Quarta-feira, 10 de Dezembro de 2025

Em Defesa da Ortografia (LXXXVII), por João Esperança Barroca

 

Na linha dos seus antecessores, o texto do mês de Dezembro (o 87.º da série “Em Defesa da Ortografia” e o último do corrente ano), continua a apresentar, exactamente, as mesmas características.

 

     A aposta continua a ser a de mostrar diálogos, por vezes absurdos, de índole humorística, que ilustram a fantochada do AO90, expondo as suas fragilidades, as suas incoerências e a completa ausência de lógica.

 

     As palavras a vermelho indicam as formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, remetem para grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos, se mantêm como duplas grafias.  A azul, temos os casos de hipercorrecção, decorrentes da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.

 

 

LXXIII.

             — Como vamos sair deste túnel sem luz?

             — Temos de tatear. É a única solução.

             — Não é suficiente.

             — Porquê?

             — Porque, para sairmos daqui, temos de usar o tacto, isto é, temos de tactear.

 

 

LXXIV.

 

             — Ó pai, como se chama um circuito usado numa subtracção entre números binários?

            — Acho que é um subtractor, Rafael Alexandre.

           — Pensei nisso, mas não consta no dicionário

           — Experimenta procurar subtrator.

            — Devem ter tido vergonha de pôr mais uma consoante em reclusão. Além disso, parece que estão a falar de um tractor que anda debaixo do chão.

 

 

 

LXXV.

             — Vou fazer uma intervenção cirúrgica na próxima semana.

             — Que intervenção?

             — Vou retirar as adenoides.

             — E não precisas de uma segunda intervenção depois?

             —  Para quê?

             — Para retirar o acento.

 

LXXVI.

 

              — O meu filho tem problemas respiratórios e vai ser operado às adenoides.

              — O que é isso?

              — É o mesmo que as amídalas faríngeas.

              — Olha lá, além de acentos, também andas a comer consoantes?

 

LXXVII.

 

             — Este ano, em Agosto, vou passar férias no Gerês.

             — E já preparaste tudo?

             — Tenho tudo controlado. Até já decidi o trajeto.

             — Mais uma vez, fizeste mal. Embora pareça mais longo, é muito mais seguro escolher o trajecto.

 

LXXVIII.

 

             — Olha, olha! Já estou a ver! Repara, ali, à esquerda, na trajetória do asteroide.

             — Que alarido! Estou a ver mais e melhor que tu.

             — Porquê?

             — Porque estou a ver a trajectória do asteróide, não te parece?

 

LXXIX.

 

             — Estive a ler um livro sobre o Apocalise.

             — Apocalise? Que raio de palavra é essa?

             — Nunca ouviste? És um ignorante! Significa o fim do mundo, pá!

             — Parece-me, antes, o fim da ortografia.

 

LXXX.

 

             — Estou a sentir as primeiras contrações. É melhor acionar o INEM.

            — Calma, calma…

            — Dizes isso porque não é contigo!

            — Por enquanto, só estás a sentir contrações, não é?

            — Sim, sim.

            — Exactamente por isso, deves ter calma. Quando começares a ter contracções, accionamos o INEM e damos ao canelo, pode ser?

 

LXXXI.

             — O meu advogado contatou-me, dizendo que sou arguido e acusado de corrução.

             — E estás preocupado com isso?

            — Claro que estou preocupado. Nunca me vi nestas alhadas.

            — Pois eu acho que não há razão para te preocupares.

            — Qual é a tua ideia?

            — O crime de corrução é uma coisa de somenos. Tenho sérias dúvidas de que seja crime. Grave seria se fosses acusado de corrupção. Aí, piava mais fino. Ah, e contrata um advogado que te contacte.

 

LXXXII.

 

             — Ó pai, preciso da tua opinião.

             — Sobre que assunto?

             — Estou a pensar oferecer à mãe um cato no Dia da Mãe. O que achas?

             — Um cato? Parece-me que estás a juntar um artigo indefinido com uma forma verbal do verbo catar.

             — Não percebo, pai.

             — Um é um determinante, artigo indefinido e cato é a 1.ª pessoa do presente do indicativo do verbo catar.

             — Não é nada disso, pai. Um cato é uma planta.

             — Da família das Cactáceas. Faz lá falta o cê.

 

 LXXIII.

 

             — Ó pai, o que é um dador?

             — É alguém que dá ou doa aos outros, a maior parte das vezes, sem querer algo em troca.

             — Tem sinónimos conhecidos, desses de que tu gostas?

             — Podes usar benemérito ou filantropo.

             — Então um conadador doa o quê?

 

 LXXXIV.

             — Ó pai, o que quer dizer mandante?

             — Mandante significa o que manda ou instiga outros a cometer determinados actos.

             — Há algum sinónimo?

             — Sim. Instigador.

             — Um cocomandante instiga os cocos? Não percebo.

             — Não estás sozinho. Ninguém compreende as questões da nova ortografia. Já o saudoso António-Pedro Vasconcelos o dizia.

 

Ah! Uma das imagens que acompanha este escrito demonstra como, vários anos após o início da aplicação do nefando Acordo Ortográfico de 1990, alguns órgãos de Comunicação Social continuam a ter saudáveis recaídas, distinguindo, neste caso, um verbo de uma proposição.

 

Ah! A outra imagem, sobre o desempenho de um futebolista português em França, mostra o estado a que isto chegou, como diria Salgueiro Maia, em que o verbo retratar-se, vítima da sanha de amputar indiscriminadamente consoantes, significa, agora, além de fotografar, desdizer-se, dar o dito por não dito…

 

Ah! É completamente obrigatório ler o artigo de Manuel Monteiro “A língua de pau de todos os dias”, publicado recentemente pelo jornal Público.

 

Ah! Como é habitual, vale a pena ler dois textos recentes de José Pacheco Pereira, também dados à estampa pelo Público: “O desprezo da pátria por via do desprezo da língua” e “O papel destrutivo do deslumbramento tecnológico na educação”.

