Sexta-feira, 8 de Junho de 2018

ANGOLA MANTÉM RESERVAS SOBRE A RATIFICAÇÃO DO AO90

 

Angola tem personalidade, não deverá ceder ao canto da sereia. Por que há-de adoptar a ortografia de uma ex-colónia portuguesa? Por que há-de adoptar um acordo cheio de erros de toda a ordem? Se têm uma língua íntegra, que necessidade há de passar para um arremedo de língua?

 

Se Angola, algum dia, quiser ver-se livre da Língua Portuguesa escolherá o dialecto brasileiro? Angola tem centenas de riquíssimos dialectos. E dialecto, por dialecto, não será óbvio que escolherá um dos seus?

 

ANGOLA.jpg

 

A notícia é de hoje.

 

«Angola continua "reticente" quanto à ratificação do acordo ortográfico da Língua Portuguesa, defendendo a necessidade de encontrar "mais pontos conciliatórios", face às preocupações de ordem linguística e didáctica da nova versão.

 

O posicionamento foi expresso hoje, em Luanda, pela coordenadora da comissão nacional angolana no Instituto Internacional da Língua Portuguesa, Ana Paula Henriques, no âmbito da 1.ª reunião de ministros da Educação do Fórum PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa).

 

“Em relação às preocupações de ordem linguísticas, há instruções no Acordo Ortográfico que não respeitam preceitos científicos, não se consegue comprovar e os resultados do nosso diagnóstico assim o demonstram”, disse a responsável, em declarações aos jornalistas, à margem da reunião de hoje.»

 

Fonte da notícia:

https://24.sapo.pt/atualidade/artigos/angola-mantem-reservas-sobre-ratificacao-do-acordo-ortografico

 

***

Recorde-se que Angola não autorizou o Acordo Ortográfico “a nenhum nível governamental”, Para Angola, "o Acordo tem lacunas e é necessário rectificá-las antes da implementação".

 

Mas a verdade é que o acordo não tem pés nem cabeça, e rectificá-lo torna-se uma missão impossível.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 19:23

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Sexta-feira, 2 de Março de 2018

«ESTE PAÍS PARTIDO AO MEIO PELA PRÓPRIA LÍNGUA»

 

Muito bem, Alexandra Lucas Coelho.

 

Haja inteligência e lucidez para dizer as coisas certas.

 

Parabéns e obrigada pelo seu precioso contributo em prol da Cultura Linguística Portuguesa.

 

ALEXANDRA.jpg

 

A opinião de

Alexandra Lucas Coelho

 

 1 - «O que aconteceu há uma semana no parlamento português é de pasmar, para quem ainda for capaz. Todos os deputados portugueses, com a honrosa excepção dos comunistas e de dois centristas, são agora co-responsáveis por a) um erro com décadas b) Portugal estar partido ao meio pela própria língua c) manter tantos portugueses na clandestinidade. 

 

Que dia cheio, essa quinta-feira, 22 de Fevereiro. E lendo nas notícias até parecia que não tinha sido nada demais, a votação na assembleia. Assunto arrumado.

 

2 - Como quiçá 99 por cento dos portugueses, estou farta deste assunto. Há uma boa razão para isso. É que o assunto tem barbas. Tanto tempo que o facto de até agora não ter sido possível enfiarem-nos o acordo pela goela é uma prova de como ele é um mau acordo. Outra prova, claro, é o facto de terem que tentar, e continuarem a tentar, enfiar-nos o acordo pela goela. Quanto mais tempo passa, mais me apetece dizer que nunca escrevi nem escreverei uma frase segundo o acordo. E quanto mais tempo passa mais me chateia que os meus sobrinhos sejam obrigados a ler e escrever asneiras, e quando todos eles aprenderem a ler e escrever fiquemos separados por tanta asneira. Cada um dos deputados que se absteve ou votou pela continuidade é responsável por isso. De resto, com o aval dos deputados eleitos, a minha situação, e a de tantos portugueses, é oficialmente essa: estamos, vivemos, trabalhamos na clandestinidade. Mas quem sequestrou a língua não fomos nós. De certa forma, o auto-proclamado acordo é um golpe de estado progressivo. Um golpe de estados, aliás. E isso faz parte do equívoco de base.

