Terça-feira, 12 de Outubro de 2021

Mais um Livro de Manuel [Matos] Monteiro, lançado amanhã em Lisboa

 

Manuel [Matos] Monteiro lança amanhã, 13 de Outubro, o seu novo livro «O funambulista, o ateu intolerante e outras histórias reais», da editora «Objectiva», e aqui fica o convite para todos os que puderem comparecer.


Para os desacordistas (e são milhares, em Portugal, ao contrário do que os acordistas querem fazer crer), o lançamento de um livro, em Português de Facto, é motivo de grande regozijo, por parte dos leitores, que exigem bons livros escritos em Bom Português, apesar de, ultimamente, notar-se uma certa debandada de escritores, que até há pouco tempo eram acordistas, e agora não o são. Cada vez há mais livros desacordizados.

Manuel Monteiro é um dos que, em Portugal, combatem fervorosamente o AO90,  e «Por Amor à Língua» é «contra a linguagem que por aí circula». Uma linguagem pobre, reduzida ao ínfimo,  assente numa iliteracia - maleita muito disseminada em Portugal - forjada na ignorância optativa, que se tem alastrado, por aí, irreprimivelmente, nestes últimos tempos.

De modo que, quando vem a público um livro livre do AO90 é motivo para festejar.

Parabéns, Manuel [Matos] Monteiro, e muito sucesso para mais este livro.

Isabel A. Ferreira

 

Convite MM  (1).png

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:07

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Segunda-feira, 21 de Junho de 2021

«Economês e Republiquês» (António Bagão Félix) - Como de uma Língua elegante se fez uma língua anafada…

 

A nossa Língua Portuguessa era tão linda, tão elegante, tão graciosa, tão delicada, tão harmoniosa, e, de uns tempos para cá,  encheram-na de monos linguísticos que, aliados ao acordês e à pirosa linguagem inclusiva, a desfeiam, a engordam, a desfiguram, a endurecem, a desarmonizam, a tal ponto que, se fosse música, dir-se-ia saída de um trombone baixo, completamente desafinado. Um verdadeiro PAVOR!

 

Fiquemo-nos com um excelente texto do Dr. António Bagão Félix, que nos fala de uma linguagem cada vez mais infestada de modismos e palavras “doutorais.

 

Isabel A. Ferreira

 

Dr. Bagão Félix.png

 

 

Por António Bagão Félix

 

«EM PORTUGUÊS

n.43

 

𝑀𝑖𝑛ℎ𝑎 𝑝𝑎́𝑡𝑟𝑖𝑎 𝑒́ 𝑎 𝑙𝑖́𝑛𝑔𝑢𝑎 𝑝𝑜𝑟𝑡𝑢𝑔𝑢𝑒𝑠𝑎

Fernando Pessoa

 

 

  1. A linguagem está cada vez mais infestada por modismos e palavras “doutorais”. Perdeu-se o sentido da simplicidade da palavra, hoje canibalizada pela linguagem politicamente correcta ou gestionariamente indecifrável.

 

Há até quem pense que quanto maior for a sua pseudo complexidade, mais subirá no “elevador intelectual”. Certamente baseando-se numa frase que, por vezes, surge no imaginário do comum mortal: “Não percebi nada do que aquela pessoa disse, mas gostei. Falou muito bem”.

 

Não me refiro agora à prática recorrente de se juntarem, a torto e a direito, palavras em língua estrangeira (sobretudo, em inglês), de que já aqui tratei. Como, amiúde, tenho ouvido nas televisões, isso já é um “déjà vu”, erradamente pronunciado à portuguesa como “𝑣𝑢”, em vez de “𝑣𝑖́𝑢”.

 

Limito-me a imaginar uma amostra - obviamente caricatural - no que ao “economês-politiquês” diz respeito e que por aí grassa, para gáudio de alguns egos.

 

“No sector financeiro é imperativo desalavancar actividades para prevenir novas imparidades. No Estado, importa ventilar e priorizar blocos de despesa, para criar almofadas que assegurem a consolidação fiscal interministerial e interdepartamental. O acesso à pensão de velhice fica dependente de uma reponderação do factor de sustentabilidade, que permita descontar o efeito paramétrico das variáveis endógenas em jogo. No sector público, haverá que agilizar os incumbentes mais resilientes e dinamizar as sinergias, bem como potenciar a fileira industrial e de inovação de processos e produtos. A janela de oportunidade para criar valor é a de um novo paradigma impactante para os bens transaccionáveis. Tendo em conta que a solução não pode, por ora, ser encontrada num regime monetário intra-europeu, que evite uma reestruturação ou um evento de crédito da dívida fundada, há que analisar o efeito de medidas monetárias não convencionais, para evitar certos desequilíbrios sistémicos e assegurar o valor facial dos colaterais. Por fim, será concertada uma agenda de inclusão económica (também na perspectiva de género), na qual se alavancará o reforço constante da resiliência do país”.

 

Tudo isto, evidentemente “em sede de” qualquer coisa.

 

Percebido? Ou será preciso juntar uma boa dose do intragável e manhoso "eduquês"?

 

Se a esta linguagem adicionarmos meia-dúzia de expressões em inglês para português ver e três siglas incompreensíveis para quase toda a gente, atingimos o zénite da perfeita comunicação para … não se entender.

 

  1. Um dos instrumentos fundamentais da ligação entre o Estado e os cidadãos é o jornal oficial, o Diário da República (DR), talvez aquele em que mais se mente. No DR, a simplicidade e a compreensão da linguagem deveriam ser imperativas. “𝐷𝑢𝑟𝑎 𝑙𝑒𝑥, 𝑠𝑒𝑑 𝑙𝑒𝑥”, bem sabemos todos nós, mas também para o Estado deveria ser “lei obrigatória, lei acessível ao comum dos mortais”.

 

Evidentemente que as leis são complexas do ponto de vista técnico. Mas, de há muitos anos a esta parte, acentua-se a legislação prolixa, opaca, labiríntica, ambígua até, cheia de “gorduras” (leia-se: redundâncias e adjectivação “robusta” até fartar).

 

Os próprios preâmbulos dos diplomas legais deveriam constituir uma oportunidade para, de uma maneira simples, clara e didáctica, descodificar as densas tecnicalidades das normas jurídicas.

 

Mas não. Basta dar uma olhadela por um qualquer dia do jornal oficial para perceber o deleite do legislador em complicar ainda mais o que, pela natureza do assunto, já é complicadíssimo. Está-lhe na massa do sangue e escorre pelos poros, num fluir interminável.

 

Para não vos maçar muito, ilustro com um sugestivo naco do extenso preâmbulo do Código do Procedimento Administrativo, aprovado pelo Dec. Lei nº 4/2015, de 7 de Janeiro:

 

“𝑀𝑒𝑟𝑒𝑐𝑒 𝑟𝑒𝑎𝑙𝑐𝑒 𝑎 𝑝𝑟𝑒𝑣𝑖𝑠𝑎̃𝑜 𝑑𝑎 𝑝𝑜𝑠𝑠𝑖𝑏𝑖𝑙𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒 𝑑𝑎 𝑐𝑒𝑙𝑒𝑏𝑟𝑎𝑐̧𝑎̃𝑜 𝑑𝑒 𝑎𝑐𝑜𝑟𝑑𝑜𝑠 𝑒𝑛𝑑𝑜𝑝𝑟𝑜𝑐𝑒𝑑𝑖𝑚𝑒𝑛𝑡𝑎𝑖𝑠 (𝑎𝑟𝑡𝑖𝑔𝑜 57.º). 𝐴𝑡𝑟𝑎𝑣𝑒́𝑠 𝑑𝑒𝑠𝑡𝑒𝑠, 𝑜𝑠 𝑠𝑢𝑗𝑒𝑖𝑡𝑜𝑠 𝑑𝑎 𝑟𝑒𝑙𝑎𝑐̧𝑎̃𝑜 𝑗𝑢𝑟𝑖́𝑑𝑖𝑐𝑎 𝑝𝑟𝑜𝑐𝑒𝑑𝑖𝑚𝑒𝑛𝑡𝑎𝑙 𝑝𝑜𝑑𝑒𝑚 𝑐𝑜𝑛𝑣𝑒𝑛𝑐𝑖𝑜𝑛𝑎𝑟 𝑡𝑒𝑟𝑚𝑜𝑠 𝑑𝑜 𝑝𝑟𝑜𝑐𝑒𝑑𝑖𝑚𝑒𝑛𝑡𝑜 𝑞𝑢𝑒 𝑐𝑎𝑖𝑏𝑎𝑚 𝑛𝑜 𝑎̂𝑚𝑏𝑖𝑡𝑜 𝑑𝑎 𝑑𝑖𝑠𝑐𝑟𝑖𝑐𝑖𝑜𝑛𝑎𝑟𝑖𝑒𝑑𝑎𝑑𝑒 𝑝𝑟𝑜𝑐𝑒𝑑𝑖𝑚𝑒𝑛𝑡𝑎𝑙 𝑜𝑢 𝑜 𝑝𝑟𝑜́𝑝𝑟𝑖𝑜 𝑐𝑜𝑛𝑡𝑒𝑢́𝑑𝑜 𝑑𝑎 𝑑𝑒𝑐𝑖𝑠𝑎̃𝑜 𝑎 𝑡𝑜𝑚𝑎𝑟 𝑎 𝑓𝑖𝑛𝑎𝑙, 𝑑𝑒𝑛𝑡𝑟𝑜 𝑑𝑜𝑠 𝑙𝑖𝑚𝑖𝑡𝑒𝑠 𝑒𝑚 𝑞𝑢𝑒 𝑒𝑠𝑡𝑎 𝑝𝑜𝑠𝑠𝑖𝑏𝑖𝑙𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒 𝑒́ 𝑙𝑒𝑔𝑎𝑙𝑚𝑒𝑛𝑡𝑒 𝑎𝑑𝑚𝑖𝑡𝑖𝑑𝑎.

