Segunda-feira, 29 de Junho de 2020

AO90 (e não só): «Existe ressentimento entre Brasil e Portugal?»

 

João Santos (PhD Física) responde a esta pergunta.

 

E eu, que conheço a realidade de lá, tanto quanto conheço a de cá, não posso estar mais de acordo. É assim, tal e qual.

 

João Santos.jpg

João Santos

 

Podia dizer que "não, não existe", mas estaria a faltar à verdade e a ser politicamente correcto. Por mais que se queira dizer que não, que não existe nada, que são todos amigos e admiradores uns dos outros, isso, embora estatisticamente até seja verdade, não o é para todos, infelizmente. Pelo que eu tenho visto aqui no Quora e noutras redes sociais, isso não acontece e existe ressentimento de parte a parte, muitas vezes por causa dos próprios governantes, de uma forma mais ou menos deliberada. Vou tentar fazer duas listas que indicam alguns motivos de ressentimento dos portugueses relativamente ao Brasil e vice-versa. Atenção que pode não se aplicar à generalidade dos indivíduos, mas por vezes apenas a uma parte:

 

Razões de queixa dos portugueses:

 

  1. a) A Língua: existe uma sensação generalizada em Portugal de que os brasileiros se acham donos da língua portuguesa apenas por serem em muito maior número. O acordo ortográfico de 1990 veio reforçar isso. Muitos portugueses, embora as diferenças entre a norma brasileira e a norma portuguesa, quer ao nível da sintaxe, do léxico ou da ortografia, não sejam nem de perto nem de longe suficientes para considerar a separação do Português em duas línguas diferentes (a prova é que todos escrevemos e nos compreendemos perfeitamente nas redes sociais), desejam mesmo que as línguas se separem para deixarem o Português de Portugal em paz e sossego. Isto, em parte, é culpa das autoridades, que fizeram (ou deixaram fazer) o acordo ortográfico de forma a "colarem" a norma portuguesa à norma brasileira. Continuam a existir duas normas, mas no Brasil perderam o trema, alguns assentos e pouco mais, e em Portugal, uma grande parte das palavras, e palavras utilizadas todos os dias, foram alteradas e vão mesmo contra a forma de pronunciação portuguesa, resultando em aberrações linguísticas. Por essa razão, existem petições, iniciativas legislativas de cidadãos, grupos em redes sociais, boicotes, e juramentos de morte em nunca utilizar o acordo ortográfico nem comprar nada com o dito até ao fim dos dias, incluindo intenções de voto em partidos que sejam mais ou menos favoráveis ao acordo ortográfico. O certo é que existem ainda periódicos importantes, e grande parte dos maiores escritores portugueses, que não o utilizam nem virão a utilizar. Há posições extremadas do tipo: "antes a morte", como se se tratasse de uma invasão ao solo pátrio. E com alguma razão.
  2. b) As várias vagas de emigração para Portugal, embora o povo português seja acolhedor e goste de algumas características do povo brasileiro, considerando-o mesmo como um povo irmão, levantam em certos sectores políticos e sociais alguma xenofobia injustificada. É aborrecido e indesejável, mas não se pode dizer que não exista.
  3. c) A contínua reclamação por parte de alguns brasileiros de que os portugueses escravizaram os indígenas, que retiraram indevidamente ouro do Brasil, escravizaram tudo e mais alguma coisa, que carregam em cima uma culpa milenar de colonização (que nenhum português actual sente), e outras polémicas que surgem nas redes sociais, com acesas discussões, acicatam o ressentimento dos portugueses relativamente aos brasileiros que se envolvem, de parte a parte, nestas discussões inúteis e inférteis.
  4. d) Por mais que os portugueses digam que não se importam, que acham piada e que também fazem o mesmo ao próprios portugueses, só o simples facto de existirem piadas sobre portugueses no Brasil, provoca ressentimento em qualquer português. Até podem dizer que não, mas fazem-no apenas para serem politicamente correctos e imaginam logo se podem contar a piada ao contrário. E contam-na, se se lembrarem.

 

Razões de queixa dos brasileiros (um pouco especuladas; talvez existam mais que desconheço, uma vez que não sou brasileiro e peço a alguém que complete a lista nos comentários). De qualquer forma, esta é sempre a percepção de um português:

 

  1. a) Questão colonial. Existem brasileiros que não conseguem ultrapassar este facto, de que o território que é o Brasil hoje, já foi uma extensão do território de Portugal. Fazem sentir este ressentimento em muitas das questões colocadas no Quora. Existem brasileiros que desejariam que o território brasileiro tivesse sido conquistado por outra potência mundial que não Portugal, imaginando que, se assim fosse, à semelhança dos Estados Unidos da América do Norte, o Brasil seria hoje uma superpotência mundial.

 

  1. b) Questão da língua. Mais ou menos o sentimento recíproco, mas sem a agravante do acordo ortográfico, que pouco alterou a ortografia brasileira.
  2. c) O interesse e a crítica dos portugueses relativamente à política brasileira. Existem brasileiros que acham que os portugueses nem sequer deveriam pensar ou fazer juízos sobre a política brasileira, uma vez que não é nada com eles.
  3. d) E deve haver mais que desconheço.

Deixo apenas um comentário de Antônio Houaiss com uma sua opinião sobre a implementação do acordo ortográfico no Brasil, e a razão pela qual os brasileiros não se deveriam preocupar com isso (ao contrários dos portugueses). Estava coberto de razão.

 

 

(NotaEste senhor desconhecia a Língua Portuguesa e a pronúncia portuguesa em Portugal, nas várias regiões. Este senhor era adepto da deslusitanização da Língua Portuguesa, e aplicou-a. Este senhor está na génese do Acordo Ortográfico de 1990, por motivos económicos. Este senhor era brasileiro, filho de libaneses. A sua Língua Materna era a Libanesa, não era a Portuguesa. Daí este "desamor" pela língua do ex-colonizador - Isabel A. Ferreira).

 

Fonte:

https://pt.quora.com/Existe-ressentimento-entre-Brasil-e-Portugal/answer/Jo%C3%A3o-Santos-27?ch=1&share=4bb7ce7a&srid=LyCYf&fbclid=IwAR3v2ko3xyGJrZRQQtKEPFW56XaEVZfvQyOezyCJrr-QucO_8AUAy-2egrU

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:30

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Quarta-feira, 8 de Abril de 2020

«Defender a Língua Portuguesa é defender a parte crucial da nossa existência como povo soberano e independente»

 

Em tempo de crise sanitária, económica e financeira, não podemos baixar a guarda, na luta contra esta outra crise, que abala a soberania e a independência portuguesas: a venda da Língua Portuguesa ao Brasil.

 

«Defender a Língua Portuguesa é defender a parte crucial da nossa existência como povo soberano e independente». Quem o diz é um amigo meu, Doutor em Engenharia Civil, Professor Catedrático em Angola, onde além dos muitos dialectos locais, também se fala e escreve Português culto e europeu, o qual não quis identificar-se, por motivos óbvios.

 

Um texto crucial, absolutamente obrigatório ler e reter e nele reflectir, para que possamos continuar a ser europeus e, sobretudo, portugueses.

