Quarta-feira, 4 de Setembro de 2019

«O novo tempo de censura»

 

Um texto lúcido de António Jacinto Pascoal (professor e escritor), que encosta à parede os partidos políticos que andam por aí fazer de conta que Portugal tem uma Língua.

 

«Tivesse o sistema político algum respeito por si mesmo e o devido sentido de Estado, seria o Acordo Ortográfico alvo de preocupação e reactivado».

 

António jacinto pascoal.jpg

Texto de António Jacinto Pascoal

 

«Os vários organismos da Administração Pública multiplicam-se em opiniões díspares e contraditórias sobre como usar as regras ortográficas nos documentos produzidos, nem sempre cientes de que a arbitriografia, para usar o termo cunhado por Manuel Monteiro (Por Amor à Língua, Ed. Objectiva) passou a ser a regra do Português (leia-se, igualmente, o oportuno Acordo Ortográfico, Um beco Com Saída de Nuno Pacheco, Ed, Gradiva). No dia em que escrevi estas linhas, estive numa Conservatória de Registo Civil onde me asseguraram o facto acima apontado e onde pude observar documentos e curtos enunciados empregados em concordância com os Acordos Ortográficos de 1945 e 1990.

 

É evidente que, assistindo à degradação da língua, de dia para dia, tantas as imprecisões e erros a que está exposta, importa ainda perder algum tempo a reflectir sobre se a sua banalização e a perda de rigor que a grafia manifesta acrescem à ausência de dignidade de Estado.

 

«Na entrevista que José Carlos Barros (deputado do PSD e relator do Grupo de Trabalho para a Avaliação do Impacto da Aplicação do Acordo Ortográfico de 1990) concedeu ao jornalista Nuno Pacheco (PÚBLICO, 2 de Setembro de 2019), o deputado afirma desejar “que houvesse coragem política de assumir que o Acordo Ortográfico foi uma coisa que correu mal, e que as coisas que correm mal devem ser debatidas e corrigidas”. Mas mais: José Carlos Barros assume que o Partido Socialista entendeu que “o assunto, pura e simplesmente, não pode ser discutido”, que o Ministério da Educação depositou uma lápide de silêncio sobre a questão, e que o Ministério da Cultura foi desautorizado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, a quem parece caber o policiamento sobre a matéria. José Carlos Barros sugere mesmo um “pacto de silêncio” entre os ministérios envolvidos. Isto não deixa de lembrar o tempo em que se inspirava temor, o que, em certos casos, queria dizer algo como recorrer a métodos censórios.

 

Se um dos desígnios da Escola é o de melhorar o Português (e não somente lutar contra a iliteracia), perguntamo-nos como ele se pode alcançar, numa altura em que todos nos movemos num pântano de generalizada disortografia, de imprecisão e de desordem linguística. Quem pretender obter conhecimento de regras gráficas sólidas e rigorosas nas escolas tem de admitir que nem mesmo o sistema de ensino, vergado à letra política, reúne condições para o garantir. É nestas condições, a assobiar para o lado, que o Ministério da Educação pretende reiniciar o novo ano lectivo? Ou servindo-se de muletas como a do programa televisivo “Bom Português” (RTP), que espalha a sua nuvem de quietude sobre as consciências, para além de, como justamente aparenta, servir o edifício do poder? Sejamos sérios: tivemos a proibição dos livros; temos a proibição da língua. Vai levar tempo a perceber a urgência da situação.

 

Na mesma entrevista, José Carlos Barros sugere que o tema do Acordo Ortográfico seja abordado na campanha eleitoral e deixe de ser tratado como assunto-tabu. Tivesse o sistema político algum respeito por si mesmo e o devido sentido de Estado, seria o Acordo Ortográfico alvo de preocupação e reactivado debate nesta campanha. O Presidente da República, na quarta edição da Festa do Livro em Belém, referiu que um dos objectivos do evento é promover a leitura e a venda de livros. Era bom que, mais do que vender livros, se repensasse a sua matéria-prima, a língua na forma grafada. Não seja a língua, afinal, a ser vendida. ​Tomemos, por isso, precauções para evitarmos ser ofensivos, quanto aos sinais de censura vigentes. A defesa e a valorização da língua são aquilo que confere maior prestígio a uma Nação. A sua degradação, pelo contrário, é já uma enorme ofensa.