𝑁𝑜 𝑛.º 2 𝑑𝑜 𝑎𝑟𝑡𝑖𝑔𝑜 57.º, 𝑎𝑙𝑒́𝑚 𝑑𝑒 𝑠𝑒 𝑑𝑒𝑖𝑥𝑎𝑟 𝑎𝑏𝑠𝑜𝑙𝑢𝑡𝑎𝑚𝑒𝑛𝑡𝑒 𝑐𝑙𝑎𝑟𝑜 𝑜 𝑐𝑎𝑟𝑎́𝑐𝑡𝑒𝑟 𝑗𝑢𝑟𝑖́𝑑𝑖𝑐𝑜 𝑑𝑜𝑠 𝑣𝑖́𝑛𝑐𝑢𝑙𝑜𝑠 𝑟𝑒𝑠𝑢𝑙𝑡𝑎𝑛𝑡𝑒𝑠 𝑑𝑎 𝑐𝑜𝑛𝑡𝑟𝑎𝑡𝑎𝑐̧𝑎̃𝑜 𝑑𝑒 𝑎𝑐𝑜𝑟𝑑𝑜𝑠 𝑒𝑛𝑑𝑜𝑝𝑟𝑜𝑐𝑒𝑑𝑖𝑚𝑒𝑛𝑡𝑎𝑖𝑠, 𝑐𝑜𝑛𝑓𝑖𝑔𝑢𝑟𝑎-𝑠𝑒 𝑢𝑚𝑎 𝑝𝑜𝑠𝑠𝑖́𝑣𝑒𝑙 𝑝𝑟𝑜𝑗𝑒𝑐𝑐̧𝑎̃𝑜 𝑝𝑎𝑟𝑡𝑖𝑐𝑖𝑝𝑎𝑡𝑖𝑣𝑎 𝑝𝑟𝑜𝑐𝑒𝑑𝑖𝑚𝑒𝑛𝑡𝑎𝑙 𝑑𝑎 𝑐𝑜𝑛𝑡𝑟𝑎𝑑𝑖𝑐̧𝑎̃𝑜 𝑑𝑒 𝑝𝑟𝑒𝑡𝑒𝑛𝑠𝑜̃𝑒𝑠 𝑑𝑒 𝑝𝑎𝑟𝑡𝑖𝑐𝑢𝑙𝑎𝑟𝑒𝑠 𝑛𝑎𝑠 𝑟𝑒𝑙𝑎𝑐̧𝑜̃𝑒𝑠 𝑗𝑢𝑟𝑖́𝑑𝑖𝑐𝑜-𝑎𝑑𝑚𝑖𝑛𝑖𝑠𝑡𝑟𝑎𝑡𝑖𝑣𝑎𝑠 𝑚𝑢𝑙𝑡𝑖𝑝𝑜𝑙𝑎𝑟𝑒𝑠 𝑜𝑢 𝑝𝑜𝑙𝑖𝑔𝑜𝑛𝑎𝑖𝑠.”

 

Claro como a mais cristalina água...

 

Para citar uma lei mais recente (Lei 27/2021, de 17 de Maio), com o título pomposo de “Carta Portuguesa de Direitos Humanos na Era Digital”, escolhi um ponto (artigo 6º n. 2), que tem suscitado muita querela política e que evidencia o seu grau de indeterminação adjectivante:

 

“𝐶𝑜𝑛𝑠𝑖𝑑𝑒𝑟𝑎-𝑠𝑒 𝑑𝑒𝑠𝑖𝑛𝑓𝑜𝑟𝑚𝑎𝑐̧𝑎̃𝑜 𝑡𝑜𝑑𝑎 𝑎 𝑛𝑎𝑟𝑟𝑎𝑡𝑖𝑣𝑎 𝑐𝑜𝑚𝑝𝑟𝑜𝑣𝑎𝑑𝑎𝑚𝑒𝑛𝑡𝑒 𝑓𝑎𝑙𝑠𝑎 𝑜𝑢 𝑒𝑛𝑔𝑎𝑛𝑎𝑑𝑜𝑟𝑎 𝑐𝑟𝑖𝑎𝑑𝑎, 𝑎𝑝𝑟𝑒𝑠𝑒𝑛𝑡𝑎𝑑𝑎 𝑒 𝑑𝑖𝑣𝑢𝑙𝑔𝑎𝑑𝑎 𝑝𝑎𝑟𝑎 𝑜𝑏𝑡𝑒𝑟 𝑣𝑎𝑛𝑡𝑎𝑔𝑒𝑛𝑠 𝑒𝑐𝑜𝑛𝑜́𝑚𝑖𝑐𝑎𝑠 𝑜𝑢 𝑝𝑎𝑟𝑎 𝑒𝑛𝑔𝑎𝑛𝑎𝑟 𝑑𝑒𝑙𝑖𝑏𝑒𝑟𝑎𝑑𝑎𝑚𝑒𝑛𝑡𝑒 𝑜 𝑝𝑢́𝑏𝑙𝑖𝑐𝑜, 𝑒 𝑞𝑢𝑒 𝑠𝑒𝑗𝑎 𝑠𝑢𝑠𝑐𝑒𝑝𝑡𝑖́𝑣𝑒𝑙 𝑑𝑒 𝑐𝑎𝑢𝑠𝑎𝑟 𝑢𝑚 𝑝𝑟𝑒𝑗𝑢𝑖́𝑧𝑜 𝑝𝑢́𝑏𝑙𝑖𝑐𝑜, 𝑛𝑜𝑚𝑒𝑎𝑑𝑎𝑚𝑒𝑛𝑡𝑒 𝑎𝑚𝑒𝑎𝑐̧𝑎 𝑎𝑜𝑠 𝑝𝑟𝑜𝑐𝑒𝑠𝑠𝑜𝑠 𝑝𝑜𝑙𝑖́𝑡𝑖𝑐𝑜𝑠 𝑑𝑒𝑚𝑜𝑐𝑟𝑎́𝑡𝑖𝑐𝑜𝑠, 𝑎𝑜𝑠 𝑝𝑟𝑜𝑐𝑒𝑠𝑠𝑜𝑠 𝑑𝑒 𝑒𝑙𝑎𝑏𝑜𝑟𝑎𝑐̧𝑎̃𝑜 𝑑𝑒 𝑝𝑜𝑙𝑖́𝑡𝑖𝑐𝑎𝑠 𝑝𝑢́𝑏𝑙𝑖𝑐𝑎𝑠 𝑒 𝑎 𝑏𝑒𝑛𝑠 𝑝𝑢́𝑏𝑙𝑖𝑐𝑜𝑠”.

 

Narrativas há muitas, ó legisladores! Estamos entendidos?»

 

Fonte:   https://www.facebook.com/antonio.bagaofelix

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:49

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Sábado, 23 de Janeiro de 2021

Professores e governantes andam muito preocupados com a interrupção das aulas, por poder prejudicar a aprendizagem dos alunos, mas não vejo nenhum deles preocupado com o maior dano de todos os danos: o AO90

 

Vêm todos para as televisões muito preocupados com a pausa de quinze dias (que podem ser mais, devido ao agravamento da pandemia), porque aqui d’el rei que está provado que se se interromperem as aulas perde-se o fio à meada da aprendizagem, como se não fosse possível recuar, para recomeçar. E tratando-se de crianças, elas têm uma capacidade extraordinária para aprenderem e desaprenderem e tornarem a aprender, e se for preciso desaprenderem novamente, para logo aprenderem outra vez, sem o mínimo prejuízo.