3 - Esta monumental perda de tempo, dinheiro, burocracia e energia vem de 1990. São 28 anos — vinte e oito anos — de declarações, contorções, petições, recursos, rejeições, discussões, pancadaria verbal desde o equívoco de base. Os contestatários foram ignorados, partiu-se para a imposição: em Portugal, o acordo entrou em vigor em 2009, tornou-se obrigatório nas escolas públicas em 2011, nos organismos públicos em 2012, e em geral (?) em 2015, data desde a qual um aluno que não escreva segundo o acordo é penalizado. 

 

Totalitarismo por etapas. Mas em nome de quê?

 

4 - Aí está o equívoco de base: em nome de uma visão política desligada da vida. Da vida da língua, com as suas mutações naturais, da vida de cada país onde essa língua é dominante, e das relações entre esses países. Já me perdi no imbróglio do que gerou o acordo, se/como os linguistas foram utilizados pelos políticos e/ou vice-versa, ou a certa altura os defensores do acordo se cristalizaram nessa posição porque sentiam que já tinham ido demasiado longe para voltar atrás.Supostamente este acordo era para aproximar os países de língua portuguesa. Mas o que separa os países de língua portuguesa são muitas outras coisas, muitas delas de facto políticas, muitas delas de facto incómodas, muitas delas de facto sistematicamente ignoradas, ou menosprezadas, enquanto um acordo totalmente desnecessário, supostamente a bem da lusofonia, nos mói o juízo há 28 anos.Expressões que me tiram do sério: países da lusofonia. Que países da lusofonia? Lusofonia resulta de uma ideia de dominação, ou dominância, lusa, sem sentido. Não há países da lusofonia. Há países que falam a língua portuguesa. E, não por acaso, Portugal está bem, bem longe de ser o mais populoso.

 

5 - Também estou longe de em geral votar PCP, o partido que corajosamente fez a proposta rejeitada no parlamento, para que Portugal se retirasse do acordo. Estar contra o acordo é o ponto em que coincido com os comunistas, depois divirjo em parte quanto à visão da língua portuguesa, as relações entre os países que falam a língua portuguesa. Mas pasmei com a quantidade de deputados que votaram em massa, ao lado dos seus partidos, contra a proposta do PCP. As abstenções ficaram-se pela meia dúzia.Difícil de acreditar. Toda esta gente está mesmo convicta de que o acordo é uma coisa boa? Ou acha apenas que dá demasiado trabalho voltar atrás? Seja como for parecem imunes ao facto de tanta gente, com argumentos, não seguir o acordo.

 

Mexeu-se na língua, onde não fazia falta, por maus motivos políticos. Esse acordo, alegadamente para o melhor entendimento de vários países, conseguiu transformar-se em grande desentendimento neste país. Entretanto, todos os dias me sento a esta mesa, e bato neste teclado palavras que oficialmente já estão erradas, como pára em vez de para, ou pêlos em vez de pelos.O meu trabalho é escrever há mais de trinta anos. Na minha geração, tenho de pensar um bocado para achar conhecidos que escrevam voluntariamente segundo o acordo. E na geração posterior idem. A petição que acompanhava a proposta do PCP tinha 20 mil assinaturas, mas multiplicar isso por 100 não me pareceria pouco razoável. Imagino a quantidade de professores que não gostam do acordo e são obrigados a usá-lo. Com certeza que muitos seguidores do acordo o fazem por obrigação, em organismos públicos, ou empresas que tomaram a decisão de aplicar o acordo por contingências várias. Entre 2011 e 2012 aconteceu editoras acharem que o caminho já era irreversível, e terem começado a aplicar o acordo, para depois retrocederem.Falhado o parlamento, a próxima esperança dos desalinhados será o recurso que o Supremo vai analisar, quanto à ilegalidade ou não de impor a aplicação do acordo.

 

6 - A língua portuguesa são tantas que ainda não as conheço, nem conhecerei. Morei anos no Brasil, e que sorte, a língua tornou-se muito maior. Vou à Guiné, a Cabo Verde, a Moçambique, idem. A língua vai à frente de qualquer dicionário, e se quem escreve não der trabalho aos arrumadores da língua estamos tramados. Portanto, os clandestinos estão naturalmente na clandestinidade. Mas não por decreto, com um acordo tipo implante. Deixem a língua solta, porque ela muda a cada minuto. O trabalho dos dicionários, e dos especialistas, é correrem atrás.»