 

Professor e escritor

***

Um comentário ao texto de António Jacinto Pascoal, (que subescrevo na íntegra) , o qual poderia ter sido escrito pela autora deste Blogue.

 

mzeabranches

 

Pois é mesmo de 'censura' que se trata, 45 anos depois de implantada em Portugal a democracia! Direita, esquerda, centro todos preferem ignorar a destruição da nossa língua que este 'imbecil' AO90 e a sua imposição política anti-democrática está a promover! Uns porque são apenas ignorantes outros porque vivem obcecados pela costumeira megalomania nacional, agora transposta para o 'império' da língua! Saúdo o autor deste texto, com um apreço especial por se tratar de um "professor"! Porque os professores têm de reagir: é inadmissível que continuem a aceitar que lhes seja imposto ensinarem MAL a sua língua às nossas crianças e jovens! É pela língua que existimos, como povo com uma cultura própria! E os jornalistas têm de 'obrigar' os políticos a definir-se sobre o AO90 na campanha eleitoral!

 

Fonte:

https://www.publico.pt/2019/09/04/sociedade/opiniao/novo-tempo-censura-1885407

 

***

Quanto a mim, na minha qualidade de ELEITORA, deixo aqui o meu repto:

 

Exijo aos partidos políticos que ponham a questão do AO90, no programa da campanha eleitoral, porque já BASTA de tanta conspiração e de tanto silêncio.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 19:07

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Sexta-feira, 21 de Junho de 2019

Debate: «Acordo Ortográfico: manter ou revogar?» Na Feira do Livro de Lisboa 2019, para ouvir e ler os comentários, e concluir que o caminho é a revogação

 

 

Lúcia Vaz Pedro, igual a si própria, fez um favor ao Movimento Em Prol da Língua Portuguesa (MPLP) numa defesa muito, muito fraquinha do AO90, como outra coisa não era de esperar, porque é absolutamente impossível defender o indefensável.

 

Nuno Pacheco (mais discreto) e Manuel Monteiro (mais aguerrido) apresentaram argumentos poderosíssimos contra o AO90, não deixando margem para qualquer dúvida: o acordo é para deitar ao caixote do lixo, pois não tem ponta por onde se lhe pegue.

 

É também de ler os comentários ao vídeo, onde os acordistas Jota Frank, pinkmugical, ele3222 todos sem cara, sem nome, sem educação, sem formação moral, sem conhecimentos das Ciências da Linguagem, “defenderam” o AO90 tentando (porque conseguir não conseguiram) insultar os desacordistas, o que foi óptimo, porque não só se descredibilizaram a eles próprios, como ajudaram (e nem sabem quanto) a atirar ao caixote do lixo o AO90.

 

Ouvir, ver e ler para crer.

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:13

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Quarta-feira, 12 de Junho de 2019

«AO90: manter ou revogar?» - Debate na Feira do Livro de Lisboa

 

A não perder.

Manuel Monteiro (autor*) e Nuno Pacheco (redactor do jornal Público) irão debater com Lúcia Vaz Pedro, a “professora” que diz: “o qe não se lê, não se escreve”, como se a escrita de uma Língua pudesse reger-se por vontades políticas ou outras, alheias às Ciências da Linguagem.

Nada neste AO90 é aproveitável. Logo, pretender manter e reutilizar o que é inaproveitável é um acto tão idiota como reaproveitar um tumor maligno para fins terapêuticos.

 

Feira do Livro --- Debate Acordo 1990 (7).png

 

 

(*) Manuel Monteiro é autor do “Dicionário de Erros Frequentes da Língua” e “Por Amor à Língua – Contra a Linguagem que por aí Circula”, duas obras obrigatórias, para quem escreve por amor à Escrita, e não por subserviência a maus mandantes.

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 11:42

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Terça-feira, 5 de Fevereiro de 2019

MANUEL MONTEIRO – “ANDAMOS A TRATAR MAL A LÍNGUA PORTUGUESA?”

