Segunda-feira, 20 de Setembro de 2021

Quando ouço dizer que o AO90 foi “criado” por Portugueses, e que a Língua Portuguesa é uma “variante”, das duas uma: ou foram beber a fontes de águas muito turvas ou estão de má-fé

 

Comecemos pela criação do AO90, contando a verdadeira história, documentada, do negócio do AO90, uma ideia assente na Base IV do Formulário Ortográfico de 1943, ainda em vigor no Brasil.

 

Formulário Ortográfico de 1943.png

 

Sabendo, como sabemos, que a maior tragédia para Portugal, com a aplicação do AO90, foi OBRIGAR os Portugueses a grafar objetivo, teto, arquiteto, setor, fatura, adoção, direto, objecto, correto, etc., etc., etc., (pronunciando-se tudo isto com as consoantes antecedentes às não-pronunciadas, fechadas, se queremos pronunciar correCtamente) e uma infinidade mais de vocábulos, aos quais mutilaram as consoantes não-pronunciadas, mas com uma função diacrítica, vemos que em 1943, os Brasileiros começaram a escrever precisamente desse modo, como refere a Base IV, e apesar de terem assinado o Acordo Ortográfico de 1945, onde se pretendia unificar a Língua, mantendo-se as consoantes não-pronunciadas, deram o dito pelo não-dito e optaram por grafar os vocábulos mutilando-lhes os cês e os pês, à excepção de uns poucos, como aspeCto, excePção, recePção, infeCção, e as suas derivantes, que os Brasileiros pronunciavam e continuam a pronunciar. Porquê estes e não outros? É um mistério.


Para não se dizer que os Brasileiros não mexiam em nada, no que à grafia dizia respeito, pois se o AO90 mandava mutilar as palavras não-pronunciadas (como haveriam as crianças [e os
crianços, para contentar os que bradam pela linguagem inclusiva] de saber que direCtor tinha um , se não o pronunciavam, não é verdade?) e os Brasileiros já as mutilavam desde 1943, então decidiu-se mexer obtusamente nos hífenes e na acentuação, que têm a função de facilitar a leitura e compreensão das palavras, complicando essa mesma função e criando horrendos abortos ortográficos.  E os hífenes e a acentuação seriam a única mexedela na grafia para os Brasileiros, se aplicassem AO90, sendo a grande tragédia, para eles, a supressão do trema. E com toda a razão.

 

Uma investigação minuciosa e criteriosa, publicada pelo Jornal O DIABO em 05/12/2015, mostra, preto no branco, a negociata, que envolve o AO90, a qual está a conduzir à decadência da Língua Portuguesa, apenas porque uns “intelectais” (o termo é este mesmo) mercenários decidiram querer que sete países (Portugal, ) que mantinham e ainda mantêm, à excepção de Cabo Verde, uma ortografia normalizada, clara e escorreita, começassem a grafar à brasileira uma infinidade de palavras.

 

E para os que ficam com urticária quando se diz grafar à brasileira, é mesmo grafar à brasileira, porque, como se vê na imagem, a partir de 1943, os Brasileiros começaram a grafar objetivo, teto, arquiteto, setor, fatura, adoção, direto, objeto, correto (etc., etc., etc.), e, como aprendi a ler e a escrever no Brasil, era deste modo que eu escrevia estas e todas as outras palavras com consoantes não-pronunciadas. À portuguesa grafa-se objeCtivo, teCto, arquiteCto, seCtor, faCtura, adoPção, direCto, objeCto, correCto (etc., etc., etc.) abrindo-se as vogais, porque estas consoantes têm uma função diacrítica.

 

E, se bem que nada tenhamos contra a grafia brasileira (e que isto fique aqui bem claro) que pertence unicamente ao Brasil e aos Brasileiros, e faz parte da norma linguística da Variante Brasileira da Língua Portuguesa, a qual os políticos (não, os linguistas) brasileiros escolheram para o Brasil, não podemos aceitá-la como nossa, porque além de não ser nossa, retira Portugal do seu contexto Europeu, uma vez que a Língua de um Povo é a sua identidade, e nós não somos Brasileiros, e quem não quer perceber isto, só pode estar imbuído de muita má-fé.

 

Nesse artigo de fundo, O DIABO começa por dizer o seguinte:

 

«O projecto, nascido da cabeça do intelectual esquerdista brasileiro Antônio Houaiss, foi desde o início um empreendimento com fins lucrativos, apoiado por uma poderosa máquina política e comercial com ramificações em Portugal.

 

A ideia, é certo, nasceu na cabeça de um académico esquerdista, o brasileiro Antônio Houaiss, que contou em Portugal com o providencial auxílio do linguista Malaca Casteleiro. Viajemos, então, no tempo e procuremos a génese de todo o processo, que nas últimas três décadas tem enchido os bolsos a um grupo restrito de autores e editores.

 

O português mais distraído talvez pense que um colégio de sábios bons e eminentes terá decidido um dia, após longos anos de estudo e investigação, proceder à reforma do sistema ortográfico da Língua Portuguesae que os governos dos países lusófonos, tendo-se debruçado sobre o assunto com o auxílio ponderado de gramáticos e lexicógrafos, terão conscienciosamente aprovado essa tão bem preparada reforma. Mas o português distraído estaria redondamente enganado.

(…)

Segundo o testemunho do escritor português Ernesto Rodrigues, professor da Faculdade de Letras de Lisboa, publicado no seu ‘blog’ na Internet, “Antônio Houaiss e Malaca Casteleiro dinamizavam, desde 1986, um projecto de acordo ortográfico”. Este fora sugerido, em primeiro lugar, no ano anterior, por Houaiss, que até aí fizera carreira como autor de versões brasileiras de dicionários enciclopédicos e dirigira, havia pouco, um “Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa” (1981).

(…)

Em 1985, Antônio Houaiss era apenas um intelectual de esquerda com uma ambição: compor um dicionário da Língua Portuguesa que ombreasse com o famoso “Dicionário Aurélio”, da autoria de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, que desde a sua primeira edição, em 1975, já vendera até então mais de um milhão de exemplares. Mas Houaiss confrontava-se com uma “pequena” dificuldade técnica: para ultrapassar as marcas de Aurélio, o seu dicionário teria de galgar as fronteiras do Brasil e impor-se em todo o mundo lusófono como obra de referência. E para tanto era preciso “unificar a Língua”…

 

Esta é a verdadeira história da criação do AO90.

 

O artigo completo, onde se conta toda a negociata e fraude do AO90, investigadas pel’ O DIABO pode ser consultado neste link:

http://jornaldiabo.com/cultura/acordo-ortografico-negocio/

 

***

Vamos agora à dita “variante europeia” do Português:

 

Ouço muito por aí falar no Português de Portugal (que é, de facto e de direito, de Portugal, pois foi Portugal que lhe deu o nome e a forma) como variante europeia do Português. Só que, uma linguagem, que ascendeu a Língua, jamais poderá ser variante, se é a genetriz das variantes que por aí vão surgindo! Isto é como dizer que a Mãe da Isabel descende da Isabel, quando é a Isabel que descende da Mãe dela.

 

A Língua Portuguesa é O Idioma. O que se fala e escreve nos outros países, ditos lusófonos, é que são as VARIANTES da Língua Portuguesa. A Língua Portuguesa, se tem de ser chamada de “variante” que seja Variante Portuguesa do Latim, que é a genetriz das Línguas Românicas, na qual o Português se inclui. Mas essa variante já ascendeu a Língua, como a Variante Brasileira ascenderá, muito brevemente. 

 

Porque a palavra VARIANTE (o mesmo que dialecto  - há quem não goste que se diga isto, mas procurem nos dicionários e vejam o significado de variante e de dialecto) linguisticamente falando, significa uma DERIVAÇÃO que uma determinada comunidade ou povo criou a partir de um determinado Idioma, na pronúncia, na grafia, no léxico, na sintaxe, na morfologia, na semântica, afastando-se da raiz desse Idioma. Que foi o caso do Brasil, ou de Cabo Verde, com o seu Crioulo Cabo-verdiano, hoje língua oficial de Cabo Verde, ou de alguns ex-territórios portugueses da Ásia. E não cito os restantes países de expressão portuguesa, porque esses não desvirtuaram a Língua, apenas a enriqueceram com um léxico local e nacional.


Como é que a Língua Portuguesa é uma VARIANTE, se ela é a GENETRIZ de todas as variantes que se criaram a partir dela?

   

Não há meio de entenderem isto? Isto ofenderá o Brasil? Isto terá alguma coisa a ver com xenofobia e racismo, de que às vezes me acusam? Os que assim agem, desconhecem, por completo, o significado de variante, de racismo, de xenofobia.