 

PORTUGAL.jpg

 

Os que acham que Portugal é um país sul-americano olhem bem para este mapa: Portugal é um país que, com a Espanha, constitui a Península Ibérica, situada na parte mais ocidental de um continente chamado Europa. Em Espanha fala-se Castelhano, Galego, Catalão e Basco; em Portugal, fala-se Português (uma das primeiras línguas cultas da Europa medieval a par do Provençal), e Mirandês (as duas Línguas oficiais portuguesas) somando-se a estas, mais quatro dialectos – Sendinês, Guadramilês, Riodonorês e Minderico (este último em extinção).

 

Esse meu Amigo, ausente há vários anos de Portugal, e cujo nome é considerado por ele um aspecto relativamente secundário, visitou o meu Blogue e inteirou-se da luta que se trava em Portugal em defesa da Língua Portuguesa.

 

Inacreditável, não é?

 

É que os Portugueses já foram chamados a defender o território contra a investida de vários invasores, entre eles, Mouros, Espanhóis, Ingleses e Franceses, na sua fase histórica. Já tiveram de defender direitos, ideais e ideias. Mas jamais passaria pela cabeça de ninguém (daí ser caso único, desde que o mundo é mundo) um povo (ou parte dele, porque há sempre os seguidistas, aqueles que seguem alguma coisa, seja boa ou má,sem nunca se questionarem ou fazerem juízos de valor) ter de vir defender a sua Língua Materna, apenas porque uns poucos ignorantes (e como bastam uns poucos!) querem substituí-la por uma ortografia estrangeira.

 

Pois esse meu Amigo, a propósito de um artigo onde apresento argumentos assertivos contra esta “invasão de bárbaros acordistas”, escreveu um texto, em Bom Português, que nos devolve a confiança no povo que já fomos, mas ainda podemos ser. Uma lição daquela História que já não se ensina nas escolas portuguesas e, por isso, tanto faz, como tanto fez, escrever esta ou aquela Língua, desde que se facilite a escrita, que é o que mais me dói ouvir da boca dos que aceitaram, sem pestanejar, a ortografia brasileira, com a supressão das consoantes mudas com uma função diacrítica, e de acentos e hífens, onde tudo isso faz falta, para se compreender a Língua.

 

Escreve então esse meu Amigo:

 

«De todos os modos o essencial do que ali diz é certamente o que repetirá (como eu, até à exaustão) em todos os seus escritos, defendendo aquilo que é a parte crucial da nossa existência como Povo Soberano e Independente, a nossa Língua.

 

Sem saudosismos ou passadismos retrógrados, penso que nos falta, na actualidade, como Povo, o reconhecimento daquilo que fomos capazes de fazer, quando libertos de amarras e de constrangimentos que não os nossos. Começámos por ser os primeiros a libertar a nossa parte da Península da presença dos muçulmanos, enquanto os nossos vizinhos só o fizeram quase 250 anos depois. Partimos para o mar, e embora não tivéssemos sido os primeiros (os Vikings, segundo parece, haviam-no feito com Eric, o Vermelho, por alturas do ano 1000, mas de resto sem quaisquer consequências sociais ou económicas), fizemo-lo em todas as direcções e demos início à globalização, há quase 600 anos. Dobrámos a África, chegámos à índia, à China, à Austrália e ao Japão, descobrimos o Novo Mundo (acredito, porque bem provada, na tese de Mascarenhas Barreto sobre a naturalidade portuguesa de Cristóbal Colón) e dominámos uma boa parte da África por onde tínhamos de passar nas nossas andanças para Leste. 

 

Deixámos, por onde andámos, uma forma de viver única, não massacrámos, nem eliminámos fisicamente nenhum povo da Terra, como fizeram americanos e espanhóis, e a forma como nos relacionámos com todo o Mundo foi, essencialmente, feita na base da diplomacia. Houve naturalmente confrontos, mas quase nunca provocados por nós, que basicamente nos defendemos ou ajudámos a defender os nossos aliados. Deixámos atrás de nós um legado de saudade e de um humanismo imenso. Ainda hoje as gentes de Goa, de Malaca ou de Timor, recordam com um enorme respeito os Portugueses, para não falar na forma como somos recebidos no interior de Angola ou Moçambique pelos mais-velhos, aqueles que tiveram a oportunidade de conviver connosco. Eu sou testemunha disso, todos os dias em Angola. 

 

Sem nacionalismos bacocos, poderemos dizer que atrás de nós ficou um legado muito peculiar, feito com erros, com imperfeições, certamente, mas com muita entrega, muito empenho, dedicação e carinho. Creio que a palavra "paternalismo" tem inteiro cabimento na forma de nos relacionarmos com os outros povos, não tanto na parte que pode significar superioridade, mas sobretudo naquilo que exprime aproximação e mesmo afecto. E é curioso verificar que é como Pai que olham para nós.

 

Para um povo que tinha 1.5 milhões de almas ou pouco mais no início da arrancada, vivemos num mundo onde quase 300 milhões de pessoas falam a nossa língua. Que é deles também, sem deixar de ser a NOSSA, e só perdemos identidade, só nos deslustramos perante todos eles se deixarmos de ser quem sempre fomos e tentarmos agora, como muitos imbecis procuram, disfarçar-nos atrás das cortinas da História, procurando fazer-nos desaparecer da vida desses povos, desvanecer o nosso carácter, quase a pedir desculpa de existirmos. Essa gente, que nos ataca e pretende afinal destruir-nos por dentro, não é Portuguesa, essa gente faz-se de Portuguesa por razões de interesse, e por isso porfia em contestar o que fomos, negar os nossos sucessos, tentando com isso apagar-nos da História. E a Língua, essa forma NOSSA de comunicarmos e de veicularmos o que somos, disseminar-se-ia de algum modo numa multidão de gentes, vindo a perder-se assim o rasto das suas origens.

 

Nos tempos que correm, em que vemos todos os dias soçobrar um pouco mais tudo aquilo que tem sido ao longo destes 875 anos de história colectiva, a razão que nos aproxima e justifica entre os demais povos da Terra, é com esperança redobrada que percebemos que não estamos sós e que aqui e ali se levantam cada vez mais vozes indignadas que protestam. E por isso me apraz muito participar neste seu blogue, onde encontro a primeira linha de defesa dos valores que são nossos, daquilo que nos pertence.

 

E diz mais à frente:

 

Foi esse querer que nos levou para longe, e que dá força ao pensamento de Gilberto Freire, o ilustre sociólogo brasileiro que definia o português "como alguém que nasce em Portugal e vai morrer não se sabe aonde". Talvez seja essa uma parte do nosso drama, o nosso verdadeiro estigma, saímos e não voltamos, acreditando que a retaguarda estivesse sempre protegida. Hoje, regressados ao quinhão natal vindos das 7 partidas do Mundo, espantamo-nos com a recepção fria quando não agreste com que nos acolhem e mal entendemos a vontade que impera no desfazer de tudo o que fomos e ainda somos. A Língua é o espaço vital, o traço de união que liga todo o Mundo onde já vivemos soberanamente e onde ainda sobrevivemos por força da nossa razão e de modo algum pela razão da força, que já não temos, ou quase nunca tivemos. Neste aspecto eu não posso deixar de me maravilhar com a capacidade extraordinária de um Paiva Couceiro, que acompanhado de meia dúzia de auxiliares (os chamados sipaios), desceu o Rio Cubango em Angola e trouxe para Portugal os povos de um território imenso (maior do que o território que nos sobra hoje), designado como Cuando-Cubango, construindo os fortes de Cuangar, Calai, Dirico e Mucusso, com duas ou três praças europeias em cada um. Ou o extraordinário Henrique de Carvalho que "abraçou" as Lundas (também maiores do que Portugal), sozinho, em conversações com os muatas quiôcos, e as ligou à nossa bandeira.

