mais depressa possível. É um atentado contra toda a comunidade educativa. (!)
Por favor, escreva no seu Blogue um artigo sobre esta pouca vergonha. Irá percorrer todo o mundo onde houver portugueses.
A este artigo, Idalete Giga deixou no Jornal PÚBLICO, o seguinte comentário:
Experiente
Obrigada, Caro José Pacheco Pereira pelo seu artigo que não navega na superfície, mas vai ao fundo da questão da IA, agora impingida pelo Sr. ministro da reforma administrativa às crianças na forma de tutora "inteligente". Para V. Exª. é mesmo um "deslumbramento tecnológico”, e eu completo: uma fixação perversa para ajudar a destruir definitivamente a Escola. As crianças não são peças de xadrez, mas para V. Exª. são e, por isso, quer manipulá-las à sua vontade e mandar para as silvas não só as crianças, mas os pais e os professores. Vou citar o sábio Noam Chomosky expressamente para V. Exª.: "A IA é o maior ataque ao pensamento crítico, à inteligência crítica e, sobretudo, à Ciência, que eu já alguma vez vi (...) pensar que podemos aprender alguma coisa com a IA, é um erro".
Com a clarividência de Idalete Giga e com o saber científico de Noam Chomsky, por ela citado, penso que fica tudo dito, e o que terei eu mais para acrescentar?
Apenas isto: gosto de testar a “inteligência” da IA, que em muitas, mas muitas circunstâncias, quando lhe ponho questões de SABER, poderíamos ler Ignorância Artificial, se não soubesse que a construção da IA depende da recolha de dados, e se os dados estão incorrectos, a IA não tem capacidade de discernir o que é certo e o que é errado, de modo que por vezes, muitas vezes, dá a informação errada.
Não é de fiar.
Como poderão os governantes querer dar a cada aluno um tutor de inteligência artificial, que não é infalível? Erra quando os humanos erram, quando os dados, que os humanos espalham por aí, estiverem errados. E quando se trata da História, da Cultura e da Língua Portuguesas, as invenções, as incorrecções, as mentiras que andam espalhadas pela Internet são de bradar aos céus!
É isto que o governo português pretende oferecer aos já a caminho de serem os analfabetos funcionais do futuro? Isto, podemos dizer alto, configura um crime de lesa-alunos.
Nem tudo o que é moderno é da IN -- Inteligência Natural.
Isabel A. Ferreira
***
O papel destrutivo do deslumbramento tecnológico na educação
A primeira coisa que este “tutor” artificial vai fazer é minimizar o papel do professor.

15 de Novembro de 2025, 7:01
A notícia diz isto: “O Governo quer dar a cada aluno um tutor de inteligência artificial.” A notícia refere que o ministro da Reforma Administrativa fez esta promessa na abertura do Web Summit, o que presumo deve ter dado grande satisfação ao crescente e altamente lucrativo negócio à volta da inteligência artificial. Esta é mais uma medida “modernizadora” na sequência do computador Magalhães, dos quadros interactivos, da supremacia dos ecrãs relativamente aos livros. O único travão a este caminho foi a proibição dos telemóveis nas salas de aula, que abrange um número escasso de estudantes e está longe de ser aplicada como norma. Duvido que o actual ministro da Educação esteja tão disponível para os tutores de inteligência artificial e duvido que ambos se tenham entendido.
Ter e saber usar um computador é bom? Certamente que é. Saber “navegar” na Internet é bom? Em absoluto é, é aliás fundamental. Saber usar os ecrãs de telemóveis e tablets é bom? De novo, certamente que é, em particular no uso do hipertexto. Começar a usar as enormes vantagens da inteligência artificial é bom? É excelente, se houver inteligência dos dois lados.
Convém é não esquecer uma realidade tão básica, e que devia entrar pelos olhos dentro, ensinada pelos tutores de inteligência artificial usados pelos governantes: os homens são analógicos e não digitais. Têm sentidos que os limitam, não vêem tudo que está à sua volta, não ouvem tudo que está à sua volta, não têm memória das máquinas, envelhecem e não lêem como os jovens, não têm a velocidade de processar dados dos computadores, e toda a sua experiência de uma vida, tudo o que vêem, tudo o que ouvem, tudo o que dizem cabe em escassos terabytes. Mas combinam tudo numa realidade cuja dimensão é a da sua humanidade, razão, emoções, virtudes, medos, coragem e, acima de tudo, vida, escassa, pobre, difícil por regra. Pode haver um dia em que tudo isto possa ser entendido pelas máquinas, mas mesmo assim faltará sempre alguma coisa.
O problema não está aqui, está no modo como cada um destes instrumentos entra na escola e de modo mais geral na vida quotidiana e no trabalho das pessoas, e no que é que eles substituem nas políticas de educação e como afectam o processo de aprendizagem e, mais importante ainda, de socialização. E é aqui que entra um dos mais perversos e poderosos mecanismos que é a moda, a moda impulsionada pelo deslumbramento tecnológico, a ideia de que é mais “moderno” usar os instrumentos das novas tecnologias para realizar tarefas que implicam outro tipo de conhecimentos e uma sociabilidade mais rica. Ora, o que acontece é que elas são usadas com escassa vantagem, com efeitos negativos que vêm do modo como se inserem na sociedade, acentuando o individualismo, a solidão, o antagonismo, o conflito, e a ignorância. Nenhuma destas coisas vem das máquinas, vem do modo como estamos a construir o nosso viver, só que as máquinas oferecem um amplificador gigantesco para estas perversões sociais, e isso muda muita coisa. Uma das áreas em que os seus efeitos são mais devastadores é na educação e no ensino, impulsionadas por governantes que só querem ser “modernos” nestas coisas, e pelo cada vez mais importante negócio tecnológico.

A primeira coisa que este “tutor” artificial vai fazer é minimizar o papel do professor. Ora, o mecanismo mais importante na eficácia do ensino é a relação de empatia entre o estudante e o professor. Falar com uma máquina é uma coisa muito diferente do que com um humano e se, pelas piores razões – infelizmente, hoje demasiado comuns –, isso cria habituação e dependência, isso vai cada vez mais acentuar formas de solidão modernas e de sociabilidade pobre. É como considerar que os likes são uma forma de amizade e aceitação afectiva.
Depois, vai acentuar o caminho de ignorar que o uso capaz de todas as tecnologias, a começar pelo modo como se “procura” na rede, quanto mais dialogar com o “tutor”, depende de literacias a montante, que vão desde o mais simples ler, escrever e contar, todas em risco nos nossos dias. E parte desse risco também é resultado do deslumbramento tecnológico, com a desvalorização da leitura, e da escrita resultante do modo gutural como se “escreve” nas redes sociais, do vocabulário cada vez mais reduzido e do modo como essas ignorâncias se reflectem em dificuldades de compreensão.
A ideia de que os estudantes podem ler livros como Os Maias, de Eça, com o vocabulário restrito que possuem e usam, como também com a ruptura de saberes que estão presentes na nossa tradição cultural, como é a da Bíblia ou do mundo clássico greco-romano, é mirífica. A minha experiência de falar em dezenas de escolas do ensino secundário é a de encontrar centenas de estudantes que não sabem quem são Adão e Eva (com excepção dos evangélicos), já para não falar de Aquiles ou do Cavalo de Tróia. Como é que podem ler Eça? E esses mesmos estudantes não sabem o significado de palavras correntes no português de hoje, quanto mais vocábulos menos comuns mas circulantes na literatura.
Acresce que é evidente a diferenciação social entre falar para estudantes de colégios ou escolas em zonas “da alta” e de zonas que um eufemismo designa como “desfavorecidas”, onde a socialização pela escola é praticamente nula na competição entre a rua, o bairro e o telemóvel. Embora eu tenha esta experiência directa, não me limito a ela, todos os estudos a confirmam perante a impotência de professores e autoridades governativas.