 

Desconhecem igualmente o que passa no Brasil, onde um aluno português, ou inglês ou de qualquer outra nacionalidade, tem de aprender a escrever e a falar à brasileira, para poder estudar e ter boas notas nas escolas. E eu penso que essa exigência deve ser feita, de outro modo, numa turma onde estivessem várias nacionalidades, falar e escrever seria uma balbúrdia. Em Roma sê romano. É o que todos fazem, quando assentam arraiais em terras estrangeiras.

 

Surpreende-me ouvir falar da variante europeia da Língua Portuguesa, quando a Língua Portuguesa é simplesmente A Língua Portuguesa, a Língua que foi gerada em PORTUGAL, a Língua que identifica Portugal, que é um país europeu, que deu novos mundos ao mundo, e andou por aí a espalhar a sua Língua, a sua Cultura. Porque é que isto incomoda certos senhores?



Surpreende-me também que se recusem a LER, a investigar, a raciocinar, apenas porque têm medo de que lhes chamem xenófobos,  outra palavra mal aplicada neste contexto.

 

O que aqui está em causa não é o Brasil, nem os Brasileiros, nem a Variante Brasileira da Língua Portuguesa, nem o pseudo anti-brasileirismo, porque o anti-brasileirismo não existe. O que existe é um sentimento de preservação da NOSSA Cultura, que é riquíssima, tão rica como a dos Brasileiros.  

 

O que não há necessidade é de se FUNDIR as duas Culturas, porque são duas entidades diferentes, e que assim continuem, para que a riqueza de ambas perdure ad aeternum.

 

O que aqui está em causa é uma negociata idealizada pelo brasileiro Antônio Houaiss, que chamou à liça o linguista português,  Malaca Casteleiro,  que,   muito finoriamente (que Deus o tenha em descanso) lá conseguiu convencer os desinformados e complexados e subservientes políticos portugueses, tanto do PS (não esquecer que tudo começou com Mário Soares, depois José Sócrates, António Costa, Augusto Santos Silva) como do PSD (Aníbal Cavaco Silva, Santana Lopes, Marcelo Rebelo de Sousa) tão desinformados e complexados como os políticos marxistas brasileiros, entre eles Lula da Silva.

 

Talvez por vingança, ferido no seu brio, pelo insucesso do Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, editado pela Academia das Ciências de Lisboa, que lhe mereceu muitas críticas, ou por outro motivo qualquer, João Malaca Casteleiro passou de linguista a negociante da Língua, conseguindo passar a mensagem de que este era um bom “negócio”.

 

Mas não foi. No Brasil ninguém lê autores portugueses, a não ser, obviamente, uma elite intelectual muito restrita; a Língua Portuguesa já não é ensinada nas escolas, substituíram-na por “Comunicação e Expressão”, que é para o que serve agora; o Grupo LEYA, com o fito de ganhar milhões, implantou-se no Brasil, mas já de lá saiu. Em Portugal, ninguém lê autores brasileiros, e nem sequer estão à venda nas Feiras dos Livros.

 

Há um muito insalubre virar-de-costas entre Brasil e Portugal, que o AO90 só veio agravar.

 

O que está aqui em causa é a ditadura do Acordo Ortográfico de 1990, imposta aos Portugueses pelos políticos, sem os consultarem, não tendo sequer em conta a opinião dos linguistas portugueses (por onde andarão eles? Emigrariam?) Não queremos o AO90, não serve os interesses dos Portugueses. Aliás, não serve os interesses de nenhum país da CPLP. Apenas serve os interesses dos poucos que encheram os bolsos à custa desta obscura negociata.

 

O caos ortográfico continua, cada vez mais agravado. O pacto de silêncio, por parte dos actuais predadores-mor da Língua (SS, PM, PR) continua. E na campanha eleitoral, em curso, ninguém aborda este gravíssimo problema nacional. Temos aí um novo ano escolar, com manuais cheios de erros ortográficos. As crianças continuarão a escrever e a ler incorrectamente, os pais não dizem nada, e resta um punhado de desacordistas a tentar salvar a Língua Portuguesa, em cima de um pedaço de madeira, em alto mar revoltoso. E isto é uma tarefa hercúlea. Mas havemos de conseguir matar o monstro.

 

E é assim que Portugal está orgulhosa e parvamente só, na aplicação de um “acordo” essencialmente político, tão político que está nas mãos do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto S. S. pôr ou não pôr fim a esta vergonhosa subserviência. Um dia, ele disse (está publicado algures): «Se eu quisesse acabava com o AO90. Mas não quero». Pois não quer. É muito cioso das obrigações que tem para com os estrangeiros, em detrimento das obrigações que tem para com os Portugueses e para com Portugal.  Querem atitude mais ditatorial do que esta? Isto não dirá tudo deste (des)acordo?


Penso que seria da racionalidade que, os que andam por aí sempre a criticar quem LUTA contra o AO90, apresentando actos e factos, deixassem o que não interessa, e se fixassem no fundamental:  exigir e obrigar o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, o primeiro-ministro António Costa e o ministro dos Negócios DOS Estanheiros, Augusto Santos Silva, que têm como aliados e cúmplices os professores, a libertarem a Língua Portuguesa, que está perversamente agrilhoada ao mostrengo AO90.


Isabel A. Ferreira

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:48

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Quinta-feira, 10 de Junho de 2021

Hoje celebrarei, a três tempos, o Dia de Portugal, de Camões, das Comunidades Portuguesas e da Língua Portuguesa…

 

Tempo Primeiro:

 

Camões 1.jpg

 

Celebro o Dia de Portugal e das Comunidades Portuguesas orgulhando-me de ser portuguesa, orgulhando-me da sua História, da sua Cultura Culta (porque anda por aí uma cultura inculta a tentar impor-se, sob as asas de políticos pouco escrupulosos, de quem não tenho orgulho algum), e de todos os Autores Portugueses que souberam honrar a Língua Portuguesa, desde Dom Dinis até aos nossos dias.

 

Portugal é um país territorialmente pequeno, mas com uma alma grande, que gente ignara, d’aquém e d’além-mar, amesquinha insidiosamente, sem o mínimo Saber.

 

Contudo, um Povo [que se preze] deve celebrar os valores do seu País mais do que gritar ao mundo as suas desvirtudes. Estas devem ser redimidas na intimidade da sua auto-estima.

 

E porque tudo vale a pena se a alma não é pequena (citando Fernando Pessoa), este é o meu contributo no sentido de resgatar o bom-nome de Portugal [que anda por aí tão vilipendiado, na boca de quem não conhece as palavras].

 

Todos os povos têm virtudes e defeitos. Portugal não foge à regra. Contudo, o maior defeito do Povo Português é o de não acreditar nas suas virtudes, [aceitar ser governado por políticos estultos] e encolher-se perante os juízos menores que dele fazem os que desconhecem a grandeza do seu percurso histórico, e de como sempre conseguiu manter-se na corda bamba, sem nunca perder plenamente o equilíbrio.

 

E isso não é coisa pouca!

[Mas esses foram outros tempos, tempos em que a HONRA fazia Lei].

 

(O texto em itálico foi retirado da nota introdutória do meu livro «Dom João VI – Como um Príncipe Valente Enganou Napoleão e Salvou o Reino de Portugal e o Brasil», que pode ser consultado neste link:

https://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/contestacao-ao-livro-1808-de-laurentino-729191

 

***

 

Tempo segundo:

 

Fernando Campos.jpg

Fernando Campos (Foto: Portal da Literatura)

 

É através do escritor Fernando Campos que celebrarei todos os Autores Portugueses, desde os clássicos, aos hodiernos, que souberam honrar Portugal, honrando a Língua Portuguesa, o nosso mais nobre   Património Cultural Imaterial, o único que nos identifica como Povo soberano.

 

Fernando Campos é um dos mais extraordinários autores portugueses, da minha predilecção. Ficcionista, cronista e investigador, Fernando da Silva Campos nasceu em 23 de Abril de 1924, em Águas Santas, no concelho da Maia (Porto), e faleceu em Lisboa, em 01 de Abril de 2017. A sua prosa é cristalina. É perfeita. É ímpar. Ler Fernando Campos é esquecer a realidade e entrar no mundo fabuloso das suas palavras e dos seus enredos.

 

De Fernando Campos, neste momento, estou a reler «A Rocha Branca», cujo âmbito cronológico da acção vai dos finais do século VII a. C. à primeira metade do século VI a. C., e no qual a poetisa Safo de Lesbos é a personagem principal. Um livro que recomendo não só pela sua beleza de escrita, como pela riqueza do conteúdo histórico.

