Domingo, 15 de Outubro de 2017

ADULTERAÇÃO, NO BRASIL, DE LIVRO PORTUGUÊS. A ILÍADA, DE FREDERICO LOURENÇO

 

Chamo a atenção para o facto de este texto, cuja leitura recomendo vivamente, porque além de excelente, está primorosamente bem escrito, ser da autoria de um jurista e professor universitário brasileiro, portanto, não é meu (para que não digam que eu é que ando sempre a implicar com o abrasileiramento de textos portugueses).

 

Soubessem os acordistas portugueses escrever tão apuradamente como Arthur Virmond de Lacerda Netto! Mas, lastimavelmente, os acordistas portugueses escrevem como meninos da primeira classe primária.

 

Por ter sido escrito por um cidadão brasileiro, o texto está conforme a ortografia brasileira.

 

(Apenas para que se inteirem da semelhança entre a ortografia brasileira e a ortografia preconizada pelo AO90, destacarei a negrito, as palavras acordizadas).

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Texto de Arthur Virmond de Lacerda Netto

 

«LIVRO PORTUGUÊS ABRASILEIRADO.

A QUEM INTERESSA MANTER SUB-CAPACITADOS NO IDIOMA (VULTO BURROS) MUITOS BRASILEIROS?

 

Não se trata, apenas, de adaptar um texto; trata-se de privar o leitor brasileiro de elevar-se na sua capacidade de compreender textos.

 

Que tal, em Portugal, mediocrizarem-se as obras de José de Alencar, Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade, Manoel Bandeira, Caetano Veloso, Tom Jobim, Paulo Leminski, Paulo Freire, Márcia Tilburi, Rubem Alves, Olavo de Carvalho?? Você, provavelmente, não admitiria tal (…)

 

Adulteração, no Brasil, de livro português. A Ilíada, para jovens, de Frederico Lourenço.

 

O português Frederico Lourenço traduziu a Ilíada e a Odisséia, e as adaptou para jovens em prosa, versão legível, contudo, por gente de quaisquer idades.[1]

 

O texto publicado no Brasil (pela editora Claro Enigma; São Paulo, 2016) sofreu intervenções que descaracterizaram a tradução, tal como Frederico Lourenço a produziu. Substituiram-se as segundas pessoas (tu e vós) por você e vocês; inocorre qualquer mesóclise (presente no original); há substituições lexicais (como planear por planejar, escusado por desnecessário), alterações de pontuação e de construção frasal, para mais de certa loqüela típica do brasileiro, porém desusada pelos portugueses.

 

O que se lê no Brasil não corresponde, fielmente, à redação de Frederico Lourenço, aliás alheio às modificações, por que a editora é a responsável exclusiva.

 

As segundas pessoas, a mesóclise, os vocábulos, os advérbios de modo, existem para serem usados. São usáveis e corretos; pertencem à língua portuguesa e não exclusivamente a Portugal; é legítimo qualquer brasileiro servir-se deles.

 

Adaptou-se o texto ao público brasileiro, a fim de torná-lo (mais) compreensível por ele, máxime (supostamente) pelos jovens[2]; pretende-se que as pessoas leiam; almeja-se atrair o leitor, ao invés de o repelir; acomodou-se texto redigido para público português, ao leitor brasileiro, em face das peculiaridades idiomáticas deste em relação àquele; importam resultados financeiros positivos, na venda dos exemplares. Compreendo tudo isto. Não compreendo que se suprimam as segundas pessoas e a mesóclise; alterem-se frases, palavras e pontuação; ainda menos compreendo que a tal se proceda clandestinamente (em face do leitor), sem informação, no próprio livro, de se haver adulterado a versão original.

 

É mediante a leitura que se aprende o que se lê e o idioma; é pela leitura de textos como o original de Frederico Lourenço que os jovens e o mais público brasileiro encontrariam recursos do idioma de que andam deslembrados e que lhes seria enriquecedor deparar na literatura. Aliás, lê-se literatura de qualidade também como forma por excelência (porque altamente pedagógica) de se freqüentar a norma culta do idioma, de familiarizar-se com o seu uso e, por conseguinte, de elevar-se, o leitor, do seu conhecimento medíocre (se o for) ou corriqueiro, para as formas superiores do idioma e para as diferentes plásticas da expressão, em que consiste o estilo de cada autor.

