Na linha dos seus antecessores, o texto do mês de Janeiro (o 88.º da série “Em Defesa da Ortografia” e o primeiro do corrente ano), continua a apresentar, exactamente, as mesmas características.
A aposta continua a ser a de mostrar diálogos, por vezes absurdos, de índole humorística, que ilustram a fantochada do AO90, expondo as suas fragilidades, as suas incoerências e a completa ausência de lógica.
As palavras a vermelho indicam as formas alteradas pelo AO90. As formas a verde, quando ocorrerem, remetem para grafias do Acordo Ortográfico de 1945, que, nalguns casos, se mantêm como duplas grafias. A azul, temos os casos de hipercorrecção, decorrentes da aplicação do Acordo Ortográfico de 1990.
LXXXV
— Hoje, o jogo correu-me mal.
— Como pensas ultrapassar essa má fase?
— Vou ver o vídeo de todo o jogo e refletir.
— Não é suficiente.
— Não?
— Vais ter de reflectir, que é outra coisa.
LXXXVI
— Ó pai, diz aqui no jornal que há um braço de ferro entre o governo e os sindicatos. Não percebo o significado.
— Não há nada para perceber. Braço de ferro é um braço feito de ferro.
— Então, pode enferrujar?
— Exactamente! E a ferrugem alastrar ao governo a e aos sindicatos.
LXXXVII
— Ó pai, lembras-te de ontem te ter falado da expressão braço de ferro?
— Claro que me lembro. Porquê?
— É que hoje encontrei no jornal Público uma notícia que dizia haver um braço-de-ferro entre um empresário e um clube. Será a mesma coisa?
— Claro que não. Braço-de-ferro é uma prova de força. Pensar que braço-de-ferro e braço de ferro são a mesma coisa é como confundir o Garcia de Orta com a horta do Garcia.
LXXXVIII
— Willy Sagnol, o treinador da Geórgia afirmou que o desempenho da sua seleção foi excecional.
— Discordo completamente.
— Porquê? Era a estreia num Campeonato da Europa…
— Não tem nada que ver com isso!
— Então?
— Willy Sagnol foi muito modesto. O desempenho da selecção da Geórgia foi excepcional.
LXXXIX
— Temos uma forte condicionante para o treino da tarde.
— Que condicionante?
— Não temos pontas de lança disponíveis.
— Usamos arcos e flechas. Qual é o problema?
— O problema é que estás cada vez mais indocível. Eu estava a falar de goleadores.
— Ah, pontas-de-lança! Outra vez a confusão entre o Garcia de Orte e a horta do Garcia, não é? Quem é indocível, quem é?
XC
— Hoje, vamos aprender a intercetar cruzamentos dos adversários, minimizando o risco de a bola seguir o caminho da nossa baliza.
— O que é intercetar, míster? É o mesmo que interceptar?
— Não, rapaz. Interceptar requer uma dose suplementar de cuidado e de inteligência.
XCI
— Ó pai, podes oferecer-me uma teleobjetiva no Natal?
— Para que hás-de querer tu uma teleobjetiva?
— Para fotografar coisas a grande distância, para que havia de ser?
— Para isso, objectos a grande distância, precisas de uma teleobjectiva. Uma teleobjetiva não serve.
XCII
— Este político é um mestre no uso da subjeção. Ninguém o bate.
— Achas?
— Não acho. Tenho a certeza.
— Eu discordo completamente dessa tua opinião. Acho que a construção frásica é manca. Falta-lhe qualquer coisa. Talvez o cê de subjecção.
XCIII
— Mais uma despesa…. Vou ter de comprar um convetor.
— Para que queres essa porcaria?
— Para aquecer, é óbvio.
— Não preferes um convector? Será menos económico, mas mais eficaz é certamente porque transmite o calor por convecção.
— Já te percebi. Só me custa perder uma consoante. Ando a colecioná-las desde 1990.
— Coleccioná-las, queres dizer?
