Sábado, 2 de Dezembro de 2023

Em Defesa da Ortografia (LXII), por João Esperança Barroca

 

«Acho o AO90 uma máquina de fomentar erros, de criar aberrações e instaurar o caos ortográfico […]. Quando os seguidores e legitimadores deste acordo instaurado por errados e perniciosos cálculos políticos recuam perante algumas das suas regras mais pitorescas […], então é caso para perguntar o que se passa com a monstruosa criatura que não é respeitada nem sequer por quem lhe quer bem. Devo confessar que às vezes até tenho pena do enjeitado, embora não hesitasse em infligir-lhe o golpe de misericórdia

António Guerreiro, Cronista e crítico literário

 

Como o leitor já sabe, o AO90 trouxe, como diz (muito bem) António Guerreiro na citação em epígrafe, uma caterva de aberrações. Dentre elas, salientam-se os fatos e os contatos. Só por estes dois termos, o AO90 já deveria estar no caixote do lixo da História, onde estaria agora a repousar, não foram as intervenções, entre outras, de Lula da Silva, de Santana Lopes e de José Sócrates.

 

Uma breve incursão pelas páginas dos órgãos de Comunicação Social permitiu que respigássemos o que se segue nos próximos parágrafos. Gostaríamos de chamar a atenção para a imagem com o canoísta Messias Baptista. O atleta tem o seu nome escrito na embarcação. Mas o que fez o jornalista? Podou a palavra, retirando-lhe a consoante.

 

“A atual crise permitiu ainda verificar que são os hospitais dos grandes centros urbanos que, em situação de caos, conseguem, com enorme esforço, “aguentar” o SNS. Se esse fato merece atenção, para que nunca se perca, não menos verdade é que se impõe um olhar especial para os hospitais mais pequenos, mais afastados dos grandes centros, que servem populações com menos opções de acesso, e que, sendo os “elos mais fracos” do sistema, foram, exatamente, por onde a cadeia quebrou, para os fortalecer de forma duradoura e irreversível.” 

Isabel Galriça Neto e Miguel Soares de Oliveira, Expresso, 22-11-2023.

 

«Em declarações a uma (sic) canal regional da televisão pública NDR citadas pelo jornal francês LE Monde, a porta-voz da polícia Sandra Levgrun, afirma: “Mobilizámos psicólogos policiais e estamos neste momento a falar com o autor destes actos. Procuramos uma solução negociada”. A polícia considera “muito bom sinal” o fato de o pai ter permanecido em contato com as autoridades “durante tanto tempo”.»

Notícia atualizada às 11h51

Expresso, 05-11-2023

 

«A cantora revelou ainda que continua a trocar mensagens com o vocalista da banda britânica. “Ele tem o meu número de telefone. No último concerto [em Coimbra], pediu o meu número, e fiquei em contato com ele”, disse.»

Expresso / Blitz,04-11-2023

 

«A religião muçulmana é vista no Ocidente como limitadora dos direitos das mulheres, como extremista. Há pessoas que vêem um turbante na cabeça de um homem como perigo, que vêem um hijab na cabeça de uma mulher como um perigo.»

Clara Não, Expresso,13-11-2023 

 

«Esta semana, não só não terminou o conflito israelo-árabe como começou o conflito Marcelo-árabe. As declarações do presidente foram criticadas e este fim-de-semana dezenas de pessoas manifestaram-se à porta do palácio de Belém.»

 Expresso, 06-11-2023

 

«De forma indireta e através dos seus, com Augusto Santos Silva a exigir prazos e explicações à Justiça, e de forma concreta e de viva voz, António Costa não pára de disparar desde que foi inesperadamente alvejado.»

Sebastião Bugalho, Expresso, 20-11-2023 

 

«Não ridicularizem a versão que contradiz a vossa nem valorizem a que a validaEsse não é um exercício inteletualmente honesto.»

Duarte Gomes, Tribuna Expresso, 31-12-23

 

«Parte da espectacularidade do jogo assenta nesses factores, os da incerteza e imprevisibilidade de muitos dos seus momentos.»

Duarte Gomes, Tribuna Expresso, 31-12-23

 

«O encenador da peça “Turismo”, Tiago Correia, acusa o diretor do Teatro Municipal do Porto de “censura, chantagem emocional, coação, ameaça e abuso de poder” por ter rejeitado a distribuição da folha de sala da peça da Companhia A Turma, que subiu ao palco do Teatro do Campo Alegre na passada sexta-feira e sábado. Em causa está uma nota de rodapé da sinopse do espetáculo e da autoria de Regina Guimarães - que considera tratar-se de censura e “terrorismo inteletual” a não distribuição da folha.»

 Isabel Paulo, Expresso, 04-02-2020

    

«Extremo moçambicano pára duas a três semanas; apto depois da paragem para os jogos das seleções.»

A Bola, 06-11-2023

   

 «Trabalho não pára por aqui.»

  A Bola, 30-05-2023

 

Como se vê, a boa ortografia ressurge, por vezes, (actos e vêem) concretizando uma das afirmações do texto em epígrafe.

 

Ah, vários órgãos da Comunicação Social noticiaram, há dias, que uma mãe que raptara a filha do Hospital de Faro tinha problemas de adição. Nada que umas explicações com um bom professor de Matemática não resolva.

 

Ah, já saiu o livro Assim se Faz Portugal, que reúne textos de Luísa Costa Gomes, Manuel Matos Monteiro, Filipe Homem Fonseca e Afonso Cruz. Como se pode ler na página da TSF, são crónicas de humor, sátira e reflexão, escritas em Português imaculado.

 

João Esperança Barroca

 

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publicado por Isabel A. Ferreira às 11:53

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Quarta-feira, 29 de Novembro de 2023

Um texto para reflectir a absurdez do AO90: «Admirável Língua Nova (Parte III)», por Manuel Matos Monteiro

 

 

Este texto foi publicado em 06 de Julho de 2017, no Jornal PÚBLICO, e como em tudo, no nosso país, poderia ter sido escrito hoje, porque nele não se mudava sequer uma vírgula, devido à inexistência de políticas que façam avançar Portugal. Infelizmente o que temos é uma política regressiva, que nos transporta para um tempo passado, de muito má memória.

 

Daí ter considerado importante republicar o texto, para que sirva de reflexão a todos aqueles que, em Portugal, não perderam a lucidez, nem a capacidade de Pensar.

Isabel A. Ferreira

 

***

«Não há duas pessoas que sigam o Acordo Ortográfico e que concordem quanto àquilo que é o Acordo. A “norma” (com setenta aspas de cada lado) é lábil, difusa, imprecisa – só não vê quem não quer ver.»

Manuel Matos Monteiro

 

 

Manuel Matos Monteiro.png

 

«Admirável Língua Nova (Parte III)»

Por Manuel Matos Monteiro

 

«Caro leitor, pedia-lhe que prestasse atenção às seguintes frases.

“Os telespetadores estavam expetantes.”

“O país vive sob o espetro da corrução.”

“Chuva para Lisboa.”

“Para o carro!”, disse perentoriamente.

“Desliga o interrutor.”

“O conetor serve, como o nome indica, para conectar.”

 

Não são frases escritas por semianalfabetos. São frases redigidas tendo por base o Acordo Ortográfico.

 

Consultando o (excelente) Novo Prontuário Ortográfico, de José M. de Castro Pinto, a grafia “telespetadores” é a única possível. “Expetantes” é uma palavra que, por exemplo, o Portal da Língua Portuguesa e a Infopédia (Porto Editora) abonam. O Dicionário do Português Atual Houaiss (edição de Agosto de 2011) acolhe apenas “espetral”, “espetro”, “espetrofobia” (entre dezasseis palavras em torno de “espetro”), todas sem o c. “Corrução” e “corrupção” são acolhidas pelo Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto de Editora, de 2010. A frase “Chuva para Lisboa”, que foi o título principal da primeira página de um conhecido jornal, tanto pode ser, à luz do Acordo, uma previsão meteorológica, como uma situação de paralisação causada pela chuva (o que era o caso da notícia). Em “Para o carro”, podemos ter a ordem de ir para o carro ou de parar o carro. Quanto a “perentoriamente” (ou a “perentoriedade”), como afiança o Portal da Língua Portuguesa, temos (Portugueses) de escrever assim e ponto final, enquanto o Brasil escreve “peremptoriamente”. Azar o nosso… É um de muitos casos em que o igual passou a ser diferente. Mas o Acordo era para uniformizar, pois claro. Lembremos Maria Regina Rocha: “[H]avia 2691 palavras que se escreviam de forma diferente e que se mantêm diferentes (por exemplo, facto - fato), havia 569 palavras diferentes que se tornam iguais (por exemplo, abstracto e abstrato resultam em abstrato), e havia 1235 palavras iguais que se tornam diferentes. Está a ler bem: com o Acordo Ortográfico, aumenta o número de palavras que se escrevem de forma diferente!!!” No mesmo portal, temos “conetor” e “conector”, mas apenas “conectar”.