Quem saiba história sabe que momentos como este, na história do mundo, já se verificaram e todos acabaram mal. É a sociedade que manda nas máquinas, e não o contrário, e é sociedade que está mal. Não façam um upgrade tecnológico desse mal, porque fica pior.
O autor é colunista do PÚBLICO
Fonte:
Introdução:
Porque considero este artigo de Nuno Pacheco de importantíssimo interesse público, até porque destaca certos aspectos que gostaria de esmiuçar, ouso reproduzi-lo neste Blogue, cumprindo todas as regras dos créditos jornalísticos, para que chegue aos leitores d’O Lugar da Língua Portuguesa – um repositório de tudo o que importa acerca da nossa Língua – os quais estão dispersos por 160 países, de todos os continentes, e que vão seguindo e consultando os textos que aqui são publicados.
Espero que Nuno Pacheco não me leve a mal, até porque tem sido um acérrimo defensor da Língua Portuguesa.
As minhas observações estão entre parêntesis rectos [...], em itálico e a negrito.
Regressarei com a Parte II, para esmiuçar os comentários ao texto do Nuno Pacheco.
Isabel A. Ferreira

Em português, se faz favor. Muito bem; mas qual deles?
Quando falamos de língua portuguesa, o que nos divide não são as diferenças; é, infelizmente, e quase sempre, a estupidez.
Sempre que a língua portuguesa vem à baila, seja em entrevistas, textos ou artigos de opinião, avolumam-se leitores e comentários. O que é bom sinal, dada a relevância do tema. Com uma ressalva: seria melhor se não encalhássemos sempre nos dilemas do costume, que são estes: o que é “português certo” e “português errado”, sem olhar às culturas nem às geografias, como se houvesse uma única norma-padrão internacional; e o fantasma do Acordo Ortográfico de 1990.
A primeira frase do título desta crónica é assumidamente decalcada de um muito recomendável livro de Helder Guégués, tradutor e revisor, que nele se ocupa de “questões de regência verbal, ortografia, pronúncia, concordância, formação do plural, modismos e mau uso” do idioma na escrita – já que a fala, como se sabe, é outro assunto e é frequentemente indomável. O prefácio de Fernando Venâncio e o posfácio de Desidério Murcho sublinham-lhe a utilidade e interesse.
Ora este livro, como muitos outros, vem lembrar-nos de que a escrita tem regras e, sim, há erros que é melhor evitar a bem da clareza da comunicação e da saúde do idioma. Posto isto, convém recordar que o português, tal como o conhecemos, tem um percurso no país que lhe deu nome (derivando o nosso idioma do galego e dele se afastando a partir do século XV) e outros, bem diferentes, naqueles aonde chegou por imposição colonial como contraponto às línguas locais.
***
[“Derivando o nosso idioma do galego e dele se afastando a partir do século XV”, diz o Nuno Pacheco. Aqui tenho de concordar com o Henrique Duarte, que num comentário disse o seguinte:
Henrique Duarte
Moderador
«(...) derivando o nosso idioma do galego e dele se afastando a partir do século XV» É errado dizer que o português deriva do galego. O português deriva da língua falada antigamente no Norte de Portugal e na Galiza, a que se pode chamar de galego-português, galaico ou, quando muito, galego antigo. Galego nunca, pois galego é outra coisa muito diferente. É a língua falada atualmente (cada vez menos, infelizmente) na comunidade autónoma chamada de Galiza, que está fortemente castelhanizada, na sintaxe, no vocabulário, etc., e que por isso é depreciativamente designada por "castrapo". Esperaria outro rigor da sua parte, Nuno Pacheco.»
... embora o Henrique Duarte também esteja equivocado quando diz que «É a língua falada atualmente (cada vez menos, infelizmente) na comunidade autónoma chamada de Galiza, que está fortemente castelhanizada, na sintaxe, no vocabulário, etc.»
Não, não é bem assim. O Galego é actualmente Língua Oficial da Região Autónoma da Galiza, juntamente com o Castelhano (não o Espanhol, porque o Espanhol não existe em Espanha como Língua, e o Galego está de boa saúde, na Galiza.)
O equívoco do Nuno Pacheco, talvez venha do facto de ter lido o livro de Fernando Venâncio «Assim Nasceu uma Língua». Fernando Venâncio também estava equivocado, porque foi beber a fontes a que os que querem amesquinhar a Língua Portuguesa também foram beber, tendo distorcido a História.
O Português é uma Língua-gémea do Galego, o dialecto Galaico-Português, oriundo do Latim vulgar, que os povos da Galécia (Gallecia romana) antepassados dos Galegos e dos Portugueses actuais partilhavam, e cuja história está deliciosamente contada no livro «Historia da Lingua Galega», da autoria dos insignes mestres galegos Xosé Ramón Freixeiro Mato e Anxo Gómez Sánchez, que não estão ao serviço de ninguém, a não ser da Galiza. Um livro que todos os que se interessam pela Língua Portuguesa deviam ler.
Aqui deixo o link para o livro, escrito em Galego, mas quem souber Português a fundo, lê-o perfeitamente.
https://www.goodreads.com/book/show/38621990-historia-da-lingua-galega#CommunityReviews
Vejamos a este propósito o que diz o nosso maior dialectologista, José Leite de Vasconcelos: «Nos dois lados do Rio Minho desenvolveu-se do Latim vulgar da Lusitânia, nos primeiros séculos da era cristã, uma língua substancialmente uniforme, embora, talvez desde sempre, com algumas particularidades dialectais. Por causa das vicissitudes políticas da Galiza e de Portugal, da Idade Média em diante, essas particularidades foram aumentando com o tempo, e constituíram depois o Galego e o Português, embora o Português seja forma principal, como Língua de nação autónoma órgão de rica literatura.» (Textos Arcaicos, p. 120, 3ª edição). Foi com Dom Dinis, que o Português seguiu o seu caminho separado do Galego.]
***
Foi o que sucedeu no Brasil ou nas então colónias de África, onde numerosas línguas locais foram silenciadas ou até proibidas em nome da língua do colonizador. Com as independências, chegando primeiro a do Brasil, em 1822, e muito mais tarde as de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde (independentes há 50 anos, o que agora celebram), e tendo cada país as suas leis, bandeiras, hinos, regras e culturas, natural seria que o português, língua que adoptaram como oficial, tomasse em cada um deles o seu rumo, não só com palavras novas ditadas por cada cultura como, eventualmente, novas regras lexicais e gramaticais.
Pôr o português daqui (que já é tão diverso, com os seus coloquialismos e regionalismos) em confronto com as suas mutações noutros países é coisa que nos deveria aliciar, interessar, e não indignar, levantando de imediato a bandeira do “português certo” ou “português correcto” para afastar, com desprezo, as diferenças que naturalmente se foram desenvolvendo noutros lugares.
***
[A este respeito, a indignação não vem do facto de o Português ser ou não ser correcto neste ou naquele país. Vem do facto de terem mudado a Estrutura do Português, no que à Fonética, Fonologia, Escrita, Ortografia, Léxico, Morfologia, Sintaxe e Semântica diz respeito, e continuarem a chamar-lhe Português, quando o correcto seria dar-lhe outra designação, e não pretender, por questões meramente político-jurídicas-económicas, que a Variante Brasileira do Português, (porque é disto que se está sempre a falar, até porque as outras ex-colónias nunca são chamadas à liça sobre esta matéria) seja designada como Português, inclusive andar na Internet a representar o Português com a bandeira brasileira.
A linguagem da Variante Brasileira do Português é perfeitamente correcta, uma vez que o Brasil, tendo optado por pôr – veja-se neste exemplo a importância da acentuação, e pensemos no para para, introduzido pelo AO90 – de lado as regras gramaticais, e enriquecendo-a com as Línguas e dialectos indígenas brasileiros, e dialectos africanos levados pelos escravos – o termo escravizados não se aplica neste âmbito, e agora há um modismo que “proíbe” usar a palavra escravo, como se os escravos nunca tivessem existido, desde as mais remotas civilizações – e, acrescentando-lhe a deslusitanização da Língua do ex-colonizador, mudaram o rumo da Língua Portuguesa.]