 

Onde está essa gente? Onde vive o espírito desses homens que olhavam para longe e impunham aos demais, sem usar necessariamente da força, a sua maneira de pensar? Fizemos um Brasil imenso, o maior país da América do Sul, com uma decisão e um querer impressionantes, resistindo ao "esfrangalhamento" em que caíram os territórios espanhóis (vale a pena ver o site Brasil Paralelo onde jovens historiadores brasileiros se fascinam a perceber o que lhes foi escondido por tantos anos). São eles as nossas melhores testemunhas.

 

Há uns anos a esta parte foi descoberto nas florestas da Amazónia uma fortaleza feita em cantaria de granito, onde se destacava uma placa que tinha os seguintes dizeres: - “Sua Majestade D. Pedro II, Rei de Portugal e dos Algarves (segue-se toda a panóplia de títulos que bem conhecemos)… queria que aqui se fizesse um forte. E fez-se.”

 

E hoje parece que nos envergonhamos de olhar para trás. Parece ser incorrecto tomar como exemplo os exemplos do passado, ou referir a grandeza única do nosso querer e do nosso pundonor. Não se trata de nacionalismos exacerbados ou fora do tempo, trata-se tão-somente de percebermos quem somos e porque estamos aqui. E olhando à nossa volta, percebemos que a estrénua resistência e enorme vontade que se lê e entende por detrás da evidente pobreza cultural da nossa gente, apenas demonstra que faltam os líderes, os guias que apontam os caminhos e a quem ninguém ousa desobedecer. Como dizia Pessoa ao terminar a Mensagem: - «mais que o mostrengo que a minha alma teme, manda a vontade que me ata ao leme, d’El-Rei D. João II». Ou lembrando o épico, no mais conhecido: - "um fraco rei faz fraca a forte gente"...

 

Será que nem a Língua, nem aquilo que falamos e que traduz quem somos, resiste ao ímpeto destruidor da “canalha”(*)?

 

«Floresça, fale, cante e ouça-se e Viva a Portuguesa Língua. E já, aonde for, Senhora vá de si, Soberba e Altiva…» (Lembro António Ferreira, no já distante século XVI, na carta que então escrevia a Pêro de Andrade Caminha, e pergunto-me: - o que nos aconteceu, que maldição é esta? Como pudemos chegar a este ponto, a esta encruzilhada que parece fatal, e onde o Futuro se decide em todos os momentos?).

 

Não faço do Passado uma forma de viver. Mas tenho certo que o Presente e o Futuro só existem para quem tem Passado.

 

Será talvez esta a explicação do nosso descontentamento, não sei...»

 

Um Amigo

 

(*) Como melancolicamente se queixava D. Pedro V aos seus amigos, dos ataques, já nesse tempo incisivos, dos predadores de serviço.

 

***

 

Pois é! Também não sei, meu caro Amigo.

 

Mas uma coisa eu sei, nós dois sabemos: «Por detrás da evidente pobreza cultural da nossa gente, está realmente a falta de verdadeiros líderes, os guias que apontam os caminhos e a quem ninguém ousa desobedecer».

 

Sabemos que os «fracos governantes, que actualmente nos (des)governam fazem fraca a forte gente que ainda somos».

 

Sabemos também que destes fracos governantes não rezará a nossa gloriosa História, pois nela serão perpetuados como os que tentaram destruir uma das primeiras línguas cultas da Europa medieval – a Língua Portuguesa, que continuaremos a defender até que a Irracionalidade dê lugar à Razão.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 12:17

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Quarta-feira, 1 de Abril de 2020

Sejamos francos, isto não é escrita de gente letrada. Ponto.

 

Atente-se neste quadro negro, onde está uma pequena amostra de vocábulos que não pertencem à Língua Portuguesa – Língua Oficial de Portugal – e que os media, especialmente os canais televisivos, os professores, mas também o presidente da República, o primeiro-ministro, e os deputados da nossa desditosa Nação, usam nos seus sites oficiais, nos seus despachos, disseminam por aí, na escrita e oralidade, induzindo os Portugueses, menos atentos, em erro.

Uma VERGONHA! Até porque isto, não sendo escrita de gente letrada, demonstra uma descomunal ignorância da Língua Portuguesa.

Vejamos porquê.

 

Sejamos francos.png

 

Não venham escudar-se na falsa obrigatoriedade da aplicação do falso AO90, que os mais letrados, felizmente, se recusam a aplicar, o qual, como se sabe, à excepção de uns poucos vocábulos que não perderam nem o, nem o, assenta na grafia que, em 1943, os Brasileiros decidiram simplificar e adoptar, retirando-lhes as consoantes mudas, apesar de terem uma função diacrítica, com o objectivo de baixar o índice de analfabetismo, naquele país, num  claro desrespeito pela estrutura de uma Língua, que sendo a deles, não era a deles, ou seja, não era, efectivamente, autóctone. Portanto, para quê usar critérios científicos numa Língua herdada do colonizador?

 

Contudo, nós Portugueses, não temos nada com o que os Brasileiros fizeram com a Língua deles, desde 1822, quando o país se tornou independente. E o que o Brasil fez com a Língua que herdou do ex-colonizador é problema exclusivo do Brasil.

 

Dizia-me há dias, a este propósito, uma escritora italiana, minha amiga (via e-mail, obviamente), que fala e escreve Português: «o Brasil só tem um território maior do que o de Portugal, mas não é mais importante do que Portugal».

 

Pois não. Não é, nem mais, nem menos importante, até porque Portugal é um dos países mais antigos da Europa, como país independente, com mais de oito séculos de história, e o Brasil, como país independente, tem apenas 198 anos. E a História, a Cultura e a Língua Portuguesas não se destrói assim, apenas porque os Brasileiros são milhões, e nós milhares, e porque os políticos, que se envolveram nesta farsa do AO90, de um e de outro país, são uns refinados ignorantes, no que à Língua Portuguesa diz respeito.

 

E como os políticos vão, mas a Língua fica, não podemos aceitar que uns poucos ignorantes destruam a Língua e depois se ponham a andar, deixando-nos de herança uma vergonhosa língua esfarrapada.

 

O uso da teoria atolambada o que não se lê, não se escreve, algo que em mais país nenhum do mundo se aplica, e que só os Brasileiros e agora um punhadito de acordistas portugueses adoPtam, sem a mínima noção do que fazem, criou uma enxurrada de abortos ortográficos, como a amostra registada no quadro negro, que só dizem da profunda ignorância de quem os escreve. E se ao lerem esses abortinhos, os lerem com as consoantes abertas, demonstram que, além de não saberem escrever, também não sabem ler, porque todos eles devem ser lidos com as vogais fechadas, de acordo com as regras gramaticais VIGENTES.

 

É muito triste ver o que se passa nas televisões, nos jornais online, (salvo algumas excepções), nas redes sociais, onde a Língua Portuguesa é usada numa versão mutilada, empobrecida, deturpada, desprezada, e não me refiro apenas ao AO90, que esse, já sabemos, foi concebido para facilitar a vida de quem não nasceu dotado de capacidade intelectual para pensar a Língua, e saber que o que não se lê, também se escreve, como em Homem, Hora, Hoje etc…. Mas refiro-me também a erros de todas as espécies que conhecemos.