 

Mas isto, para os decisores, é um bicho de sete cabeças.

 

Contudo, a grande questão, o grande prejuízo, o grave problema, como refere o escritor Fernando Dacosta, para todos os alunos de todos os níveis de ensinos, é a aplicação da mixórdia ortográfica, que lhes andam a impingir nas escolas, abrangendo todas as disciplinas, todos os alunos, todos os professores.

 

Fernando Dacosta.png

 

A Língua Portuguesa bem estruturada e gramaticalmente bem construída é o PILAR de toda a aprendizagem. É absolutamente fundamental, porque o desenvolvimento da inteligência acompanha a evolução da linguagem.

 

Comunicação, informação, memória cultural, transmissão, inovação e ruptura: eis o que a linguagem permite à inteligência. Clarificação, organização, ordenamento, análise, interpretação, compreensão, síntese, articulação: eis o que a inteligência oferece à linguagem.

 

Isto está estudado. E quem tiver curiosidade de aprofundar o assunto vá à Internet e procure os muitos estudos já realizados, que o comprovam.

 

«Fechar as escolas era liquidar o ano lectivo» disse Marcelo Rebelo de Sousa, antes de se fecharem as escolas. Contudo, o ano lectivo, à partida, já está liquidado, pelo vergonhoso ensino da mixórdia ortográfica portuguesa (novo nome da disciplina de Português), que anda a gerar os analfabetos funcionais do futuro.

 

O ensino está um verdadeiro caos. Só os cegos mentais não vêem isto.

 

Neste País de faz-de-conta fechem-se as escolas e faça-se de conta que houve um chumbo colectivo. Afinal, a aprendizagem já está perdida, há muito.

 

Aproveite-se o fecho das escolas para:

 

- Qualificar o desqualificado ENSINO.

- Dar melhor formação aos professores, nomeadamente aos de Português, para que saibam ler, escrever, usar e falar correCtamente (nada de usar o verbo TAR) a Língua Portuguesa. O nosso País chama-se PORTUGAL.

- Atirem-se ao lixo os manuais escolares amixordizados, e editem-se manuais escorreitamente escritos, em Bom Português.

- Reponha-se a ortografia portuguesa de 1945.

- Revejam-se as matérias curriculares.

- Tornem o ensino mais criativo. Mais aliciante.

- Ensinem os alunos a PENSAR. Não, a simplesmente obedecer.

 

Depois, abram as portas das escolas, e deixem entrar a LUZ do SABER.

 

Só então teremos escolas a cumprir a sua função:  formar os alunos para o exercício de uma cidadania responsável, em que conte, acima de tudo, o amor pela Cultura e Língua Portuguesas.



Ouvi António Costa dizer que se fechassem as escolas teríamos maus políticos no futuro (mais ou menos isto). Não é verdade. Tanto quanto sabemos, as escolas, que os actuais políticos frequentaram, nunca fecharam, e os políticos são o que são: péssimos!


Ouvi também António Costa dizer, a propósito das restrições da pandemia, que não teria vergonha de recuar (mais ou menos isto).

 

Pois então? Também não tenha vergonha de recuar no que ao Acordo Ortográfico de 1990 diz respeito, porque é o maior erro de todos os erros que os políticos já cometeram.

 

Até porque recuar, para melhorar, é da INTELIGÊNCIA.

Manter o erro é da estupidez! E não sou apenas eu a dizê-lo.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:39

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Quinta-feira, 5 de Novembro de 2020

«Perda de Nave Espacial» - um conto que veio de Itália, em Bom Português, onde se fala da importância da linguagem e da preservação da diversidade cultural interplanetária

 

Matilde Maruri Alicante, autora deste conto futurista escrito por volta de 1995, é uma escritora italiana, bastante versátil, que ama muito Portugal e estudou a Língua Portuguesa com paixão, tendo viajado bastante pelo nosso País.

 

Matilde Maruri Alicante dá-me a honra de ser minha amiga, há longos anos. E do mesmo modo que ela ama Portugal, eu amo a Itália, e este facto contribui para que partilhemos as nossas duas Culturas e Idiomas, se bem que eu não seja capaz de escrever Italiano tão perfeitamente como ela escreve Português.

 

Matilde tem publicado vários livros sobre diferentes temas, alguns deles dedicados à agricultura biológica e à ecologia. Também escreve artigos para a Web e para revistas, especialmente sobre viagens e culinária, dois temas que facilitam os encontros pacíficos com culturas diferentes.

 

Também gosta muito de música e escreve letras para canções, que foram publicadas em alguns CDs.

 

***

A personagem deste conto chama-se João, é arquivista no Departamento Danos da P.U.A., uma Companhia de Seguros, com a tarefa de classificar as práticas definidas, dividindo-as de acordo com o idioma do sistema do planeta ou do sistema estrelar a que pertenciam, tendo sido adoptado um método diferente de divisão territorial: a da linguagem.

 

Outros elementos de avaliação, para que a um território pudesse ser dada a qualidade de nação unida, eram, juntamente com a linguagem, a arquitectura, os hábitos das pessoas e o tipo de cozinha.

 

O enredo situa-se num futuro possível, onde se pratica um intercâmbio de idiomas e de hábitos culturais, deixando intacta a variedade de costumes locais.

 

Recomendo vivamente a leitura deste conto, por dois motivos: por ter sido escrito num Português impecável, por uma escritora estrangeira, e por conter uma ideia de futuro, muito interessante.

Isabel A. Ferreira

(Clicar na imagem para ouvirem o coro no YouTube)

 

(…) na Terra tinha sido criado um coro em que participavam todos os habitantes.

 

Por Matilde Maruri Alicante

matildemarurialicante@gmail.com

 

«Perda de Nave Espacial»

 

João estava sentado no seu local de trabalho, numa grande mesa de escritório transparente, parcialmente ocupada por um teclado grande e alguns monitores quando o videofone enviou um sinal. Quando ele aceitou a comunicação apareceu a imagem sorridente do seu amigo Paulo.

— Como estás? — perguntou Paulo.

— Sinto-me como se tivesse sido bombardeado. — respondeu João — Tive a ideia de celebrar todos os primeiros dias da Terra, e fiquei acordado a beber champanhe a cada meia-noite. Fiz um brinde a cada minuto, a todas as horas. Encontras-me aqui, porque se tivesse ficado em casa para o trabalho, como de costume, teria arriscado adormecer no teclado.

— Parabéns! — disse Paulo, rindo.

— Obrigado. — respondeu João — também te desejo um Feliz Ano Novo. Então, vamos encontrar-nos amanhã de manhã para fazer jardinagem?

— Certamente. — Paulo confirmou — Às cinco e meia está bem?

— Para mim, sim. Vou dirigir-me directamente ao Parque das Magnólias. Quantos somos? Julgas que podemos terminar o trabalho em tempo para as Férias da Primavera? 

Paulo respondeu amavelmente às muitas perguntas do amigo. Ele tinha uma voz bonita e profunda, e estava sempre calmo, o que tornava muito agradável a companhia dele.

— Somos vinte e oito. Não te preocupes, João, naquela altura o Parque vai ficar esplendoroso.

— Bem, até mais tarde. — Concluiu João.

 

João terminou a comunicação e recomeçou a trabalhar. Era arquivista no Departamento Danos de uma grande Companhia de Seguros, com a tarefa de classificar as práticas definidas, dividindo-as de acordo com o idioma do sistema do planeta ou do sistema estrelar a que pertenciam. Seguia o turno 9/5, que é o que ia das nove da noite até às cinco da manhã, ideal para a sua natureza nocturna. Paulo era um dos seus melhores amigos, um daqueles com que, depois do trabalho, ia contemplar o nascer do sol, comer alguma coisa e passar o tempo até ao momento de ir dormir, para acordar ao entardecer, quando, com a energia lunar, a sua lucidez mental começava a aumentar.

 

Na verdade, falar sobre dia e noite já não tinha o significado de uma época em que a alternância da escuridão e luz marcava o ritmo de trabalho e descanso. Já há muitas centenas de anos que as actividades na Terra continuavam durante todas as vinte e quatro horas. Por outro lado, de nenhuma outra forma teria sido possível satisfazer a necessidade de manter a comunicação com dezenas de planetas que mediam o tempo com métodos diferentes. A única possibilidade era estar constantemente presentes e à escuta.