***
Quando o professor brasileiro Caetano Galindo, em entrevista recente ao PÚBLICO (que muito comentada foi), dizia que só agora o Brasil estava a aperceber-se de que a sua fala e escrita não configuravam um “português errado”, mas sim o português que o Brasil moldou à sua imagem, houve quem o compreendesse e também quem se indignasse ou ironizasse com tal observação. Recordemos o que ele disse, a frase completa: “Só agora se começa a perceber que não estamos falando português errado, não estamos falando incompetentemente a língua da Europa, porque não há português errado nem português certo, nem nas variedades que existem no Brasil nem nas inúmeras variedades que existem em Portugal.”
***
[Aqui concordo com o professor Caetano Galindo, quando diz «Só agora se começa a perceber que não estamos falando português errado, não estamos falando incompetentemente a língua da Europa, porque não há português errado nem português certo, nem nas variedades que existem no Brasil nem nas inúmeras variedades que existem em Portugal.» Não, não estão falando um Português errado, porque não estão falando sequer Português, estão falando a Variante Brasileira do Português, e designando essa linguagem deste modo, é óbvio que estão a articulá-la correctamente.]
***
Independência ou morte? Não, independência e língua. Podia o português do Brasil chamar-se, por mera decisão política, “brasileiro” (e há quem levante, sem êxito, tal bandeira há anos), que isso não alteraria a sua real condição: a de um idioma, o português, que ganhou características próprias num outro continente, e que com elas tem produzido excelentes obras nos mais variados domínios das letras e das outras artes.
***
[Aqui discordo do Nuno Pacheco, pois já não existe o Português do Brasil, a partir do momento em que o enciclopedista brasileiro Antônio Houaiss deslusitanizou (e o termo é dele) o Português, afastando-o das suas raízes portuguesas, greco-latinas, indo-europeias, e quando isso acontece, a Língua terá de ter outra designação, tal como a já Língua Cabo-Verdiana, que é oriunda do Português, mas já não é Português de Cabo Verde. E não vejo que mal venha ao mundo se tal acontecesse, e as ex-colónias terem uma Língua própria, enriquecida pelos Dialectos e Línguas locais tão diferenciados do Português. É preciso viver e principalmente estudar no Brasil para perceber que, lá, o Português diluiu-se por entre tanta miscelânea de línguas, dialectos e falares dos muitos povos que lá se fixaram, e aqui estou a pensar na Língua Italiana, que tanto se impôs na linguagem falada e escrita no Brasil, e darei apenas um exemplo, mas há muitos mais: Netuno].
***
Isso põe em causa o português de Portugal? De maneira nenhuma, tal como o inglês dos Estados Unidos da América não pôs nem põe em causa o inglês de Inglaterra — e tantas diferenças têm, na fala como na escrita. O erro é sempre tentar afunilar as diferenças numa espécie de idioma padrão, que não existe nem existirá nunca, por mais que bramem os paladinos da “unificação”. Esse foi o erro do chamado Acordo Ortográfico de 1990, como lembrou, e bem, José Pacheco Pereira na sua mais recente crónica, “O desprezo da pátria por via do desprezo da língua”.
***
[Aqui volto a discordar do Nuno Pacheco. Claro que põe em causa a Língua Portuguesa – dizer Português de Portugal soa a redundância.
Não podemos comparar o que se passa com as ex-colónias inglesas e também espanholas, por exemplo, com o que se passou no Brasil. A Língua Inglesa não foi desinglesada em nenhuma ex-colónia, e a Língua Castelhana não foi descastelhanizada, e nenhuma dessas ex-colónias pretendeu impor aos Ingleses ou aos Espanhóis as poucas diferenças existentes entre as suas Variantes que passam quase despercebidas em relação à Língua Inglesa e ao Castelhano. Porém, a Variante Brasileira do Português não passa despercebida, principalmente na oralidade, em relação ao Português. Há este pormenor que é preciso ter em conta.]
***
Graças a tal erro, que não unificou coisa alguma e que, pelo contrário, acirrou animosidades, ouvimos por estes dias locutores de televisão, a propósito do roubo no Louvre, pronunciarem “jôias” (retorno da escrita sobre a fala, pela perda do acento agudo em “jóia”, como antes se escrevia em todo o espaço da língua portuguesa); e temos, entre as várias palavras que vão a votos para “Palavra do Ano” (iniciativa da Porto Editora) uma coisa que, mercê de tal acordo, só existe mesmo em Portugal: “Perceção.” Isto quando o Brasil continua a escrever “percepção”. Não, o que nos divide não são as diferenças; é, infelizmente, e quase sempre, a estupidez.
***
[Os vocábulos que em Portugal perderam a consoante muda, mas no Brasil não, como “perceção”, que no Brasil escreve-se à portuguesa, percePção, deve-se de facto à estupidez. No Brasil há umas poucas palavras mais que os Brasileiros escrevem à portuguesa, simplesmente porque pronunciam as consoantes mudas, porém, há uma questão a pôr: qual o critério que levaram Brasileiros, mas também Portugueses, a pronunciarem alguns cês e pês, em determinadas palavras e não noutras? Temos o exemplo de Egito. Não é da estupidez grafar Egito sem pê, e escrever todas as suas derivadas com pê? Sempre pronunciei o pê de EgiPto, por coerência linguística. Esta é uma das incoerências dos acordos ortográficos que já se fizeram entre Brasil e Portugal, e por mais acordos que façam ainda não acertaram as agulhas, e jamais acertarão.
Daí a necessidade de cada país ficar com a sua Língua: a quase nonagenária Língua Portuguesa para Portugal, o seu berço, e a nova Língua gerada no Brasil, a partir do Português, a Variante Brasileira do Português, ou Língua Brasileira, ou Brasilês, para o Brasil.]
Isabel A. Ferreira
***
Fonte do artigo de Nuno Pacheco:
https://www.publico.pt/2025/11/06/opiniao/opiniao/portugues-faz-favor-bem-2153373
Esta não é uma questão de elites contra o “povo”, mas sim um confronto entre quem respeita a sua língua e quem a despreza, entre quem despreza o saber e quem sabe o que lhe falta saber.

José Pacheco Pereira
01 de Novembro de 2025, 6:51
Há patriotismo e há nacionalismo travestido de patriotismo. Eu considero-me patriota, sei bem, quando estou cá dentro, onde estão os meus pés, em que solo piso e como esse solo me faz, e quando estou fora como falta sempre qualquer coisa. Cosmopolitismo é uma boa coisa e faz-nos muita falta, mas ser patriota e cosmopolita nada tem de contraditório porque a gente espreme, espreme e, sem diminuir o mundo, há sempre algo que nos molda antes do mundo: a pátria. Às vezes, quando falava desta diferença, citava algo que li há muito tempo sobre o teatro Nô japonês, sobre as personagens que estão vivas e os fantasmas: as primeiras mantinham os pés no chão, os segundos levantavam-nos como se levitassem. Procurei para este artigo uma referência e não encontrei nenhuma, vai como está na minha memória.
Há uma coisa que mais que tudo representa a pátria: a nossa língua, o português, seja o nosso, seja o do Brasil ou dos PALOP, ou mesmo dos crioulos como o papiamento. Podem falar diferente, mas a língua que está lá por trás é o português.

O que certamente não representa a pátria é o desprezo pelo português nas redes sociais e, mais importante ainda, a a indiferença política perante o maior atentado recente contra a língua portuguesa que foi o Acordo Ortográfico. Aqui está uma pergunta obrigatória aos políticos em legislativas e presidenciais que ninguém faz, e que deve ser colocada a partidos que se dizem nacionalistas e conservadores e falam o português bastardo do Acordo Ortográfico de 1990, como o Chega.