 

Ah! O blogue O Lugar da Língua Portuguesa, administrado por Isabel A. Ferreira, continua a ser um local bem frequentado, onde os bons espíritos se vão regularmente reencontrando. Salubérrimo, portanto.

 

João Esperança Barroca

 

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publicado por Isabel A. Ferreira às 16:32

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Sábado, 4 de Outubro de 2025

«Em Defesa da Ortografia (LXXXV)», por João Esperança Barroca

 

O texto de Outubro (o 85.º da série “Em Defesa da Ortografia”), na linha dos recentes antecessores, apresenta, exactamente, as mesmas características.

 

A aposta continua a ser a de apresentar diálogos, por vezes absurdos, de teor humorístico, que exemplificam a fantochada do AO90, pondo a nu as suas fragilidades, as suas incoerências e a sua completa ausência de lógica.

Os termos a vermelho indicam formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, referem grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos se mantêm como duplas grafias.  A azul, temos os casos de hipercorrecção, potenciados pela aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.

 

IL

— Estou tramado…

— Porquê?

— Sou arguido num processo que envolve contrafaç

Contrafação? Então não te preocupes. Quase nem precisas de advogado. Não aplicas o Acordo Ortográfico

— Aplico!

— Então, basta dizeres isso. Crime é a contrafacção. É curioso que “Contrafacção” é o título de uma canção de Sérgio Godinho. Prova-se, assim, que o homem, além de bom compositor e cantor, tem bom gosto ortográfico.

 

L

— O casamento entre o Raul e a Catarina terminou de forma abruta.

— Qual deles vai ser acusado de violência doméstica?

— E quem falou em violência?

— Tu! Não disseste que foi à bruta. Abrupta é outra coisa, como devias saber. Cortar consoantes a eito dá nisto.

 

LI

— O que é o trabalho nocturno?

— É o que é feito no turno da noite (do latim nocte).

— Faz sentido manter o cê, por essa razão.

— Pois faz, mas agora com o AO90, é, de poda em poda, até à destruição final e lá nasce o estropício: noturno.

— E noctívago? Ainda leva cê?

— Quase nunca. A Infopédia assume-a como dupla grafia, notívago e noctívago, ao contrário de outras fontes.

— E noctâmbulo e noctilúcio?

— Continuam com cê.              

— Não percebo estas incoerências, nem essas coisas das fontes.

— Acho que, pelo menos, esta parte do AO 90 foi redigida de noite e às escuras…

 

LII

— Já sabes o tema do teu trabalho?

— Já sei, já.

— O que te saiu?

— O Pato de Varsóvia.

— Calma aí… O trabalho não é da disciplina de História? Ou é de Zoologia?

— É de História. O professor é que corta consoantes a eito. É um poupador, percebes?

— Tem literacia financeira. Falta-lhe a outra…

 

LIII

— Por onde tens andado, pá? Não te tenho visto.

— Ando ocupadíssimo a pedir orçamentos para o batizado do meu filho. Só tenho recebido propostas muito altas, na ordem dos 80 euros por pessoa.

— Olha aqui. Esta empresa organiza toda a cerimónia do baptizado e cobra só 75 euros por pessoa.

— O que te parece? Se fosse contigo, o que farias?

— Eu optaria pela empresa que organiza o baptizado. Penso que dá outras garantias. Certamente, com mais uma consoante, é uma cerimónia mais completa. 

 

LIV

— Esta noite tive um sonho estranhíssimo.

— Sonhaste com extraterrestres?

— Nada disso! Sonhei que era acionista da SAD.

—  Isso é mesmo pensar em pequenino!

—  Porquê?

— Digno de admiração era se sonhasses ser accionista. Isso é que não é para todos!

 

LV

— O que te disse o professor sobre a composição?

— Disse que não referi todos os aspetos necessários.

— Espetos? Então a composição era sobre gastronomia ou sobre Alterações Climáticas?

 

LVI

— O meu neto é extraordinário!

— Então porquê?

— Sabe tudo sobre futebol. Lê tudo o que é publicado nos jornais e nas revistas. Está sempre atualizado.

— Estás enganado! Para saber tudo, teria de estar actualizado. Não é bem a mesma coisa…

 

LVII

— Ó pai, olha, olha…

— Olho o quê, Rafael Alexandre?

— Tantas palavras…

— Onde? Tenho mesmo de trocar de lentes. Não vejo nada.

— Ali, à porta da Associação dos Espoliados pelo AO 90.   Ação, acionar, acionável, acionista, ativar, reação… Todas sem cê. Estão a protestar.

— E o que querem?

— Querem a devolução do que lhes tiraram, ora essa!

 

LVIII

— Que porcaria, pai. Está tudo cheio de cocó de cão.

— Pois está.

— Mas naquele cartaz pede-se que as pessoas recolham os dejetos dos cães.

— Esse é que é o problema, Rafael Alexandre.

— Não percebo…

— As pessoas levam os dejetos, mas deixam os dejectos. Não é bem a mesma coisa.

 

LIX

— Trouxeste o que te pedi?

—  Aqui está.

— Mas isso é líquido assético.

— Não foi o que pediste?

— Não. E quanto é que pagaste?

— Dois euros.

— Isso é o preço habitual do líquido asséptico, que é muito melhor.

 

LX

— A minha namorada tem agora um rabo-de-cavalo.

— Passou a frequentar um ginásio?

— Não. Mudou de cabeleireiro, meu estúpido!

 

Ah, as imagens que acompanham este escrito (primeiras páginas de jornais desportivos, exemplificam o que muitos sabem, mas poucos denunciam.

Como se lê:

Horta para o estágio?

O que significa?

O jogador Horta vai para o estágio ou vai interromper o estágio?

 

Como se lê:

Melhoria salarial para o avançado?

O avançado vai usufruir de uma melhoria salarial ou vai ser parado por ela?

 

 Ah, Manuel Monteiro publicou no jornal Público um interessantíssimo artigo com o título “Os benefícios da leitura”. Como sempre, vale a pena ler.