 

Esta decisão foi tomada por todos os governos dos planetas do sistema, no primeiro dia da terceira era astral. Desde então, todos os habitantes do planeta tiveram a oportunidade de escolher o turno mais congenial para eles. Na Terra foram estabelecidos três turnos: o primeiro, das nove da manhã até à uma da tarde, o segundo da uma da tarde até as às nove da noite, a terceira, das nove da noite até às cinco da manhã. Para abreviar e por piada, os trabalhadores do primeiro turno tinham sido apelidados de cotovias, os do segundo, cigarras e os do terceiro, corujas. Mesmo aqueles que tinham um trabalho independente tiveram livre escolha para trabalhar quando preferiam. A única condição importante era a continuidade de cada serviço, de maneira que todos, cotovias, cigarras ou corujas, que fossem, podiam fazer qualquer coisa em qualquer momento.

 

Durante o mesmo período, bem como uma divisão diferente dos turnos de trabalho, também havia sido adoptado um método diferente de divisão territorial, a da linguagem. Consideravam-se como pertencentes à mesma zona da Terra, os lugares onde as pessoas falavam a mesma língua, com o conceito de que para a homogeneidade da população e o bom funcionamento do comércio e dos assuntos internos fosse suficiente comunicar com a mesma linguagem.

 

Contudo, porque em todos os lugares era absolutamente proibido o isolamento, os habitantes dos planetas que estavam relacionados entre si deviam ser capazes de falar tanto a linguagem matemática universal quanto pelo menos três línguas além da sua própria, de maneira que fosse possível comunicar em qualquer lugar do próprio planeta e com um bom número de planetas em outros sistemas. Se, no decurso do tempo, por qualquer motivo, tivessem ocorrido mudanças na língua de um lugar, também se mudava a divisão do território. Uma comissão especial de estudiosos, que continuamente exploravam cada planeta, estava encarregada de tomar nota de todas as mutações, a fim de redesenhar as fronteiras territoriais quando as variantes do idioma indicavam que a mentalidade das pessoas já não era a mesma.

 

Outros elementos de avaliação, para que a um território pudesse ser dada a qualidade de nação unida, eram, juntamente com a linguagem, a arquitectura, os hábitos das pessoas e o tipo de cozinha.

 

Naquela altura, foi longamente debatido se não seria conveniente uniformizar a língua, as leis e costumes de toda a Terra. Concluiu-se que teria sido tão desconfortável e limitativo para os seres humanos que foi decidido aceitar a realidade tal como ela era, irredutivelmente multifacetada. Em vez disso, foi dado o impulso máximo para a melhoria dos sistemas de informação, que ao longo do tempo se tornaram tão rápidos e precisos para compensar quaisquer diferenças. Além disso, com a participação de todos os representantes das várias jurisdições territoriais, foi escrita uma Constituição Interplanetária que estabelecia de maneira simples os elementos básicos para o bom funcionamento da vida, que as pessoas respeitavam em todos os lugares. Desta forma foi alcançado o nível de uniformidade necessário para manter um sentido de coesão entre os habitantes de todos os planetas, deixando intacta a variedade de costumes locais.

 

O resultado dessas mudanças foi um alto grau de liberdade das pessoas, que podiam ir a qualquer lugar do planeta sempre se sentindo aceites, contanto que falassem a linguagem do lugar. Ocorreram casos de nações inteiras que, ao fim de se transferirem para outras jurisdições, tinham mudado completamente de alimentos, casas, e língua, e nunca a transferência foi negada, pelo princípio de que nenhum movimento interno poderia comprometer a integridade do planeta.

 

As estatísticas diziam que nos países onde tinha sido decidido adoptar uma diferente linguagem e cozinha, a fim de obter a transferência para outras jurisdições havia um alto grau de harmonia, que se havia criado especialmente quando todas as pessoas se tinham reunido no esforço e no trabalho colectivo para aprender o novo idioma e os novos hábitos alimentares. Também parecia que as mudanças tiveram uma influência positiva sobre o humor das pessoas, porque todos que se mudavam tinham a convicção de fazê-lo para melhor e ficavam satisfeitos.

 

Desta forma, a vida nos planetas estava sempre muito movimentada. Havia sempre alguém que estava a mover-se de um lado para o outro, e havia muitas escolas onde se aprendia línguas, modos de cozinhar e construção de habitações.

 

Também foram instituídos inúmeros centros interplanetários, muito frequentados, onde era possível estudar e praticar os modos de vida e de produção dos outros planetas conhecidos. Estes centros enviavam à Terra grupos virtuais de pessoas capazes de apresentar o modo de vida do planeta deles. Os terrestres, que queriam aprendê-lo, poderiam viver por um tempo com esses grupos, a fim de fazer experiência directa dos hábitos deles. Claro, também era possível o contrário, e os usos da Terra foram estudados em centros interplanetários de outros planetas.

 

Tal fervoroso uso de energia para a aprendizagem, ao longo do tempo, tinha produzido um efeito inesperado. Na Terra, as guerras acabaram. Parecia que as pessoas, atarefadas e ocupadas em criar algo, tinham perdido o desejo de gastar tempo em empresas destrutivas.

 

Muitos comprometeram-se a criar objectos, sistemas ou teorias que facilitassem a vida. Desta forma foram criados roupa e calçado resistentes a tudo, tornando possível viajar através do espaço sem qualquer dificuldade. Na verdade, até mesmo as viagens eram muito populares. As pessoas partiam para qualquer destino e por várias razões, desde as pesquisas geológicas à participação em torneios, aos tratamentos de SPA, meditação e estudo. Praticavam-se as actividades desportivas mais variadas, e cantar era uma grande diversão para a maioria.

 

Na Terra, tinha sido criado um coro em que participavam todos os habitantes. Todos aqueles que queriam cantar eram designados para uma secção, de acordo com o tipo de voz e o lugar onde viviam. Como não era possível que os participantes se reunissem num único lugar todos cantavam a partir da própria casa.

 

A distância entre os cantores fez surgir o problema de obter a unidade e a contemporaneidade da constelação de vozes provenientes de diversas fontes, que empregavam tempos diferentes para alcançar os pontos de escuta. Por isso, foi posto em órbita em torno da Terra uma grande estação de rádio, que captava o som das vozes de todos os cantores e fundia-as num som único. Aqui era onde realmente todas as vozes se harmonizavam entre si e o coro se formava. De lá, o som era retransmitido para a Terra para ser ouvido.

 

Encontrar a concordância certa entre todos foi um trabalho complicado, mas acabou por fazer parte da diversão. Às vezes, organizavam-se competições com outros planetas, e um júri interplanetário premiava os melhores coros.

 

Este processo foi começado por acontecimentos muito distantes no tempo. Por muitos anos, a humanidade havia sido consumida por guerras devastadoras, desencadeadas pelas causas mais diferentes. Tentou-se evitá-las ou limitá-las de várias maneiras, mas quase sempre em vão, até que se decidiu deixar tudo acontecer.

 

A partir desse momento realmente aconteceu tudo, muitas pessoas tinham morrido e muitos países tinham sido destruídos, enquanto a Terra mergulhava no caos. Contudo, curiosamente, juntamente com as guerras e destruição, até mesmo o exacto oposto acontecia, pois nas pessoas nascia o desejo e a necessidade de reconstruir, de qualquer forma, o que tinha sido destruído e experimentar o prazer de fazer, de inventar, de criar e construir. Todos aqueles que tinham construído algo estavam preocupados com o facto de uma nova guerra poder destruir a produção deles e estavam interessados em não fazer desencadear outras.

 

Foi assim que com o tempo a antiga tendência bélica cessou. Como cada vez menos pessoas estavam dispostas a combater, já não foi possível formar exércitos, e os governantes que queriam fazer a guerra contra alguém não tinham quem a fizesse. Para satisfazer o seu próprio desejo de poder, por vezes organizaram duelos entre eles, com a ideia de que o vencedor do duelo venceria a guerra e ganharia o poder. Não funcionou, era uma ideia demasiado estúpida, mas ver chefes de Estado em estádios e arenas a lutar com punhos, com armas de fogo, espadas, paus e de outras formas fantasiosas foi um espectáculo muito divertido para toda a população.

 

Não durou muito, porque eles próprios, os chefes de Estado, além de não ter a mínima preparação física e psicológica, compreenderam que isso tudo era ridículo e sem sentido, abandonaram a ideia por completo e começaram a tentar encontrar acordos e colaborar. Descobriram então que não era impossível.

 

Então, estranhamente e, paradoxalmente, as guerras terminaram apenas quando não se tinha feito nada para evitá-las.

 

Todavia, foi uma época terrível, um período obscuro que durou centenas de anos, e mesmo naquele tempo, mesmo quando no final tudo tinha terminado bem, os historiadores não tinham certeza se deixar tudo acontecer tinha sido uma boa ideia. Em qualquer caso, as coisas tinham corrido assim.