XCIV
— Para evitar a entrada de água, é necessário defletir a chuva.
— Onde aplico este objecto?
— Aí sobre a porta.
— Acabei de inclinar. Já está a defletir?
— Ainda não.
— E agora, que incluí o cê?
— Já está a deflectir!
— Perfeito!
XCV
— Antes de entregares o manuscrito, é crucial proceder à retificação.
— Já fiz. Mas ainda não está perfeito, como é natural.
— Contrataste algum profissional habilitado?
— Sim.
— Não deve ser um profissional competente. Experimenta contratar um especialista em rectificação. Ficará perfeito à primeira tentativa.
XCVI
— É uma vedação espetável.
— Porque dizes isso?
— Faz-me lembrar um autêntico trabalho em filigrana.
— Mas requer muito cuidado, não é?
— Não te entendo.
— Na minha ideia, espetável significa que se pode espetar. Se estiver ferrugenta, é duplamente perigosa, não?
Ah! Uma das imagens que acompanha este escrito, divulgada pelos grupos Cidadãos contra o Acordo Ortográfico de 1990 e Tradutores contra o Acordo Ortográfico, demonstra como, vários anos após o início da aplicação do nefando Acordo Ortográfico de 1990, alguns órgãos de Comunicação Social continuam a ter a capacidade de, a cada dia, inventarem novos erros.
Ah! A segunda imagem, sobre as polémicas declarações do Ministro da Educação, mostra o estado a que chegou a ortografia que por aí vai circulando, em que o verbo retractar-se é constantemente atacado e espoliado de uma consoante. Este verbo, que significava desdizer-se e dar o dito por não dito, confunde-se, agora, com um sinónimo de tirar um retrato.
Ah! É completamente obrigatório ler o artigo de Nuno Pacheco “Ora aqui vão los acuerdos que hacen nuestros hermanos”, publicado no dia 11 de Dezembro pelo jornal Público.
Ah! Do mesmo autor, vale a pena ler o texto “O meu acordo é melhor que o teu: dilemas da ortografia”, também dado à estampa pelo Público no dia 4 de Dezembro.
Ah! Obviamente, não deixe de ler “O Orçamento de Estado e a Conta Geral do Estado: um retrato do país”, de Francisco Miguel Valada no Público, no dia 16 de Dezembro.
Ah! O blogue O Lugar da Língua Portuguesa, administrado por Isabel A. Ferreira, divulga uma Carta Aberta dirigida aos candidatos à Presidência da República. Continua a ser um local de genuína salubridade, portanto.
Ah! O autor deste escrito deseja a todos os seus leitores umas Óptimas Festas e um Excepcional Ano Novo. Deseja ainda que 2026 traga uma ortografia lógica, coerente e respeitadora da sua história.
João Esperança Barroca


O Orçamento do Estado e a Conta Geral do Estado: um retrato do País

«É que eu li o Relatório.» Eva Cruzeiro, deputada do PS, 30/10/2025
Duas importantes características das relações públicas portuguesas, já mencionadas na actual campanha presidencial, são o improviso e a falta de rigor. Um aspecto complementar é o da aparência da exactidão das medidas, frequentemente tomadas de modo impetuoso e frenético. Todavia, como sabemos, as aparências iludem. Repare-se, por exemplo, na adopção urgente, com prego a fundo, do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), patrocinada por um poder político que acredita piamente em mentiras como “agora facto é igual a fato de roupa” e afins (cf. PÚBLICO, 13/11/2012) e acelerada por uma comunicação social arrebatada, imprudente e apaixonada (com honrosas excepções, como o PÚBLICO).
Os pareceres científicos foram para a gaveta e o desastre está à vista de todos. De todos? Não. Só daqueles que lêem. Houvera ouvidos do poder político atentos aos argumentos linguísticos e jurídicos há muito aduzidos e teríamos, porventura, um Orçamento do Estado para 2026 (OE2026) condigno. Não temos. A deputada Eva Cruzeiro, do Partido Socialista, leu o Relatório do OE2026, como podemos verificar na epígrafe e, mesmo assim, absteve-se.