 

Ouça-se e aprenda-se.

 

Manuel Monteiro é um escritor e revisor linguístico que se tem tornado conhecido, de há uns anos para cá, como um dos maiores paladinos da Língua Portuguesa na actualidade. Tem obra publicada na área da literatura e da não-ficção e o seu livro mais recente, “Por Amor à Língua — Contra a Linguagem Que por aí Circula”, foi o mote para a conversa.

 

O Manuel é, como vão ver, de uma erudição no que toca à língua que nos faz logo sentir ignorantes. Faz questão, por exemplo, de continuar a usar palavras que foram caindo em desuso ou de usar a pronúncia original para palavras cuja pronúncia o uso corrente deturpou (o que leva a que pareça, a um ouvinte incauto, ser ele quem está a falar mal).

 

Durante a discussão, que foi bem animada, discorremos sobre vários temas, desde a origem, etimologia e evolução da Língua Portuguesa, até à nossa predilecção nacional pela importação de palavras estrangeiras, passando pelo inevitável acordo ortográfico.

 

Fonte:

https://45graus.parafuso.net/2019/01/23/46-manuel-monteiro-andamos-a-tratar-mal-a-lingua-portuguesa/

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:31

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Sábado, 8 de Dezembro de 2018

«ADMIRÁVEL LÍNGUA NOVA (PARTE IX)»

 

Mais um excelente texto de Manuel Monteiro, que nos diz que o acordo ortográfico «é uma grande comédia. Uma grande paródia.»

 

MANEL.png

Texto de Manuel Monteiro

 

Recentemente, apareceu escrito num canal televisivo: “Aconselhou-me a fazer uma comediação.” Nada que ver com comédia — trata-se da versão acordizada de “co-mediação”. Em suma, o Acordo é uma comédia, uma grande paródia.

 

Há uns anos, na RTP2, vi uma série em que, numa faculdade, o professor pedia aos alunos que, na aula seguinte, defendessem uma ideia ou ideologia contrária àquela que era a sua crença arraigada. Tento aqui executar semelhante exercício.

 

Comecemos com algumas frases.

 

“Tirámos o curso de Medicina.”

“Andámos expectantes na Rua do Ouro e na descaracterizada Avenida Almirante Reis.”

“Rezámos a Santo António.”

“Desligámos o interruptor.”

“Visitámos o Palácio Nacional da Ajuda, o Largo do Carmo, a Igreja do Bonfim e o Pavilhão de Portugal.”

“Iremos à Sé de Braga.”

“Descaracterizámos ou deixámos descaracterizar Lisboa.”

“Chegámos ao Templo de Salomão.”

“O professor quer que dêmos tudo na aula de Matemática.”

 

As frases apresentadas, sem o Novo Acordo, têm uma forma ortográfica. Com o novo, terão quantas? Vejamos.

 

“Tirámos [com ou sem acento] o curso de Medicina [com maiúscula ou minúscula inicial].”

 

“Andámos [com ou sem acento] expectantes [com ou sem c] na Rua do Ouro [com maiúscula ou minúscula inicial] e na descaracterizada [com ou sem c] Avenida Almirante Reis [com maiúscula ou minúscula inicial].”

 

“Rezámos [com ou sem acento] a Santo António [com maiúscula ou minúscula inicial].”

 

“Desligámos [com ou sem acento] o interruptor [com ou sem p para a Porto Editora ou o Portal da Língua Portuguesa, por exemplo].”

 

“Visitámos [com ou sem acento] o Palácio Nacional da Ajuda [com maiúscula ou minúscula inicial], o Largo do Carmo [com maiúscula ou minúscula inicial], a Igreja do Bonfim [com maiúscula ou minúscula inicial] e o Pavilhão de Portugal [com maiúscula ou minúscula inicial].”

 

“Iremos à Sé de Braga [com maiúscula ou minúscula inicial].”

 

“Descaracterizámos [com ou sem c  e com ou sem acento, ou seja, quatro formas ortográficas] ou deixámos [com ou sem acento] descaracterizar [com ou sem c] Lisboa.”