 

Entre os muitos amigos de João também havia Gri, que vivia num mundo onde o modo de vida era parecido com o praticado na Terra, muitos séculos antes. João tinha-a conhecido no dia em que todos os coros terrestres tinham cantado juntos para celebrar o aniversário da Grande Paz. Gri ficou fascinada com aquele canto de milhões de vozes, e na tentativa de entrar em contacto com algum terrestre, encontrou João. Ele tinha-lhe explicado que cantar era uma arte cultivada por quase todos na Terra, porque harmonizava e facilitava a comunicação, também explicando como eles tinham conseguido superar as dificuldades relacionadas com as distâncias e diferenças de tempo.

 

A partir de então eles sempre se mantiveram em contacto. Graças a ela, João conseguiu um conhecimento profundo de muitos factos do passado, cuja documentação tinha sido destruída durante o longo período de guerras. Com grande emoção João havia estudado todos os eventos que tinham levado ao que foi chamado de Unificação, a união de todos os países e povos da Terra, e o longo debate sobre a conveniência de unificar também as línguas e costumes, um debate que se tinha concluído com a decisão unânime de aceitar a existência da diversidade, considerando-a um valor e uma fonte de ensino.

 

No entanto, por vezes, os discursos de Gri irritavam um pouco João. Na opinião dela, por exemplo, os terrestres estavam demasiado envolvidos em trabalhos, reservando pouco tempo à diversão.

 

Neste ponto João não tinha a certeza de entender bem. Claramente ele entendia a fórmula que Gri usava para definir a diversão, mas porque na Terra a mesma fórmula era utilizada para indicar o trabalho, excepto por um factor que indica a existência de um pagamento, um factor que era adicionado ou removido conforme o caso, intuía que Gri talvez estivesse a referir-se a outra coisa. Formulou a hipótese de que fosse beber, embebedar-se, dançar desenfreadamente, fazer barulho e confusão, mas não quis aprofundar.

 

Igualmente, escapava-lhe o conceito de riqueza, que Gri explicava com a fórmula "possuir muitos objectos". Ou, melhor, porque a hipótese de não possuir muitos objectos, não ter riqueza, não serem ricos, devia causar, na opinião dela, um sentido de falta e sofrimento. Em conclusão: ele não compreendia porque é que as pessoas podiam sofrer por não serem ricas (ou "não possuir muitos objectos"). De facto, ele, em nenhuma das suas muitas viagens, tinha encontrado alguém que parecesse "possuir muitos objectos", embora ninguém deles se queixasse por um sentido de falta de qualquer coisa e parecesse sofrer por isso.

 

João neste caso considerava muito estranhas as fórmulas matemáticas de Gri. Ele compreendia os termos um por um, mas não conseguia alcançar o resultado final. Às vezes, ele tinha a sensação de que pertenciam a outro sistema matemático.

 

Outro ponto em que a sua amiga levantava objecções era no que respeita aos edifícios e às casas. Estas pareciam-lhe muito extravagantes no exterior, e sempre muito "vazias" no interior. Pelo contrário, João considerava as casas da Terra muito lindas. Todas. As subterrâneas, as grandes plataformas na água, aquelas em forma de ovo ou de cúpula, as grandes pirâmides. Cada uma tinha a sua própria razão de ser construída daquela determinada maneira e naquele determinado lugar, cada uma era um laboratório para absorver luz e calor e ou rejeitá-los, para reabastecer elementos úteis, como água e processar resíduos. Ele tinha uma predilecção especial pela casa de Kyria, uma espécie de cogumelo muito alto, no qual se tinha continuamente a sensação de partir em voo.

 

Gri julgava apenas aceitável o edifício de quarenta andares que era a sede da P.U.A., a Companhia de Seguros para a qual João trabalhava, talvez porque este fosse parecido com as construções do planeta dela. Na verdade, o prédio reflectia um certo grau de atraso, era preciso dizer, tal como a empresa e a sua propensão para as hierarquias. A cada andar correspondia uma posição mais ou menos influente no trabalho, e este sistema tinha o poder de criar uma mentalidade em que as palavras "alto" e "baixo" estavam ligadas subtilmente e obscuramente ao valor das pessoas que ocupavam o andar. Embora João, como a grande maioria dos terrestres, trabalhasse na sua casa, mantendo-se razoavelmente alheio a essa influência, ele compreendia que, de alguma forma, era igualmente tocado. E isto não lhe agradava muito.

 

João continuou a armazenar documentos. A um certo ponto virou a cabeça para espirrar e... viu dois indivíduos que pareciam enormes morcegos, um mais claro e um mais escuro. E o espirro ficou por dar.

 

— Quem são vocês? — perguntou alarmado, levantando-se precipitadamente.

Os dois estavam à frente dele, imóveis.

— Silêncio — ordenaram eles — Senta-te.

João sentou-se e ficou imóvel, mais pela surpresa do que pelo medo, a observá-los com atenção. Eles eram mais altos e grandes do que qualquer terrestre, e pareciam seres racionais. Conversaram por um momento entre eles, numa língua desconhecida, fazendo um barulho como um ventilador que chiasse pondo-se em movimento:

Ppprrrrcccssssfffnnntttttmmmnnnntttnnntttllllgggnntttvvvvmmmssstttnnntttrrrr

Depois, um deles perguntou:

— Quem és tu?

— O meu nome é João.

— O que estás a fazer aqui? — insistiram os dois.

— Este é o meu trabalho. Pergunto o que estão a fazer vocês! — João respondeu numa voz irritada.

— Silêncio. Temos de te eliminar. — Decretaram os dois.

 

Em João a surpresa superava o medo, tanto que a única coisa que consegui dizer foi:
— Porquê?

— Lembras-te de que há algum tempo se perdeu uma nave espacial em voo do planeta X428 para o planeta Yh3 após uma aterragem de emergência em Zy18?

João era um bom arquivista, com boa memória e conseguia lembrar-se do incidente. Parecia-lhe completamente sem sentido que dois estranhos tivessem chegado tão longe do nada e se apresentassem dessa forma apenas para pedir informações sobre uma prática arquivada. Podiam simplesmente enviar-lhe uma mensagem, poupando tempo, energia e ameaças aterrorizantes.

No entanto, ele respondeu de maneira neutra, tal como óptimo profissional que era:

— Sim. Sei que foi aberta uma prática para a regularização.

Os dois observaram-no por um tempo, ameaçadoramente, ou assim julgou João, depois começaram a pressioná-lo com perguntas e pedidos de esclarecimento. Para João, ficou claro que só queriam respostas prontas, precisas e concisas e que quanto mais ele hesitasse, tanto mais ele iria irritá-los.

— Sabes também que o prejuízo não foi pago? — perguntaram os dois.

— Sim. — confirmou João — Não era indemnizável. A perda ocorreu antes do início da garantia.

— Isto é o que afirma a P.U.A., mas deves ter em conta o facto de que o navio estava a viajar num sistema com o tempo diferente do da Terra, e para determinar que o dano não era indemnizável, porque a perda ocorreu antes do início da garantia, vocês teriam de fazer a conversão do horário.

— Não compreendo. — Objectou João — Esta operação é realizada normalmente, e foi realizada, como sempre.

— Claro, mas é preciso fazê-la correctamente. — Objectaram os dois ao mesmo tempo — Neste caso, o planeta em que ocorreu o acidente é parte de um sistema cujos horários ainda não estão definitivamente codificados. A P.U.A conseguiu ter vantagem nisso, para elaborar a tese de que o prejuízo não é indemnizável, ignorando evidências claras tais como as gravações de sinais de alarme lançados a partir da nave antes de se precipitar, e captado por pelo menos cinco planetas, com horários diferentes dos da Terra, mas codificados e reconhecidos. Através deles é possível determinar, com precisão absoluta, quando o episodio ocorreu. E naquele tempo o risco estava coberto.

— E se o que vocês dizem é verdade porquê a P.U.A. não tomou em conta as evidências apresentadas? — Perguntou João.

— Para evitar uma despesa, claro. Não é a primeira vez, já sabemos isso, que a P.U.A. intenta fazer operações semelhantes, mas eles não vão acabar com esta. O Conselho do nosso planeta decidiu não o permitir.

— Vocês poderiam recorrer para o Conselho Interstelar.

— Já fizemos isso, e estamos à espera de uma decisão deles, mas, ao mesmo tempo, decidimos punir a P.U.A. destruindo a sede deles. Agora temos de eliminar-te a ti, que tentarias avisar o Centro de Vigilância, da nossa presença.

João ficou pálido, mas conseguiu controlar-se e, com o máximo de dignidade possível, propôs:

— Não façam isso! Não me matem, eu posso ajudar.

— Como julgas que podes ajudar?

— Posso fazer com que vocês obtenham a compensação para o navio perdido.  Posso autorizar a regularização, sem que ninguém se aperceba de nada. Pensem nisso, seria conveniente para vocês.