 

João Esperança Barroca

 

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publicado por Isabel A. Ferreira às 15:54

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Terça-feira, 25 de Fevereiro de 2025

«Em Defesa da Ortografia (LXXVII)», por João Esperança Barroca

 

«… a aplicação do Acordo deixou a língua portuguesa em cacos. (E as coisas não melhoram por uma razão simples: o instrumento carece de fundamentação técnica.)»

Manuel Monteiro, autor, revisor e jornalista, in Por Amor à Língua e à Literatura, página 205

 

«O acordismo defende sistematicamente o Acordo sem conseguir uma coisa singela: apresentar motivos de defesa do que o Acordo introduz (ou mutila) na nossa língua. Há sempre desvios, tergiversação, evasivas, subterfúgios, tiros para todo o lado, mas nunca nada que tenha que ver com a redacção desse texto. Quem já leu e ouviu quilómetros de discussão em torno do assunto conhece muito bem o padrão:»

Manuel Monteiro, autor, revisor e jornalista, ibidem, página 207

 

«Os argumentos em favor da adopção do “novo acordo” só têm legitimidade se consubstanciarem respostas à pergunta: quais as vantagens do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO90) perante o anterior? Tudo o que não diga respeito à comparação entre os dois instrumentos é, por conseguinte, usando uma expressão popular do Brasil, conversa para boi dormir. Chavões como “uniformização”, “a língua evolui”, “simplificação” nada dizem e, se o dizem, mentem, porque não houve uniformização, porque a língua não caminhava para tais mudanças e porque a existência de regras lábeis não simplifica nada. O insulto também não conta: esta não é uma luta entre reaccionários e progressistas — é uma luta entre a estupidez e a inteligência. É inútil homogeneizar os seus críticos: trata-se de um grupo vasto e vário, porquanto abrange diferentes faixas etárias, diferentes ideologias políticas e filiações partidárias, diferentes classes sociais, diferentes países.»

Manuel Monteiro, autor, revisor e jornalista, ibidem, página 208

    

Após as citações em epígrafe, retiradas da excelente obra Por Amor à Língua e à Literatura, publicada pela editora Objectiva, vamos apresentar alguns exemplos da língua que vai circulando por aí, à boleia de alguns órgãos de comunicação social:

     

1 - «Estava a assistir ao jogo e pela experiência disse logo que devia tratar-se de cruzado anterior. Segue-se um processo cirúrgico complexo, uma rotura do cruzado anterior é sempre complexo (sic). Foram dois lances sozinhos, em que prenderam o pé na relva, normalmente a lesão do cruzado anterior surge num movimento de torção, sem contato, portanto, aquilo que lhes aconteceu acaba por ser normal neste tipo de situação, começou por dizer.»

A Bola, 09-02-2025.

 

Sem tacto, não é, caro leitor? Esta é uma das aberrações que veio para ficar. Pelo andar da carruagem, parece pouco provável que nos livremos dela

 

2 - «Em termos afetivos? É normal conhecer mais pessoas. Na estrada, está-se em contato com muita gente. Pessoas simpáticas, giras…não há que ser hipócrita. O segredo é não cair no deslumbramento. Vão aparecer pessoas novas todos os dias mas há muito tempo que a minha vida é assim. Na banda da adolescência, já tínhamos groupies (sic). Numa escala menor, já passei por isso. Não é por conhecer mais pessoas que me apaixono todos os dias. Quando estás bem em casa, não te deixas levar facilmente.»

Nascer do Sol, 21-04-2017.

 

Além do omnipresente contato, os termos afetivos fazem-nos pensar em aftas, não é?

 

3 - «Fernando Hierro foi apresentado na tarde desta quarta-feira como selecionador de Espanha, depois da saída abruta de Julen Lopetegui, que ontem tinha sido oficializado como treinador do Real Madrid para a próxima temporada. Uma tarefa ingrata, dado que a Roja irá estrear-se no Mundial daqui a dois dias frente a Portugal.»

 Nascer do Sol, 13-06-2018.

 

Tendo em conta que o étimo latino é selectiōne, não se percebe o desaparecimento da consoante. Aqui para nós, um selecionador é muito menos competente que um seleccionador. Quanto ao termo abruta, é o exemplo inequívoco da febre de mutilar a língua, cortando consoantes a eito.

 

4 - «Irritada com a conduta de Julen Lopetegui, que assinou pelo Real Madrid à sua revelia, a Federação espanhola demitiu o ex-treinador do FC Porto e nomeou Fernando Hierro como seu substituto. Para as casas de apostas, serão os comandados de Fernando Santos os maiores beneficiados por esta decisão abruta

Nascer do Sol, 13-06-2018

 

Só pode ser de quem trata a língua à bruta! De quem deixa a língua em cacos!

 

Ah, a imagem que acompanha este escrito foi gentilmente cedida, já há vários anos, por Pedro Carlos, a quem agradecemos.

 

João Esperança Barroca

 

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publicado por Isabel A. Ferreira às 16:00

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Quinta-feira, 7 de Novembro de 2024

«Em Defesa da Ortografia» (LXXIII), por João Esperança Barroca

 

 «Com o novo Acordo Ortográfico, introduziu-se o caos: neste dicionário uma palavra tem "c", neste é dupla grafia, neste tem "p", neste não tem. As palavras em que se mexeu são palavras em que ninguém errava, e em que agora se erra. Temos ainda outro problema, que é haver palavras que estão a ser pronunciadas de outra forma porque perderam a consoante muda que guardava a vogal aberta. Há inúmeros exemplos na televisão e na rádio

Manuel Monteiro, escritor, tradutor e revisor, Página Um, 03-10-2024

 

«Há deputados incomodados com os silêncios de Lacerda Sales e de Rebelo de Sousa. Todavia, não vejo qualquer deputado incomodado com o permanente silêncio de quem escreveu “agora facto é igual a fato (de roupa)”. É silêncio antigo, mas sem referir razões. No entanto, aparentemente, não incomoda.»