 

“Interrutor”, uma palavra inadjectivável, merece um parágrafo. Verifique o leitor com os seus olhos tal grafia na Infopédia ou numa edição do Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, com o Acordo, ou no próprio Portal da Língua Portuguesa. Enquanto adjectivo relativo àqueles ou àquelas que interrompem, tem os “interrutores”, as “interrutoras”. E se um aluno escrever, fazendo uso da dupla grafia decretada pela Porto Editora e pelo ILTEC, na mesma construção frásica, “o interruptor, a interrutora, os interrutores, as interruptoras”, o professor deverá assinalar algum erro? Se dicionários aceitam que “sector” e “subsector” têm dupla grafia, o aluno poderá portanto escolher e escrever “o subsetor do sector”? Copiamos da Infopédia:

 

interrutor
nome masculino
1. aquele ou aquilo que interrompe
2. aparelho ou pequeno manípulo que permite abrir ou fechar um circuito elétrico
adjetivo
que interrompe

 

Escrevemos acima: “São frases redigidas tendo por base o Acordo Ortográfico.” Mais bem dito, tendo por base a forma como dicionários ou prontuários que adoptam o Acordo registam determinados vocábulos, porquanto o Acordo, ao não estabelecer uma norma cristalina, se traduziu na divergência da interpretação daquilo que ele é, bastando ao leitor consultar dois prontuários ou dois dicionários a seu bel-prazer para comprovar esta obviedade.

 

Consultando dicionários com o Acordo, prontuários, livros explicativos do mesmo para verificar se a consoante é muda ou não, encontramos: a) que a consoante se mantém; b) que a consoante desaparece; c) que poderá manter a consoante ou não (dupla grafia), porque dentro de Portugal há oscilação quanto à pronúncia; d) que em Portugal e no Brasil há divergências de pronúncia e que, portanto, apesar de haver dupla grafia, num desses dois países deve escrever-se a consoante, mas no outro não (os demais países de língua portuguesa são olimpicamente ignorados nesta história do Acordo).

 

Ao contrário do que muito boa gente pensa, o Acordo não definiu a lista dos milhares de casos em que a pronúncia da consoante é dúbia. Apenas nos diz que devemos seguir a inescrutável “pronúncia culta”, deixando até hoje aos lexicógrafos essa impossível tarefa. A perda da consoante muda com base no critério lábil da pronúncia não permite que haja unanimidade, sequer consenso!, quanto à grafia de uma caterva de palavras. Evidentemente, o corolário disto só poderia ser o que hoje está diante dos olhos de todos: a trapalhada generalizada. Os dicionários e demais fontes não se entendem quanto às palavras que perderam a consoante muda, quanto às que têm dupla grafia dentro de Portugal e quanto às que têm dupla grafia considerando Portugal e o Brasil. (E outros há que não definem o que é dupla grafia por haver dupla pronúncia intra-Portugal e dupla pronúncia por haver divergências entre Portugal e o Brasil. O caos é total.) Do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa: “Grafia no Brasil: estupefação.” Do Portal da Língua Portuguesa: “[E]stupefacção (Brasil).”

 

O caos é ainda maior para quem pretende averiguar se determinada locução perde os hífenes. Escalpelizemos os hífenes. Como demonstrámos no artigo anterior, a Base XV, Ponto 6 do Acordo, além de mutilar a lógica da língua portuguesa, é totalmente imprecisa quanto aos hífenes. Vejamos seguidamente como instituições muito consagradas – e que para muitos escreventes da língua portuguesa representam a “lei” da mesma – interpretam o Acordo quanto às locuções que perderam os hífenes: o Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC) e a Imprensa Nacional-Casa da Moeda (INCM).

 

Na lista “CASOS EM QUE SE MANTÉM O HÍFEN NOS COMPOSTOS CONSAGRADOS PELO USO da INCM, estão registados: “ajudante-de-campo”, “alfinete-de-ama”, “baba-de-camelo”, “boca-de-incêndio”, “braço-de-ferro”, “cabeça-de-casal”, “cabo-de-guerra”, “capitão-de-fragata”, “capitão-de-mar-e-guerra”, “dia-a-dia”, “fogo-de-artifício”, “folha-de-flandres” , “gaita-de-foles”, “jardim-de-infância”, “língua-de-gato”, “lua-de-mel”, “maçã-de-adão”, “mão-de-obra”, “mestre-de-cerimónias”, “mestre-de-obras”, “pão-de-ló”, “pé-de-atleta”, “pé-de-vento”, “pedra-de-toque”, “pó-de-arroz”, “pronto-a-vestir”, “testa-de-ferro”, “tinta-da-china”, “toucinho-do-céu”. No Portal da Língua Portuguesa, do ILTEC, todos estes “casos” aparecem sem hífenes! As demais locuções com hífenes decretadas pela INCM são “água-de-colónia”, “arco-da-velha”, “cor-de-rosa”, “pé-de-meia”, que o ILTEC consagra com hífenes e sem hífenes (apesar de serem excepções escarrapachadas no texto do Acordo como tendo necessariamente hífenes… Nem os acordistas seguem o Acordo no pouco que ele tem de objectivo…), “cabo-de-mar” que o ILTEC não acolhe nem com nem sem hífenes, “dente-de-cão” (que por ser espécie botânica é com hífenes), “frente-a-frente” que o ILTEC não acolhe nem com nem sem hífenes, “mais-que-perfeito” que mantém os hífenes no ILTEC como conceito gramatical e excepção do texto do Acordo, e “tromba-d’água” (que o Acordo de 1990 se esqueceu de repescar das bases que copiou do Acordo de 1945 e que os dicionários com o Acordo de 1990 continuam a escrever usando o Acordo de 1945). Significa isto concretamente o seguinte: nas locuções em que há interpretação subjectiva, há tão-somente cem por cento de divergência.

 

Sublinhe-se que o Portal da Língua Portuguesa, ao elidir os hífenes, acolhe (coerentemente) os antropónimos e topónimos com maiúscula inicial – “folha de Flandres”, “maçã de Adão” e “tinta da China”. Ou seja, a fina chapa utilizada, entre outras coisas, para a fabricação de latas (“folha-de-flandres”) ou o artefacto industrial usado como instrumento de percussão (“folha-de-flandres”) passa a escrever-se tal qual uma folha (papel ou pétala) de Flandres; a maçã dos tempos primevos de Adão e Eva passa a escrever-se tal qual a proeminência laríngea; o tipo de tinta para desenho indelével (“tinta-da-china”) passa a escrever-se como qualquer tinta (oriunda) da China. São as maravilhosas subtilezas introduzidas pelo Acordo… Mas há mais. O Portal da Língua Portuguesa acolhe “maçã de Adão” e “pomo de Adão” apenas sem hífenes. Sucede que o Acordo decreta na Base XV, Ponto 3: “Emprega-se o hífen nas palavras compostas que designam espécies botânicas e zoológicas, estejam ou não ligadas por preposição ou qualquer outro elemento.” Sucede ainda que há uma espécie botânica chamada “pomo-de-adão”…

 

Um matemático chegará rapidamente aos triliões (não é uma hipérbole) de Acordos com base nas combinações de palavras que perderam ou não perderam a consoante muda, nas locuções que perderam ou não perderam os hífenes, na facultatividade (outra aberração do Acordo) da letra maiúscula inicial e na facultatividade da acentuação.Como fará um professor que é obrigado a penalizar os alunos que não escrevem com a “ortografia” do Acordo, se não há consenso quanto à ortografia – se não há, no fundo, ortografia, ou seja, grafia correcta – nos dicionários relativamente a tantos vocábulos? Terá de comprar todos os dicionários, prontuários, gramáticas, fontes digitais, livros explicativos e sinópticos do Acordo e acolher todas as possibilidades, perdendo duas horas com cada palavra ou locução, ou decretará cada professor o seu próprio Acordo? Um bico-de-obra! A propósito, “bico-de-obra” perde os hífenes com o Acordo? Fazemos uma pausa na escrita e consultamos apenas dois dicionários. Ora bem, no Dicionário do Português Atual Houaiss, os hífenes estão lá. No da Porto Editora, não. Bastaria consultar estes dois dicionários nas locuções que perdem ou não os hífenes para se perceber o vácuo em que o Acordo assenta. Faça o exercício se quiser, caro leitor. O Dicionário Houaiss com o Acordo – por considerar desprezável ou desprezível? – ignora o estatuído no Acordo de nas locuções de qualquer tipo não se empregar “em geral” o hífen.

 

Regressemos às consoantes mudas. Há uma miríade de palavras que apresentam dupla grafia dentro de Portugal – os lexicógrafos não terão conseguido apurar a “pronúncia culta”, que, teimosa, parece oscilar no próprio assento etéreo em que repousa. Mas há dois aspectos que urge clarificar. Primeiro aspecto. Um sem-número de pessoas afirma: “Eu não quero saber o que diz o dicionário A ou B, eu quero saber o que diz o Acordo.” Sucede que o Acordo não tem tal lista de palavras. Segundo aspecto. Muitas pessoas asseguram: “Essa palavra tem dupla grafia.” A essa presunção, contraponha-se a pergunta: “Em que dicionário?” O que é de dupla grafia num dicionário não é noutro. Se uns dizem que tem e outros que não tem, aceita-se a versão mais abrangente, bastando que um diga que tem para se aceitar a dupla grafia? Ou vai-se pela média? Ou determinadas fontes merecem uma ponderação maior no cálculo da média? Como devem fazer os professores para avaliar os alunos? E nos casos em que as pessoas não concordam com o que os dicionários dizem sobre a consoante ser ou não ser muda (e são tantas as palavras!)? Fazer como diz o Ciberdúvidas sobre a palavra “ceptro”! “Voltando ao Ceptro/cetro, esta palavra não está indicada com pronúncia do p em nenhum dos dicionários a(c)tuais (mas simplesmente ¦cetro¦), nem existe a variante ceptro no Brasil. Ora o companheiro diz que há comunidades que pronunciam o p. Nesta base, passo a aceitar a necessidade da dupla grafia e deixei, portanto, de lhe fazer obje(c)ções.” Um dos grandes dramas do Acordo: os próprios acordistas não se entendem…

 

Não há duas pessoas que sigam o Acordo e que concordem quanto àquilo que é o Acordo. A “norma” (com setenta aspas de cada lado) é lábil, difusa, imprecisa – só não vê quem não quer ver. Que falta para a farsa terminar? Coragem política.»