 

Outra VERGONHA!

 

É que falar, qualquer um fala. Contudo, escrever o trivial (não falo em literatura) é preciso conhecer as letras do alfabeto e saber as regras gramaticais, porque são a base de todas as Línguas do mundo, excepto desta mal-amanhada novilíngua, que não é portuguesa.

 

Vou deixar a qui um link, para que se confira o que acabei de escrever:

A nota explicativa (do AO90) mais idiota que o mundo já viu

 

E os governantes portugueses apostam na ignorância ortográfica difundida pelos media

  

Mas…

 

Ignorância.png

 

Em Portugal, a ignorância optativa está a alastrar-se a uma velocidade considerável, e os governantes portugueses, comprometidos com essa ignorância, estão a apostar nela, numa tentativa de levar adiante um plano assente num obscurantismo jamais visto em Portugal, no que à Língua oficial portuguesa diz respeito.

 

Tudo isto, a médio prazo, irá custar muito caro ao nosso País que, cada dia, mais se afunda numa insólita incultura e, para tal, o maior difusor dessa ignorância está a ser instrumentalizado para oferecer ao povo, já meio anestesiado com o soro do desatino, aquelas coisas que o desviam do essencial: futebol, novelas, realities shows, notícias sensacionalistas e sombrias, como se o Sol se tivesse retirado do mundo, e agora esta coisa inesperada que veio perturbar o mundo: a Covid-19.

 

E tudo isto baralhado numa linguagem escrita e falada de bradar aos céus, com a intenção de levarem a melhor… e com a agravante de estarem a insultar a inteligência de um Povo, que não é parvo, na sua totalidade.

 

Na verdade, ser ignorante não é defeito. Defeito é optar pela ignorância e achar que se tem razão. É o caso dos acordistas e dos políticos que os apoiam, que decidiram assentar o AO90 na mais descomunal ignorância da Língua, e achar que os sapientes são retrógrados.

 

E vamos deixar que isto perdure?

 

O momento é de uma grave crise sanitária, mas não vamos deixar que esta outra grave crise, a crise ortográfica, que está a destruir a Língua Oficial de Portugal, seja esquecida.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:20

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Quinta-feira, 19 de Março de 2020

«Somos a anedota dos tradutores estrangeiros…»

 

Eis umas verdades bem ditas, da autoria de Alexandre Carvalho, publicadas no Facebook, em Março de 2016, e que decidi trazer à baila, para reflectirmos sobre «que grafia queremos para Portugal: a nossa ou a brasileira? », algo que continua a fazer mossa à nossa Língua, agora numa época em que as legendas dos nossos canais televisivos, estão "infetadas" (lê-se inf'tádâs) pelo vírus AO90. Até os comunicados da Presidência da República Portuguesa, estão escritos à moda da República Federativa do Brasil, uma verdadeira vergonha para um País que todos julgamos ser europeu, livre e independente (?).


E porque o texto já tem quatro anos, em parêntesis rectos vão as respectivas actualizações.

 

Temos de destruir o AO90, (é uma questão de HONRA para Portugal e para os Portugueses) depois de destruirmos o novo coronavírus, porque neste momento, a prioridade será destruir este poderoso inimigo invisível, antes que ele nos destrua a nós.

  
Mas depois deste estado de emergência terminar, marcamos encontro para destruir o vírus que está a aniquilar a Língua Portuguesa.

 

Isabel A. Ferreira

 

OOPS.jpg

 

Texto de Alexandre Carvalho

 

«Fui à página do CDS/PP e estava lá uma notícia da Assunção Cristas a falar em "direto" numa rádio. Deixei lá o seguinte comentário:

 

«Direto? E na vossa documentação do Congresso está escrito "CONTATO". Mas que língua é esta? Anda toda a gente "vergada" ao VERGONHOSO Acordo Ortográfico de 1990 (que por sinal é ILEGAL). Que raio de juristas há no CDS, que ainda não perceberam que a RCM 08/2011 NÃO REVOGOU o Dec-Lei 35228 de 08/12/1945?

 

É gente dessa competência que elabora as leis da República? Não aprenderam na Faculdade de Direito que um Dec-Lei só pode ser revogado por uma Lei ou outro Dec-Lei? Agora fazem favores ao Sócrates e à analfabeta Dilma? É uma vergonha confundir-se "óptica" (visão) com "ótica" (audição); "pára" (verbo parar) com "para" (preposição).

 

O AO90 foi ideia de Antônio Houaiss para ser o autor do dicionário mais vendável de língua portuguesa e, para isso, teria de haver uniformidade gráfica (afinal há mais palavras diferentes com o AO90 do que com o AO45...) e o dicionário Houaiss já conta com 12 revisões devido aos "defeitos de fabrico".

 

Será que esse defunto e o [também já defunto] Malaca Casteleiro resolveram atabalhoadamente fazer uma coisa para a qual não estavam minimamente preparados? Como é possível mexer na grafia de uma língua sem perceber os termos técnicos de áreas tão diversas como a medicina, a electrónica, a mecânica, a física, a química, etc.?

 

Por que motivo o presidente da Academia das Ciências de Lisboa pretende revogar o AO90? Por que motivo os mais ilustres jornalistas e escritores rejeitam esse mesmo AO90? Até no Diário da República vem escrito "fatos" em vez de "factos"...

 

É UMA VERGONHA NACIONAL e somos a anedota dos tradutores estrangeiros (só quem anda no meio o percebe). Que problemas se arranjaram para os estrangeiros que aprenderam português? Era uma dificuldade muito grande para as criancinhas aprenderem as consoantes mudas. Eu já fui criancinha e não tive problemas. Só os tem quem é cábula e não quer aprender. Essas mesmas criancinhas não têm dificuldade em grafar a letra O e pronunciar o som U, nem grafar U e não o pronunciar (gUerra, qUe).

 

Também não têm dificuldade em pronunciar o som S: ora grafado S, ora grafado C, ora grafado Ç. (...) [o] Sr. embaixador Carlos Fernandes [publicou um livro] sobre a ilegalidade do AO90 e convido a reflectirem sobre o assunto. O AO90 teve como propósito uma "negociata editorial" e não aproximar as escritas de Portugal e Brasilporque "recepção" continua a ser "recepção" no Brasil, mas cá passou a ser "receção" (é mais uma recessão cultural). Convençam-se duma coisa: o ensino em Portugal é uma miséria e no Brasil fala-se um dialecto composto por palavras portuguesas, mas ordenadas "à inglesa" (time = equipa; AIDS = SIDA; mouse = rato, etc.).

 

Também não vejo como possam os brasileiros argumentar que escrevem como falam porque escrevem "direitinho" e pronunciam "djireitxinho"; "vai falá" em vez de "vai falar"; etc., além de não usarem o plural e dizerem "nós vamo". Usam expressões traduzidas do inglês como "falei p'ra ele" em vez de "disse-lhe".

 

No Brasil a língua sofreu influências dos imigrantes e caminhou num sentido... Problema deles.

 

Façam um favor à inteligência e deixem-se de ilegalidades e falsos modernismos porque até lhes fica mal. Se ainda fosse militante, era desta que entregava o cartão (mas já o fiz há quase 35 anos, porque não gostei que me quisessem "pisar os calos").»