Vejam-se estes exemplos de uma caixa de comentários na página de Facebook do Chega:
È por camara escondida para depois os visitar-mos na calada da noite. E apagar essas velas
*
Eles com as coécas todas mulhadas
*
O homem está corretíssimo,mas como é um homem onesto a grande parte desta gente mamona,ou BURRA NÃO GOSTA.
*
Nem mais .. é a mesma coisa aqui na englaterra.. se fore preson por mais de um ano . Compre a pena e a deportado
*
Estão com medo de alguma coisa! Força André Ventura,se fores presidente da República,no CHEGA a substitutos a altura para liderar o partido! CHEGA [sic]
*
Todos os dias, nesta página de Facebook, e por todo o lado nas caixas de comentários, escreve-se assim, e pode-se imaginar como fala quem assim se expressa. Ora, quem escreve assim não é patriota, porque despreza aquele que é um dos principais factores de identidade nacional: a língua.
Esta não é uma questão de elites contra o “povo”, mas sim um confronto entre quem respeita a sua língua e quem a despreza, entre quem despreza o saber e quem sabe o que lhe falta saber. Isto hoje é uma questão política, porque a democracia precisa da consciência do valor do saber, do falar, do conhecer. Esta consciência é hoje um dos alvos preferenciais do populismo que valoriza a ignorância.
Quem, por razões sociais, não tem o mínimo de educação formal, vem de meios de vida difícil, não teve oportunidade de estudar, teve de atravessar muita dificuldade, muita miséria, tem vergonha de não falar ou escrever bem, porque tem a aguda consciência que isso é um factor de pobreza e exclusão. Quem, por outro lado, fala e escreve mal português e tem um vocabulário exíguo pode escrever com erros de ortografia palavra sim ou palavra não, e ser muito eficaz em usar emojis de merda em linhas e linhas ou em insultar, mas não pode bater no peito nacional pelo seu país.
Uma das suas ironias é a reivindicação aos imigrantes de, para terem a legalização, saberem falar português, coisa que os seus julgadores não sabem de todo. É por isso que muitos imigrantes, a começar pelos que vieram das nossas colónias, falam muitas vezes melhor, num português impecável, e querem que os seus filhos aprendam aquela que é, para muitos deles, também a sua língua natal. Teriam vergonha de escrever a língua absurda das citações acima.
Mas esta deterioração da língua vem de cima para baixo, vem de quem tem poder no topo para terminar nesta cloaca de ressentimento e raiva. O Acordo Ortográfico de 1990 — a que, felizmente, quem gosta da sua língua e do seu país resiste —, para além de um desastre diplomático, uma nulidade em termos de “unificação” do português — posso, por exemplo, num processador de texto, escolher a opção “português de Angola” —, traduziu-se num abastardamento da língua. Esse abastardamento foi retirar-lhe a memória, eliminando os traços da sua origem no latim. Como disse também Pessoa: “A ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.” Tiraram-lhe o pai e a mãe, obra desses firmes partidários da tradição e da família.
Sim, “isto” não é o Bangladesh, mas também não é o Portugal dos que desprezam a nossa língua, a língua em que nasceram, e que usam pior do que “os” do Bangladesh a sua. Podem ser muita coisa, mas patriotas não são.
O autor é colunista do PÚBLICO
Fonte: https://www.publico.pt/2025/11/01/opiniao/opiniao/desprezo-patria-via-desprezo-lingua-2152971
Mas... há um mas: os governantes portugueses são Blocos de Betão, e ali não entram nem sons, nem luz. O que fazer para que o betão se dissolva, e os sons e a luz possam entrar no betão e transformar os blocos em Homo Sapiens Sapiens de carne e osso?

Instituições e individualidades por nós contactadas, para obtermos uma resposta racional à pergunta: «Porquê nos foi impingido ilegalmente o AO90?» E nenhuma teve a hombridade de nos responder.
Foi-me enviado, via e-mail, pela Professora Maria José Abranches, um vídeo da tviplayer.iol.pt/programa/cnn-prime-time, emitido no dia 10 de Junho de 2025, onde José Pacheco Pereira, nos fala de Portugal, da nossa História, da nossa Língua e da Portugalidade, um conceito que lá por ter nascido no Estado Novo, não significa que não seja válido em qualquer actual estado da Nação portuguesa, e hoje em dia, bem precisamos dessa Portugalidade que envolve a Cultura, a História e a Língua do Povo Português, que estão a ser trituradas por uma ignorância nunca vista desde os tempos pré-históricos.
Desse vídeo respigarei um excerto do que José Pacheco Pereira respondeu, à pergunta do Jornalista:
«O que é hoje Portugal?»
JPP: «Nós temos dois países». E Pacheco Pereira apresentou dois mapas, que se sobrepõem, divididos entre Norte e Sul: minifúndios ao Norte, latifúndios ao Sul; religiosidade: ao Norte vai-se à missa, ao Sul não se vai à missa; politicamente: ao Norte partidos mais conservadores, ao Sul partidos mais à esquerda.
O que unificou esses dois países, para podermos falar de Portugal?
Diz Pacheco Pereira:
«Essencialmente duas coisas: a História e a Língua. Repare que ninguém fala da Língua, fala da História, e a Língua é talvez um os factores mais importantes para a identidade de ser português, e quando nós podemos falar da crise da Portugalidade, para utilizar a expressão do presidente da República, ela vê-se na ignorância da História e na degradação da Língua.
A Língua perdeu, com o novo acordo ortográfico, a sua memória, a sua memória histórica, e hoje, fala-se cada vez pior.
Os mais jovens têm um vocabulário particularmente restrito (...). Há uma ignorância sobre a História, sobre as fontes da nossa cultura tradicional: a Bíblia, a fonte greco-latina e a Língua degradada por um vocabulário cada vez mais restrito.
(...)
Para ouvirem a entrevista completa (são apenas 16.24 minutos), cliquem no link: https://tviplayer.iol.pt/programa/cnn-prime-time/6193932f0cf2cc58e7d362d6/video/6848ae620cf20ac1d5f32e40
A José Pacheco Pereira, «uma nobre figura da Cultura portuguesa», como lhe chama a Professora Maria José Abranches, e eu só posso e devo concordar, do alto do seu saber, da sua idoneidade, da sua projecção pública, do respeito que merece pelo contributo indiscutível que oferece à sociedade portuguesa, ouso solicitar-lhe que use dos atributos que mencionei, para fazer ver aos governantes portugueses, o quanto estão errados em insistir na imposição ilegal do acordo ortográfico de 1990, particularmente fazer ver, ao presidente da República, o grande erro que cometeu ao render-se ao AO90. Bem sabemos que está de saída, mas ainda poderia deixar como boa herança da sua passagem por Belém, o seu contributo para a eliminação urgente do AO90, para que Portugal possa recuperar a sua identidade primordial.
E esta minha ousadia deve-se ao fracasso que tem sido a luta de milhares de cidadãos portugueses pensantes, dentro e fora do País, para partir o betão que envolve os blocos, para que a racionalidade possa vencer.
Isabel A. Ferreira
Observação: por ser do interesse de todos os que, com boa-fé, se entregam à luta anti-AO90, eu, como autora do Blogue «O Lugar da Língua Portuguesa», um lugar/repositório de quase, quase tudo o que tem sido publicado e realizado acerca da luta contra o AO90 e em defesa da Língua Portuguesa, considerei, por bem, reproduzir a entrevista que o site «Vidas e Obras» fez à Página do Facebook «Tradutores Contra o Acordo Ortográfico».
É preciso que exista em Portugal uma verdadeira e informada opinião pública, como refere a Professora Helena Carvalhão Buescu, e para tal é necessário ler o que se diz e o que se escreve acerca desta matéria.
Isabel A. Ferreira

Fizeram várias publicações no Facebook sobre a “Resistência ao Acordo Ortográfico”. O que é preciso para que a resistência consiga efeitos imediatos?