— De acordo, aceitamos. — disseram os dois ao mesmo tempo — Agora descreve com precisão e em pormenor tudo o que vai acontecer para se obter o resultado do que estás a prometer. Declara todos os gestos e movimentos que vais fazer e cuida de fazer isto com muita precisão. Se algo não corresponder vamos eliminar-te.

 

Então João explicou o procedimento com meticulosidade, enquanto os dois ouviam atentamente. Teria sido necessário ir até ao trigésimo nono andar e trabalhar a partir do computador do chefe do ramo Aeronaves, Departamento Danos, chamando o ficheiro para confirmar a ordem de pagamento. João silenciosamente esperava que isto acabasse bem para ele.

— Não te preocupes. — disse um dos dois extraterrestres - Se fizeres tudo o que disseste, não estás a correr riscos. Lembra-te de que que nós estamos aqui porque foi cometida uma injustiça contra nós. Atacar sem razão não é nosso hábito.


João experimentou uma sensação estranha. Na verdade, não foi a primeira vez que aconteceu desde que aqueles dois tinham aparecido. Sempre que olhavam para ele, parecia-lhe ser atravessado por uma onda. Era uma sensação tão subtil, vaga e nova que ele não conseguia analisá-la, menos do que nunca na condição de humor em que se encontrava naquele momento. Ele tinha mesmo a impressão de que os dois eram cegos, embora se apercebessem de qualquer coisa com precisão. Quase parecia que eles não viam com os olhos, que também tinham, mas de alguma outra forma misteriosa. Talvez ele estivesse errado, mas… lembrou-se de um velho ditado do seu avô: "Nada vem do vazio". Talvez, pensou, nem este sentimento surgisse do vazio, do nada. Em qualquer caso, não havia tempo para pensamentos desses. O facto era que os dois entendiam perfeitamente tudo o que estava a acontecer ao redor deles, e qualquer especulação era inútil.

 

Os dois extraterrestres fizeram-lhe um sinal para ele agir. João extraiu o file do arquivo e inseriu-o na memória do computador do chefe do Ramo Aeronaves, Departamento Danos. Depois, seguido pelos dois, deixou o seu escritório e dirigiu-se para a Sala dos Elevadores, uma grande sala com paredes e chão brancos. Naquele momento ele teve uma ideia: se tivessem apanhado o elevador número quarenta em vez do número trinta e nove, teriam chegado directamente à Sala de Vigilância, onde os extraterrestres teriam sido capturados. Uma boa acção, que teria impedido os dois de conseguir o que queriam, enquanto ele, graças a este acto de heroísmo, poderia obter a promoção que desejava. Esperou conseguir, o número do elevador estava gravado na placa do comando de chamada, talvez os dois não tivessem reparado em nada. João parou em frente do elevador número quarenta.

— O que está a acontecer? — perguntou um dos extraterrestres.

— Como? — João perguntou, fingindo não compreender, enquanto as suas costas eram atravessadas por um calafrio.

— Há algo errado. — Continuou o outro extraterrestre.

— Estamos no lugar errado. — Conclui o primeiro, com uma voz ameaçadora.

— Não digam disparates! — protestou João — Estamos na Sala dos Elevadores, em frente do elevador número trinta e nove, que nos levará aos escritórios do Ramo Aeronaves...

Os dois interromperam-no com uma ordem:

— Verifica o número do elevador!

João fê-lo, com a sensação de que a sua vida estava perigosamente em risco.

— Vocês estão certos — confirmou debilmente, depois de fingir verificar — estamos no lugar errado. É o número quarenta...

 

Um dos dois extraterrestres interrompeu severamente a tentativa de justificação de João:

— Continua, terrestre. Não estás a correr risco de vida, se executares exactamente o que disseste, então acalma-te. Mas lembra-te de que não deixamos passar nada. Não faças outros erros de qualquer tipo.

 

João calou-se, perguntando a si mesmo como aqueles dois tinham sido capazes de se aperceberem de algo que não era visível, porque as portas dos elevadores eram todas iguais e o número não estava escrito em nenhum lugar visível. Em qualquer caso, ele abandonou a ideia de evitar esse pagamento à P.U.A.. A sociedade tinha dinheiro, podia pagar, e talvez aqueles dois estivessem a agir no seu direito. Não era a primeira vez que João tinha visto rejeitar injustamente a regularização de um dano.

 

Chegaram ao trigésimo nono andar e as portas do elevador abriram-se, em frente de um espelho enorme. Automaticamente João observou a imagem e viu um homem jovem e bonito, com cabelos loiros e corpo atlético, a única figura que espelho reflectia. Voltou-se para atrás com um sobressalto, à procura dos morcegos com o olhar. Os dois estavam lá, a meio passo dele. João perguntou porque não tinha visto a imagem deles no espelho.

— Vai para a frente — ordenou um dos dois. Depois, com uma gargalhada infantil que parecia uma chiadeira, ele continuou:

— Não percas tempo a olhar para ti, és feio e assim vais ficar.

Essa observação irritou João. Pensou que se entre os três havia alguém que poderia ser chamado feio, certamente não era ele. Todavia, naquele momento a coisa mais importante era descobrir por que não tinha visto a imagem dos dois, que estavam ao lado dele. Mas os dois extraterrestres não lhe deram tempo para pensar.

— Depressa! — ordenaram, interrompendo as suas reflexões.

 

Chegado à mesa, João começou a operação. De repente lembrou-se de que de cada escritório poderia lançar um alarme. O sinal chegava directamente à Sala de Vigilância, da qual os guardas partiam para fazer um controle imediato. E Sala de Vigilância era apenas um andar mais acima. João pensou que talvez conseguisse, teria sido suficiente carregar numa tecla, no mesmo teclado em que estava a trabalhar.

 

— Pára! O que está a acontecer? — A voz de um dos extraterrestres paralisou-lhe os dedos.

— Calma, não está a acontecer nada. — respondeu João.

— Porque estás a agitar-te, então? — perguntou o extraterrestre.

— Não estou a agitar-me, estou agitado. — Salientou João.

— Tens de ficar agitado de maneira constante, então. — Disse um dos extraterrestres — Se tiveres um pico, eu estou autorizado a pensar que algo de anormal está a acontecer.

Um pico? João tentou adivinhar o que o morcego estava a dizer exactamente. Um pico, sim, mas um pico de quê? Depois teve uma espécie de iluminação. Talvez os dois fossem capazes de medir o seu electroencefalograma, ou até mesmo ler os seus pensamentos? Teve a desagradável sensação de que não iria participar nas próximas Festas de Primavera.

— Tu és estúpido, terrestre. Feio e estúpido. Deixa de especular e fazer tentativas para salvar a tua empresa desonesta e continua o trabalho. Faz o que disseste e vais participar nas tuas Festas de Primavera.

Os dois resmungaram entre eles, enquanto João fechou os olhos. Era assim, concluiu, lêem o pensamento! Continuou a inserir dados, resignado. Faltava pouco para acabar.

— Acabei. — disse um momento depois — Agora a regularização está autorizada e a operação é irreversível. Digam-me onde e como vocês desejam que o valor seja pago.

Os dois deram-lhe instruções e num instante tudo foi feito. João estava aliviado. A P.U.A. teria de pagar uma soma enorme, mas a vida dele estava salva.

 

De repente, ouviu-se um barulho. Certamente era uma patrulha de vigilância. João levantou-se rapidamente e dirigiu-se correndo para a saída, tal como os dois extraterrestres. Correndo desordenadamente perdeu o equilíbrio, vacilou numa tentativa de mantê-lo e, finalmente, caiu sobre os dois. Ou melhor, no chão, porque os dois tinham a consistência do ar.

 

João ficou deitado no chão. Não estava a compreender absolutamente mais nada. Aqueles dois estavam lá à frente dele, mas era como se não existissem. Com um fio de voz perguntou:

— Mas... mas... mas quem são vocês?

— Terrestre, tu és realmente estúpido. — insultaram-no os extraterrestres.

João então irritou-se.

— Já chega! Vocês ameaçaram-me de morte, forçaram-me a trair a empresa em que trabalho, e...

— Pára um momento. — responderam os dois. Eles costumavam falar juntos, de facto, mas tão em uníssono que as duas vozes se fundiam em uma — porque "forçado a trair"? Tu és que propuseste ajudar-nos a recuperar o que nos pertence. Tínhamos de recusar?

João gritou:

— E eu o que deveria ter feito, na vossa opinião?