 

Alexandre Carvalho

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:20

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Terça-feira, 11 de Fevereiro de 2020

«O desacordo ortográfico vai perder esta guerra, a grafia original há-de prevalecer», ou seja, a do AO45, ainda em vigor em Portugal

 

O título desta publicação é um excerto de um dos comentários com que pessoas lúcidas brindaram Ascenso Luís Simões, deputado socialista, na Assembleia da República, e só podia ser socialista (pois não se arrogam os "donos" da Língua?) para escrever tamanha calinada no Twitter, conforme podem confirmar neste link:

https://twitter.com/ascenso_simoes/status/1226554294930989056?fbclid=IwAR2UeuRiqURwbSrRnNcqlMhxEjhDO2wZGGH9knFpfwxk6KH1AondBojOL5A

 

Como se em Portugal não houvesse pessoas PENSANTES, e todos fossemos muito parvos, para engolir as patranhas dos que querem levar adiante a negociata fraudulenta que envolve o AO90, e que os socialistas querem, porque querem, manter, por motivos obscuros, como todos nós sabemos.

 

Mas enganam-se.

Há gente atenta ao “AO90 Leaks”, que é tão “leaks”, como todas as outras vigarices que andam por aí a ser divulgadas.

 

O cerco aperta-se.

Os comentários ao Twitter do deputado socialista representam o pensar dos milhões de escreventes de Língua Portuguesa, que não se revêem nesta coisa ranhosa (*) chamada AO90.

 

Senhor Ascenso Luís Simões, vai desculpar-me, mas isto não pode ser dito de outra maneira: dizer que a Língua Portuguesa não pode ficar agarrada a uma visão e a um tempo marcados pelo colonialismo, é passar um atestado de ignorância a si próprio, pois demonstra um descomunal desconhecimento da Língua e da História Portuguesas, do tempo e da visão, nomeadamente da época colonialista(**). Que pobreza! Que tristeza!



Não fica nada bem a deputados da Nação, andarem por aí a debitar ignorâncias, que passam de boca em boca, sem a mínima filtragem, sem a mínima preocupação de se certificarem de que o que dizem corresponde à exactidão dos factos, repetem os disparates  que uns vão passando aos outros, tal como papagaios, numa tentativa obtusa de tornarem essas ignorâncias em verdades.

 

E isto não fica nada, nada, nada bem a deputados da Nação e a governantes. Ao menos tentem esclarecer-se, junto de quem sabe, para não passarem vergonhas.

 

(*) Coisa ranhosa, em linguagem informal, significa que é de má qualidade ou está em mau estado, algo que assenta como uma luva ao (des)acordo ortográfico de 1990. A Língua Portuguesa é riquíssima. Destruí-la é destruir um dos nossos maiores tesouros. E o Dr. Malaca Casteleiro deixou de ser um grande linguista no momento em que se vendeu ao Brasil. E o que fica dele é o seu contributo, de má memória, por tentar destruir a grafia portuguesa que como filólogo também deveria saber que não era mutilável. E pensar que foi pelas mãos de um "linguista" e "filólogo" que a Língua Portuguesa foi ameaçada de destruição! Foi ameaçada, não destruída, porque não vamos permitir tal destruição.

(**) Não querem uma ortografia do tempo colonial, mas querem a actividade selvática das touradas, do tempo da monarquia.

 

Isabel A. Ferreira

 

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publicado por Isabel A. Ferreira às 11:29

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Sábado, 4 de Janeiro de 2020

«Ninguém para para pensar no Acordo Ortográfico»

 

«Seria importante, em benefício do serviço público, que a RTP, a que lanço o repto, pudesse promover o debate sério sobre a questão do Acordo Ortográfico. Algo que possa justificar o título assumidamente ambíguo deste artigo.» (António Jacinto Pascoal)

 

Pascoal.jpg

 

Texto de António Jacinto Pascoal

 

Há umas semanas, um amigo fez o favor de me enviar o documento Pordata, Retrato de Portugal 2019, da responsabilidade da Fundação Francisco Manuel dos Santos, no qual se trata estatisticamente a sociedade portuguesa em várias vertentes, de 1960 à actualidade, em colaboração com mais de 60 entidades oficiais de informação, sob o lema “Um convite à discussão informada sobre os factos”. Uma particularidade: todo o documento está redigido na versão do Acordo Ortográfico de 1945 (AO45).

 

Para além do facto de alguns organismos públicos manterem – é possível que estejam em processo de alteração – as autodenominações segundo o AO45 (ainda há dias me cruzei com uma carrinha da Protecção [sic] Civil de Almada), a própria RTP (que peleja do lado do Acordo Ortográfico de 1990) deixa escapar inúmeros casos em que a flutuação gráfica entre o AO45 e o AO90 é evidente, quer em apontamentos de rodapé, quer em destaques ou ainda em transcrições gráficas de enunciados orais ou escritos. Deixo alguns exemplos, enfatizados a itálico: “Greve em França – Eliseu afirma que actual sistema de pensões (…)” (10 de Dezembro de 2019); “Tribunal Comarca de Lisboa – Juízo Cível: Resultou à evidência que a sociedade não tem actividade para além do parqueamento (…)” (6 de Dezembro de 2019); Joe Berardo – “É impensável que a instituição de crédito tenha decidido conceder crédito directamente ao requerido (…); numa “peça” sobre os grandes contribuintes do fisco, foi exibida a imagem “Direcção de Finanças” (4 de Dezembro de 2019); “Bebé abandonado – Instituto de Apoio à Criança defende que adopção (…)” (9 de Novembro de 2019); “Apoio aos “Sem-abrigo” – várias associações de apoio a sem-abrigo queixam-se que não vêem melhoras (…)” (9 de Novembro de 2019).

 

Não é aqui o lugar para ser exaustivo a este propósito, mas fica claro que a RTP, emissora de televisão a prestar serviço público (e que promove até programas sobre a língua portuguesa e sua ortografia), contribui em simultâneo para o caos ortográfico e, portanto, difunde o erro ortográfico. Abreviando, a RTP torna evidente aquilo que muitos não aceitam reconhecer: a inevitabilidade de que a ortografia, em Portugal, não é um assunto fechado. Posso estar enganado, mas é possível que mais nenhum país do mundo tenha a sua ortografia por fixar (a não ser o Brasil e por questões semelhantes, envolvido no imbróglio comum). O mesmo será dizer que o país, por inteiro, não reconheceu ou fixou uma ortografia e que, nesse caso, o Acordo Ortográfico de 1990 não só não é norma como letra de lei.

 

Aliás, o que o sustenta, longe de se tratar de um Decreto-Lei, é somente uma Resolução do Conselho de Ministros (nº8/2011), que nem sequer aprovou um decreto-lei, como é de sua competência (veja-se a nota preambular sobre o assunto, no Diário da República Eletrónico, onde se diz “(…) retificado pela Rectificação [sic] (…)” – se atentarmos à pirâmide de Kelsen e à hierarquização dos deveres, percebemos que uma resolução de ministros surge na 6ª posição, salvo outra opinião mais segura, depois da Constituição, Leis, Decretos, Decreto Regulamentar e Resoluções do Supremo. Isso significa que ignorar o Acordo Ortográfico de 1990, como o faz a Pordata, como para tal igualmente concorrem os docentes da faculdade de Direito da Universidade de Lisboa (insistindo em que os discentes adquiram os seus livros, impressos ainda segundo o acordo de 1945), ou como o faz, entre outras publicações (a Sociedade Portuguesa de Autores, por exemplo), o jornal diário Público, reputado como um (senão o) periódico de qualidade superior, não significa estar fora da lei.

