Terça-feira, 24 de Novembro de 2020

«Fonoaudióloga brasileira em Portugal luta para provar que fala português»

 

O título é de um artigo publicado num jornal online brasileiro (TAB), o qual esmiúço mais abaixo.

A imagem ilustra o artigo. Por sua vez, a ilustração contém um vídeo de baixo nível, que diz bem ao que a autora do artigo vem.

 

Palavreado rasca.PNG

 

Antes de ir ao assunto e para quem não saiba (eu não sabia) uma fonoaudióloga, em Portugal, corresponde a uma terapeuta da fala, que, de um modo simplificado, estuda a voz e a audição e os distúrbios a elas associados, embora seja mais abrangente. E, esclarecendo esta parte, tudo ficaria explicado, porque a questão aqui é a de uma fonoaudióloga brasileira (só na designação já se percebe a diferença) não ser aceite, em Portugal, para exercer esta profissão.

 

O motivo não será óbvio?

 

O título é de um artigo publicado num jornal online brasileiro (TAB) onde se distorce a questão, por não se entender que a fala brasileira é diferente da fala portuguesa, e tratando-se de terapia da fala, a dicção, a pronúncia das palavras e tudo o resto a elas ligado, é extremamente importante. E se estamos diante de uma pessoa que não domina completamente a expressão da Língua do País, como poderá exercer com eficiência tal profissão?

 

Não estamos a falar das falas das novelas. Estamos a falar de terapia da fala, que mexe com o modo como as pessoas que procuram o terapeuta se expressam e procuram corrigir esse modo.

 

Ora a fonoaudióloga em questão, segundo a notícia, depois de passar por uma entrevista e escrever uma redacção, recebeu um documento a dizer que ela não dominava a semântica (sentido das palavras), a morfossintaxe (construção das frases), a fonética e a fonologia (os sons) do Português falado em Portugal. Não dominando estes importantíssimos meandros da fala, como poderia exercer a profissão de terapeuta da fala, em Portugal? Dependendo da competência, todas as outras terapias (psicológicas, físicas) podem ser exercidas por qualquer estrangeiro. Mas a fala é a fala. Se não a dominamos, não podemos exercer nada que com ela se relacione.

 

Poderia um brasileiro ser professor de Português português em Portugal?

 

Poderia um português ser professor de Português brasileiro, no Brasil?

 

Porém, a fonoaudióloga brasileira entendeu que o preconceito linguístico ou reserva de mercado seriam as verdadeiras motivações para que o seu credenciamento profissional em Portugal tenha sido negado.

 

Não. Não foi preconceito linguístico ou reserva de mercado. Foi simplesmente algo muito óbvio: os Brasileiros não falam Português português. E isto até uma criança tem capacidade de observar. E não falando Português português, não pode exercer a profissão de terapeuta da fala, pelos motivos mais óbvios.

 

Se uma terapeuta da fala portuguesa pretendesse exercer a profissão no Brasil seria aceite?

 

Este artigo mistura alhos com bugalhos, faz uma análise arrevesada da questão, e pela ilustração que usaram, já se vê na aragem o que vai na carruagem.



Deixo aqui o link do artigo, para quem estiver interessado em consultá-lo, e recomendo vivamente que leiam também os comentários, porque neles encontraremos o verdadeiro busílis da questão:

 

https://tab.uol.com.br/noticias/redacao/2020/11/22/fonoaudiologa-brasileira-em-portugal-luta-para-provar-que-fala-portugues.htm

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:29

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Sexta-feira, 13 de Novembro de 2020

Comentários de um professor universitário brasileiro sobre os brasileirismos introduzidos na linguagem oral e escrita em Portugal

 

Para que não digam que apenas eu implico com esses brasileirismos, publico aqui os comentários que o professor   Arthur Virmond de Lacerda publicou no Facebook, a propósito do meu texto

Nos canais de televisão, para além do AO90, reina o espírito de imitação bacoca

 
Devo dizer que o jurista Arthur Virmond de Lacerda pertence a uma elite culta brasileira que defende a Língua Portuguesa, no Brasil, tal como eu a defendo em Portugal. Divergimos em alguns pontos, mas no essencial concordamos. Está atento ao que se passa em Portugal, até porque já estudou cá, como eu estudei lá, e até já escreveu ao Governo Sombra, sobre os brasileirismos que os seus integrantes usam, e sobre o fenómeno do abrasileiramento da prosódia portuguesa.

 

Brasileirismos.png

Ernesto Carneiro Ribeiro foi um médico, professor, linguista e educador brasileiro, conhecido pela polémica mantida com Ruy Barbosa, seu ex-aluno, acerca da revisão ortográfica do Código Civil Brasileiro. Curiosidade: repare-se na designação idioma luso-brasileiro.

 

Arthur Virmond de Lacerda Também observo a legendagem à brasileira, em canais portugueses, e textos abrasileirados das telenovelas portuguesas, há mais de dez anos. Também me parece que os diálogos destas e as legendas são escritos por brasileiros, com introdução dos mais variados vocábulos e expressões que descaracterizam o falar tipicamente português. Seus autores não apreenderam o léxico corrente em Portugal e, aos poucos, vão descaracterizando a elocução típica dos portugueses. Tal abrasileiramento não favorece a audiência dos programas no Brasil nem creio que seja necessário para captar a audiência dos brasileiros daí. Os programas feitos em Portugal devem exprimir-se consoante aos usos daí e não consoante aos daqui ou de alhures.
Também noto que apresentadores e comentadores televisivos (Jornal da Noite, da SIC, Marques Mendes) [sim Marques Mendes parabeniza demasiado] empregam brasileirismos coloquiais, ou seja, o que é rasca, trivial, raso, no Brasil, alguns (somente alguns ?) usam em lugares formais, a exemplo de "dica", "correr atrás do prejuízo", "só que não". São dizeres da arraia miúda, que não no Brasil evita-se em contextos como os em que aí se usam, ou seja, alguns portugueses usam o pior do Brasil em lugar do que seja tipicamente português. — Nutro as mais acentuadas reservas quanto a tudo quanto provém de Marcos Bagno, grande inimigo da herança portuguesa em relação ao idioma. Ele é propugnador da recusa da gramática e dos usos vernaculares e do mudancismo idiomático: quanto menos portuguesmente se falar no Brasil, tanto mais ele se rejubila. Reputo-o influência decisiva no declínio acentuado do idioma entre nós e que ela precisa de ser erradicada urgentemente. Suas doutrinas são em muito responsáveis pelo abandalhamento do idioma no Brasil.

 

Arthur Virmond de Lacerda Outros brasileirismos rascas: "Eu vô ti falá para você entendê, mas se quisé a gente repete prá você". "Se você tá com problema, digita aqui": confusão entre pessoas do discurso.

 

 ***

 

Vergo-me aos seus comentários, amigo Arthur Virmond de Lacerda.


Também tenho essa perspectiva do abuso dos brasileirismos na linguagem oral e escrita, em Portugal. entre muitos outros, até os oi e , já estão na linguagem oral e escrita dos mais jovens. Muita influência também das novelas, onde se fala muito mal, obviamente com algumas honrosas excepções.

 

Não existe, nem no Brasil, nem em Portugal, a prática da Cultura da Linguagem, que deve ser o nosso maior cartão de visita, na comunicação com o mundo.


Nós, por aqui, desde o presidente da República, passando por ministros, deputados, professores, jornalistas, até ao mais comum dos mortais, actualmente estamos abaixo de zero, no que respeita ao falar e ao escrever. Uma miséria franciscana.


Quanto ao Marcos Bagno, na verdade, ele é um seguidor do Antônio Houaiss, que deslusitanizou o Português, com determinada intenção. No entanto, concordo com Bagno no que respeita à "bobagem da lusofonia", porque cada país dito lusófono, tem os seus próprios dialectos, e só alguma elite é que ainda fala e escreve Português escorreito, e isto serve para todos os países africanos de expressão portuguesa, Timor-Leste e também o Brasil, onde existe uma elite, infelizmente pouco numerosa, na qual o meu amigo se inclui, que resiste à deslusitanização da Língua oficial, que ainda é Portuguesa.

 

Agradeço os seus comentários, até porque, por cá, há muito quem pense que SÓ eu é que implico com os brasileirismos introduzidos na oralidade e na escrita portuguesas. E eu apenas pretendo defender a Língua Portuguesa.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:59

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Quinta-feira, 5 de Novembro de 2020

«Perda de Nave Espacial» - um conto que veio de Itália, em Bom Português, onde se fala da importância da linguagem e da preservação da diversidade cultural interplanetária

 

Matilde Maruri Alicante, autora deste conto futurista escrito por volta de 1995, é uma escritora italiana, bastante versátil, que ama muito Portugal e estudou a Língua Portuguesa com paixão, tendo viajado bastante pelo nosso País.

 

Matilde Maruri Alicante dá-me a honra de ser minha amiga, há longos anos. E do mesmo modo que ela ama Portugal, eu amo a Itália, e este facto contribui para que partilhemos as nossas duas Culturas e Idiomas, se bem que eu não seja capaz de escrever Italiano tão perfeitamente como ela escreve Português.

 

Matilde tem publicado vários livros sobre diferentes temas, alguns deles dedicados à agricultura biológica e à ecologia. Também escreve artigos para a Web e para revistas, especialmente sobre viagens e culinária, dois temas que facilitam os encontros pacíficos com culturas diferentes.

 

Também gosta muito de música e escreve letras para canções, que foram publicadas em alguns CDs.

 

***

A personagem deste conto chama-se João, é arquivista no Departamento Danos da P.U.A., uma Companhia de Seguros, com a tarefa de classificar as práticas definidas, dividindo-as de acordo com o idioma do sistema do planeta ou do sistema estrelar a que pertenciam, tendo sido adoptado um método diferente de divisão territorial: a da linguagem.

 

Outros elementos de avaliação, para que a um território pudesse ser dada a qualidade de nação unida, eram, juntamente com a linguagem, a arquitectura, os hábitos das pessoas e o tipo de cozinha.

 

O enredo situa-se num futuro possível, onde se pratica um intercâmbio de idiomas e de hábitos culturais, deixando intacta a variedade de costumes locais.

 

Recomendo vivamente a leitura deste conto, por dois motivos: por ter sido escrito num Português impecável, por uma escritora estrangeira, e por conter uma ideia de futuro, muito interessante.

Isabel A. Ferreira

(Clicar na imagem para ouvirem o coro no YouTube)

 

(…) na Terra tinha sido criado um coro em que participavam todos os habitantes.

 

Por Matilde Maruri Alicante

matildemarurialicante@gmail.com

 

«Perda de Nave Espacial»

 

João estava sentado no seu local de trabalho, numa grande mesa de escritório transparente, parcialmente ocupada por um teclado grande e alguns monitores quando o videofone enviou um sinal. Quando ele aceitou a comunicação apareceu a imagem sorridente do seu amigo Paulo.

— Como estás? — perguntou Paulo.

— Sinto-me como se tivesse sido bombardeado. — respondeu João — Tive a ideia de celebrar todos os primeiros dias da Terra, e fiquei acordado a beber champanhe a cada meia-noite. Fiz um brinde a cada minuto, a todas as horas. Encontras-me aqui, porque se tivesse ficado em casa para o trabalho, como de costume, teria arriscado adormecer no teclado.

— Parabéns! — disse Paulo, rindo.

— Obrigado. — respondeu João — também te desejo um Feliz Ano Novo. Então, vamos encontrar-nos amanhã de manhã para fazer jardinagem?

— Certamente. — Paulo confirmou — Às cinco e meia está bem?

— Para mim, sim. Vou dirigir-me directamente ao Parque das Magnólias. Quantos somos? Julgas que podemos terminar o trabalho em tempo para as Férias da Primavera? 

Paulo respondeu amavelmente às muitas perguntas do amigo. Ele tinha uma voz bonita e profunda, e estava sempre calmo, o que tornava muito agradável a companhia dele.