 

Mesóclise, segundas pessoas, advérbios de modo, certa fraseologia, certos vocábulos e certo estilo, não constituem lusitanismos, porém recursos do idioma, que é enriquecedor encontrar em uso, conhecer e aprender (se o leitor os ignorava) ou deles relembrar-se (caso deles o leitor andasse desmemoriado).

 

Se circulam mais em Portugal, é porque lá ensina-se melhor o idioma, usa-se o que se aprendeu e zela-se pela qualidade do emprego do vernáculo, comparativamente mais do que no Brasil. (a)

 

Não há “idioma brasileiro”; há o idioma português, com peculiaridades de uso em Portugal e no Brasil (para ater-me a estes países lusófonos), que não chegam a distingui-los nem a tornar necessárias nem recomendáveis adaptações como as que se praticou.

 

As peculiaridades do português redigido em Portugal e as diferenças do seu uso, lá, são compreensíveis pelos brasileiros: prova-o o êxito, no Brasil, das obras de Saramago (no presente) e (desde o passado) das de Eça de Queiroz; prova-o a imigração de brasileiros para Portugal, nos últimos vinte anos; provam-no os oitenta mil imigrantes brasileiros em Portugal, presentes lá, em 2017.

 

Lamento as modificações que a editora Claro Enigma perpetrou. Publicasse, no Brasil, o texto original: no máximo, o leitor estranharia (estranhar difere de tresler) o “tu”, o “vós”, a mesóclise, porventura alguma colocação pronominal, estranhamento que rapidamente desvanecer-se-ia; os lusitanismos seriam facilmente esclarecíveis por notas de rodapé, cuja função consiste (também) precisamente em dilucidar o significado de termos virtualmente problemáticos. Qualquer edição de livro, nacional ou estrangeiro, em vernáculo ou vertido, minimamente séria, intelectualmente rigorosa e lingüisticamente zelosa, mantém o texto original e lhe glosa, quando necessário, os termos obscuros para o leitor.

 

Era imperioso que a editora Claro Enigma mantivesse o texto na sua versão original e lhe adisse, para o público brasileiro, notas de rodapé, relativas aos lusitanismos. Quanto a vocábulos que o leitor (qualquer leitor) desconhece (em qualquer livro), consultasse um dicionário, obviamente.

 

Alguns leitores, possivelmente, ao invés de lhes causar espécie as segundas pessoas, a mesóclise, os advérbios de modo, a fraseologia portuguesa e o estilo de Frederico Lourenço, deleitar-se-iam com a descoberta deles e ou com a experiência do contacto com eles, que virtualmente concorreria para lhes aprimorar a destreza no idioma e aguçar-lhes a percepção (b) dos seus recursos. Nisto, também, radica a virtude da leitura: em transcender-se, mercê de diferentes autores e estilos, o vocabulário, a fraseologia, o emprego dos recursos de expressão, em suma, a loqüela a que se acha circunscrito o leitor.

 

As adaptações privaram os brasileiros da experiência da transcendência; ao contrário, elas mantêm-nos no padrão idiomático brasileiro que eles, assim, não transcendem: a “nacionalização” propiciou ao leitor brasileiro mais do mesmo (para valer-me de lugar-comum português, já com algum curso no Brasil), ao invés do diverso e instigante (evidentemente, refiro-me às partes afetadas e não à totalidade do texto).

 

As adulterações constituem desserviço, em relação à parcela do público que se comprazeria com o texto original e aos leitores, em geral: elas privaram os brasileiros de contactar (c) com formas e recursos existentes no seu idioma, usáveis (e usadas em Portugal), que todo brasileiro deveria conhecer e de que pode servir-se. Livro esmeradamente redatado ou traduzido é instrumento de educação: a edição abrasileirada subtraiu-se desta egrégia função, na medida em que mediocrizou o texto, sobre haver desfigurado (em parte) a estética literária de Frederico Lourenço, ou seja, o componente idiossincrático que lhe individualiza o estilo. Em dadas passagens, o que se lê não corresponde ao texto e á plástica de Frederico Lourenço, porém ao texto dele deturpado.