A resistência já vem de longe, desde 1986, quando a sociedade civil se mobilizou em peso contra uma proposta de acordo ortográfico cheia de bizarrias (como o famoso “cágado” sem acento). Ainda assim, esse plano não foi derrotado — com uns retoques, havia de redundar no Acordo Ortográfico (AO) de 1990. Desde Vitorino Magalhães Godinho e o Grémio Literário a Vasco Graça Moura e ao Público, passando por José Pacheco Pereira, Miguel Sousa Tavares, Teolinda Gersão, Maria do Carmo Vieira e tantas personalidades e cidadãos mais ou menos anónimos, a resistência sempre esteve viva, fosse sob a forma de artigos de opinião, petições, uma iniciativa legislativa de cidadãos, acções judiciais, cartas a deputados e governantes, audições parlamentares, grupos de trabalho no Parlamento, a tentativa de referendo, activismo nas redes sociais e em blogues, etc. Em 2012, porque a voz dos tradutores sobre a questão foi quase nula, esta página quis dar o seu contributo.
Para se ter uma ideia do nível de oposição que existe, nunca houve uma única sondagem ou inquérito de opinião favorável, com a rejeição do AO a ultrapassar sempre os 60 %. Por todo o país, inúmeros órgãos de comunicação social, entidades públicas e privadas, editoras e autores continuam a não aplicar a nova norma. Esse simples acto, juntamente com a renúncia à compra de determinados livros ou jornais, ou a correcção de grafias em placa/avisos, constitui uma poderosa forma de resistência ao alcance de todos, embora com o passar do tempo essa atitude vá esmorecendo. Chegou-se a uma fase em que enquanto não houver vontade política, seja da maioria dos partidos, do Governo ou da Presidência da República, as tentativas de anulação ou discussão do assunto ao mais alto nível estão votadas ao fracasso. A postura do facto consumado tem feito o seu caminho, mas como se costuma dizer, nunca é tarde para se corrigir um erro. Neste caso, vários erros, tantos quantas as bases do Acordo, que levaram a confusões ortográficas, semânticas e de pronúncia. Nenhuma reforma anterior levou a este estado de coisas, o que diz bem das deficiências técnicas e científicas do documento.
Têm uma fotografia duma manifestação intitulada “A Língua não é uma mercadoria. Não está à venda!”. A ortografia já foi alterada três vezes à revelia do povo, resultando neste novo acordo ortográfico. De que forma é possível que esta premissa de que a Língua não é uma mercadoria e que não está à venda seja cumprida?
As alterações ortográficas têm coincidido com mudanças de regime, fosse em 1911, com a instauração da República, em 1945, durante o Estado Novo, ou em 1990, na democracia. Daqui se depreende que têm sempre um grande cunho político, subalternizando-se a parte técnico-científica. Isto foi por demais evidente no caso do último Acordo, em que a vertigem do tema levou o então primeiro-ministro Cavaco Silva a mandar assinar logo o documento e o Governo de José Sócrates a fazer aprovar o Segundo Protocolo Modificativo, de acordo com o qual bastaria a ratificação de apenas três países para que o tratado vigorasse. Uma manobra de desespero e imposição a todo o custo, visto que o assunto estava engavetado e esquecido há vários anos.
O ritmo a que Portugal faz reformas ortográficas, já sem contar com ajustes pontuais, resulta em alterações a cada 35 anos, um caso sem paralelo na Europa, por exemplo. A ortografia é conservadora por natureza, dado que a estabilidade convém à compreensão e é uma forma de entendermos o ontem e nos fazermos entender no futuro. Não deve ser alterada a bel-prazer, com ligeireza e como uma cartada ideológica ou uma moeda de troca diplomática. Por alguma razão nada disto aconteceu com o inglês, que, apesar de “arcaico” na forma, é a língua franca internacional, da modernidade e do futuro, seja na Internet, nas aplicações, na programação informática, nas publicações científicas, etc. Também a ortografia cristalizada do francês, cheia de duplas consoantes, letras mudas e falta de correspondência entre escrita e fala, não obstou à sua aprendizagem e a que o idioma tivesse nível mundial e fosse veículo de conhecimento. Por conseguinte, deixe-se a língua em paz. O património maior de qualquer nação, por ser um bem intangível, não pode servir para mercadejar. Acresce que, volvidos quase 15 anos da adopção, nenhum dos objectivos do Acordo foi cumprido, fosse no intercâmbio entre países lusófonos, na uniformização, na projecção do português, na maior simplificação, nas actas únicas em fóruns internacionais e na abertura do mercado livreiro.
Têm um álbum no Facebook sobre: “Oposição em Portugal ao Acordo Ortográfico”. De que forma é possível aumentar a oposição ao acordo?
Páginas como esta e grupos no Facebook e noutros locais, blogues, artigos em jornais, reportagens específicas e emissões dedicadas ao AO constituem contributos valiosíssimos não só para a compreensão e o despertar para as questões da língua, mas também para desconstruir muitas das teorias do acordismo e expor o seu fracasso. A este respeito, o jornalista Nuno Pacheco tem sido um lutador incansável, divulgando não só os erros e o caos ortográfico, mas dissertando sobre a relação que a política e os costumes em geral têm com a língua e a sua forma escrita. Também o escritor e revisor Manuel Monteiro, nos seus livros e em entrevistas, nunca perde a oportunidade de denunciar os atropelos do Acordo, que nem estará vigente (o decreto da norma anterior não foi revogado), conforme explanou o embaixador Carlos Fernandes em livro.
Criou-se em relação à língua portuguesa a ideia de que pode ser diversa em tudo, menos na ortografia, o que não se passa em nenhuma das línguas com variantes fortes. Esta visão é completamente anacrónica nos dias que correm. Cada país deve seguir as suas próprias orientações em consonância com as especificidades da sua variante, gozando de soberania linguística. Os Brasileiros mandam na sua variante, nós na nossa e os Angolanos na sua. Esta perspectiva teria evitado tantos equívocos e verdadeiros atentados culturais. É divulgando estas ideias, que no fundo são de senso comum, que será possível chegar a mais pessoas e aumentar a oposição, seja do ponto de vista técnico, social ou até filosófico. É que o AO faz mesmo o pleno — é uma aberração científica, política, jurídica e diplomática.
Têm um álbum no Facebook sobre: “Caos ortográfico pós-AO”. Após vários anos de imposição ilegal do Estado, Presidência, escolas, universidades, revistas, canais de televisão e outros meios de comunicação em que medida o AO tem prejudicado quer a ortografia, quer a oralidade? E que impacto é que tem tido este este Caos Ortográfico nos alunos, quem lê na TV ou jornais e revistas? Em que medida as alterações desde a reforma ortográfica têm prejudicado a ortografia, e este caos tem prejudicado as traduções?
O Acordo lançou a ortografia portuguesa num caos que é indigno de uma língua desta dimensão, como observou Bagão Félix. Não só continua a existir uma mistura permanente de grafias pré e pós-AO, como surgiram erros atribuíveis aos novos preceitos, como sejam “adeto”, “elítico” e “interrutor” (supressão do “p”), “espétaculo” e “desinfétar” (acentuação indevida pela retirada da consoante muda diacrítica), “inteletual”, “impato” e “fição” (ausência do “c”), “galático”, ”adição”, “contato” e “fato” (não perderam mesmo o “c”), “25 de abril” (mantém a maiúscula), “excessão” (a queda do “p” levou a uma deturpação ainda maior), etc. Grafias deste tipo aparecem com frequência no Diário da República e já constaram numa reprodução da Constituição Portuguesa no site da Assembleia da República. Além disso, um fenómeno inédito que ocorreu foi o retorno da escrita sobre a oralidade, como proferir “afêta” (devido à grafia “afeta”), em vez de “aféta” (“afecta”), ouvido a um jornalista há uns dias, ou “coâção” (“coação”) por “coàção” (“coacção”). Vocábulos noutras línguas têm surgido com consoantes truncadas, incluindo na imprensa. Depois, por via da supressão de hífenes, passámos a ter verdadeiras aberrações gráficas, tais como “conarrar”, “cocomandante”, “corréu”, “contraião”, “semirrei” ou “intrauterino”, além de confusões ortográfico-semânticas entre palavras que se tornaram demasiado parecidas, como são os casos de “conceção”/“concessão” e “interceção”/”intercessão”/”interseção”. Tudo isto, que está documentado em profundidade na página, e a que acresce o desmembramento de famílias de palavras, leva o falante a ter mais dúvidas do que certezas na hora de escrever. Houve uma dispersão ortográfica ainda maior do que antes, com a não-aplicação das novas regras pela maioria dos países lusófonos, com destaque para Angola e Moçambique, e nos próprios países que as aplicam devido às duplas grafias e à colagem da grafia à pronúncia, que será o aspecto da língua que mais variação apresenta. Toda a gente passou a escrever de uma forma ainda mais diferente.