Francisco Miguel Valada, Intérprete de Conferência, no blogue Aventar

 

«É incompreensível que um inglês leia Walter Scott ou Oscar Wilde na grafia original, o mesmo sucedendo a um francês em relação a Balzac ou Zola, um espanhol em relação a Pérez Galdós e um norte-americano em relação a Mark Twain, enquanto as obras de um Camilo ou um Eça de Queiroz já foram impressas em quatro diferentes grafias do nosso idioma.

As sucessivas reformas da ortografia portuguesa são um péssimo exemplo de intromissão do poder político numa área que devia ser reservada à comunidade científica.

Cada mudança de regime produziu uma "reforma ortográfica" em Portugal. Para efeitos que nada tinham a ver com o amor à língua portuguesa, antes pelo contrário.»

 

Pedro Correia, jornalista e autor no blogue Delito de Opinião

 

Nos últimos “Em Defesa da Ortografia LXXI”, alertámos para a afirmação de Pedro Correia, e de muitos outros, no programa “Prova Oral”, de que, hoje, sem recurso às múltiplas ferramentas tecnológicas, ninguém sabe aplicar devidamente o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90).

 

Para provar a veracidade desta afirmação, leia-se, por exemplo, o artigo de opinião de Margarida Marrucho Mota Amador, Coach (seja lá o que isso for) e ex-directora do Colégio do Sagrado Coração de Maria e do Externato O Beiral em Lisboa, “A educação compensatória: gueto ou valorização”, publicado no jornal Público, em 4 de Julho do corrente ano.

 

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A autora, como outros, afirma que toma a opção de escrever na nova ortografia e usa, por ordem alfabética, como se pode comprovar na imagem, retirada do blogue Tradutores Contra o Acordo Ortográfico os seguintes termos: ação, antevêem, características, expectativas, factores, objetivos, e projectos. Como se vê, Margarida Amador labora num erro, pois parece ter preferência por uma ortografia coerente e respeitadora da etimologia. Conviria, contudo, que alguém lhe chamasse a atenção, dizendo: Não, Margarida Amador, a senhora não utiliza a nova ortografia; utiliza, no geral, a ortografia de 1945, polvilhada de umas aberrações, à laia de enxertos, trazidas pelo AO90.

 

Continuando a pesquisa de aberrações que preenchem e preencheram a Comunicação Social, deparámos com os fatos e os contatos do costume, a que se junta a ficção, que abre a porta a outras aberrações como ficionar e ficionista, por exemplo:

 

  1. "Eu aqui estou para ser presidente da Câmara de Lisboa", contrapôs, referindo que deu "tudo" para isso e para lutar "contra o adormecimento social em que o PS vive, em que o Governo vive, numa ilusão, numa fição". RTP, 28-08-2021;
  2. Aquele que é designado de “segundo cérebro” vive, de forma secreta, nos intestinos. Porquê? Vamos esclarecer, com a ajuda dos nossos convidados: Ricardo Rangel, médico de Endocrinologia e nutrição orientado para saúde da mulher, e a naturopata Cátia Antunes, especialista em patologia inflamatória do intestino. E porque o refluxo do ácido gástrico pode causar ou agravar as úlceras de contato das cordas vocais, mais à frente, Clara Capucho, otorrinolaringologista especialista em voz, vai juntar-se a nós.” Expresso 14-08-2024;
  3. Ele analisa que, embora haja tendências mundiais – como o fato de populações votarem sempre nos candidatos oposicionistas, uma expressão da irritação do público com as democracias –, o que leva autocratas ao poder são as circunstâncias locais de cada país. “No final das contas, a política latino-americana é moldada por dinâmicas latino-americanas, não por eventos nos Estados Unidos.”

 

Não era previsível, mas os EUA são um país grande, com alto nível de doenças mentais não tratadas, um número extraordinariamente grande de armas que são facilmente acessíveis e em meio a [sic] uma campanha eleitoral muito, muito polarizada, dramaticamente reforçada pelas redes sociais. Então, o fato de que um jovem de 20 anos poderia facilmente conseguir uma arma e tentar assassinar um dos candidatos nos Estados Unidos, dadas as condições, não deveria chocar ninguém. Não que seja previsível, mas não é chocante. Expresso, 22-07-2024

 

Como vê, caro leitor, nos sítios do costume, mora a ortografia do costume. Quase ninguém fala do elefante na sala, não é?

 

Se é assim na Comunicação Social, como será com o cidadão comum?

 

Ah, parece que cada vez há mais restaurantes especializados em espetadas ou existe um incremento de bandarilheiros na indústria tauromáquica.

 

Ah, a TVI 24 precisa de mais umas horitas para interiorizar as regras do AO90.

 

Ah, o Observador também tem, recorrentemente, umas saudáveis recaídas…

 

João Esperança Barroca

 

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publicado por Isabel A. Ferreira às 15:18

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Terça-feira, 25 de Junho de 2024

Incursão de uma desacordista pela Feira do Livro de Lisboa: «Por Amor à Língua e à Literatura» de Manuel Monteiro

 

Obrigada, Idalete Giga.

Obrigada, Manuel Monteiro.

Isabel A. Ferreira

 

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publicado por Isabel A. Ferreira às 15:58

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Quinta-feira, 6 de Junho de 2024

Lançamento de novo livro de Manuel (Matos) Monteiro, na Feira do Livro de Lisboa

 

Todos os desacordistas podem adquirir este livro, pois está escrito em Português correCto.

Quem puder, vá à Feira do Livro, nem que seja para rejeitar os livros acordizados.


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publicado por Isabel A. Ferreira às 15:31

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Terça-feira, 30 de Maio de 2023

Em Defesa da Ortografia (LIX), por João Esperança Barroca

 

«Sou adepta de “acêntos”, “hí-fenes” e “trëmas”.

A nova ortografia não me representa.

A resistência é um dever.»