 

Seria objetável alegar-se atenderem, as modificações, à realidade do (jovem) brasileiro, já desafeito a formulações “arcaicas”, “passadistas”, “lusitanas”, como “Tu fazes”, “Vós sois”, “Dar-lhe-ei”: porque desusadas, foram suprimidas, o que redunda em círculo vicioso: não se usaram porque não se usa; não se usa também porque não as usam os autores. Usassem-nas os autores: ainda que, por leitura dos seus livros, os leitores não as usem, pelo menos capacitar-se-ão, por hábito, a compreender melhor os que as usem e as usam.

 

Ainda que o brasileiro as desuse ou as use escassamente, elas existem no vernáculo, constituem ponto de ensino nas escolas e Frederico Lourenço utilizou-as: é o quanto basta para deverem ser conservadas intactas, bem assim a fraseologia dele. Eis porque a versão original serve, ótima e pedagogicamente, como leitura, nas disciplinas de Língua Portuguesa e ou de Literatura, no ensino médio.

 

A presença, no texto, das segundas pessoas, da mesóclise, de certa forma, lusitana, de construir e do estilo de Frederico Lourenço, não constituem óbices à sua leitura e compreensão por leitores brasileiros. Intrinsecamente, nada no texto justificava-lhe as intervenções; justifica-a, porém, certo ideário, de fundo marxista (e nacionalista-lusófobo?): suspeito de que o abastardamento da tradução de Frederico Lourenço filie-se ao entendimento propagado pelo já célebre (e, quanto a mim, funesto) livro “Preconceito Lingüístico” (de Marcos Bagno), de (a) haver pronunciadíssima diversidade entre os modos português e brasileiro de empregar o idioma e (b) de deverem, os brasileiros, proclamar a sua independência lingüística em relação a Portugal e à gramática tradicional.

 

Êxito de vendagem, nas suas mais de 50 edições; adotado, debatido e lido nos cursos superiores e não só, há três lustros, “Preconceito Lingüístico” terá sido o inspirador da malsinada adaptação, como afirmação de brasilidade lingüística, como realização de independência idiomática, como recusa da gramática tradicional, presente na plástica literária de Frederico Lourenço que, assim, representava, por excelência, o objeto do nacionalismo lingüístico.

 

Se assim não foi, se inexiste relação de causa e efeito entre as doutrinas de Marcos Bagno e a adaptação, se esta não constitui produto daquelas, mesmo assim foi escusada (para servir-me de voz que a adaptação expurgou e que substituiu pelo termo desnecessário) como iniciativa e desastrada como execução, pois desfigurou o estilo de Frederico Lourenço, empobreceu-lhe a forma, subtraiu dos leitores a possibilidade de toparem com certas riquezas do idioma.

 

Com que legitimidade, com que direito, com que autoridade uma editora manipula o estilo de um autor, rebaixa o uso dos recursos do vernáculo e priva o leitor de contactar com a plástica genuína do primeiro e com a riqueza do segundo?

 

Trata-se (sei-o), de adaptação de Homero para o português e não de criação original de Frederico Lourenço. Pode-se traduzir à portuguesa, à brasileira, à francesa, em coloquial, em culto: essencial é a fidelidade da versão ao original (no caso, Homero), ressalva até com que as adulterações não se legitimam. Foram dispensáveis e são censuráveis. Adaptação de Homero por Frederico Lourenço, é texto de Frederico Lourenço que importa respeitar.

 

Ao grande público, interessado em ler o livro, provavelmente pouco se lhe dão as deturpações no texto: interessa-lhe aceder à narrativa de Homero ao invés de apoquentar-se com variantes lingüísticas ou com o desdém por certas riquezas do idioma. Se o leitor brasileiro lê e compreende, a edição cumpre a sua finalidade; cumpriria melhor se mantivesse o nível de qualidade peculiar do texto original e, intacta, a loqüela de Frederico Lourenço. Cumpri-la-ia cabalmente se mantivesse, intocado, o original, a que adicionasse, em nota, esclarecimento da acepção (d) dos ocasionais lusitanismos: é como deveria ter procedido e é o que reputo óbvio.

 

É moralmente expectável (e) e exigível constasse, na página de informações editoriais, cuidar-se do texto de Frederico Lourenço modificado ou adaptado ao público brasileiro ou de versão abrasileirada do original e não, genuinamente, do próprio: seria manifestação de respeito pelo leitor e de honestidade editorial. Do respeito, ela se isentou; da honestidade, desdenhou.