 

Fonte: 

 

https://24.sapo.pt/opiniao/artigos/este-pais-partido-ao-meio-pela-propria-lingua#_swa_cname=sapo24_share&_swa_cmedium=web&_swa_csource=facebook&utm_source=facebook&utm_medium=web&utm_campaign=sapo24_share

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:12

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Sexta-feira, 2 de Fevereiro de 2018

«A LÍNGUA BRASILEIRA»

 

Num “passeio” pela Internet, encontrei este precioso texto, que só vem dar força ao que tenho muitas vezes pugnado, por conhecer bem a realidade da relação Brasil/Portugal: no Brasil a língua é Brasileira, não é Portuguesa, por isso, há que colocar os pontos nos devidos is.

 

Que cada país fique com a sua língua: o Brasil com o Brasileiro e Portugal com o Português, e deixemo-nos desta mania de querer unificar duas línguas que correm paralelamente e jamais se encontrarão, jamais se unificarão nessa coisa chamada AO90, que em vez de unir, desune, é uma trapalhada, não acrescenta mais-valia nenhuma (muito pelo contrário) a nenhuma das línguas, e é um ponto de desacordo, de desunião entre todos os países ditos lusófonos.

 

Teimar no AO90 é teimar na estupidez.

Espero que este texto abra os olhos a quem teima em mantê-los fechados, por teimosia, por ignorância ou por motivos mais obscuros…

ACORDEM, Portugueses!!!!!

 

 

Língua Brasileira.jpg

 

«A LÍNGUA BRASILEIRA» 

Texto de Eni P. Orlandi

(Eni de Lourdes Puccinelli Orlandi é uma pesquisadora e professora universitária brasileira. Foi a introdutora, no final dos anos 70, da análise do discurso no Brasil).

 

INTRODUÇÃO

 

«A questão da língua que se fala, a necessidade de nomeá-la, é uma questão necessária e que se coloca impreterivelmente aos sujeitos de uma dada sociedade de uma dada nação. Porque a questão da língua que se fala toca os sujeitos em sua autonomia, em sua identidade, em sua autodeterminação. E assim é com a língua que falamos: falamos a língua portuguesa ou a língua brasileira? (1)

 

Esta é uma questão que se coloca desde os princípios da colonização no Brasil, mas que adquire uma força e um sentido especiais ao longo do século XIX. Durante todo o tempo, naquele período, o imaginário da língua oscilou entre a autonomia e o legado de Portugal.

 

De um lado, o Visconde de Pedra Branca, Varnhagen, Paranhos da Silva e os românticos como Gonçalves Dias, José de Alencar alinhavam-se entre os que defendiam nossa autonomia propugnando por uma língua nossa, a língua brasileira. De outro, os gramáticos e eruditos consideravam que só podíamos falar uma língua, a língua portuguesa, sendo o resto apenas brasileirismos, tupinismos, escolhos ao lado da língua verdadeira. Temos assim, em termos de uma língua imaginária, uma língua padrão, apagando-se, silenciando-se o que era mais nosso e que não seguia os padrões: nossa língua brasileira. Assim nos contam B. S. Mariani e T. C. de Souza (Organon 21, Questões de Lusofonia) que, em 1823, por ocasião da Assembléia (em Portugal continuará a escrever-se Assembleia) Constituinte, tínhamos pelo menos três formações discursivas: a dos que propugnavam por uma língua brasileira, a dos que se alinhavam do lado de uma língua (padrão) portuguesa e a formação discursiva jurídica, que, professando a lei, decidia pela língua legitimada, a língua portuguesa. Embora no início do século XIX muito se tenha falado da língua brasileira, como a Constituição não foi votada, mas outorgada por D. Pedro, em 1823, decidiu-se que a língua que falamos é a língua portuguesa. E os efeitos desse jogo político, que nos acompanha desde a aurora do Brasil, nos faz oscilar sempre entre uma língua outorgada, legado de Portugal, intocável, e uma língua nossa, que falamos em nosso dia-a-dia, a língua brasileira. É assim que distingo entre língua fluida (o brasileiro) e a língua imaginária (o português), cuja tensão não pára (em Portugal, com o AO90 retirou-se o acento e escreve-se para, a preposição) de produzir os seus efeitos.