Rita Lee, cantora brasileira

 

«Que grande compreensão tem esta gente das regras do Acordo Ortográfico de 1990... Nem com mais vinte anos em cima vão dominar a nova ortografia. E isto com jornalistas, imagine-se agora com o falante comum

Helder Guégués, tradutor e revisor, 19-04-2023, no blogue O Linguagista

   

«Raios partam o Acordo e quem nada faz para o reverter! Raios partam os políticos que fazem proclamações de amor infinito à língua portuguesa e a maltratam todos os dias, e não piam quanto ao acordo cacográfico. A integridade linguística é prova de carácter, com "c" antes do "t"!»

Maria Rueff, com texto de Manuel Monteiro na TSF

    

A par de fatos, que não são para vestir, como se observou no escrito do mês de Abril, os contatos são a segunda marca indelével do AO90. Só a sua aparição e proliferação seria razão suficiente, como escreve Manuel Monteiro, para pôr cobro à sua aplicação. Acrescem ainda, entre outras, o fracasso da unificação e as frequentes incoerências.

 

Voltemos de novo aos contatos. Uma breve incursão por alguns órgãos de Comunicação Social traz-nos, entre outras pérolas:

 

1. «Com cerca de cem membros e mais de cinquenta pontos de contato, como é referido na sua página da Internet, esta organização reúne outras de todo o mundo, por forma a melhor combater a corrupção no desporto.»

Vítor Rosa, A Bola, 31-03-2023

 

2. «Depois de João Galamba ter, em conferência de imprensa no sábado, confirmado a tentativa de entrar em contato com Costa- “Estava, penso que a conduzir, e não atendeu”.»

Expresso, 01-05-2023

 

3. «Na sua mensagem de abertura da assembleia plenária da Conferência Episcopal Portuguesa, que se realiza esta semana, Ornelas revelou que este grupo deverá ter a “autonomia necessária para acolher e acompanhar as vítimas” e “assegurar o necessário apoio e a possível recuperação dos danos por estas sofridos”, dispondo de uma linha de atendimento e de “condições para o contato e acompanhamento pessoal».

Expresso, 17-04-23

 

4. «Até há pouco tempo, publicar um livro exigia do autor muito mais do que a já hercúlea habilidade de parir universos inteiros com as próprias mãos: sem oceanos de suor, alguma sorte e uma bela rede de contatos que garantisse os olhos de uma editora sobre o seu original, dificilmente o sucesso lhe bateria à porta.»

Observador, 11-04-2023

 

5. «O predador sexual, que já tinha sido condenado anteriormente por agressão, exposição indecente, indecência grosseira com crianças e crueldade animal, e que foi descrito pelo procurador como: «uma "suposta transgénero" que usou essa vertente de personalidade para ‘entrar em contato com pessoas vulneráveis’», aproveitou-se das políticas identitárias e mascarou-se com uma peruca, maquilhagem e soutiens com enchimento para se declarar mulher, ser preso na cela delas e continuar a violá-las.»

 Sol, 30-03-2023

 

 6. «Governo diz que CM de Setúbal não quis celebrar um protocolo com o Alto Comissariado para as Migrações. 

 Ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares, Ana Catarina Mendes, diz que a Câmara Municipal de Setúbal tem fugido aos contatos e a essa formalização de uma parceria com o Alto Comissariado.»

 Observador, 10-05-2022

 

7. «Isabel Lima, professora de português do Colégio, diz que a atividade foi enriquecedora e que “o contato com o espaço físico é diferente da percepção que se tem dentro da sala de aula”. Para a docente, vivências como estas permitem que os jovens fiquem mais atentos às notícias e à desinformação.»

JN, 20-02-2023

 

8. «Este contato com os autarcas, e as autarquias, é muito importante. Tendo em conta que dos 10 municípios a visitar apenas 3 têm gestão social-democrata, há muito para aprender e, eventualmente, replicar as boas práticas.»

 Manuel Portugal Lage, DN, 17-04-2023

 

9. «Acabei de entrar em contato com o comandante de uma das brigadas que defendem a cidade. Posso afirmar com confiança que as forças de defesa ucranianas controlam uma percentagem muito maior do território de Bakhmut", disse o porta-voz das forças ucranianas em declarações à CNN International

 DN, 11-04-2023

 

10. «Verstappen defendeu que Lewis Hamilton não seguiu as regras da corrida ao ultrapassá-lo na primeira volta. "Da minha parte, apenas tentei evitar o contato, está bem claro nas regras o que é permitido fazer agora do lado de fora, mas claramente não é seguido", disse.”»

DN, 01-04-2023

 

O que acha desta pequena colecção, caro eleitor? Será isto um não-assunto, como dizem alguns que se julgam entendidos também em Linguística? Justifica-se que os responsáveis teçam rasgados elogios à língua no Dia Mundial da Língua Portuguesa e continuem a assobiar para o lado no resto do ano?

 

Ah, e como escrevemos em Abril, o nome dos meses, quando se refere uma efeméride ou um acontecimento histórico, deve ser grafado com maiúscula. Sempre!

 

João Esperança Barroca

 

***
Uma vez que pergunta, caro João Esperança Barroca,  e sendo eu sua leitora, digo-lhe que esta pequena colecção de contatos
diz de um servilismo absolutamente bacoco, a juntar a uma ignorância optativa e ao DESPREZO que o presidente da República, o (des) governo português e os deputados da Nação (salvaguardando as raras excepções que pugnam pela NOSSA Língua Portuguesa), votam a Portugal, insultando os Portugueses Pensantes com essa atitude servil , anti-democrática [com hifene], ditatorial, ilegal e inconstitucional. E isto só acontece porque vivemos numa República DOS Bananas.

Isabel A. Ferreira

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publicado por Isabel A. Ferreira às 18:31

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Quinta-feira, 9 de Fevereiro de 2023

«Em Defesa da Ortografia (LVI)», por João Esperança Barroca

 

«A corrupção é tanta que até já gamaram o P à palavra corrupto.»