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:05

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Sábado, 6 de Maio de 2023

“Patoá dos Tugas” defendido na Antena 1 no falso “dia mundial da língua portuguesa”. Apenas Manuel Matos Monteiro esteve bem nesse debate

 

Conheço crianças que querem escrever correCtamente a sua Língua Materna e não lhes permitem fazê-lo, acenando-lhes com penalizações.

 

Conheço gente adulta, a fazer mestrado, que quer escrever correCtamente a sua Língua Materna e não lhes permitem fazê-lo, acenando-lhes com penalizações.

 

E, no entanto, NÃO há lei alguma que as obrigue a escrever incurrêtamente a sua Língua Materna.


Isto só acontece num País que tem um PR, um PM e um PAR a defender interesses que não interessam a Portugal e aos Portugueses.

QUERO ESCREVER CORRECTAMENTE.jpg

Fonte da imagem:

https://www.facebook.com/photo?fbid=612068260948294&set=a.592015392953581

 

Antena 1: Cultura

Dia Mundial da Lingua Portuguesa|05 mai. 2023

Filomena Crespo conversou com Carlos Rocha, coordenador executivo da plataforma Ciberdúvidas, e também com Manuel Monteiro, revisor linguístico e autor dos livros "Por Amor à Língua" e "O Mundo Pelos Olhos da Língua"

 

Para ouvir o debate clicar no link:

 https://www.rtp.pt/play/p2803/e689929/pecas-culturais

 

Ouvi este debate com muita atenção, e o que tenho a dizer sobre ele é que o único que esteve bem e não disse disparates foi Manuel Matos Monteiro. E isto não é para o bajular, até porque sou das que diz o que tem a dizer, seja a quem for, sem papas na língua.


Manuel  Matos Monteiro defendeu bem o seu ponto de vista e apontou a fraqueza de um acordo que só veio APODRECER a Língua Portuguesa.


Ao contrário, como é possível a Filomena Crespo dizer que «há letras que não estão lá a fazer nada»? referindo-se  às consoantes não-pronunciadas de uma infinidade de vocábulos,  as quais o Brasileiros decidiram suprimir, apenas porque sim, sem ter em conta as regras das Ciências da Linguagem, no Formulário Ortográfico Brasileiro de 1943, cuja Base IV serviu para engendrar o AO90.

 

Filomena Crespo demonstrou um desconhecimento que não esperava dela. Pareceu-me que, para ela, o AO90 só veio facilitar uma escrita que ela não conseguia PENSAR.

 

O Carlos Rocha, esse então, esteve péssimo, ao defender o AO90, achando (foi o que espremi das palavras dele) que a Língua Portuguesa estava mais pobre antes da introdução deste abortográfico que nos impingiram, e que o AO90 só veio enriquecer a nossa Língua, reduzindo-a à mais básica grafia. E quando disse que desde 2012 já há muita gente, até nas universidades, a aplicar o AO90, como poderia este sair de cena?


Este é o argumento mais parvo que já ouvi na minha vida, e que anda por aí disseminado, pelos acordistas,  com o objectivo de impedir que se mande às malvas algo que os Portugueses não pediram, não querem e é irracional: o AO90.


Em 2012, já havia muita gente, incluindo crianças do 1º ciclo, que escreviam correCtamente a sua Língua Materna. E o que aconteceu? De um dia para o outro, tiveram de a escrever "incorretamente" (que sem o C, obviamente, lê-se incurrêtâmente). E tão incurrêtâmente que, nas Línguas que também andam a estudar (Inglês e Castelhano) escrevem diretor (lê-se dir'tôr) em vez de direCtor (tanto em Inglês como em Castelhano) porque se, em Português, ao escreverem direCtor marcam erro, as crianças ficam com dúvidas e, pelo sim ou pelo não, escrevem em Inglês ou em Castelhano "diretor" sem o C.

 

Disto tenho provas concretas, porque tenho netos no 5º ano e no 8º ano, e a mixórdia ortográfica que lhes ensinam é a mesma mixórdia que o PR, o PM e o PAR também usam nas suas escrevinhações públicas.


Esta foi a leitura que fiz sobre este programa, que em vez de celebrar a NOSSA Língua, desprezou-a, até porque no dia 05 de Maio NÃO se celebra o dia mundial da Língua Portuguesa, mas dá voz à mixórdia ortográfica portuguesa, que apenas os acordistas celebram, nesse dia.

Com gente assim, em lugares-chave de divulgação da Língua, Portugal virá a ser (ou até já é) o único país do mundo que tem por Língua Oficial um patoá, mais conhecido por Patoá dos Tugas, indo-se do 80 para o 08 sem o mínimo pejo.

  

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:24

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Terça-feira, 13 de Dezembro de 2022

No próximo dia 16 de Dezembro, Manuel M. Monteiro irá lançar mais um livro, na Língua de Portugal, com apresentação de Ricardo Araújo Pereira

 

Manuel M. Monteiro e Ricardo Araújo Pereira, dois cidadãos portugueses que pugnam pela preservação da Língua Portuguesa, em Portugal.

 

Desejo muito sucesso para mais este livro de Manuel Matos Monteiro, e espero que se aproveite o momento do lançamento para enviar aos governantes e à classe docente e a todos os que, subservientemente, se vergaram à ignorância, uma clara mensagem de repúdio ao AO90, responsável pelo CAOS que se vive nas escolas, com professores a impingirem uma vergonhosa mixórdia ortográfica, que o tal acordo mais desacordado do mundo originou. É que não conheço nenhum aluno, seja de que ciclo escolar for, que escreva escorreitamente a sua Língua Materna. Além dos disparates acordistas, há a outra parte, que demonstra um desleixo total pelo estudo da Língua.

O que andará a fazer o ministro da Educação? Para onde quer levar o Ensino, o ministro da Educação? Para que serve um ministro da Educação que DESPREZA o ensino da Língua de Portugal?

Manuel e Ricardo, aproveitem o momento para abanarem a estrutura do Ensino, mal assente no seu pilar: a Língua Materna dos Portugueses, para que o "edifício" caia, e possa erguer-se uma nova estrutura mais condizente com o SABER escrever e falar, e que rejeite, em absoluto, a ignorância que se instalou em Portugal.

Isabel A. Ferreira

 

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Comentários a este texto no grupo do Facebook  NOVO MOVIMENTO CONTRA O AO90:

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publicado por Isabel A. Ferreira às 11:55

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Quarta-feira, 31 de Agosto de 2022

O escritor Manuel Matos Monteiro, em entrevista à Rádio Movimento PT On-Line, fala do CAOS que o AO90 está a provocar no ensino da Língua, e no DEVER do presidente da República de defendê-la

 

Gostei bastante desta entrevista de Manuel Matos Monteiro a Rita Baldaya. Não sei se chegará aos ouvidos certos, ou seja, aos governantes que NÃO têm interesse algum na questão da Língua, estando eles a contribuir, cada vez mais, para a sua degradação, por falta de uma política pró-Língua Portuguesa, algo que está a provocar o CAOS no Ensino do Português, nas escolas portuguesas, só não sabendo disto quem não tem filhos ou netos a estudar, em todos os ciclos escolares.

 

Isto é caso único no mundo. Os estudantes vão para as escolas DESAPRENDER a escrever a sua Língua Materna.

 

Talvez não seja má ideia enviar este vídeo para os que, indevidamente, se arvoram em "donos" da Língua, para ver se lhes desperta os neurónios e possam acordar para a realidade, e ponham fim a esta pouca-vergonha nacional.

 

E o presidente da República que ande por aí a beijocar menos as mulheres, e trate de DEFENDER a Língua Portuguesa, como é do seu DEVER.

 

Isabel A. Ferreira

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:07

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Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2022

Arranque oficial da iniciativa «ACORDO ZERO: 0% Emissões AO90/100% Oxigénio Ortográfico»

 

 Por um 2022 livre do AO90

 

Ao cuidado dos candidatos às Eleições Legislativas:

 

Melhor seria para todos que, durante a campanha eleitoral, o AO90 estivesse TAMBÉM em foco. Os nossos votos TAMBÉM dependerão das posições dos candidatos sobre esta matéria-tabu. O silêncio será penalizado. 

 

Portugal precisa livrar-se urgentemente deste vergonhoso motivo de chacota em alguns países da lusofonia, e do resto do mundo.



Um País que troca a sua Língua por um dialeCto não é um País, é um território ocupado, e abstenho-me de dizer por quem. 

Isabel A. Ferreira

***

ANO NOVO, BATALHAS NOVAS! 

É com imenso prazer que anuncio […] o ARRANQUE oficial da iniciativa Acordo ZERO, em fase de maturação há já alguns meses. De hoje em diante, as informações oficiais da mesma poderão ser consultadas na página oficial em

 https://www.facebook.com/ACORDOZERO 

e, mais importante do que tudo, PARTILHADAS por todos os vossos contactos!

 

Vamos tornar o ACORDO ZERO absolutamente viral!
Obrigado a todos!! 

 

Paulo Teixeira

 

***

O QUE É A INICIATIVA "ACORDO ZERO"?

 

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Por Paulo Teixeira (ideólogo desta iniciativa)

 

 

O ACORDO ZERO é uma distinção de mérito independente atribuída a empresas/entidades que, em defesa da Língua Portuguesa, rejeitam a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.

 

ACORDO ZERO: 0% Emissões AO90, 100% Oxigénio ortográfico! 