Efectivamente, o OE2026 foi aprovado e essa é uma má notícia para os portugueses. Como se sabe, em reunião da respectiva Comissão Política Nacional, o PS formalizara já a decisão de se abster. Uma “abstenção exigente”, garantiram, com o objectivo de “assegurar a estabilidade do país”. Uma abstenção exigente, mas que me entristece pessoalmente, a mim, claro, por uma única razão: ao contrário de muitos decisores, li, de facto, como aparentemente o fez também a deputada Eva Cruzeiro, o Relatório do OE2026 e estabilidade, garanto-vos, é conceito que prima pela ausência. Sabemos que a senhora deputada leu a página 25 (do ficheiro PDF, página 9 do documento em papel), onde terá certamente apanhado o “Plano de Ação para as Migrações do XXIV Governo” (última linha dessa página). No entanto, ter-lhe-á passado despercebido o “Plano de Acção da Comunicação Social” (página 196 do ficheiro PDF, página 180 do documento em papel). De outro modo, creio, não se teria abstido da tal forma exigente: teria votado contra. O PS, com uma deputada que efectivamente leu o Relatório do OE2026, deveria ter-lhe feito perguntas acerca do conteúdo e da forma e, perante a denúncia do saliente opróbrio, desistido da abstenção e votado contra esta enormidade. Mas isso seria num mundo ideal, em que os documentos são de facto lidos por aqueles que tomam medidas e decisões. Em todos os recentes Relatórios do OE, entre 2012 (o primeiro com AO90) e 2026 (o mais recente), vemos a malsã convivência de grafias pré-AO90 (as melhores) com grafias AO90 (chumbadas por pareceres técnicos que o poder político ignorou) e grafias que não são nem pré-AO90, nem AO90, nem coisíssima absolutamente nenhuma. No início, nesse inaugural 17 de Outubro de 2011, quando o Relatório do OE2012 foi entregue pelo então ministro de Estado e das Finanças à então presidente da Assembleia da República, tivemos caráter e carácter, setor e sector, exceto e excepto, ações e acções e houve inclusive activos e ativos, tudo em amena cavaqueira no mesmo documento. Como bem se lembrará quem então leu tal preciosidade, apareceram, pela primeira vez, formulações fixas e grafemicamente opostas, como “despesa efetiva” e “despesa efectiva” ou até “protecção do meio ambiente e conservação da natureza” em pleno convívio, na mesma página, com “proteção do meio ambiente e conservação da natureza”. Exactamente, na mesma página.
Viajando rapidamente no tempo, voltamos ao Relatório mais actual, o do OE2026, e verificamos que o triste espectáculo ortográfico continua, com “redireccionamento do comércio com os EUA”, mas “redirecionar o investimento público”, “Plano de Acção da Comunicação Social”, mas, como vimos, “Plano de Ação para as Migrações do XXIV Governo”, “protecção social de base”, mas “sistema de proteção social de cidadania”, “informação de carácter patrimonial, mas “eventos de caráter internacional”, etc. Tudo isto, realço, são meras amostras.
Entre estes dois Relatórios (OE2012 e OE2026), muitos anos passaram, sempre com mais do mesmo, incluindo os inevitáveis fatos em vez de factos (por exemplo, “fato de ser intenção da tutela”, no Relatório do OE2014 ou “sublinha-se o fato de o valor previsto”, no Relatório do OE2015) e contatos em vez de contactos (por exemplo, “através de contatos *diretos com empresas”, no Relatório do OE2015 ou “centro de contato consular”, no Relatório do OE2021).