— Deixar-te eliminar. — responderam os dois ao mesmo tempo, imperturbáveis — Desta forma terias sido fiel à tua empresa. Evidentemente não era isso o mais importante para ti. Se não tivermos entendido mal, e nós dificilmente entendemos mal, tu estás muito mais interessado em tornar-te chefe do teu departamento e participar nas Férias de Primavera. De que te queixas? Agora estás vivo, podes fazer isso. Além disso, ouve bem, e a menos que não sejas completamente estúpido, tens de entender que não cometeste nenhuma traição.

— Expliquem-se melhor. — João ordenou.

— O que terias feito se tivessem ameaçado a vida do teu amigo, aquele que ligou para ti e com quem irás cuidar das plantas, no Parque das Magnólias?

— Teria tentado impedi-lo. — respondeu com decisão João.

— De que maneira? — indagaram os dois.

— Não sei, teria tentado desarmá-los. — João respondeu, irritado com a insistência de tantas perguntas dos dois indivíduos.

— Terrestre, não estamos armados. — Observaram os dois, com uma expressão indefinível.

João olhou para eles com os olhos arregalados, reparando que realmente não estavam armados. Contudo, ele não podia acreditar nos seus olhos. Teria jurado ter visto umas armas. Queria ter tido tempo para reflectir, mas os dois extraterrestres continuaram a argumentar de maneira insistente:

— Em qualquer caso, estarias disposto a arriscar a tua vida.

— Paulo é o meu amigo mais querido! — defendeu-se João.

— E a tua amada empresa? — insinuaram os dois — Porquê não tentaste "desarmar-nos" para salvar os interesses dela?

— Não é a mesma coisa! E em qualquer caso eu tentei, mas correu mal. — João levantou novamente a voz.

— Sim, não é a mesma coisa, mas em que pensaste, realmente, em frente do elevador? Na vantagem da tua empresa ou na possibilidade de conseguir uma promoção?

João ficou em silêncio. A maneira de agir dos dois e o tom de voz deles incomodava-o enormemente, mas não conseguia encontrar as palavras para contradizê-los.

— E sabes por que ficaste tão rapidamente convencido a "trair", como dizes, a tua empresa?

João não respondeu e os dois continuaram:

— Porque sabes bem que temos razão, que a P.U.A. estava errada nesta ocasião e em muitas outras. O que temos dito confirmou o que já pensavas. Se tivesses uma opinião diferente da tua empresa, se estivesses convencido de que é irrepreensível, se tu mesmo não tivesses culpas para imputar-lhes, não terias sido tão condicionável. Terias ousado mais, como para defender a vida do teu amigo Paulo.

João seguia atentamente as argumentações dos dois extraterrestres. As palavras deles, que apenas alguns minutos antes chamava mentalmente de "monstros", inspiravam-lhe um sentido de respeito. Mesmo a palavra "morcegos" parecia apagada da mente dele.

— Por que caíste no chão em vez de caíres em cima de nós, como acreditavas? — continuaram os dois.

— Porque vocês não têm um corpo concreto. — João respondeu num sussurro.

— E por que não viste a nossa imagem no espelho, e com os teus olhos, podes ver-nos muito bem?

João lembrou-se da cena do espelho. Perguntou-se novamente por que ele não os tinha visto. Depois, como se estivesse a falar para si próprio, disse em voz alta:

— Realidade Virtual.

Falou um dos dois, o da cor mais clara:

— Sim, João, somos imagens. O meu nome é Siochain. O do meu amigo é Ceartas. Fomos projectados aqui do planeta Moraltacht com a tarefa de obter uma indemnização pela perda da nossa aeronave. Julgamos que não é justo permitir que acções ignóbeis, tais como a que a P.U.A. queria cometer contra nós, tenham sucesso. No nosso planeta há um maior grau de conhecimento e   muitos de nós, incluindo Ceartas e eu, temos poderes telepáticos.

Ao ouvir estas palavras um pensamento cruzou a mente de João.

— Não te entusiasmes, João. — exortou-o Siochain, rindo — É preciso treinar para pensar bem, e ter muita consciência para obter o privilégio da telepatia. É um poder recíproco. Agora considera isto: tu conheces bem a realidade virtual, pois os terrestres fazem grande uso dela, mesmo que de forma rudimentar. Além disso, tu ignoravas a existência de seres com a nossa aparência. Pensaste que éramos horríveis, embora, lembro-te, para os nossos cânones tu é que és horrível, mas nem por um momento nos questionaste, suspeitaste de nós. Atribuíste-nos mesmo a posse de armas, que não temos. Sabes porquê?

João não respondeu, e Siochain continuou.

— Porque "nada nasce do vazio", como dizia o teu avô, um conceito em parte para rever, mas que faz sentido. E isso significa que o pensamento de que uma injustiça já havia sido cometida já estava na tua mente, a nossa aparição captou essa ideia, tornando-a realidade. É por isso que aceitaste facilmente a nossa presença e até mesmo tiveste medo de nós. Pelo contrário, não correste nenhum perigo, João. Poderias defender a tua causa com um sopro, com uma palavra, se tivesses tido mais coragem, mais determinação, se estivesses convencido de que era uma boa causa.

Naquele momento, a patrulha de vigilância entrou na sala. Um deles exclamou:

— Ei, aqui há um fulano deitado no chão que está a falar com os seus botões!

— Está bêbado. — Acrescentou outro.

— Sim, parece que está bêbado. Nem é o único, hoje. O que vamos fazer?

 

— Deixamo-lo aqui. Não está a fazer nada de mal e vai restabelecer-se em poucas horas. Isso só significa que a P.U.A. vai pagar para ele dormir um pouco. Pode pagar, tem dinheiro.

 

Todos riram.

As duas imagens em forma de morcego ainda estavam perto da porta. Parecia que estavam a ir-se embora. João disse-lhes adeus com os olhos. Achou que depois de tudo não estavam tão mal. Talvez o quadro desse plano superior melhorasse tudo, mas agora eles não lhe pareciam nem feios nem morcegos. Na verdade, não conseguia ver nenhuma diferença entre eles e ele mesmo. Por sua parte, ele sentiu-se um pouco ridículo assim deitado no chão, mas em paz e sossego, com a estranha sensação de ter feito bem.

 

Afinal, só se tinha antecipado. Não tinha dúvidas de que o Conselho Interstelar condenaria a P.U.A. a pagar esse dano. Ele sabia que a recusa de indemnização era injustificada.

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:09

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Sexta-feira, 11 de Setembro de 2020

Ouçam e pasmem! Querem que esta seja a linguagem do futuro!

 

Isto é do domínio da ESTUPIDEZ. Não é do domínio da Língua Portuguesa. Será um outro linguajar, que só dirá respeito a ILES.

 

Nós por cá ainda não chegámos a isto, mas caminhamos a passos largos para lá, se ninguém puser um travão a esta demência linguístico-política.

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:52

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Quarta-feira, 9 de Outubro de 2019

Discurso de Costa: «Caras e caros amigos, caras e caros camaradas, quero saudar as portuguesas e os portugueses (…) o PS saiu reforçado com o apoio dos cidadãos»

 

O que está errado nesta saudação? Como deveria ser feita esta saudação, na chamada linguagem inclusiva, inventada pelo Secretariado-Geral do Conselho da União Europeia, sem qualquer dúvida, por alguém com algum inconfessado complexo,  para que se dê visibilidade às coitadinhas das mulheres que não têm visibilidade nenhuma, na sociedade moderna, e acabar com o mundo da varonia, sim, porque querem à força, que esta coisa da igualdade do género e génera passe por este estúpido modismo linguístico, que, no entanto, é muito mal aplicado, porque, mesmo assim, deixa-se tantas mulheres de fora e tanta desigualdade por igualar!


Este tipo de linguagem só podia ter sido inventado por um “homem”.      

 

Igualdade.png

 

 

Então, para que se faça justiça às mulheres invisíveis, e se dê mais ênfase aos homens visíveis e a todos os outros géneros humanos e géneras humanas, como é que o nosso primeiro deveria ter começado o seu discurso?  Exactamente assim:

 

«Caras amigas e caros amigos, caras camaradas e caros camarados, quero saudar as portuguesas e os portugueses (…) o PS saiu reforçado com o apoio dos cidadãos e das cidadãs».

 

miguel_cardoso_portugueses.jpg

 

Ou então, bastava dizer «Caros AMIGOS e CAMARADAS, quero saudar os PORTUGUESES (…) o PS saiu reforçado com o apoio dos CIDADÃOS!» E todos os que têm conhecimentos básicos (nem sequer precisam de ser doutores) de Língua Portuguesa, compreenderiam que amigos = grupo de pessoas (e pessoos?) por quem sentimos amizade; camaradas = membros (e membras?) de um grupo que luta por alguma coisa; Portugueses = os habitantes (e habitantas?) de Portugal; cidadãos = indivíduos (e indivíduas?) no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado livre.