— Somos vinte e oito. Não te preocupes, João, naquela altura o Parque vai ficar esplendoroso.

— Bem, até mais tarde. — Concluiu João.

 

João terminou a comunicação e recomeçou a trabalhar. Era arquivista no Departamento Danos de uma grande Companhia de Seguros, com a tarefa de classificar as práticas definidas, dividindo-as de acordo com o idioma do sistema do planeta ou do sistema estrelar a que pertenciam. Seguia o turno 9/5, que é o que ia das nove da noite até às cinco da manhã, ideal para a sua natureza nocturna. Paulo era um dos seus melhores amigos, um daqueles com que, depois do trabalho, ia contemplar o nascer do sol, comer alguma coisa e passar o tempo até ao momento de ir dormir, para acordar ao entardecer, quando, com a energia lunar, a sua lucidez mental começava a aumentar.

 

Na verdade, falar sobre dia e noite já não tinha o significado de uma época em que a alternância da escuridão e luz marcava o ritmo de trabalho e descanso. Já há muitas centenas de anos que as actividades na Terra continuavam durante todas as vinte e quatro horas. Por outro lado, de nenhuma outra forma teria sido possível satisfazer a necessidade de manter a comunicação com dezenas de planetas que mediam o tempo com métodos diferentes. A única possibilidade era estar constantemente presentes e à escuta.

 

Esta decisão foi tomada por todos os governos dos planetas do sistema, no primeiro dia da terceira era astral. Desde então, todos os habitantes do planeta tiveram a oportunidade de escolher o turno mais congenial para eles. Na Terra foram estabelecidos três turnos: o primeiro, das nove da manhã até à uma da tarde, o segundo da uma da tarde até as às nove da noite, a terceira, das nove da noite até às cinco da manhã. Para abreviar e por piada, os trabalhadores do primeiro turno tinham sido apelidados de cotovias, os do segundo, cigarras e os do terceiro, corujas. Mesmo aqueles que tinham um trabalho independente tiveram livre escolha para trabalhar quando preferiam. A única condição importante era a continuidade de cada serviço, de maneira que todos, cotovias, cigarras ou corujas, que fossem, podiam fazer qualquer coisa em qualquer momento.

 

Durante o mesmo período, bem como uma divisão diferente dos turnos de trabalho, também havia sido adoptado um método diferente de divisão territorial, a da linguagem. Consideravam-se como pertencentes à mesma zona da Terra, os lugares onde as pessoas falavam a mesma língua, com o conceito de que para a homogeneidade da população e o bom funcionamento do comércio e dos assuntos internos fosse suficiente comunicar com a mesma linguagem.

 

Contudo, porque em todos os lugares era absolutamente proibido o isolamento, os habitantes dos planetas que estavam relacionados entre si deviam ser capazes de falar tanto a linguagem matemática universal quanto pelo menos três línguas além da sua própria, de maneira que fosse possível comunicar em qualquer lugar do próprio planeta e com um bom número de planetas em outros sistemas. Se, no decurso do tempo, por qualquer motivo, tivessem ocorrido mudanças na língua de um lugar, também se mudava a divisão do território. Uma comissão especial de estudiosos, que continuamente exploravam cada planeta, estava encarregada de tomar nota de todas as mutações, a fim de redesenhar as fronteiras territoriais quando as variantes do idioma indicavam que a mentalidade das pessoas já não era a mesma.

 

Outros elementos de avaliação, para que a um território pudesse ser dada a qualidade de nação unida, eram, juntamente com a linguagem, a arquitectura, os hábitos das pessoas e o tipo de cozinha.

 

Naquela altura, foi longamente debatido se não seria conveniente uniformizar a língua, as leis e costumes de toda a Terra. Concluiu-se que teria sido tão desconfortável e limitativo para os seres humanos que foi decidido aceitar a realidade tal como ela era, irredutivelmente multifacetada. Em vez disso, foi dado o impulso máximo para a melhoria dos sistemas de informação, que ao longo do tempo se tornaram tão rápidos e precisos para compensar quaisquer diferenças. Além disso, com a participação de todos os representantes das várias jurisdições territoriais, foi escrita uma Constituição Interplanetária que estabelecia de maneira simples os elementos básicos para o bom funcionamento da vida, que as pessoas respeitavam em todos os lugares. Desta forma foi alcançado o nível de uniformidade necessário para manter um sentido de coesão entre os habitantes de todos os planetas, deixando intacta a variedade de costumes locais.

 

O resultado dessas mudanças foi um alto grau de liberdade das pessoas, que podiam ir a qualquer lugar do planeta sempre se sentindo aceites, contanto que falassem a linguagem do lugar. Ocorreram casos de nações inteiras que, ao fim de se transferirem para outras jurisdições, tinham mudado completamente de alimentos, casas, e língua, e nunca a transferência foi negada, pelo princípio de que nenhum movimento interno poderia comprometer a integridade do planeta.

 

As estatísticas diziam que nos países onde tinha sido decidido adoptar uma diferente linguagem e cozinha, a fim de obter a transferência para outras jurisdições havia um alto grau de harmonia, que se havia criado especialmente quando todas as pessoas se tinham reunido no esforço e no trabalho colectivo para aprender o novo idioma e os novos hábitos alimentares. Também parecia que as mudanças tiveram uma influência positiva sobre o humor das pessoas, porque todos que se mudavam tinham a convicção de fazê-lo para melhor e ficavam satisfeitos.

 

Desta forma, a vida nos planetas estava sempre muito movimentada. Havia sempre alguém que estava a mover-se de um lado para o outro, e havia muitas escolas onde se aprendia línguas, modos de cozinhar e construção de habitações.

 

Também foram instituídos inúmeros centros interplanetários, muito frequentados, onde era possível estudar e praticar os modos de vida e de produção dos outros planetas conhecidos. Estes centros enviavam à Terra grupos virtuais de pessoas capazes de apresentar o modo de vida do planeta deles. Os terrestres, que queriam aprendê-lo, poderiam viver por um tempo com esses grupos, a fim de fazer experiência directa dos hábitos deles. Claro, também era possível o contrário, e os usos da Terra foram estudados em centros interplanetários de outros planetas.

 

Tal fervoroso uso de energia para a aprendizagem, ao longo do tempo, tinha produzido um efeito inesperado. Na Terra, as guerras acabaram. Parecia que as pessoas, atarefadas e ocupadas em criar algo, tinham perdido o desejo de gastar tempo em empresas destrutivas.

 

Muitos comprometeram-se a criar objectos, sistemas ou teorias que facilitassem a vida. Desta forma foram criados roupa e calçado resistentes a tudo, tornando possível viajar através do espaço sem qualquer dificuldade. Na verdade, até mesmo as viagens eram muito populares. As pessoas partiam para qualquer destino e por várias razões, desde as pesquisas geológicas à participação em torneios, aos tratamentos de SPA, meditação e estudo. Praticavam-se as actividades desportivas mais variadas, e cantar era uma grande diversão para a maioria.

 

Na Terra, tinha sido criado um coro em que participavam todos os habitantes. Todos aqueles que queriam cantar eram designados para uma secção, de acordo com o tipo de voz e o lugar onde viviam. Como não era possível que os participantes se reunissem num único lugar todos cantavam a partir da própria casa.

 

A distância entre os cantores fez surgir o problema de obter a unidade e a contemporaneidade da constelação de vozes provenientes de diversas fontes, que empregavam tempos diferentes para alcançar os pontos de escuta. Por isso, foi posto em órbita em torno da Terra uma grande estação de rádio, que captava o som das vozes de todos os cantores e fundia-as num som único. Aqui era onde realmente todas as vozes se harmonizavam entre si e o coro se formava. De lá, o som era retransmitido para a Terra para ser ouvido.

 

Encontrar a concordância certa entre todos foi um trabalho complicado, mas acabou por fazer parte da diversão. Às vezes, organizavam-se competições com outros planetas, e um júri interplanetário premiava os melhores coros.

 

Este processo foi começado por acontecimentos muito distantes no tempo. Por muitos anos, a humanidade havia sido consumida por guerras devastadoras, desencadeadas pelas causas mais diferentes. Tentou-se evitá-las ou limitá-las de várias maneiras, mas quase sempre em vão, até que se decidiu deixar tudo acontecer.

 

A partir desse momento realmente aconteceu tudo, muitas pessoas tinham morrido e muitos países tinham sido destruídos, enquanto a Terra mergulhava no caos. Contudo, curiosamente, juntamente com as guerras e destruição, até mesmo o exacto oposto acontecia, pois nas pessoas nascia o desejo e a necessidade de reconstruir, de qualquer forma, o que tinha sido destruído e experimentar o prazer de fazer, de inventar, de criar e construir. Todos aqueles que tinham construído algo estavam preocupados com o facto de uma nova guerra poder destruir a produção deles e estavam interessados em não fazer desencadear outras.

 

Foi assim que com o tempo a antiga tendência bélica cessou. Como cada vez menos pessoas estavam dispostas a combater, já não foi possível formar exércitos, e os governantes que queriam fazer a guerra contra alguém não tinham quem a fizesse. Para satisfazer o seu próprio desejo de poder, por vezes organizaram duelos entre eles, com a ideia de que o vencedor do duelo venceria a guerra e ganharia o poder. Não funcionou, era uma ideia demasiado estúpida, mas ver chefes de Estado em estádios e arenas a lutar com punhos, com armas de fogo, espadas, paus e de outras formas fantasiosas foi um espectáculo muito divertido para toda a população.

 

Não durou muito, porque eles próprios, os chefes de Estado, além de não ter a mínima preparação física e psicológica, compreenderam que isso tudo era ridículo e sem sentido, abandonaram a ideia por completo e começaram a tentar encontrar acordos e colaborar. Descobriram então que não era impossível.

 

Então, estranhamente e, paradoxalmente, as guerras terminaram apenas quando não se tinha feito nada para evitá-las.

 

Todavia, foi uma época terrível, um período obscuro que durou centenas de anos, e mesmo naquele tempo, mesmo quando no final tudo tinha terminado bem, os historiadores não tinham certeza se deixar tudo acontecer tinha sido uma boa ideia. Em qualquer caso, as coisas tinham corrido assim.

 

Entre os muitos amigos de João também havia Gri, que vivia num mundo onde o modo de vida era parecido com o praticado na Terra, muitos séculos antes. João tinha-a conhecido no dia em que todos os coros terrestres tinham cantado juntos para celebrar o aniversário da Grande Paz. Gri ficou fascinada com aquele canto de milhões de vozes, e na tentativa de entrar em contacto com algum terrestre, encontrou João. Ele tinha-lhe explicado que cantar era uma arte cultivada por quase todos na Terra, porque harmonizava e facilitava a comunicação, também explicando como eles tinham conseguido superar as dificuldades relacionadas com as distâncias e diferenças de tempo.

 

A partir de então eles sempre se mantiveram em contacto. Graças a ela, João conseguiu um conhecimento profundo de muitos factos do passado, cuja documentação tinha sido destruída durante o longo período de guerras. Com grande emoção João havia estudado todos os eventos que tinham levado ao que foi chamado de Unificação, a união de todos os países e povos da Terra, e o longo debate sobre a conveniência de unificar também as línguas e costumes, um debate que se tinha concluído com a decisão unânime de aceitar a existência da diversidade, considerando-a um valor e uma fonte de ensino.

 

No entanto, por vezes, os discursos de Gri irritavam um pouco João. Na opinião dela, por exemplo, os terrestres estavam demasiado envolvidos em trabalhos, reservando pouco tempo à diversão.

 

Neste ponto João não tinha a certeza de entender bem. Claramente ele entendia a fórmula que Gri usava para definir a diversão, mas porque na Terra a mesma fórmula era utilizada para indicar o trabalho, excepto por um factor que indica a existência de um pagamento, um factor que era adicionado ou removido conforme o caso, intuía que Gri talvez estivesse a referir-se a outra coisa. Formulou a hipótese de que fosse beber, embebedar-se, dançar desenfreadamente, fazer barulho e confusão, mas não quis aprofundar.