Embora o objectivo fosse facilitar e simplificar a escrita, o que vemos é o inverso, porque a nova ortografia é pouco intuitiva. Temos recebido na página imagens de professores que se deparam com erros gritantes resultantes do Acordo em provas dos seus alunos, com os próprios a confessarem que não viam esse tipo de erros antes. Nas traduções, particularmente em filmes e séries, e inclusive em capas de livros, surgem vários tipos de anomalias, de que damos conta na página. Em sites de empresas de tradução, não é raro ler a indicação “Contatos”. Há tradutores que passaram a trabalhar para os mercados de Angola e Moçambique, a fim de contornar toda esta trapalhada.
Têm um álbum no Facebook sobre “Factos e propaganda anti-AO”. De que forma pode isso ajudar a esclarecer e levarem as pessoas a tomarem uma posição contra o acordo ortográfico?
É no esclarecimento que está a chave para que os cidadãos tenham consciência deste problema. Há pessoas que não tinham uma opinião definitiva ou eram a favor, mas perante as contínuas evidências foram obrigadas a reconhecer que não estavam a par de toda a realidade da questão. Em vez de bater no peito com o patriotismo lusitano, que em si não serve de muito para esta causa e pode prejudicá-la pelo desvio para outros campos, a solução é informar, explicar, educar. E convocar pessoas que nos outros países combatem este processo, incluindo no Brasil, onde existe uma oposição significativa entre académicos, personalidades de várias áreas e políticos.
O AO não é de esquerda nem de direita, tem apoiantes e detractores de ambos os lados, nem a norma de 1945/73 é «o português dos nacionalistas», como se escreveu por aí, e não presta porque é «do tempo da ditadura», segundo Santana Lopes. É apenas a norma estável, mais coerente e mais bem elaborada após as alterações de 1911.
Quais são os vossos sonhos para a Língua portuguesa e para Portugal?
É evidente que a língua portuguesa não se esgota no AO. Há quem afirme, como o professor Fernando Venâncio, outro antiacordista, que o idioma não está tão mau como muitos querem fazer crer e que esse sentimento é cíclico e já ocorreu noutras épocas. Pode ser verdade até certo ponto, mas é inegável que, somando-se ao AO, o português enfrenta desafios como o uso massificado e tantas vezes despropositado de anglicismos, o empobrecimento do ensino ou o afunilamento do vocabulário. Não podemos ser passivos e ficar à espera de que a língua sobreviva só por si própria, até porque, como se sabe, se extinguem línguas todos os anos com a morte do último falante e o avanço hegemónico do inglês a nível global ou de outras línguas mais poderosas a nível regional.
Por outro lado, não podemos estar dependentes do Brasil como o motor da língua e a olhar sempre para o outro lado do Atlântico. O Brasil faz o que lhe compete, faz avançar a sua variante, e tem algo que Portugal ainda hoje não tem, uma verdadeira política da língua, algo que o AO serviu para mascarar, sem nenhuns resultados práticos, como é notório. Será isso que falta a Portugal como um todo, mais iniciativa, mais capacidade de comando, menos atrelamentos, menos dependências, seja demográfica, económica ou culturalmente. Por vezes, dá a ideia de que temos um país ao contrário.
Obrigado pelo seu tempo, votos de bom trabalho.
Projecto Vidas e Obras
Entrevista: Pedro Marques
Correcção: João Aristides Duarte
01 De Abril De 2025
Fonte:
«Quando sai uma reforma dessas, jogam-se no lixo todos os livros didácticos, para fabricar e vender tudo de novo. É uma reforma supérflua e inútil, provavelmente interesseira. Nunca vi ninguém fazer isso com o inglês, por exemplo, que é cheio de consoantes e vogais que ninguém pronuncia e nem por isso é preciso fazer reformas ortográficas periódicas.»
Walnice Nogueira Galvão, Escritora e crítica literária brasileira
«E, no ano em que comemoramos um dos raros génios nacionais, Camões, continuamos indiferentes aos estragos que a nossa língua teve com o Acordo Ortográfico, que, para além do enorme desastre diplomático, só continua em vigor por pura inércia. Essa inércia é o retrato do patriotismo das nossas elites políticas, que estão todas a reler Os Maias, quando perguntadas sobre o que estão a ler, e que vão agora durante um ano buscar à Wikipédia umas frases de Camões, para parecer que ainda lhes importa a língua que ajudam a matar na sua ortografia todos os dias.»
José Pacheco Pereira, Professor, cronista e político no jornal Público em 06-07-2024
«Se existisse em Portugal uma verdadeira e informada opinião pública, já há muito teria causado escândalo a forma como cada vez há mais pessoas a pronunciarem palavras que não pronunciavam antes, por influência da má ortografia, que assim gera uma má pronúncia. Supostamente, o malfadado Acordo Ortográfico teria como objectivo aproximar a escrita da pronúncia. Agora, o Mr. Hyde (a má ortografia) destrói a própria pronúncia. Efeitos perversos, de que ninguém fala, quase ninguém… E muito menos discute a sério.»
Helena Carvalhão Buescu, Professora catedrática e emérita da Universidade de Lisboa e escritora
No “Em Defesa da Ortografia LXXI”, chamámos a atenção para a afirmação de Pedro Correia, e de muitos outros, no programa “Prova Oral”, de que, hoje, sem recurso a ferramentas tecnológicas, ninguém sabe aplicar devidamente o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90).
A propósito desta afirmação, leia-se o artigo de opinião de Clara Não, ilustradora, ativista (seja lá o que isso for) e autora, “O cúmulo da desumanização e objetificação das mulheres: o concurso da Miss AI”, publicado no jornal Expresso, em 2 de Julho do corrente ano.
A autora opta por escrever na nova ortografia e presenteia-nos, por ordem alfabética, com os seguintes termos: afetam, atuais, autoestima, auto-estima, cor-de-rosa, direcionadas, diretamente, efetiva, espetáculo, objetificação e refletir. Como se vê, Clara Não tem uma clara opção pela ortografia das palavras decepadas. Conviria, contudo, que alguém alertasse: Não, Clara Não, a senhora não utiliza a nova ortografia; utiliza uma terceira, uma mixórdia, que é uma mistura da ortografia de 1945 com enxertos da de 1990.
Continuando a pesquisa de aberrações que enxameiam e enxamearam a Comunicação Social, deparámos com:
1.“O Ministério Público no STJ interveio na sessão para pedir a absolvição da juíza, tendo a procuradora-geral adjunta Odete Oliveira dito que as declarações de Isabel Magalhães vieram confirmar a sua convição na inocência da arguida.” Jornal I, 02-04-2014.
Como vê, caro leitor, nos sítios do costume, mora a ortografia do costume. Quase ninguém fala, não é?
Ah, parece que andam aí uns telescópios modernos…
Ah, o JN precisa de mais umas horitas para aplicar as regras da hifenização.
Ah, o Record também tem, recorrentemente, como na locução ponta-de-lança, umas saudáveis recaídas…
João Esperança Barroca

(Nota: este telescópio é para uso auditivo. Não esquecer.)