 

“Chegámos [com ou sem acento] ao Templo [com maiúscula ou minúscula inicial] de Salomão.”

 

“O professor quer que dêmos [com ou sem acento] tudo na aula de Matemática [com maiúscula ou minúscula inicial].”

 

Resposta: 33 554 432 formas ortográficas. A conta: 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 x 2 = 33 554 432.

 

O Acordo permite a plurigrafia e esta pode ser bem divertida. Morte à ortografia!

 

Acresce uma nota curiosa. Quando à primeira pessoa do plural se liga a forma pronominal “nos”, o s desaparece. Exemplos: “Nós amámos”, “Nós sentámos”. Pospondo-lhe “-nos”, ficará “Nós amámo-nos”, “Nós sentámo-nos”. Com o Novo Acordo, “amámos” e “sentámos” (meros exemplos entre uma miríade), referindo-nos a um tempo pretérito, podem ter ou não ter acento. Ou seja, poderemos suprimir o s de “sentámos” ou “sentamos” quando se liga à forma pronominal “nos”, referindo-nos ao pretérito perfeito. “Sentamo-nos”[1] poderá ser, com o Acordo, uma ordem, uma sugestão ou uma referência ao passado — aquilo que, sem o Acordo, será obrigatoriamente “Sentámo-nos”.

 

Como é divertido ainda usar o prefixo “co-”. Temos “conavegante”, “corrés”. Sem o Acordo: “co-navegante”, “co-rés”. Temos “cocomissário”, “cocomandante”; não, não é o missário do coco nem o mandante do coco — vejamos sem Acordo: “co-comissário”, “co-comandante”. Temos ainda o “co-mandante” transformado em “comandante”. Recentemente, como poderá ver na página dos Tradutores contra o Acordo Ortográfico, numa publicação de 27 de Outubro, apareceu escrito num canal televisivo: “Aconselhou-me a fazer uma comediação.” Nada que ver com comédia — trata-se da versão acordizada de “co-mediação”.

 

Em suma, o Acordo é uma comédia, uma grande paródia. E quem não gosta de uma boa pândega?

 

[1] No imperativo: “sentemo-nos”.

Autor de Por Amor à Língua — Contra a Linguagem Que por aí Circula

 

Fonte:

https://www.publico.pt/2018/07/16/culturaipsilon/opiniao/admiravel-lingua-nova-parte-viii-1838111

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 17:58

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Terça-feira, 13 de Novembro de 2018

«AO SERVIÇO DA LÍNGUA PORTUGUESA // PORTUGAL»

 

Entrevista a Manuel Monteiro, autor do livro, recentemente publicado «Por Amor à Língua - Contra a Linguagem Que Por Aí Circula», e «Dicionário de Erros Frequentes da Língua», duas obras essenciais para quem escreve e ama a Língua Portuguesa.

 

fotografia-mm-1_1_orig.jpg

Manuel Monteiro

 

«Os políticos, os jornalistas e os habitantes do espaço público escrevem cada vez pior. Claro está que esta generalização é injusta para alguns (poucos, em rigor), mas é uma tendência que só um cego mental não vê. Vivemos na era dos tecnocratas, da velocidade, há pouco espaço para fazer amor com as palavras.»

Manuel Monteiro, Portugal

 

A revisão de textos é, por si só, tarefa de abissal responsabilidade — adentrar universos alheios de cariz literário, técnico ou outro, com o propósito de os aprimorar, corrigindo-os, adequando-os e harmonizando-os, destarte compondo, sagaz e subtilmente, as versões que viremos a conhecer. Tem por principal requisito uma rara combinação entre sensibilidade e erudição, exigindo aptidão e apetência para a estética e a eufonia.

 

Manuel Monteiro é magistral na sua execução. Ademais, é formador profissional de revisores, jornalista e autor (na área da ficção e da não-ficção), tendo publicado, recentemente, pela editora Objectiva, Por Amor à Língua, e, antes disso, Dicionário de Erros Frequentes da Língua. É, creio, um purista sensato e um laborioso agente revitalizador da Língua Portuguesa.

 

Enquanto crescias, entusiasmavam-te especialmente as palavras? Como? Quais?