 

Igualmente, escapava-lhe o conceito de riqueza, que Gri explicava com a fórmula "possuir muitos objectos". Ou, melhor, porque a hipótese de não possuir muitos objectos, não ter riqueza, não serem ricos, devia causar, na opinião dela, um sentido de falta e sofrimento. Em conclusão: ele não compreendia porque é que as pessoas podiam sofrer por não serem ricas (ou "não possuir muitos objectos"). De facto, ele, em nenhuma das suas muitas viagens, tinha encontrado alguém que parecesse "possuir muitos objectos", embora ninguém deles se queixasse por um sentido de falta de qualquer coisa e parecesse sofrer por isso.

 

João neste caso considerava muito estranhas as fórmulas matemáticas de Gri. Ele compreendia os termos um por um, mas não conseguia alcançar o resultado final. Às vezes, ele tinha a sensação de que pertenciam a outro sistema matemático.

 

Outro ponto em que a sua amiga levantava objecções era no que respeita aos edifícios e às casas. Estas pareciam-lhe muito extravagantes no exterior, e sempre muito "vazias" no interior. Pelo contrário, João considerava as casas da Terra muito lindas. Todas. As subterrâneas, as grandes plataformas na água, aquelas em forma de ovo ou de cúpula, as grandes pirâmides. Cada uma tinha a sua própria razão de ser construída daquela determinada maneira e naquele determinado lugar, cada uma era um laboratório para absorver luz e calor e ou rejeitá-los, para reabastecer elementos úteis, como água e processar resíduos. Ele tinha uma predilecção especial pela casa de Kyria, uma espécie de cogumelo muito alto, no qual se tinha continuamente a sensação de partir em voo.

 

Gri julgava apenas aceitável o edifício de quarenta andares que era a sede da P.U.A., a Companhia de Seguros para a qual João trabalhava, talvez porque este fosse parecido com as construções do planeta dela. Na verdade, o prédio reflectia um certo grau de atraso, era preciso dizer, tal como a empresa e a sua propensão para as hierarquias. A cada andar correspondia uma posição mais ou menos influente no trabalho, e este sistema tinha o poder de criar uma mentalidade em que as palavras "alto" e "baixo" estavam ligadas subtilmente e obscuramente ao valor das pessoas que ocupavam o andar. Embora João, como a grande maioria dos terrestres, trabalhasse na sua casa, mantendo-se razoavelmente alheio a essa influência, ele compreendia que, de alguma forma, era igualmente tocado. E isto não lhe agradava muito.

 

João continuou a armazenar documentos. A um certo ponto virou a cabeça para espirrar e... viu dois indivíduos que pareciam enormes morcegos, um mais claro e um mais escuro. E o espirro ficou por dar.

 

— Quem são vocês? — perguntou alarmado, levantando-se precipitadamente.

Os dois estavam à frente dele, imóveis.

— Silêncio — ordenaram eles — Senta-te.

João sentou-se e ficou imóvel, mais pela surpresa do que pelo medo, a observá-los com atenção. Eles eram mais altos e grandes do que qualquer terrestre, e pareciam seres racionais. Conversaram por um momento entre eles, numa língua desconhecida, fazendo um barulho como um ventilador que chiasse pondo-se em movimento:

Ppprrrrcccssssfffnnntttttmmmnnnntttnnntttllllgggnntttvvvvmmmssstttnnntttrrrr

Depois, um deles perguntou:

— Quem és tu?

— O meu nome é João.

— O que estás a fazer aqui? — insistiram os dois.

— Este é o meu trabalho. Pergunto o que estão a fazer vocês! — João respondeu numa voz irritada.

— Silêncio. Temos de te eliminar. — Decretaram os dois.

 

Em João a surpresa superava o medo, tanto que a única coisa que consegui dizer foi:
— Porquê?

— Lembras-te de que há algum tempo se perdeu uma nave espacial em voo do planeta X428 para o planeta Yh3 após uma aterragem de emergência em Zy18?

João era um bom arquivista, com boa memória e conseguia lembrar-se do incidente. Parecia-lhe completamente sem sentido que dois estranhos tivessem chegado tão longe do nada e se apresentassem dessa forma apenas para pedir informações sobre uma prática arquivada. Podiam simplesmente enviar-lhe uma mensagem, poupando tempo, energia e ameaças aterrorizantes.

No entanto, ele respondeu de maneira neutra, tal como óptimo profissional que era:

— Sim. Sei que foi aberta uma prática para a regularização.

Os dois observaram-no por um tempo, ameaçadoramente, ou assim julgou João, depois começaram a pressioná-lo com perguntas e pedidos de esclarecimento. Para João, ficou claro que só queriam respostas prontas, precisas e concisas e que quanto mais ele hesitasse, tanto mais ele iria irritá-los.

— Sabes também que o prejuízo não foi pago? — perguntaram os dois.

— Sim. — confirmou João — Não era indemnizável. A perda ocorreu antes do início da garantia.

— Isto é o que afirma a P.U.A., mas deves ter em conta o facto de que o navio estava a viajar num sistema com o tempo diferente do da Terra, e para determinar que o dano não era indemnizável, porque a perda ocorreu antes do início da garantia, vocês teriam de fazer a conversão do horário.

— Não compreendo. — Objectou João — Esta operação é realizada normalmente, e foi realizada, como sempre.

— Claro, mas é preciso fazê-la correctamente. — Objectaram os dois ao mesmo tempo — Neste caso, o planeta em que ocorreu o acidente é parte de um sistema cujos horários ainda não estão definitivamente codificados. A P.U.A conseguiu ter vantagem nisso, para elaborar a tese de que o prejuízo não é indemnizável, ignorando evidências claras tais como as gravações de sinais de alarme lançados a partir da nave antes de se precipitar, e captado por pelo menos cinco planetas, com horários diferentes dos da Terra, mas codificados e reconhecidos. Através deles é possível determinar, com precisão absoluta, quando o episodio ocorreu. E naquele tempo o risco estava coberto.

— E se o que vocês dizem é verdade porquê a P.U.A. não tomou em conta as evidências apresentadas? — Perguntou João.

— Para evitar uma despesa, claro. Não é a primeira vez, já sabemos isso, que a P.U.A. intenta fazer operações semelhantes, mas eles não vão acabar com esta. O Conselho do nosso planeta decidiu não o permitir.

— Vocês poderiam recorrer para o Conselho Interstelar.

— Já fizemos isso, e estamos à espera de uma decisão deles, mas, ao mesmo tempo, decidimos punir a P.U.A. destruindo a sede deles. Agora temos de eliminar-te a ti, que tentarias avisar o Centro de Vigilância, da nossa presença.

João ficou pálido, mas conseguiu controlar-se e, com o máximo de dignidade possível, propôs:

— Não façam isso! Não me matem, eu posso ajudar.

— Como julgas que podes ajudar?

— Posso fazer com que vocês obtenham a compensação para o navio perdido.  Posso autorizar a regularização, sem que ninguém se aperceba de nada. Pensem nisso, seria conveniente para vocês.

— De acordo, aceitamos. — disseram os dois ao mesmo tempo — Agora descreve com precisão e em pormenor tudo o que vai acontecer para se obter o resultado do que estás a prometer. Declara todos os gestos e movimentos que vais fazer e cuida de fazer isto com muita precisão. Se algo não corresponder vamos eliminar-te.

 

Então João explicou o procedimento com meticulosidade, enquanto os dois ouviam atentamente. Teria sido necessário ir até ao trigésimo nono andar e trabalhar a partir do computador do chefe do ramo Aeronaves, Departamento Danos, chamando o ficheiro para confirmar a ordem de pagamento. João silenciosamente esperava que isto acabasse bem para ele.

— Não te preocupes. — disse um dos dois extraterrestres - Se fizeres tudo o que disseste, não estás a correr riscos. Lembra-te de que que nós estamos aqui porque foi cometida uma injustiça contra nós. Atacar sem razão não é nosso hábito.


João experimentou uma sensação estranha. Na verdade, não foi a primeira vez que aconteceu desde que aqueles dois tinham aparecido. Sempre que olhavam para ele, parecia-lhe ser atravessado por uma onda. Era uma sensação tão subtil, vaga e nova que ele não conseguia analisá-la, menos do que nunca na condição de humor em que se encontrava naquele momento. Ele tinha mesmo a impressão de que os dois eram cegos, embora se apercebessem de qualquer coisa com precisão. Quase parecia que eles não viam com os olhos, que também tinham, mas de alguma outra forma misteriosa. Talvez ele estivesse errado, mas… lembrou-se de um velho ditado do seu avô: "Nada vem do vazio". Talvez, pensou, nem este sentimento surgisse do vazio, do nada. Em qualquer caso, não havia tempo para pensamentos desses. O facto era que os dois entendiam perfeitamente tudo o que estava a acontecer ao redor deles, e qualquer especulação era inútil.

 

Os dois extraterrestres fizeram-lhe um sinal para ele agir. João extraiu o file do arquivo e inseriu-o na memória do computador do chefe do Ramo Aeronaves, Departamento Danos. Depois, seguido pelos dois, deixou o seu escritório e dirigiu-se para a Sala dos Elevadores, uma grande sala com paredes e chão brancos. Naquele momento ele teve uma ideia: se tivessem apanhado o elevador número quarenta em vez do número trinta e nove, teriam chegado directamente à Sala de Vigilância, onde os extraterrestres teriam sido capturados. Uma boa acção, que teria impedido os dois de conseguir o que queriam, enquanto ele, graças a este acto de heroísmo, poderia obter a promoção que desejava. Esperou conseguir, o número do elevador estava gravado na placa do comando de chamada, talvez os dois não tivessem reparado em nada. João parou em frente do elevador número quarenta.

— O que está a acontecer? — perguntou um dos extraterrestres.

— Como? — João perguntou, fingindo não compreender, enquanto as suas costas eram atravessadas por um calafrio.

— Há algo errado. — Continuou o outro extraterrestre.

— Estamos no lugar errado. — Conclui o primeiro, com uma voz ameaçadora.

— Não digam disparates! — protestou João — Estamos na Sala dos Elevadores, em frente do elevador número trinta e nove, que nos levará aos escritórios do Ramo Aeronaves...

Os dois interromperam-no com uma ordem:

— Verifica o número do elevador!

João fê-lo, com a sensação de que a sua vida estava perigosamente em risco.

— Vocês estão certos — confirmou debilmente, depois de fingir verificar — estamos no lugar errado. É o número quarenta...

 

Um dos dois extraterrestres interrompeu severamente a tentativa de justificação de João:

— Continua, terrestre. Não estás a correr risco de vida, se executares exactamente o que disseste, então acalma-te. Mas lembra-te de que não deixamos passar nada. Não faças outros erros de qualquer tipo.

 

João calou-se, perguntando a si mesmo como aqueles dois tinham sido capazes de se aperceberem de algo que não era visível, porque as portas dos elevadores eram todas iguais e o número não estava escrito em nenhum lugar visível. Em qualquer caso, ele abandonou a ideia de evitar esse pagamento à P.U.A.. A sociedade tinha dinheiro, podia pagar, e talvez aqueles dois estivessem a agir no seu direito. Não era a primeira vez que João tinha visto rejeitar injustamente a regularização de um dano.

 

Chegaram ao trigésimo nono andar e as portas do elevador abriram-se, em frente de um espelho enorme. Automaticamente João observou a imagem e viu um homem jovem e bonito, com cabelos loiros e corpo atlético, a única figura que espelho reflectia. Voltou-se para atrás com um sobressalto, à procura dos morcegos com o olhar. Os dois estavam lá, a meio passo dele. João perguntou porque não tinha visto a imagem deles no espelho.

— Vai para a frente — ordenou um dos dois. Depois, com uma gargalhada infantil que parecia uma chiadeira, ele continuou:

— Não percas tempo a olhar para ti, és feio e assim vais ficar.