No meio deste desastre ortográfico, que, como sabemos, por falta de leitura, tem passado despercebido a quem vota o OE, há outro documento, ao qual não tenho prestado uma merecida atenção. Ricardo Paes Mamede (PÚBLICO, 9/10/2025) sugeriu recentemente que estivéssemos atentos à Conta Geral do Estado (CGE). Debrucei-me sobre a CGE e, depois de encontrados “investimento colectivo” e “investimento coletivo”, “Sector Empresarial do Estado” e “Setor Empresarial do Estado”, “protecção do ambiente” e “proteção do ambiente”, fiquei ainda mais esclarecido. Se acrescentarmos os “contatos encetados em 2021” ou o “em contato com os alimentos” (Relatório de 2022), verificamos (se quisermos verificar, obviamente) que o caldo está entornado.
Ortograficamente, a execução (CGE) é tão má como o anúncio anual (OE) e a tortura diária (Diário da República). Tudo isto ajuda a demonstrar a absoluta inutilidade do AO90. Já que não leram os documentos, leiam este resumo. Resumo muito resumido, acrescente-se.»
Francisco Miguel Valada - Público/
Fonte:
«Se isto acontece a uma profissional experiente, o que acontecerá à população que não tem nem uma constante exposição à palavra escrita nem responsabilidades profissionais relacionadas com a língua portuguesa?»
Mais um texto de Francisco Miguel Valada,a juntar a tantos outros, que nos falam das incongruências de um “acordo” que nunca foi acordo.

Texto de Francisco Miguel Valada
«Quem nunca saiu de Lisboa viaja no infinito no carro até Benfica, e, se um dia vai a Sintra, sente que viajou até Marte.»
Bernardo Soares
1 - Horas antes de me ter embrenhado nos trabalhos de 2020, fiz um apanhado da correspondência em atraso das férias de Natal e encontrei uma pérola futebolística relacionada com a base IV do Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) – mais concretamente, com a tão importante e tão ignorada função grafémica da letra ‘c’. Como é sabido, as letras ‘c’ e ‘p’ têm função grafémica (cf. PÚBLICO, 28/1/2016). Todavia, como tem sido público e notório, o Governo português adora relações públicas e detesta publicações científicas.
Debrucemo-nos sobre essa pérola. Na RTP, confrontaram o treinador e comentador Manuel José com declarações do presidente do FC Porto sobre factores externos que alegadamente influenciam os resultados dos jogos de futebol. A frase, disponível no oráculo, foi lida em voz alta pela jornalista presente no estúdio: “O futebol português ainda é muito condicionado por *fatores que são alheios ao mérito”. A jornalista proferiu a vogal da primeira sílaba de *fatores como se esta fosse igual à de amores, Açores ou dadores. Depois, corrigiu-se e proferiu a palavra completa *fatores, com a primeira vogal semelhante à primeira de actores e tractores e à segunda de infractores e redactores. Ou seja, como se de factores efectivamente se tratasse.
Fruto deste episódio actualíssimo, uma hipótese antiga a desenvolver é a de a ausência da letra ‘c’, que fixa grafemicamente o ‘a’ de factores (e de actores, tractores, infractores, e redactores) ter de facto consequências na consciência fonológica dos falantes, com essas consequências a serem evidenciadas à superfície, isto é, no momento da prolação. É verdade que a jornalista rapidamente detectou o erro e imediatamente reformulou. No entanto, a pergunta impõe-se: se isto acontece a uma profissional experiente, o que acontecerá à população que não tem nem uma constante exposição à palavra escrita, nem responsabilidades profissionais relacionadas com a língua portuguesa (oral ou escrita), nem o consequente traquejo para se desenvencilhar num apuro semelhante, nem bagagem teórica para reflectir sobre o assunto?
Tendo em conta que a RTP determinou a adopção do AO90 há nove anos, tudo isto assume contornos muito interessantes. Continua por explicar a razão pela qual os poderes públicos não acautelaram estes problemas. Os responsáveis por esta situação que abram os ouvidos, já que não lêem os estudos.