 

Assim é que, em 1826, o projeto (em Português escreve-se projeCto) apresentado ao parlamento brasileiro pelo deputado José Clemente propõe que os diplomas dos médicos seja redigido (em Portugal escrevemos sejam) em "linguagem brasileira". Em 1827 temos a aprovação de lei que estabelece que os professores deveriam ensinar a gramática da língua nacional. Nem português, nem brasileiro, estrategicamente, nomeamos de língua nacional. Em 1870, procurando argumentar sobre a língua que falamos, temos a polêmica (em Portugal continuaremos a escrever polémica) entre o romancista brasileiro José de Alencar e o português Pinheiro Chagas, um falando de nossas diferenças e autonomia, o outro, sobre o legado que recebemos de Portugal, a língua portuguesa. Essas referências podem ser encontradas em um quadro apresentado no início do livro História da semântica (2004) de Eduardo Guimarães, entre outros. Já no século XX, na década de 1930 há uma discussão na Câmara do Distrito Federal sobre o nome da língua do Brasil: língua portuguesa ou brasileira? Novamente se decide pelo indefinido: falamos a língua nacional. Sobre essa discussão pode-se consultar o livro (tese) de Luis Francisco Dias (1996), que conclui que, na perspectiva daqueles que se posicionaram contrários aos projetos (em Português, projeCtos) de mudança do nome da língua falada no Brasil, o nome língua brasileira é percebido como algo que viria desestabilizar um eixo social que tem nos percursos da escrita, sob os auspícios da língua portuguesa, o seu suporte, a sua referência, e, na perspectiva daqueles que defendem os projetos (em Português, projeCtos) de mudança do nome de nosso idioma, língua brasileira tem a sua referência constituída a partir de uma imagem romântica do país, imagem fundada no positivismo e no ufanismo que, ao longo da segunda metade do século XIX e da primeira metade do século XX marcaram nossa história. Finalmente, assim como D. Pedro outorgou uma Constituição em 1823, também em 1946, a comissão encarregada pelo governo brasileiro, em atendimento ao estabelecido pela Constituição de 1946, decide que o nome da língua falada no Brasil é língua portuguesa (2).

 

Esta questão, no entanto, não deixa de nos importunar, e há sempre alguma razão, um pretexto, ou alguém que a levanta em momentos diferentes de nossa história. Isso quer dizer que até hoje não decidimos se falamos português ou brasileiro. Embora a cultura escolar se queira, muitas vezes, esclarecedora em sua racionalidade e moderna em sua abertura, acaba sempre se curvando à legitimidade da língua portuguesa que herdamos (em Portugal escrevemos herdámos) e, segundo dizem, adaptamos (em Portugal, adaptámos) às nossas conveniências, mas que permanece em sua forma dominante inalterada, intocada (melhor dizer destituída das necessárias consoantes mudas): a língua portuguesa. E quem não a fala, ainda que esteja no Brasil, que seja brasileiro, erra, é um mal falante, um marginal da língua.

 

É, pois, impressionante como a ideologia da língua pura, a verdadeira, faz manter o imaginário da língua portuguesa.

 

A QUESTÃO DE FATO

(Em Portugal continuará a ser de faCto, na pronúncia e na escrita, porque não vestimos acontecimentos).

No entanto, podemos ver isto mais de perto e tomamos como medida a língua que falamos em seu aspecto (em Portugal, com o AO90, escrevem aspeto, lê-se "aspêto") histórico, social, cultural.

 

Desde o princípio da colonização, instala-se um acontecimento lingüístico (em Portugal escreve-se linguístico, sem trema) de grande importância no Brasil: o que constitui a língua brasileira.

 

Ao mesmo tempo em que aqui desembarca, a língua portuguesa, ao deslocar-se de Portugal para o país nascente – o Brasil – institui um movimento de memória, deslizamentos lingüísticos (linguísticos, em Portugal) por meio dos quais uma outra língua – a brasileira – faz-se presente.

 

O novo espaço de comunicação resiste com sua materialidade à língua que chega com os portugueses em sua memória já falada, já dita. Desdobram-se, transmudam-se os modos de dizer.

 

A relação palavra/coisa faz ruído, relação não coincidente entre si e nem perfeitamente ajustada. Outras formas vão estabelecer-se fazendo intervir, e ao mesmo tempo constituindo, a memória local.

 

Retomo aqui os movimentos da enunciação que já tive a oportunidade de expor (1998): em um primeiro momento – situação enunciativa I – a partir de sua memória, o colonizador português reconhece as coisas, os seres, os acontecimentos e os nomeia. Mas ele o faz, transportando elementos de sua memória lingüística (linguística em Portugal). Há um investimento na relação palavra/coisa, a questão incidindo sobre o referente: na presença de um nome, estamos diante da mesma coisa (a do Brasil e a de Portugal)? Como estamos no Brasil, há um deslocamento (transporte) que força contornos enunciativos diferenciados.