Pedro Correia, Autor e jornalista

 

«Preservar este secular idioma passa pela revalorização de vocábulos antigos e pelo combate ao portinglês que nos invade, mesmo quando surge disfarçado de português (é o caso do anglicismo “evento”, hoje omnipresente). E por darmos luta sem tréguas ao chamado “acordo ortográfico”, que decretou a separação de famílias lexicais (lácteo mas laticínioepilético mas epilepsiatato mas táctil), inventou termos aberrantes (como corréu em vez de co-réu ou conavegador em vez de co-navegador) e substituiu a regra pelo arbítrio (uma trapalhada em que materno-infantil coexiste com infantojuvenilbissetriz com trissectrizcor-de-rosa com cor de laranja).»

 

Pedro Correia, Autor e jornalista, a propósito do livro Por Amor à Língua, de Manuel Monteiro

 

«O principal argumento contra o Acordo Ortográfico é a sua inutilidade. As dificuldades de leitura de textos da outra variedade da língua nunca estão relacionadas com a ortografia, as diferenças são outras. Para mudar a ortografia tem de haver uma razão muito forte, e eu não encontro aqui essa razão. As questões fiscais do comércio de livros entre Portugal e o Brasil são uma barreira mais grave do que a barreira ortográfica.

A ortografia do Acordo tornou-se menos adequada à fonética tanto do lado brasileiro como do português. As consoantes mudas tinham uma razão de ser, assinalavam uma forma diferente de ler a vogal, o que tornou mais difícil a leitura de algumas palavras. O Acordo criou uma instabilidade na língua que levou à existência de erros como "fato", em vez de "facto", mesmo no "Diário da República".»

 

Marco Neves, tradutor, escritor e professor universitário, no programa "Palavras Cruzadas" (Antena 2, 16/01/2023)

 

«Como os professores estão nas parangonas nos jornais, é deles que hoje falarei. Na última Feira do Livro de Lisboa, veio ter comigo uma professora de Língua Portuguesa que se apresentou, entre outras coisas, como leitora deste blogue. Disse-me que sabia que eu não tinha simpatia pelo presente Acordo Ortográfico (AO) e entregou-me meia folha A4 com um texto em que se explicava sumariamente que as escolas vivem hoje um autêntico caos linguístico, coexistindo no ensino da língua portuguesa três grafias: a do português pré-AO, a do AO e ainda outra, que é uma mistela de ambas e em que tudo parece ser permitido. Os maiores prejudicados por esta situação serão, muito naturalmente, os alunos, que aprendem uma coisa num ano e outra noutro, vêem os pais escrever de forma distinta daquela em que estão a ser ensinados e são penalizados nas notas pelos erros que muitos pais e professores não acham sequer que sejam erros. Diz ainda a nota que os professores são os Cavalos de Tróia desta operação com a qual frequentemente não concordam, vendo-se obrigados a ir contra a sua consciência.»

Maria do Rosário Pedreira, Escritora e editora

 

«[…] eles olham, mas não vêem; escutam, mas não ouvem nem entendem

Mateus, 13:13-16

 

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Na linha do nosso escrito de Janeiro, voltamos hoje a escrever sobre corrução e corruto. Parafraseando Ricardo Araújo Pereira, deverá ser uma estratégia da defesa de alguns arguidos acusados do crime de corrupção. Desta maneira, a pena a aplicar será sempre muito reduzida, tendo em conta a prática inócua do crime de corrução. Como o caro leitor, certamente, deu conta, o AO90 veio trazer novos erros, que vamos respigando dos órgãos de Comunicação Social e de outras instituições.

 

Pesquisando apenas no jornal Record, detectamos as seguintes ocorrências:

 

  1. a) «Diretor de comunicação do FC Porto compara casos de corrução no Benfica com o que se passou com Pedro Pinho.» Record, 04-05-2021;
  2. b) O procurador-geral de Trinidad e Tobago autorizou na segunda-feira a extradição para os Estados Unidos do antigo vice-presidente da FIFA Jack Warner, acusado de corrução, crime organizado e branqueamento de capitais pelas autoridades norte-americanas.» Record, 22-09-2015;
  3. c) «O ainda vice-presidente do Sporting foi acusado de vários crimes (corrução, abuso de poder, burla qualificada, denúncia caluniosa e participação económica em negócio) e ouvido no Tribunal de Instrução Criminal pela primeira vez a 12 de junho de 2012.» Record, 03-03-2015;
  4. d) «Luís Figo defende que “é tempo de Blatter sair da FIFA por causa dos problemas de corrução”. Num [sic] entrevista publicada no diário espanhol ABC, o candidato português à presidência da FIFA diz que o “relatório Garcia”, que investiu as alegações de corrução na atribuição dos Mundiais de 2018 à Rússia e 2022 ao Qatar “devia ser publicado e se não o é, será porque a FIFA receia alguma coisa”.» Record, 11-05-2015.

 

Há poucos dias, mão amiga enviou-nos a seguinte lista de aberrações, criadas pelo AO90: Corréu, neoestoico, consunto, conarrar, conavegar, interruptor, opticidade, retouretral, semirrei, tecnolectal, cocolaborador, cooócito, perento, cocredor, cocapitão, adocionismo, expetar, cocoleta, contraião, intrauterino, cofiador, coutente, conavegante.

 

Parece piada ou brincadeira, não é, caro leitor? Se é assim na Comunicação Social, como será com o cidadão comum?

 

Para mais uma vez ilustrar o caos ortográfico que se instalou, repare como se escreve (neste caso, o que está em causa é a utilização do hífen) num jornal de referência «A seleção de espécies feita pelos nossos biólogos reflete a vegetação natural existente dentro da cidade de Lisboa, como oliveira, alfarroba, folhado, sobreiro ou capuz-de-frade”, enumera Fabio Brochetta [da Urbem, organização não-governamental]» («Estão a nascer mini-florestas no Areeiro», Ana Meireles, Diário de Notícias, 20-01-2023, p. 15), divulgado no blogue O Linguagista

 

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João Esperança Barroca

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:21

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Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2022

«Em Defesa da Ortografia (LIV)», por João Esperança Barroca

 

«Agora ‘facto’ é igual a fato (de roupa).»