Essa observação irritou João. Pensou que se entre os três havia alguém que poderia ser chamado feio, certamente não era ele. Todavia, naquele momento a coisa mais importante era descobrir por que não tinha visto a imagem dos dois, que estavam ao lado dele. Mas os dois extraterrestres não lhe deram tempo para pensar.

— Depressa! — ordenaram, interrompendo as suas reflexões.

 

Chegado à mesa, João começou a operação. De repente lembrou-se de que de cada escritório poderia lançar um alarme. O sinal chegava directamente à Sala de Vigilância, da qual os guardas partiam para fazer um controle imediato. E Sala de Vigilância era apenas um andar mais acima. João pensou que talvez conseguisse, teria sido suficiente carregar numa tecla, no mesmo teclado em que estava a trabalhar.

 

— Pára! O que está a acontecer? — A voz de um dos extraterrestres paralisou-lhe os dedos.

— Calma, não está a acontecer nada. — respondeu João.

— Porque estás a agitar-te, então? — perguntou o extraterrestre.

— Não estou a agitar-me, estou agitado. — Salientou João.

— Tens de ficar agitado de maneira constante, então. — Disse um dos extraterrestres — Se tiveres um pico, eu estou autorizado a pensar que algo de anormal está a acontecer.

Um pico? João tentou adivinhar o que o morcego estava a dizer exactamente. Um pico, sim, mas um pico de quê? Depois teve uma espécie de iluminação. Talvez os dois fossem capazes de medir o seu electroencefalograma, ou até mesmo ler os seus pensamentos? Teve a desagradável sensação de que não iria participar nas próximas Festas de Primavera.

— Tu és estúpido, terrestre. Feio e estúpido. Deixa de especular e fazer tentativas para salvar a tua empresa desonesta e continua o trabalho. Faz o que disseste e vais participar nas tuas Festas de Primavera.

Os dois resmungaram entre eles, enquanto João fechou os olhos. Era assim, concluiu, lêem o pensamento! Continuou a inserir dados, resignado. Faltava pouco para acabar.

— Acabei. — disse um momento depois — Agora a regularização está autorizada e a operação é irreversível. Digam-me onde e como vocês desejam que o valor seja pago.

Os dois deram-lhe instruções e num instante tudo foi feito. João estava aliviado. A P.U.A. teria de pagar uma soma enorme, mas a vida dele estava salva.

 

De repente, ouviu-se um barulho. Certamente era uma patrulha de vigilância. João levantou-se rapidamente e dirigiu-se correndo para a saída, tal como os dois extraterrestres. Correndo desordenadamente perdeu o equilíbrio, vacilou numa tentativa de mantê-lo e, finalmente, caiu sobre os dois. Ou melhor, no chão, porque os dois tinham a consistência do ar.

 

João ficou deitado no chão. Não estava a compreender absolutamente mais nada. Aqueles dois estavam lá à frente dele, mas era como se não existissem. Com um fio de voz perguntou:

— Mas... mas... mas quem são vocês?

— Terrestre, tu és realmente estúpido. — insultaram-no os extraterrestres.

João então irritou-se.

— Já chega! Vocês ameaçaram-me de morte, forçaram-me a trair a empresa em que trabalho, e...

— Pára um momento. — responderam os dois. Eles costumavam falar juntos, de facto, mas tão em uníssono que as duas vozes se fundiam em uma — porque "forçado a trair"? Tu és que propuseste ajudar-nos a recuperar o que nos pertence. Tínhamos de recusar?

João gritou:

— E eu o que deveria ter feito, na vossa opinião?

— Deixar-te eliminar. — responderam os dois ao mesmo tempo, imperturbáveis — Desta forma terias sido fiel à tua empresa. Evidentemente não era isso o mais importante para ti. Se não tivermos entendido mal, e nós dificilmente entendemos mal, tu estás muito mais interessado em tornar-te chefe do teu departamento e participar nas Férias de Primavera. De que te queixas? Agora estás vivo, podes fazer isso. Além disso, ouve bem, e a menos que não sejas completamente estúpido, tens de entender que não cometeste nenhuma traição.

— Expliquem-se melhor. — João ordenou.

— O que terias feito se tivessem ameaçado a vida do teu amigo, aquele que ligou para ti e com quem irás cuidar das plantas, no Parque das Magnólias?

— Teria tentado impedi-lo. — respondeu com decisão João.

— De que maneira? — indagaram os dois.

— Não sei, teria tentado desarmá-los. — João respondeu, irritado com a insistência de tantas perguntas dos dois indivíduos.

— Terrestre, não estamos armados. — Observaram os dois, com uma expressão indefinível.

João olhou para eles com os olhos arregalados, reparando que realmente não estavam armados. Contudo, ele não podia acreditar nos seus olhos. Teria jurado ter visto umas armas. Queria ter tido tempo para reflectir, mas os dois extraterrestres continuaram a argumentar de maneira insistente:

— Em qualquer caso, estarias disposto a arriscar a tua vida.

— Paulo é o meu amigo mais querido! — defendeu-se João.

— E a tua amada empresa? — insinuaram os dois — Porquê não tentaste "desarmar-nos" para salvar os interesses dela?

— Não é a mesma coisa! E em qualquer caso eu tentei, mas correu mal. — João levantou novamente a voz.

— Sim, não é a mesma coisa, mas em que pensaste, realmente, em frente do elevador? Na vantagem da tua empresa ou na possibilidade de conseguir uma promoção?

João ficou em silêncio. A maneira de agir dos dois e o tom de voz deles incomodava-o enormemente, mas não conseguia encontrar as palavras para contradizê-los.

— E sabes por que ficaste tão rapidamente convencido a "trair", como dizes, a tua empresa?

João não respondeu e os dois continuaram:

— Porque sabes bem que temos razão, que a P.U.A. estava errada nesta ocasião e em muitas outras. O que temos dito confirmou o que já pensavas. Se tivesses uma opinião diferente da tua empresa, se estivesses convencido de que é irrepreensível, se tu mesmo não tivesses culpas para imputar-lhes, não terias sido tão condicionável. Terias ousado mais, como para defender a vida do teu amigo Paulo.

João seguia atentamente as argumentações dos dois extraterrestres. As palavras deles, que apenas alguns minutos antes chamava mentalmente de "monstros", inspiravam-lhe um sentido de respeito. Mesmo a palavra "morcegos" parecia apagada da mente dele.

— Por que caíste no chão em vez de caíres em cima de nós, como acreditavas? — continuaram os dois.

— Porque vocês não têm um corpo concreto. — João respondeu num sussurro.

— E por que não viste a nossa imagem no espelho, e com os teus olhos, podes ver-nos muito bem?

João lembrou-se da cena do espelho. Perguntou-se novamente por que ele não os tinha visto. Depois, como se estivesse a falar para si próprio, disse em voz alta:

— Realidade Virtual.

Falou um dos dois, o da cor mais clara:

— Sim, João, somos imagens. O meu nome é Siochain. O do meu amigo é Ceartas. Fomos projectados aqui do planeta Moraltacht com a tarefa de obter uma indemnização pela perda da nossa aeronave. Julgamos que não é justo permitir que acções ignóbeis, tais como a que a P.U.A. queria cometer contra nós, tenham sucesso. No nosso planeta há um maior grau de conhecimento e   muitos de nós, incluindo Ceartas e eu, temos poderes telepáticos.

Ao ouvir estas palavras um pensamento cruzou a mente de João.

— Não te entusiasmes, João. — exortou-o Siochain, rindo — É preciso treinar para pensar bem, e ter muita consciência para obter o privilégio da telepatia. É um poder recíproco. Agora considera isto: tu conheces bem a realidade virtual, pois os terrestres fazem grande uso dela, mesmo que de forma rudimentar. Além disso, tu ignoravas a existência de seres com a nossa aparência. Pensaste que éramos horríveis, embora, lembro-te, para os nossos cânones tu é que és horrível, mas nem por um momento nos questionaste, suspeitaste de nós. Atribuíste-nos mesmo a posse de armas, que não temos. Sabes porquê?

João não respondeu, e Siochain continuou.

— Porque "nada nasce do vazio", como dizia o teu avô, um conceito em parte para rever, mas que faz sentido. E isso significa que o pensamento de que uma injustiça já havia sido cometida já estava na tua mente, a nossa aparição captou essa ideia, tornando-a realidade. É por isso que aceitaste facilmente a nossa presença e até mesmo tiveste medo de nós. Pelo contrário, não correste nenhum perigo, João. Poderias defender a tua causa com um sopro, com uma palavra, se tivesses tido mais coragem, mais determinação, se estivesses convencido de que era uma boa causa.

Naquele momento, a patrulha de vigilância entrou na sala. Um deles exclamou:

— Ei, aqui há um fulano deitado no chão que está a falar com os seus botões!

— Está bêbado. — Acrescentou outro.

— Sim, parece que está bêbado. Nem é o único, hoje. O que vamos fazer?

 

— Deixamo-lo aqui. Não está a fazer nada de mal e vai restabelecer-se em poucas horas. Isso só significa que a P.U.A. vai pagar para ele dormir um pouco. Pode pagar, tem dinheiro.

 

Todos riram.

As duas imagens em forma de morcego ainda estavam perto da porta. Parecia que estavam a ir-se embora. João disse-lhes adeus com os olhos. Achou que depois de tudo não estavam tão mal. Talvez o quadro desse plano superior melhorasse tudo, mas agora eles não lhe pareciam nem feios nem morcegos. Na verdade, não conseguia ver nenhuma diferença entre eles e ele mesmo. Por sua parte, ele sentiu-se um pouco ridículo assim deitado no chão, mas em paz e sossego, com a estranha sensação de ter feito bem.

 

Afinal, só se tinha antecipado. Não tinha dúvidas de que o Conselho Interstelar condenaria a P.U.A. a pagar esse dano. Ele sabia que a recusa de indemnização era injustificada.

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 16:09

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Segunda-feira, 19 de Outubro de 2020

"Queimaram" a Língua Portuguesa, mas ela renascerá das cinzas…

 

Um texto repescado de 2018, apenas para lembrar que, apesar do caos linguístico instalado na oralidade e na escrita, em Portugal, nem tudo está perdido, porque queimaram a Língua Portuguesa, mas ela renascerá das cinzas…

 

NEM TUDO ESTA PERDIDO.jpg

Origem da imagem: https://pt.slideshare.net/IBMemorialJC/nem-tudo-est-perdido-75308260

 

Algures em Portugal, numa esquadra da PSP

 

Hoje, pela manhã, tive de me deslocar a uma Esquadra da PSP, para uma audiência. (Ossos do ofício).

 

Enquanto esperei para ser atendida, estive a ler os recados afixados nos quadros. Tudo escrito em boa Língua Portuguesa, com todos os cês e pês e acentos nos seus devidos lugares. Ali, ninguém para para ver o que acontece. Ali, naquela Esquadra, ninguém é tatibitate.

 

Bem… devo confessar que me senti bem dentro daquele lugar, onde a Língua Portuguesa é respeitada.

 

É que costumo ficar bastante nauseada, quando vou a um Banco, a um Hospital, a uma Escola, ao Centro de Saúde… ou a outro qualquer lugar público e me deparo com recados escritos segundo a cartilha brasileira, estando eu em Portugal.

 

Mas desta vez, não. Senti-me bem, e fui prestar as minhas declarações com boa disposição.

 

Disse o que tinha a dizer, o Chefe da PSP escreveu o relatório no computador, e tirou uma cópia para eu assinar.

 

Maravilha! Além de estar conforme o que eu acabara de declarar, encontrava-se bastante bem redigido e escrito segunda a cartilha portuguesa. Como deve ser.

 

Antes de assinar, dei os parabéns (não parabenizei, como agora andam por aí a dizer… o meu computador marca erro), dei os parabéns ao Chefe da Esquadra, e disse-lhe que ia assinar o relatório com muito prazer, porque estava escrito num Português escorreito. Dá gosto, quando assim é.

 

O Chefe sorriu ligeiramente, um sorriso que me pareceu de agrado.