 

Essa diferença se torna cada vez mais uma diferença de línguas (relação palavra/palavra, e não da palavra com a coisa). Daí resulta todo um trabalho sobre a língua, de classificação, organização, definições em listas de palavras, dicionários. O português, assim transportado, acaba por estabelecer em seu próprio sítio de enunciação outra relação palavra/coisa, cuja ambivalência pode ser lida nas remissões: no Brasil, em Portugal. Tem início, então, a produção de um espaço de interpretação com deslizamentos, efeitos metafóricos que historicizam (em Portugal, historizam) a língua. Produzem-se transferências, deslizamentos de memória, metáforas, pois estamos diante de materialidades discursivas que produzem efeitos de sentidos diferentes. Configura-se uma nova situação enunciativa – situação enunciativa II. As palavras, estas, já recobrem outra realidade.

 

A língua praticada nesse outro regime enunciativo realiza, deste lado do Atlântico, a relação unidade/variedade: a unidade já não refere o português do Brasil ao de Portugal, mas à unidade e às variedades existentes no Brasil. E a unidade do português do Brasil, referido a seu funcionamento historicamente determinado, é marca de sua singularidade. Há um giro no regime de universalidade da língua portuguesa que passa a ter sua própria referência no Brasil. A variação não tem como referência Portugal, mas a diversidade concreta produzida no Brasil, na convivência de povos de línguas diferentes (línguas indígenas, africanas, de imigração etc).

 

Nessa perspectiva, (em Portugal, com o AO90, escrevem perspetiva, lê-se "persp'tiva) então, falamos decididamente a língua brasileira, pois é isto que atesta a materialidade lingüístico-histórica. Se, empiricamente, podemos dizer que as diferenças são algumas, de sotaque, de contornos sintáticos (em Português sintáCticos) de uma lista lexical, no entanto,  do ponto de vista discursivo, no modo como a língua se historiciza (em Portugal historiza) as diferenças são incomensuráveis: falamos diferente, produzimos diferentes discursividades.

 

HETEROGENEIDADE LINGÜÍSTICA

 

Authier (1987) estabelece o conceito de heterogeneidade enunciativa para descrever o fato (em Portugal faCto) de linguagem que consiste em que todo dizer tem necessariamente em si a presença do outro. Aproveito o impulso desse conceito, embora ele ganhe em nosso uso outras determinações, para falar em heterogeneidade lingüística toda vez que, no campo dos países colonizados, temos línguas como o português, ou o espanhol, na América Latina, que funcionam em uma identidade que chamaria dupla. Estamos diante de línguas que são consideradas as mesmas – as que se falam na América Latina e na Europa – porém que se marcam por se historicizarem (historiarem, em Portugal) de maneiras totalmente distintas em suas relações com a história de formação dos países. É o caso do português do Brasil e o de Portugal. Falamos a "mesma" língua, mas falamos diferente. Consideramos, pois, a heterogeneidade  lingüística (linguística, em Portugal) no sentido de que joga em nossa língua um fundo falso em que o "mesmo" abriga, no entanto, um "outro", um diferente histórico que o constitui ainda que na aparência do "mesmo": o português brasileiro e o português português se recobrem como se fossem a mesma língua mas não são. Produzem discursos distintos, significam diferentemente. Discursivamente é possível se vislumbrar esse jogo, pelo qual no mesmo lugar há uma presença dupla, de pelo menos dois discursos distintos, efeitos de uma clivagem de duas histórias na relação com a língua portuguesa: a de Portugal e a do Brasil. Ao falarmos o português, nós, brasileiros, estamos sempre nesse ponto de disjunção obrigada: nossa língua significa em uma filiação de memória heterogênea (em Portugal continuar-se-á a dizer e a escrever heterogénea, apesar do AO90). Essas línguas, o português e o brasileiro, filiam-se a discursividades distintas. O efeito de homogeneidade é o efeito produzido pela história da colonização.

 

Quando, mais acima, falei da disjunção obrigada referia-me a uma certa indistinção, mas também à polissemia. Há uma composição de sentidos em nossa memória lingüística que funcionam, simultaneamente, em movimentos simbólicos distintos, quando falamos a língua brasileira. Isto significa que há uma marca de distinção na materialidade histórica desses sistemas simbólicos que carrega a língua brasileira dessa composição de sentidos. Eis a duplicidade, a heterogeneidade, a polissemia no próprio exercício da língua: o português e o brasileiro não têm o mesmo sentido. São línguas materialmente diferentes.