Pedro Santana Lopes

 

«De facto, de que nos serve um acordo ortográfico que apenas os muito ignorantes servilistas portugueses aplicam?»

Isabel A. Ferreira, em 1 de Novembro de 2021, no blogue O Lugar da Língua Portuguesa

 

«Na forma de escrita, há muitas, muitas diferenças [entre o português de Portugal e o português do Brasil], e é por esse motivo que eu acho que não faz muito sentido um acordo ortográfico. Há muitas palavras que, mesmo com o acordo, se escrevem de forma diferente. Nós vamos continuar a divergir na língua.»

Pedro Almeida Vieira, escritor, jornalista e engenheiro biofísico

 

«O novo acordo ortográfico saiu da cabeça de um idiota que queria ficar para a história. Não faz o menor sentido. Discordo em absoluto.»

António Rocha Pinto, ex-candidato à Câmara Municipal de Santarém

 

(...)  Ah, acabou de sair o novo livro de Manuel Monteiro, O Mundo pelos Olhos da Língua.

 

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(…)  

Como o leitor, certamente, já terá reparado, hoje, abordaremos os fatos que não são de vestir.

 

Uma breve pesquisa deu-nos a conhecer os seguintes espécimes: a) “Cônjuge ou pessoa com quem viva em união de fato”, Regulamento das Bolsas de Estudo do Ensino Superior do Município de Albufeira, de 28 de Setembro do corrente ano, publicado em Diário da República, em 17 de Outubro; b) “Todos sabem do valor que o Cris e todos nós damos ao fato de representar o nosso País.” (A Bola, 23-11-2022); c) “No entanto, ainda não é possível saber se o melhor desempenho cognitivo leva a mais jogar, ou se é o fato de jogar mais que melhora esse desempenho,” (Expresso, 25-10-2022); d) “De fato, as emissões médias anuais de gases de efeito estufa de 2010 a 2019 foram as mais altas da história da humanidade.” (Expresso, 13-10-2022); e) “Embora não seja possível calcular a data da introdução da ameixeira ‘Rainha Cláudia’ na região do Alto Alentejo, não restam dúvidas da origem francesa do material vegetal inicial, nem do fato da (sic) cultura se ter expandido a partir da zona de Elvas para as regiões vizinhas.” (Expresso, 14-10-2022); f) “Andy Burnham, prefeito da Grande Manchester, disse que era importante que todos os fatos fossem estabelecidos, mas acrescentou: ‘Com base no que vi, quero deixar claro que nunca é aceitável que manifestantes pacíficos sejam agredidos.’” (Expresso, 18-10-2022); g) “Mas os advogados de Trump argumentaram, no pedido ao Supremo Tribunal, que era essencial que especialista (sic) tivesse acesso aos registos classificados como ‘confidenciais’ para determinar se os documentos com marcações de confidencialidade são de fato classificados e, independentemente da classificação, se esses registos são registos pessoais ou registos presidenciais.” (Expresso, 11-10-2022, TSF, 13-10-2022, SIC Notícias, 13-10-2022); h) “Os dados de agosto revelam que o alojamento e restauração e os transportes são os setores com menores percentagem de empresas cumpridoras, apenas com 11,7% e 10,6%, receptivamente (sic), o que a consultora associa ao fato de terem sido dos mais atingidos pela pandemia.” (Expresso, 29-09-2022); i) “Na newsletter (sic) divulgada pela estrutura de missão Recuperar Portugal, o gestor da ‘bazuca’ destaca o fato de 17% do PRR já estar executado.” (Expresso, 30-09-2022); j) “Depois, saber como integrá-lo num plantel que Xavi Hernández tem sob construção — o fato de serem amigos pode ter algum peso — e ter de aceitar um papel secundário em função das escolhas do treinador.” (A Bola, 24-09-2022); k) “O fato de nenhum país de maioria muçulmana no Conselho ter feito qualquer menção ao relatório foi surpreendente, apesar de este denunciar ataques sistemáticos das autoridades chinesas a povos com esse credo, na região de Xinjiang, incluindo os uighures.” (Expresso, 13-09-2022); l) “O fato das pessoas estarem a falar de mim deixa-me feliz. Já joguei no Valência. Fui treinador no PSG e no Milan, dois clubes onde também joguei.” (O Jogo, 18-06-2022); m) “Compartilhamos totalmente essa preocupação e, de fato, as consequências seriam radicais, não apenas para os Estados Unidos, mas globalmente, continuou Dombrovskis.” (Sol, 08-06-2022); n) “E parece evidente que o argumento de que isso reduziria o acesso — uma vez que as urgências das especialidades estariam concentradas em menos locais — é falacioso e meramente retórico, dados os fatos das últimas semanas.“ (Expresso, 21-06-2022); o) “Outro motivo que torna o tema pertinente é o fato de que a transição ambiental deve ser necessariamente justa, logo, aplicável a todos os setores.” (Sol, 22-02-2022); p) “É um fato bastante contraditório que a ideologia fascista da máfia de Biletski tenha sido financiada pelo oligarca judeu Ihor Kolomoyskyi, que já foi auxiliado na sua actividade (sic) criminosa por ‘forças de segurança seleccionadas (sic) entre adeptoss (sic) dos oito clubes de futebol que ele e vários oligarcas menores possuem.” (Sol, 19-04-2022).

 

Depois desta pequena amostra (os leitores assinantes ainda têm direito a fatos suplementares), ilustrativa do caos a que se chegou, apetece perguntar: Se é assim na Comunicação Social (nos jornais ditos de referência), como será com os cidadãos comuns?

 

Pedro Correia, na série “Acordo Burrográfico”, no blogue Delito de Opinião, mostrou claramente a incoerência, a ilógica e a inconsistência do AO90. Em homenagem a essa excelente série, e satisfazendo a exigência de um amigo, aqui fica um pequeno texto da nossa autoria:

— Tenho cera nos ouvidos.