 

Ela atuou com desonestidade editorial, por sonegar informação decisiva em relação ao que o comprador do livro adquire e ao que o seu leitor lê. Tal sonegação também induz em erro o leitor que, inadvertido, toma por lídima literatura portuguesa e obra de Frederico Lourenço o que não o é nas passagens espúrias.

 

Por descuido, a edição brasileira poupou do expurgo o lusitanismo “contributo” (sinônimo de contribuição).

 

A reproduzir-se a iniciativa, temo por que sobrevenham versões abrasileiradas de Camões, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, Camilo Castello Branco (f). Afinal, a lógica é a mesma. Se, a contrapelo, em Portugal, se lusitanizassem autores brasileiros, a exemplo de José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo, Machado de Assis, Euclides da Cunha, Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade, Caetano Veloso, Tom Jobim, Paulo Leminski, Paulo Freire, Márcia Tilburi, Olavo de Carvalho, etc., o erro seria o mesmo, o caráter espúrio do texto seria equivalente, o ludíbrio seria análogo, com a diferença da nacionalidade dos autores deturpados.

 

Assim se rebaixa a cultura de um povo (o brasileiro); assim se convém com o seu estado rebaixado de domínio idiomático. Assim se priva a juventude brasileira (destinatária nominal do livro) de aceder, genuinamente, à literatura de plástica portuguesa e ao verdadeiro estilo de um autor; de transcender o seu nível mormente raso de conhecimento e de uso idiomáticos, já tristemente típico das gerações brasileiras juvenis; de se deparar com o uso duplamente exemplar de certos recursos do vernáculo, no sentido de modelarmente correto e no de servir como estímulo para o seu uso.

 

Admito, como alterações legítimas, as de acentuação e de ortografia, à luz da reforma ortográfica, que introduziu discrepâncias em escassos vocábulos, entre Portugal e Brasil.

 

Oxalá não se perpetre atentado quejando nas obras de Antonio M. Hespanha (historiador do Direito), José Rodrigues dos Santos, Miguel Esteves Cardoso, Valter Hugo Mãe e outros, se é que já não se perpetrou (suspeito de que sim). Descreio que, em Portugal, se praticasse com autores brasileiros o que certos brasileiros praticaram com a Ilíada, de Frederico Lourenço.

 

Corrija, a editora Claro Enigma, o mal que praticou: suste a publicação da versão espúria e introduza a original; ao menos, publique também esta. Remende, a editora Claro Enigma, a desonestidade (por omissão) que pratica: introduza (na página 6) a informação de ser abrasileirada a versão que o é. Evite, a editora Claro Enigma, a repetição desta violência. Adotem, todas as editoras brasileiras, por princípio editorial o de reproduzir, intocados, os textos portugueses e inserir-lhes, em nota de rodapé, glosa de acepção: somente assim concebo que se publique, honestamente, literatura portuguesa no Brasil.

 

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Na imagem, a capa da edição brasileira.

 

Em tempo: o livro S.P.Q.R. (história de Roma), de Mary Beard foi publicado em Portugal e no Brasil, em traduções distintas.

 

[1] Também as traduziu em verso.

[2] As versões “juvenis” são legíveis por jovens e por leitores de idades quaisquer, bem como as versões (do próprio Frederico Lourenço) em verso. Inexiste relação entre jovens e prosa, entre não jovens e verso; existe relação entre quem prefere o texto em prosa ou por ele se interessa e o lê, e entre quem se interessa pelo texto em verso ou o prefere e o lê, independentemente de idade. Por isto, melhor seria qualificar a versão “para jovens” de versão em prosa. Se se curou de estratagema publicitário, voltado a cooptar leitores juvenis, ele talvez haja atuado contraproducentemente em relação aos demais que, se não afugentou, absteve-se de atrair, ao mesmo tempo em que não é de se supor que o público pós-juvenil opte pela versão poética; ao contrário. Se o complemento “para jovens” deveu-se ao sincero intuito do autor, que terá feito questão de externizá-lo (como também ocorre na versão portuguesa), queda ele registrado nas capas da versão em prosa da Ilíada e da Odisséia, com a desvantagem de captação de interessados, como apontei na frase precedente.