 

***

 

O QUE É A INICIATIVA "ACORDO ZERO"?

 

É uma distinção de mérito independente, livre de facções políticas ou comerciais, atribuída a entidades e/ou pessoas que, em defesa da Língua Portuguesa, rejeitem incondicionalmente a aplicação do Acordo Ortográfico de 1990 a ela tão prejudicial.

 

***

 

O QUE DEFENDE A INICIATIVA "ACORDO ZERO"?

 

1) a preservação da diversidade da Língua Portuguesa em cada um dos países que a fala e escreve;

2) o respeito pela etimologia e coerência morfológica das palavras;

3) a evolução natural da escrita e da fala, sem tendenciosas imposições;

4) uma ortografia e fonética livres de palavras sem qualquer identidade (inventadas) e de erráticas pronunciações;

5) a restituição da Língua Portuguesa aos portugueses pela rejeição do AO90 e afirmação do AO45!

 

***

 

O QUE REPRESENTA SER DISTINGUIDO COM O MÉRITO "ACORDO ZERO"?

 

1) HONRA e PRESTÍGIO pela coragem de defender a Língua Portuguesa através da firme rejeição do AO90;

2) RESPEITO e ORGULHO por um património de inestimável valor que não deve ceder a vontades ou imposições políticas, comerciais ou de quaisquer outras origens a ela prejudicial;

3) CONSCIÊNCIA pelo reconhecimento do valor da diversidade e natural evolução da Língua;

4) RESPONSABILIDADE pelo futuro da Língua e o seu impacto nas actuais/futuras gerações.

***

 

"ACORDO ZERO", UMA INICIATIVA FUNDADA E IMPULSIONADA...

 

Pelo grupo "Portugal em Movimento Contra o AO90", uma nova frente de ataque ao AO90 no Facebook com o objectivo de pôr fim ao desastre ortográfico artificialmente imposto a Portugal e ao Conjunto de Países de Língua Portuguesa (CPLP) em prol da absurda e falaciosa união da Língua.

 

***

 

QUEM APOIA A INICIATIVA "ACORDO ZERO"?

 

Além de a grande maioria dos portugueses que se sabe estar manifestamente contra o AO90, a iniciativa "Acordo Zero" conta com o apoio crescente de conhecidíssimos nomes da nossa sociedade, cada um deles conscientemente unido por uma Língua verdadeiramente diversificada, natural, oxigenada e livre de condicionantes impostas à força. Não podia haver nada que fizesse mais sentido!

 

Enumerada, por ordem alfabética e em permanente crescimento, segue-se a actual lista de apoiantes oficiais desta iniciativa:

 

| 1 | Afonso Reis Cabral, escritor 

| 2 | Alexandre Cortez, fundador Rádio Macau / músico / programador e produtor cultural | 3 | André Gago, actor 

| 4 | António Bagão Félix, economista / político 

| 5 | António Chagas Dias, tradutor 

| 6 | António Eça de Queiroz, jornalista 

| 7 | António Fernando Nabais, professor e membro do blogue Aventar | 8 | António Garcia Pereira, advogado / político 

| 9 | António Jacinto Pascoal, escritor / professor 

| 10 | António-Pedro Vasconcelos, cineasta 

| 11 | Bárbara Reis, jornalista / redactora-principal jornal Público 

| 12 | Carlos Fiolhais, físico / professor universitário 

| 13 | Deana Barroqueiro, escritora 

| 14 | Fernando Alvim, humorista / locutor / apresentador 

| 15 | Fernando Dacosta, jornalista / escritor 

| 16 | Fernando Paulo Baptista, filólogo / investigador 

| 17 | Fernando Tordo, cantor / compositor 

| 18 | Fernando Venâncio, linguista / escritor / crítico literário 

| 19 | Francisco Miguel Valada, intérprete de conferência / linguista 

| 20 | Helder Guégués, revisor / estudioso da Língua 

| 21 | João Esperança Barroca, professor 

| 22 | João Reis, actor / encenador 

| 23 | João Roque Dias, tradutor 

| 24 | José Alberto Reis, cantor 

| 25 | José Pacheco Pereira, historiador 

| 26 | Juva Batella, escritor / professor de literatura 

| 27 | Manuel Alegre, poeta / político / romancista 

| 28 | Manuel Matos Monteiro, autor / jornalista / formador / revisor 

| 29 | Maria do Carmo Vieira, professora 

| 30 | Maria Filomena Molder, professora catedrática / filósofa 

| 31 | Mário Guerra Cabral, livreiro em: livraria Poesia Incompleta 

| 32 | Mico da Câmara Pereira, cantor 

| 33 | Miguel Ângelo, cantor / compositor 

| 34 | Miguel Esteves Cardoso, crítico / jornalista / escritor 

| 35 | Nilton, humorista 

| 36 | Nuno Miguel Guedes, jornalista / programador cultural 

| 37 | Nuno Pacheco, jornalista / redactor-principal jornal Público 

| 38 | Paulo de Carvalho, cantor / compositor

| 39 | Ricardo Batalheiro, revisor 

| 40 | Santana Castilho, professor ensino superior 

| 41 | Silvina Pereira, actriz / encenadora / investigadora 

| 42 | Teolinda Gersão, escritora 

 
 

 Consultar informação oficial neste link:

https://drive.google.com/file/d/1kna1o8HEdTqZlfFB_ZZAKDdBJafJ1PDQ/view?usp=sharing

 

***

PARCEIROS DESTA INICIATIVA

 

Esta secção encontra-se em fase de maturação. Contudo, conhecendo, concordando e respeitando os objectivos da iniciativa "Acordo Zero", qualquer grupo / projecto que se oponha afincadamente ao AO90 pode integrar a lista de parceiros oficiais, devendo apenas validar o seu interesse enviando um e-mail para: acordozero@gmail.com

 

***

 

ATRIBUIÇÃO DA DISTINÇÃO "ACORDO ZERO"

 

O grupo fundador e propulsor desta iniciativa, em data ainda por anunciar, iniciará a identificação de todas as empresas/entidades isentas da aplicação do AO90, sendo cada uma delas, progressivamente, contactada para se oficializar o processo de atribuição da distinção de mérito "Acordo Zero".

 

Qualquer empresa/entidade ainda não contactada para a obtenção da distinção de mérito "Acordo Zero", deverá enviar um e-mail para o endereço: acordozero@gmail.com 

 

Enviar mensagem

acordozero@gmail.com

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:15

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Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2021

«Abaixo as paralipses e o bom senso!»

 

«Políticos, habitantes do espaço público, comentadores de vária espécie, treinadores de futebol adoram paralipses. Em suma: quase todo o português gosta de paralipsar aqui e ali.»

(Manuel Matos Monteiro)

 

Manuel Matos Monteiro.jpg

Manuel Matos Monteiro

 

 Abaixo as paralipses e o bom senso!

 

Por Manuel Matos Monteiro 

 

Presta-se pouca atenção ao hábito muito portuguesinho do recurso à paralipse. (Não tratarei aqui do seu uso literário.) A arte de fingir que não se fala sobre um assunto, falando sobre ele. Não deixa de ter graça, concedo. Em estando atento à fácies de quem salpica o discurso com paralipses, o espectáculo pode revelar-se humorístico.

 

Políticos, habitantes do espaço público, comentadores de vária espécie, treinadores de futebol adoram paralipses. Em suma: quase todo o português gosta de paralipsar aqui e ali.

 

Vejamos exemplos típicos de paralipsadores.

 

Depois de um jogo de futebol, o treinador comenta:

 

— Eu tinha prometido não falar mais sobre arbitragem e vou cumprir. E hoje é um dia em que se falasse sobre arbitragem… — faz uma pausa para exibir o esgar de profundo conhecedor do mundo, o rosto da espécie a-mim-nunca-me-enganam —, teria muito, muito para dizer.

 

Num debate sobre X, o paralipsador anuncia:

— Tínhamos combinado falar exclusivamente sobre X, e assim farei. Não irei sequer comentar a vergonha do que se passa com Y. Em relação a X…

 

Passemos ao segundo truque de que pouco se fala. Perante a discussão de ideias no espaço público ou privado, no momento em que o falante não consegue contra-argumentar ou definir o que pensa, ou quando a conversa desliza para um terreno em que uma das partes quer esconder a sua ignorância, há um costumeiro truque português: o refúgio no “bom senso”.

 

Aqueles que (quase) nunca têm opinião (preferíveis aos que têm opinião sobre tudo, espécie em vias de crescimento exponencial) declaram, contentinhos:

 

— É preciso bom senso.

Ou:

— É tudo uma questão de bom senso.

Ou:

— Eu, nessa matéria, defendo o bom senso.

 

E quando é que não defendes, pá? Quem tem o monopólio do bom senso? Quem define o bom senso? Como se concebem políticas com base no bom senso? O que é bom senso para uns não o é para outros, eis uma obviedade.

 

O dissenso da ortodoxia dominante é bom senso? Por vezes? A História está cheia de casos de heresias (à época) que hoje consideramos dogmas.

 

É fastidioso ouvir “bom senso” como forma de encerrar debates, de não se comprometer pairando no empíreo dos ungidos do bom senso, de colar a expressão ao evidente e transbordante bom senso do seu emissor. Como o bom senso habita sempre aquele que o profere, nunca poderemos chegar a uma unanimidade quanto ao que é o bom senso. Nem sequer a um consenso (diferente de “unanimidade”). O “bom senso” é, bastas vezes, um ornamento vácuo, uma fraude argumentativa, uma derradeira tentativa de matar o diálogo, ganhando-o, uma dissimulação de ignorância, um enfado, uma putativa auto-sinalização de virtude, uma arma (sem munição) que quase todos temos no bolso e que é forçoso desmascarar.