«Acho o AO90 uma máquina de fomentar erros, de criar aberrações e instaurar o caos ortográfico […]. Quando os seguidores e legitimadores deste acordo instaurado por errados e perniciosos cálculos políticos recuam perante algumas das suas regras mais pitorescas […], então é caso para perguntar o que se passa com a monstruosa criatura que não é respeitada nem sequer por quem lhe quer bem. Devo confessar que às vezes até tenho pena do enjeitado, embora não hesitasse em infligir-lhe o golpe de misericórdia.»
António Guerreiro, Cronista e Crítico Literário
«O Acordo Ortográfico é uma das coisas que mais abastardaram a língua portuguesa nos últimos anos, e sobre o qual ninguém se pronuncia. São todos muito patriotas, têm todos Portugal e a bandeirinha na cabeça e no corpo, mas coisas que efectivamente atentaram contra a nossa identidade, que depende em muitos aspectos da língua, ninguém liga nenhuma. O Acordo Ortográfico mantém-se, em grande parte, por inércia, não é porque haja muitos defensores. A maioria das pessoas que escreve bem português não escreve naquela coisa.»
José Pacheco Pereira no programa "O Princípio da Incerteza" 11/02/2024
«A coisa foi caindo no esquecimento, embora muitos jornais e revistas tenham decidido adoptar a coisa, que era uma maneira de ir impondo a coisa, em jeito de dose maciça a ver se nos habituamos. A verdade, sejamos claros, é que nunca nos habituámos. E a coisa é confusa mesmo para professores que têm de pregar o Acordo Ortográfico às criancinhas […]. Nunca escrevi segundo o Acordo, porque estou contra, […] sobretudo por isso, por me parecer uma imposição sem grandes bases de verdadeira discussão pública, uma coisa acelerada, precipitada.»
Rodrigo Guedes de Carvalho, Jornalista e Escritor
«Prescinde-se, quer do acento agudo, quer do circunflexo, para distinguir palavras paroxítonas que, tendo respectivamente vogal tónica/tônica aberta ou fechada, são homógrafas de palavras proclíticas. Assim, deixam de se distinguir pelo acento gráfico: para (á), flexão de parar, e para, preposição; pela(s) (é), substantivo e flexão de pelar, e pela(s), combinação de per e la(s); pelo (é), flexão de pelar, pelo(s) (é), substantivo ou combinação de per e lo(s); polo(s) (ó), substantivo, e polo(s), combinação antiga e popular de por e lo(s); etc.»
Ponto 9 da Base IX do Acordo Ortográfico de 1990
Quando se olha com alguma atenção para a linguagem que por aí vai circulando, à boleia do AO90, uma das situações que nos salta à vista é a da confusão entre pára (forma verbal) e para (preposição). Os bonzos do AO90, enquanto assobiam para o lado, costumam afirmar que o contexto é sempre esclarecedor. Parafraseando um dos mais famosos debates da história da democracia portuguesa, apetece dizer-lhes: — Olhe que não, olhe que não…
Para ilustrar a nossa opinião, incluímos uma recolha de títulos, em vários órgãos da comunicação social, nos quais não é clara a classe gramatical do vocábulo para. Consequentemente, ninguém sabe como pronunciar essa palavra. Abrindo ou fechando a primeira vogal?
Vejamos, então, o resultado do nosso trabalho de pesquisa: a) Razão para ida ao cinema. b) Sobreprocura para pedopsiquiatria. c) A chegada de Ronaldo para o jogo com o Benfica. d) Horta para o estágio. e) Ritual indonésio para a chuva. f) Estudo para protecção das dunas. g) Ninguém para Portugal. h) Ninguém para o Benfica. i) Ninguém para a juventude do Brasil. j) Médio livre para as águias. k) Certificado digital ou teste negativo para acesso a restaurantes. l) Uma ligação para a vida. m) Mulher de Cabrita para a supervisão dos transportes. n) Ricardo Horta para a história. o) Modric para a história. p) Tudo para o Bessa. q) Para já, o estado de emergência não avança. r) Aliança mundial para a vacina? s) Jesus para três épocas? t) Escutismo, de onde e para onde. u) Bilhete para o clássico. v) Sterling com entrada 'assassina' sobre Dele Alli e Mourinho reage em bom português: «Para o car****, pá! w) Mariano Díaz para o ataque do Benfica. x) Palco para Díaz. y) Carro de vogal para as modalidades com vidro partido. z) Benfica demasiado forte para Braga. a’) Aviso para Páscoa. b’) Defesa reforçada para FCPorto. c’) Mercado ferve: Salin ruma a França, João Félix para quarta-feira e Benfica contrata brasileiro. d’) Penálti para o Vizela.
Como vê, caro leitor, nas imagens que acompanham este escrito, muitas vezes a única solução viável, quer nas notícias sobre os futebolistas Evanílson ou Zaidu, quer na imagem televisiva, é acentuar a forma verbal, diferenciando-a da preposição. Isto é, estes órgãos dizem aplicar o AO90, mas fazem-no parcelarmente, considerando-o assim um instrumento defeituoso.
Ah, e como se lê mais neste exemplo?
O comboio deslizou lentamente pelos carris.
— Para o comboio! — gritou o chefe da estação.
O chefe da estação ordena que as pessoas entrem no comboio ou manda parar esse mesmo comboio?
Ah, pois é. Como escrevemos no mês passado, dispensar os neurónios dá mau resultado.
João Esperança Barroca



«A “unificação” ortográfica dos países de língua portuguesa é, definitivamente, objectivo inalcançável, e qualquer tentativa de a forçar acaba em caricatura, tapando num lado e destapando noutro. O AO90 foi, nisto, exemplo acabado, ao criar centenas de novas discrepâncias que nada resolveram e só nos ficarão envergonhando. Venha agora, e depressa, uma comissão que nos liberte deste emaranhado que ninguém pediu e restitua à língua portuguesa um rosto apresentável.»
Fernando Venâncio, linguista, escritor e crítico literário
«2 - Garantir a solenidade, valorização e inviolabilidade da Língua Oficial Portuguesa através da recusa e suspensão imediata do denominado “Acordo Ortográfico” de 1990, sem possibilidade de qualquer revisão.»
100 Medidas de Governo do Chega, página 3
«O Acordo Ortográfico, que estraga a língua portuguesa, é de esquerda ou direita?»
José Pacheco Pereira, professor, cronista e político

Como é óbvio, a questão ortográfica é sobremaneira importante quando definimos o nosso sentido de voto. No nosso escrito de Fevereiro, dissecámos o conteúdo linguístico do Programa Eleitoral do PSD 2022 e, na sequência dessa análise, assestamos, agora, baterias nas medidas de governo do partido Chega.
A primeira impressão que temos é a de que houve uma clara opção pela grafia anterior ao AO90, o que era expectável, tendo em conta o teor da medida citada em epígrafe. Vejamos, então, com diversos exemplos, a qualidade da ortografia do partido de André Ventura, que foi um dos subscritores de um manifesto contra o Acordo Ortográfico, divulgado pelo jornal Público em 23 de Janeiro de 2017:
- na página 3, deparamo-nos com projecto e respectivos, coexistindo com diretamente;
- na página 4, de mãos dadas no mesmo parágrafo, estão lecionar e leccionar, convivendo com actual;
- na página seguinte, encontramos três formas lídimas, a saber: actividade, respectivo e respectivas;
- também a página 6, está livre de emissões do AO90, com os termos factura e electricidade;
- na página 7, destaca-se a ausência de hífen na forma mais valias:
- na página 9, encontramos atual e actos (que se repete duas vezes na página seguinte), na companhia de excetuando e excepção;
- na página 10, lê-se ainda accionar, acupuntura e setor;
- já na página 11, temos só formas genuínas: accionar, actos, actuais, actualização e sector (que recuperou a consoante perdida na página anterior);
- a página 13 só apresenta formas sem contaminação do AO90: efectividade, efectiva e protecção;
- o mesmo acontece na página 14, com os termos adoptado e efectiva;
- na página seguinte as consoantes estão no seu lugar em directos e sector;
- actualmente e infractores, na página 16, respeitam a etimologia;
- na página 17, encontramos acto e actividade;
- a página 20 foi atacada pelo vírus consoanticida em eletricidade (duas vezes), faturação e diretos, o que também ocorre em direto (pág. 21);
- na página 23, tecto, actual, protecção, directa mostram que o problema das páginas anteriores foi debelado;
- na página 25, deparamo-nos com uma recaída em efetiva;
- na página 26, coexistem antissemitismo e mão-de-obra, na companhia de sectores e atividade;
- a página 30, à imagem de grande parte dos órgãos de comunicação social, é uma verdadeira salgalhada, com objetivo, autossuficiência, ações e leccionação;
- na página seguinte só há bons exemplos, como actividade e concepção;
- para finalizar, as palavras autossuficiência e autossuficiente surgem, acompanhadas de respectivos na página 32.