 

Arthur Virmond de Lacerda Neto»

 

Fonte:

https://arthurlacerda.wordpress.com/2017/10/12/adulteracao-no-brasil-de-livro-portugues/

 

(a) – Engana-se amigo Arthur. Hoje, em Portugal, já não se zela pela qualidade do emprego do vernáculo, nem pela Língua Portuguesa, que está a ser maltratada, mal ensinada, mal aplicada, à margem do AO90. O facilitismo da linguagem para tornar ainda mais legível, o que já é legível, está a formar gerações de semianalfabetos (os que têm apenas os rudimentos da escrita e da leitura e não são capazes de ler e escrever correntemente) em Portugal, como no Brasil.

(b) – Em Portugal, escreve-se perceção, que é algo que ninguém sabe o que é.

(c) – Em Portugal, os acordistas escrevem contatar, vá-se lá saber porquê.

(d) – Em Portugal, os acordistas escrevem aceção, palavra sem significado algum.

(e) – Em Portugal, os acordistas escrevem expetável, seja o que isto for).

(f) –  Versões abrasileiradas de Camões, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, Camilo Castello Branco e até de Saramago lamentavelmente já existem, como um insulto à memória desses escritores.

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:11

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Quinta-feira, 24 de Novembro de 2016

GÉNESE DO ACORDO ORTOGRÁFICO DE 1990 (II)

 

O meu objectivo com este trabalho é simplesmente o de traçar o percurso da Língua Portuguesa no Brasil até chegar ao AO90, e demonstrar que além dos interesses económicos dos editores e livreiros (portugueses e brasileiros) existem interesses políticos obscuros, (pergunte-se a Cavaco Silva sobre as "pressões do Brasil") porque incompreensíveis à luz da razão, e seria fundamental exigir aos políticos e à dupla Evanildo Bechara-Malaca Casteleiro que expliquem aos Portugueses o que realmente está por trás deste (des)acordo ortográfico, que parece ter sido engendrado por quem sofre de disortografia.

 

O que Sérgio Vaz diz é a mais pura verdade.

 

SÉRGIO VAZ.png

 

Origem da imagem: «Tradutores Contra o Acordo Ortográfico»: https://www.facebook.com/TradutoresContraAO90/?fref=ts

 

Quando falamos em AO90, falamos da grafia brasileira, do que no Brasil já se chamou Língua Portuguesa e hoje se chamaTécnicas de Comunicação e Expressão”.

 

Esta grafia mutilada, afastou o nosso Português, que já foi a Língua Oficial do Brasil, da sua Matriz culta e europeia, transformando-se num Dialecto, o qual foi sendo enriquecido pelas línguas indígenas e africanas, pelas línguas das vagas de emigrantes de várias nacionalidades, que se fixaram no país, e pelos neologismos que foram surgindo, a partir de palavras inglesas, que os brasileiros preferiram adoptar, pondo de parte as palavras já existentes em Português, integrando um léxico que podemos chamar, com toda a propriedade, brasileiro, já muito distanciado do Português, que, com propriedade, pode ser designado por dialecto brasileiro.

 

Em 1911 houve uma tentativa de simplificar e unificar a Língua Portuguesa, que não deu certo, porque o Brasil não concordou com o que foi proposto, e distanciou-se da ortografia portuguesa, oriunda da reforma ortográfica então relizada.

 

Em 1945, foi assinada a Convenção Ortográfica Luso-Brasileira, entre a Academia das Ciências de Lisboa e a Academia Brasileira de Letras, e a qual ainda está em vigor em Portugal, porque não foi revogada, e que o Brasil, apesar de a ter assinado, acabou por rejeitar, optando pela reforma ortográfica, que realizou em 1943, onde se decidiu mutilar a Língua Portuguesa.

 

A este propósito, Antônio Houaiss, o editor das enciclopédias brasileiras, declarou que a Convenção Ortográfica de 1945 que, realmente, unificava a língua, foi recusada por ser "lusitanizante". O que é que isto significa? Significa que o Brasil já tinha a grafia brasileira  mutilada e nada o faria regressar à grafia do colonizador.

 

E tudo o que era (e continua a ser) lusitanizante era (é) desprezível para os Brasileiros. E nos anos 30, os motivos invocados para a recusa da grafia portuguesa são também de ordem política.