 

Saí da Esquadra e, cá fora, pareceu-me Primavera!

 

O tempo, hoje, está ameno, e amena também estou eu, porque descobri que, afinal, em Portugal, nem todos são subservientes, ainda existem homens livres, ainda existe lucidez, ainda existe quem resiste, quem saiba discernir, quem saiba que Portugal é Portugal, um país europeu com uma Língua europeia. Nada de suprimir cês e pês e acentos.

 

Nem tudo está perdido.

 

Apenas as crianças portuguesas estão perdidas. E é por elas que continuaremos a resistir. A insistir. A lutar. A exigir que os governantes portugueses devolvam a Portugal a ortografia portuguesa. É que a ortografia portuguesa não é só étimo. Também é estética.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 14:35

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Quarta-feira, 14 de Outubro de 2020

Quando a “unificação” ortográfica, promovida pelo AO90, significa “cada um escrever para o seu lado”…

 

Na imagem vemos um exemplo. Mas há alguns poucos mais, no que respeita ao “acordo” ortográfico, simplesmente porque os Brasileiros pronunciam algumas consoantes, que os Portugueses não pronunciam, por exemplo: percePção, recePção, excePto, aspeCto, perspeCtiva, infeCtar (e as suas derivações) e mais umas poucas, que escaparam à mutilação levada a cabo pela Reforma de 1943, no Brasil. Porque era preciso baixar o elevadíssimo índice de analfabetismo e deslusitanizar o Português (cujo maior incentivador foi Antônio Houaiss, o homem dos dicionários e das enciclopédias). O que só por si, não dá direito a nenhum político de deformar um IDIOMA.

 

De resto, nessa mesma reforma, todas as outras palavras com consoantes   que não se pronunciavam, tais como em afeCto, direCto, faCtura, teCto, arquiteCto, baPtizado, entre centenas de outras, foram mutiladas apenas porque sim.

 

E esta filosofia de “o que não se lê, não se escreve”, herdada do Formulário Ortográfico de 1943, é que está na base do AO90.

 

INFEÇÃO.jpg

Fonte da foto:

https://www.facebook.com/photo.php?fbid=3487626911283683&set=gm.671650906824288&type=3&theater&ifg=1

 

Se fosse apenas isto!

Mas já se abordou isto milhões de vezes, ao longo destes 30 anos de duração da tal “unificação” que nunca aconteceu.

 

Nunca aconteceu, e jamais acontecerá. Mas eles insistem. Por teimosia? Não. Por ignorância? Também não. Simplesmente porque a intenção do AO90 nunca foi unificar as ortografias, até porque isso seria completamente impossível (e os que o engendraram sabiam disso) dadas as particularidades da Variante Brasileira da Língua Portuguesa em todas as suas vertentes. A intenção era, e continua a ser, acabar com a Língua Portuguesa.

 

Na Internet ela já desapareceu, como é facilmente comprovado. Mas não só.

Eis um exemplo que me deixou completamente passada.

 

CONTATO.png

 

Este é o telemóvel de um menino, que o tem exclusivamente para contaCtar os Pais e os Avós em caso de necessidade, e apenas em caso de necessidade.

 

Sim, é um menino português, que anda na escola básica a aprender os números e a ler e a escrever e a contar, e mais algumas matérias.

O menino sabe falar. E quando fala diz que tem o contaCto dos Pais e dos Avós, para casos de emergência. Anda a aprender a sua Língua Materna, já bastante mutilada. Mas sabe que se lê  e escreve contaCto, com . De repente depara com contato, lê contátu e não sabe o que isto é.

E isto é uma pouca-vergonha. O que pretendem com isto?

A rede do telemóvel é a NOS.

Dizem-me que a NOS é uma operadora portuguesa de televisão a cabo e satélite e fornece serviços de televisão, acesso à Internet, telefones fixo e móvel.

Bem, se é uma operadora portuguesa, não deveria escrever contaCto, até porque em Portugal lemos o ?

 

Aquele “criar contato” o que será? Uma afronta? Uma subserviência? Uma ignorância? Ou faz parte do plano para acabar com a Língua Portuguesa, e, para tal, contam com cúmplices por toda a parte, incluindo a cumplicidade do Chefe de Estado Português, uma vez que, por aí,  “contato” e “fato” são faCtos consumados.

 

E Marcelo Rebelo de Sousa, que deveria ser o garante da nossa IDENTIDADE, cala-se perante esta escalada de subserviência à Variante Brasileira da Língua Portuguesa.

 

Nada contra o Brasil, mas tudo por Portugal.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 19:12

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Segunda-feira, 28 de Setembro de 2020

A propósito da saga da “ILC-AO”: «Que língua aldrabada é esta [a gerada pelo AO90]?! Os responsáveis políticos e a ‘elite’ são ignorantes e não têm vergonha?!»

 

Exactamente: são ignorantes e não têm vergonha.



O título desta publicação é um excerto do comentário que Maria José Abranches (professora de Português reformada) deixou no Blogue Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico, a propósito do texto de Rui Valente, «Um Setembro Sombrio» que pode ser consultado neste link:

https://ilcao.com/2020/09/23/um-setembro-sombrio/

 

que nos dá conta dos atropelos à Lei perpetrados pela Assembleia da República, e que pode ser passível de processo judicial. Por que não? Se um cidadão comum não cumpre a Lei, é penalizado. Se o órgão maior da dita “democracia portuguesa” (?) não cumpre a Lei, quando devia dar o exemplo, faz o que bem entende, desrespeita os Portugueses, fazem-nos a todos de parvos, e não acontece nada?

 

É exactamente como diz Maria José Abranches: «Será que ninguém se apercebe dos erros linguísticos, escritos e orais, cada vez mais abundantes, que vêm infestando a nossa comunicação social? Que língua aldrabada é esta?! Os responsáveis políticos e a ‘elite’ são ignorantes e não têm vergonha?!»

 

Não, poucos são os que se apercebem. E sim, os responsáveis políticos e a “elite” são ignorantes e não têm vergonha, porque para se ter vergonha é preciso ter-se HONRA.    

 

Gandhi - tiranos derrubados.png

Quanto a mim, o que me vale, é ter esta reflexão de Gandhi sempre no meu pensamento.

 

Mas para os tiranos serem derrubados há que derrubá-los. Eles não se derrubam a si mesmos. Daí que deixe aqui um apelo (referido no comentário mais abaixo).



O texto de Rui Valente, pode ser consultado no link, referido mais acima.

 

Destacarei aqui os três comentários de três pessoas que, nas suas diferentes funções, lutam para que a grafia de 1945, a que está em vigor, porque não foi revogada, mas não é aplicada, por ignorância, regresse às escolas e as nossas crianças possam aprender a escrever correCtamente a Língua Materna, que é a Portuguesa, não é a Brasileira.


A propósito, e antes de expor os comentários, deixo aqui este à parte: num artigo, recentemente publicado no Jornal Público, sob o título «Paira um espectro sobre os amigos do acordo ortográfico — o espectro da fonética» e que pode ser consultado neste link:

https://www.publico.pt/2020/09/24/culturaipsilon/opiniao/paira-espectro-amigos-acordo-ortografico-espectro-fonetica-1932580?fbclid=IwAR17F-fMmNv4lMqA3ujYN6gWXt2sl1CBPd2BGWy9h3ZLpzPEtewfeZ32z-E

 

Nuno Pacheco, o autor do texto, diz o seguinte:

 

«O acordo ortográfico, mexendo na escrita, mexeu também na fonética. Isto já foi dito mil vezes, mas nunca é demais repetir. Escrever “fator” e pretender que se leia “fàtôr” (factor) é ilusório. Daqui a uns anos, diremos “âtor”, “dir’ção”, “obj’tivo” e disparates do género. Sim, estamos a mudar a nossa fala por causa de uma escrita aberrante que, sendo diferente da brasileira (e nunca é excessivo insistir nisto), não respeita o nosso sistema vocálico e as suas idiossincrasias.»


Não, Nuno Pacheco, a escrita imposta pelo AO90, é 99% brasileira. Refiro-me aos infinitos vocábulos mutilados, assentes na Base 4 do Formulário Ortográfico (brasileiro) de 1943, que o Brasil “adotou” (lê-se “âdutou”) depois de ter rejeitado a grafia da Convenção Ortográfica Luso-Brasileira de 1945, que inicialmente assinou. E em que consistiu essa mutilação? Em suprimir TODAS as consoantes ditas mudas, dando preferência à fonética, e não à etimologia. E dessa mutilação, fazem parte um infinito número de vocábulos: ator, direção, fator, objetivosetor, diretor, fatura, adotar, direto, atual, atividade, coleção, seleção etc., etc., etc., à excePção de uns poucos vocábulos (mais os seus derivados), nos quais os Brasileiros pronunciam as consoantes mudas, e nós não: como excePção, recePção, perspeCtiva, ifeCção, infeCtado, excePto, e uns poucos (poucos) mais  que escaparam à mutilação e que os acordistas portugueses, muito parvamente, escrevem exceção, receção, exceto, perspetiva, infeção, infetado, exceto,  gerando uns autênticos abortos ortográficos, muito, muito, muito aberrantes.


Esta escrita é aberrante, sim, em Portugal, porque a NOSSA escrita pertence a uma Língua românica, de raiz greco-latina, Indo-europeia, baseada na etimologia (como todas as restantes escritas europeias), e não na fonética.


No Brasil, as palavras que eles mutilaram, não são aberrantes para eles, porque para eles, que abrem todas as vogais, o som ficou igual. E o que o Brasil faz com a Língua que eles transformaram em outra língua, americanizando-a, castelhanizando-a, italianizando-a, afrancesando-a é problema deles e não nosso, se bem que não deviam chamar-lhe “portuguesa”, porque já se afastaram baste dela.



Em Portugal escrever ator, direção, fator, objetivosetor, diretor, fatura, adotar, direto, atual, atividade, coleção, seleção, etc., é escrever à brasileira, e aqui sim, nunca é excessivo insistir nisto, porque até uma criança, que frequenta a escola primária, e aprende outras línguas, sabe que aquele “direto”, que aparece frequentemente na tela da televisão, está escrito à brasileira, porque em Português, em Francês, em Inglês, em Castelhano, todas línguas europeias, que uns e outros aprendem, “direto” escreve-se com um cê: direCto. Sem é unicamente à brasileira. Não é à angolana, nem à moçambicana...

 

Posto isto, vamos aos comentários que podem ser lidos no original. (Os negritos são da responsabilidade da autora do Blogue)

 

3 comentários

 

    • Maria José Abranches on 24 Setembro, 2020 at 17:05

 

Nunca sequer tinha imaginado que, uma vez instaurada a democracia em Portugal, graças ao 25 de Abril, uma sustentada e criminosa vandalização da mesma democracia fosse possível, levada a cabo pela AR, a instituição mais responsável pelo respeito e defesa da mesma democracia! Eu, portuguesa e democrata, quero que fique aqui registada a minha revolta e a minha indignação!


Que, para muita da dita ‘elite’ nacional, por uma aberração incompreensível, a língua materna dos portugueses seja algo de desprezível, está patente ao longo da nossa História: basta atentar na obsessão permanente em fazer ‘acordos’ ortográficos com o Brasil, em detrimento da preocupação com a qualidade do ensino da língua no nosso sistema educativo, assim como junto das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. E mais: o que temos feito para dar a conhecer e divulgar a nossa língua na União Europeia? O que tem sido feito em termos de investimento no estudo e conhecimento do português europeu, em termos científicos e na produção de estudos linguísticos, gramáticas, dicionários, métodos para aprendizagem da língua, formação de tradutores e intérpretes, tradução automática, etc.? Será que ninguém se apercebe dos erros linguísticos, escritos e orais, cada vez mais abundantes, que vêm infestando a nossa comunicação social? Que língua aldrabada é esta?! Os responsáveis políticos e a ‘elite’ são ignorantes e não têm vergonha?!