Podemos, pois, concluir que, o AO90 só veio criar confusões entre os escreventes, já que potenciou imensos erros (como os que estão assinalados nas imagens que acompanham este escrito), amplamente divulgados por páginas de oposição ao Acordo Ortográfico no Facebook, as quais têm realizado um muito louvável trabalho, desmascarando a maravilhosa língua unificada, isto é, a cacografia.

Conclui-se ainda que esta alteração ortográfica, da qual os únicos beneficiários foram as editoras de livros didácticos e de dicionários, bem como os respectivos autores, foi levada a cabo por motivos puramente políticos, sem quaisquer fundamentos linguísticos e revelando uma extraordinária ignorância no que diz respeito à natureza da língua. Um dia, a história que conduziu a língua a uma profusão de fatos (como uma monumental alfaiataria), de contatos e a “centenas de novas discrepâncias” será contada sem eufemismos.
João Esperança Barroca
Excelente texto de José Pacheco Pereira, obrigatório ler e partilhar muito, e pôr em prática o que o autor aqui sugere.
«A língua é uma coisa viva e o “acordês” é uma língua morta. Foi ferida por um vírus pior nos seus efeitos sociais e culturais do que o coronavírus.» (...) «A língua portuguesa precisa de nós. E não se esqueçam deste facto: o Acordo é impopular.» (José Pacheco Pereira)

Por José Pacheco Pereira
“No tempo do Getúlio (Brasil) e de Salazar (Portugal) foram feitos acordos que não prevaleceram, porque, na realidade, quem faz a língua não são as academias, nem os governos. Quem faz a língua é o povo.” Carlos Heitor Cony
«Tenho à minha frente uma série de jornais e de outras publicações do Brasil, de Angola, de Cabo Verde, de Moçambique, da Guiné, de Macau e de Timor. São actuais e nenhum respeita o Acordo Ortográfico. Se acrescentar a esses jornais e publicações mais uma série oriunda de Portugal, ou explicitamente recusam o Acordo, ou misturam artigos escritos nas duas línguas, o “acordês” e o português. Já não ponho livros em cima da mesa, romances, poemas, ensaios, porque quanto mais conhecido e criativo é o autor, menos usa o “acordês”.
Por detrás destas publicações está uma série de acordos diplomáticos que, ou estão a ser ilegalmente aplicados, ou foram ratificados e metidos na gaveta, com explícitas declarações de que são para meter na gaveta, ou, por fim, não foram aprovados pelos países que deveriam tê-los incorporado na legislação nacional. Como monumental falhanço diplomático, é um caso exemplar. O problema nem sequer é esse: é que, como falhanço cultural, é uma desgraça, mas, vindo de quem vem, é previsível.
A razão é muito simples: a língua é uma coisa viva, e o “acordês” é uma língua morta. Foi ferida por um vírus pior nos seus efeitos sociais e culturais do que o coronavírus, e é mantida moribunda por duas forças infelizmente poderosas nos nossos dias: a inércia e a arrogância de não querer perder a face e admitir o erro. E não adianta virem dizer-me que língua e ortografia são coisas diferentes e que a ortografia é uma convenção, e que há muitos precedentes de acordos. Há, mas nenhum como este, nem no tempo deste.
A ortografia é uma espécie de impressão digital da língua, faz parte da sua identidade e qualidade cultural. Transporta a sua memória e a sua história, as suas raízes nas línguas que foram a sua origem e que a fazem comunicar com as outras línguas com o mesmo tronco latino. E, como ser vivo, a língua e a sua ortografia evoluem todos os dias, traduzindo o dinamismo dos povos e das sociedades onde é falada e escrita. O tragicamente ardido Museu da Língua, em S. Paulo, traduzia esse dinamismo com a enorme vitalidade do português do Brasil, incorporando no vocabulário milhares de novas palavras oriundas de outras línguas trazidas pela emigração ou pelos tempos modernos. Não foi por acaso que este museu foi feito pelo Brasil, com a sua única e excepcional homenagem à língua portuguesa, enquanto por cá ninguém sequer aproveitou a oportunidade da sua desaparição para fazer um museu à língua cá, nem sequer pediu aos brasileiros que fizessem uma réplica cá, com a adaptação necessária. Não, em vez disso, continuamos a manter um Acordo que estraga a nossa língua e que é imposto administrativamente nas escolas e no Estado, para ainda mais afundar a nossa cultura, em tempos de ignorância agressiva.
É por ter lido com indignação um artigo publicado no PÚBLICO por quatro ministros autoglorificando-se pelo que têm feito pela língua portuguesa, numa altura em que toda a gente sabe que tem havido um considerável recuo da presença do português de Portugal por tudo quanto é universidade estrangeira, escola, instituição paga pelos contribuintes como o Instituto Camões, que escrevo. E se a situação não é pior, deve-se ao Brasil. Mas o que mais me encanita é o estarem muito contentes pela “dignificação” da língua portuguesa, quando eles próprios e os seus antecessores do PS e do PSD, desde 1990, são os principais responsáveis por a manter menos digna, menos própria, menos lavada, menos forte, menos saudável, doente.
É uma causa quixotesca? Não, não é. Há muita coisa que ainda não se fez. Faça-se como o lóbi das armas nos EUA (eu sei, péssimo exemplo, mas de lóbis percebem eles…) e, quando houver uma eleição, pergunta-se ao candidato, seja autárquico, seja legislativo, qual a sua posição. Depois ajuda-se por todos os meios os que explicitamente são contra o Acordo, de modo a criar um caucus (que vem do latim e do grego) na Assembleia e noutras instituições para fazer recuar o uso do Acordo e criar condições para acabar com ele, ou com a sua aplicação imposta, sorrateira e maliciosa.
Eu não desisto, porque há ainda muita coisa a fazer contra o Acordo. Angarie-se algum dinheiro, e há quem esteja disposto a dá-lo, seja mais, seja uma contribuição de um euro, façam-se anúncios de página inteira nos jornais, coloquem-se outdoors nas ruas, peça-se a escritores, criativos, artistas, cientistas, que escrevam uma frase em defesa da nossa língua ou façam um desenho, um grafismo, uma história aos quadradinhos, façam-se bancas nas ruas para recolha de assinaturas com a presença das muitas pessoas conhecidas e de prestígio que ainda escrevem português, faça-se uma associação de defesa da língua portuguesa ou dinamize-se uma que já exista, exija-se direito de antena e pressionem-se os órgãos de comunicação a darem voz a estes críticos da degradação da língua e da cultura.
A língua portuguesa precisa de nós. E não se esqueçam deste facto: o Acordo é impopular.»
Fonte: https://www.publico.pt/2020/05/09/opiniao/opiniao/virus-atacou-lingua-portuguesa-1915735
. Em Defesa da Ortografia (...
. Périplo pelo último artig...
. «O desprezo da pátria por...
. Se os governantes portugu...
. «Entrevista à Página – Tr...
. Em Defesa da Ortografia (...
. «Em Defesa da Ortografia ...
. «O vírus que atacou a lín...