 

Quando um país permite que a sua Constituição seja omissa quanto ao estatuto legal em que se inscreve a Língua de uso nacional, bem como a enunciação do documento orientador sobre o conjunto de regras linguísticas normativas (ambiguidades salvaguardadas) a que se submete, alguma coisa está a falhar. Aliás, não causaria prurido a ninguém a presença, na Constituição da República, de artigo próprio para a Língua Oficial. O artigo 11º (Símbolos nacionais e língua oficial) é, a meu ver, omisso, no seu ponto 3: “A língua oficial é o Português”. Resta saber a que Acordo Ortográfico adstrito.

 

Acredito na boa-fé das pessoas e respeito o conhecimento científico dos proponentes do novo acordo ortográfico e dos seus antagonistas. O que não aceito é que aquilo que se constitui matéria de tão alta importância não seja debatido. Tem razão a Dra. Margarita Correia (com quem tive o privilégio de trocar algumas impressões) ao afirmar que a questão do Acordo Ortográfico diz respeito somente a uma elite, porquanto a maioria das pessoas a ignora. É um facto: somente um grupo restrito de filólogos, professores, jornalistas e especialistas dá crédito ao assunto. Mas isso só é assim, porque a Língua Portuguesa, como bem imaterial (ainda que de alcance ontológico supremo) que é, não gera receitas de capital ao nível dos anseios da sociedade do entretenimento actual. A língua é contida, silenciosa, subtil e elegante. O novo acordo, parece-me, tira-lhe boa parte disso.

Ler mais:

Voltando ao AO/90: um miserável desacordo ortográfico

O Acordo Ortográfico não é um facto consumado, é um fato consumido

O Acordo Ortográfico e um livro para ler e reler

 

Seria importante, em benefício do serviço público, que a RTP, a que lanço o repto, pudesse promover o debate sério sobre a questão do Acordo Ortográfico, que, para além da componente científica, tem contornos políticos (alguns, mesmo, polémicos, desde a sua génese, ao processo e datação dos sucessivos Protocolos Modificativos, e ao impedimento de actuação do Grupo de Trabalho para a Avaliação do Impacto da Aplicação do Acordo Ortográfico de 1990).

 

O programa Prós e Contras, moderado pela jornalista Fátima Campos Ferreira, por exemplo, seria oportuno para poder sentar à mesa pessoas como a Dra. Margarita Correia, a Dra. Maria Regina Rocha, o Dr. Artur Anselmo, filólogos e especialistas em lexicologia, jornalistas como Nuno Pacheco, tradutores, revisores (Manuel Monteiro, por exemplo), editores, escritores, activistas em torno da matéria, políticos. É um manancial humano em torno de um assunto imensamente rico e actual, que terá, isso é bem claro, interessada e viva participação. Algo que possa justificar o título assumidamente ambíguo deste artigo. E que, de uma vez por todas, clarifique aquilo que queremos para a Língua Portuguesa e se alargue a um número maior de pessoas o património simultaneamente universal e individual que ela representa.

 

Votos de um Bom Ano Novo, com dignidade, lucidez e sem o receio de encarar de frente as questões para as quais a nossa língua nos impele.»

 

Professor e escritor

 

Fonte:

https://www.publico.pt/2020/01/01/culturaipsilon/opiniao/ninguem-pensar-acordo-ortografico-1898938?fbclid=IwAR11QSVcFOAv5EUixchKxg1OeqPYcpYANZhcUYApQmVzAKS5vwRamahlYsA

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:25

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Quarta-feira, 20 de Novembro de 2019

«Escrutínio parlamentar, precisa-se!»

 

(…) «E claro — acima de tudo — a complacência e a tibieza com que vê empurrada com a barriga a permanência de um mentecapto «acordo ortográfico» com graves consequências educativas e culturais para as gerações do futuro.» (Vasco Rosa)

 

Uma crítica lúcida, num texto de Vasco Rosa, no Blogue Corta-Fitas, à inacção do governo socialista, empenhadíssimo em destruir a Cultura e a Língua Portuguesas.

 

E a pergunta que se impõe é esta:  por que será que todas as pessoas lúcidas chegam à conclusão veiculada por Vasco Rosa, excePto os governantes portugueses?

 

Ministra da Cultura.jpg

por Corta-fitas, em 18.11.19

(Nota: o excerto a negrito é da responsabilidade da autora deste Blogue)

 

Texto de Vasco Rosa

 

«Desconheço que actividade tem a Comissão de Cultura do parlamento português, ou que acção desenvolvem os assessores ditos culturais — se os há — dos partidos de centro-direita, mas não deixa de ser flagrante a ausência de escrutínio parlamentar às políticas de cultura dos governos de António Costa e seus aliados, diante do avolumar de casos de burocratização, desinvestimento ou do mais insultuoso desleixo patrimonial.

 

A recentíssima denúncia de que a maioria dos directores de museus e monumentos nacionais está em situação de precaridade por ausência de concursos, com todos os prazos legais ultrapassados para esse efeito — enquanto são forçados por lei nova a planos de actividade plurianuais que não sabem se eles ou outros vão cumprir —, é apenas um desses casos que raiam o absurdo de o próprio Estado não cumprir ele próprio leis que aprovou. Mas há bastante mais, desde a gravíssima e lastimosa situação da Biblioteca Nacional ao adiamento da renovação da lei do depósito legal de livros, da falta de uma campanha nacional de digitalização documental à medíocre, mas bastante dispendiosa «internacionalização da cultura portuguesa», onde o clientelismo impera sem pudor, e milhões gastos de nada servem de facto. E claro — acima de tudo — a complacência e a tibieza com que vê empurrada com a barriga a permanência de um mentecapto «acordo ortográfico» com graves consequências educativas e culturais para as gerações do futuro.

 

Enfrentar e desmascarar — e tão fácil é — o mais que propagandístico «amor da esquerda pela cultura» é algo que precisa de ser feito, e a chamada de ministros a prestar contas e esclarecer políticas deveria ser parte do trabalho parlamentar de quem não quer resignar-se a uma fatídica travessia de deserto.»

Vasco Rosa

 

Fonte:

https://corta-fitas.blogs.sapo.pt/escrutinio-parlamentar-precisa-se-6839985?fbclid=IwAR0O4FbJfOD1XddXa9Hds3LOYmztRgSJK8pz38P7ARePcS2lh_jlqsWxAQg

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 12:08

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Terça-feira, 10 de Setembro de 2019

Têm a intenção de matar a Língua Portuguesa (mas não vão conseguir). Agora querem matar a História. Vamos permitir?

 

Vou reproduzir aqui, com a devida vénia, o texto notável, escrito em Bom Português, por uma PROFESSORA (assim escrito, com letras maiúsculas, porque há as que se escrevem com letras minúsculas) de História, a qual denuncia algo que vem acontecendo em Portugal, com o aval de uma “esquerda” (duvido que seja esquerda) esquizofrénica, despótica e com pouca ou nenhuma CULTURA, e não tem a mínima noção do que um POVO é feito.