 

Entretanto, seguindo a minha releitura, na página 47, deparei-me com o discurso de Pítaco, rei de Mitilene, que provocou o exílio de Safo, a conspiradora.

 

E não sei porquê (talvez os meus leitores possam dizer-me), encontrei neste discurso algo que me trouxe aos tempos de hoje. E pensei: o que mudou em todos estes séculos? Este discurso pode ser proferido por qualquer um dos nossos actuais governantes, ou pretendentes a sê-lo, ou poderia tê-lo dito António Oliveira Salazar.

 

Ontem, como hoje, tirania ou democracia? Eis o grande dilema, que me proponho reflectir com os meus leitores:

 

«(...)

Um dia Pítaco convoca os cidadãos para a ágora. (...) Ele avança três passos no patamar até à beira da escadaria, levanta a mão e fala:

 

– Cidadãos de Mitilene! A nossa liberdade está em perigo. Um grupo de conspiradores ousou urdir na sombra a morte do vosso rei e a perda da cidade. Vejo-me constrangido a expulsar de Lesbos todo esse bando de perigosos malfeitores. Alcei-me ditador para que não mais haja nesta terra ditadura. Não renegaremos os deuses, velaremos pela salvação da pátria e pela segurança de todos vós. É na tirania que se funda a verdadeira democracia. De que serve a soma de opiniões dos homens cultos, se, numa assembleia, as suas ideias divergem, tal como na taberna se entrechocam as dos ignorantes no calor do vinho e das paixões? Sim, dir-me-eis, é preciso educar o povo. É verdade. Mas, quando toda a gente possuir o dom da sabedoria, todos continuarão a opinar diversamente e a democracia corre o risco de ser sinónimo de anarquia...

 

Só sereis felizes se fordes governados por um rei absoluto. A causa de todos os males está na democracia, no governo da maioria. Quando o poder está na mão de um tirano, ele sabe que tem de satisfazer a muitos. Se muitos governam, não pensam senão em satisfazer-se a si próprios e surge então a mais hipócrita das tiranias, a tirania rebuçada de liberdade. Para obviar a esse perigo, cumpre pôr ordem nos tribunais, nas assembleias do povo, no exército, nas ruas, disciplina nas escolas, estabelecer normas de convivência. Criarei uma guarda pessoal que vigilará pela minha e vossa integridade, que o mesmo é dizer pela integridade do estado. Serão homens especialmente treinados. Ninguém conhecerá os seus rostos nem os seus nomes. Estarão em todo o lado, secretos, invisíveis, atentos e zelosos. Serão os meus olhos e ouvidos. Ide em paz. Sois livres de nada conceber e atentar contra o vosso rei e a vossa pátria...

 

- …se não… - rosna Antiménides no meio da multidão.»

 

in «A Rocha Branca», Fernando Campos (Editora Objectiva) – 1ª edição Outubro 2011

 

Obra literária de Fernando Campos, que recomendo vivamente:

 

A Casa do Pó (Prémio Literário Município de Lisboa) – (1986); Psiché – (1987); O Homem da Máquina de Escrever – (1987); O Pesadelo de dEus - (1990); A Esmeralda Partida (Prémio Eça de Queiroz da Câmara Municipal de Lisboa) - (1995); A Sala das Perguntas - (1998); Viagem ao Ponto de Fuga - (1999); A Ponte dos Suspiros - (2000); ...que o meu pé prende... - (2001); O Prisioneiro da Torre Velha - (2003); O Cavaleiro da Águia - (2005); O Lago Azul - (2007); A Loja das Duas Esquinas - (2009); A Rocha Branca - (2011); Ravengar - (2012)

 

***

 

Tempo Terceiro:

 

Luto pela Língua.png

 

Neste dia de celebração de Portugal, de Camões (o maior de todos os nossos Poetas, o qual cantou os feitos gloriosos dos Portugueses, imortalizando-os na sua genial obra «Os Lusíadas»), das Comunidades Portuguesas, mas também da nossa Língua Portuguesa, não podia deixar passar em branco o facto de o Povo Português estar de luto por ela, e ao mesmo tempo, existir tanta gente a lutar pela sua sobrevivência, entre o caos em que, entretanto, a lançaram.

 

Eu estou de luto pela nossa Língua, tão bela e quase morta! O que fizeram dela? O que fizeram com ela? Em nome de quê? Porquê? Nasceu nobre e europeia, num jardim antigo, à beira-mar plantado, e foi lapidada, como um diamante, por um saber profundo.

 

Foi levada por ventos e marés a todos os cantos do mundo. E em cada canto nasceu um novo falar, uma nova escrita. E de uma se fez muitas.

 

Espalhou-se pelo mundo, sem nunca deixar, contudo, de ser a Matriarca [de mater (Latim) + árkho (Grego) – as suas raízes], aquela que lidera, por ser a mais antiga, entre todas as outras que nasceram dela.

 

Porém, entretanto, vieram uns invasores estéreis, e feriram-na de morte, sem dó, nem piedade, nem sabedoria, e agora, agonizante, o nosso belo diamante aguarda um antídoto que possa devolvê-lo à vida e à beleza de antanho.

 

Daí que eu esteja de luto, mas, ao mesmo tempo, luto com todas as garras de fora para que esses invasores sejam escorraçados e vencidos, como tantos outros, ao longo da nossa História, já foram, e a Língua Portuguesa possa, então, renascer das cinzas, tal a bela Phoenix que sempre foi.

 

Ainda nos resta a esperança que, tal como a ave mítica, ainda que possa morrer queimada, renascerá sempre das próprias cinzas, se assim o desejarmos.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 09:58

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Sábado, 20 de Fevereiro de 2021

Amanhã, o mundo comemora o Dia Internacional da Língua Materna, mas as crianças portuguesas não terão Língua Materna para comemorar, porque a nossa Língua perdeu a sua qualidade de genetriz e já não nos representa

 

O dia 21 de Fevereiro foi declarado o Dia Internacional da Língua Materna pela UNESCO, em 1999.

 

Para quê?

 

Para promover a consciencialização sobre a diversidade linguística e cultural, e o multilinguismo, algo que o AO90 veio esbandalhar.

 

Medíocres no Poder.PNG

 

E porquê Portugal está fora desta comemoração?

 

Simplesmente porque já não tem Língua Materna para comemorar.

 

E porquê não tem Língua Materna para comemorar?

 

Porque um punhado de políticos ignorantes vendeu a Língua Materna dos Portugueses - a Língua Portuguesa - ao Brasil, abrasileirando-a, amixordizando-a, descaracterizando-a, afastando-a da sua família indo-europeia, e a nossa Língua Materna, que identificava o Povo Português, foi simplesmente desprezada, espezinhada, truncada, trocada por uma Variante dela própria.

 

O que se fala e escreve hoje em Portugal, se bem que ainda haja milhares de Portugueses que resistem, já não é a Língua Materna dos Portugueses, mas uma mixórdia inominável, porque nem nome tem, uma vez que nem é português nem brasileiro. É uma mistura empobrecida das duas versões ortográficas, que se estende também à oralidade, à qual, de modo algum, podemos chamar Língua Materna, porque nenhum Português, excePto os mercenários da Língua, que querem acabar (ainda não acabaram) com o NOSSO Português, se revê na mixórdia ortográfica promovida por gente medíocre, da mais medíocre que já tivemos, e que, cegamente, os servilistas reptilianos seguem.

 

A linguagem não é apenas uma ferramenta de comunicação, mas também parte da nossa identidade e cultura. E para que cada país possa manter as próprias identidade e cultura, os governos devem garantir que as populações possam aprender e comunicar-se com eficácia nas suas Línguas Maternas.


E o que estão a fazer com as nossas crianças é um crime de lesa-infância.

 

Tenológicas.png

 

E que língua é esta que anda por aí, truncada, apartada das suas raízes?

 

Quem poderá dizer, em consciência, que o que vemos, nesta imagem vergonhosa, corresponde à Língua Materna dos Portugueses?

 

E não me venham dizer que “tenológicas” é um lapso. Porque não é.