 Sempre vivi a literatura como uma segunda pele. Desde criança. Preciso de mergulhar nas palavras dos outros, de entrar noutras cabeças. Os livros conseguem, quando bons, ir mais fundo do que a maior parte das conversas. Não as substituem, evidentemente. Os livros também têm muitas camadas, como as pessoas. Reler é importantíssimo. A releitura de O Jogo das Contas de Vidro empurra-me sempre para novas interpretações. Delicio-me com a descoberta de palavras. É um exercício que nunca perdeu um átomo de deslumbramento. Gosto mesmo muito de dicionários, mormente dos mais antigos, porque têm, grosso modo, mais qualidade. Gosto da sinonímia da nossa língua. Quais? Tenho algumas dilectas no quinto capítulo.

 

Em que ocasiões te vês imerso em êxtase literário? (E que sentes, ao emergir?)

São momentos raros. Mas acontecem. E são de uma felicidade imensa. Poderia citar e citar… O Canto de Mim Mesmo está cheio disso. Para mim, claro está.

 

O cosmos cabe nas palavras que inventámos?

Coube no Folhas de Erva.

 

E o silêncio?

Lobo Antunes disse que: «Quanto mais silêncio houver num livro, melhor ele é.» Ele diz muitos, muitos disparates e coisas que não sente (como não se lembrar de nada do que escreveu), mas também acerta muitas vezes.

 

É, para ti, fundamental divulgar a riqueza e a diversidade da nossa língua. Que sugestões podes dar para que sejamos mais nessa missão?

Ler Camilo, ler Castilho, ler dicionários.

 

Como lidas com a frustração ante a trivialização do uso indevido da língua nesta era tecnológica, propensa à velocidade e, consequentemente, à aniquilação da beleza?

Lendo Theodore John Kaczynski.

 

Sem uma comunicação eficaz, mina-se a autonomia, o respeito e a solidariedade; a comunidade fractura-se. Consideras satisfatório o serviço público, em Portugal, relativo ao acesso e ao aperfeiçoamento da língua portuguesa?

Os políticos, os jornalistas e os habitantes do espaço público escrevem cada vez pior. Claro está que esta generalização é injusta para alguns (poucos, em rigor), mas é uma tendência que só um cego mental não vê. Vivemos na era dos tecnocratas, da velocidade, há pouco espaço para fazer amor com as palavras.

 

Download, feedback, standby, briefing, corporate, cool, teaser, part-time, shopping, peeling, storyboard. A desvalorização da própria língua, e a adopção crescente (e vaidosa!) de uma estrangeira, são reflexo de uma acanhada identidade?

Cito do meu próprio livro: «À imitação totalmente inútil, não se chama “cosmopolitismo”, mas “saloiice”.»

 

Por que não se investe (mais) na preservação e revitalização da língua portuguesa, se é esse o idioma da nossa memória afectiva e um dos factores que nos robustecem o sentimento de pertença?

Não é preciso muito. Comecem por empregar palavras portuguesas, muitas delas correntias, para combater o portinglês. Trata-se de uma moda: dá ares de modernidade não conhecer o nosso idioma, não saber compor uma frase e despejar umas palavras inglesas que mostrarão que se tem mundo.

 

A tua crónica Admirável Língua Nova, no jornal Público, é, também, uma exaustiva e premente demonstração da incoerência do Novo Acordo Ortográfico de 1990. Que balanço fazes deste teu trabalho? (Acreditas num recuo, relativamente à imposição da nova grafia?)

Foram anos de leitura e reflexão. A conclusão é simples: o Acordo é uma merda, um embuste, não tem regras claras quanto aos hífenes nas locuções e quanto à «pronúncia culta». Não há um objectivo que tenha sido cumprido. Não há um argumento que resista aos factos da língua. São setenta páginas no meu livro que o demonstram. Se não houver recuo, os leitores que não comprem os livros acordizados, os autores que não escrevam segundo o dito, quem se ocupa da comunicação lato sensu que não o use. Quanto ao mais, quem o usa… estatela-se sempre. Diz-me uma pessoa que use o Acordo na totalidade. UMA! Seguem partes do Acordo que misturam com o anterior, que misturam ainda com outro que não existe.