2 - Recentemente, alguns académicos brasileiros rasgaram publicamente as vestes. Algures no Twitter, Abraham Weintraub, o ministro da Educação do Brasil, escreveu *imprecionante em vez de impressionante e houve reacções nas redes sociais. Aliás, fiquei a saber que este erro fora o mais recente episódio de uma monótona novela, durante a qual Weintraub já fizera as delícias dos pescadores de pérolas ortográficas, com *paralização e *suspenção, em vez de paralisação e suspensão.
Por cá, curiosamente, tudo bem. Porventura por distracção minha, nunca detectei vestes rasgadas pelos negociadores, promotores e amigos do AO90, devido aos erros ortográficos cometidos pelos autores do AO90. Não me refiro aos grosseiros erros conceptuais de autores do AO90, como quando escreveram que olho e óculo areia e arena, entregado e entregue ou imprimido e impresso eram exemplos de dupla grafia (cf. PÚBLICO, 14/6/2017). Refiro-me concretamente ao erro ortográfico dos autores do AO90, quando escreveram *insersão em vez de inserção, no título do ponto 7.1 da Nota Explicativa do AO90 (cf. PÚBLICO, 20/12/2010). Exactamente: um erro ortográfico num texto que prescreve regras ortográficas e bastante apreciado na Assembleia da República e arredores.
Convém recordar que o ministro da Educação do Brasil é economista, não sendo obrigado a ter nem as competências linguísticas nem as responsabilidades metalinguísticas esperadas dos autores do AO90. Por isso, relativizemos o rasgar de vestes do outro lado do Atlântico e tomemos nota das vestes por rasgar onde soa o sino da aldeia de Fernando Pessoa. Sim, Pessoa está na moda. Perguntai ao ministro Mário Centeno, que evoca Pessoa na Assembleia da República, enquanto apresenta um Orçamento do Estado escrito num português vergonhoso (cf. PÚBLICO, 24/12/2019).
Fonte:
Se o Orçamento de Estado já é MAU, e se a esse MAU acrescentarmos o facto de estar escrito em MIXORDÊS, o que diz da gigantesca tragédia linguística que assola o nosso desventurado país, que faz-de-conta-que-tem-uma-língua, então o OE2020 é péssimo.
Uma vez mais as palavras VERGONHA e VERGONHOSO podem ser aplicadas com toda a propriedade, porque em mais nenhum país do mundo, tal insulto a uma Língua Materna, acontece.
A quem querem os governantes portugueses fazer de parvos?
Deixo-vos com o texto de Francisco Miguel Valada, que começa por citar o escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano Umberto Eco, que diz o seguinte:
«Ora, questa frenesia dell’apparire (e la notorietà a ogni costo, anche a prezzo di quello che un tempo era il marchio della vergogna) nasce dalla perdita della vergogna o si perde il senso della vergogna perché il valore dominante è l’apparire, anche a costo di vergognarsi?»
«Ora, esse frenesi de aparecer (e notoriedade a todo custo, mesmo ao custo do que antes era a marca da vergonha) nasce da perda da vergonha ou perde-se o sentido da vergonha, porque o valor dominante é a aparência, mesmo à custa de se envergonhar?» (Umberto Eco)
Isabel A. Ferreira

Foto: Tiago Petinga/Lusa [http://bit.ly/36HQkRp]
Um texto de Francisco Miguel Valada
«Contra o Orçamento do Estado para 2020»
«É impossível alguém rever-se no OE2020, a não ser que ande a espalhar o caos ortográfico. Efectivamente, a mixórdia de 1990 tem um dos seus pontos altos anuais no momento em que o ministro das Finanças entrega ao presidente da Assembleia da República um texto que o primeiro obviamente não escreveu e o segundo certamente não lerá. Baseio esta minha hipótese num facto: estes são exactamente os mesmos protagonistas dos momentos simbólicos do OE2016, do OE2017, do OE2018 e do OE2019.