 

A propósito desta imagem, uma anti-acordista tal como eu, autora da publicação, disse o seguinte, na sua página do Facebook:

 

Ora descubram lá os erros!
Há pouco, na RTP1.
No caso do primeiro (não, não é a primeira vez!), certamente excesso de zelo no seguimento cego da aberração, escandalosamente chamada de "acordo" e de "ortográfico".
Haja vergonha e lute-se pela destruição completa desta praga!!!
É que já há muito que não há paciência
.
 Elisabeth Henriques

 

Fonte: https://www.facebook.com/photo?fbid=10215180172857791&set=a.3193025044660

 

A regra nº 1 dos acordistas é: o que não se lê (mas também o que se lê) não se escreve. Então corta-se a torto e a direito, demasiadas vezes, todos os cês e pês que lhes aparecem à frente, e isto já não é lapso, é lei. Qual lapso, qual carapuça!

E a palavra “objetivo” que se lê “ôb’j’tivunão faz parte do léxico da nossa Língua Materna, de matriz greco-latina. “Objetivo” não tem história, não tem raiz, não tem sentido.



ObjeCtivo, sim, tem história, tem raiz, tem sentido. Vem to Latim objectus.

 

Todas as coisas têm uma história. As Línguas têm uma história. Não podemos pegar nas palavras e desconjuntá-las, para facilitar a sua escrita. Assim como não podemos pegar numa pessoa de dois metros de altura e desmembrá-la, para que possa caber numa cama de metro e meio.


A propósito de Línguas Maternas, no mundo, aconselho a leitura deste interessante  texto, que se encontra neste link:

https://www.elcastellano.org/news/opini%C3%B3n-las-lenguas-originarias-de-%C3%A1frica-frente-las-lenguas-coloniales

e que, a propósito do 21 de Fevereiro, aborda As Línguas originárias de África frente às Línguas coloniais, em que o autor, Harrison Mwilima, diz o seguinte:

 

Até agora, mais de sessenta anos após a independência da primeira nação africana, os nossos países ainda se definem de acordo com as suas antigas línguas coloniais: são chamados de nações anglófonas, francófonas ou lusófonas. Espero um dia ver uma África afrofônica que utilize eficazmente a sua riqueza e diversidade de Línguas.  

 

Este é o sonho de qualquer pessoa que tenha os seus neurónios a funcionar: que cada país utilize eficazmente a própria Língua, porque na diversidade é que está a riqueza das Línguas. Não numa tentativa frustrada de unificar uma Língua com a sua Variante.

 

Destruir a Língua Portuguesa para a (des)igualar à variante de uma ex-colónia, é de mentes pequeninas, complexadas e desprovidas de um pingo de lucidez.



Amanhã, Dia Internacional da Língua Materna, as crianças portuguesas não terão Língua Materna para comemorar.

 

E isto é muito, muito, muito triste! 

 

Isabel A. Ferreira

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:04

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Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2021

A propósito da “minirreforma” ortográfica (AO90): «A Última Flor do Lácio vai ficar inculta e feia...» diz o escritor brasileiro, Valério Mesquita

 

Para quem não sabe, chamo à liça o soneto “Língua Portuguesa”, do poeta brasileiro Olavo Bilac (1865-1918) que, no primeiro verso, escreve «Última flor do Lácio, inculta e bela» referindo-se   ao idioma Português, a última língua derivada do Latim Vulgar falado no Lácio (Lazio, em Italiano, Latium, em Latim) uma região situada no centro da Itália, na costa do Mar Tirreno, sendo Roma a sua principal cidade.

 

No Brasil, Flor do Lácio passou a ser uma expressão que designa a Língua Portuguesa. O termo "inculta", usado pelo poeta, refere-se ao Latim Vulgar falado por soldados, camponeses e camadas populares, aquele que deu origem à nossa Língua. O Latim Vulgar era diferente do Latim Clássico, utilizado pelas classes mais altas. Para Olavo Bilac, a Língua Portuguesa continuava a ser "bela", ainda que originária do Latim Vulgar.

 

Posto isto, fiquemos com o texto de escritor Valério Mesquita.

 

Isabel A. Ferreira

 

VALÉRIO-MESQUITA-1-288x300-4.jpg

 Por Valério Mesquita

10/02/2021

 

CATARSE VERNACULAR

 

«Completei setenta e oito anos e não pretendo jogar fora os meus livros por causa da despropositada reforma ortográfica. Ela me parece altamente predadora, levando ao prejuízo milhares de bibliotecas públicas e privadas dos países de língua portuguesa. Novos acentos, tremas e hífens nos são impostos, sem necessidade. Para unificar o idioma português? Que tipo de parceria ou dependência cultural liga o Brasil aos países de língua lusitana, à exceção apenas de Portugal, onde tal reforma foi também amplamente criticada. Hoje, os poetas, contistas, ensaístas, historiadores, economistas, professores, juristas, escritores, enfim, os que escreveram milhares de compêndios como se sentirão diante dela ante a obrigação de abandonar seus autores preferidos para consultas e releituras?

 

Sejam bem-vindos ao alfabeto e à escrita o K, o W e o Y. Era hipocrisia não inseri-los no contexto. Mas, o problema educacional dos povos de língua e linhagem camoniana não reside na ortografia. E sim na fome, no desemprego, na violência, na corrupção, nas diferenças sociais e raciais. As nações que falam o português lidam com o subdesenvolvimento econômico. Portugal, ainda se salva, porque integra a comunidade europeia. Contudo, dela ainda é o primo pobre. Quanto ao Brasil, de todas as carências que já ouvi falar, ao longo do tempo, nunca soube que o gargalo estava na ortografia. No vernáculo de palmo e meio dos muitos políticos pode até ser verdade. As academias brasileiras de letras, habitadas majoritariamente de sexagenários a octogenários, todos iniciarão, em breve, o lento e fatigante retorno às aulas para a competente reciclagem.

 

Será que o mesmo acontece nas ortografias do alemão, do francês, do inglês, do espanhol ou do italiano, só para ficar por aqui? Ou o que ocorre com os compatrícios são frutos das estações, das safras e entressafras (tem hífen?). Será que a língua portuguesa, tão antiga, ainda não atingiu a plenitude como ciência? A tal ponto que a gramática viva precisando de reparos, como se tudo aquilo escrito e publicado, anteriormente, esteja errado?

 

Por isso, entendo inócua e pífia, essa minirreforma ortográfica na escrita do já tão difícil idioma pátrio. Foi no governo de Luiz Inácio. O então presidente, que não escreve porra nenhuma, não estava nem aí! Jamais cometerá erros ortográficos. Os seus tropeços acontecem exclusivamente na oralidade. O melhor, é que o povo gosta. E também não vai dar a mínima para acento, trema e hífen [únicas alterações que os Brasileiros tiveram de fazer na grafia brasileira, com o AO90].

 

Acima do efeito purificador ou purgador do vernáculo, a minirreforma ortográfica parece mais uma trama bem urdida para faturamentos imediatos. A Última Flor do Lácio vai ficar inculta e feia...»

 

Fonte:

https://www.potiguarnoticias.com.br/colunas/post/3860/catarse-vernacular

 

***

Soneto "Língua Portuguesa"

de Olavo Bilac

 

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:12

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Domingo, 7 de Fevereiro de 2021

Sabiam que o filme português “Snu”, da realizadora portuguesa Patrícia Sequeira, é baseado em “fatos” reais?

 

Sou cinéfila desde que me conheço. Gosto de ver (bons) filmes principalmente aos fins-de-semana. Para tal vou gravando os que mais me interessam, dos poucos que vão aparecendo. E este fim-de-semana vi três filmes, dos quais tenho muito que contar.

 

Começo pelo filme Snu (de 2019) - a história de amor de Francisco Sá-Carneiro e Snu Abecassis, uma boa história, muito bem contada.

 

Devo dizer que gostei bastante do filme. Boas interpretações de Inês Castel-Branco (Snu) e Pedro Almendra (Sá-Carneiro), mas também do restante elenco, com especial destaque para Ana Nave, fabulosa, na pele de Natália Correia, e para Joana Brandão, na fugaz cena como Manuela (Ramalho) Eanes. Adorei. Gostei da música, gostei do guarda-roupa, da fotografia, da história, enfim, um bom filme, que recomendo.

 

Como gosto de saber tudo sobre os filmes que vejo, leio sempre a ficha técnica (desde que a mostrem, o que nem sempre acontece). E estava eu muito contente, porque entre a pobreza fílmica com que a TVCine costuma brindar-nos, encontrei o “Snu”,  e quando estava quase a chegar ao fim do genérico, leio que o filme é baseado em fatos reais.

 

Fiquei verde.

 

Para mim, e para qualquer português que tenha estudado Português, um fato real é o que vemos na imagem: fatos de princesas, de príncipes, de reis de rainhas…

 

Fatos reais.jpg

 

Sendo Snu um filme português, realizado por uma portuguesa, e produzido pela SkyDreams, cuja equipa é portuguesa, e patrocinado pela RTP, aqueles “fatos reais” representaram um murro no estômago, e soaram-me a ignorância.