Como há, na Europa, quem saiba o que significa a sua língua, dou a palavra a Jean d’Ormesson, da Academia Francesa, defendendo a língua francesa: «Como defenderíamos o francês fora das nossas fronteiras se não o defendemos em casa (“chez nous”)? É aqui que está o problema fundamental. A tarefa mais urgente é salvar a nossa língua do naufrágio. Desculpar-me-ão a ingenuidade da afirmação: ser francês hoje, é saber falar, escrever e compreender o francês.» (in “Saveur du temps”, 2009, Éditions Héloïse d’Ormesson, que traduzi).

 

 

 

Rui Valente, desculpe a minha ignorância, porque nestas matérias sou muito ignorante: mediante o que aqui ficou relatado, não haverá matéria para processar o Estado Português ou o Governo Português, por este atropelo à Democracia, às leis, às regras, e pelo atropelo à Língua Portuguesa? Porque isto ultrapassa todos os limites de tudo.


Eles estão nitidamente a gozar connosco. Estão a fazer-nos de parvos. Estão a desrespeitar-nos. E vamos deixar que façam isso impunemente?


Concordo com tudo o que diz a Maria José Abranches, no seu comentário, e faço minhas as palavras dela.


E é bem verdade que a tarefa mais urgente é salvar a nossa língua do naufrágio iminente, porque ela “navega” numa canoa furada, já meio submersa. Temos de fazer alguma coisa em grande, massivamente, coesamente, no nosso País, antes que se afunde de vez.

 

 

    • Isalinda Schattner on 26 Setembro, 2020 at 15:33

 

Faço minhas as palavras de Maria José Abrantes e associo-me a Isabel A. Ferreira na sua questão quanto a um possível processo contra o Estado Português. Permito-me ainda classificar a forma como este acordo foi imposto aos portugueses, como absolutamente ditatorial, pois apesar da perfeita consciência da sua não aceitação e da criação de grupos que lutam pela sua abolição, recorrendo a formas legais para o efeito, os governos e respectivas AR “chutam a bola” mutuamente de maneira a enganar vergonhosamente os cidadãos, dando-lhes a entender que estão a tratar do assunto mas que, infelizmente, não é possível um retrocesso.


Gostaria de referir que, em 1983 fui eleita presidente de uma “Associação Euro-escolas para uma formação bilingue” – grupo de 11 pais que se juntaram em Berlim para assegurar esse tipo de ensino aos filhos. Para esse fim contactámos igualmente a Vice-cônsul do Brasil – à altura Monika Salski e foram realizados igualmente contactos com Angolanos aí residentes em número muito reduzido. A escola foi inaugurada e mantém-se em actividade até aos dias de hoje com sucesso.

 

Regressada a Portugal em 1996, deixei de saber exactamente qual o português aí ensinado. Pergunto-me hoje, face à luta que tenho travado contra o entretanto imposto AO90, se tal esforço valeu a pena. O nosso propósito na altura com o contacto com o consulado do Brasil, era assegurar o quórum necessário ao ensino do português. Depois da imposição deste maldito AO90, suspeito ter contribuído involuntariamente, para ensino de qualquer coisa difusa, com o nome de português, numa escola da capital alemã. E uma enorme raiva apodera-se de mim.

 

***

Uma enorme raiva apodera-se, sim, de todos nós, Portugueses, que temos consciência de que a NOSSA Língua foi vendida ao desbarato e está a transformar-se numa linguinha que nem os semianalfabetos (os que aprenderam os rudimentos da escrita), do tempo da monarquia e da ditadura, escreviam e falavam.

 

Isabel A. Ferreira

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:37

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Sábado, 26 de Setembro de 2020

«(…) O "acordo" ortográfico, fiel servidor de interesses políticos e económicos (…) não contribui para a evolução da Língua Portuguesa»

 

«Como diz Fernando Paulo Baptista, não será fácil para um inglês ou francês, relacionar "actuality", ou "actualité" com "atualidade"... "Multiplique-se o exemplo e será possível descobrir que, afinal, o futuro está no passado, ou seja, na etimologia, naquilo que nos une, portanto", acrescentou.»

 

Um texto da Professora e Escritora  Maria João Gaspar Oliveira que evidencia o grande desconchavo que é o AO90, e que os governantes, seguindo uma política completamente irracional, continuam a impor ao nosso País, isolando-o cada vez mais, ao ponto de estarmos a regressar ao mito salazarista do “orgulhosamente sós” no erro, na estupidez, na palermice, na aplicação de um não-acordo que nenhum país da dita lusofonia está a levar a sério.  Porquê Portugal? Não será óbvio?

 

José pacheco Pereira.png

 

Por Maria João Gaspar Oliveira

 

«Sabe-se que os índices de leitura, em Portugal, ainda são muito baixos, pelo que se verifica uma grande falta de vocabulário, sobretudo nos adolescentes que, para comunicar, utilizam pouco mais que 300 palavras (há 20 anos, tinham cerca de mil...). Esta situação é preocupante, principalmente porque há uma relação estreita entre o vocabulário e o pensamento.

 

A linguagem organiza, ordena, produz o próprio pensamento. Nós pensamos com palavras, obviamente. E, não ter palavras para dizer a realidade, é como não ter conhecimento dela. Não podemos sequer dizer que conhecemos, seja o que for, se não tivermos palavras para traduzir tal conhecimento. Sem elas, o intelecto vai-se tornando cada vez mais pobre, e a liberdade do pensamento fica, seriamente, comprometida. Sem capacidade de argumentação, sem acesso à autonomia do pensar, tornamo-nos presas fáceis de qualquer ditadura fonética, política, etc....


Para cúmulo, o "acordo" ortográfico, fiel servidor de interesses políticos e económicos, impõe uma ortografia fonética das palavras em detrimento da ortografia etimológica, pelo que, não pode, de modo algum, contribuir para a evolução da Língua Portuguesa, uma língua que tem mais de 240 milhões de falantes, no mundo. Este "acordo" provoca também uma enorme confusão entre palavras distintas (retractar, por exemplo, significa, agora, tirar o retrato...), regras que se contradizem e outras que provocam dúvidas, eliminação de acentos gráficos fundamentais, alterações na maiúscula inicial, reformulação do uso do hífen que nem ao diabo lembra, caos linguístico instalado no país, nomeadamente nas escolas, onde já coexistem três grafias, pelo menos ( a do Português, a do AO90 e uma outra que dá na real gana, e onde já tudo é possível...), normas ortográficas provisórias que os alunos têm de aprender, novas regras gramaticais, inviabilização do vocabulário formado por via erudita, devido ao afastamento da etimologia, etc., etc..


Como diz Fernando Paulo Baptista, não será fácil para um inglês ou francês, relacionar "actuality", ou "actualité" com "atualidade"... "Multiplique-se o exemplo e será possível descobrir que, afinal, o futuro está no passado, ou seja, na etimologia, naquilo que nos une, portanto", acrescentou.


No entanto, este "acordo" incoerente, sem fundamento científico, e que é fruto da ignorância e da prepotência do poder político, não é propriamente um Acordo, visto que a grande maioria dos especialistas em Língua Portuguesa se opõe, assim como a maioria dos falantes do português de Portugal. A ortografia "unificada" não vai ser usada por todos os países lusófonos, incluindo Angola, que é o segundo país com maior número de falantes da nossa língua.


E, agora, interrogo-me, com uma enorme tristeza, sobre o que irá acontecer também ao rigor da língua, na reflexão filosófica e na criação literária... E, perante tal descalabro, como estimular, nos alunos, o gosto pela leitura e pela escrita? E os índices de leitura, em Portugal, não vão baixar ainda mais? Porque se insiste no erro?!


Perante tudo isto e muito mais, a revogação deste "acordo" é, absolutamente, necessária e urgente.

 

Maria João Oliveira
 

Fonte:

https://www.facebook.com/mariajoaogaspar.oliveira/posts/3284594444991132?notif_id=1600988281303494&notif_t=notify_me

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 18:35

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Segunda-feira, 3 de Agosto de 2020

«Quem acode ao “mayday” (*) do AO90?»

 

Um texto do Professor (aposentado) Manuel Alte da Veiga, de leitura absolutamente obrigatória, para se ficar com a noção do tamanho do crime que o AO90 constitui, e do qual já Vasco Graça Moura tinha dado conta. Aliás, todos os que têm um cérebro saudável e activo sabem e gritam isso mesmo. Apenas as mentes mirradas teimam no erro.

Mas fiquemos com o que nos diz Manuel Alte da Veiga.

 

Vasco Graça Moura.jpeg

 

Por Manuel Alte da Veiga

 

«Quem acode ao “mayday” (*) do AO90?»

 

«O grito até aumenta, mas parece que as pessoas andam perdidas sem saber o que fazer. O temerário voo do AO90 espalhou destroços por toda a parte. Chega-se a preferir que os gritos se cansem ou morra de tristeza e desespero quem na verdade quer alertar para essa poluente combustão sob montes de lixo, que revolta e entristece quem vê as fagulhas traiçoeiramente corrompendo a riqueza da Língua Portuguesa.

 

Faz parte do renascido movimento dos iconoclastas: contra os símbolos de importantes momentos da História, desde os mais nobres aos mais condenáveis. Capazes de destruir tanto a história de Luther King como a dos campos de concentração. Capazes de vandalizar a assombrosa obra de arte que une todas as pessoas do mundo: a linguagem.

 

Faz parte do poluente fogo lento que facilitou a Covid-19: ninguém é responsável de nada, porque se destruiu a noção de trabalho responsável – e que o trabalho de cada pessoa é sempre devedor do ambiente natural e humano que herdámos para dele cuidar.

 

Covid-19 exibiu a destruição das qualidades do ar, da terra e de tudo o que é vivente, aniquilando as forças espirituais que impulsionam e unem a Humanidade. E assim se destrói o sentido e a beleza da nossa Língua.

 

Quando a gente se submete de mão beijada, cada vez mais essa mão nos obriga a fazer assim ou assado, a falar «achim ou achado», a pagar gabinetes, material novo mas pior… de tal modo «achim» que se fica mesmo «assado»…

 

Muita gente bem-pensante condenou o AO90. Poucos se manifestaram. Podiam ao menos deixar de assinar a subserviente (vendida?) imprensa e apoiar a imprensa livre e consciente da sua função cultural.

 

Mas há quem só assine ou compre jornais e livros no Português que já era um hábito adquirido pacientemente e que foi o primeiro grande passo na alfabetização da grande maioria dos portugueses e na publicação significativa que projectou  a cultura nacional. Recorde-se, porém, que o AO45, ao preocupar-se sobretudo com uma grafia única oficial, não soube atender à dimensão cultural, histórica e racional, provocando um sério golpe na riqueza e na afinidade europeia da Língua Portuguesa – e serviu de mote aos «novos reformadores».

 

E por que é que as universidades, incluindo a católica, se apressaram a seguir uma proposta cientificamente errada e legalmente incorrecta? Por interesse de contrapartidas? Para se mostrarem aliados do Poder? Ou para atrair e facilitar o «intercâmbio cultural» especialmente com o Brasil? Ou para desculparem a ignorância dos próprios professores? Entre outros casos, lembro uma aula de Filosofia da Educação, que dava a alunos de Física e Química via Ensino: ao entrar, preparei-me para apagar o que o professor anterior tinha escrito no quadro, mas os alunos pediram para ler o que estava escrito - um ror de erros de ortografia e sintaxe.

 

O Presidente da República falou contra o irresponsável apetite de se mudar volta e meia o currículo escolar, quando não o próprio sistema educativo. Por que será que os Estados querem dominar ditatorialmente os sistemas educativos? Será por honesta defesa da cultura?

 

Também disse o nosso Presidente que o após Covid seria o tempo para mudar o que está mal. Porém, nem sequer discute o «crime cultural» provocado pelo AO90. De que tem medo? De «mais uma mudança»? Na verdade, o AO90 foi sobretudo a mortificação da vitalidade da nossa Língua e a conjunção de interesses de promoção pessoal (sem cabal justificação científica) com interesses económicos (perfeita oligocracia).