 

Em matérias em que há antagonismos inconciliáveis, é superlativamente absurdo ouvir essas estafadas duas palavrinhas juntas. O bom senso de um dos lados é o “mau senso” para o outro lado, e vice-versa.

 

O superabundante “bom senso” pertence à categoria de expressões que nada dizem, mas que conseguem iludir e eludir o interlocutor. Miguel Esteves Cardoso (M. E. C.) alertou-nos para muitas delas, em textos que não ganharam rugas. Evoco-o a propósito da expressão “dentro do género”, que M. E. C. tão bem apanhou.

 

— O filme é bom?

— Dentro do género.

— Ele/ela é giro/a?

— Dentro do género.

— Gostaste da aula?

— Dentro do género.

 

O problema deste tipo de expressões, que devemos caçar sem átomo de piedade, é que conseguem, nada dizendo, calar o interlocutor, que, muitas vezes, nem enxerga ter ficado exactamente na mesma.

 

Há ainda expressões curiosas, porquanto perifrásticas e inúteis. Voltando a M. E. C., uma delas é: “Se quer que lhe diga, não sei.” Quando perguntamos algo a outro, aquele “se quer que lhe diga” é caricato (não deixando de ser delicioso). Pior: termina sempre com uma desfeita. Parafraseando o escritor e cronista deste jornal, imagine o leitor que responderíamos analogamente a quem nos perguntasse se lhe daríamos um cigarro: “Se quer que lhe dê, não dou.”

 

À data em que escrevo, há técnicas mais nefastas, insidiosas e frequentes (peço desculpa de não escrever “recorrentes”) de discutir do que as aqui inventariadas? Sem dúvida. Sucede que sobre elas há muita coisa escrita. Seja a falácia do espantalho, em que um interlocutor defende A, e o seu oponente distorce A até A ser A7 ou B ou C ou D, de modo que seja mais fácil refutar o argumento, agitar a turba e ganhar a contenda; seja o permanente rótulo em lugar da argumentação — tenho um amigo que, quando critica o Politicamente Correcto e certas políticas identitárias nas redes sociais, não raro, recebe o apodo de “fascista” (uma vez, até de “nazi”). Por outro lado, quando critica as políticas neoliberais, mandam-no para Cuba e a Coreia do Norte. E isso leva-me a três observações finais. Primeira: como deveríamos ser parcimoniosos com as palavras que desejamos que tenham força. Segunda: como palavras que vão ganhando uma amplitude semântica gigantesca se podem tornar ocas, ou seja, se certas palavras significam tudo, daqui se segue que não significam nada (veio-me logo à cabeça “evento”, que até com o sentido de “experiência” já se encontra: “eventos traumáticos”, por exemplo!). Terceira: como quem defende, com critérios largos, a criminalização do discurso de ódio (defini-lo é difícil e perigoso) quase sempre o pratica e quase sempre o circunscreve ao ódio do outro lado da barricada.

 

Manuel Matos Monteiro - Autor, jornalista, formador e revisor

 

Fonte:

https://www.publico.pt/2021/12/22/opiniao/opiniao/abaixo-paralipses-bom-senso-1989598

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:21

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Sexta-feira, 24 de Setembro de 2021

Comentários ao texto de Manuel Matos Monteiro, sob o título «Admirável Língua Nova – uma resposta a J.-M. Nobre-Correia»

 

 in

https://www.publico.pt/2021/08/31/opiniao/opiniao/admiravel-lingua-nova-resposta-jm-nobrecorreia-1975831

Porque os comentários também interessam.

Bertolt Brecht.png

 

ipsolorem

Experiente

Tanto prejuízo para Portugal e Brasil por tão fracas causas. Os autores do AO90 incharem o ego grande por ter feito algo que mudou a História. Como não podem fazer nada de relevante, resta-lhes modificar a ortografia do português. Grande vitória. Alegadamente unificar as ortografias de Brasil e Portugal com o resultado final de as ortografias ficarem muito mais distantes uma da outra e muito mais incompreensíveis entre si. E decidir como se Brasil e Portugal fossem donos da língua e não houvesse outros povos e países. Lucros para os grupos editoriais que dependem da edição de livros escolares e dicionários. Poupanças para as empresas tecnológicas: usam o argumento de que agora há apenas "uma escrita" para lançar as versões em português apenas em português do Brasil.

05.09.2021 01:03

 

ipsolorem

Experiente

Nada demove o projecto de vaidade pessoal dos proponentes do AO90, nem estudos, nem artigos científicos, nem resultados práticos nem nada. Querem apenas ser obedecidos, não importa que o "instrumento" seja tão mau que os dicionários para o aplicar têm de fazer adendas explicando como interpretaram as regras do AO90 e nem sequer concordam uns com os outros.

05.09.2021 00:53

 

 Idalete Giga

Iniciante

O AO90 foi o maior absurdo ortográfico da nossa Língua Materna. Muito obrigada pelo excelente artigo! SEREI SEMPRE DESACORDISTA!

03.09.2021 01:01

 

Magritte

Experiente

E quem escreve assim não é gago.

01.09.2021 23:15

 

Fun.eduardoferreira.883473

Influente

Avassalador e necessário. Muito obrigado pela excelente e fundamentada reflexão sobre “o Coiso”.

01.09.2021 17:56

 

orion

Influente

Uma língua viva está em interacção com o mundo, com as trocas comerciais e, em consequência, com a cultura global, Uma língua viva não é um corpo estático. E o inglês está especialmente preparado para as trocas e, historicamente, a Inglaterra foi a potência colonizadora que liderou a revolução industrial nas suas origens e colonizou os EUA e a Índia. Muito fácil ao inglês penetrar na comunicação global (também em menor grau o francês, de um país também colonizador, especialmente em África). A Língua, não pode ser, como defende Nobre-Correia, um corpo estranho à mudança. A melhor forma de defender a língua portuguesa é reforçar o ensino das línguas clássicas. Aliás, dizia Manuel S. Lourenço, estudioso destas áreas, que o português é a língua românica com mais semelhanças com o latim.

 

orion

Influente

Estas questões nada têm a ver com a existência ou não-existência do AO ou de outros anteriores. A referência constante às raízes da língua é fundamental. Voltando ao inglês: penetra no português, como tem penetrado noutras línguas. É adoptado em muitas ciências sociais e exactas para designar princípios teóricos, É simples a conjugação verbal, bastando três termos primitivos para a definição de tempos modos e pessoas(exemplo, to get, got, got que deve ser comparado à "complicação" da conjugação de obter, tradução para português) , tal como o são as regras atinentes à composição de palavras, os artigos e as preposições. Em inglês a grande dificuldade são as frases idiomáticas, tal como são em português. Ler muito em português, Assim se defende a língua.

01.09.2021 13:26

 

 fmart8

Experiente

Obrigado por tirar tempo para responder aquela coisa. Alguém tinha de o fazer.

01.09.2021 12:08

 

chagas_antonio

Moderador

Fantástico artigo, bem escrito e fluente, que só vem comprovar a lucidez do lado Anti-Acordo nesta luta que não pode parar. O provinciano e esganiçado texto de Nobre-Correia era uma coisa mal enjorcada e o seu autor acusou o toque de uma forma muito estranha. Enfim: o acordismo andava mudo, e voltará a andar mudo nos próximos tempos; o que era bom era que nunca mais se ouvisse e que desaparecesse, juntamente com o estúpido AO, para os alçapões da história.

01.09.2021 07:32

 

Jose Luis Malaquias

Influente

Bravo! Tinha de ser dito!

01.09.2021 05:23

 

mocosofia.878094

Iniciante

Além dos anglicismos apresentados por Manuel Monteiro, não percebi a necessidade de Nobre-Correia usar o termo estadunidense. Os habitantes dos Estados Unidos da América sempre foram designados, em Portugal, por americanos, sem qualquer confusão. Quantos aos pretensos argumentos em favor do #AO90, não existem. Aquele texto é uma miséria a todos os níveis. Obrigado Manuel Monteiro.

01.09.2021 01:06

   

JMGF.381108

Iniciante

Pois foi a única coisa correcta no texto de Nobre-Correia. E é "estado-unidense" no português europeu. O termo que escreveu no seu texto é mais usado no Brasil. A América não é um país, é um continente. Estados Unidos da América é um país da América. Até o uso de "norte-americano" para referir apenas os EUA é errado. Norte-americanos são os canadianos, os estado-unidenses, os mexicanos e os cubanos.

01.09.2021 10:22

 

chagas_antonio

Moderador

Os Estados Unidos da América são um país da América, certíssimo: mas também é certo que, em Portugal, os habitantes dos Estados Unidos da América são os americanos. Da mesma forma que os habitantes da Rússia são os russos, mesmo que este termo inclua moscovitas, siberianos, mongóis, quirguizes... E o facto de existir um termo não quer dizer que se use, nem o facto de se usar quer dizer que esteja correcto; são tudo coisas diferentes. Espero não provocar nenhum terramoto dogmático, mas o termo estado-unidense também se pode aplicar correctamente ao México (e, no passado, ao Brasil); aí, onde ficamos? E, já agora: os cubanos são tão norte-americanos quanto os haitianos ou os jamaicanos, ou seja: não são. São caribenhos.

01.09.2021 10:49

 

Luis_Morgado

Experiente

JGF, o que diz parece-me ser discutível. A designação de "Americano" para nomear os nacionais dos EUA está legitimada pelo uso em Portugal. Por outro lado, se é verdade que a "América" não é um país, os "Estados Unidos" não são também um país. Esta última designação, que diz ser a correcta, não está isenta de problemas: o nome oficial do vizinho México é precisamente "Estados Unidos Mexicanos". O argumento do rigor levar-nos-ia então a adoptar "estado-unidenses-americanos".