 

Se fosse possível, a SkyDreams deveria corrigir imediatamente este grave e feio erro, porque de um grave e feio erro se trata.

 

Grave e feio erro porquê?

 

Porque, em Portugal, FATO (vocábulo originário talvez do gótico fat) é um nome masculino que significa vestuário, conjunto de peças de roupa, traje completo masculino composto de casaco, colete e calças ou apenas de caso e calças, ou traje feminino formado por saia e casaco, tudo geralmente do mesmo tecido.

 

Mas também noutro registo, FATO pode ser um rebanho, nomeadamente de cabras, intestinos, vísceras de gado, bando, quadrilha, móveis e haveres.

 

Nada que tenha a ver com o filme Snu. Ainda se o guarda-roupa do filme estivesse ligado a trajes usados pela realeza!!! Mesmo assim, seria descabido.

 

***

 

Agora vamos aos verdadeiros faCtos, em que o Snu deveria ter-se baseado, e não se baseou.

 

FaCto é um nome masculino oriundo do Latim factum, que significa aquilo que se fez, façanha, acontecimento, proeza, aCto, feito, coisa realizada…

 

Posto isto, em Portugal, é verdade que há quem troque os bês pelos vês, e há também quem troque os faCtos por fatos, apenas porque os Brasileiros, em 1943, decidiram, muito erradamente, suprimir as consoantes que ELES não pronunciavam, num infinito número de vocábulos (com o objectivo de simplificarem a escrita, para diminuírem o índice elevado de analfabetismo) entre eles, faCto, juntando a isto o faCto de ELES, os Brasileiros, usarem ternos (do Latim ternus = “três” = conjunto de três pessoas ou de três objectos semelhantes = trio; carta de jogar ou dado com três pintas) e que no Brasil, e apenas no Brasil é um traje masculino composto por casaco, calças e colete do mesmo tecido, que tem correspondência no FATO português, angolano, moçambicano, guineense, são-tomense, cabo-verdiano e timorense.

 

Daí que, eles, os Brasileiros,  não pronunciando o de faCto, e usando ternos em vez de fatos, FATO, embora erradamente, para os Brasileiros, e apenas para os Brasileiros,  significa aquilo que se fez, façanha, acontecimento, proeza, aCto, feito, coisa realizada…

Para os Portugueses, terno, do Latim tener, significa tenro, mole, delicado, suave, brando, que mostra afecto ou carinho, sensível… Mas também conjunto de três pessoas ou de três objectos semelhantes = trio; carta de jogar ou dado com três pintas, se nos ativermos a “ternus” (três). Nunca referente a vestuário.

 

Ora chegados aqui, porque haveremos nós, Portugueses, de trocar os faCtos (até porque pronunciamos o ) pelos fatos brasileiros, unicamente brasileiros, a não ser por uma profunda ignorância da Língua Portuguesa?

 

E atenção! Os Brasileiros são livres de fazer o que bem entendem com a VARIANTE brasileira do Português, porque a VARIANTE é deles. Só não podem pretender que os restantes países lusófonos comecem a aplicá-la, porque eles são milhões, e os restantes são milhares, número, no entanto suficiente, para garantir o futuro da Língua Portuguesa, no mundo, sem a obsessão mórbida de querermos que o nosso Português seja, à força, uma das Línguas mais faladas neste mundo.

O facto é: os Portugueses NÃO TÊM de imitar os Brasileiros, até porque eles, apesar de dizerem que a Língua oficial deles é a Portuguesa, distanciaram-se tão substancialmente de tudo o que puderam distanciar-se no que ao léxico português diz respeito, que construíram uma outra Língua: a deles. E sobre isto, nada contra.



Só para se ter uma ideia, aqui fica uma amostrinha do que eles dizem e nós não dizemos:

 

Virada do ano; coalizão/coalização; campesinos, apoiadores; festejos natalinos; cargos de vereança; ônibus; trem; bilhão; caminhão; latição; deletar; xampu; celular; bala (rebuçado); bonde; carro conversível (descapotado); prefeitura/prefeito; bunda; calcinha; história em quadradinhos (banda desenhada); ponto de ônibus; açougueiro; banheiro (quarto-de-banho); comissária de bordo; aluguel; registro; geladeira; grampeador; suco, e um sem-número de outros vocábulos mais.

 

Pretende-se que escrevamos setor, diretor, ator, objeto, arquiteto, teto porquê? Se nunca diríamos: os apoiadores do prefeito, não querem ver nos cargos de vereança gente que fizesse uma coalização com os campesinos, e por isso foram protestar, nos seus carros conversíveis, para a porta da prefeitura?

 

***


Vi também um outro filme, cujo título em Inglês é «Woman IN Gold» (de Simon Curtis – 2015, protagonizado por Helen Mirren), e que os “tradutores” (?) da TVCine traduziram (MAL), para «A Mulher DE Ouro» e os brasileiros, também MAL, para: «A dama dourada», o que desvirtua o «Retrato de Adele Bloch-Bauer», «The woman IN gold» ou “The lady IN gold», pintura a óleo e folhas de ouro, do pintor simbolista austríaco Gustav Klimt. Adele nem é de ouro, nem é dourada. Adele é de carne e osso, mas está em ouro, está entre o ouro, está cercada de outro, conforme pode ser visualizada na imagem.

 

Gustav Klimt.png

 

O filme é óptimo. Com interpretações fabulosas. Uma história incrível. Porém, a tradução do título e a legendagem são péssimas.

 

Quando regressaremos às legendagens com qualidade? 

 

Por falar em legendagens com qualidade, vi também o filme «Marie Antoinette», um drama histórico escrito e dirigido por Sofia Coppola, com a actriz Kirsten Dunst, no papel de Marie Antoinette.

 

Como o filme é de 2006, um tempo em que a Língua Portuguesa ainda era a Língua Portuguesa, e as traduções e legendagens dos filmes estavam entregues a pessoas qualificadas para tal, não tive de me enervar, ao ver que as falas do filme correspondiam às palavras das legendas, escritas em Bom Português.

 

Não sei quem tutela as coisas da nossa Língua. Talvez os Ministros da Cultura ou da Educação ou do Ensino tivessem uma palavra a dizer. Contudo, actualmente, não temos quem nos valha nesta questão, pois todos os nossos Ministros e até o presidente da República e os deputados da Nação (salvo raras excepções) deixaram-se deslumbrar com os milhões, e adoptaram a variante brasileira, não tendo a noção de que a variante brasileira da nossa Língua não nos representa, nem a nós, nem aos países africanos de expressão portuguesa.

 

A Língua Portuguesa está a esfarrapar-se a uma velocidade alucinante!

 

E isto é bastamente desprestigiante para Portugal.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:12

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Sábado, 19 de Setembro de 2020

«Enquanto presidente da Academia Angolana de Letras, Paulo de Carvalho diz subscrever “inteiramente” a não ratificação, por Angola, do Acordo Ortográfico de 1990»

 

Portugal cada vez mais isolado na sua vocação servilista.

Portugal: vergonhosamente só, com a sua mixórdia ortográfica!

 

Portugal e Brasil arvoraram-se em “donos” da Língua Portuguesa, e engendraram o AO90, esquecendo-se de que os Africanos, de expressão portuguesa, falavam e escreviam um Português, que não foi adulterado, como no Brasil, onde políticos esquerdistas, pelo facto de serem milhões (mas não só) entenderam que deviam impor aos restantes países da dita lusofonia, a VARIANTE BRASILEIRA da Língua Portuguesa. E apenas Portugal, muito servilmente, se vergou a esta pretensão.

 

Os Cabo-verdianos já oficializaram a VARIANTE CABO–VERDIANA (o Crioulo Cabo-verdiano) da Língua Portuguesa.

 

Por que não Angola ter também a sua própria VARIANTE ANGOLANA da Língua Portuguesa?

 

Eis o que Paulo de Carvalho, Presidente da Academia Angolana de Letras, defende, no artigo que aqui se transcreve, publicado na Agência Angola Press

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Porque é um facto indesmentível que o Português, que os Portugueses espalharam pelo mundo, enriqueceu-se com os dialectos dos povos locais, e transformou-se num outro Português, que deve seguir o seu caminho, desatrelado da Língua-Mãe: a Língua Portuguesa. Não foi assim com o LATIM, que originou as Línguas Românicas, das quais o Português faz parte?


FORÇA ANGOLA!