 

Não matem a História, é o título do texto da autoria de Maria José Gonçalves, e porque a minha área é também a de História, não podia estar mais de acordo com esta PROFESSORA: «Se não querem “um povo sem memória” e “um país doente”, façam qualquer coisa. Não matem a História.» E eu acrescento: não matem nem a História, nem a Língua Portuguesa, porque a História e a Língua fazem parte da identidade de um POVO.

 

O que pretendem com isto? Matar Portugal?

Maria josé Gonçalvez.png

 

Texto de Maria José Gonçalves

Professora do 3º Ciclo e ensino secundário na Escola Secundária de Ponte da Barca

 

«Estive ausente do ensino 15 meses. Regressei à escola e constatei muitas mudanças — para pior. A mais dolorosa, a mais preocupante, é a mudança ocorrida com a minha disciplina, História, que viu reduzida a sua carga horária semanal nos 8.º e 9.º anos de escolaridade.

 

Em 2017, a disciplina de História era leccionada em dois tempos semanais (90+ 45 minutos). Porém, partir de 2018, passou a ser leccionada em dois tempos lectivos de 45 minutos, no 8.º ano, acontecendo o mesmo, a partir deste ano lectivo, no 9.º ano. Não quero acreditar.

 

Vou ter que ensinar História “a correr” e História ensinada “a correr” corre o risco de morrer. A incoerência entre a acção e o discurso político neste assunto é manifesta. Senão, vejamos.

 

A 31 de Agosto, na página oficial da Presidência da República, para assinalar os 80 anos do início da Segunda Guerra Mundial, o Presidente da República afirmava: “(…) Devemos, pois, ensinar às gerações mais novas o que foi a Segunda Guerra Mundial, para que os milhões de mortos não tenham perecido em vão (…).”

 

Gostaria que o senhor Presidente da República soubesse que, a partir deste ano lectivo, os alunos do 9.º ano de escolaridade, da minha escola e da maioria das escolas portuguesas, vão ter apenas quatro ou cinco aulas de 45 minutos para estudar “Da Grande Depressão à Segunda Guerra Mundial”.

 

O senhor ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, numa entrevista recente, afirmava: “É fundamental que as disciplinas mais tradicionais continuem a ser adensadas”. Não será a História uma disciplina tradicional? Será adensar sinónimo de reduzir?

 

O senhor secretário de Estado da Educação, João Costa, no âmbito do I Encontro de Educação, em Cantanhede, afirmou: “Não cortem nas disciplinas de Ciências Humanas, nomeadamente na disciplina de História, pois um povo sem memória é um país doente”.

 

Senhor Presidente da República, senhor ministro da Educação, senhor secretário de Estado da Educação, factos são factos, a História está a ser assassinada.

 

Neste novo ano lectivo, na minha escola e na maioria das escolas portuguesas, a disciplina de História vê reduzida em um terço a sua carga horária curricular semanal. Sem tempo, a aula de História converte-se provavelmente num monólogo. Pelo que as consequências pedagógicas deste novo espartilhar da disciplina de História entra em clara contradição com o que se encontra plasmado no próprio decreto-lei da Flexibilidade Curricular, que prevê a implementação de metodologias de trabalho que permitam, entre outras, a promoção de capacidades de pesquisa, de relação e de análise, assim como o domínio de técnicas de exposição e de argumentação.

 

Quando assistimos aos avanços dos populismos, das fake news, do revisionismo dos factos históricos, e quando continuamos a ter baixíssimos níveis de participação cívica, não é sensato diminuir o peso de uma disciplina que tem um papel indiscutível na compreensão do mundo em que vivemos.

 

Se não querem “um povo sem memória” e “um país doente”, façam qualquer coisa. Não matem a História.»

 

Fonte:

https://www.publico.pt/2019/09/10/p3/cronica/nao-matem-a-historia-1885970?utm_term=Um+desvio+de+800+milhoes+nas+contas+do+PS+e+a+morte+de+um+dos+fotografos+mais+influentes+de+sempre&utm_campaign=Lista+Newsletters+Editoriais&utm_source=e-goi&utm_medium=email

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:37

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Terça-feira, 6 de Agosto de 2019

«Todo o processo de imposição do AO90 é uma burla inadmissível num país que se diz democrático»

 

Um pequeno texto de Nuno Neves, publicado como comentário no Facebook, e que diz tanto do fraudulento AO90…

 

FRAUDE.png

 

Adaptação de imagem da Internet

 

Pela teimosia em continuar com a asneira (de asno, claro) do acordo, certos países, sobretudo os Palop's, estão a voltar aos seus dialectos originais.

 

O Vaticano também dispensou no ano passado o português como uma das cinco línguas importantes para comunicados, etc., dada a incompreensão que qualquer estrangeiro sentirá ao traduzir a partir deste compêndio da asneira que é o acordo.

 

Só o kaiser (Augusto Santos Silva) é que acha que o mesmo é um baluarte da nossa excelência e um caminho a seguir. Todo o processo de imposição deste AO90 é uma 'burla' inadmissível num país que se diz democrático.

 

E que o MNE se aproprie da língua de Portugal, negociando com ela fora de portas, como se estivesse a vender alheiras, tem um nome: traição!

Nuno Neves

 

Fonte: https://www.facebook.com/groups/contraacordoortografico/permalink/2324987190920355/

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 10:18

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Quinta-feira, 4 de Julho de 2019

«Os apátridas da Língua que nos governam»

 

«É como se estivéssemos condenados a escrever como se urrássemos em vez de falar.» (José Pacheco Pereira)

 

Mais um genial texto de José Pacheco Pereira, in Público, em 16/05/2015. Contudo, esta data bem pode ser a de hoje, 04/06/2019, porque os apátridas da Língua continuam a governar-nos (esperemos que por pouco tempo).

 

(Nota: os excertos a negrito e os sublinhados são da responsabilidade da autora do Blogue).

 

istockphoto-981630990-1024x1024.jpg

 

Texto de José Pacheco Pereira

 

À memória do Vasco Graça Moura

 

«Não sei se são válidos ou não os argumentos jurídicos que discutem a data da aplicação efectiva do Acordo Ortográfico [AO], se nestes dias, ou em 2016. Isso não me interessa em particular, a não ser para registar a pressa suspeita em o aplicar contra tudo e contra todos. Mas uma coisa eu sei ao certo: é que o desprezo concreto do bem que ele pretende regular, a língua portuguesa, é evidente nessa mistura sinistra de inércia, indiferença e imposição burocrática com que se pretende obrigar os portugueses a escrever de uma forma cada vez mais abastardada.

 

Na sua intenção original, o Acordo pretendia ser um acto de política externa, uma forma de manter algum controlo sobre o português escrito pelo mundo todo, como forma de garantir uma réstia de influência portuguesa num conjunto de países que, cada vez mais, se afastam da centralidade portuguesa, em particular o Brasil. Se é um “acordo” é suposto que seja com alguém. No entanto, desse ponto de vista, o AO é um grande falhanço diplomático, visto que está neste momento em vigor apenas em Portugal, com promessas do Brasil e Cabo Verde, esquecimento em Moçambique, Guiné Bissau, S. Tomé e Timor-Leste, e recusa activa em Angola. Nalguns casos há protelamentos sucessivos, implementações adiadas e uma geral indiferença e má vontade. Para além disso, nenhuma implementação do AO, vagamente parecida com a pressão burocrática que tem sido feita em Portugal, existe em nenhum país, a começar por aquele que parecia ser o seu principal beneficiado, o Brasil. Ratificado ele foi, aplicado, não.