01.09.2021 11:28

 

Luis_Morgado

Experiente

Chagas_António, peço desculpa por ter repetido parte do seu argumento. Só agora vi o seu comentário.

01.09.2021 12:44

 

ipsolorem

Experiente

É certo que o aconselhado é estado-unidendense mas as línguas são coisas vivas e, dito simplesmente, não colou. Os falantes preferem americano e usam americano. Por exemplo o aconselhado é escrever Devónia mas ninguém o faz, todos escrevem Devonshire.

05.09.2021 10:32

 
mgmacedo48.909164

Experiente

Espero que este artigo venha a ocupar, na edição digital do Público de amanhã, uma posição de relevo equivalente à que foi concedida ao artigo a que responde. Neste momento, está como que escondido, de tal forma que só quem esteja muito familiarizado com a navegação na net o consegue encontrar.

31.08.2021 22:13

 

  1. Luis_Morgado

Experiente

Muito bem Manuel Matos Monteiro! Bem desmontada a arrogância e o ataque gratuito e desastrado que Nobre-Correia fez àqueles que justamente não aceitaram o malfadado Acordo Ortográfico de 1990.

31.08.2021 20:34

 

  1. João António Miranda dos Santos

Iniciante

Excelente crónica/resposta do autor ao texto de J.M. Nobre-Correia. Mais uma vez, não se consegue ler uma argumentação coesa e que faça algum sentido, em defesa do acordo ortográfico. Talvez porque seja mesmo impossível, e estejamos numa situação em que a falta de respeito pela apresentação de provas e princípios de racionalidade estejam a pôr em causa a sociedade liberal e de democracia representativa em que pensamos viver.

31.08.2021 20:17

 

  1. mzeabranches

Experiente

Obrigada por mais esta sua intervenção, pois "é uma vergonha calarmo-nos e deixarmos falar os bárbaros" (Eurípides). O AO90 é indefensável sob todos os pontos de vista e a argumentação da sua Nota Explicativa chega a ser ridícula! «O Estado português (...) não propôs - impôs». Sim, apoderou-se da nossa língua materna e decidiu servir-se dela, desprezando os pareceres dos especialistas e o conhecimento e o sentir dos portugueses. E a Assembleia da República tem tido um comportamento vergonhoso, sempre que solicitada sobre esta questão. Portugal não é uma democracia, pois os políticos eleitos por nós se permitem ignorar-nos. Nem com o Presidente da República poderemos contar?! Será possível?!

31.08.2021 19:27

 

  1. Alexandre de Carvalho

Iniciante

O "Acordo" foi uma negociata inventada por nabos e destinada a quem não sabe escrever. O governo deveria preocupar-se com a má qualidade do ensino e procurar que a Língua fosse ensinada correctamente, mas não... agora vale tudo para que as estatísticas mostrem "notas de excelência", mesmo que os alunos mal saibam falar ou escrever. Quem defende o AO90 fá-lo por ignorância ou por estupidez, porque é indefensável. O AO90 é mau e ilegal, tanto internamente como internacionalmente, mas para ninguém acabar com ele deve ter havido marosca da grossa para a aprovação da RCM 08/2011.

31.08.2021 19:25

 

Influente

Enquanto os doutos se insultam e vão lucrando, uns no contra e outros a favor, e enquanto não se faz a inevitável reversão para o glorioso passado, vou aproveitando estes dias felizes em que posso ignorar as malfadadas consoantes mudas, retorcidos rococós que sempre abominei...

31.08.2021 19:11

 

  1. mgmacedo48.909164

Experiente

Excelente, Manuel Monteiro. O artigo lamentável a que se refere já mereceu mais de 150 comentários de leitores do Público, na sua maioria contestando as falácias nele incluídas. Mas impunha-se uma resposta estruturada, e você soube dá-la.

31.08.2021 18:46

 

  1. João Manuel Farias da Silva

Iniciante

Aprecio ambos, cada um nas áreas que dominam, mas nesta matéria M.M. não deixa a sua tese esmorecer e os argumentos são avassaladores contra a situação que o AO90 criou e que aparentemente N-C desvaloriza e ignora.

31.08.2021 18:43

 

  1. Bruno Da Cunha

Iniciante

Os acordistas são muito propensos a contradições

  

  1. António Pestana

Iniciante

Muito bem.

 

 chagas_antonio

Moderador

Fantástico artigo, bem escrito e fluente, que só vem comprovar a lucidez do lado Anti-Acordo nesta luta que não pode parar. O provinciano e esganiçado texto de Nobre-Correia era uma coisa mal enjorcada e o seu autor acusou o toque de uma forma muito estranha. Enfim: o acordismo andava mudo, e voltará a andar mudo nos próximos tempos; o que era bom era que nunca mais se ouvisse e que desaparecesse, juntamente com o estúpido AO, para os alçapões da história.

 

Jose Luis Malaquias

Influente

Bravo! Tinha de ser dito!

 

mocosofia.878094

Iniciante

Além dos anglicisnos apresentados por Manuel Monteiro, não percebi a necessidade de Nobre-Correia usar o termo estadunidense. Os habitantes dos Estados Unidos da América sempre foram designados, em Portugal, por americanos, sem qualquer confusão. Quantos aos pretensos argumentos em favor do #AO90, não existem. Aquele texto é uma miséria a todos os níveis. Obrigado Manuel Monteiro.

  

JOSE GOMES FERREIRA.381108

Iniciante

Pois foi a única coisa correcta no texto de Nobre-Correia. E é "estado-unidense" no português europeu. [**] O termo que escreveu no seu texto é mais usado no Brasil. A América não é um país, é um continente. Estados Unidos da América é um país da América. Até o uso de "norte-americano" para referir apenas os EUA é errado. Norte-americanos são os canadianos, os estado-unidenses, os mexicanos e os cubanos.

 

chagas_antonio

Moderador

Os Estados Unidos da América são um país da América, certíssimo: mas também é certo que, em Portugal, os habitantes dos Estados Unidos da América são os americanos. Da mesma forma que os habitantes da Rússia são os russos, mesmo que este termo inclua moscovitas, siberianos, mongóis, quirguizes... E o facto de existir um termo não quer dizer que se use, nem o facto de se usar quer dizer que esteja correcto; são tudo coisas diferentes. Espero não provocar nenhum terramoto dogmático, mas o termo estado-unidense também se pode aplicar correctamente ao México (e, no passado, ao Brasil); aí, onde ficamos? E, já agora: os cubanos são tão norte-americanos quanto os haitianos ou os jamaicanos, ou seja: não são. São caribenhos.

  

Luis_Morgado

Experiente

JGF, o que diz parece-me ser discutível. A designação de "Americano" para nomear os nacionais dos EUA está legitimada pelo uso em Portugal. Por outro lado, se é verdade que a "América" não é um país, os "Estados Unidos" não são também um país. Esta última designação, que diz ser a correcta, não está isenta de problemas: o nome oficial do vizinho México é precisamente "Estados Unidos Mexicanos". O argumento do rigor levar-nos-ia então a adoptar "estado-unidenses-americanos".

 

mgmacedo48.909164

Experiente

Espero que este artigo venha a ocupar, na edição digital do Público de amanhã, uma posição de relevo equivalente à que foi concedida ao artigo a que responde. Neste momento, está como que escondido, de tal forma que só quem esteja muito familiarizado com a navegação na net o consegue encontrar.

 

Luis_Morgado

Experiente

Muito bem Manuel Matos Monteiro! Bem desmontada a arrogância e o ataque gratuito e desastrado que Nobre-Correia fez àqueles que justamente não aceitaram o malfadado Acordo Ortográfico de 1990.

 

João António Miranda dos Santos

Iniciante

Excelente crónica/resposta do autor ao texto de J.M. Nobre-Correia. Mais uma vez, não se consegue ler uma argumentação coesa e que faça algum sentido, em defesa do acordo ortográfico. Talvez porque seja mesmo impossível, e estejamos numa situação em que a falta de respeito pela apresentação de provas e princípios de racionalidade estejam a pôr em causa a sociedade liberal e de democracia representativa em que pensamos viver.

 

mzeabranches

Experiente

Obrigada por mais esta sua intervenção, pois "é uma vergonha calarmo-nos e deixarmos falar os bárbaros" (Eurípides). O AO90 é indefensável sob todos os pontos de vista e a argumentação da sua Nota Explicativa chega a ser ridícula! «O Estado português (...) não propôs - impôs». Sim, apoderou-se da nossa língua materna e decidiu servir-se dela, desprezando os pareceres dos especialistas e o conhecimento e o sentir dos portugueses. E a Assembleia da República tem tido um comportamento vergonhoso, sempre que solicitada sobre esta questão. Portugal não é uma democracia, pois os políticos eleitos por nós se permitem ignorar-nos. Nem com o Presidente da República poderemos contar?! Será possível?!

 

António Marques

Influente

Enquanto os doutos se insultam e vão lucrando, uns no contra e outros a favor, e enquanto não se faz a inevitável reversão para o glorioso passado, vou aproveitando estes dias felizes em que posso ignorar as malfadadas consoantes mudas, retorcidos rococós que sempre abominei...

 

mgmacedo48.909164

Experiente

Excelente, Manuel Monteiro. O artigo lamentável a que se refere já mereceu mais de 150 comentários de leitores do Público, na sua maioria contestando as falácias nele incluídas. Mas impunha-se uma resposta estruturada, e você soube dá-la.