 

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É isto, assim, tal e qual. De que andaram à espera os governantes portugueses, mais Marcelo Rebelo de Sousa, Chefe do Estado Português, que nada fizeram para preservar a Língua Portuguesa, em Portugal? Enquanto que em Angola é como diz Ondjaki:

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Paulo de Carvalho.jpg

Paulo de Carvalho, Presidente da Academia Angolana de Letras

 

«Angola: Académico defende português angolano»

16 Setembro de 2020 | 22h39 - Educação

 

Luanda - O presidente da Academia Angolana de Letras, Paulo de Carvalho, defende, em entrevista à ANGOP, que académicos e linguistas trabalhem para a adopção oficial de uma variante da língua portuguesa, em Angola, com base em regras devidamente definidas.

 

A este propósito, Paulo de Carvalho diz ser “absolutamente” recomendável considerar a sugestão de linguistas, sociólogos e antropólogos, no sentido de “legitimação” de um português angolano.

 

O igualmente sociólogo e professor catedrático, na Universidade Agostinho Neto, sublinha que “o que os linguistas e outros profissionais devem fazer é indicar as características dessa variante”.

 

“Qualquer língua possui regras, que devem ser seguidas no ensino e na comunicação social”, alerta Paulo de Carvalho, antes de chamar a atenção para o facto de que “uma coisa é a variante da língua portuguesa e, outra, falar mal o português”.

 

Em relação ao imperativo de se falar bem a língua portuguesa, Paulo de Carvalho defende a introdução de exames “obrigatórios” de português na transição do ensino básico para o secundário.

 

“A partir do momento em que o sistema prevê exames, então o português deve ser uma das disciplinas com obrigatoriedade de exame”, diz.

 

Para o entrevistado, a “grande maka” tem a ver é com os professores de português, que deveriam ser eles examinados anualmente, em primeiro lugar”.

 

Quanto à construção da variante da língua portuguesa de Angola, Paulo de Carvalho diz ser um processo que “demora” sempre algum tempo e que “exige” recursos.

 

“Trata-se de um processo moroso, que, felizmente, até já foi começado ao nível do Ministério da Educação. Era preciso pegar no que já foi feito, incluir investigadores de algumas áreas que não têm normalmente sido consideradas e elaborar um programa com acções concretas”, diz.

 

Enquanto presidente da Academia Angolana de Letras, Paulo de Carvalho diz subscrever “inteiramente” a não ratificação, por Angola, do Acordo Ortográfico de 1990.

 

“Enquanto se considerarem apenas as questões fundamentais que o Brasil e Portugal levantam, e se esquecerem as questões linguísticas fundamentais dos países africanos, não podemos ratificar esse acordo”, sublinhou.

 

Na sua opinião, os mitos da uni(ci)dade, da simplificação pedagógica e da parcimónia como a filosofia geral da estruturação do referido Acordo “teriam sustentabilidade” se tivessem considerado as “particularidades” dos países africanos e das línguas africanas, do mesmo modo que, no Brasil, foram consideradas as particularidades das línguas locais.

 

“Enquanto tivermos países subalternizados, sem se considerarem as particularidades das línguas que aí coexistem com o português, não vemos grande possibilidade de ratificação do acordo”, remata Paulo de Carvalho.»

 

Fonte:

http://m.portalangop.co.ao/angola/pt_pt/mobile/noticias/educacao/2020/8/38/Angola-Academico-defende-portugues-angolano,b907bf51-7c8b-49a0-82d4-30d02699faa7.html?version=mobile

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:37

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Quarta-feira, 16 de Setembro de 2020

A mais válida queixa, sobre o " desacordo ortográfico"...

 

Um texto que descobri no Blogue DEPROFUNDIS, da autoria de Fernando Vouga, o qual vem ao encontro do que, no meu Blogue, tenho andado a escrever e a publicar.

É que eu não invento nada. E a minha opinião até pode valer zero, mas o que escrevo é o eco dos amantes da Língua Portuguesa.

E não me venham dizer que sou a “chata de serviço", porque chatos são os que insistem em impingir-nos uma ortografia que não nos pertence. Esses é que são chatos, além de muuuuito ignorantes.

Isabel A. Ferreira

 

LÍNGUA.jpg

Origem da imagem:

https://amar-abrantes.blogs.sapo.pt/a-importancia-da-lingua-portuguesa-1381869

 

Por Fernando Vouga

 

«Aborto Ortográfico

Adaptado de um texto de autor desconhecido

 

Nossa Língua “perdeu” as suas origens (o Latim), não havendo justificação para a forma como agora querem escrever o “NOSSO” PORTUGUÊS.

 

EXPLIQUEM AGORA AOS ALUNOS COMO SE FORMARAM ESTAS NOVAS PALAVRAS!!!!!

A MAIS VÁLIDA QUEIXA, SOBRE O "DESACORDO" ORTOGRÁFICO...

 

"DESAcordo" Ortográfico (*)

 

O novo "Desacordo" ortográfico é mais uma prova da imbecilidade desta gente que governa Portugal nos últimos 3 decénios!

 

Nos nossos sete, oito e nove anos tínhamos que fazer aqueles malditos ditados que as professoras se orgulhavam de leccionar. A partir do terceiro erro de cada texto, tínhamos que aquecer as mãos para as dar à palmatória. E levávamos reguadas com erros destes: "ação", "ator", "fato", "tato", "fatura", "reação", etc., etc...

 

Com o novo acordo ortográfico, voltam a vencer-nos, pois nós é que temos que nos adaptar a eles e não ao contrário. Ridículo...

 

Mas, afinal de onde vem a origem das palavras da nossa Língua? Do Latim!!! E desta, derivam muitas outras línguas da Europa. Até no Inglês, a maior parte das palavras derivam do latim.

 

Então, vejam alguns exemplos:

 

Em Latim

Actor, factor, tacto, reactor, sector, protector, selectio, exacto, excepto, baptismus, excepcio, optimus,

 

Em Francês

Acteur, facteur, tact, réacteur, secteur, protecteur, sélection, exacte, excepté, baptême, exception, optimum,

 

Em Espanhol

Actor, factor, tacto, reactor, sector, protector, selección, exacto, excepto, (-), excepción, (-),

 

Em Inglês

Actor, factor, tact, reactor, sector, protector, selection, exact, except, baptism, exception, optimum,

 

Até em Alemão, reparem:

Akteur, faktor, takt, reaktor, sektor, protektor, (-)(-)(-)(-)(-)(-)

 

Velho Português (o que desleixámos)

Actor, factor, tacto, reactor, sector, protector, selecção, exacto, excepto, baptismo, excepção, óptimo,

 

Novo Português (importado do Brasil)

Ator, fator, tato, reator, setor, protetor, seleção, exato, exceto, batismo, exceção (sendo que no Brasil se escreve excePção), ótimo...

 

Conclusão: na maior parte dos casos, as consoantes mudas das palavras destas línguas europeias mantiveram-se tal como se escrevia originalmente.

 

Se a origem está na Velha Europa, porque é temos que imitar os do outro lado do Atlântico?

 

Mais um crime na Cultura Portuguesa e, desta vez, provocada pelos nossos intelectuais da Língua de Camões.

 

Ex.: Será que fui de fato à praia?

 

... Na tourada, estavam 2000 espetadores!

...etc., etc.

 

Porque se escreve Egito se os naturais desse país são Egípcios?

 

Ainda não percebi se com o novo Desacordo ortográfico os Polacos também passaram a ser Poloneses e os Canadianos agora são Canadenses, como se diz nas Terras de Vera Cruz …

 

Inovações sim, mas sem exageros e com coerência !!!

 

(*) Não existe qualquer acordo, mas sim a "Resolução do Conselho de Ministros" n.º8/2011.

 

Nenhum dos Países da CPLP subscreveu esta "Resolução" (nem a Guiné Equatorial...)

 

NOTA: quem "faz" a língua são os falantes e não os académicos ou os políticos. Por outro lado, a língua escrita está subordinada à falada e não o contrário.

 

De qualquer forma, à medida que a língua falada evolui, torna-se necessário, de vez em quando, fazer alterações à forma de a escrever. O que é muito diferente de aproximar a escrita do registo brasileiro (algo que ninguém sabe ao certo o que é).

 

Neste "desacordo" o que me parece mal é o exagero insensato e imprudente das alterações impostas (pela via administrativa).

 

Acabe-se com ele o mais depressa possível, para nosso bem e, sobretudo das nossas crianças.»

 

 Fernando Vouga

 

Fonte:

https://deprofundis.blogs.sapo.pt/aborto-ortografico-165526

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:13

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Terça-feira, 21 de Julho de 2020

«Não podemos deixar morrer o Português!»