— Estás com um problema ótico, não é?

— Sim. Também tenho uma conjuntivite na vista direita.

— Estás com um problema ótico, não é?

— Já não percebo nada. Estás a brincar comigo?

— Não. Estou a brincar com a língua.

 

João Esperança Barroca

 

P.S.: Ah, acabou de sair o novo livro de Manuel Monteiro, O Mundo pelos Olhos da Língua.

 

 

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As imagens que acompanham este escrito foram respigadas de páginas anti-AO do Facebook.

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:11

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Terça-feira, 24 de Maio de 2022

«Em Defesa da Ortografia (XLVII), por João Esperança Barroca

 

ALERTA!!!!

Por tudo o que neste artigo, da autoria de João Esperança Barroca, se diz e se vê, SE, na Assembleia da República, houver alguém dotado de LUCIDEZ, apela-se a esse alguém que, em nome da RACIONALIDADE, sugira que (e citando José Vieira) «está na altura de baixar o IRS e passar a taxar a ignorância», porque a IGNORÂNCIA, disseminada nas escolas, nas televisões e nas traduções e edições acordizadas, está a ENCARCERAR os cérebros e a transformar Portugal no país com mais IGNORANTES por metro quadrado, nos sectores que mais estão ligados à expansão do nosso Idioma. (Isabel A. Ferreira)

 

Cérebro encarcerado.jpg

 

«Em Defesa da Ortografia (XLVII)»

por João Esperança Barroca

 

«É altura de dar uma alegria à língua portuguesa: é altura de a libertar do Acordo Ortográfico.

 O Acordo Ortográfico foi feito numa altura em que a uniformização estava na moda, numa época em que se pedia às pessoas que esquecessem as diferenças.

Mas, entretanto, tudo mudou: agora são as diferenças que é preciso celebrar. Portugal já não é um país pequenino diante do Brasil e dos outros países que falam português. Agora, Portugal é Portugal e o Brasil é o Brasil e São Tomé e Príncipe é São Tomé e Príncipe.  

O contrário da uniformização é a celebração das diferenças. A melhor maneira de as celebrar é através do estudo. Deite-se fora o Acordo Ortográfico e, em vez desse desmando, ensinemos às nossas crianças a riqueza, a graça e a personalidade das várias versões nacionais da língua portuguesa.

E nós também temos direito à nossa versão, à nossa ortografia, às nossas manias, às nossas particularidades.

Miguel Esteves Cardoso, Escritor, em 22 de Abril de 2022

 

«[…] o AO é um acto de genocídio cultural, estético, racional e político.»

Miguel Esteves Cardoso, Escritor, em 12 de Agosto de 2011

 

«Daqui a 50 anos, em 2065, quase todos os opositores do analfabeto Acordo Ortográfico estarão mortos. Em contrapartida, as crianças que este ano, em 2015, começaram a ser ensinadas a escrever tortograficamente, terão 55 anos ou menos. Ou seja: mandarão no país e na língua oficial portuguesa.

A jogada repugnante dos acordistas imperialistas — ignorantes e cada vez mais desacompanhados pelas ex-colónias que tentaram recolonizar ortograficamente — terá ganho tanto por manha como por estultícia.

As vítimas e os alvos dos conspiradores do AO90 não somos nós: são as criancinhas que não sabem defender-se.

 Miguel Esteves Cardoso, Escritor, em 20 de Maio de 2015

 

Após três citações, do escritor Miguel Esteves Cardoso, apoiante oficial da iniciativa Acordo Zero, um pouco mais longas que o habitual, o espaço para as nossas reflexões ficou mais escasso. Por essa razão, o nosso texto de Maio, dedicado à Beatriz, que faz hoje 29 anos e que merece conviver com uma ortografia lógica, coerente, congruente e sem vergonha da sua história, incide sobre alguns aspectos desse movimento de cidadãos.

 

Em Fevereiro do corrente ano, o jornal Cidade de Tomar, divulgou esta iniciativa, totalmente independente, livre de facções de qualquer espécie e que canaliza as suas forças para a imediata revogação do Acordo Ortográfico de 1990, única forma de proteger a Língua Portuguesa em todo o espaço onde é falada e escrita. Saliente-se, a propósito, que há alguns cidadãos tomarenses com o estatuto de subscritores de apoio desta iniciativa.

 

Na página de Facebook da iniciativa Acordo Zero têm sido regularmente publicadas, no âmbito do tópico “Circo Cacográfico”, algumas frases, que abaixo se transcrevem, ilustrativas do caos a que isto chegou (parafraseando uma célebre expressão do capitão de Abril Salgueiro Maia):

 

- Cato pelos e pelo catos na boca do urso!

- Pouco dinheiro para todos nós neste circo!

- Nem sei se o elefante tem problemas óticos ou óticos!

- O corréu correu rua fora e acabou na jaula do tigre!

- O egiptólogo francês foi ao circo no Egito!

- O macaco roubou a caneta corretora do corretor!

- A adoção de adoçante no engodo da foca foi uma boa ideia!

- O palhaço não ata nem desata no primeiro ato da ata!

- Tetas e tetos falsos deteta o mágico à distância!

- Espetador arruína espetáculo de espetador de facas!

 

Confuso, caro leitor? Isto não é mais do que «[…] a impressionante oscilografia que o Monstruoso Acordo (MA) instalou, com consequências terríveis para os olhos e para os ouvidos — sim, para os ouvidos.  […] (Não, isto não tem nada que ver com o MA, contraporão os empedernidos. Nadinha. Ainda terão lata para tal dislate?)»

Manuel Monteiro, autor, tradutor, revisor e formador, em 22 de Março de 2022

 

Talvez a solução seja a preconizada por José Vieira, cidadão do Entroncamento, num comentário, no Facebook, ao artigo “Em Defesa da Ortografia XLIV: «Está na altura de baixar o IRS e passar a taxar a ignorância

 

João Esperança Barroca

 

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publicado por Isabel A. Ferreira às 15:25

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