 

Fonte:

https://www.publico.pt/2021/08/31/opiniao/opiniao/admiravel-lingua-nova-resposta-jm-nobrecorreia-1975831

 

***

 [*] Outro dia,  no texto de J.-M. Nobre-Correia, este nobre senhor acordista apátrida, denominou os discursos dos desacordistas,  de discursos patrioteiros, mas estes, ao menos, têm uma vantagem: são feitos por gente que tem uma Pátria. E ter uma Pátria, não é defeito. Defeito é ter Pátria e ir defender os interesses da Pátria dos outros, em detrimento da própria Pátria, por mero servilismo e obscurantismo.

 

[**] Tanto quanto me é dado saber, e até porque já estudei no Brasil e sei do que estou a falar, o termo “estado-unidense”, embora existindo em Português, é um termo usado exclusivamente no Brasil. Em Portugal, e conforme os comentadores já referiram, os habitantes dos EUA são americanos ou norte-americanos. Sempre foi assim. Não tentem os acordistas, à conta do AO90, querer, à força, impor a Portugal brasileirismos que não utilizamos. Como também é o caso do vocábulo “parabenizar”, exclusivamente brasileiro, e que já se anda por aí a dizer, substituindo-o pelo muito nosso FELICITAR.  

 

É de lamentar que nem os políticos portugueses (que têm a faca na mão), nem os professores portugueses (que têm o queijo na mão), nem os linguistas portugueses (que têm [terão?] conhecimentos específicos sobre a estrutura da nossa Língua) venham beber a esta fonte, o SABER que desconstrói o AO90, e o põe no seu devido lugar: abaixo de zero.

 

 Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:36

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«Admirável Língua Nova – uma resposta a J.-M. Nobre-Correia»

 

Parabéns Manuel Matos Monteiro, por mais este excelente, minucioso e precioso texto, que rebate inteligentemente os (des)argumentos do Sr. Nobre-Correia, no que ao AO90 diz respeito.

 

Isabel A. Ferreira

 

Manuel Matos Monteiro.jpg

 

Por Manuel Matos Monteiro

 

«Não encontro no texto de J.-M. Nobre-Correia uma resposta à única pergunta relevante nesta matéria: porque é o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 um instrumento melhor do que o anterior?» 

 

«Admirável Língua Nova – uma resposta a J.-M. Nobre-Correia»

 

Começo por saudar J.-M. Nobre-Correia pela coragem. O acordismo tem andado mudo. Ei-lo de volta.

 

Quem já leu e ouviu quilómetros de discussão em torno do assunto ficou, porém, desanimado. Mais uma vez. Porque o acordismo sistematicamente defende o Acordo sem conseguir uma coisa singela: apresentar motivos de defesa do que o Acordo introduz (ou mutila) na nossa língua. Há sempre desvios, tergiversação, evasivas, subterfúgios, tiros para todo o lado, mas nunca nada que tenha que ver com a redacção desse texto. Perdi a conta ao número de discussões sobre o dito que seguem o padrão (só mudam os matizes):

 

— Erros? Já havia antes… Homografia? Já havia antes.

— Mas agora há novos erros… E bem mais palavras homógrafas, algumas que dificultam a leitura…

— A ortografia é dos aspectos menos importantes…

— Porque fizeram o Acordo Ortográfico, então?

— O que nos deveria preocupar não é o Acordo, é a falta de leitura, os estrangeirismos, uma série de erros que damos, isto, aquilo e aqueloutro.

— Mas o Acordo não resolveu nenhum desses problemas e criou inúmeros problemas. Porque está a defender o Acordo, então?!

— Também há coisas absurdas com que não concordo nada…

— E porque nem essas se emendam?

— Nada é perfeito.

 

Os argumentos em favor da adopção do “novo acordo” só têm legitimidade se consubstanciarem respostas à pergunta: quais as vantagens do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO90) perante o anterior? Tudo o que não diga respeito à comparação entre os dois instrumentos é, por conseguinte, usando uma expressão popular do Brasil, conversa para boi dormir.

 

Não encontro no texto de J.-M. Nobre-Correia uma resposta à única pergunta relevante nesta matéria. Repito-a com outra formulação: porque é o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 um instrumento melhor do que o anterior?

 

J.-M. Nobre-Correia nem sequer se digna de responder a algumas das inúmeras perguntas que foram feitas ou sequer refuta incongruências e graves defeitos que muitos estudiosos da língua portuguesa, provenientes de diferentes países, têm denunciado ao longo dos anos. Não deverá espantar-nos. Nem os próprios fautores do AO90 se deram a tal trabalho, havendo até livros explicativos do AO90, designadamente do seu principal mentor, que contrariam o próprio texto do AO90. O único documento oficial de defesa do Acordo será a sua própria Nota Explicativa, que não apresenta nenhum estudo e que tem valor científico, técnico e linguístico nulo, enquanto jura amor eterno às pobres criancinhas, que terão de aprender as consoantes roubadas pelo AO90 para falar e escrever inglês (e francês e espanhol).

 

O Estado português, que decidiu ignorar a quase unanimidade de pareceres negativos sobre o AO90, não propôs — impôs. Não convocou uma discussão pública nem tão-pouco apresentou justificações ao povo português, que, a avaliar por todas as sondagens conhecidas, é contra o AO90. Pior do que isso: o Estado português continua a não saber aplicar o AO90. Não está sozinho. Nos livros, no jornalismo, na academia, na comunicação escrita que garante adoptar o Acordo, encontramos a escrita tripla: um pouco do AO90, um pouco do AO45, um pouco de hipercorrecção do AO90. Se J.-M. Nobre-Correia quiser, far-lhe-ei chegar (privada ou publicamente, como preferir), todos os dias, grafias destrambelhadas que começaram a surgir depois da aplicação do AO90: “mição”, “núcias”, “fição”, “oção”, “inteletual”, “proveta idade”, “helicótero”, “fatos e contatos” aos pontapés, entre tantas outras. Bem como adulterações da própria língua inglesa: fator, eletronic, eletro, diretion, nomes de meses em inglês com minúscula.   

 

Esperava-se mais de quem é tão contundente na descrição dos que se opõem (publicamente, supõe-se) ao AO90: os “fetichistas da precedente ortografia”, a “autoproclamada intelectualidade” [quem se proclamou intelectual no exercício da crítica ao AO90?], a “autoproclamada “elite” persiste, no entanto, em escrever na antiga ortografia [vírgula que não está na versão em linha, mas está na versão em papel] marca para ela de pertença à “boa sociedade”, “esta mesma autoproclamada ‘elite’ purista”.

 

Homogeneizar um grupo tão vário é difícil, porquanto abrange diferentes faixas etárias, diferentes ideologias políticas e filiações partidárias, diferentes classes sociais, diferentes países. Sobra o insulto. Quanto ao mais, se o AO90 é “uma guerrilha largamente estéril”, não se compreende por que razão o autor decidiu meter a colher (e da forma que o fez…) na discussão.

 

 J.-M. Nobre-Correia decidiu que a “autoproclamada intelectualidade continua a guerrear o acordo ortográfico, mas fica indiferente perante a acelerada perversão da língua” e que: “Curiosamente, esta mesma autoproclamada ‘elite’ purista não diz nada da avassaladora invasão da terminologia inglesa na versão estado-unidense.” Reconheço, como outros, a avassaladora invasão de que o autor, justamente, fala, tendo escrito sobre isso ao longo dos anos. Mas que tem isso que ver com o AO90? Nada. Acaso quem é crítico do AO90 é tendencialmente favorável a essa invasão? Evidentemente, não. Posso enviar-lhe, caro J.-M. Nobre-Correia, um punhado de autores que criticam o AO90 e essa avassaladora invasão. (Não o fazem é no mesmo arrazoado, inventando tribos e putativos nexos de causalidade.)

 

Já que falou da importância de consultar dicionários, pergunto-lhe: está ao corrente da quantidade de palavras em que os dicionários e prontuários acordizados não se entendem quanto à presença do cê ou do pê, à sua ausência ou à dupla grafia, bem como quanto à presença ou ausência de hífenes nas locuções? Sabe que, consoante a fonte acordizada que consultar, encontrará diferentes respostas quantos às ditas “consoantes mudas” em não poucas palavras e quanto à presença ou ausência de hífenes em muitas locuções (e, por conseguinte, da presença de maiúscula ou minúscula em nomes próprios que integrem tais locuções)?

 

Como sempre, a defesa do acordismo desagua num desvio. Ainda não foi desta que escutámos (consegue, J.-M. Nobre-Correia, explicar-me a vantagem de o AO90 tornar este acento dispensável, facultativo?) argumentos fundamentados em favor do AO90. Misturar alhos com bugalhos parece ser a única forma de defender o indefensável.

 

Com excepção de lérias como “simplificação” (menos letras, menos acentos, menos hífenes não significa, de forma alguma!, maior facilidade de aprendizagem da escrita ou maior facilidade de leitura ou de clareza na mensagem, como demonstra o acento de “pára”, de que nem os acordistas abdicam); “evolução” (já mudámos antes, mudemos outra vez e tantas quantas forem necessárias, apenas porque isso é evolução!, desconhecendo-se que o AO90 tem características únicas, como a ortografia ir a reboque dessa mirífica “pronúncia culta”); “unificação” (é mentira, é mentira, é mentira), com excepção dessas tretas, dizia, não há, até hoje, um argumento sólido em favor do Coiso.