 

Os apelos nunca faltaram.

 

O que falta é audácia para atacar com força e massivamente os predadores da Língua Portuguesa que, perante o comodismo dos milhares que se dizem anti-AO90, e que andam por aí e pelos grupos do Facebook a repetir eu não escrevo conforme o acordoeu não escrevo conforme o acordo, tal qual discos riscados (como se isso interessasse para alguma coisa, pois o problema grave e maior está na disseminação de uma grafia truncada, nas escolas e órgãos de comunicação social servilistas), perante este comodismo e servilismo, dizia eu, os predadores da Língua esfregam as mãos de contentamento, por poderem continuar a reduzir a Língua Portuguesa a uma linguagem gráfica, cada vez mais básica, mais primitiva, completamente distanciada do cerne de um Idioma Culto, para ser mais fácil de a aprender, como se isto não fosse um argumento de ignorantes.

 

Mas isto é fruto da cultura inculta que o Estado português obscurantista está a promover, com intenção de destruir a Cultura Portuguesa, e impor a incultura, à qual prestam vassalagem.

 

ACORDAI POVO, se não quereis ser escravos de uma tirania, que anda por aí fantasiada de democracia, para enganar os parvos.

 

Isabel A. Ferreira

 

MORTE.jpg

 

Texto de Sérgio Marques

 

«É incompreensível que uma instituição com a tremenda responsabilidade cívica de contribuir para a construção de uma sociedade cuja evolução tenha entre os seus principais pilares o conhecimento científico, se demita de assumir publicamente uma posição sobre o Acordo Ortográfico de 1990 assente exclusivamente em critérios científicos.

 

Com o vil argumento de não pretenderem fazer política - a ACL não é contra o AO90 e, aparentemente, nem se reconhece com legitimidade para poder sê-lo!... Santa paciência... foram muitos anos de salazarismo ... - acabam precisamente a fazer política, mas pela via mais infame: respeitando servilmente os poderes instituídos e os poderes fácticos, caucionam ignobilmente com a falsa chancela da ciência o mais violento e atroz atentado alguma vez cometido pelo Estado de uma nação soberana contra a sua própria língua.

 

A Academia de Ciências de Lisboa está, politicamente, de acordo com este assassinato irresponsável e doloroso do património maior de um povo, dispondo-se, apenas, a propor paliativos em vez de, com a coragem que se impunha, almejar erradicar a doença.

 

Tudo em nome de um projecto absurdo de unificação e uniformização da língua portuguesa no mundo, castrador da evolução natural e orgânica da diversidade geográfica dos falares lusófonos. Em nome de um tenebroso empreendimento orwelliano de empobrecimento coercivo da língua - coisa que os anglo-saxónicos, espanhóis e franceses tiveram a sabedoria e o bom senso de jamais tentar pôr em prática.

 

É uma espécie de imperialismo ao contrário, ditado pelos mesquinhos interesses de uma ou duas editoras portuguesas, posto em marcha por governantes acéfalos e ignorantes, gente sem visão nem sentido de Estado, notavelmente apoiada, à época, por todos os representantes eleitos pelos cidadãos deste país assim tristemente entregue em imundas mãos.

 

Face à cobardia e/ou ao comprometimento das instituições e individualidades nacionais de quem se esperaria outra independência e integridade moral e intelectual perante esta guerra desencadeada de forma brutal contra a língua de Pessoa e Camões, de Eça e Saramago, de Torga e Vieira e de outros ilustres embaixadores da Pátria maior que é o Português, guerra pusilânime que tomou como reféns e arautos involuntários da 'novilíngua' as nossas crianças e jovens, só nos resta, cidadãos comuns, tomar em mãos a tarefa de salvar a língua portuguesa da tragédia que se anuncia.

 

Com este inominável acordo, não estamos apenas a importar uma grafia estrangeira que reflecte uma fonética que nos é estranha, que incorpora uma História que não é a da nossa língua.

 

Com este acordo, estamos a garantir que no prazo de duas gerações se concretize a importação e assimilação dessa fonética que não é a nossa. Ou seja, a adulteração inorgânica e artificial, mas que será real, da língua portuguesa falada, e não apenas escrita, em Portugal.

 

Não podemos deixar morrer o Português às mãos da triste e fraca gente que nos governa e governou. É um dever patriótico. É um dever moral, de cidadania, por respeito aos nossos antepassados, mas, principalmente, por respeito pelas gerações vindouras. É um imperativo histórico, de combate a esta afronta fascizante ao povo português, mas também aos povos de Angola, de Moçambique, de Cabo Verde, de Timor, da Guiné, de São Tomé e Príncipe, do Brasil.

 

A língua é a manifestação maior da civilização humana. Tem vida, evoluiu, cresce, ramifica-se, diverge, mistura-se com outras línguas, gera novas línguas. Morre. É História. É quase Biologia. Não precisa de iluminados, oportunistas e neocolonialistas (neste caso, com papéis invertidos), auto-empossados ditadores da história futura, inteligências menores arrogadas em senhores do destino de um mundo que não lhes pertence.

 

Deixem em paz o Português do Brasil. Um dia já não será português, será outra coisa que a evolução histórica ditar, igualmente rica e tão nobre como o Português de Portugal, tão preciosa e respeitável como qualquer outra língua de outro lugar qualquer do mundo.

 

Já não falamos Latim! Mas deixem igualmente, em paz o Português de Portugal. Um dia, será, também diferente. E morrerá. Como qualquer outra língua. Mas não a matemos por decreto. Porque ainda está exuberante de vida. Porque está na boca, no pensamento, nos sentidos, na pena, na ponta dos dedos com que os nossos filhos riscam o ecrã do “tablet” e do telemóvel. Porque lhes está na alma. E há muito se entranhou na nossa.

 

Desobediência civil, massiva, activa, imperativa, ao criminoso acordo da vergonha. Pelos nossos filhos. Pelos filhos deles. Não há legado maior do que a nossa língua. A Língua de Portugal.

 

VAMOS À LUTA!»

 

Fonte:

https://www.facebook.com/sergio.marques.37266/posts/1044559192322071

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 11:13

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Sexta-feira, 15 de Maio de 2020

Opinião de Sérgio Lopes sobre o artigo: «Quanto mais ignorantes são os povos, mais necessitam de "acordos ortográficos"»

 

Consultar neste link:

https://olugardalinguaportuguesa.blogs.sapo.pt/quanto-mais-ignorantes-sao-os-povos-243638?tc=39558059338

 

Isto só para dizer que uma coisa é certíssima: a Língua que se fala e escreve no Brasil é uma VARIANTE da Língua Portuguesa, assim como a Língua Portuguesa é uma variante do Latim. Daí que seria da racionalidade (e já não seria sem tempo) que o Brasil adoptasse a designação de BRASILEIRO, para a sua própria Língua, assim como Dom Dinis adoptou a designação de PORTUGUÊS, quando decidiu libertar-se do Galaico-Português, a Língua falada na Galécia, da qual Portugal já não fazia parte, por se ter tornado um país INDEPENDENTE. Não fazia qualquer sentido.

O Brasil também já não faz parte de Portugal. É um país independente. Não há motivo algum para que continue a usar a designação de "Português" numa língua que seguiu um rumo completamente diferente, como o reflectem alguns linguistas brasileiros.

 

“É preciso dizer, com todas as palavras, em alto e bom som: o português brasileiro é uma língua e o português europeu é outra. Muito aparentadas, muito familiares, mas diferentes. (…) Sabemos que 75% da população brasileira é analfabeta funcional. São 150 milhões de pessoas e, entre elas, estão nossos docentes de língua portuguesa. Não vamos nos iludir: já fiz trabalhos de coletas de textos escritos de professores de português no Distrito Federal, a unidade da Federação com renda per capita mais elevada, e vi que as pessoas escrevem pavorosamente mal. São professores de português formados e na ativa já há bastante tempo. (Marcos Bagno - Doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo).

 

BRASIL.jpg

Fonte da imagem: Freepik

 

Sergio Lopes (…) mas as línguas inglesa, castelhana e francesa não precisam de acordos ortográficos!!! O saudoso iluminado prof. doutor Malaca Casteleiro já deve ter confessado a S. Pedro a razão de ter imposto ao País a destruição da nossa língua!!! Eu suspeito que Casteleiro deu uma contribuição gigante aos que no Brasil sonham em nomear a língua ali falada como brasileiro ou brasilês. Este é um movimento iniciado em 1822 e que tem tido altos e baixos, mas tem prevalecido vivo:



Na verdade devemos ao prof. Malaca Casteleiro esta humilhação, como Nação com quase 900 anos, da subordinação linguística por via do AO1990 a outra Nação que nós mesmos criámos há menos de 200 anos! Uma Nação que desde o seu berço em 1822 tem conjecturado e conjectura quebrar com a Língua Portuguesa, daí a humilhação.

