Nestes anos, nada melhorou na dita “nova ortografia”. Considerá-la “boa” é o mesmo que tomar um remédio tóxico só para cumprir a receita.

Ainda a ortografia, ou uma lança romana na aldeia gaulesa
Após uma ausência de duas semanas, não contava voltar tão depressa ao tema, embora tivessem ficado pendentes, fruto de crónicas anteriores, dois esclarecimentos necessários. Porém, a estreia em texto do novo provedor do Leitor do PÚBLICO, João Garcia, fez-me mudar de ideias. Quis o provedor (cuja estreia no cargo saúdo, sem animosidade) começar por um tema que o incomoda neste jornal, “o desrespeito pelo Acordo Ortográfico de 1990, tornado obrigatório há dez anos para os documentos oficiais e para o ensino”, orgulhando-se, mais adiante, de ser uma pessoa que “respeita as normas vigentes nesta matéria”, ou não viesse ele de órgãos de comunicação que aderiram alegremente ao dito acordo logo nos seus alvores, como o Expresso e depois a Visão.
Não é apenas uma constatação ou um reparo, é também uma advertência professoral: «Um jornal de grande difusão não pode ser escrito de forma que seria censurada, por excesso de erros, numa prova de Português do 4.º ano de escolaridade.» Porquê? Porque, “no PÚBLICO, é possível ler na mesma página ‘sector’ no texto do jornalista e setor num texto de opinião que o acompanha. As duas grafias são aceites, mas a incoerência permanece.” Por fim: «A redação deveria adaptar-se às novas grafias, e seria aliás muito útil que o Livro de Estilo do PÚBLICO fixasse a forma de escrever das palavras para as quais o acordo estabelece opções diferentes: setor e sector, espetador e espectador, receção e recepção, suntuoso e sumptuoso, entre outras mais. Perante esta liberalidade, a uniformização ortográfica seria essencial se algum dia se vier a esgotar, como espera o provedor, a poção mágica e as legiões do pró-acordo consigam invadir a redação.»
O texto, intitulado “Um provedor infiltrado na aldeia de Astérix” (e que, mantendo a analogia, não passa de lança romana em aldeia gaulesa), podia ter sido útil se o seu autor se tivesse dado ao trabalho de analisar friamente o que está em causa. Até porque João Garcia afirma que pretende ser um provedor “que possa ser útil com os seus contributos”. Contudo, não cita um único dos pretensos malefícios, para este jornal, do continuado uso da ortografia anterior ao acordo de 1990, a par da liberdade concedida a colunistas e autores de artigos de opinião para optarem pela ortografia que entendam. Para isso lá está, na barra da página de abertura dos textos de opinião a seguinte frase, que é inequívoca: “A opinião publicada no jornal respeita a norma ortográfica escolhida pelos autores”. Só não lê quem não quiser ler. Quanto aos “malefícios”, basta ver a (muito boa) posição do jornal no panorama geral da imprensa, bem como os muitos prémios que tem recebido (só em 2025, como recordou Bárbara Reis numa crónica recente, somou mais umas dezenas), o que é bastante estranho num jornal «escrito de forma que seria censurada, por excesso de erros, numa prova de Português do 4.º ano de escolaridade».
O PÚBLICO e o acordo ortográfico (AO90) são velhos “companheiros de estrada”, embora por vias paralelas. Viram ambos a luz do dia em 1990. Mas enquanto o PÚBLICO fez um percurso do qual, embora com vários tropeções e escolhos, se pôde sempre orgulhar, o AO90 só à custa de um truque baixo conseguiu impor-se a partir de 2009, após um segundo protocolo modificativo (de 2004) permitir a sua entrada em vigor com a ratificação de apenas três países em vez dos oito obrigatórios, contrariando a Convenção de Viena que Portugal ratificou em 2004. Só isto bastaria para não falar do AO90 como “norma vigente”, antes como norma artificialmente imposta.
João Garcia espanta-se com a incoerência, no PÚBLICO, de ter “sector” e “setor” numa mesma página, mas se neste jornal essa distinção se faz claramente entre textos noticiosos e de opinião, noutros a confusão é generalizada, como provam centenas de exemplos que têm vindo a público. Até mesmo no acordista Expresso, que na última edição (de 2 de Janeiro) tinha seis colunistas a escrever “de acordo com a antiga ortografia”: Miguel Sousa Tavares, Pedro Mexia, Ricardo Araújo Pereira, Rodrigo Guedes de Carvalho, Manuela Ferreira Leite e Pedro Gomes Sanches.
Isto para não falar já de documentos oficiais, como os orçamentos do Estado, onde a miscelânea de ortografias é total desde que o AO90 se impôs (como explicou neste jornal Francisco Miguel Valada) ou dos livros que pretendem fixar a “nova norma”, como prova um extenso estudo do linguista Rui Miguel Duarte, datado de 2013, numa análise comparativa de muitas dezenas de palavras em dicionários, vocabulários e no próprio AO. Doze anos depois, nada disto melhorou. A proposta do novo provedor equivale a tomar um remédio tóxico só para cumprir a receita.
Fonte: https://www.publico.pt/2026/01/08/opiniao/opiniao/ortografia-lanca-romana-aldeia-gaulesa-2160182
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Alguns comentários feitos a este texto, publicado, no PÚBLICO:






«Acho o AO90 uma máquina de fomentar erros, de criar aberrações e instaurar o caos ortográfico […]. Quando os seguidores e legitimadores deste acordo instaurado por errados e perniciosos cálculos políticos recuam perante algumas das suas regras mais pitorescas […], então é caso para perguntar o que se passa com a monstruosa criatura que não é respeitada nem sequer por quem lhe quer bem. Devo confessar que às vezes até tenho pena do enjeitado, embora não hesitasse em infligir-lhe o golpe de misericórdia.»
António Guerreiro, Cronista e Crítico Literário
«O Acordo Ortográfico é uma das coisas que mais abastardaram a língua portuguesa nos últimos anos, e sobre o qual ninguém se pronuncia. São todos muito patriotas, têm todos Portugal e a bandeirinha na cabeça e no corpo, mas coisas que efectivamente atentaram contra a nossa identidade, que depende em muitos aspectos da língua, ninguém liga nenhuma. O Acordo Ortográfico mantém-se, em grande parte, por inércia, não é porque haja muitos defensores. A maioria das pessoas que escreve bem português não escreve naquela coisa.»
José Pacheco Pereira no programa "O Princípio da Incerteza" 11/02/2024
«A coisa foi caindo no esquecimento, embora muitos jornais e revistas tenham decidido adoptar a coisa, que era uma maneira de ir impondo a coisa, em jeito de dose maciça a ver se nos habituamos. A verdade, sejamos claros, é que nunca nos habituámos. E a coisa é confusa mesmo para professores que têm de pregar o Acordo Ortográfico às criancinhas […]. Nunca escrevi segundo o Acordo, porque estou contra, […] sobretudo por isso, por me parecer uma imposição sem grandes bases de verdadeira discussão pública, uma coisa acelerada, precipitada.»
Rodrigo Guedes de Carvalho, Jornalista e Escritor
«Prescinde-se, quer do acento agudo, quer do circunflexo, para distinguir palavras paroxítonas que, tendo respectivamente vogal tónica/tônica aberta ou fechada, são homógrafas de palavras proclíticas. Assim, deixam de se distinguir pelo acento gráfico: para (á), flexão de parar, e para, preposição; pela(s) (é), substantivo e flexão de pelar, e pela(s), combinação de per e la(s); pelo (é), flexão de pelar, pelo(s) (é), substantivo ou combinação de per e lo(s); polo(s) (ó), substantivo, e polo(s), combinação antiga e popular de por e lo(s); etc.»
Ponto 9 da Base IX do Acordo Ortográfico de 1990
Quando se olha com alguma atenção para a linguagem que por aí vai circulando, à boleia do AO90, uma das situações que nos salta à vista é a da confusão entre pára (forma verbal) e para (preposição). Os bonzos do AO90, enquanto assobiam para o lado, costumam afirmar que o contexto é sempre esclarecedor. Parafraseando um dos mais famosos debates da história da democracia portuguesa, apetece dizer-lhes: — Olhe que não, olhe que não…
Para ilustrar a nossa opinião, incluímos uma recolha de títulos, em vários órgãos da comunicação social, nos quais não é clara a classe gramatical do vocábulo para. Consequentemente, ninguém sabe como pronunciar essa palavra. Abrindo ou fechando a primeira vogal?
Vejamos, então, o resultado do nosso trabalho de pesquisa: a) Razão para ida ao cinema. b) Sobreprocura para pedopsiquiatria. c) A chegada de Ronaldo para o jogo com o Benfica. d) Horta para o estágio. e) Ritual indonésio para a chuva. f) Estudo para protecção das dunas. g) Ninguém para Portugal. h) Ninguém para o Benfica. i) Ninguém para a juventude do Brasil. j) Médio livre para as águias. k) Certificado digital ou teste negativo para acesso a restaurantes. l) Uma ligação para a vida. m) Mulher de Cabrita para a supervisão dos transportes. n) Ricardo Horta para a história. o) Modric para a história. p) Tudo para o Bessa. q) Para já, o estado de emergência não avança. r) Aliança mundial para a vacina? s) Jesus para três épocas? t) Escutismo, de onde e para onde. u) Bilhete para o clássico. v) Sterling com entrada 'assassina' sobre Dele Alli e Mourinho reage em bom português: «Para o car****, pá! w) Mariano Díaz para o ataque do Benfica. x) Palco para Díaz. y) Carro de vogal para as modalidades com vidro partido. z) Benfica demasiado forte para Braga. a’) Aviso para Páscoa. b’) Defesa reforçada para FCPorto. c’) Mercado ferve: Salin ruma a França, João Félix para quarta-feira e Benfica contrata brasileiro. d’) Penálti para o Vizela.
Como vê, caro leitor, nas imagens que acompanham este escrito, muitas vezes a única solução viável, quer nas notícias sobre os futebolistas Evanílson ou Zaidu, quer na imagem televisiva, é acentuar a forma verbal, diferenciando-a da preposição. Isto é, estes órgãos dizem aplicar o AO90, mas fazem-no parcelarmente, considerando-o assim um instrumento defeituoso.
Ah, e como se lê mais neste exemplo?
O comboio deslizou lentamente pelos carris.
— Para o comboio! — gritou o chefe da estação.
O chefe da estação ordena que as pessoas entrem no comboio ou manda parar esse mesmo comboio?
Ah, pois é. Como escrevemos no mês passado, dispensar os neurónios dá mau resultado.
João Esperança Barroca



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