 

Dados esse fatos (esseS faCtos, em Portugal), a história da identidade da língua nacional se alongará por meio de acontecimentos múltiplos, como acordos, fundação de academias, regulamentos escolares, constituintes e outros. É essa história que começamos a conhecer, e este artigo é apenas um pequeno passo em direção (em Português direCção) a esta forma de conhecimento que é também uma tomada de posição face ao conhecimento da língua e da constituição da língua nacional no Brasil. Considerações acerca da língua materna, do idioma pátrio, da língua nacional são outras tantas que nos levam a novas reflexões igualmente esclarecedoras a respeito da língua nacional que falamos no Brasil e do modo como a nomeamos.»

 

Eni P. Orlandi é professora titular de análise de discurso do Departamento de Lingüística do Instituto de Estudos da Linguagem(IEL); coordenadora do Laboratório de Estudos Urbanos (Labeurb) da Unicamp; e pesquisadora 1A do CNPq.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Estes aspectos estão mais desenvolvidos em Orlandi (2002).
  2. Uma análise do texto do parecer da comissão encarregada de decidir sobre o nome da língua está em Guimarães (2000)

BIBLIOGRAFIA CITADA

Auroux, S, Orlandi, E. e Mazière F. "L'hyperlangue brésilienne", in Langages, 130, Paris, Larousse. 1998.

Authier, J. "Hétérogénéités énonciatives" in Langages, Paris, Larousse. 1987.

Dias, L. F. Os sentidos do idioma nacional, Campinas, Pontes. 1996.

Guimarães, E. "Línguas de civilização e línguas de cultura. A língua nacional do Brasil". In Barros, D.L.P. Os discursos do descobrimento. São Paulo, Edusp/Fapesp. 2000.

Guimarães, E.R.J. História da semântica, Campinas, Pontes. 2003.

Mariani, B. e Souza, T. C.C. de "Questões de lusofonia", Organon, 21, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2000.

Orlandi, E. P. Língua e conhecimento lingüístico. São Paulo, Cortez. 2002.

 

Fonte:

http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252005000200016&script=sci_arttext

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:45

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Segunda-feira, 20 de Março de 2017

FILME "SILÊNCIO", DE SCORSESE (2016), LEGENDADO EM BOA LÍNGUA PORTUGUESA

 

Há muito que não via um filme tão bem legendado em boa Língua Portuguesa, e não no mixordês intragável que tem desfeado os filmes, por mais belos que eles sejam.

Apenas os filmes mais antigos estão bem legendados.

Silêncio”, estreado em 2016, é um grande filme, até por isto.

Não consegui ver quem o legendou.

Se alguém souber, agradeço que me informe.

 

SILÊNCIO.jpg

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:11

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Quinta-feira, 6 de Outubro de 2016

«CIDADANIA E LÍNGUA PORTUGUESA» - É SÓ MEXER UM DEDO

 

«A (…) revogação (do AO) criará as condições para que o Acordo Ortográfico seja revertido e arquivado. É precisamente o que o Projecto de Lei da ILC-AO se propõe fazer, com a sua ajuda.

É isso o que a maioria quer, é isso o que a maioria pode ter. Basta mexer um dedo…» (Rui Valente)

 

Leiam o texto que Rui Valente escreveu, por favor.

 

E no final, mexam um dedo.

Aqui: www.ilcao.com ou aqui online

 

É que não basta andar pelo Facebook a dizer mal do AO90. É preciso AGIR. Urgentemente. Por favor.

 

MEXER O DEDO.jpg

 

Texto de Rui Valente  

01/10/2016 - 07:30

 

Não se vislumbra um aumento do prestígio internacional da Língua, seja lá isso o que for, nem a CPLP consegue tocar a uma só voz.

 

No passado dia 20 de Julho a Assembleia da República aprovou, finalmente, três importantes alterações à Lei que regula as Iniciativas Legislativas de Cidadãos (ILC): o número de eleitor (que raramente temos à mão…) deixa de ser um dos requisitos, reduziu-se o número mínimo de assinaturas de 35.000 para 20.000 e torna-se finalmente possível subscrever este tipo de iniciativa cívica também por via electrónica.

 

A redução do número de assinaturas era uma reivindicação já antiga. É certo que estavam em cima da mesa propostas que apontavam para uma redução ainda maior mas o número a que se chegou tem, pelo menos, a vantagem de afastar qualquer cenário de "banalização" das ILC temido por alguns partidos: 20.000 assinaturas continuam a ser mais do dobro das que são necessárias para criar um partido político ou para a apresentação de um candidato à Presidência da República.