 

Mas com o mal ou a sorte (mais a sorte que o mal) dos outros podemos nós bem, mas ele revela o absurdo do zelo português num AO falhado e que nos isolará ainda mais. Onde os estragos serão mais significativos é em Portugal, para os portugueses, e para a sua língua. É que o Acordo Ortográfico não é matéria científica de linguistas nem, do meu ponto de vista, deve ser discutido nessa base, porque se trata de um acto cultural que não é técnico, e como acto cultural em que o Estado participa, é um acto político e as suas consequências são identitárias. Não me parece aliás que colha o historicismo habitual, como o daqueles que lembram que farmácia já se escreveu “pharmácia”, porque as circunstâncias políticas e nacionais da actualidade estão muito longe de ser comparáveis com as dos Acordos anteriores.

 

É um problema da nossa identidade como portugueses que está em causa, na forma como nos reconhecemos na nossa língua, na sua vida, na sua história e na sua proximidade das fontes vivas de onde nasceu: o latim. Não é irrelevante para o português e a sua pujança, a sua capacidade de manter laços com a sua origem no latim e assim comunicar com toda a riqueza do mundo romano e, por essa via, com o grego, ou seja, o mundo clássico onde nasceu a nossa cultura ocidental. Esta comunicação entre uma língua e a cultura que transporta é posta em causa quando a engenharia burocrática da língua a afasta da sua marca de origem, mesmo que essas marcas sejam “mudas” na fala, mas estão visíveis nas palavras. As palavras têm imagem e não apenas som, são vistas por nós e pela nossa cabeça, e essa imagem “antiga” puxa culturalmente para cima e não para baixo.

 

O AO é mais um passo no ataque generalizado que se faz hoje contra as humanidades, contra o saber clássico e dos clássicos, contra o melhor das nossas tradições. Não é por caso que ele colhe em políticos modernaços e ignorantes, neste e nos governos anteriores, que naturalmente são indiferentes a esse património que eles consideram caduco, ultrapassado e dispensável. Chegado aqui recordo-me sempre do “jovem” do Impulso Jovem aos saltos em cima do palco a dizer “ó meu isso não serve para nada”, sendo que o “isso” era a história. Esta é a gente do AO, e, como de costume, encontram sempre sábios professores ao seu lado, os mesmos que vêem as suas universidades a serem cortadas, em nome da “empregabilidade”, da investigação nas humanidades e em sectores como a física teórica e a matemática pura, teorias sem interesse para os negócios. “Ó meu, isso não interessa para nada!”.

 

Mas estamos em 2015 (2019) e hoje o português de Portugal está sitiado e numa situação defensiva. Não é no Brasil que o português está em risco, nem em Angola, Cabo Verde, Moçambique ou Timor. Aí os riscos do português são os riscos de sempre e vêm da extensão da colonização, da sua relação com as línguas autóctones, dos crioulos que gerou, e do modo como penetrou nas elites e no povo desses países, se é ou não a língua de cultura ou a língua da administração e do Estado. E não é certamente no Brasil que o português está na defensiva, bem pelo contrário, é no Brasil que o português está num momento particularmente criativo.

 

Quer se goste quer não, a locomotiva da língua portuguesa não é a academia portuguesa, mas a pujança do povo e da sociedade brasileira, a sua criatividade e dinamismo. E isso fará com que o português escrito no Brasil esteja sempre para lá de qualquer AO, como aliás aconteceu no passado e vai acontecer no futuro. É o mais fútil dos exercícios, até porque enquanto o tem um papel. Se abastardamos o português de Portugal, nem esse papel teremos, a não ser escrevermos um “brasileiro” mais pobre que não serve de exemplo a ninguém.

 

A vitalidade do nosso português está nos seus grandes escritores, Miranda, Camões, Bernardes, Vieira, Herculano, Camilo, Eça, todos conhecedores do seu Virgílio, do seu Horácio, do seu Ovídio, mesmo do seu escolar Tácito, César ou Salústio. Todos lidos, estimados e estudados no Brasil, que por eles faz muito mais do que nós alguma vez fizemos, por exemplo, com Machado de Assis. E é também por isso, que a maioria dos escritores portugueses contemporâneos recusa o AO, como quase toda a gente que está na escrita e vive pela escrita e é independente da burocracia do estado. Todos sabem que o português permite todas as rupturas criativas, dos simbolistas ao Sena dos Sonetos a Afrodite Anadiómena – “E, quando prolifarem as sangrárias,/ lambidonai tutílicos anárias,/ tão placitantos como o pedipeste”, – ao “U Omãi Qe Dava Pulus” de Nuno Bragança. Criativamente a nossa língua vernácula suporta e bem tudo, menos que seja institucionalizada com uma ortografia pobre e alheia à sua história.

 

O futuro do português como língua já está há muito fora do nosso alcance, mas o português que se fala e escreve em Portugal, desse ainda podemos cuidar. É que é em Portugal que o português está em risco, está na defensiva, e o AO é mais uma machadada nessa defesa de último baluarte. É em Portugal que um Big Brother invisível, que se chama sistema educativo, retira todos os anos centenas de palavras do português falado, afastando das escolas os nossos escritores do passado e substituindo-os por textos jornalísticos. É em Portugal que uma linguagem cada vez mais estereotipada domina os media, com a substituição dos argumentos pelos soundbites, matando qualquer forma mais racional e menos sensacional de conversação. É em Portugal que formas guturais de escrita, nos SMS e nos 140 caracteres do Twitter, enviados às centenas todos os dias por tudo que é adolescente, ou seja, também por muitos adultos, se associa à capacidade de escrever um texto, seja uma mera reclamação a uma descrição de viagem. É neste Portugal que, em vez de se puxar para cima, em nome da cultura e da sua complexidade, em nome da língua e da sua criatividade, em nome da conversação entre nós todos que é a democracia, se puxa para baixo não porque os povos o desejem, mas porque há umas elites que acham que a única pedagogia que existe é a facilidade.

 

E é neste Portugal que uma geração de apátridas da língua, todos muito destros em declamar que a “a nossa pátria é a língua portuguesa”, minimizam a nossa identidade e a nossa liberdade, que vem dessa coisa fundamental que é falar e escrever com a fluidez sonora do português, mas também com a complexidade da sua construção ortográfica. É como se estivéssemos condenados a escrever como se urrássemos em vez de falar.

 

Fonte:

https://estatuadesal.com/2015/05/17/os-apatridas-da-lingua-que-nos-governam/

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:28

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. AO/90 é uma fraude, ilegal e inconstitucional

O Acordo Ortográfico 1990 não tem validade internacional. A assinatura (em 1990) do texto original tem repercussões jurídicas: fixa o texto (e os modos como os signatários se vinculam), isto segundo o artº 10º da Convenção de Viena do Direito dos Tratados. Por isso, não podia ser modificado de modo a entrar em vigor com a ratificação de apenas 3... sem que essa alteração não fosse ratificada por unanimidade! Ainda há meses Angola e Moçambique invocaram oficialmente a não vigência do acordo numa reunião oficial e os representantes oficiais do Brasil e do capataz dos brasileiros, Portugal, meteram a viola no saco. Ora, para um acordo internacional entrar em vigor em Portugal, à luz do artº 8º da Constituição Portuguesa, é preciso que esteja em vigor na ordem jurídica internacional. E este não está!
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