Se Mário Centeno e Eduardo Ferro Rodrigues tivessem escrito ou lido as propostas de 2016, 2017, 2018 e 2019, provavelmente não teríamos o caos de 2020 que aqui vos deixo, sob a forma de pequena amostra:
caráter geral (p. 231) e carácter geral (p. 123);
setor público (p. 194) e sector público (p. 188);
atualizações dos escalões (p. 249) e actualizações salariais (p. 62);
despesa efetiva (p. 73) e despesa efectiva (p. 70);
Programas Orçamentais e Políticas Públicas Setoriais (p. 61) e Programas Orçamentais e Políticas Públicas Sectoriais (p. 61): sim, na mesma página;
setores e funções (p. 84) e entre sectores (p. 136);
acordos coletivos (p. 17) e serv. colectivos (p. 91);
exigência da fatura (p. 197) e remanufactura (p. 198)- sim, rimavam: mas isso era antigamente;
eletricidade (p. 194) e electricidade (p. 207);
largo espetro (p. 157) e espectro internacional (p. 211);
gestão de ativos (p. 292) e gestão de activos (p. 294);
proteção social (p. 170) e protecção social (p. 114);
ação social (p. 100) e acção social (p. 91);
Direção (p. 224) e Direcção (p. 220). (*)
Como este exercício de entrega e recepção é meramente simbólico, pois as personagens deste ritual (já interpretadas por duplas como Vítor Gaspar e Assunção Esteves, Maria Luís Albuquerque e Assunção Esteves ou Centeno e Ferro Rodrigues) não dão o devido valor ao texto (o valor intrínseco de qualquer texto só pode ser extraído se ele for de facto lido), não vale a pena insistir no exercício de leitura e de escrita.
Portanto, convém que o poder político dê o único passo lógico para termos uma ortografia clara, sem ambiguidades, uma ortografia com carácter, com sector, com sectores, com facturas, com protecção, com acção e com direcção.
Como o Acordo Ortográfico de 1990 falhou (cf. 2012, 2013, 2014, 2015, 2016, 2017, 2018, 2019 e 2020), regressemos à ortografia de 1945, sff.
Obrigado e até para o ano.»
Fonte:
https://aventar.eu/2019/12/17/oe2020/#comments
(*) Questão: quem é capaz de afirmar conviCtamente que as palavras grafadas a vermelho pertencem à Língua Portuguesa? E se não pertencem, como todos sabemos que não, o que estão a fazer num documento oficial do governo português? (Isabel A. Ferreira)
É assim que o Estado, de facto, aplica o AO90. O resto é arena atirada para os nossos óculos.

Francisco Miguel Valada
1 de Dezembro
"Se tutoyer, os franceses têm o vous / E eu tenho-te a ti"
GNR
"Se queremos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude"
Tomasi di Lampedusa
De facto, tendo em conta o “portuguez lingua escripta” (denominação cunhada em 1881 por Francisco Adolfo Coelho) do tempo de Gonçalves Viana e Leite de Vasconcelos, nunca lhes ocorreria ao lerem uma forma atuado que esta pudesse ser um actuado despojado do seu cê. Todavia, isso acontecerá a um leitor de português na actualidade, afectado pela imposição do AO90 e levado a fazer uma interpretação errada de uma palavra portuguesa, neste caso, de uso dialectal.
Convém recordar que actuar e actuado justificam a consoante cê, por pertencerem ao grupo de “palavras de derivação ou afinidade evidente” (Gonçalves Viana, Ortografia Nacional, 1904), mantendo-se a consoante quando há “derivação manifesta de outro vocábulo” (Gonçalves Viana e Vasconcelos de Abreu, Bases da ortografia portuguesa, 1885) em que a consoante “influi na pronúncia da vogal precedente” (Gonçalves Viana, ON, 1904). Acrescente-se uma perspectiva curiosa. Com o AO90, temos a mesma palavra gráfica atuado a significar uma coisa e o seu contrário: por um lado, atuado “sem acção”, por outro, *atuado de actuar “exercer acção”.