 

Mas o maior avanço será, sem dúvida, o que determina o fim das subscrições exclusivamente em papel. Em pleno Séc. XXI, com o exercício da cidadania a transferir-se cada vez mais para plataformas electrónicas, a obrigação de imprimir um formulário, assiná-lo e enviá-lo pelo correio era um anacronismo quase exclusivo das ILC. A figura da petição, por exemplo, já funciona há muito na base da subscrição virtual.

 

No seu conjunto, estas três medidas recentemente aprovadas vêm de facto devolver as ILC aos cidadãos. Até aqui, as operações de logística envolvidas na promoção, recolha e tratamento de milhares de assinaturas em papel deixavam as Iniciativas Legislativas de Cidadãos praticamente inacessíveis a grupos de simples cidadãos sem os complexos meios necessários.

 

As primeiras beneficiárias desta medida são, naturalmente, as ILC em curso. Para a Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação do Acordo Ortográfico (ILC-AO), em concreto, as perspectivas mudam radicalmente. Esta Iniciativa tem recolhidas, até agora, cerca de 15.000 assinaturas em papel. Segundo a norma anterior, a ILC-AO enfrentava um cenário adverso, em que teria ainda de recolher mais 20.000 assinaturas em papel. Com a alteração da Lei ficam a faltar "apenas" 5.000 assinaturas — com a vantagem de que poderão ser recolhidas tanto em papel como por via electrónica.

 

Vale a pena sublinhar que a dificuldade em reunirmos assinaturas em papel não pode, de modo nenhum, ser levada à conta de desinteresse pela nossa Causa comum. A rejeição do Acordo Ortográfico de 1990 pela maioria da população portuguesa sempre foi inequívoca. Tanto a petição/manifesto "Em defesa da Língua Portuguesa", de Vasco Graça Moura, já em 2009, como a página desta mesma ILC–AO na plataforma Causes ultrapassaram facilmente a marca dos 100.000 subscritores/seguidores. O facto de estes números não se traduzirem em subscrições em papel deve-se, apenas e só, ao desuso crescente desse suporte físico, preterido em favor do activismo online.

 

Sendo certo que o exercício da cidadania é muitas vezes um factor de identidade e de união entre as populações, também o é a Língua Portuguesa.

 

Faz todo o sentido, portanto, que seja a iniciativa cidadã a repor o statu quo anterior ao AO, em que duas variantes do Português coexistiam há décadas num ecossistema ortográfico perfeitamente estabilizado.

 

O AO90 limitou-se a lançar o Português Europeu no caos, corroendo os laços que o uniam à maior parte das Línguas neo-latinas europeias sem que daí adviesse qualquer espécie de vantagem. Não se vislumbra um aumento do prestígio internacional da Língua, seja lá isso o que for, nem a CPLP consegue tocar a uma só voz, com Angola e Moçambique a manter, e bem, o Acordo Ortográfico fora das suas preocupações ou prioridades.

 

É tempo de acabarmos com o amontoado de arbitrariedades a que se convencionou chamar “Acordo Ortográfico”, poço sem fundo de facultatividades que desmontam a própria noção de ortografia.

Permita-me que o convide, caro leitor, a visitar o sítio www.ilcao.com

e a subscrever a Iniciativa Legislativa de Cidadãos pela revogação do AO90. Pode fazê-lo em papel, como sempre, ou, a partir de agora, preenchendo o formulário que se encontra online.

 

Dirijo-me especialmente aos pais com filhos em idade escolar: subscrever a ILC-AO é uma forma de exigir o acesso dos vossos filhos a uma ortografia racional, funcional, estável. É fundamental não ceder à chantagem emocional dos defensores do Acordo que nos dizem — agora — que andamos "a brincar com as nossas crianças" — quando foram eles os primeiros a dar início a essa brincadeira, de forma perfeitamente arbitrária e fútil.

 

Uma pequena "nota técnica" final: como saberão, o Acordo Ortográfico, sendo um tratado internacional, não é matéria do foro da Assembleia da República. O que é matéria do foro da Assembleia da República é a Resolução 35/2008, cuja aprovação pela AR foi um expediente que implicou a (ilegal) entrada em vigor do AO90 em Portugal. A sua revogação criará as condições para que o Acordo Ortográfico seja revertido e arquivado. É precisamente o que o Projecto de Lei da ILC-AO se propõe fazer, com a sua ajuda.