 

Então Dr. António Costa? “Caras” não casa com “amigos”. Além disso, referiu-se apenas aos CIDADÃOS! Então e as CIDADÃS? Esqueceu-se de que as CIDADÃS socialistas também existem e também foram elas que ajudaram a reforçar o PS. Quanta ingratidão!

 

Mas o pior disto tudo é que as coitadinhas das mulheres permitem que homens petulantes andem por aí a querer dar visibilidade e igualar géneros que não são igualáveis, a não ser em direitos. 

 

Bem, esta coisa da linguagem inclusiva é tão, mas tão, mas tão idiota que mete dó, porque além de não dar visibilidade nenhuma às mulheres, desacredita-as, rebaixa-as ao nível de coitadinhas, porque são precisas palavrinhas para as tornar visíveis, como se as mulheres alguma vez na História da Humanidade não tivessem tido visibilidade. Tiveram, claro que tiveram, apenas os homens nunca repararam, nunca as reconheceram, tão empenhados estiveram sempre em olhar para o umbigo deles. Mas a elas fez mossa? Não fez.

 

Não é com esta parvoíce do elas e eles que vão resolver o problema da igualdade de géneros nos empregos, nos salários, na ocupação de cargos, que é a única igualdade que interessa. A outra igualdade é uma afronta, um ultraje, uma desonra.

 

As mulheres que são MULHERES não precisam que lhes dêem visibilidade com uma linguagem parva, que só as diminui. Eu sinto-me insultada com esta mania de querer igualar os géneros, com redundâncias idiotas, assentes na mais gigantesca ignorância da Língua. Os géneros, repito, não são para igualar senão nos salários, nos cargos, nos empregos. Como MULHER eu nunca me senti descriminada em nenhuma situação, porque sempre fui EU a fazer o meu caminho. Sempre fui a dona do meu destino. Nunca deixei que nenhum “patrão” me fechasse portas.  Se alguém as tinha de fechar era EU. E algumas vezes fechei-as, antes que mas fechassem.

 

Lá que o Secretariado-Geral do Conselho da União Europeia lhe tenha dado para variar das ideias, querendo dar visibilidade a elas, através da linguagem, mas hipocritamente mantendo-as à distância, nos salários, nos cargos, nos empregos, não significa que tenhamos de aceitar tal parvoíce, até porque quem inventou essa linguagem, nada sabe de Linguagem, e muito menos de Língua Portuguesa.

 

O Secretariado-Geral do Conselho da União Europeia chegou a lançar um guia de “comunicação inclusiva” em Língua Portuguesa, de forma a que a comunicação “inclua todas as pessoas e evite estereótipos”, lê-se.

 

Mas o que é que isso interessa? NADA.

 

O que as mulheres querem (e têm direito) é a igualdade de direitos. Porque VISIBILIDADE, já elas têm, nas suas competências.  Sempre tiveram.

 

O mais estúpido disto tudo é o seguinte: o tal guia propõe, a título de exemplo, que se substitua a designação “o coordenador” por “a coordenação” (como se coordenador e coordenação expressassem a mesma coisa); “o interessado” por “a pessoa interessada” (como se isto mudasse alguma coisa, porque se, por exemplo, dissessem a um empregador, que uma pessoa está interessada no cargo, e se esse cargo só pode ser ocupado ou por uma mulher ou por um homem, ter-se-ia de perguntar: é homem ou mulher? Se se dissesse, logo de início, um interessado o uma interessada, ficava tudo logo ali esclarecido; “os políticos” por “classe política”, ora políticos são os indivíduos (eles e elas), estadistas (eles e elas) que se dedicam à Política; a “classe política” é o conjunto dos políticos (ele e elas) que se dedicam à Política = ciência (ou deveria ser) do governo das nações; “os professores/enfermeiros” por “pessoal docente/de enfermagem”, acontece que um professor é uma pessoa que ensina; e enfermeiro é uma pessoa habilitada para cuidar de doentes, e a palavra pessoal é muito impessoal; ou “as senhoras da limpeza” por “pessoal da limpeza” que podem ser só elas, ou só eles. Dizer “senhoras da limpeza” não é a mesma coisa que dizer “pessoal da limpeza”, ficar-se-ia sem saber se é um grupo de homens ou de mulheres, que poderia fazer toda a diferença, num determinado contexto; “nas referências ao conjunto do género humano (pois, mas o homem é humano, a mulher é humana, em que ficamos?) deverão utilizar-se expressões como a 'humanidade', o 'ser humano', ou as 'pessoas', em vez do termo 'homem', como se o termo Homem, com letra maiúscula, não significasse Humanidade, englobando todos os seres HOMO. Eu sou um Homo Sapiens, ou agora terei de dizer uma HOMA Sapiens, para me igualar, que é coisa que não me interessa?

 

Mas ainda há mais coisas inacreditáveis. No que se refere às relações de casal, o documento da União Europeia refere que vocábulos como "parceiro/parceira" (ou seja, sócio e sócia, talvez companheiros e companheiras fosse mais adequado) ou "cônjuge" (que é sinónimo de companheiro/a) são mais inclusivos do que "marido/mulher", em Inglês husband/wife. Pois não são? Mas numa relação tem de haver macho e fêmea, porque é assim que a natureza funciona, ainda que possam ser do mesmo sexo. E agora?

 

O documento explica ainda que a linguagem oral ou escrita deve pôr sempre a tónica na pessoa. “Em vez de 'as lésbicas, os gays, os bissexuais, os transgéneros, os intersexo', diga-se ou escreva-se 'pessoas lésbicas, gays, bissexuais, transgénero e intersexuais' ou 'pessoas LGBTI'". Como se isto igualasse alguma coisa.

 

Tudo isto assenta na maior ignorância da Língua, e não só.

  
Bem, mas regressando a António Costa.


António Costa, já se sabe, não é bom aluno a Português: escreve-o incorrectamente e, por vezes, pronuncia-o ao modo de engolidor de sílabas, e está-se nas tintas para a Linguagem, para as regras gramaticais, apesar de ser primeiro-ministro de Portugal e ficar bem a um primeiro-ministro usar a sua Língua Materna, correCtamente, escorreitamente, tanto a escrever como a falar. Isto é algo que não perdoo a quem tem cargos públicos, jornalistas incluídos. Nunca, como hoje, se falou tão incorrectamente, na televisão, desde políticos a universitários, passando pelos jornalistas, logo na televisão, que é uma escola para o povo, que fica agarrado a ela, e não lê bons livros, escritos em Bom Português. 

 

Que o governo e os outros órgãos de soberania política devem ser claros quanto à sua política para a Língua, devem, mas a conspiração do silêncio mantém-se, porque os donos maiores da Língua continuam a achar que são os donos dela, e que jamais serão punidos, eles e os seus cúmplices. Isto, infelizmente, faz parte de um Portugal em franca decadência.

 

E as parvoíces linguísticas somam e seguem, num país sem rei nem roque.

 

Quando a Língua, de um país é amarfanhada por quem a utiliza, e pelos seus governantes, que não a defendem, significa apenas uma coisa: que esse país perdeu a sua dignidade, a sua independência, a sua identidade. 

 

Posto isto, se nada mudar (como parece, e espero estar enganada), se não forem injectadas no governo caras novas, e se mantiverem ministros que já deram conta da sua incompetência,  não auguro tempos de glória para Portugal.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 11:47

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Segunda-feira, 17 de Setembro de 2018

ASSIM SE ESCREVE EM BOM MIXORDÊS EM PORTUGAL…

 

… graças à incompetência e à irresponsabilidade de governantes ignorantes em matéria de Linguagem. Quem não sabe dançar, não se meta a bailarino.

 

Com o advento do mal denominado Acordo ortográfico de 1990 gerou-se um caos ortográfico tal, que já poucos são os que sabem ler, escrever e interpretar textos correCtamente, em Portugal, algo único no mundo, uma vez que nos restantes 192 países (eles são 193) apenas os analfabetos descolarizados (porque os há escolarizados) não sabem ler nem escrever.

 

E como diz Francisco Miguel Viegas no Aventar:

 

«Não há ortografia

"Graças a esta notícia e a excertos de um comunicado da Câmara Municipal de Pedrógão Grande, confirma-se que, com a adopção do Acordo Ortográfico de 1990, não há ortografia.

Há «casas afetadas» e «casas afectadas». Há «subdirector da directoria» e há «inspetores». Há «se apuram serenamente os fatos e se repõe a verdade objectiva». De facto, há de tudo, excepto ortografia."

 

MIXORDÊS.png

 

Este é o resultado da ignorância que se derrama desde São Bento para o resto do país...

publicado por Isabel A. Ferreira às 12:35

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Agradeço a todos os que difundem os meus artigos que indiquem a fonte e os links dos mesmos.
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