Vide:

1- A LÍNGUA BRASILEIRA Eni P. Orlandi


“A questão da língua que se fala, a necessidade de nomeá-la (língua brasileira), é uma questão necessária e que se coloca impreterivelmente aos sujeitos de uma dada sociedade de uma dada nação. Porque a questão da língua que se fala toca os sujeitos em sua autonomia, em sua identidade, em sua autodeterminação. E assim é com a língua que falamos: falamos a língua portuguesa ou a língua brasileira?»

 

Fonte e mais leitura: http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252005000200016&fbclid=IwAR31dK6gxbMmot1b_bpNnc2pcUjQOpqa0yLGdJrPQUqsWEGKlxKT6t1ioDQ

 

2 -  Entrevista | Marcos Bagno


“O português brasileiro precisa ser reconhecido como uma nova língua. E isso é uma decisão política” 

 

https://www.jornalopcao.com.br/entrevistas/o-portugues-brasileiro-precisa-ser-reconhecido-como-uma-nova-lingua-e-isso-e-uma-decisao-politica-37991/?fbclid=IwAR1asmGw_BPJ95x98VKn0h3PxsEyJDo69-f3PcLDjObnnLQJrF0_KKd9PL4

 

3. Gramática do português brasileiro pelo prof. Ataliba Castilho sobre o polêmico livro didático para jovens e adultos, distribuído pelo MEC a 4.236 escolas do país, quase meio milhão de alunos, considerando normal o uso de expressões gramaticalmente erradas. Uma espécie de Brasil linguisticamente a dois níveis, um nível “elitista” de uns poucos milhões de almas com boa gramática, outro nível “popularucho” da quase totalidade de brasileiros tipo “fala como te apetecer” …

Fonte: 

https://www.youtube.com/watch?v=DROHTF4iaiQ&feature=youtu.be&fbclid=IwAR2F53E2mtysaEMHbmOuV-EQcQmPzj-jWAsFgrCxCCbxquCgKjE259BsITU



Estranha maneira de integrar o Brasil no Mundo Desenvolvido!!! E estranha maneira do prof. Malaca Casteleiro conseguir uma “União Ortográfica” de uma língua que do outro lado do Atlântico se quer mutilada"…»

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:45

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Segunda-feira, 11 de Maio de 2020

«O vírus que atacou a língua portuguesa»

 

Excelente texto de José Pacheco Pereira, obrigatório ler e partilhar muito, e pôr em prática o que o autor aqui sugere.

 

«A língua é uma coisa viva e o “acordês” é uma língua morta. Foi ferida por um vírus pior nos seus efeitos sociais e culturais do que o coronavírus.» (...) «A língua portuguesa precisa de nós. E não se esqueçam deste facto: o Acordo é impopular.» (José Pacheco Pereira)

 

Publico_20200509-scaled.jpg

 

Por José Pacheco Pereira

 

“No tempo do Getúlio (Brasil) e de Salazar (Portugal) foram feitos acordos que não prevaleceram, porque, na realidade, quem faz a língua não são as academias, nem os governos. Quem faz a língua é o povo.” Carlos Heitor Cony

 

«Tenho à minha frente uma série de jornais e de outras publicações do Brasil, de Angola, de Cabo Verde, de Moçambique, da Guiné, de Macau e de Timor. São actuais e nenhum respeita o Acordo Ortográfico. Se acrescentar a esses jornais e publicações mais uma série oriunda de Portugal, ou explicitamente recusam o Acordo, ou misturam artigos escritos nas duas línguas, o “acordês” e o português. Já não ponho livros em cima da mesa, romances, poemas, ensaios, porque quanto mais conhecido e criativo é o autor, menos usa o “acordês”.

 

Por detrás destas publicações está uma série de acordos diplomáticos que, ou estão a ser ilegalmente aplicados, ou foram ratificados e metidos na gaveta, com explícitas declarações de que são para meter na gaveta, ou, por fim, não foram aprovados pelos países que deveriam tê-los incorporado na legislação nacional. Como monumental falhanço diplomático, é um caso exemplar. O problema nem sequer é esse: é que, como falhanço cultural, é uma desgraça, mas, vindo de quem vem, é previsível.

 

A razão é muito simples: a língua é uma coisa viva, e o “acordês” é uma língua morta. Foi ferida por um vírus pior nos seus efeitos sociais e culturais do que o coronavírus, e é mantida moribunda por duas forças infelizmente poderosas nos nossos dias: a inércia e a arrogância de não querer perder a face e admitir o erro. E não adianta virem dizer-me que língua e ortografia são coisas diferentes e que a ortografia é uma convenção, e que há muitos precedentes de acordos. Há, mas nenhum como este, nem no tempo deste.

 

A ortografia é uma espécie de impressão digital da língua, faz parte da sua identidade e qualidade cultural. Transporta a sua memória e a sua história, as suas raízes nas línguas que foram a sua origem e que a fazem comunicar com as outras línguas com o mesmo tronco latino. E, como ser vivo, a língua e a sua ortografia evoluem todos os dias, traduzindo o dinamismo dos povos e das sociedades onde é falada e escrita. O tragicamente ardido Museu da Língua, em S. Paulo, traduzia esse dinamismo com a enorme vitalidade do português do Brasil, incorporando no vocabulário milhares de novas palavras oriundas de outras línguas trazidas pela emigração ou pelos tempos modernos. Não foi por acaso que este museu foi feito pelo Brasil, com a sua única e excepcional homenagem à língua portuguesa, enquanto por cá ninguém sequer aproveitou a oportunidade da sua desaparição para fazer um museu à língua cá, nem sequer pediu aos brasileiros que fizessem uma réplica cá, com a adaptação necessária. Não, em vez disso, continuamos a manter um Acordo que estraga a nossa língua e que é imposto administrativamente nas escolas e no Estado, para ainda mais afundar a nossa cultura, em tempos de ignorância agressiva.

 

É por ter lido com indignação um artigo publicado no PÚBLICO por quatro ministros autoglorificando-se pelo que têm feito pela língua portuguesa, numa altura em que toda a gente sabe que tem havido um considerável recuo da presença do português de Portugal por tudo quanto é universidade estrangeira, escola, instituição paga pelos contribuintes como o Instituto Camões, que escrevo. E se a situação não é pior, deve-se ao Brasil. Mas o que mais me encanita é o estarem muito contentes pela “dignificação” da língua portuguesa, quando eles próprios e os seus antecessores do PS e do PSD, desde 1990, são os principais responsáveis por a manter menos digna, menos própria, menos lavada, menos forte, menos saudável, doente.

 

É uma causa quixotesca? Não, não é. Há muita coisa que ainda não se fez. Faça-se como o lóbi das armas nos EUA (eu sei, péssimo exemplo, mas de lóbis percebem eles…) e, quando houver uma eleição, pergunta-se ao candidato, seja autárquico, seja legislativo, qual a sua posição. Depois ajuda-se por todos os meios os que explicitamente são contra o Acordo, de modo a criar um caucus (que vem do latim e do grego) na Assembleia e noutras instituições para fazer recuar o uso do Acordo e criar condições para acabar com ele, ou com a sua aplicação imposta, sorrateira e maliciosa.

 

Eu não desisto, porque há ainda muita coisa a fazer contra o Acordo. Angarie-se algum dinheiro, e há quem esteja disposto a dá-lo, seja mais, seja uma contribuição de um euro, façam-se anúncios de página inteira nos jornais, coloquem-se outdoors nas ruas, peça-se a escritores, criativos, artistas, cientistas, que escrevam uma frase em defesa da nossa língua ou façam um desenho, um grafismo, uma história aos quadradinhos, façam-se bancas nas ruas para recolha de assinaturas com a presença das muitas pessoas conhecidas e de prestígio que ainda escrevem português, faça-se uma associação de defesa da língua portuguesa ou dinamize-se uma que já exista, exija-se direito de antena e pressionem-se os órgãos de comunicação a darem voz a estes críticos da degradação da língua e da cultura.

 

A língua portuguesa precisa de nós. E não se esqueçam deste facto: o Acordo é impopular.»

 

Fonte: https://www.publico.pt/2020/05/09/opiniao/opiniao/virus-atacou-lingua-portuguesa-1915735

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:43

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