 

Deixo uma sugestão a J.-M. Nobre-Correia e a todos os leitores que se preocupam com a língua portuguesa. Procurem ler os resultados do projecto EILOS (Estudo sobre o Impacto na Linguagem Oral e na Sematologia – AO90), incluindo sobre a própria adulteração da pronúncia das palavras por parte dos discentes. Entre outros dados, leia-se: “33% dos alunos não distinguem o significado de receção e recessão (e 43% conhecem um deles); 73% não distinguem o significado de concessão e conceção (10% conhecem um deles); 60% não distinguem o significado de intercessão e interceção (16,6% conhecem um deles).”

 

Pós-escrito: para quem se proclama tão avesso a estrangeirismos, “constatação” e “constatações” são galicismos, e “em termos de”, um anglicismo.

 

Manuel Matos Monteiro - Autor, jornalista, formador e revisor

 

Fonte:

https://www.publico.pt/2021/08/31/opiniao/opiniao/admiravel-lingua-nova-resposta-jm-nobrecorreia-1975831

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:04

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Sábado, 3 de Julho de 2021

«A todos os escreventes e falantes da língua portuguesa: um pedido»

 

Uma excelente lição de Português por Manuel Matos Monteiro -  autor, jornalista, formador e revisor.

 

Manuel Matos Monteiro.jpg

 

Por Manuel Matos Monteiro (*)

2 de Julho de 2021 

 

Só me resta desejar que o “pôr-do-sol” não se transforme no “colocar-do-sol”. E que quem citar Camões não diga que Inês estava linda COLOCADA em sossego.

 

 

Certo dia, ouvi um entendido (dir-se-á hoje: um “especialista”) em comunicação explicar que um palestrante tinha mais probabilidade de provocar um efeito duradouro nas mentes dos ouvintes se repetisse dez, onze, doze vezes a mesma ideia, em lugar de expor dez, onze, doze ideias. Escreverei este texto à luz desse conselho.

 

Para quem está atento ao uso da língua, os verbos ser, estar, ter, fazer, poder, pensar, achar, dizer e haver são (acabei de empregar dois deles nesta frase) omnipresentes. O problema não é (eis o verbo ser) novo. O verbo ser é (ei-lo outra vez!) o mais utilizado, até pela dificuldade em reconhecer a repetição: éramos, fôssemos, é, somos são (ei-lo novamente!) conjugações verbais traiçoeiras, porquanto muitos não identificarão nelas, intuitiva e imediatamente, o ubíquo verbo ser.

 

Mas o problema gigante e de solução simples que aqui pretendo apresentar (apresentar e não “colocar”) é outro. Já não há pachorra para o verbo colocar. Não há hoje outro verbo para “questões” (quase não há perguntas hodiernamente, só questões), “dúvidas”, “cenários”, “hipóteses”. A toda a hora e em toda a parte, colocam-se questões, dúvidas, cenários, hipóteses, problemas, senhas, códigos, números, vírgulas, isto, aquilo e aqueloutro. Habitantes e frequentadores do espaço público, já chega. Cultivem a diversidade vocabular. Há outros verbos. Há outras formas de dizer.

 

Já não se põem os pontos nos is. Colocam-se.

Já não se põe em prática alguma coisa. Coloca-se.

Já não se põe em risco algo. Coloca-se.

Já não se põe em sentido. Coloca-se.

Já não se põe um ponto final no assunto. Coloca-se.

Já não se põe uma pedra no assunto. Coloca-se.

Já não se põe de parte. Coloca-se.

Já não se põe de lado. Coloca-se.

Já não se põe alguém na ordem. Coloca-se.

Já não se põe em ordem. Coloca-se. Coloca-se em ordem alfabética, por exemplo.

Já não se põe algo a funcionar. Coloca-se.

Já não se põe em destaque (podemos simplesmente “destacar”, recorde-se). Coloca-se.

Já não se põe alguém ao corrente de. Coloca-se.

Já não se põe em causa. Coloca-se.

Já não se põe em dúvida (podemos simplesmente “duvidar de”, recorde-se). Coloca-se.

Já não se põe a descoberto. Coloca-se.

Já não nos pomos no lugar do outro. Colocamo-nos.

Já não pomos o lixo no lixo. Colocamo-lo.

 

As informações já não são publicadas, divulgadas, inseridas; são colocadas.

Fulano já não se põe na/numa posição. Coloca-se.

Muitos já nem sequer se põem a par de. Colocam-se.

Muitos já nem sequer põem algo à venda. Colocam-no. Muitos já nem põem o dinheiro no banco. Colocam-no.

Muitos já nem se queixam de que ponham palavras na sua boca que não disseram. Queixam-se de que coloquem palavras na sua boca que não disseram.

 

O futebolista já não põe a bola no fundo das redes. Coloca-a. Como a coloca nos pés ou na cabeça do colega de equipa. No basquetebol, também já se vai colocando a bola no cesto. Quanto ao mais, para o que quer que seja, já não se põe lá dentro (“meter” é outra opção); coloca-se lá dentro.

 

Mais vale a rendição total! Quando saímos de casa, não se diga que “pomos os óculos/a máscara”, colocamo-los/la. (Meter só se os pusermos dentro de algo.) Também não os/a guardamos algures. Colocamo-los/la algures.

 

Não raro, até já nem se deita ou põe água na fervura, “coloca-se”!

Não raro, até já nem se deposita ou põe a esperança em, “coloca-se”!

Não raro, até já nem se põe termo a, “coloca-se”!

Não raro, até já nem se põe cobro a, “coloca-se”!

Não raro, há até quem se “coloque a jeito”! Não raro, até se “coloca o dedo na ferida”!

Não raro, até “colocar-se em fuga” se encontra! (Podemos simplesmente “fugir”, recorde-se.)

Não raro, até se “coloca em evidência”! (Temos evidenciar(-se), recorde-se.)

Não raro, até se “coloca a cabeça [a própria ou a de outro] em água”!

 Não raro, até se “coloca a escrita em dia”!

Não raro, até se “coloca a nu”!

Não raro, até se “colocam as barbas de molho”!

Até “colocar o assunto para trás das costas” já li!

 

É de pôr os cabelos em pé! Que digo? É de colocar os cabelos em pé! Sabem que mais? Nesta matéria, já não ponho as mãos no fogo por ninguém. Perdão: já não “coloco” as mãos no fogo por ninguém.

 

Não tardará — deixará de se pôr a boca no trombone. Colocar-se-á.

Não tardará — as galinhas colocarão ovos.

Não tardará — “colocar-se ao fresco” triturará o “pôr-se ao fresco”.

Não tardará — passaremos a dizer: “Coloca-te fino/a!”

Não tardará — passaremos a afirmar: “Coloca-te bom/boa!”

Não tardará — diremos e escreveremos: “Colocou-se de joelhos.” (Podemos simplesmente “ajoelhar-nos”, recorde-se.)

Não tardará — passaremos a pedir: “Coloca-te bonito/a para mim.”

Não tardará — “pôr a mesa” será um arcaísmo, “colocar a mesa” triunfará. A mesa estará, por conseguinte, colocada.

 

Não tardarão a circular com naturalidade diálogos como:

— Já coloquei a carne a grelhar. O peixe está bom?

— Está óptimo, obrigado. Se puder colocar mais arroz e batatas, agradecia.

— Com certeza. Entretanto, posso colocar-lhe mais vinho no copo?

 

Com esta sobredosagem, com esta onda imparável, coloquialismos, vulgarismos e expressões rudes acabarão colonizados pela praga. “Põe-te a andar”, “põe-te a mexer”, “põe-te manso”, “põe-te daqui para fora”, “põe-te nas putas”, “põe-te a milhas”, “põe-te na linha”, “põe-te na alheta” tenderão a ser ditas e escritas com o verbo colocar. Procure hoje o leitor tais expressões com o verbo colocar. Viu? Já andam por aí.

 

Na fila da bomba de gasolina, ouvi um sujeito dizer a outro: “Olhe, coloque-se na fila, se faz favor.” Pareceu-me escutar o futuro. Qualquer dia, o João coloca-se a chorar e a Joana coloca-se a gritar, para depois se colocarem a cantar e a dançar.

 

 Só me resta desejar que o “pôr-do-sol” não se transforme no “colocar-do-sol”. E que quem citar Camões não diga que Inês estava linda COLOCADA em sossego. Posta em sossego — elegância, economia, estilo, beleza, eufonia. Haja ouvidos que ouçam. Que acrescenta colocar a pôr? Sílabas, essencialmente.

 

Consulto dicionários de expressões idiomáticas e nem sequer encontro o verbo colocar. Folheio, entre outros dicionários, o Houaiss, e dele não constam expressões idiomáticas ou fixas no verbete “colocar”.

 

Ponham isto na cabeça, escreventes e falantes da língua portuguesa, mormente os do espaço público — ou se preferirem: coloquem isto na cabeça. De joelhos, imploro a todos: podem, por favor, por favor, por favor, por favor, por favor, por favor, por favor, por favor, moderar o uso de tal verbo?

 

Nota: “pôr” não perdeu o acento com o metuendo “novo acordo”, erro que se vê muito mais vezes desde a aplicação desse nefando instrumento, que, além de cês e pês, não estima hífenes e acentos. As publicações periódicas que assinalam que determinado autor segue “o novo acordo” deveriam, quase sempre, substituir tal inscrição por: “acredita que segue o novo acordo”. 

(*) Autor, jornalista, formador e revisor

 

Fonte:

https://www.publico.pt/2021/07/02/culturaipsilon/opiniao/escreventes-falantes-lingua-portuguesa-pedido-1968823?fbclid=IwAR1YlpbCXAfXcZ8pyeIxF3imDliQIewVjHj2oYZRnv92B7nRbzKgL6aGMR8

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:15

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