 

Deslusitanizar a Língua Portuguesa foi um objectivo dos sucessivos governos brasileiros, uma vez que a “colonização” estava (e, por mais inacreditável que pareça, ainda está) atravessada na garganta daqueles brasileiros, que nunca compreenderam o fenómeno da colonização europeia no mundo, e lamentam-se de não terem sido colonizados pelos Ingleses, que estão na génese dos Estados Unidos da América do Norte, pois sonham vir a ser os Estados Unidos da América do Sul, e ainda não tendo sido capazes de o ser, apesar de os 194 anos de independência do jugo português, culpam os portugueses pela própria incompetência (ainda há pouco tempo, Lula da Silva o fez, alto e em bom som, em Espanha) o que tem gerado uma lusofobia, que se foi evidenciando em actos governamentais, e sobretudo no estudo da língua mutilada, e de uma História do Brasil totalmente deturpada, lusófoba e mentirosa.

 

A mutilação do Português no Brasil teve também um outro propósito: diminuir o alto índice de analfabetismo, que então grassava naquele que é o maior país livre da América Latina, uma vez que a Língua escrita não coincidia com a língua falada, e isso complicava a aprendizagem, nomeadamente no que dizia respeito às consoantes mudas, que deixaram pura e simplesmente de ser grafadas, originando uma grafia sem raiz, sem nexo, sem história.

 

E este tipo de sentimento menor foi se propagando ao longo dos tempos, e hoje, na Internet, correm os maiores despautérios, não só na escrita da Língua, como no que se diz da História do Brasil ligada a Portugal, o que tem fabricado uma quantidade incontável de ignorantes e anlfabetos funcionais.

 

Apenas para se ter uma ideia, vou aqui transcrever, ipsis verbis, um texto que encontrei na Internet, (e como este há milhares deles) onde podemos verificar duas coisas: a falta de informação e de estudo, e a falta de formação em Língua Portuguesa.

 

(Sublinhei e coloquei a negrito o que mais me intrigou):

 

«O português é falado em cinco continentes, porém sempre vêm à tona as diferenças entre o português do Brasil e o português do Portugal. São os dois países de língua portuguese mais importantes. A variante africana é muito parecida com europeia, portanto o Brasil é a única ex-côlonia portuguesa que se distanciou mais da língua do Imperio Português de Vasco de Gama e companhia.

 

A realidade é que os quase dez milhões e meio de portugueses representam uma pequena porcentagem dos 200 milhões (aproximadamente) de brasileiros. Nem somando a população falante de português na Angola (14,7 milhões), Moçambique (12,6), Guiné-Bissau (1,46) e Cabo Verde (450 526 pessoas) chegam a fazer sombra ao todo-poderoso Brasil.

 

A influência do Brasil é tão grande que nos últimos anos, houve uma reforma ortográfica para unificar ambas, e na qual a normativa brasileira ganhou mais peso. Além disso, curiosamente, o Museu da Língua Portuguesa não se encontra em Lisboa, mas em São Paulo.»

 

Um museu que, há pouco tempo, foi estranhamente incendiado.

 

Origem deste texto:

https://www.blazaar.com/blog/5-curiosidades-do-portugues/

(Este texto foi eliminado depois da publicação deste meu trabalho).

 

***

Aqui há uns anos, o Ministério da Educação do Brasil decidiu mudar os currículos e a metodologia do ensino da Língua Portuguesa. Então começou-se pelo nome da disciplina, saindo o vocábulo Português, que deu lugar às «Técnicas de Comunicação e Expressão». E com esta mudança, foi retirado do ensino os textos dos clássicos portugueses e brasileiros, que foram substituídos por relatos de futebol e coisas do género. Isto tudo em nome da “felicidade” dos alunos.

 

Foi também eliminado o estudo da Literatura Portuguesa.

 

Resultado: o ensino da Língua, no Brasil, degradou-se substancialmente.

 

Vejamos a opinião de uma docente brasileira, que me respondeu deste modo, quando lhe falei no ataque que a Língua Portuguesa está a sofrer com a imposição da grafia mutilada que o AO90 sugere:

 