 

O Governo até podia tomar uma decisão (parece mas não é brincadeira): reconhecer que no espaço nacional (e naturalmente nos espaço lusófono, sem imposição de «acordos»), há dois principais níveis de Língua: o CULTO e o POPULAR; ou OFICIAL e COMUM. No segundo, a grafia poderia ser dupla, admitindo a omissão da primeira consoante dos grupos consonânticos PT (PÇ), CT (CÇ)… (Uma espécie de coabitação entre o Português e o Brasileiro, como acontece entre o Inglês e o Americano).

 

À medida que me pus a aprofundar a etimologia das línguas indo-europeias e particularmente da linhagem greco-latina, verifiquei que desde há séculos se dá a tendência para eliminar a primeira consoante desses grupos. Contudo, a consoante representativa do radical é justamente a primeira – pois o T apenas indica ter-se feito a derivação através do «supino», forma verbal que praticamente indica estar «feita» (supino irregular de «fazer») a acção implicada no verbo. A tendência geral parece ser a de suavizar ou eliminar as consoantes mais duras.

 

Acresce que muita gente culta ou estrangeira pronuncia, com maior ou menor ênfase, essas temerosas consoantes. Serei obrigado a deixar de pronunciar excePto, aCto, inseCto, deteCtive, eleCticidade, óPtica, deteCtar, adoPtar, espeCtáculo, entre quase a lista inteira de palavras infantilizadas? Ganhei o hábito de não pronunciar o P em óPtimo ou em recePção, mas pronuncio oPtimizar e não desejo que as recePções sejam recessões…

 

O facto de coexistirem a «língua de feirantes» (pragmática e normalmente mutável) e a «língua culta», atenta à riqueza semântica e à precisão dos conceitos e da gramática, cuja estabilidade protege a história e etimologia comum (a arqueologia cultural) da família greco-latina, é uma das razões principais para manter a grafia culta – e cultamente consciente das variantes populares e das tendências fonéticas.

 

A formação dos professores de Línguas só se revelou um sucesso naqueles que se sentiam vocacionados para tal, e, portanto, capazes de persistente esforço para que tanto a formação na especialidade como na cultura geral se enriquecesse com os condimentos de reflectida pedagogia. Os ramos educacionais afastaram-se demasiado dos departamentos ou faculdades da especialidade. O ensino da Língua Portuguesa exige que «a aula aconteça», como dizia Sebastião da Gama: o que só é possível quando se cria um ambiente de entusiasmante descoberta das suas virtualidades e segredos, entre as quais o jogo das palavras do ponto de vista fonético, morfológico e sintáctico. E sem humilhação pelos «erros»: estes dão azo a aprofundar a alma da Língua e exemplificam as tendências e virtualidades fonéticas, cuja possível diversidade exige, por motivos racionais e estéticos, a defesa dos radicais comuns. Só assim a família das palavras aponta para o conjunto das importantes experiências humanas nelas reveladas, fortificando a ideia central ou núcleo.

 

É verdade que o Brasil publica muito mais obras científicas (sobretudo traduções directamente da Língua original) e entre elas os primeiros dicionários etimológicos da Língua Portuguesa (mas tenho um dicionário que anota, no prefácio, seguir o português que é falado na região sob a influência cultural da cidade de S. Paulo…). Como grandes obras no domínio das ciências da Educação, Psicologia e Sociologia, Religião e Teologia… Se no ensino superior houvesse necessidade de uma obra alemã, teríamos que procurar a tradução no Brasil. Note-se que o Brasil pode escolher milhões entre milhões, é uma nação de influências diversas, por migração ou contágio geopolítico, além de uma cultura autóctone com riqueza cultural muito diversificada. Será que os portugueses, para se orgulharem deles, têm que passar a escrever e falar como eles, ou vice-versa? A Língua Portuguesa nasceu e continua a enriquecer-se sob a influência dominante de grandes ramos do indo-europeu e da situação geopolítica da Europa.

 

Mas nem o Houaiss («traduzido» para português por Malaca Casteleiro), nem o dicionário da Academia das Letras ou Lello ilustrado… se preocupam com uma verdadeira introdução ou prefácio sobre o fenómeno linguístico. Nos «bons» dicionários de inglês, francês, espanhol, alemão… encontramos «a alma» da respectiva língua, a sua evolução e tendências, ligação com línguas da mesma origem, etimologia com exemplos apelativos, etc. Abordam a questão dos sinónimos e antónimos, bem como a formação das palavras. Sem estas componentes, ignoramos o valor próprio de cada palavra – reflexo das referidas experiências humanas; e arriscamo-nos a usar sons como quem papagueia ou quase como irreflexo «ladrar». Por outro lado, pertence ao dicionário incluir mais do que excluir – como expressões familiares ou regionais (tá, tamém,  atão…). E porquê deixar de incluir vocábulos e locuções estrangeiras? Seremos menos dotados do que os nacionais desses países? Locuções latinas, gregas, francesas, inglesas…

 

 E porquê o belequendeque, viquingue (se até já recuperámos o k,w,y!), estoque e o disparatado mídia? Ou apresentar o vocábulo «Bus» como derivado do inglês «bus», ignorando a interessante e enriquecedora história de «omnibus» e cometendo erro científico? Outro importante porquê: em Portugal, não deveríamos exigir legendas e instruções no Português que nos compete aprofundar em vez de infantilizar?

 

A informática veio naturalmente (mas também perversamente) responder à nossa apetência pela velocidade, rapidez em ser o primeiro, a ficar-se por um simples toque ou com ícones da mais sumária simbologia, por vezes sem ar nem graça (como os ícones da Universidade do Minho, destruindo resmas de papel com o «brasão» de Braga, tão rico de simbologia e história). E quem aprecia o prazer de rever o que escreveu, atendendo à exactidão e beleza da Língua? Prevalece o mais fácil, o que não precisa de ser pensado, os likes ou cruzinhas… em total sujeição ao que um grupo de poder nos impõe – com bom senso? Honestidade? Fundamentação científica?...). Ao dactilografar, já nos é apresentada a frase mais provável. Isto é: não pense, deixe-se ir…

 

A grande revolução actual no campo da comunicação irá provocar mais desentendimentos, obscurantismo, ignorância… se não estabelecer uma base firme, assente nas «primeiras pedras» de cada cultura. Esta base é que garante a continuidade no tempo. Por outro lado, permite compreender e descobrir como tirar partido, racionalmente, dos modos tão diversos e criativos que enriquecem a comunicação. Estes modos de comunicação ainda não apareceram devidamente referidos, catalogados e explorados – e apresentados no prefácio de bons dicionários.

 

A linguagem do povo de cada nação tem que ser reconhecida oficialmente. Mas os dicionários, bem como as obras didácticas, não deveriam estar submetidos a parlamentos ou coisa do género. Quantos parlamentares estarão no hemiciclo apenas para votarem no líder ou líderes do partido? Se fossem mais cultos ou honestos, seriam perigosos para a política dominante (reproduzindo a estratégia de que é mais seguro mandar com a ignorância ou preguiça dos outros).

 

Que dizer de uma democracia não assente na cultura e honestidade de um povo? Que dificulta a criatividade e o próprio desenvolvimento económico, por meio de aberrante burocracia, manipulada educação e desconfiança de quem pensa e quer servir o maior bem geral com genuína liberdade?

 

 Manuel Alte da Veiga, Aveiro, 2 de Agosto de 2020.»

 

***

 

(*) Para quem não sabe: “mayday” é uma palavra-código para emergência. É usada em todo o mundo nas comunicações emitidas por tripulantes de aeronaves ou de navios, quando estão em situação de risco. Faz parte do Código Internacional de Sinais e do Código Fonético Internacional. 

 

Nota biográfica de Manuel Alte da Veiga

 

1- Nasceu em Mogofores (Bairrada), 4 Janeiro 1941. Casado. Três filhos.

2- Formação secundária e superior em instituições da Companhia de Jesus, tendo organizado vários eventos de índole científica e social.

3- Licenciado em Filosofia (1965) e Filosofia e Humanidades (1978).

Curso da licenciatura em Psicologia Clínica na Universidade Católica de Lovaina (Bélgica) (1972-1976), como bolseiro do Instituto de Alta Cultura.

4- Doutorado em Educação (Universidade de Aveiro, 1986), tendo preparado o doutoramento, como bolseiro, no Institute of Education da Universidade de Londres.

5- Professor Associado de nomeação definitiva, no Instituto de Educação e Psicologia da Universidade do Minho.

6- Professor Agregado em Ciências da Educação, por unanimidade, pela Universidade de Coimbra (2003).

7- Aposentado em Outubro 2005.

8- Fundou e organizou os Departamentos de Ciências de Educação das Universidades de Aveiro (1976) e Vila-Real (1988). Pertenceu à direcção e Conselho científico de dois Centros de Formação de Professores e de outros Institutos Superiores. Formador de Professores em exercício. Pertenceu à direcção de Associações de Pais e de sindicatos de professores, colaborando desde 1976. Várias vezes director de departamentos de Educação/Pedagogia (5 anos em Aveiro, 3 anos na UTAD e 5 anos em Braga).

9- Prática em Jardins de Infância, Ensino Básico e Secundário, tendo leccionado Português, História, Psicologia, Filosofia, Latim e Grego. No Ensino Superior, leccionou várias disciplinas no domínio da pedagogia, psicologia e filosofia. Responsável de História e Filosofia da Educação e do mestrado em Filosofia da Educação, orientando várias teses de mestrado e doutoramento (sobretudo na Universidade do Minho, 1990-2005).

10- Formador (registo CCPFC/RFO-09853/00) em Educação Comparada, Filosofia da Educação, Educação e Valores, Educação Multicultural.

11- Desde a aposentação, colabora com várias universidades e institutos superiores (públicos e particulares) e mantém a actividade científica.

12- Foi Bolseiro do Instituto de Alta Cultura, da Direcção Geral do Ensino Superior, da Fundação C. Gulbenkian, do Instituto Nacional de Investigação Científica, Erasmus e Instituto de Inovação Educacional (na Bélgica, UK, Alemanha, Dinamarca, EUA).

13- Membro de várias sociedades científicas, nomeadamente Philosophy of Education Society of Great Britain (1982 - primeiro membro português).

14- Trabalhos científicos publicados em revistas diversas (particularmente na Revista Portuguesa de Pedagogia Revista Portuguesa de Filosofia); conferencista no país e no estrangeiro; colaborador em programas radiofónicos e em jornais.

15- No Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea (Academia das Ciências de Lisboa e Editorial Verbo, 2001), é citado diversas vezes, pelo menos nos seguintes vocábulos: alienar, catequese, compreensivo, despotismo, educação, ética, ético, finito, fundamentar, marxista, recusa, religião, religioso, rito.

No Dicionário de Filosofia da Educação (cord. Adalberto Dias de Carvalho, Porto Editora, 2006), artigos Obediência e Educação, Professor (perfil ético).

 

16. LIVROS PUBLICADOS:

Filosofia da Educação e Aporias da Religião. Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1988 (esgotado).

Vida, Violência, Escola, Família, Braga: APPACDM, 1998. (3ª ed. em 2003)

Um Perfil Ético para Educadores. Viseu: Palimage, 2004.

Obediência como matriz da autoridade. Porto: Estratégias Criativas. 2008.

Um Critério para a educação? Covilhã: Universidade da Beira Interior,  www.lusosofia.net 2009.

 

17. OUTRA COLABORAÇÃO:

17.1. Liturgia Pagã – um programa desde 1999, primeiramente publicado semanalmente no Correio do Minho e actualmente lançado no site Aveiro e Cultura. Procure no Google ou no seguinte endereço:

http://www.prof2000.pt/users/avcultur/altedaveiga/litpag000.htm

Neste endereço, encontram-se outros trabalhos e informações, nomeadamente:

Lições de Filosofia de Educação. Braga, 2009.