Além destes dois atuado, convém lembrar um terceiro: o particípio passado de atuar significa na norma padrão “tratado por tu”. Também aqui a supressão do cê de actuado nada ilumina, antes pelo contrário. Este é um aspecto prático importante, embora menos popular entre os detractores do AO90, comparado com as críticas à perda das indicações diacríticas, cujo valor se verifica em pares mínimos (coacção/coação; facção/fação; corrector/corretor; espectador/espetador; pára/para), ou às confusões morfológicas (por exemplo, aspecto passa a *aspeto, mas aspectual pode manter o cê e pode perdê-lo).
Gonçalves Viana, Leite de Vasconcelos e Adolfo Coelho fizeram parte da comissão responsável pela ortografia de 1911, cuja modernidade é patente pela ausência até hoje de corrente científica a propor a transformação do alfabeto latino num alfabeto fonético — o programa de 1945 de Rebelo Gonçalves constituiu uma continuação de 1911 e não uma ruptura. Há uns anos, o professor Jorge Morais Barbosa (1937-2015) indicava, num fórum selecto de opositores ao AO90, uma entrevista do linguista Alain Bentolila, em que este criticava o conceito “simplificação ortográfica”, que não conduz a uma melhor compreensão da palavra escrita, sublinhando que correspondência entre letra e som já existe no alfabeto fonético internacional.
António Costa disse recentemente que Portugal “fez a sua parte”, ao seguir os trâmites conducentes à adopção do AO90. Não é verdade. Aliás, só pode tecer uma afirmação dessas quem nunca leu os pareceres de 2005 da Associação Portuguesa de Linguística e do Departamento de Linguística Geral e Românica da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (cf. PÚBLICO, 18/5/2016). Os pareceres recomendavam que Portugal não ratificasse o Segundo Protocolo Modificativo. Sublinho que na frase anterior há um ‘não’ antes do ‘ratificasse’. Para que não haja dúvidas: Portugal não fez a sua parte. O poder político não fez aquilo que devia.
Sabendo-se que ao poder político não interessam nem estas linhas, nem os pareceres de Inês Duarte e de Ivo Casto, é no mínimo estranho que também ignore as palavras do linguista mais citado na Assembleia da República nos últimos 36 anos: João Malaca Casteleiro. Durante o ano passado, Malaca Casteleiro declarou: “até admito que se venha a colocar o acento em para”. É importante que o poder político preste atenção a estas sábias palavras, para evitar infelicidades na literatura (“Ninguém pára para o socorrer”, José Saramago) e ambiguidades na imprensa (“Bloqueio nos fundos da União Europeia pára projecto na área do regadio”). Convinha que as ideias ortográficas de Malaca Casteleiro também tivessem consequências quando, além de correctas, são manifestamente inconvenientes para o poder político.
Dias depois de António Costa ter dito que Portugal fizera a sua parte, o ministro das Finanças entregou ao presidente da Assembleia da República a proposta de Orçamento do Estado (OE) para 2019. Sucessivos governos têm tentado adoptar o AO90 nos OE desde 2012. Para se ter uma ideia da estabilidade desta adopção, no relatório do OE 2012 tínhamos “caráter acomodatício” e “carácter universal e extraordinário”; no relatório do OE 2019 encontramos “caráter pontual ou extraordinário” e “carácter pornográfico ou obsceno”; em 2012, havia “despesa efectiva” e “despesa efetiva”; para 2019, há “medidas para tornar efetiva” e “despesa efectiva”. É assim que o Estado, de facto, aplica o AO90. O resto é arena atirada para os nossos óculos (cf. PÚBLICO, 14/6/2017).
Autor de “Demanda, Deriva, Desastre: Os Três Dês do Acordo Ortográfico” (Textiverso, 2009)
Fonte do texto:
. Em Defesa da Ortografia (...
. Texto de Francisco Miguel...
. «O Acordo Ortográfico de ...
. Um mau Orçamento do Estad...
. «SEM ACÇÃO, ISTO É, ATUAD...