«Estou numa guerra constante contra ataques muito mais drásticos, porque a concordância já desapareceu há anos, o adjetivo já não concorda com o substantivo em gênero nem em número, os verbos a cada dia perdem mais tempos e pessoas, depois de perder modos, neologismos pavorosos aparecem da noite pra o dia a partir da cópula ilícita do português com o americanalhês, e é um verdadeiro suplício ter que suportar o hediondo gerúndio de Miami: vamos estar enviando, vamos estar verificando, e assim por diante. E quando se protesta, os novos teóricos de plantão acusam: puristas! Danem-se! Declarei guerra, porque a língua ninguém me rouba, haja o que houver, custe o que custar. A língua despencou no abismo. É uma calamidade indescritível. Desde a ditadura militar que se implantou em 1964, começou um programa de desalfabetização dos brasileiros, que devem ser condenados a eternos produtores de matéria-prima e fornecedores de mão-de-obra. O projeto para o Brasil é continuar a ser uma grande fazenda na qual se vive pra engordar o boi, matar o boi, comer o boi e depois dormir. Entretanto, se vocês fizessem ideia do descalabro a que chegou a "última flor do Lácio", bela e rica língua portuguesa, aqui no Brasil, por obra de um programa deliberado de políticos a serviço da invasão USA, entenderiam que pra nós oi ou olá é de somenos. O que me diz de "aonde" ter-se tornado uma partícula conectiva para todos os casos e situações imagináveis, em que o pobre falante indigente não faz ideia da existência e função dos pronomes relativos, dos advérbios de tempo e modo, e até de conjunções conclusivas ou explicativas? Já não se escreve cantar, mas sim canta. Os erres foram eliminados dos verbos» L. Nóbrega

 

***

Entretanto vejamos o que nos diz Ivo Miguel Barroso, um jurista português: 

 

«Não há nenhum argumento de carácter linguístico, pedagógico e cultural que justifique a adopção de mais uma reforma ortográfica em Portugal; bem pelo contrário. O AO90 regula apenas certos aspectos da ortografia, não incidindo sobre nenhum dos restantes aspectos da linguagem escrita: o léxico, a sintaxe, a morfossintaxe e a semântica, nas variantes euro-afro-asiático-oceânica e do Português do Brasil. Por isso, alegar que o AO90 contribui para uma “língua comum unificada” - que ninguém escreve (nem fala) - é uma falsidade.

 

O aspecto mais grave do alegado "Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa" é ter criado, a partir do nada, centenas de palavras "novas", inexistentes em qualquer das ortografias, mesmo na variante do Português do Brasil: “conceção”, por “concepção”; “receção”, por “recepção”; “perceção”, por “percepção”.

 

O AO90 foi imposto na Assembleia da República, em todas as suas Plataformas, através de Deliberação de 15 de Dez. de 2010 (por iniciativa do próprio Presidente da AR, Jaime Gama), com efeitos a partir de 1 de Janeiro de 2012.

 

Essa Deliberação foi aprovada por unanimidade (!!), ou seja, com votos a favor de PS, PSD, CDS, PCP, BE e PEV. Mas, passados mais de 4 anos, a mixórdia continua»

 

***

De facto, a mixórdia continua.

 

Vejamos agora o que nos diz (textualmente) Gustavo Vieira, um brasileiro com quem andei a esgrimir, no Google:

 

(Os sublinhados e negritos são meus):

 

«Sinto muito, mas lendo os comentários que aqui escrevem, tenho alimentado um certo sentimento de recusa deste academicismo europeu, que mesmo sofrendo não consegue reconhecer a cultura de outros povos.

 

Você como historiadora que se identifica deveria saber que a história não é a mesma para quem "ganha ou perde" uma ação político-social.

 

Graças não só ao grande destaque que o Brasil tem na América Latina, mas também aos nossos maravilhosos escritores que deram uma impulsinada na literatura, agora então genuinamente brasileira <3 que o português brasileiro é reconhecido e diferenciado no Mundo. Somos os únicos lusofonos na América, e conseguimos nos diferenciar dos nossos vizinhos de língua espanhola - o que em certo ponto não acho legal, pois a língua acaba sendo uma barreira entre as nações, embora nos viremos no chamado portunhol. Há denominações que eu também não acho boas como dizem os americanos: "O Brasil e a América Latina", sendo que ambos os países possuem raízes linguísticas originadas do latim.

 

A academia brasileira não costuma fazer essa segregação entre nações lusofonas inclusive, não sei Portugal, mas o Brasil possui representantes de outros países de língua portuguesa na Academia Brasileira de Letras.