 

É isso o que a maioria quer, é isso o que a maioria pode ter. Basta mexer um dedo…

 

Comissão Representativa da ILC-AO

 

Fonte:

https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/cidadania-e-lingua-portuguesa-1745724?page=2#/follow

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:26

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Sexta-feira, 18 de Março de 2016

O DESACORDO ORTOGRÁFICO

 

ACORDO.jpg

 

por Maria Teixeira Alves

 

Estávamos em 2008 (muito dos grandes males foram gerados nesse fatídico ano)  quando o Conselho de Ministros do Governo do Sócrates (who else?) aprovou um acordo que estava assinado desde 1990 (imagine-se!) entre os países de língua portuguesa. A ideia deste acordo era uma maior uniformização ortográfica entre os países da CPLP. Uma má ideia, diga-se, que foi reforçada em 2004, e implementada em 2009 (ver aqui).

 

Passado todos estes anos o único país de língua portuguesa que introduz o acordo é, claro, Portugal – sempre pioneiro no que não deve e atrasado no que deve. Talvez seja ignorância, mas ainda que mal me pergunte se o português é nosso, porque é que os outros países não acordaram escrever português como se escreve em Portugal? Por que carga de água é que este acordo impõe o português do Brasil como uniforme?

 

Em Angola o acordo ainda não foi ratificado por qualquer órgão político, enquanto em Moçambique já foi aprovado em Conselho de Ministros, mas falta ainda a ratificação pelo parlamento. E até no Brasil a moratória para a aplicação plena adia o Acordo Ortográfico para Janeiro de 2016. Em África, Guiné Bissau, Cabo Verde e São Tomé ratificaram o acordo. Mas ainda não está em vigor.

 

Depois surge Timor Lorosae que também aprovou a nova ortografia, mas como não falam praticamente português, é-lhes igual ao litro aplicarem este acordo.

 

Mais recentemente a Guiné Equatorial aderiu à CPLP, e não ratificou ainda o acordo, mas a população não fala português, pelo que é caricato o acordo para este país.

 

Portanto, neste momento, Portugal está acordado e uniformizado na ortografia consigo próprio.

 

A partir de hoje, 13 de Maio, as regras do Acordo Ortográfico são obrigatórias. Acabou oficialmente o período de transição. Mas vejamos, uma determinação governamental – fundamentada numa Resolução parlamentar – funciona, na prática, como uma “ordem por escrito”, mas que apenas diz respeito e se circunscreve, em termos de efeitos e de eficácia, aos serviços e organismos do Estado ou deles dependentes (e ao Ensino público); ou seja, afecta somente os funcionários públicos e, mesmo quanto a estes, apenas no âmbito das suas competências e enquanto no exercício das suas funções. Nada mais. Ninguém pode ser obrigado a escrever ato em vez de acto, para em vez de pára. Ninguém. 

 

P.S. Este post escrito a 13 de Maio está escrito com erros. Mas é óptimo que assim seja.

 

por Maria Teixeira Alves

 

Fonte:

http://corta-fitas.blogs.sapo.pt/o-desacordo-ortografico-6025207

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 19:47

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EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA, A AUTORA DESTE BLOGUE NÃO ADOPTA O “ACORDO ORTOGRÁFICO” DE 1990, DEVIDO A ESTE SER INCONSTITUCIONAL, LINGUISTICAMENTE INCONSISTENTE, ESTRUTURALMENTE INCONGRUENTE, PARA ALÉM DE, COMPROVADAMENTE, SER CAUSA DE UMA CRESCENTE E PERNICIOSA ILITERACIA EM PUBLICAÇÕES OFICIAIS E PRIVADAS, NAS ESCOLAS, NOS ÓRGÃOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL, NA POPULAÇÃO EM GERAL E ESTAR A CRIAR UMA GERAÇÃO DE ANALFABETOS.

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O Acordo Ortográfico 1990 não tem validade internacional. A assinatura (em 1990) do texto original tem repercussões jurídicas: fixa o texto (e os modos como os signatários se vinculam), isto segundo o artº 10º da Convenção de Viena do Direito dos Tratados. Por isso, não podia ser modificado de modo a entrar em vigor com a ratificação de apenas 3... sem que essa alteração não fosse ratificada por unanimidade! Ainda há meses Angola e Moçambique invocaram OFICIALMENTE a não vigência do acordo numa reunião OFICIAL e os representantes OFICIAIS do Brasil e do capataz dos brasileiros, Portugal, meteram a viola no saco. Ora, para um acordo internacional entrar em vigor em Portugal, à luz do artº 8º da Constituição Portuguesa, é preciso que esteja em vigor na ordem jurídica internacional. E este não está!
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