17.2. A árvore de Zaqueu, publicado na secção de «Espiritualidade» do Correio do Vouga.

 

Ver também:

«Mayday Mayday AO90!»

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 14:52

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Sexta-feira, 24 de Julho de 2020

«Este acordo [AO90] é vergonhoso para Portugal»

 

«A imprensa internacional noticiou este acordo, como sendo a primeira vez na História em que a outrora colónia (Brasil) de Portugal é que determina como se vai escrever português no presente e no futuro. Este acordo é vergonhoso para Portugal.» (Carlos Mota)

 

Vem isto a propósito de um artigo publicado no Diário de Notícias, há cerca de duas semanas, intitulado «Angola e o Acordo Ortográfico», da autoria de João Melo, jornalista e escritor angolano, e que pode ser consultado neste link:

https://www.dn.pt/edicao-do-dia/11-jul-2020/angola-e-o-acordo-ortografico-12411257.html?target=conteudo_fechado

 

Um texto escrito em acordês, a apelar para a consagração do AO90, que, como todos sabem, só favorece a ex-colónia do Brasil, atirando para o charco a nossa Língua Portuguesa.

 

Tal texto gerou indignação entre os que se recusam a ser enganados, e a levar gato por lebre. É o resultado dessa indignação, em forma de comentários, que aqui transcrevo.

 

Mark Twain.jpg

 

Carlos Mota

 

Santa ignorância do autor deste artigo! Citando o dito cujo: "os números mostram, desde logo, que o Brasil fez mais concessões do que Portugal no que concerne ao novo Acordo Ortográfico". Mostre-nos lá esses números!


É preciso não conhecer nada do AO para produzir semelhante aberração. A única concessão que o Brasil fez foi no trema e nem sequer se pode falar de uma concessão, pois acho que a maioria dos portugueses não se importavam que os brasileiros continuassem a usar o trema. As concessões foram todas de Portugal!


A imprensa internacional noticiou este acordo, como sendo a primeira vez na História em que a outrora colónia (Brasil) de Portugal é que determina como se vai escrever português no presente e no futuro. Este acordo é vergonhoso para Portugal.


E os PALOP nem sequer foram ouvidos na redacção do AO, sendo completamente ignorados. Este "acordo" apenas serve ao Brasil, pois não muda nada na norma brasileira do português.


Este "Aborto Ortográfico" não serviu para mais nada excepto para vender mais papel, que constituiu a principal razão para a sua criação: satisfazer o lobby da indústria gráfica e livreira, pois de um momento para o outro as pessoas foram a correr comprar novos dicionários. A outra razão foi satisfazer os caprichos dos idiotas que o redigiram.


Como Português e Angolano deixo aqui o meu elogio a Angola por se recusar a ratificar o "Aborto Ortográfico".

 

*

 

Manuel Rodrigues

 

O texto, tal como o AO, parte de um pressuposto errado e acientífico: o de que é possível unificar a grafia do português a partir da fonética. Com efeito, as variações fonéticas do português falado nos vários países (e mesmo dentro de um país tão pequeno como Portugal) são de tal ordem que a aplicação desse princípio só pode produzir o efeito contrário do pretendido. Tal aconteceu com a norma portuguesa, onde ocorrem grafias que se afastam da brasileira e das dos outros países falantes do português - e, o que é bem pior, do bom senso. Veja-se o caso de palavras como "receção", "conceção", "perceção" e outras que tais.


Para além disso, faz uma afirmação que está longe de corresponder à verdade: a de que o Brasil fez mais concessões. Os estudos mostram exactamente o contrário. Finalmente, apoia-se num mito, o de que a unificação facilitaria a circulação internacional do português. O inglês mostra que tal não passa de um mito.


Finalmente: ao ratificar o AO, que norma irá seguir Angola? A portuguesa ou a brasileira? Como irá escrever as palavras transcritas acima entre aspas? À portuguesa ou à brasileira?

 

*

 

Isabel A. Ferreira

 

 

O autor deste artigo que me desculpe a sinceridade, mas demonstra uma gigantesca IGNORÂNCIA sobre o que é uma Língua e a sua funcionalidade.

 

Demonstra, aliás, uma grande ignorância sobre tudo o que diz respeito ao acordo ortográfico de 1990.

 

Estará a soldo dos que querem destruir a Língua Portuguesa, e substituí-la pela variante brasileira ( = dialecto oriundo do Português)?

 

 

Que vergonha! E diz-se jornalista e escritor angolano, "dir'tôr" de uma revista.

 

Aconselho-o a ir estudar Língua Portuguesa e a sua já longa história, para não vir a público esparramar tantas ignorâncias e tantas inverdades!

 

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 15:49

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Quarta-feira, 22 de Julho de 2020

AO90: «Como conclusão temos um pretenso acordo entre oito países em que só dois levam a sério, outros dois não ratificam e os restantes "estão-se borrifando"…

 

«Parabéns. Este escrito devia ser de leitura obrigatória no início das sessões da Assembleia da República». (Diamantino Correia)

 

Faço minhas as palavras de Diamantino Correia, com uma observação: será que na Assembleia da República existe alguém que tenha a capacidade de entender o que o nosso amigo Luís Filipe Pimentel Costa escreve?  Digo isto porque há vários anos o AO90 é amplamente contestado pelos mais ilustres intelectuais, juristas, escritores, jornalistas (poucos, mas bons) de todos os países lusófonos, e os nossos deputados da Nação ainda não conseguiram entender que o AO90 é uma perfeita idiotice (coisa única em todo o mundo) que um grupo de idiotas implementou e ainda mantém, insistindo num erro que custará muito caro a Portugal. 

 

Vejamos o que Luís Filipe Pimentel Costa tem para nos dizer a este respeito.

 

Isabel A. Ferreira

 

Luís Leitão.png

Olavo de Carvalho.jpg

 

Por Luis Filipe Pimentel Costa

 

 

UMA HISTÓRIA DA CAROCHINHA


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Em tempos idos a escrita era restrita a uma elite de copistas, normalmente monges, que copiavam documentos.
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Com o tempo, os nobres aprenderam a ler e a escrever.
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Havia divergências de escrita, mesmo dentro da mesma língua e do mesmo povo.
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Com o surgimento das universidades e a escolaridade obrigatória a escrita estendeu-se ao cidadão comum, verificando-se uma necessidade de uniformização da escrita. Esta uniformização era feita a nível académico por pessoas entendidas no assunto, que, mais do que impor normas, procuravam acompanhar as evoluções naturais da língua, enquadrando-a na sua realidade.
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Até aqui as coisas caminharam dentro duma mínima normalidade e assertividade.
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Cedo, no entanto, os donos dos povos, antes ainda com os nobres e mais ainda com o surgimento dos políticos, se acharam no direito de mandar também na língua.
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Assim surgiram normas, algumas através de acordos. Chegámos assim ao Acordo Ortográfico entre Portugal e o Brasil, numa vã, ilusória e utópica tentativa de uniformizar a língua portuguesa entre os dois países. Em Portugal esse acordo foi legalizado com o Decreto-lei n.º 35 228, de 8 de Dezembro de 1945.
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Na altura ainda faltavam 12 anos para eu nascer, pelo que pouco sei sobre o mesmo. Tenho, no entanto, na ideia que este acordo foi elaborado com cuidados mínimos, por forma a respeitar minimamente a língua portuguesa. O certo é que quando nasci estava este acordo em vigor e legalizado com o referido Decreto-lei.
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Mais do que até então, na indústria livreira, foi reacesa a ilusão utópica de fazer o irrealizável e impraticável, uniformizar a língua portuguesa, não vendo ou não querendo ver ou ainda não tendo capacidade para ver que as diferenças entre os dois países, o português e o português do Brasil, se colocam, mais do que a nível da ortografia, a nível vocabular, pelo que uma obra dum país, para ser editada no outro país, ou mantém a escrita original, o que eu considero mais correcto, ou tem sempre que ter adaptações, porque, em Portugal sempre será um autocarro, enquanto que no Brasil sempre será um
ônibus, tal como em Moçambique e em Angola será um machimbombo.
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O certo é que um grupo de interesseiros da indústria livreira pretendeu fazê-lo. Precisavam, no entanto de cativar os donos dos países, os políticos, pelo que lançaram em Portugal o fantasma de que, a nível internacional, o português do Brasil iria substituir o português, por força dos números que se traduzem na força financeira. No Brasil lançaram a "cenoura-isco" de que uniformizando o português com a sua variante brasileira traria vantagens a nível internacional o que se traduziria em vantagens financeiras.
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Basearam-se em duas premissas irrealizáveis. A primeira foi quererem igualar a oralidade à escrita, o que não é possível, devido à imensa variedade nas pronúncias, mesmo dentro do mesmo país. Para isto cortaram umas letras e hífens e acentos. Isto veio contra a sua segunda premissa, que seria igualar a escrita nos dois países e que se confirmou também impossível de realizar, porque, por força da primeira premissa criou variantes entre os dois países, pelo que uma pretensa unificação se traduziria em formas diversas de escrita nos dois países.
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Para os políticos justificarem a sua concordância tiveram que incluir os restantes países que adoptaram a língua portuguesa como língua oficial.
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Toda esta salganhada teve os seguintes resultados.
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1) A igualdade entre pronúncia e escrita confirmou-se irrealizada e irrealizável.
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2) A uniformização entre a escrita nos dois países confirmou-se irrealizada, criando, com excepções e duplas grafias, várias variantes mais da escrita. O português, que muitos portugueses continuam a fazer questão de utilizar; o português do Brasil, que muitos brasileiros fazem questão de continuar a utilizar; mais o malaquês, que é a forma que Portugal adoptou, do ao90 (agressor ortográfico de 1990), mais a versão do mesmo ao90 que o Brasil pretende adoptar, e mais ainda as infinitas variantes das enormes confusões que diariamente se verificam, nos mais diversos meios, públicos e privados, e mais ainda outras tantas variantes daqueles que começaram a recuperar formas antigas de escrever, como o caso do uso do trema.
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3) Entrou-se numa ilegalidade, pelo menos em Portugal, visto que o Decreto-lei em vigor é e continua a ser o de 1945, porque um Decreto-lei só pode ser revogado ou alterado por outro Decreto-lei ou diploma legal de valor superior, o que, tanto quanto eu tenha conhecimento não aconteceu, e nem poderia acontecer, pelo menos em Portugal, por forças legais que têm que ver com o ponto seguinte.
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4) O que se pretendia, um acordo entre 8 países, resultou no seguinte:
a) Dos 8 países só dois estão a, ditatorialmente, e, pelo menos em Portugal, ilegalmente a impor a sua utilização, Brasil e Portugal,
b) Pelo menos dois dos oito países não ratificou o pretenso acordo, Angola e Moçambique, e tudo indica que o não irão ratificar, visto já há muito ter passado os 6 (seis) anos que foram considerados para tal acontecer,
c) Os outros 4 países não o aplicam nem mostram que o venham a aplicar.
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Como conclusão temos um pretenso acordo entre 8 países em que só dois levam a sério, outros dois não ratificam e os restantes "estão-se borrifando".


Por força deste desacordo no pretenso acordo, em Portugal não é possível legalizá-lo, devido a imposições legais, nomeadamente da Constituição da República Portuguesa, pelo que,
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5) Uma norma governamental impôs, abusivamente, a sua utilização no funcionalismo público e empresas sob a alçada dos políticos, não tendo força de lei, mantendo-se assim em vigor o decreto-lei de 1945.
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6) Usando este estratagema os políticos portugueses violam os direitos cívicos dos cidadãos impondo, ditatorial e abusivamente uma escrita errada e ilegal no ensino, forçando a que, mediante o uso da força de uma ilegalidade e por força do cansaço e subjugação se venha a tornar de uso corrente algo que, repito, é ilegal

 

Fonte:

https://www.facebook.com/pimentelcosta/posts/3489741847737409

 

publicado por Isabel A. Ferreira às 14:48

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