Recomendo a leitura de:

https://pt-pt.facebook.com/TradutoresContraAO90/

https://pt-pt.facebook.com/cidadaoscontraAO90/

https://cedilha.net/ap53/

https://olugardalinguaportuguesa.blogs.sapo.pt/

 

Os livros são um dos veículos da memória que, por sua vez, tem implicações na evolução da humanidade. Motiva-te essa perpetuação, quando escreves? Ou preferes celebrar instantes?

A escrita é para muitos, creio, uma tentativa de continuar depois da morte.

 

Nesse «lugar» em que escreves, és livre?

Sou. Até hoje, pelo menos.

 

A estética é uma das tuas directrizes?

Mal da minha escrita se não fosse.

 

A capacidade de comoção perante a arte, nomeadamente, a literatura, é proporcional à noção da interligação de todos os elementos que compõem o universo?

É proporcional ao estro de quem escreve.

 

Fonte desta entrevista:

https://quefizestehojeparamudaromundo.weebly.com/as-histoacuterias/ao-servico-da-lingua-portuguesa-portugal

***

Manuel Monteiro foi ao programa Agora Nós, da RTP1, onde falou de «Por Amor à Língua» e do Acordo (Ortográfico) mais desafinado do mundo.

A intervenção de Manuel Monteiro pode ser ouvida ao minuto 23 da II Parte do programa neste link.

https://www.rtp.pt/play/p4223/e374033/agora-nos

 

Parabéns, Manuel Monteiro. Hoje em dia é raro ver um jovem a pugnar pelas coisas que interessam, pela Cultura e pela Língua Portuguesas, que andam ambas por aí a arrastar-se como mortas-vivas, puxadas pelas mãos de cegos mentais.

 

Isabel A. Ferreira

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:06

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Segunda-feira, 15 de Outubro de 2018

«Por Amor à Língua» - Livro de Manuel Monteiro

 

LIVRO MONTEIRO.png

 

«Por Amor à Língua» é um livro obrigatório adquirir pelos que têm na Língua Portuguesa o seu instrumento de trabalho, porque errar todos nós erramos, porém, o maior erro é não reconhecer que erramos.

 

Um livro fundamental adquirir por todos os acordistas, para que aprendam a escrever correCtamente a Língua Portuguesa.

 

LIVRO MONTEIRO1.png

 

Um livro indispensável a todos os Portugueses que pretendam saber o mínimo sobre a sua Língua Materna.

 

Um livro que, obviamente, não segue o AO90.

 

O autor, Manuel Monteiro, é formador profissional de revisão de textos, e tem já publicado o Dicionário de Erros Frequentes da Língua.

 

Ambos os livros são bastante úteis e obrigatórios para todos os que escrevem, ensinam e querem aprender Língua Portuguesa, obviamente, grafada à portuguesa.

 

LIVRO MONTEIRO2.png

 

Mais informações neste link:

https://www.facebook.com/editoraobjectiva/

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 14:22

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.Acordo Ortográfico

A autora deste Blogue não adopta o “Acordo Ortográfico de 1990”, por recusar ser cúmplice de uma fraude comprovada.

.

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isabelferreira@net.sapo.pt

. AO/90 é uma fraude, ilegal e inconstitucional

O Acordo Ortográfico 1990 não tem validade internacional. A assinatura (em 1990) do texto original tem repercussões jurídicas: fixa o texto (e os modos como os signatários se vinculam), isto segundo o artº 10º da Convenção de Viena do Direito dos Tratados. Por isso, não podia ser modificado de modo a entrar em vigor com a ratificação de apenas 3... sem que essa alteração não fosse ratificada por unanimidade! Ainda há meses Angola e Moçambique invocaram oficialmente a não vigência do acordo numa reunião oficial e os representantes oficiais do Brasil e do capataz dos brasileiros, Portugal, meteram a viola no saco. Ora, para um acordo internacional entrar em vigor em Portugal, à luz do artº 8º da Constituição Portuguesa, é preciso que esteja em vigor na ordem jurídica internacional. E este não está!
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