 

Penso que além de poder constituir um belo bloco cultural as nações lusofonas possam ter relações econômicas mais estreitas, isso embora estejam os países extremamente presos aos seus respectivos blocos; relações diplomáticas também seriam ótimas, como por exemplo, a facilitação de vistos, o que para Portugal seria difícil devido ao Espaço Schengem

 

***

Sim, tudo poderá ser um mar de rosas, e uma união de corações brasileiros e portugueses, unicamente se cada país (Brasil e Portugal,) continuar a aplicar a sua própria língua: no Brasil, as tais «Técnicas de Comunicação e Expressão», e em Portugal, a Língua Portuguesa, saída da Convenção Ortográfica Luso-Brasileira 1945, ainda em vigor, oficialmente, porque oficiosamente os subservientes ao Poder aplicam o AO90.

 

Entretanto, na conversa entrou um Badstuber, que representa a “galera” baixa do Brasil, e que, também em reprodução, ipsis verbis, diz esta coisa espantosa, infelizmente, comum a milhares de brasileiros:

 

«Precisamente por ter muitos negros no Brasil, é que eu não gosto de negros. Eu sei como são vocês. Onde têm negros sempre vai ter pobreza, delinquência, favelas, etc. E ainda assim vocês se vitimizam. Odeio os portugueses por ter trazido tantos negros para o Brasil.

 

Isabel A. Ferreira portugueses de merda, o Brasil é um pais ruim por culpa de vocês. Vocês trouxeram escravos africanos. negros são sinônimos de pobreza, favelas, delinquencia, assaltos, violência, vandalismo, trafico de drogas, aids, funk, estupros, atraso, homicidios, etc. Sem negros o Brasil seria um pais muito melhor.»

 

A fonte desta conversa está no link (mais abaixo) onde pode ler-se inacreditáveis comentários de muitos mais badstubers onde a lusofobia está bem patente no que representa o pensar de, infelizmente, uma larga franja do actual povo brasileiro.

 

(O vídeo que aqui coloquei, onde estavam as provas do que acima referi,  como pode ver-se, foi eliminado, depois da publicação deste meu texto (em 2016).

 

***

Na terceira parte deste trabalho ater-me-ei a um livro de crónicas, intitulado “A Brasilidade dos Portugueses”, da autoria de A. Gomes da Costa, falecido em 2017, e que foi presidente do Real Gabinete Português de Leitura, sediado no Rio de Janeiro (Brasil), uma edição da Editorial Nórdica Ltda., e com o qual espero provar a origem política do AO90 que Portugal, servil e parvamente, está a tentar impingir aos Portugueses e tragicanmente às crianças portugueass que estão a ser enganadas.

 

Isabel A. Ferreira

 

***

 

GÉNESE DO ACORDO ORTOGRÁFICO DE 1990 (I)

http://olugardalinguaportuguesa.blogs.sapo.pt/a-genese-do-acordo-ortografico-de-1990-52848

 

GÉNESE DO ACORDO ORTOGRÁFICO DE 1990 (II)

https://olugardalinguaportuguesa.blogs.sapo.pt/a-genese-do-acordo-ortografico-de-1990-53853

 

 GÉNESE DO ACORDO ORTOGRÁFICO DE 1990 (III)

https://olugardalinguaportuguesa.blogs.sapo.pt/genese-do-acordo-ortografico-de-1990-55885

  

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:51

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.Acordo Ortográfico

A autora deste Blogue não adopta o “Acordo Ortográfico de 1990”, por recusar ser cúmplice de uma fraude comprovada.

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.Contacto

isabelferreira@net.sapo.pt

. AO/90 é uma fraude, ilegal e inconstitucional

O Acordo Ortográfico 1990 não tem validade internacional. A assinatura (em 1990) do texto original tem repercussões jurídicas: fixa o texto (e os modos como os signatários se vinculam), isto segundo o artº 10º da Convenção de Viena do Direito dos Tratados. Por isso, não podia ser modificado de modo a entrar em vigor com a ratificação de apenas 3... sem que essa alteração não fosse ratificada por unanimidade! Ainda há meses Angola e Moçambique invocaram oficialmente a não vigência do acordo numa reunião oficial e os representantes oficiais do Brasil e do capataz dos brasileiros, Portugal, meteram a viola no saco. Ora, para um acordo internacional entrar em vigor em Portugal, à luz do artº 8º da Constituição Portuguesa, é preciso que esteja em vigor na ordem jurídica internacional. E este não está!
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